Burning High
4 s01e04 - Brincando com fogo
Notas iniciais
O despertador trepidava na minha mesa de cabeceira enquanto eu recuperava os sentidos e tentava me localizar no que estava acontecendo ao meu redor. Quando meu cérebro finalmente se conectou de maneira funcional, dei um urro e com o braço esquerdo golpeei o aparelho fazendo com que caísse ao chão, e finalmente o silêncio retornasse ao meu quarto. Urgh, mais um turno na estação. Seria meu terceiro dia lá, e eu já não mais me surpreendia em como um trabalho poderia ser tão tedioso e cansativo, tudo ao mesmo tempo. Não havíamos recebido nenhuma chamada até agora, e eu continuava com as tarefas domésticas assumindo o papel de mãe dos bombeiros da base.
Rolei-me na cama novamente ficando agora de barriga para baixo, o edredom colorido escondendo completamente meu pequeno corpo, e o breu do local me embalando novamente para o sono sem sonhos. Estava alcanço-o novamente quando a porta se abriu fazendo com que um filete de luz batalhasse contra o escuro do quarto, e um cheiro de café novo me envolvesse de maneira sórdida. Ah, Lissa, minha rocha. Sabia como me atrair para fora dos cobertores, a desgramada.
– Levanta, Rose, você não quer se atrasar, de novo, não é?
Tudo que eu pude produzir foi um som animalesco enquanto minha mente já não mais se encontrava relaxada o suficiente para voltar a dormir. Ela estava certa, eu não poderia perder o horário. De novo. Meu corpo se negava a se acostumar com meus novos horários de serviço, levantando de madrugada e trabalhando por 24 horas. Tínhamos permissão para descansar e usar os dormitórios quando necessitávamos dormir, obviamente, pois no nosso serviço era inadmissível estarmos cansados ou despreparados fisicamente. O problema era que uma emergência poderia ocorrer a qualquer momento, e precisávamos estar prontos para pularmos para dentro das roupas e correr até o caminhão, independente do que estaríamos fazendo antes. E todo esse “estado de emergência” havia mantido minha mente alerta e na velocidade máxima, incapaz de descansar, preocupando-se com o próximo minuto ser aquele em que a campainha de chamado toque. Mesmo dormindo lá eu sonhava com uma chamada, e acordava assustada a cada cinco minutos. O resultado agora estava na minha cama: uma Rose totalmente mal humorada e incapaz de sustentar a bunda acima das pernas.
– Rose! Levanta esse traseiro! AGORA!
Lissa gritou da sala, adivinhando minha mente, como sempre. Assustava-me ainda hoje com a maneira como éramos conectadas de maneira que uma entendia a outra sem a necessidade de uma palavra.
Sem escapatória, arrastei meu corpo ainda enrolado a coberta para o banheiro que dividíamos entre nossos quartos, deixando com que a água quente ligasse totalmente meu sistema nervoso e ele entendesse que era hora de trabalhar. Eu havia tentado dormir cedo já a tarde do dia anterior, mas ainda era incapaz de agir naturalmente com os horários confusos do meu serviço.
Quando apareci já vestida na sala de estar que dividia a área com a cozinha aberta, Lissa estava colocando um prato com já duas torradas prontas, ainda saindo fumaça das fatias tostadas, da maneira como eu adorava.
Os dias anteriores haviam esquentado. Mas apenas o suficiente para derreter o gelo e neve das ruas mergulhando a cidade em lama e limo. Uma armadilha especialmente aguardando por mim.
Por causa disso estava envolvida em roupas grossas e mais me parecia um esquimó, com calça negra de várias camadas, uma jaqueta de couro preta um tanto maior que o meu corpo para permitir um casaco de moletom com capuz cinza, e para proteger meus pés, e botas Timberlands vermelhas. Nesse clima usar sapatos ou tênis seria suicídio.
Sem maior cerimônia eu me sentei ao banco elevado do balcão e encarei minha colega de quarto enquanto ela enxia uma xícara com o café passado a maneira antiga, sem máquinas. Ela sempre pôs sua desaprovação em minhas vestimentas, mas eu era um bombeiro em fim-de-mundo-Montana. Ela esperava que eu arrebentasse em salto alto? Aparentemente sim, observando como ela havia se vestido para me levar ao trabalho. Parecia ter saído de um catálogo de moda. Bleh.
