Buopé e o desafio da Cuca
1 Capítulo Único
Notas iniciais
.Era mais um dia maravilhoso, o sol banhava as matas fechadas com sua luz. Com a chuva da noite passada o chão se encontrava lamacenta e um pouco escorregadia. O pequeno Buopé foi o primeiro a acordar, e saia de sua oca se espreguiçando para poder começar o dia, atrás dele sua irmãzinha corria alegre indo em direção ao rio ali perto, olhando-a correr sem cuidado devido o chão escorregadio ele gritou:
— Cuidado Anahí, não corre muito para não escorregar!
— Vá atrás dela Buopé e depois vá à floresta e traga um pouco de fruta. – Ordena o pai de Buopé, Caramuru, saindo da oca com sua cara marrenta. Atrás dele vinha uma mulher, mãe de Buopé, Jaciara, que logo disse a seu filho:
— Tome conta de sua irmã.
— Tudo bem mamãe. — Disse Buopé que rapidamente correu para o interior da oca, e pegou seu arco, cinco flechas e uma bolsa de uma alça feita de cipós que estava sob sua cama. Uma rede cujas extremidades estavam amarradas em pilastras que sustentava o teto da oca, e em seguida correu disparado atrás de sua irmã.
.A aldeia de nove ocas era localizada do lado de um grande rio onde o usavam para pescar, lavar alimentos e tomar banho. Anahí e mais sete crianças tinham entrado no rio para se divertir, Buopé se aproxima no canteiro e grita:
— Anahí venha! Vamos pegar algumas frutas!
.Após ouvir a voz do irmão, Anahí imediatamente se despede das outras crianças, saindo do rio e ao se aproximar do irmão ela pergunta:
— Vamos pegar frutas Buopé?
— Vamos. — Respondeu Buopé. — Já peguei o arco e as flechas caso precisarmos nos defender. Segure as flechas e fique atrás de mim, quando eu pedir uma flecha você me entrega que nem à mãe faz com o pai quando eles saem para caçar entendeu? — Pergunta Buopé entregando as cinco flechas para Anahí.
— Entendi Buopé. — Responde Anahí pegando as flechas.
.Os dois voltam a sua oca para se despedir dos pais, quando se deparam com o cacique da aldeia sentado no chão frio de terra conversando seriamente com seu pai. Jaciara está ao lado do marido oferecendo comida para o cacique e para Caramuru.
— Mãe, pai. Estou indo pegar algumas frutas e a Anahí vai comigo. — Avisa Buopé.
— Tudo bem Buopé. Tome cuidado e não se afastem muito da aldeia ouviram?! — Advertiu Jaciara.
.O cacique se levanta do chão para poder falar com as crianças, e adverte com tom de seriedade:
— Cuidado crianças, apareceu uma Cuca nas redondezas. O grupo de caça a viu perto de um lago, e a aldeia vizinha já perdeu uma criança. Se a virem corram imediatamente de volta para a aldeia.
— Entendi grande cacique. — Disse Buopé respeitosamente.
— Tome conta de sua irmãzinha Buopé, você já tem sua tembetá já é um kunumy, a Cuca não terá interesse em você, mas sua irmã ainda é uma kugnatim-miri. Cuidado. — Adverte seu pai.
.A tembetá era um adorno feito de osso que Buopé tinha perfurado em seu lábio inferior, aquilo mostrará a sua aldeia e a seus pais que o menino não era mais menino, mas sim se preparando para ser um homem.
— Entendi pai. A protegerei com minha vida. — Disse Buopé com firmeza e convicção.
.O cacique apenas riu e disse antes dos dois partirem:
— Que Tupã abençoe seus caminhos.
— Obrigado grande cacique. — Agradeceu Buopé saindo da oca com sua irmã atrás dele.
.Os dois atravessam a aldeia e entra na selva fechada. Após andarem por alguns minutos Anahí pergunta cansada:
— Até quando vamos andar Buopé?
— Não se preocupe Anahí, estamos chegando. — Responde Buopé. – Conheço essa floresta com a palma da mão, e eu sei que tem uma árvore com as melhores grumixamas da selva.
.Andaram por mais alguns minutos, até que finalmente Buopé diz animado:
— Chegamos!
