Burnintown

1 Capítulo 1 - Mudanças


Notas iniciais
Uma mansão passada de geração em geração numa cidade pacata muda a vida de três Nova-iorquinos, o que será que esconde o aparentemente inofensivo local e seus habitantes?

Burningtown, novembro de 1894:

As lágrimas escorriam pelo seu rosto, mas ela sabia que não poderia parar, a cena de sua amiga sendo amarrada por caçadores ainda estava fresca em sua mente nem mesmo seus pés descalços em uma mata densa faziam-na esquecer dos doces olhos desesperados de Valerie, seu único instinto no momento era correr o mais rápido possível enquanto lutava contra as lágrimas e o vento cortante, seus dedos se estreitavam contra o grande livro que carregava com tanta valência.

Um solavanco a colocou em cima de uma sela e ali ela reconheceu Magno ainda que em vestes semelhantes aos caçadores, sentia o peito apertar, porém, ele lhe trouxe uma certa segurança assim que passou o braço em sua cintura enquanto cavalgavam o mais rápido possível dali.

Alguns instantes depois chegam à mansão Orlov, Magno a pega pelo braço e adentra a residência praticamente correndo no escuro silencioso, até que se encontravam na passagem da biblioteca situada atrás da estante de livros, ambos descem as escadas e finalmente chegam ofegantes ao porão.

Elishab se desfez do livro jogando-o abruptamente para o canto da lareira e mais que depressa desferiu um tapa na cara de Magno:

— O que você está fazendo – indagou Magno espantado pelo tapa.

— Valerie! Porque você não a ajudou? – Disse Elishab descontrolada e assustada.

— Eu estava salvando a sua pele! Eu não consegui chegar cedo o bastante para evitar a tragédia sem comprometer a todos! – Disse Magno em um tom de voz elevado.

Burnintown, outubro de 2017.

— Vamos manter a estrutura da escadaria original. – Disse Victória enquanto caminhava pelo grande salão.

— Definitivamente não iremos restaurar esses painéis. – Analisava Mason ao examinar todo o revestimento da velha mansão.

Enquanto os irmãos analisavam o trabalho que teriam para restaurar a velha mansão herdada de sua tia-avó, Luna sua melhor amiga e parceira de negócios caminhava com uma certa familiaridade no local onde nunca pisara antes.

— Lu? Você ouviu o que eu disse? – Indagou Victória.

— Me desculpa estou meia aérea hoje, gente vocês estão com uma sensação de déjà-vu?

— Lá vem a sensitiva. – Brincou Mason.

— Deixa de pegar no pé dela Mason. – Falou Victoria em tom repreensivo.

— Eu sei que você não me leva a sério Mason, mas vocês sabem que sou sensitiva, eu sempre acerto em minhas previsões – Falou em tom de brincadeira.

— Depois daquele 7x1 da copa de 2014 eu nunca mais duvidei de ti — falou Victória em tom convencido.

Apesar do clima descontraído os três tinham muito trabalho a fazer durante aquela tarde. Os irmãos Victoria e Mason eram arquitetos respeitados, apesar do pouco tempo de graduação, ambos cresceram ao lado de seu pai o famoso Francis Belfin, viúvo e fundador da Belfin arquitetura.

Luna por sua vez conheceu os gêmeos durante sua graduação em arquitetura na Columbia University, porém seu pai já conhecia o velho Francis de longa data pois era um dos advogados da Belfin arquitetura.

No decorrer dos dias a velha mansão se tornava algo moderno e sofisticado sem perder a elegância original, Burningtown já não era uma cidadezinha estranha para aqueles Três Nova-iorquinos. Ao fim de mais um dia supervisionando a reforma os três pegam a estrada para chegar a tempo em Nova York onde Robert namorado de Victoria organizava um jantar em sua cobertura.