O cheiro da bebida me envolveu novamente, e assim que a cafeína correu pela minha garganta como se na verdade estivesse se fundindo ao sangue em minhas veias, eu me senti realmente capaz de ir para o trabalho.
Eu já disse que eu amava essa menina? Pois eu a amo. Mesmo depois de anos separadas, nossa amizade retornou a cumplicidade de antigamente no mesmo dia que voltamos a nos ver, e ela me conhecia melhor que ninguém, assim como eu a conhecia como a mim mesma. Seu esforço em acompanhar meu horário louco de serviço não passou despercebido, ela acordava comigo toda madrugada para dirigir até o meu local de trabalho, e voltar para dormir. E, mais uma vez, ela pegou meu pensamento da minha cabeça como se fosse algo que ela realmente conseguisse ver.
– Sabe, não quero que pense que estou me negando a te ajudar...
Eu passava margarina sob o pão quente deixando que derretesse, enquanto erguia meus olhos para encontrar os dela e a indicar para que continuasse, enquanto enfiava a fatia na boca, gerando sons de “crunch, crunch” mastigando a comida seca que se esfarelava, do jeito que eu adorava.
– Seria bom se você conseguisse um veículo para si mesma. Ter a mobilidade e independência... Não estou me negando em te dar carona, mas você ficaria na mão quando eu estivesse por aí com o carro...
Ela procurou se explicar a fim de amansar o assunto que tratava, mas era desnecessário, eu não estava braba com aquilo, pelo contrário, eu mesma já havia tido aquela solução.
– Você tem razão, eu já pensei nisso, me sinto horrível te fazendo acordar para me dirigir até a estação... – Falei após terminar de engolir a torrada com ajuda de um novo gole de café.
– É melhor irmos... – Falei erguendo o pulso analisando o que os ponteiros do relógio me indicavam. Franzi a testa e Liss imediatamente notou. – Ué, meu relógio parece ter parado... – Sacudi o punho de um lado para o outro para avaliar o objeto, que me dizia que era uma hora mais cedo do que deveria.
– Eu adiantei uma hora o seu despertador...
Lissa falou rapidamente tomando um pequeno gole da própria xícara, e eu lhe ralhei no mesmo instante, exasperada. – Liss!
– Não fique braba comigo! Era a única maneira de te dar uma chance de tomar um café adequado e não sair correndo...
Ela tinha razão nisso. Graças a sua malcriação, agora eu poderia comer a segunda torrada que ela havia preparado, e que já havia esfriado.
Continuamos conversando levemente sobre a situação de me comprar um veículo. Um carro seria caro e uma grande responsabilidade já que eu estava apenas como cadete, com um salário que não me permitia dívidas longas e comprometimentos desnecessários. Já havia me acostumado com a ideia de dirigir uma moto, mais econômica, prática e obviamente de acordo com meu estilo rebelde e jovem. Eu só tinha 21 anos afinal. Lissa, por outro lado, discordava em mim em todos os pontos e insistia no perigo de dirigir uma motocicleta. Como se o trânsito na cidade fosse um ringue de luta. Eu ainda me pegava imaginando que qualquer dia veria uma carroça passando pela rua.
Sem alcançarmos um ponto comum no quesito de comprar um carro, nosso assunto mudou para a casa de bombeiros e como estava sendo a experiência.
– Ainda me sinto deslocada lá. Metade não fala comigo, e a outra metade me trata como uma intrusa...
Resmunguei enquanto conferia pela terceira vez todo o conteúdo na minha bolsa de ginástica.
– Isso é normal, Rose... Você acabou de chegar. Uma mulher, jovem, que ninguém conhece... Eles já trabalham juntos há mais tempo, comem juntos, se divertem juntos, e enfrentam a morte juntos... Vai demorar para você entrar no círculo de confiança deles...
– Tá bom, Gandhi. Mas agora precisamos realmente ir. Vai ser bom chegar cedo pela primeira vez.