.Anahí apenas sorri aliviada, pois finalmente além de poder descansar, vai comer algumas frutas antes de voltar para a aldeia. Após comerem algumas grumixamas e encher até a metade da bolsa com a fruta, Anahí diz com alegria:
— A mamãe e o papai vão estar tão felizes quando chegarmos em casa com todas essas frutas.
— Ainda não acabamos Anahí. — Disse Buopé.
— Como assim Buopé? Já pegamos muitas. – Disse Anahí olhando para o interior da bolsa com frutas até a metade e sem entender o que irmão quis dizer.
— Aqui perto tem cabamixá-açú e estou pensando em pegá-las para o pai e a mãe também.
— É muito longe daqui Buopé? — Pergunta Anahí com um tom de cansaço.
— Não! É pertinho. — Responde Buopé.
— Está bem. — Disse Anahí se levantando e pegando as cinco flechas para o irmão.
.Os dois andam mais um pouco em busca da cabamixá-açú, e após andarem alguns metros, Buopé avista o arbusto que contém a fruta e olhando sobre os ombros para a irmã ele diz:
— Encontrei. Chegamos.
.Os dois se aproximam do arbusto, mas Buopé dá sinal para a irmã parar de andar.
— Espere aqui enquanto eu vou lá pegar as frutas.
— Mas por quê? – Pergunta Anahí.
— Se algo acontecer, quero que você corra o mais rápido que puder para a aldeia.
— Não estou entendendo.
.Anahí não estava vendo, mas Buopé notou a pegada da Cuca no chão a poucos centímetros deles e arranhões em algumas árvores. Vendo os sinais de que a criatura estava perto, Buopé fica alerta e sua mente começa a pensar rápido.
— É recente. Deve ter vindo há pouco tempo. — Pensou Buopé. — Anahí, me dê uma flecha. — Ordena ele com calma para não deixá-la assustada.
.Atendendo ao pedido do irmão, Anahí entrega uma flecha em sua mão. Se afastando um pouco da irmã, Buopé já prepara a flecha no arco, mas não atira e vai até a fruta com cautela e com a flecha preparada para atirar. Enquanto ele estava quase chegando às frutas, Anahí aguardava com as quatro flechas em mãos, ela não perceberá uma sombra por entre as árvores atrás dela, que se aproximava cada vez mais, quando sentirá algo respirando sobre sua cabeça já era tarde demais, em sua visão tudo escureceu de repente e apenas deu tempo de gritar:
— Buopé!
.Buopé se virou rapidamente após ouvir o grito de sua irmã te chamando, e conseguiu apenas ver um jacaré que andava feito gente, mas corcunda e que estava carregando Anahí no ombro, mesmo estando de costas ele reconheceu a tal criatura:
— Cuca! — Grita ele.
.Buopé atira a flecha que estava armada em seu arco, mas erra o alvo e atinge uma árvore. Ele corre em direção à criatura e pega as quatro flechas que a irmã deixou cair antes de ser seqüestrada. A perseguição levou uma hora, até que perderá de vista devida a densa floresta. Desesperado ele anda por um lado e por outro, mas não consegue encontrar a criatura.
— Onde ela está? — Ficou se perguntando Buopé em sua mente várias e várias vezes.
.Quase entrando em estado de choque ele tenta se acalmar. E em sua mente começa a pensar:
— Não vou voltar à aldeia sem a Anahí. Eu prometi para minha mãe e o pai que cuidaria dela. Sou um homem agora!
.Buopé subitamente começa a lembrar dos ensinamentos de seu pai sobre “como achar a caça”. Então metodicamente começa a analisar cada mudança no ambiente; pegadas, galhos quebrados ou arranhões nas árvores, tudo o possível para detectar o rastro da Cuca. O trabalho árduo demora alguns minutos, mas o rastro que a Cuca deixará levou Buopé até uma caverna.
.Com o arco e flecha pronto para atirar ele se aproxima devagar para a entrada da caverna, o interior era pequeno e logo ele pôde ver a Cuca, uma velha gorda e corcunda, mas com a aparência de um jacaré, ao seu lado uma jaula pequena feita de galhos e dentro dela Anahí que mesmo com sua altura pequena correspondente com sua idade de cinco anos, não conseguia ficar em pé e tinha que ficar agachada quase deitando para poder caber no pequeno espaço.