Victoria alta e com seus longos cabelos ruivos se encontrava parada em frente ao espelho dando os últimos retoques em sua maquiagem, avermelhava seus lábios carnudos que contrastava com seu vestido preto generosamente justo com uma fenda na lateral do comprimento do joelho até a altura da coxa direita. De repente Luna entra no cômodo e passa chave na porta, trazendo em uma das mãos uma taça de vinho branco e com um nítido entusiasmo em seu rosto dizendo:

— Vick, você acredita mesmo que esse evento todo é um para o aniversário do Robert? Ou será que o pedido de casamento sai hoje?

— Sinceramente, eu acredito que já está na hora de darmos o próximo passo após cinco anos de namoro. Só espero que você encontre seu par antes da cerimônia para eu poder jogar o buquê. – Respondeu Victória em um tom de entusiasmo.

Dando um Generoso gole em seu vinho Luna nega com a cabeça e logo diz:

— Eu ainda tenho muito que fazer da minha vida profissional e descobrir antes porque Burnintown chama tanto a minha atenção.

Duas batidas na porta interrompem a conversa:

— Garotas espero que vocês já estejam prontas porque o Robert acabou de me ligar para perguntar se estamos chegando. – Disse Mason em tom impaciente.

Ambas pegam suas bolsas e saem do cômodo, Luna na oportunidade com seus olhos verdes claros penetrantes chega bem próximo a Mason lhe entrega a taça de vinho e ajeita sua gravata sem sequer cortar contato visual, Mason deu um passo para trás sentindo seu corpo enrijecer com seu toque, inebriado pelo cheiro de seu perfume e confuso pois nunca havia sentido essa sensação de proximidade antes entre os dois.

Chegando ao jantar havia uma grande mesa na área interna e a cobertura em sua parte externa estava toda decorada com uma luminosidade elegante feita por várias velas, o clima era íntimo e sofisticado, logo Victória foi recebida por seu namorado que lhe deu um beijo tímido e cumprimentou os outros. Francis se encontrava na sala de estar com os pais de Robert em uma agradável conversa e ao fundo ouvia-se um suave toque instrumental de garota de Ipanema.

O jantar ocorreu maravilhosamente bem, Mason recorrentemente olhava para Luna que sentava do outro lado da mesa, ele a observava distraída trazendo a taça em seus lábios e como o tom de seu vestido verde contrastava com sua pele morena, ela por sua vez divertia-se com essas olhadas furtivas e sempre ajeitava seu cabelo deixando seu pescoço e decote mais expostos.

Ao final do jantar todos conversavam, foi nesse momento que Robert se levanta e segue em direção a Valerie, ajoelhando-se aos seus pés e tirando uma caixinha vermelha aveludada de seu bolso. Estendendo sua mão e se fazendo audível ele diz:

— Victória meu amor, aceita ser minha companheira e melhor amiga pelo resto de nossas vidas? – Disse Robert abrindo a caixinha e exibindo o anel de ouro branco com uma pedra de água marinha e diamantes.

Apesar do esperado pedido um surpreendente silêncio ecoou pela sala, Victória corre seus olhos rapidamente para todos ali principalmente para sua amiga que faz um gesto de assentir com a cabeça. Ela então com borboletas no estômago se levanta e responde:

— É claro que eu aceito meu amor!

Todos brindam a felicidade dos noivos. Após o brinde, felicitações e despedidas restaram apenas os quatro amigos que não largavam suas taças de champanhe.

— Vick só espero do fundo do meu coração que não aconteça igual ao incidente do balanço. – Falou Mason já alterado pelo álcool.

— Que incidente do balanço? – Questionou Robert.

— Quando éramos crianças Vick caiu do balanço na escola e eu a vi caindo minutos antes.

— E depois a mãe diná sou eu? – Indagou Luna em gargalhadas, levemente alterada pelo álcool.

— Realmente, para o seu bem irmão essas esquisitices de gêmeos ficaram na infância, iria ficar muito preocupada com possibilidade de você poder ver alguns momentos, bom digamos que Robert estaria em apuros. – Disse Victoria entre risos fazendo todos gargalharem com a situação.

Não demorou muito todos se despediram e foram embora.