Eu fora a última a chegar, constatei, quando passei pelas portas da garagem e averiguei que todos já estavam entretidos lá dentro, protegidos do frio. Adrian estava enrolando uma mangueira, enquanto que o moreno que atendia por Christian estava dentro do caminhão, testando alguma coisa no painel do motorista. Os demais estavam espalhados em uma roda, rindo, conversando, e me ignorando.
Sinceramente, hoje eu poderia usar um pouco de paz, e considerando que o terror russo não estava a vista, tinha esperanças.
Depois de bater o ponto e trocar para as roupas de descanso dos bombeiros, decidi que seria um bom momento para começar a fazer uso da academia. Não havia me exercitado, propriamente dito, dês do exame físico final da academia, e vergonhosamente admito que estava me deixando levar por rosquinhas cobertas de açúcar. Era isso, exercício já.
Embalada pelo som de LMFAO invadindo meus ouvidos pelos fones, estava me focando na sequência de levantamento de peso, deitada horizontalmente em uma prancha almofadada, levantando e abaixando uma barra com 10 kg de cada lado. O volume da música estava quase no máximo, e tudo que eu me concentrava era alcançar o 100º levantamento. Estava no 78 e os músculos de meus braços começavam a falhar, se negando a seguir as instruções de meu cérebro e disparando dores de volta para ele como um campo de batalha. O suor que se originava em minha testa corria para a lateral atravessando minha face de maneira contínua, terminando o trajeto sendo absorvido pela toalha pequena que eu havia amarrado ao redor do pescoço exatamente para aquele propósito.
Meu aparelho de som que estava no shuffle passou a tocar Marron 5 – One More Night, e meus braços cederam, tremendo a partir do número 85. O suporte para encaixar a barra com pesos agora parecia mais distante do que antes, fora do alcance dos meus braços que se mostravam incapazes de erguer mais um centímetro o peso. Quando eu me vi fraquejando e vagarosamente a barra descendo em direção a mim, comecei a me desesperar. Já passava pela minha mente a manchete do jornal da cidade: Bombeiro se mata com aparelho de ginástica. Seria o assunto por semanas.
Foi então que um par de mãos largas agarrou o equipamento do lado de cada uma das minhas mãos, retirando todo o peso que estava contra meus membros exaustos. Eu ergui o corpo e virei a cabeça para trás, tentando encarar quem estaria ali, e me surpreendi ao ver o homem de dois metros que estava transformando os meus dias em pesadelos.
O ver daquele ângulo era diferente e interessante. Seu pomo–de-adão se mostrava mais proeminente vendo de baixo, e a pele alva de seu pescoço estava livre das sombras, podendo observar a textura lisa e macia, barbeada. Seu rosto era quase escondido pelos ossos salientes da bochecha, e as linhas retas e duras do maxilar estavam ainda mais perceptíveis. Seus olhos pareciam um mar revolto marrom, daqueles que te puxam para dentro e não te permitem sair, e você acaba se afogando cercado dele.
Droga, eu estava o encarando feito uma garotinha boba, e agora ele está me encarando também, maravilha.
– Obrigada, camarada...
Fui capaz de murmurar após ele erguer e posicionar a barra contra o suporte, agora inofensiva. Com um dedo puxei o fio dos meus fones de ouvido, o retirando e deixando sob minhas pernas, enquanto me recuperava o fôlego e me erguia lentamente. Estava desamarrando a toalha em meu pescoço e a esfregando pela cabeça para retirar o líquido que eu havia expelido durante os exercícios, enquanto o silêncio permaneceu da mesma maneira, e embora eu não tivesse coragem de me virar e encará-lo, eu sentia os olhos dele em mim. Era sempre assim com ele, eu era capaz de sentir sua presença antes de vê-lo. Meus olhos sendo imãs para os dele, e a maneira como meu corpo reagia a sua presença, se contraindo de maneira deliciosa, estava me deixando louca. Ele era bonito, uma exibição de um homem desejável, e era só isso, eu tentava me convencer. E eu me perguntava se seria capaz de resistir por mais quanto tempo.
Enquanto meu corpo parecia se acender com a presença dele, minha mente era o contrário. A visão dele me irritava, e minha raiva me cegava de maneira que nunca fui capaz de ficar em com cômodo com ele por mais que alguns minutos.