— Devolva minha irmã criatura. — Diz Buopé apontando a flecha para a Cuca.
.Após ver que o menino conseguirá achá-la, a Cuca levanta sua enorme calda a alguns centímetros sobre Anahí.
— Atire em mim e esmago sua preciosa irmã. – Ameaça ela com a voz que correspondia a de uma idosa.
.Vendo que estava em um impasse, Buopé pensou e resolve não atirar.
— Deixe nós ir para casa, não fizemos nada para você. — Pedi Buopé.
.Com um sorriso maldoso, Cuca responde ao pedido de Buopé:
— Acha mesmo que vou deixar uma “carninha” dessa sair assim sem mais nem menos?
.Vendo que conversar não irá resolver, ele pergunta:
— O que você quer em troca da liberdade de minha irmã?
.Com sua mente suja e maldosa a criatura começa a pensar, e após pensar bem ela disse:
— Lançarei um desafio. Se me conseguir até o anoitecer, um tufo de cabelo avermelhado do Curupira, talvez pense no seu caso.
.Após ouvir o desafio, Buopé corre para a floresta atrás de um Curupira, mas após andar alguns metros ele pergunta para si mesmo:
— Como encontrar um Curupira?
.Sabendo que era quase impossível achar um Curupira, e que ele era mestre na arte de enganar e possuía a habilidade de fazer os índios caçadores se perderem na mata até que entravam em delírio. Então subitamente lembrará as histórias que seu avô contava quando ele tinha a idade de Anahí. “Para distrair o guardião da mata, o Curupira, faça uma trança em dois cipós e deixe no caminho em que ele caminhe, a criatura não resistirá e tentará desfazer as tranças que você fez”. Após lembrar-se das histórias de seu avô, rapidamente ele pega dois pedaços de cipós e faz uma trança bem forte nos dois, deixando-os no chão em seguida. Após deixar os dois cipós no chão, Buopé rapidamente sobe em uma árvore e espera pacientemente comendo algumas frutas quando dava fome.
.Após muitas horas, no entardecer do sol, Buopé finalmente vê o que parecia ser uma criança, mas seus pés invertidos e cabelo vermelho, tão vermelho que parecia ser fogo, ele não tinha duvidas era o Curupira. A pequena criatura após ver os cipós trançados logo tenta desfazer as devidas tranças. Buopé aproveita que o Curupira está distraído, e como um macaco usa as mãos e as pernas para andar no galho da árvore sem fazer muito barulho para não espantar a criatura. Ele anda até que o Curupira esteja abaixo dele.
.Buopé pega uma flecha com a ponta afiada o suficiente para poder cortar o tufo que tanto anseia. Ele mede a distância, respira fundo e se joga contra o Curupira. Ele agarra o cabelo da criatura, mas ela se debate sem parar, até que finalmente consegue cortar um pedaço do cabelo. O Curupira com toda sua força consegue empurrar Buopé contra uma árvore e foge floresta adentro até se perder de vista. Após a pancada, Buopé tanta se recuperar e ao ver o tufo de cabelo em sua mão direita, ele fica feliz por ter conseguido passar do desafio e volta para a Cuca.
.Após ver que Buopé tinha conseguido o tufo de cabelo do Curupira, ela fica sem palavras.
— Não era para ele conseguir! — Pensou a criatura, nervosa por dentro pelo sucesso de Buopé.
— Eu trouxe o tufo de cabelo, cumpra o que prometeu e solte minha irmã! — Diz Buopé com firmeza.
.A criatura pensou rápido, e vendo que estava anoitecendo resolveu dizer:
— Eu disse que pensaria sobre o caso. E pensei. Está anoitecendo. Proponho-lhe mais um desafio, se me trouxer um presente feito à mão pela própria Iara até o amanhecer, eu penso no seu caso e solto sua irmã.
.Sem dizer nada, Buopé parte mais uma vez, dessa vez, indo à busca da Iara. Muitas histórias sobre a criatura lhe vêem a mente, muitas delas de que a Iara encanta os homens com sua bela cantoria e que os mata no fundo dos rios e lagos. Ele sabia que a noite era a hora que a criatura adorava aparecer, cantava sobre uma pedra e penteava seus belos cabelos pretos e lisos.
