Burning High
18 s02e10 - Se a vida é uma música, eu sou DJ e amor é o ritmo
Eu agora era capaz de ouvir e até de sentir tudo ao meu redor, enquanto o árbitro da partida conferia minhas habilidades de continuar lutando. Ainda ouvia Adrian e Christian em um canto, claramente dizendo coisas como fazer ela deitar, bater pra valer e não desistir. Suas vozes eram claras como se viesse separadas até meu ouvido. O burburinho dos restantes ainda me era estranho, embora eu os ouvisse, como milhares de vozes, não tinham importância. Alguns gritavam pedindo por cerveja, outros torcendo, e talvez alguns até apostando. Ainda sentia luzes girando em meus olhos e o que estava acontecendo parecia em câmera lenta, a minha frente a adversária que pulava de um lado para o outro, pronta para recomeçar.
Atrás dela estava Dimitri, agarrado as cordas. Suas mãos claramente estavam pressionando a borda do ringue com força exagerada, e embora agora estivesse em silêncio, era como se ele falasse comigo da maneira mais eloquente até aquele momento. Sua expressão era de alguém que estava prestes a pular dentro do ringue por conta própria, sem se preocupar com a outra lutadora ou o árbitro. Não poderíamos deixar isso acontecer, não é Camarada? Ainda tenho uma luta pra ganhar e um russo pra impressionar.
Com um aceno de cabeça indiquei para ele que estava bem, e relaxando na extremidade sem nada mais a dizer, ele me observava com mais calma, sua frieza rotineira e um brilho que entregava sua admiração naquele momento, ele provavelmente se via ali comigo, participando da luta, dando cada soco junto comigo.
Eu precisava continuar, lutar até o fim, e de preferência que termine com a contagem no nocaute da outra lutadora.
“Por mim, Pelo Quartel… Por Mason.” -Foi meu último devaneio quando o árbitro ergueu a mão indicando que a luta recomeçaria, e nossos passos já ensaiados se repetiam. Ela aproveitava de sua envergadura para manter distância, testando seu alcance com jabs aqui e ali, mas não arriscando chegar perto para que eu encaixasse um uppercut. Pelo visto ela também havia feito o dever de casa e de alguma maneira conseguido informações sobre meu treinamento.
Era difícil dizer quem era o ativo e quem era o reflexo, repetíamos o movimento uma da outra com uma sincronia que não permitia falha em nenhum dos lados. Estávamos vestidas ambos com calções compridos e soltos que iam abaixo do joelho, cada uma com uma seleção de cores brilhantes na roupa. Ela usava capacete e luvas vermelhas enquanto eu trajava protetores azuis.
Eu calçava Chucks azuis enquanto ela bailava pelo chão de tecido com tênis próprios de boxe brancos, movendo os pés com habilidade e precisão, mas isso também servia a meu favor, eu podia notar seus blefes e os detalhes que entregavam suas intenções ao se aproximar ou girar. Meu cabelo estava preso em um rabo-de-cavalo que saltava para fora dos buracos do meu capacete e balançava conforme meu movimento, metade cachos já molhados e pesados pelo suor, enquanto o cabelo de minha adversária parecia curto o suficiente para que apenas a pressão do capacete o mantivesse no lugar.
Por ser menor, eu aproveitava da distância que ela mesma impôs na luta, usando do tempo dela se movimentar para atacar, para estudar e calcular seu tempo. A esquiva era a opção para a maioria dos casos, mas eu mantinha ambas as mãos erguida em guarda protegendo minha cabeça, encarando com total atenção a sua respiração, ao brilho de seus olhos e os micromúsculos faciais que antecipavam um ataque.
Lembrava-me claramente do quarto treino com Dimitri, onde ele finalmente havia posto os protetores e fizemos sparring por quase três horas.
“Espere sua adversária agir, Rose. Ela pode ter a vantagem da força, mas você terá a velocidade e a reação. Espere ela abrir a guarda, e encaixe seu uppercut sem perdão. Ela vai cair, pode ter certeza.