Quando tomei a coragem para me virar e encará-lo disposta a ter uma conversa adulta, perdi a linha de pensamento novamente no momento em que meus olhos se chocaram com os dele. Droga, ele sempre teria essa reação de mim?
Ele estava no mesmo lugar de antes, atrás do aparelho de malhação, mas agora havia posto as mãos na barra de ferro de maneira a se escorar nela e se inclinar levemente, aparentemente ciente do que atraía meu olhar, como agora, com seus músculos esticados e sendo pressionados pela camisa fina e justa, me desafiando a olhá-los de mais perto.
– Hathaway... Você sabe que relacionamentos dentro da companhia são proibidos, certo?
Uh, uh. Ele captou a maneira como olho para ele sempre que se move? Se eu tivesse entregado o ouro dessa maneira, eu estava realmente ferrada.
– Uh, camarada, relaxa... Eu... Você... Não vai rolar...
Falei enquanto esfregava o tecido macio da toalha contra minhas têmporas, na falta de fazer algo que pudesse ocupar minhas mãos úmidas.
Ele me encarou por dois segundos, naquela frieza cotidiana que ele exibia, e enquanto seus olhos não entregaram nada, suas mãos soltaram a barra de ferro que estava escorado, assumindo novamente uma posição ereta e ameaçadora, fazendo uso de cada centímetro de sua altura para intimidar.
– Eu estava falando sobre Adrian... – O que Adrian tem haver com eu e ele... Ohhh. Droga, eu entreguei o jogo antes mesmo do apito inicial. Tudo que pude fazer foi esconder meu rosto na toalha fingindo continuar a secá-lo, mesmo que já estivesse praticamente esfoliando a pele com tanto que eu esfregava.
– Hum... Ah... Somos só amigos. Nada demais, ele está me ajudando bastante a me adaptar... Como... Amigo... Ele é um amigo legal...
E agora eu estava me repetindo e tagarelando sem controle. Ugh, ao menos eu poderia culpar o vermelho do rosto devido aos exercícios que tinha acabado de fazer. Isso não ajudaria com meu ego, de qualquer maneira.
Dimitri continuava na mesma posição, como o robô que passei a considerá-lo, e um pensamento me cruzou a mente quando voltei a encarar seus olhos, sua feição sem entregar nada. Havia ele feito isso de propósito, me usado, jogando verde para coletar o que corria na minha mente? Céus! Como aquele homem era capaz de me transformar de uma adolescente pervertida para uma louca raivosa em tão poucos segundos? Ele puxava todos meus botões habilidosamente, e eu praticamente estava soltando fumaça me convencendo que havia caído na manipulação dele.
E ele estava simplesmente ali, parado, me encarando... e me encarando...
Não mais capaz de suportar ele no mesmo cômodo que eu, me virei para sair atirando com força a toalha no ombro e enrolando o fio ao redor do meu ipod, lhe dando as costas.
– Já que está tão acostumada à academia, poderia limpá-la depois...
Ele falou finalmente. Eu contive o urro que se formou em minha garganta e me retirei da sala antes que arremessasse um peso em sua cabeça.
Como fora ordenado, eu jhavia limpado os banheiros e também a academia, e agora estava observando Christian e Mason tentando fazer o almoço.
O sorriso retornara a minha boca enquanto observava os dois homens com tantos problemas na cozinha quanto eu quando tive de fazer a comida, no primeiro dia de serviço. Estava encolhida no sofá ocupando dois dos três lugares com minhas pernas dobradas, e uma xícara de chá entre minhas duas mãos, fazendo com que o calor da porcelana aquecesse aquela parte do meu corpo.
– Parece que seu bom humor voltou.
Adrian se aproximou por trás do meu campo de visão e me fez pular levemente do sofá, soltando uma maldição após ter derramado o chá quente nas pernas. Ele pareceu não se importar, pois pegou as pernas que eu tinha sob o móvel e as ergueu largando sem cerimônia no chão, como se fosse dono daquele pedaço de céu envolto em couro, e se sentou ao meu lado esticando os braços por toda a extensão do sofá. De repente a horrível conversa com Dimitri na academia retornou a minha mente sem ser convidada. Era verdade que eu me sentia a vontade na presença dele, e ele tornava meu período de trabalho um tanto mais leve, mas era exagero todos assumirem que éramos um casal.
