Bunker
1 Capítulo 1
Eu estava ouvindo um lofi genérico, como de praxe, enquanto colocava minhas roupas dentro da mala preta a qual o interior estava esfarelando, de tão velha que era. Não é legal ter uma mala esfarelando porque as roupas acabam eventualmente pegando os farelos e quando você vai se vestir precisa sempre tirar eles e eles acabam no chão, o que acarreta uma outra rotina de limpeza, dessa vez por conta dos farelos no piso branco da casa. Apesar da mala estar esfarelando, eu nunca tomei iniciativa de quem sabe, comprar outra mala. Isso, no entanto, se deve ao fato de que eu não consigo manter uma ideia na cabeça por tanto tempo e tenho o péssimo hábito de não as anotar, quando surgem. O interior da minha mente pode ser inclusive equiparado a estação da luz em horário de pico, extremamente caótica, por vezes incompreensível, mas muito interessante.
— Você vai mesmo, Nathália? — minha mãe apareceu na porta. Tinha um pano de prato na mão, as sobrancelhas franzidas em preocupação e pela blusa molhada dava pra ver que ela estava no meio de uma sessão de lavar a louça. Mesmo assim, continuava sempre bonita e radiante. Não é por ser minha mãe não, e eu me recuso admitir que possa estar sendo parcial demais, mas ela é uma das mulheres mais bonitas do mundo. Seja pelo sorriso gigante, os cabelos dourados ou a energia feliz que traz consigo sempre que aparece.
— É claro que eu vou, já paguei a passagem — Expliquei pela quinquagésima vez só naquele dia. Quando minha mãe estava ansiosa ou preocupada com alguma coisa, ela não ia contra as minhas decisões ou me proibia; ela ficava me questionando sobre a decisão até que eu chegasse em um resultado satisfatório pra ela. A tática funcionava 4/10 vezes, mas as 6 em que falhava geralmente estavam diretamente ligadas a quão certa eu estava sobre a minha decisão. Minha mãe balançou a cabeça negativamente, claramente ainda preocupada.
— Você nem conhece esse povo — foi o argumento dela.
— Mãe, você falou com a mãe do Lucas, com a do Edu, com a da Bruna... Você acha mesmo que se fosse pessoas ruins eles iam passar o contato das mães deles? — Arqueei uma sobrancelha, estava usando um tom convincente e o fato de eu estar certa me ajudava bastante a argumentar. — Fora que eu conheço todo mundo desde que eu sou criança. O tipo de pessoa que faria amizade com a eu criança não é o tipo de pessoa que me faria algum mal agora, sério.
— Um bando de nerds... — Minha mãe repetiu as palavras que eu tinha falado algumas vezes tentando a convencer.
— Exatamente, um bando de nerds. Os mais nerds que podem existir! — eu estava animada demais ao falar essas palavras. Estranha. — Fora que é mais capaz de eu fazer mal pra alguém do que fazerem pra mim.
Pra isso minha mãe assentiu. Verdade.
— Celular ligado o tempo todo — Ela começou a estabelecer as condições — Comer pelo menos almoço ou janta, se tiver dor de cabeça você tem o remédio que eu coloquei na sua bolsa, não sai sozinha...
Eu precisei interromper ela.
— Eu já tenho vinte anos. Nada vai dar errado, tá tudo sob controle. São só cinco dias.
E quando ela saiu do quarto, sentei na minha cama pra pegar o celular e falar com Giovanna, sendo ela a minha melhor amiga, a qual eu conheci quando era adolescente e também faz parte do Bunker. O grupo do “Bunker Revolucionário” no whatsapp estava bombando, e não era por falta de motivos. Resumidamente, somos um grupo de amigos que se conhece majoritariamente desde 2013, e é 2020. Diferentes estados, diferentes cursos universitários, diferentes religiões, mas a coisa que temos em comum é que apreciamos muito a amizade um dos outros. Essa viagem, para a qual eu já tinha comprado a passagem e estava com a mala praticamente pronta, seria a primeira vez que o bunker se conheceria. A viagem ia ser pra uma casa de praia que Lucas tem na Bahia, e as expectativas eram altas pra quantidade de diversão que iríamos ter.
[15:36, 17/11/2020] Nathália: negahvc vai levar roupa pra sair a noite??
[15:36, 17/11/2020] Gio Bff: Sim, acho que pelo menos dois vestidos e o resto de calça e brusinhapq eu gastei muito em brechó pra não usar
[15:37, 17/11/2020] Nathália: blz, acho que vou levar um vestido que comprei na riachuelo por 50% de desconto. eu te mandei foto???