.Buopé andou até um rio onde havia rumores de que a Iara cantava sobre uma pedra. Chegando perto do rio ele começou a ouvir uma voz que parecia ser mágico, tão belo quanto o canto de um pássaro. E quanto mais ele se aproximava, mais alto o canto ficava. Escondido atrás de um arbusto ele pôde ver a criatura sobre uma grande pedra, cantando e penteando o cabelo com um pente feito de osso. Uma bela índia, mas no lugar das pernas uma calda de peixe com as escamas tão coloridas quanto o mais belo arco-íris já visto no céu.
— Como chegar até ela? — Se perguntou Buopé.
.Ele pensará que se lutasse não venceria, pois a criatura poderia usar sua canção para enfeitiçá-lo. Ele sai de trás dos arbustos e fica de frente com a bela criatura que para de cantar quando percebe sua presença.
— O que você quer? — Pergunta Iara.
— Sua voz é a mais bela que eu já ouvi, meu coração disparou e meus olhos se encantaram com tamanha beleza.
— Saia! — Ordena Iara com um tom ameaçador.
— Preciso que me presenteie com uma coisa que você mesmo tenha feito.
— E porque eu iria lhe presentear com alguma coisa? — Pergunta Iara com desdém.
— Preciso salvar minha irmã das garras da Cuca, mas para acontecer isso preciso que você faça uma coisa feita pela suas próprias mãos e me presenteie.
.Iara da uma risada de deboche e diz:
— Que patético, que fraco. Não ligo para os seus problemas. Exijo que vá embora antes que eu resolva te devorar. — Ameaça ela.
.Vendo que conversar não adiantava e que se lutasse não teria chances, pensando rápido, Buopé teve uma idéia:
— Te desafio para três perguntas, se você errar uma delas você me da um presente feito pelas suas próprias mãos.
.Após ouvir o desafio a Iara pensou e então perguntou:
— E se eu acertar as três?
— Pode me devorar. — Diz Buopé friamente.
.Impressionada com a proposta Iara pergunta:
— Está tão desesperado assim para salvar sua irmã?
— Sim. Prometi que a protegeria e não irei voltar sem ela, não irei sair daqui sem o que eu quero! — Grita Buopé.
.Impressionada com a determinação do garoto, sua expressão fica aterrorizante, até mesmo Buopé se impressiona com a mudança repentina do olhar da bela criatura, que antes era angelical se tornará o olhar de um demônio. A boca da Iara fica cheia de saliva e mordendo o lábio inferior, ela diz com um tom de voz que assustaria qualquer índio:
— Nunca comi um homem com uma determinação assim antes. Eu vou adorar te devorar garoto. Qual é a primeira pergunta?
.Mesmo assustado com a mudança repentina da criatura, Buopé pensa em sua primeira pergunta, mas não sabe o que perguntar. Enquanto ele pensava, a lua cheia já estava no céu com nuvens o cobrindo, mas logo se dissiparam, clareando qualquer um que estivesse na escuridão sem fim da floresta, quando a luz do luar clareou Buopé e Iara, a sombra da sereia se formará no rio, vendo a sombra se formando. Buopé perguntou:
— O que entra na água e não se molha?
.Iara pensou, pensou e pensou. Olhava para todos os lados para achar a resposta, quando olhou para o rio e viu sua sombra na água, ela olhou para Buopé com um sorriso e respondeu:
— É a sombra.
— Acertou. — Diz Buopé sentindo um aperto no coração.
— Um. Falta dois. — Diz Iara lambuzando os lábios.
— Eu vou pensar, um minuto.
.Buopé pensou na segunda pergunta, mas não vinham idéias em sua cabeça, até que ele se lembrará de uma pergunta que o cacique fez ao seu pai. Após lembrar-se da pergunta ele finalmente diz:
— Um viajante chega a uma bifurcação na estrada que leva a duas aldeias. Numa aldeia as pessoas sempre dizem mentiras, e na outra aldeia as pessoas sempre dizem a verdade. O viajante precisa realizar negócios na aldeia onde todos dizem a verdade. Há um homem de uma das duas aldeias em frente à bifurcação, mas não há nenhuma indicação de qual aldeia ele é. O viajante se aproxima do homem e faz uma pergunta. Depois de ouvir a resposta, ele sabe qual caminho seguir. O que o viajante perguntou?