– Vendo eles assim, até parece que fomos bem fazendo o nosso...
Eu comentei tentando arrumar algo neutro para conversar e empurrar a memória das palavras de Dimitri para um cantinho escuro da minha mente. Relacionamentos entre colegas eram proibidos.
– Você que fez o almoço. Eu só prestei o serviço público de impedir que ele se tornasse inconsumível.
Eu ergui as pernas de volta para o sofá e as usei para empurrar o corpo de Adrian em resposta a sua provocação. Nós dois rimos e permanecemos naquela posição, como se estivéssemos em nossas casas, e tudo fosse normal entre nós.
– Fui ordenado a não me meter nos seus serviços, mas eu não podia simplesmente ficar de lado, senão todos nós teríamos passado fome aquele dia.
Sorri com seu comentário, feito entre um biquinho e um sorriso de menino maroto que só Adrian conseguia provocar. Eu não precisava perguntar quem o havia ordenado para me deixar fazendo as tarefas sozinhas, já sabia a resposta, e não queria perder meu humor naquilo.
Enquanto o conteúdo de meu chá ia sendo consumido e aquecendo meu corpo, Christian e Mason em frente ao fogão discutiam. Um alegava que não havia sal o suficiente e tentava derrubar o pote dentro da panela, enquanto que o outro discutia que o sal era suficiente, e tentava segurar o outro impedindo de se colocar mais tempero na comida. Eles permaneceram nessa situação por minutos sem cansar, como se fossem irmãos discutindo sob um brinquedo. A coisa só se acalmou quando Dimitri passara pelo portal que separava a área de convivência do corredor com o dormitório, ordenando que a comida fosse logo terminada. Surpreendi-me com a presença dele dentro do horário normal, e ergui meus olhos de maneira automática, como se meu corpo tivesse vontade própria e fosse atraído ao corpo dele. Ele me encarava como fizera na academia, sem falar nada, nem demonstrar sequer um pensamento, mas continuava a me observar sem se cansar. Seus olhos rapidamente passaram para Adrian no sofá e nossas posições, mas tão rápido quanto ele se deu o trabalho de nos notar, ele virou o rosto e pegou um prato, servindo-se com a macarronada e se sentando na lateral da mesa. Assim que toda a comida foi servida no balcão, todos se acumularam ao redor se servindo e sentando-se a mesa, até ela estar praticamente completa. Eu não me demorei no sofá, pois sabia que não sobraria nem um pingo de molho se eu fosse a última. Eles sabiam ser cruéis na hora da comida.
Chefe Kirova não se juntou a nós, não estava naquele turno na casa, mas aparentemente fazendo uma inspeção em um ponto de socorristas na cidade vizinha.
Apesar da discussão sobre o sal momentos antes, a comida estava perfeita e realmente teria ficado salgada demais se tivesse colocado mais do produto ali.
Quando estava na metade do meu segundo prato, o que eu estava temendo e esperando aconteceu. Eu sugava com vontade um filete do macarrão quando os auto-falantes espalhados por toda a estrutura começavam a soar um alarme irritante, e uma voz feminina anunciou nos aparelhos “Incêndio em domicílio...” e o endereço do ocorrido. Todos se levantaram apressados, deixando a comida mal terminada nos pratos, correndo cada um para o seu equipamento e vestindo as calças e roupas especiais. Christian que estava no meio da mesa não teve paciência de esperar todos na sua frente saírem para que ele pudesse se retirar, já que a mesa estava contra a parede dando espaço apenas para os bancos naquele canto. Ele pulou sob sua cadeira e passou por cima da mesa mesmo, resmungando com os membros do grupo de resgate que estavam se movimentando mais lentamente.