Vence quem souber dar o último golpe, não o primeiro. Espere pelo seu momento e a faça dançar conforme a sua música”. Tudo isso enquanto ele me acertada de todos os lados na cabeça e me deixava tonta com seus socos rápidos. Eu tinha certeza que ele estava realizando um grande esforço para conter seu físico, e que poderia me nocautear quando quisesse para provar um ponto.
Agora, entre a euforia da torcida e o silêncio de Dimitri, eu assistia a mulher a minha frente. Deu um passo para o lado, e a assisti se mover também, me reposicionei, e ela endireitou sua coluna uma fração de tempo para ficar de frente para mim e não abrir a guarda.
Agora era eu quem comandaria a música, sem ela nem notar, eu tomaria o palco de maestro, e ela dançaria conforme minha vontade, como Dimitri indicou.
Depois de mais alguns segundos mudando de posição e aguardando que ela atirasse o primeiro soco, o momento veio.
Seus olhos brilharam de antecipação e ela sugou ar com força pelas narinas já que sua boca estava obstruída pelo protetor bucal. Eu sabia que aqueles eram sinais de que ela iria se aproximar para um jab, que provavelmente seguiria por outro jab ou um cruzado, da mesma maneira que ela me nocauteou. Isso a tornara confiante e descuidada.
Seu braço veio em minha direção em velocidade impressionante, mas eu já estava esperando pelo movimento e eu girei a cabeça para o lado direito apenas o suficiente para que sua mão passasse raspando pela lateral de minha cabeça, arranhando o plástico de meu capacete. Sua guarda estaria aberta por uma fração, e eu precisava fazer o tempo valer a pena. Com minha posição eu já estava pronta para dar meu contra-ataque enquanto ela ainda se ocupada em recolher seu braço. Meu corpo deu meio passo a frente, meus joelhos se dobraram levemente me deixando próxima da lutadora e nível abaixo de sua cabeça, para golpear de baixo para cima.
Embora naquele momento eu não pudesse notá-lo, Dimitri sorria orgulhoso no canto do ringue, sabendo o que estaria por vir e que eu seguia a risca suas instruções.
Atingi seu queixo em cheio sentindo o impacto reverberar em meus dedos e passando para meu braço. Sua cabeça se ergueu com o soco e ela perdeu o equilíbrio e o movimento. Era o momento.
Um novo passo e um soco em seu estômago a fez se curvar para frente agora, totalmente incapaz de erguer os braços para se proteger de um novo uppercut, que jogou sua cabeça para trás com um crack. Ela cambaleou meio passo para trás até perder completamente o equilíbrio e se chocar contra as cordas limitando a área de luta. Ela escorregou sentada ao chão enquanto o árbitro iniciava a contagem e conferia suas condições. Seus olhos giravam sem parar nas órbitas e eu observava o desfecho a distância. No número 4 o árbitro indicou que a garota não tinha condições de continuar lutando devido sua incapacidade de lucidez, e chamou os médicos para atender a mulher. Ele ergueu meu braço me indicando como vencedora da disputa, e a torcida explodiu em aplausos, gritos e parabenizações. Não pude deixar de sorrir e aproveitar o momento, onde conhecidos e estranhos me encaravam enquanto eu procurava Dimitri sem sucesso.
– Rose! — Pude ouvir Adrian, e ao me virar ele estava lá com um sorriso gigante que eu nunca havia visto antes, seu olhar havia recuperado uma parte de seu brilho natural, e parecia que suas esmeraldas haviam retornado a vida. Ao menos alguém ficou para o final.
Ele pisava nas cordas baixas e erguia a de cima criando espaço para que eu saísse do ringue sem esforço. Assim que meus pés alcançaram o chão de parquê do salão e bar, seus braços me envolveram e me ergueram do chão por vários segundos.