.A Iara começa a pensar. Começa a ficar nervosa de tanto pensar, solta uns gritos de agonia. Até que com um sorriso ela olha para Buopé e responde:
— O viajante perguntou "Qual o caminho que vai para a tua aldeia?". Ele, então, segue pela estrada que o morador apontou, porque uma pessoa sincera iria apontar para a aldeia das pessoas que falam a verdade e uma pessoa mentirosa também apontaria para a aldeia das pessoas que falam a verdade, pois sendo um mentiroso, não iria apontar para a sua própria aldeia.
.Ao ouvir a resposta Buopé começa a sentir de novo seu coração apertar, começa a suar frio e sua visão começa a ficar turva, as pernas começam a fraquejar, suas mãos suam sem parar, começa a engolir em seco procurando sem sucesso uma saliva para hidratar a garganta.
— Dois. Falta uma. — Diz Iara com a boca cheia d’água. — Próxima pergunta.
.Sem saber o que perguntar ele começa a olhar ao redor pensando em correr, mas pensando em sua irmã, seu corpo não se movimenta nem sequer um centímetro. Ele sente algo junto de seu corpo e quando vai por a mão, sentiu que era a bolsa com que estava carregando as frutas que coletará com Anahí. Estava tão ocupado e com medo que esquecerá que estava carregando a bolsa ainda. Ao ver as pequenas grumixamas ele teve uma idéia. Pegou a pequena fruta e segurou na mão sem que a Iara visse. Impaciente com a demora da pergunta, Iara grita:
— Então! E a pergunta? Não tem o que perguntar?
.Buopé então estica o braço direito com a fruta em sua mão fechada e pergunta:
— O que eu tenho na minha mão?
.Sem entender a pergunta a Iara responde com outra pergunta:
— Como assim?
— Isso mesmo que ouviu. O que eu tenho na minha mão? Essa é a pergunta.
.Sem saber o que responder a sereia começa a surtar e a gritar.
— Isso não vale! Como vou saber o que tem na sua mão?
— Não quero saber. Eu fiz a pergunta. O que tem na minha mão?
.Nervosa ela começa a gritar e a bater na própria cabeça.
— Não vale! Você esta roubando! Você vai morrer é agora!
— Opa! — Grita Buopé dando um passo para trás. — Se você não sabe responder. Eu venci.
.Vendo a derrota repentina e impressionada com a esperteza do menino, a Iara se acalma e apenas diz:
— Muito bem. Eu admito minha derrota. Como prometido farei um presente feito pelas minhas próprias mãos.
.Ela tira uma de suas coloridas escamas, faz um pequeno som de dor devido à extração da escama e com um pequeno pedaço de corda faz um colar, e vai até a beirada do rio entregar o presente.
— Como prometido o presente. — Diz Iara esticando o braço para entregar o colar.
.Buopé se aproxima com cautela e pega o merecido presente.
— Nunca mais volte. Se voltar eu te mato. — Ameaça Iara mergulhando rio adentro e desaparecendo na água.
.Buopé apenas se vira e come a grumixama, partindo para a caverna da Cuca com o presente feito pela Iara.
.Ao ver Buopé com o colar, a Cuca fica estarrecida com o jovem. Furiosa com o sucesso da missão, ela não sabe mais o que fazer, Buopé entrega o colar na mão da Cuca e diz olhando nos olhos da criatura:
— Você conseguiu o que queria. Agora como prometido, solte minha irmã.
.Furiosa e desapontada com seu plano de tentar se livrar de Buopé, a criatura começa a pensar no seu último recurso. Ela começa a pensar sem parar, tudo a seu redor pareceu parar no tempo.
— Moleque desgraçado! Como vou me livrar de uma praga dessas? — Pensa a criatura. Ela olha para o colar e em seguida, olha para uma montanha não muito longe dali. E uma idéia lhe veio à cabeça. — Ainda não terminou. Naquela montanha a uma caverna e dentro dela habita um Boitatá, se me conseguir um pedaço de sua pele incandescente, eu liberto sua irmã. — Diz a criatura apontando para a montanha.