Meu coração batia de maneira dolorida em meu peito, como que acompanhando o alto som do alarme, e eu tropecei diversas vezes no meu caminho ao armário de onde pulei para dentro das calças especialmente largas pra serem usadas por cima de outras roupas. Com chutes fiz as botas normais se soltarem dos meus pés e serem arremessadas longe, entrando nas pesadas botas resistentes a fogo dos bombeiros, e quando prendi os suspensórios que mantinham a roupa no lugar, eu me sentia como um mergulhador de época mais antigas, com aquelas roupas gigantes e ridículas. Eu havia treinado e feito o exame com todo o equipamento, mas agora eles pareciam especialmente mais pesados e apertados, como se me sufocassem antes mesmo de eu por a máscara de oxigênio. Quando finalmente o principal estava vestido, eu passei correndo pelas portas duplas da principal entrada da base para a garagem. Todos já estavam dentro do caminhão, e o russo estava pendurado com metade do corpo para fora, segurando a porta com uma mão.
– Anda logo, Hathaway! Se não quiser correr atrás do caminhão...
Eu soltei uma maldição enquanto tentava apressar ainda mais o passo, com o casacão que deveria vestir ainda em minhas mãos.
Quando pulei para dentro da cabine e meus pés mal haviam tocado o chão, Dimitri bateu no teto de metal do caminhão indicando para o motorista, Christian, para acelerar, e fechou as portas para se acomodar em um lugar nos pequenos sofás que estavam espalhados pela minúscula cabine, que parecia pequena demais e abafada com tanta gente. Eu já disse que o lugar era pequeno? Eestávamos entre cinco atrás, mais Christian na direção e Adrian no assento de co-piloto, digitando algo no tablet acoplado ao painel do veículo, procurando uma rota para o endereço pelo GPS.
– Respira, cadete. Se você vomitar no caminhão, Christian vai ficar louco.
A voz do tenente vinha em intervalos maiores, ele estava gritando para ser ouvido junto com a sirene do caminhão, me encarando com uma expressão estranha e engraçada, demonstrando até um pouco de preocupação com minha situação. Ele estava certo, embora eu o odiasse ainda mais por isso. Eu estava a ponto de jogar todo o almoço para fora a cada curva fechada que o caminhão fazia, me pressionando contra a porta. Não devia ter comido tanto, notei agora, mas tudo que eu poderia fazer era respirar e soltar de maneira ritmada, tentando acalmar meu coração que pulava pela minha boca. Quando ergui o olhar para cima, notei que atrás de Dimitri estava Adrian, agora virado de lado no assento, me dando um sorriso consolador e confirmando que eu ficaria bem.
Depois de quinze minutos de trajeto – a casa era distante da cidade-, o caminhão parou e as portas de ambos os lados da cabine foram abertas, e eles começaram a pular para fora como um enxame disciplinado que já havia feito isso inúmeras outras vezes, formando uma fila esperando que Dimitri saísse do caminhão e passasse suas ordens. Eu pulei para fora antes dele, sentindo como as botas pesadas amorteciam o encontro com o asfalto da rua, e soltavam um eco seco a cada passo meu.
– Castille e Ozera, confiram os fundos da casa.
Ouvi a voz do russo carregada ainda mais com o sotaque estrangeiro agora, ele estava com a posição tensa, totalmente dentro do papel de líder de um grupo disposto a entrar em uma casa em chamas. Assim que ele dera a ordem, Christian e Eddie vestiram o tubo de oxigênio nas costas prendendo os cintos ao redor do peito e ombros, e foram para os fundos da casa cada um com um pé de cabra.
– Hathaway, siga Ivashkov. Você vai colar nele como se fosse sua sombra.
Ele ordenou ao mesmo tempo que levou a mão ao rádio comunicador preso ao seu ombro, apertando o botão e falando por ele, avisando a central de que o caminhão havia chegado ao local, e depois lembrando por rádio para que Christian e Eddie abrissem um canal de ventilação antes de entrarem.
Apesar de seu corpo estar duro e tenso, sua voz nunca se exaltara e sua face nunca demonstrara nada além de concentração, e ele passou o tubo de oxigênio amarelo pelo corpo, o prendendo com calma e paciência.
Só então eu me virei para notar realmente a casa e avaliar a situação.
Era uma típica casa americana, de madeira branca com dois andares e telhas cinzas. Em uma das janelas que estava com uma fresta, uma cortina de fumaça preta saía e subia para o céu. Fumaça preta nunca era bom, constatei.
