Cheguei na sala e Bruno estava sentado no sofá com os olhos fechados e a cabeça jogada pra trás. Eu pensei que talvez ele pudesse estar com raiva de mim por causa do pequeno escândalo que fiz, então cheguei com calma.

—Bruno? — falei.

Ele meio que se assustou, porque não havia percebido minha presença. Ele abriu a boca pra falar algo, mas eu logo interrompi.

—Olha, desculpa, ta? -falei — Eu sei que eu não devia ter reagido daquele jeito, eu nem tenho esse direito. Mas, Bruno, eu me sinto agora meio trocado, ouvindo você falar que quer casar e essas coisas. Eu sei, é idiota e com certeza gay. Mas você praticamente me criou, e... eu não sei, acho que eu só tive a reação de uma criança mimada. Contando que você esteja feliz, e ela também, então pra mim tudo bem.

E ele parou por alguns segundos e aí me abraçou e eu estava com vontade de chorar.

—Você ainda vai ter muitos sobrinhos melequentos por aí te chamando de Tio Charlie. — Bruno disse, e eu ri. Nos afastamos e então ele ficou sério.

—Mas no fundo, você tem um pouco de razão. Eu vou deixar essa aliança aqui guardada, e vou esperar um pouco pra pedir, Natasha me disse que seria melhor. Então é pra vocês dois guardarem segredo, ouviu?

—Ta bom. — falei. — Ela nunca saberá.

—Cade a Natasha?

—Lá no meu quarto, vendo TV.

—Pede pra ela guardar segredo também.

—Vou pedir. — falei e saí, subindo as escadas. Quando eu entrei no quarto, me surpreendi em encontrar Natasha deitada na minha cama, enrolada no cobertor e completamente adormecida. Eu ri, considerando ela estar fingindo, mas mesmo assim cheguei perto, deitei do lado dela e ela se agarrou em mim. E nós dormimos ali por algum tempo.

Acordei com ela sentada do meu lado passando a mão no meu cabelo, e Natasha sorriu quando viu eu acordar.

Ela me deu um beijo no rosto e disse "Eu estava esperando você acordar pra poder me despedir. Tchau, Charlie, vou pra casa. " , sorriu pra mim e então saiu andando.

Eu teria protestado mas estava tão sonolento que demorei alguns minutos pra processar o que tinha acontecido.

Eu levantei e desci as escadas percebendo que já estava de noite. Bruno dormia jogado no sofa e tinha uma caixa do lado com alguns pedaços de pizza. Tentei acordar ele, mas ele só murmurou umas coisas sem sentido e voltou a dormir. Eu peguei a pizza e esquentei pra poder comer. Sentei no chão, já que Bruno estava no sofá, e fiquei vendo TV por um longo tempo. Como dormi metade do dia, estava sem sono, então quando fui perceber já eram 3 da manhã. Subi as escadas meio tropeçando, a visão embaçada por causa do sono. Deitei na cama e percebi que ainda dava pra sentir o cheiro de Natasha, era uma sensação extraordinariamente boa, eu só queria ficar ali, deitado, sentindo o cheiro dela. E aí eu dormi.

Acordei com Bruno me sacudindo pra lá e pra cá, gritando pra eu acordar. Minha cabeça doía.

—Não me faça ir pegar as panelas pra fazer barulho. — ele alertou.

—Bruno?

—Hum?

—Eu to com uma puta dor de cabeça, não vou pra escola.

Ele me observou.

—Você ta mentindo.

E então olhou de novo e disse:

—Ah, que se dane! Volta a dormir.

Eu caí no sono quase instantaneamente.

"Charlie. " Natasha sussurrou. "Charlie, acorda. "

"Hmmmmmm. " resmunguei, virando.

—Acorda.

E eu estava fazendo o maior drama, apesar de a dor já ter passado. Alguns minutos depois, ela parou de me chamar.

Natasha abriu a cortina, puxou minha coberta e jogou uma pilha de roupas em cima de mim.

—Sua roupa ta ai. Se arruma que eu to te esperando lá na porta, deixa o drama pra depois.

E aí ela saiu do quarto, batendo a porta e rindo.

Demorou alguns minutos pra eu ter coragem de levantar , me vestir e ir ao encontro dela.

Quando desci pra sala, Bruno e Jake jogavam videogame sentados no sofá, e Natasha estava sentada na mesa da cozinha me olhando.

—Jake. — falei. E ele se limitou a me olhar e sorrir e depois voltar a atenção pro jogo.

Sentei do lado se Natasha na mesa.

—Você me disse que ia estar lá fora.

—Eu tava exagerando pra você vir logo. Eu fiz seu café.

—Natasha, você fazendo algo legal?

—Vai se foder, Charlie. — ela riu.

Depois que eu comi enquanto eu e Natasha conversávamos tentando abafar as merdas que Jake e Bruno falavam, ela sugeriu de nós irmos pra praça, não a da frente da minha cabeça, mas a que ficava depois da escola.

—Fazer o que lá?

Ela revirou os olhos.

—Ficar lá, só isso. Como um casal normal faria.

Havia um brilho perverso no olhar dela.

—Tem algo errado aí. — sussurrei. Natasha riu.