— O Boitatá? — Pergunta Buopé olhando a montanha cuja criatura apontou.
— Sim. Traga-me apenas um pedaço da magnífica pele do monstro e eu liberto sua irmã. — Diz Cuca colocando suas garras nos ombros de Buopé.
— Está bem. — Diz Buopé caminhando em direção a montanha.
.Enquanto Buopé caminhava o dia já amanhecia, e ele começou a enxergar melhor o caminho por onde andava. Em sua mente lembranças de terríveis histórias do Boitatá lhe via a cabeça, uma cobra gigantesca, tão grande quanto um rio, as suas escamas são tão quentes que pareciam ser feitas pelo próprio sol, seus olhos incandescentes faziam a noite mais escura ser o dia mais claro. “Destruidor de aldeias e de homens, devorador de mulheres e crianças”; esses eram um dos títulos mais usados para descrever o monstro. “Como derrotar tal criatura?”; pensava Buopé. Com uma ansiedade que não saia de seu corpo, mesmo que tentasse se acalmar, essa sensação não o abandonava. Sua mente em constantes pensamentos, todo aquele stress o consumia cada vez mais.
.Até que, sem explicação alguma, a imagem de seu pai lhe veio à mente, e se lembrará de seus ensinamentos de caça. “Não importa o que você cace meu filho, esse veneno pode abater qualquer coisa”; dizia seu pai. De repente uma idéia lhe veio à cabeça. Buopé pegou suas quatro flechas restantes e após pegar algumas erva e misturá-las produzirá a resposta para seus problemas, produziu o curare.
.O curare era o veneno mais poderoso dos índios, causa paralisia dos músculos esqueléticos e a vítima morre por asfixia, mas para uma criatura tão grande quanto o Boitatá, não o mataria, mas o paralisaria, sabendo disso, Buopé envenena a ponta de suas quatro flechas, pois se paralisasse o monstro teria tempo o suficiente que cortar um pedaço de sua pele.
.Com tudo pronto, Buopé finalmente chega à entrada da caverna onde seria a morada de Boitatá. Ele perambula por entre os corredores da grande caverna, procurando por um sinal do monstro. Buopé anda sem ter a noção de tempo de sua caminhada, mas pela dor dos pés perceberá que andará bastante. Finalmente chega a um grande espaço na caverna, o breu da escuridão o impedia de enxergar o que tinha no final daquele gigantesco espaço.
.Ele anda um pouco, até que, como um vaga-lume na noite mais escura, as escamas da pele da cobra liberam uma luz fraca, mas que se apagará em segundos, revelando sua posição, ao ver que a gigantesca criatura apareceu repentinamente a poucos metros de onde estava Buopé toma um susto tão grande que é forçado a se jogar para trás e a se arrastar para longe do monstro, mas o barulho do osso sendo quebrado no chão pelo peso de sua mão acorda Boitatá. Os olhos incandescentes da gigantesca cobra encaram o rapaz, o fazendo correr para de trás de uma rocha ali perto, em seguida, todo o corpo do monstro começa a liberar uma luz tão grande que faz a escuridão sem fim da caverna parecer dia. A grande cobra ergue a cabeça, seu tamanho é maior que qualquer árvore que Buopé já tenha visto na sua vida, mas o que impressionava era a extensão de seu corpo, que cobria quase todo o chão da enorme área da caverna. Após ver que alguém tinha entrado em sua caverna a gigantesca cobra pergunta:
— Quem ousa entrar em minha toca. Devo parabenizá-lo pela coragem ou rir de sua idiotice?
.Buopé não diz nada para não revelar seu esconderijo, resolve ver com apenas um olho para a criatura. Seu olhar de medo fica evidente, as lendas sobre a criatura eram verdadeiras.
— Se não irá dizer nada invasor. — Diz Boitatá. — Então não se importa de eu procurá-lo. — Conclui se arrastando e colocando sua língua para ajudar a localizar.