Quando Dimitri estava pronto, ele andou em direção a porta da frente, com Adrian o seguindo logo atrás, e eu seguindo ele. Todos nós tínhamos um pé de cabra longo em nossas mãos, mas Dimitri não o utilizou para entrar na casa, preferindo usar seu pé batendo contra a porta de madeira fazendo a porta se desmanchar sob a sola de sua bota. Pelo rádio o outro grupo de Christian e Eddie confirmaram que o segundo andar estava limpo, e aparentemente ninguém estava em casa. A fumaça vinha de uma porta que estava aberta e indicava uma escada que descia para o porão, e a seguimos abaixados para que a camada de fumaça ficasse sob nossas cabeças. Eu nem me lembrava de ter puxado a máscara e a prendido no rosto, mas me via agora encarando com baixa visibilidade o breu do porão, onde uma pequena concentração de luzes amarelas e vermelhas me chamaram a atenção, tremulando em um canto do amplo lugar, quase vazio. Aparentemente o russo já havia notado também, e se dirigiu até o objeto metálico que estava em chamas, com o pé de cabra ele abriu a porta do fogão a lenha, fazendo com que uma chama lambesse o oxigênio da área mas logo diminuísse novamente de tamanho, embora não se apagasse. Adrian que estava com um extintor em suas mãos abriu o jato de espuma sob as chamas, as cessando rapidamente com habilidade.
Christian e Eddie haviam agora se juntado a nós, averiguando o porão para qualquer outro foco de incêndio, mas no final era somente aquele fogão a lenha que havia sido deixado sem cuidado.
– Alguém esqueceu o almoço no fogo...
Brincou Adrian, puxando uma forma redonda de dentro do fogão, que caiu ao chão com um baque metálico. Dentro estava um frango, ou o que restara dele. Ele cutucou com seu pé de cabra a comida que agora estava virada em um pedaço de carvão duro.
– Tem certeza que você não estava cozinhando aqui, Hathaway?
Christian aproveitara a deixa para me alfinetar, e todos gargalharam com a brincadeira, embora eu me mantivesse séria e irritada com a comparação. Até mesmo Dimitri tentava engolir a risada, agora sem a máscara de oxigênio, e eu pude ver a linha de seus lábios se contorcerem enquanto ele se controlava para não rir alto junto com o grupo, mas a maneira como seus ombros se movimentavam o denunciou.
No final eu mesma tive que rir, afinal eles estavam finalmente me deixando entrar no grupo e me aceitando. Mesmo que como a péssima cozinheira do batalhão.
Quando estávamos saindo da casa uma mulher com um bebê vestido com uma saia rosa veio correndo em nossa direção, assustada e nervosa. Ela era a dona da casa e havia deixado o frango no fogo enquanto havia saído “rapidinho” para ir buscar um ingrediente no mercado. Ao menos ela não havia deixado a filha dela também na casa ao sair.
Enquanto entrávamos de volta ao caminhão, Dimitri lidava com a mulher preenchendo rapidamente os dados dela para o relatório, e confirmando com a central que fora um alarme falso e que chamassem de volta a ambulância.
Adrian agora veio na cabine atrás, sentando-se ao meu lado, enquanto Dimitri entrou no assento ao lado do motorista, e fizemos o caminho de volta a estação de maneira mais calma.
– O que achou do seu primeiro incêndio?
Adrian me questionou depois de alguns minutos se movimentando em silêncio, e eu tive de encará-lo por algum momento. Ele estava claramente brincando, mas ainda parecia preocupado com a minha situação. Meu coração estava finalmente se acalmando, mas eu não tinha uma resposta para aquilo. Havia sido algo simples e fácil, mas o próximo poderia não ser. E eu me sentia mal desejando algo mais emocionante, como um incêndio de verdade. Entendendo meus sentimentos, Adrian apenas me direcionou um sorriso exibindo a ponta dos dentes brancos, ele sempre parecia saber o que eu precisava para melhorar. Minha âncora no mar revoltoso.
