Notas iniciais
Os nomes foram alterados, apesar de que eu queria MUITO que eles lessem isso.

Hoje, primeiro dia de aula no colégio Bamb's Hills.

Primeiro dia dos 3 anos infernais que viriam a seguir.

Eu estava entrando na 3ª série.

Quietinha, inocente, mas com uma vontada intensa de conversar.

Ah. E com insuficiência urinária.

Olhei para todas aquelas garotas. Maquiadas, fofocando... com 9 anos.

E eu lá, com 7.

Só tinha uma amiga, que estava na 2ª série.

E eu mal sabia o quão mentirosa era ela.

No integral...

-Olha lá, a menina nova lá!

-Qual é o nome dela?

-Olha lá, toda mijada!

-Mandy mijona! Mijona!

Até as garotas!

Droga.

E nem essa palavra eu conhecia.

Com o tempo, fui conhecendo gente — excluídos -, controlando minha bexiga... conhecendo palavrões.

E soltei aquela revoltada dentro de mim.

-Porra, não mija no meu lugar! — Phillip disse, quando a professora nos trocou por um breve tempo.

-Aah, cala a boca, vai!

~~

Um ano depois...

-Idiota! Burrona!

-Olha, eu tirei...

-Burra! Tonta!

-Mandy. — Joanne me dizia. — Deixa o Doan pra lá.

-Vish, a pobre vai ajudar a amiguinha!

-E o açougue do seu pai é de quinta, né?

~~

Mais um ano depois...

Lá atrás, no último lugar, eu apertava meus olhos.

Meio grau de miopia.

Pareciam dez e meio.

-Ui, olha a mijona ali!

Era uma aula inteira aguentando aquele imbecil. Taquei meu caderno nele.

-Ô PROFESSORA!

Tô fudida.

-O que foi que aconteceu aqui hein?

-O Matheus tava me irritando e eu joguei o caderno nele.

-Ah, então ele mereceu!

Sorri ironicamente — e ironie era uma palavra desconhecida.

E ri quando ele fez cara de inocente.

~~

No meu aniversário de 10 anos...

-Ai, a Mandy é uma chata, ela fala mal de todo mun...

-Ah, cala a boca Camila!

~~

Uns meses antes disso...

Indo para a psicomoticidade. Meninos de um lado, meninas de outro. Tinham me colocado bem na frente do Matheus e do Phillip.

Não me lembro bem da ordem dos fatos, mas Phillip me chutou. Fui lá para a frente, uma ferida sangrando.

~~

Alguns meses atrás...

Eu, deitada na minha cama, pensando: "POR QUE ME CHAMAM DE FRALDA!?"

~~

Ontem...

-Cinco, seis, sete, oito.

Don't matter gay, straight or bi, lesbian transgendered life.

I'm on the right track baby, I was born to survive

Don't matter black, white or beige, chola or orient made

I'm on the right track baby

I was born to be brave!

Sorri chorando.

-Nasci para ser brava, para lutar contra tudo. Então porque a exclusão... por que... por que?

Afundei minha cabeça no travesseiro. E dormi.

Foda-se a sociedade

Ela é o monstro que tira a inocência das crianças

O monstro não vive no armário

Nem debaixo da cama, não.

Ele mora na rua.

Na escola.

É bem grandão.

Engloba todo o mundo.

Nós, que não ligamos para ela, sofremos.

Somos chamados de loucos.

Porque não ligamos para a aparência

Não ligamos para o que os outros pensam.

A mídia a alimenta.

E ela está cada vez mais forte.


Notas finais
O trecho em itálico é da música "Born This Way" da Lady Gaga. O trecho em itálico e sublinhado é um poema de minha autoria, sem rimas nem nada.
E tô pouco me fudendo pra isso.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!