[15:37, 17/11/2020] Gio Bff: Nao, já manda
A viagem pra Bahia foi sossegada, era meu primeiro voo de avião (pois é, a posição de proletariado impede o ser humano de viajar), fiquei encantada com a visão das nuvens de cima e refleti muito. Sobre o quão legal iria ser conhecer meus amigos pessoalmente, sobre o que a eu de alguns meses atrás pensaria sobre isso quando confrontada sobre a realidade de que em 2020 seria possível pra qualquer pessoa se encontrar com os amigos... É, 2020 tinha sido um ano complicado, e ninguém vivendo em julho saberia dizer com propriedade se em setembro já ia ter uma vacina pro coronavírus. Felizmente, os cientistas salvaram a humanidade mais uma vez. Nada de mal poderia acontecer, a humanidade mais uma vez passou por um provável filtro e sucedeu.
Sentada em um dos banquinhos dentro do aeroporto, eu encarava meu celular. Algumas notificações chegavam, mas eu as deixava passarem enquanto encarava o nome “Lucas” no whatsapp. Tínhamos combinado que ele viria me buscar no aeroporto, mas por enquanto sem sinal de vida; não que isso não fosse esperado dele. Lucas era um cara que continha muita energia caótica dentro de si, talvez por isso que eu apreciava tanto a amizade dele. Uma mensagem dele podia significar qualquer coisa: “Oi, linda”, “Ei, vamos jogar war???”, “Você nem acredita, atropelei um velho e tô sendo preso por homicídio culposo hahahahahkkk”... As possibilidades eram infinitas. Felizmente, uma mensagem chegou.
[22:17 , 17/07/2020] Lucas: caí de moto no centro mas já to chegando
[22:17, 17/07/2020] Nathália: moto?? vc disse que ia vir de carro, tô com uma mala aqui!!!
[22:19, 17/07/2020] Lucas: um problema de cada vez
...
[22:20, 17/07/2020] Lucas: como vc se sente sobre nao usar capacete?
Não me sentia tão bem assim, mas concessões são necessárias. Quando ele chegou, no entanto, eu descobri que embora ele acredite o contrário, o senso de humor do Lucas definitivamente não é o melhor do mundo e se ele acha que o ápice do seu humor é me fazer ficar preocupada com a minha capacidade de transportar uma mala de não sei quantos kilos, ele está errado.
— Achei que fosse me tratar um pouco melhor da primeira vez que nos vemos. Era só alugar um carro — comentei, depois do clichê de abraçar, ficar feliz por estar vendo um dos seus melhores amigos pessoalmente e todas essas besteiras.
— O carro tá lá fora, eu tava tirando uma com a sua carinha — Ele deu um sorriso orgulhoso, como se aquela piada fosse algo pra se orgulhar. Não era. Eu revirei os olhos mas depois acabei rindo. É, tinha um motivo pelo qual éramos amigos; meu humor devia ser tão ruim quanto o dele.
— Mais alguém já chegou? — Caminhávamos em direção a saída, minha mala vinha atrás de mim conforme eu a puxava.
— Edu, Gio, Leo, Nic, Debs, Pat... — O rapaz franziu o cenho, como quem tenta se lembrar — Quase todo mundo, só falta você, a Bruninha e o Igor.
— Tá animado pra conhecer sua webnamorada? — Eu me referia a Bruna. Vulgo, uma das minhas melhores amigas. É, acho que já deu pra entender que essa viagem vai ser a reunião de todas as pessoas de quem eu mais gosto nesse mundo.
— Sim, mas tô preocupado com a logística referente ao Edu. Eles também são webnamorados...
— É, e você é casado com Leonora.
— Todos somos casados com Leonora.
— Verdade.
— E eu vou casar com você também.
— Acho difícil, a sociedade vai colapsar antes da gente fazer trinta anos.
Agora, já fora do aeroporto, passavamos por pessoas apressadas e barraquinhas de comida. Um senhor de idade estava em cima de uma caixa de madeira, gritava alto.
— O fim está próximo! Todos vamos queimar!
Mas é claro, ninguém estava dando atenção pra ele. Deveriam, no entanto. O senhor não estava gritando por ser um maluco, ou por estar ouvindo profecias sobrenaturais; ele tinha chegado naquela conclusão depois de assistir o jornal da noite. Aparentemente, os ânimos estavam agitados entre a China e os Estados Unidos. Desde a invenção da vacina para o coronavírus, os dois países se envolveram em grandes escândalos de declarações nada amistosas e estavam, de acordo com especialistas a beira de uma crise nuclear que tinha o potencial para acabar com a vida no planeta terra.
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