O restante do turno ocorreu normalmente, e eu tive de passar o esfregão no chão liso da garagem antes de me atirar na cama e dormir até quase o momento de bater o ponto de saída. Estava cansada, mas não da mesma maneira como os outros dois dias anteriores. Estava feliz e um tanto me sentindo orgulhosa. Não havia dado nenhum vexame ou feito algum erro de iniciante, embora ainda havia chances disso ocorrer em outro chamado. E em face da emoção da emergência, eu me lembrei de porque eu havia escolhido aquela profissão. Sempre tive um instinto de proteger e cuidar de qualquer um ao meu redor, mesmo desconhecidos. O sentimento de estar fazendo algo para ajudar e enfrentando situações que a maioria não seria capaz de enfrentar, tudo isso por outra pessoa, me completava. Eu sabia que havia nascido para fazer aquilo.
Como nos outros dias, ou melhor, noite, Liss estava com o carro parado no meio-fio esperando que eu saísse. Estava com a bolsa de ginástica com minhas mudas de roupa usada, com as mãos enfiadas no bolso de minha jaqueta, caminhando rapidamente para entrar no carro aquecido dela. O clima úmido junto do frio havia deixado a madrugada ainda mais cruel, pelo menos mais incômoda de quando era apenas o frio absurdo.
Eu apoiei minha perna com força contra a pedra que fazia o calçamento da saída da garagem da estação, mas ela estava coberta de limo úmido, e a sola escorregou sem resistência me fazendo perder totalmente o equilíbrio. Meu corpo se virou e minha outra perna ficara no lugar enquanto eu me via escorregando e caindo. Meu único pensamento naquele breve momento foi “Droga, isso vai doer”... Mas o choque com o chão duro não veio. Senti nas minhas costas logo acima da cintura, um braço forte me apoiar e segurar totalmente inclinada e fora de equilíbrio, prestes a cair. Uma mão se prendeu firmemente a frente da minha barriga, enquanto eu agora pude sentir o braço como uma cobra se enrolar por trás do meu corpo até a frente. Quando ergui a cabeça para ver quem havia me salvado do mico de cair na rua, meus olhos se encontraram com um par de chocolates, mornos e calmos, fixos no meu rosto. E eu me vi repetindo a cena na academia no começo do turno, observando suas feições vistas de baixo. Ele realmente tinha feições masculinas incríveis, que eram belas mas fortes. Mas agora eu sentia parte de seu peito e barriga contra minhas costas, sua respiração controlada saindo em fumaça pela boca entre aberta e a maneira como o cheiro de sua loção pós barba chegava a mim como um aroma afrodisíaco. Era amadeirado com um pouco de mente, masculino mas atraente exatamente como ele.
Com apenas o braço que estava me segurando ele me ergueu inclinando para frente e me colocando reta novamente de pé, e então eu notei que sua outra mão estava ocupada com uma bolsa de ginástica similar a minha.
– Obrigada, camarada...
Foi tudo que pude dizer, enquanto que mentalmente eu me dava tapas para voltar ao normal e não parecer tão afetada pela proximidade como eu realmente estava.
Eu queria soltar uma piada ácida para diminuir a intensidade do momento, mas nada me vinha a cabeça, com meu cérebro claramente indo a parafuso com a sensação de seu corpo e seu cheiro contra mim.
Ele continuou a me encarar, sério e silencioso, como se sua mente estivesse em branco, sem deixar nenhum pensamento escapar. Droga, eu já havia dito o quanto isso nele é irritante?
Depois de alguns segundos ele pareceu finalmente se cansar de me observar, e eu já não sabia o que fazer com minhas mãos, portanto seu balançar de cabeça num pequeno cumprimento e seu carregado “Boa noite, senhorita Hathaway” me aliviaram, ao mesmo tempo que eu sentia a falta da proximidade de seu corpo se perder quando ele se dirigiu ao próprio carro.
Já que estou no inferno, vou abraçar o diabo, certo? Aproveitei o momento para observar como sua calça jeans preta larga parecia se prender a curva das nádegas, e eu senti inveja daquele pedaço de tecido. Ele agora vestia uma jaqueta de couro preta similar a minha própria, e andava com uma graça e jeito que eu nunca havia visto em um homem. Pelo menos em nenhum com dois metros. Parecia que até seu caminhar era um chamado para procriar. Epa, de onde isso saiu? Eu ri com minha linha de pensamento, e tratei de voltar ao caminho até o carro de Liss, que agora me olhava com um sorriso no canto dos lábios, indicando que havia testemunhado todo o ocorrido. Droga, eu iria ouvir muito sobre isso essa noite.
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