.Sua língua bifurcada parecia uma labareda de fogo vivo que entrava e saia de sua boca encostando-se ao chão. Buopé já armava sua flecha em seu arco pronto para atirar, “é agora!”; pensava ele. Saindo de trás da rocha em que se escondia, atira a flecha contra o corpo da cobra, mas o projétil ao encostar-se à pele de Boitatá pega fogo e se torna cinzas. O tiro chama a atenção do monstro que vira a cabeça para ver quem foi que atirou. Buopé vendo que deu errado corre para a rocha mais próxima.
— Você está atrás dessa rocha invasor? — Pergunta Boitatá cuspindo fogo contra a rocha e a destruindo em poucos segundos.
.Após ver o poder destrutivo das chamas da cobra, Buopé que estava em outra rocha, mas bem perto de onde estava à última que acabará de ser destruído, quase pensou em desistir.
— Acho que acabei transformando ele em cinzas. — Diz Boitatá para si mesmo.
.Buopé olha suas três últimas flechas e olha para a cobra pensando em um plano de como atacar, mas o calor escaldante que a pele da cobra produz atrapalhava em seus pensamentos:
— Sua pele é quente, minhas flechas não vão conseguir atingir assim tão fácil. Então terei que ter outro alvo. — Pensou ele.
.Analisando o corpo da cobra, Buopé obteve mais uma idéia e logo pôs em prática. Correndo de uma rocha a outra, ele arma mais um flecha no arco, mira e atira. O projétil voa até um dos olhos de Boitatá, mas a cobra vira a cabeça no momento exato, fazendo a flecha acertar mais uma vez sua pele. Boitatá sente a flecha e quando se vira consegue finalmente ver quem era seu invasor. Após ver seu fracasso, Buopé fica com tanto medo que não se move do lugar.
— Então você é o invasor? — Pergunta Boitatá.
— Sim, sou eu. — Diz Buopé firme, mas por dentro apavorado.
— Ratinho, ratinho, ratinho. — Diz Boitatá balançando a cabeça. — Você me da todo o direito de te destruir ratinho.
— Não tenho medo de você. — Diz Buopé com um tom de seriedade.
— Ótimo filho de homem. Gosto quando minha refeição luta para sobreviver.
.Boitatá cospe fogo contra Buopé, mas o rapaz desvia correndo por de trás das rochas ao redor do monstro, a cobra tenta procurá-lo, mas ele é muito rápido para poder acompanhar com seus enormes olhos.
— Não fuja de mim rato! Eu vou encontrá-lo e devorar seu minúsculo corpinho! — Grita Boitatá furioso.
.Parado atrás de uma rocha longe de vista de Boitatá, ofegante e suando, Buopé olha para suas duas últimas flechas.
— Droga! Essas são as últimas. — Diz ele ofegante. Ele olha para Boitatá mais uma vez, vendo a cobra destruindo todas as rochas a seu redor na tentativa de achá-lo. Até que, olhando ao redor e pensando num plano, ele encontra pedaços de pele de cobra no chão. Ao encostar-se à pele morte ele percebe uma coisa curiosa. — Está frio. — Diz em voz baixa. Resolve pegar um grande pedaço para cobri-lo e esfriá-lo do calor que se acumulava no local.
.Buopé amarra duas pontas da pele morte em seu pescoço, fazendo uma espécie de capa nas suas costas, ele posiciona sua penúltima flecha e respira fundo. E após esperar alguns segundos ele sai de trás da rocha e grita:
— Monstro!
.Ao ouvir o grito, Boitatá se vira para vê-lo, assim que ele vira a cabeça, Buopé atira sua flecha contra seu olho direito, mas o mostro devia abaixando a cabeça, em seguida aproveitando a brecha, cospe uma grande quantidade de fogo contra Buopé. Desesperado o rapaz tenta se proteger usando a pele morta da cobra como escudo. Pensando que morreria, ele fecha os olhos, mas ao ver que ainda está vivo e vendo que foi a pele morta que o protegeu, logo conclui:
— A pele é imune ao fogo!
— Impossível! — Pensou Boitatá.
.Com a surpresa da descoberta, Buopé volta a correr e a se proteger atrás das rochas, vendo a última flecha em sua mão, ele fecha os olhos e diz para si mesmo:
— Abençoe essa flecha Tupã. Porque se não for agora, posso já me considerar derrotado.