—Vamos.

E então fomos andando. A praça ficava um pouco depois da escola, por isso fizemos o mesmo conhecido caminho que fazíamos todo dia. Só que, depois da escola, ao invés de virar no caminho da praça, Natasha me puxou pro outro lado.

—Na, a praça é pro outro lado.

Ela arqueou as sobrancelhas.

—Me chamou de que?

—Na?

—Não gostei.

—Eu só queria te dar um apelido, posso não?

Natasha bufou.

—Ta, pode. Mas prefiro Nat. E a gente vai pra esse lado mesmo.

—Por quê?

—Você não achou que a gente fosse mesmo pra praça ficar que nem dois idiotas se agarrando, né?

—Mas você disse...

— Era pra te convencer. Vem.

E me puxou pelo braço. A rua em que estávamos seguindo não era lá muito bonita, tinha um prédio comercial, um terreno vazio e conforme fomos andando tinha uma casa com placa de venda.

—A gente vai invadir uma casa. — ela me informou.

Eu me engasguei.

—Oi?

— Invadir essa casa. Ela está abandonada, ué.

—Ela está á venda, não abandonada.

—Mesma coisa.

—É crime.

—Ah, querido Charlie, você ainda não entendeu que namorar comigo pode ser perigoso judicialmente, não é? — e piscou. Meu coração acelerou, o que me fez rir.

Natasha foi andando devagar até a casa abandonada, com um andar sexy que fez eu me perguntar se era de propósito. Fui atrás dela e então, quando chegou perto do muro, que era baixo o suficiente pra ser pulado, ela olhou pra mim e sorriu insolentemente, e ai, com um impulso forte com as mãos, pulou e se arremessou para o outro lado do muro, caindo abaixada e perfeitamente posicionada, o que obviamente não deu muito certo comigo: eu pulei perfeitamente porém me caí bem feio do outro lado, por cima do braço.

—AI! — gritei.

Por alguns segundos, Natasha parecia extremamente atenciosa, me levantando e vendo se tinha algo de errado.

A casa era grande, e o quintal maior ainda, ocupando quase metade da rua, árvores grandes cobriam todo o terreno, fazendo ficar bem mais escuro aqui do que realmente estava. A atenção de Natasha se voltou pra alguma outra coisa, ela foi andando até a porta da grande casa e empurrou a porta forçando a maçaneta, e depois se jogando contra ela.

"Droga!" Ela disse e começou a revirar o chão coberto de folhas.

—O que você ta procurando? — perguntei

—Um arame. Pra abrir a porta.

—Mas...?

Ela encontrou um pequeno pedaço de arame e fez um sinal de "espera" com a mão.

Depois de alguns minutos fuçando a fechadura com o arame, a porta rangeu e abriu quando ela empurrou um pouco.

—Eu não vim até aqui pra não ver essa casa por dentro. — e sorriu.

—Natasha?

— O que?

— A gente vai entrar nesse monte de poeira em forma de casa?

—Vai.

E dessa vez, eu resolvi ir na frente, entrando devagar, imediatamente me engasgando com a poeira no ar, e ela também. Depois de alguns segundos, quando nos acostumamos, eu consegui reparar na casa.

Móveis antigos, como se eu tivesse entrado em um filme de época, tinha alguns quadros de paisagens em uma parede, uma mesa empoeirada e do outro lado tinha uma TV antiga em frente a um sofá. Tinha apenas uma saída da enorme sala, que era um corredor dando em portas para os outros cômodos.

Natasha andou até o sofá e sentou lá, agora olhando para a televisão, como se estivesse assistindo algo. Eu a observei por alguns segundos então andei até ela.

Fui andando devagar porém, quando cheguei perto, ela se levantou e para minha surpresa, começou a me beijar loucamente. Ela passou a mão pelos meus cabelos, e eu a puxei pela cintura bem forte. Natasha me mordeu e eu ri, ela passou uma perna ao meu redor e depois pulou no meu colo, e aquilo era muito muito bom.

"Será que tem uma cama aqui? " sussurrei. "Vamos descobrir. "

E então fomos, eu levando ela no colo, até o primeiro cômodo, rindo quando encontramos uma biblioteca, e então transamos ali mesmo. E depois transamos em cada canto empoeirado daquela casa, e foi bom como nunca tinha sido antes, nuvens de prazer tomando lugar das nuvens de poeira que um dia existiram lá.

E algum tempo depois, já com roupas, o fogo de tudo aquilo ainda queimando dentro de mim, eu simplesmente levei Natasha pra fora da casa e ficamos na esquina daquela rua sem saída nos beijando por um longo tempo.

Foi o máximo de tempo que ficamos sem falar absolutamente nada, mas quando fomos pra casa, umas sete da noite, não tinha ninguém além de nós dois, então desabamos no sofá e dormimos, eu deitado e ela em cima de mim.

No meio da noite, eu acordei, e mexi um pouco com ela.

—Natasha? Psiiu.

Ela balançou um pouco a cabeça e abriu devagar os olhos.

—Hum?

—Eu te amo. — falei, baixinho.

—Eu também, Charlie.

E então ela dormiu.

Notas finais
Um capítulo mais quente porque sim