– Ai, ai, Wow, Adrian, assim eu quebro o resto que tá inteiro no meu corpo… — Ele me pôs de volta ainda me sorrindo com o mesmo sorriso doce e de menino que acabou ponto um sorriso igual na minha cara. Ele soltou o elástico do capacete e o puxou da minha cabeça, deixando-me com um emaranhado de suor e cabelos grudados na testa, mas ele parecia não dar a mínima.
– Certo, certo, temos que dar uma olhada nessa sua cabecinha. Não podemos correr o risco de você ficar mais louca do que já é.
Passar pelo mar de pessoas foi mais difícil que antes, mas aos poucos eles abriam espaço para nós, nos cumprimentando e erguendo seus copos de plástico com cerveja a nos parabenizar.
No vestiário outro homem já estava ali, sentado sob o banco se preparando, aparentemente seria sua a próxima na luta.
Com um aceno de cabeça, ele me reconheceu.
– Hathaway, boa luta lá fora.
Eu correspondi o aceno da cabeça e continuei seguindo Adrian que me puxava até uma mesa de massagem, onde um atendente já aguardava para me dar um checkup.
– Não tem desculpa Rose, deixe ele te examinar, e depois estará liberada para comemorar com muita cerveja.
Assim após ter minha cabeça girava em vários ângulos, luz posta contra meus olhos, e um breve teste cognitivo, o doutor me liberou dizendo para não exagerar e em caso de tontura ou mal estar ir direto para o pronto atendimento. Coisa de médico, eu apenas respondi com um girar dos olhos e pulei da maca, pegando um casaco para cobrir meu corpo suado, e me colocando a desenrolar as mãos da atadura. Tendo apenas uma pia com banheiro na sala VIP transformada em vestiário, tive que fazer o melhor lavando o rosto e tentando ajeitar o cabelo de maneira que não pareça que eu acabei de sair de uma noite alucinada. Hum… Falando em noite alucinada, o que será que o Russo foi fazer? Talvez Kirova… Bleh. O que ele viu naquela Mortícia Adams?
Quando saí da sala de volta ao salão onde uma breve pausa se fazia para o próximo duelo, fui atacada por uma nova pessoa, muito mais baixa, magra, e loira do que Adrian.
– Rose!! Você foi demais. Quase enfartei quando caiu, eu queria entrar lá e dar uns tabefes na mulher! Mas você se saiu bem, se reergueu como uma diva!
Lissa estava pendurada em meu pescoço, ao mesmo tempo que tentava equilibrar não um, mas dois copos de cerveja. Obviamente que não funcionara e senti o líquido gelado cair sob minhas pernas, ainda vestindo apenas o calção da luta.
– Lissa, eu estou cansada, dolorida e terrível, não posso ficar.
– Ah, mas vai. Ao menos até uma de nós estiver caindo, aí a outra terá que carregar… — Se bem conheço Lissa, a que cairá é ela, e quem carregará, sou eu.
Sem muita escolha e realmente não querendo abandonar a diversão tao cedo, aceitei o copo e fui com Lissa para a mesa onde Christian e Adrian já estavam, conversando e bebendo longe da principal aglomeração.
– Rose, parabéns, quase conseguiu não apanhar. Vamos esperar que os golpes ajudem a melhorar essa sua aparência de cara amassada. — Ele sorriu zombeteiro como era de seu costume, e já estávamos novamente na nossa relação rotineira de gato e rato.
– Você secretamente me inveja, Garoto Tocha, queria ter meu rostinho. — Ele nada respondeu, e a conversa se seguiu sobre banalidades, entre indas e vindas de garrafas de cerveja.
Todas as lutas já haviam acontecido e aos poucos o local esvaziada, permanecendo os mais jovens e inconsequentes, que agora dançavam com as músicas que ecoavam das várias caixas de sons espalhadas pela construções.
Lissa como previsto já estava alterada e arrastara Christian para dançar com ela no meio dos demais ocupantes do bar. O pobre coitado não sabia onde por as mãos ou o que fazer com uma Lissa alucinada.