— Apareça filho de homem desgraçado! — Grita Boitatá irritado e enlouquecido, destruindo tudo ao redor. — Como ousa usar minha pele como escudo!
.Mergulhado em seus pensamentos, Buopé obteve seu mais decidido e ousado plano, poderia dar tanto errado, quanto certo, mas era preciso executá-lo. Ele pega mais quantidades de pele morta, amarrando umas as outras até formar um grande manto.
— Muito bem. Vamos lá. — Diz Buopé para si mesmo respirando fundo.
.Ele sai de trás da rocha e grita bem alto:
— Monstro!
.A grande cobra vira a cabeça furiosa.
— Você esta ai ratinho! Agora você morre! — Grita Boitatá cuspindo fogo contra Buopé.
.Após ver que o fogo estava vindo, Buopé desvia e começa a correr por de trás das rochas mais uma vez, Boitatá começa a destruir tudo atrás dele para tentar atingi-lo. A grande cobra resolve atacar com a cabeça, quase atinge Buopé que cai no chão, mas se recupera e volta a ficar de pé, percebe que seu arco quebrou quando caiu, mas não liga e continua correndo. Boitatá se arrasta rapidamente para ir atrás do rapaz, Buopé consegue avistar rocha que estava procurando, vendo sobre os ombros que a cobra está longe, ele aproveita a distância e começa a escalar a grande rocha. Após chegar ao topo ele espera a cobra se aproximar, ao ver ela se aproximando, Buopé da um impulso com as pernas e salta contra a cabeça de Boitatá. Vendo que Buopé se jogou contra sua cabeça a cobra abre sua enorme boca e grita:
— Morra!
.Em pleno ar, Buopé rapidamente pega sua última flecha com o braço esquerdo e em seguida se cobre com a pele morta, formando uma espécie de casulo. As chamas que Boitatá cospe contra Buopé o cobre completamente, não o afeta, mas é engolido pela cobra.
— Eu disse que iria devorá-lo. — Diz Boitatá glorioso.
.No interior da cobra, antes de chegar ao intestino, Buopé se agarra ao coração do monstro e com sua última flecha finca a ponta envenenada. Boitatá que se sentia glorioso começa a se sentir mal, começa a ficar zonzo, seu corpo formiga, nunca antes tal sensação ocorrerá com ele antes, mas antes de cair no chão ele diz agoniado:
— Rato... Desgraçado.
.Se arrastando para fora da cobra, Buopé consegue sair de seu interior, sujo, cheio de gosma e com algumas queimaduras, ele respira fundo e percebe que seu plano deu certo e agradece por estar vivo.
— Não acredito que deu certo. — Diz Buopé olhando para a cobra paralisada no chão e indefeso.
.Boitatá mesmo paralisado tenta falar e com um esforço diz:
— Desgraçado, como pôde.
— Não se preocupe, esse veneno é usado para matar, mas como você é grande, apenas te paralisou, vai voltar ao normal logo, logo. — Diz Buopé pegando uma pedra afiada e subindo sobre o corpo de Boitatá. — Agora a minha recompensa, não irá doer nada, só irei cortar um pedaço de sua pele. — Diz tentando cortar um pedaço da pele, mesmo com dificuldades consegue tira um pedaço considerável.
.Após sair da caverna, cheio de queimaduras e dolorido, Buopé finalmente pôde respirar o ar puro da natureza, e sai correndo disparado para a caverna da Cuca entregar o que lhe foi pedido.
.Quando ele entrega o pedaço de pele todo sorridente, a Cuca fica com estarrecida e com medo do rapaz que desisti de tentar se livrar dele, e por fim como prometido, decidiu libertar Anahí e deixou os dois partirem com vida para sua aldeia. Após voltarem à aldeia, e ter tomado uma bronca da mãe e do pai. Buopé conta toda sua jornada para todos da aldeia, e após impressionar a todos com os seus feitos, ele revela a morada da Cuca. Caramuru usa as informações de seu filho e monta um grupo de índios guerreiros que vão até a caverna, dando um fim rápido na criatura. Após anunciar a morte da Cuca, todas as aldeias vizinhas agradeceram, pois suas crianças finalmente poderiam viver em paz e sem medo.
FIM
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