Burned
1 Capítulo 1 - this destruction will be your rebirth
Notas iniciais

A luz entrou pela janela de meu quarto, me atingindo diretamente nos olhos. Droga, havia esquecido de fechar as cortinas durante a noite. Levantei-me com certa relutância, e puxei o tecido até cobrir a claridade. Caminhei de volta até a cama me arrastando, mas era tarde demais, já podia ouvir os passos em minha porta. Duas batidas se seguiram na madeira, e antes que pudesse sequer responder, logo a ouvi cantarolando e adentrando o cômodo.
—Parabéns para você, nesta data querida! –Ela veio em minha direção com um pequeno bolo decorado com chantili e confeitos.
—Mãe...
—Nem pense! Vamos, assopre a vela. E não esqueça de fazer um pedido.
Sequer tive tempo para qualquer tipo de protesto, pois minha mãe esticou os braços me oferecendo uma vela em chamas, pronta para atender um desejo de aniversário.
Apreciei por um segundo as chamas tremeluzindo, e assoprei a vela, selando meu destino. No fundo, sabia que tudo aquilo era apenas superstição, pedidos de aniversário e Papai Noel eram todos frutos da mesma fonte.
Olhei-a e agradeci pelas felicitações.
—Obrigada, mãe. Mas não precisava ter se incomodado, sabe que eu não faço questão de comemorar essas coisas...
—Filha, eu te amo. E por isso quero que você aprecie sua juventude, e tenha boas memórias como qualquer garota saudável da sua idade.
E saiu, me deixando sozinha com meus pensamentos. Fui ao banheiro, e ao olhar no espelho, por alguma razão pensei que ao fazer dezoito anos, alguma coisa mudaria magicamente em minha aparência. Mas me deparei com o mesmo rosto pálido e sardento de sempre, rodeado pelas mechas cor de cobre que caíam pelo meu rosto. Suspirei decepcionada, e iniciei minha rotina matinal. Vesti-me com meu velho jeans skinny, cardigã e coturno. Me dirigi ao andar de baixo da casa, e avistei minha mãe no jardim, tinha planos de ir até a livraria para comprar meus presentes de aniversário, e tomar um café. Deixei um bilhete na bancada da cozinha, e saí pela porta dos fundos, para não ser pega em flagrante.
Alguns minutos após sair silenciosamente de casa, recebi um SMS de minha mãe, exigindo que comprasse um vestido bonito para minha festa de aniversário, que seria sediada na casa de uma de suas amigas. Particularmente, nunca gostei muito de festas, mas não queria pôr todo o esforço daquelas duas no lixo. Após algumas horas no centro da cidade, fiz tudo que precisava e retornei para casa.
Depois de um longo banho, sentei-me na cama e encarei meu novo vestido, e ele era exatamente o tipo de roupa que eu jamais me imaginaria vestida. Fiz um esforço e deslizei para dentro do tecido, passei um pouco de maquiagem nas bochechas no intuito de parecer mais viva e coloquei os sapatos. Aquela não seria uma noite fácil.
Chegando na residência de Alicia, amiga de minha mãe, logo fui recebida por um estrondoso coro de “parabéns” de autoria dos nossos vizinhos. As horas seguintes se seguiram com muitas felicitações, comidas e alguns momentos constrangedores em que falam de como você cresceu. Apesar de tudo, foi uma boa comemoração, obviamente, muito diferente do que garotas da minha idade costumam planejar, mas eu nunca fui boa com amigos, e quase não mantinha contato com pessoas da minha idade depois da escola.
Após o fim da festa, eu e minha mãe seguimos de carro direto para casa, e apesar de cansada, ela ainda me ajudou a carregar meus presentes para o quarto.
—Boa noite, mãe. E obrigada pela festa, estava ótima, não poderia ter planejado nada melhor.
—Você é boa demais comigo, Freya. Aquilo com certeza não era o sonho de toda adolescente, mas você não me deu uma lista exata de convidados. Boa noite, durma bem.
Ri enquanto a porta ia lentamente se fechando. Não estava com sono, então decidi abrir meus presentes. Havia roupas, meias, cartões, e vouchers de lojas. Mas havia um embrulho dourado, que destoava dos outros, ao abri-lo me deparei com um livro. Era pesado, com folhas amareladas e continha milhares de páginas escritas a tinta. Em sua capa só continha um título minimalista em seu centro: “Fantasmas de Fogo”.
Voltei a verificar o embrulho e não continha identificação, quando me dei conta estava recitando as páginas do livro em voz alta:
“uma vez que o fogo queimar, a escolhida morte trará”
O livro todo parecia um delírio totalmente dedicado a Jovens Bruxas. Fui para minha cama, decidida a devolver o livro ou jogar fora, não havia sentido naquele livro ter sido entregue a mim, nunca fui ligada a nenhum tipo de segmento religioso e definitivamente não tinha interesse em práticas de wicca ou qualquer outro tipo de bruxaria.
Lentamente fui apagando, e deixando por fim o cansaço tomar conta de meu corpo.
Podia sentir como se estivesse flutuando conforme avançava pelos corredores da casa em direção a saída, toda a extensão de meus braços e pernas pareciam se unir não por ossos e ligamentos, mas por uma energia quase tangível que percorria cada centímetro de meu corpo, unidos em êxtase, como uma bomba prestes a explodir. A rua estava escura, e o vento uivava pelas janelas das casas ao lado, e de repente, uma explosão de luz alaranjada surgiu em minhas costas, quando virei-me, lá estava minha casa em chamas.
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