Não tardou para que Adrian me puxasse pela mão e insistisse em uma dança “de saidera”. Eu não estava nem de perto como Lissa, tendo consumido apenas dois copos de cerveja e um de tequila com limão, enquanto Lissa não parara no quarto. Mas eu estava solta o suficiente para me permitir aquela pequena liberdade.
A música se tornou uma batida rápida e forte, envolvente, e logo senti as mãos de Adrian, atrás de mim. Nós movíamos os quadris em sincronia enquanto eu fazia o que imaginava ser uma dança interessante esticando minhas mãos por cima de minha cabeça segurando a nuca de Adrian, sentindo seu cabelo curto e espetado roçar em meus dedos. Me pergunto como seria passar as mãos pelo cabelo do Russo, e puxar os fios que parecem tao macios e sedosos.
Esse pensamento pareceu atrair minha atenção para o meu redor. Estava até então de olhos fechados apenas ouvindo a música e sentindo meu corpo e de Adrian aproveitando o momento.
Quando abri os olhos, encarava a minha frente o pequeno bar onde um barman esfregava um pano em copos, e sentado ali, estava ele.
De volta a sua postura superior e seu mau humor rotineiro, que eu podia sentir mesmo da distância. Sentado sob um dos bancos da ilha do bar, ele tinha um corpo com um resto de líquido marrom sem gelo em sua mão direita. Provavelmente whisky.
Seus olhos estavam mais escuros e profundos do que pensei jamais ter visto, e totalmente focados nos meus olhos. Eu sentia as ondas de calor que saíam de seu corpo como se fossem reais e físicas, me atingindo com força e me esquentando em lugares improváveis. Apenas com um olhar ele era capaz de ter meu corpo a sua mercê, e isso me assustava como nada na minha vida. Nem nos treinos de rapel eu me sentia perdida, indefesa e com medo, como eu me sentia sendo alvo da atenção desse Russo. Medo do que eu seria capaz de fazer para ter essa atenção só para mim mais intimamente. Medo do que ele seria capaz de fazer comigo neste estado, eu com certeza me perderia nele, e eu não sabia se conseguiria encontrar o caminho de volta.
Quando a terceira música acabou, Adrian sussurrou em meu ouvido sobre precisar de um momento e um novo drinque, o deixei se separar e se dirigir para o banheiro masculino.
Quando meus olhos voltaram para o bar, nenhum sinal de Dimitri nem por perto. A sua habilidade de sumir diante de meus olhos estava começando a me irritar, a única prova de que ele realmente esteve ali em um copo abandonado no balcão ainda com resquícios da bebida.
Um segundo depois senti alguém puxando meu braço, de maneira lenta e sutil, mas não menos firme e decidida. Quando girei a cabeça para encarar o cara muito morto que estava tentando me agarrar, me deparei com o peito do moreno alto que eu estava encarando antes no bar. Seu perfume continuava o mesmo. Loção pós barba, menta com algo amadeirado. E eu cheguei a conclusão que o cheiro era viciante, e eu já era sua vítima.
Tentei plantar o pé no lugar, e como ele não estava querendo parecer um bruto me arrastando a força, ele parou e me encarou, tinha tanto calor e algo mais, fúria naquele olhar, que me peguei sem palavras pelo primeiro momento.
– O que está fazendo? — Pude me recuperar quando ele olhou para os lados, conferindo se nossa troca estava chamando a atenção dos outros. Estávamos seguros por enquanto.
– O que parece que estou fazendo? Estou te levando pra casa, Roza.
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Jab
Um soco direto e rápido dado com o braço da frente na guarda. É considerado um golpe fraco, geralmente usado para testar distância e alcance com o alvo, como abrir uma sequencia de golpes.
Uppercut
Golpe dado se mantendo abaixo da linha do queixo do adversário e acertando um soco de baixo para cima visando acertar o queixo.
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Nome do Cap inspirado na Música "God is a DJ" da Pink
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