Bully Far Away From The Line
1 Sonho Americano Adolescente
Notas iniciais
2006.
Reformatório Saint Mary.
Carcer City.
Quatro anos depois, e o fluorescente da recepção continuava falhando. Se bem que já estava quebrado quando eu cheguei e provavelmente continuaria assim até o prédio inteiro pegar fogo.
Não que eu torcesse pra isso acontecer.
… tá, talvez um pouco.
Meu pulso estava doendo e a caneta era daquelas presas numa correntinha vagabunda — eu já tinha assinado uma pilha de formulários e era engraçado pensar que, quando me prenderam, só precisei assinar um papel.
Pra sair, pelo visto, eu precisava preencher a porra de um testamento.
— Norton.
Senti o bafo de café e cigarro antes de olhar pro lado e ver o guarda Handerson encostar ao meu lado no balcão. A pança dele chegou primeiro.
— O grande dia chegou, então — ele disse.
— Ah, é? — assinei outra folha. — Pensei que era só quarta-feira.
Handerson puxou aquele sorriso de canto nojento que eu detestava.
Ele já tinha visto um monte de adolescente sair por aquela porta direto pra penitenciária. Ou pra dentro de um saco preto, que era o destino preferido de boa parte daquele lugar.
— Olha, garota, é melhor ficar esperta por aí — ele disse. — quatro anos podem não parecer muita coisa, mas o mundo lá fora ficou bem pior desde que você entrou aqui.
Minha mão parou por um segundo.
Aquilo me pegou de surpresa.
Em quatro anos, o único gesto de preocupação que Davies demonstrou foi me acordar com um balde de água fria quando eu "tava dormindo demais" ou me mandar pra solitária porque o vizinho comeu a esposa dele (pelo menos era o que comentavam no pátio durante o banho de sol).
Certo, e também teve a vez que eu joguei café quente na cara dele.
Mas eu ainda sustento que ele começou.
— Nossa… eu nem acredito. Você tá comovido, Davies?
— Comovido? — ele bufou. — Tenho é pena da sociedade com você à solta de novo.
— Da sociedade, a única pessoa de quem eu tenho pena é da sua esposa.
— Ah, é?
— É... imagina acordar todo dia do seu lado por escolha própria.
Davies soltou uma gargalhada rouca.
— Desgraçada.
Larguei a caneta e finalmente me virei pra ele — pra aquele rosto gordo e vermelho, o quepe torto… os botões do uniforme lutando pra não arrebentarem.
Davies era um completo idiota.
O que era uma pena, considerando que esse mesmo idiota provavelmente era uma das poucas pessoas decentes que conheci durante minha feliz adolescência em um reformatório.
Prefiro não pensar muito no que isso dizia sobre a minha vida.
— Vai sentir saudades? — perguntei.
— Igual tenho saudade de um furúnculo na bunda, sua encrenqueira.
— Aham.
— Tô falando sério.
— Claro que tá.
Davies revirou os olhos, e eu achei graça.
Se ele realmente me odiasse tanto assim, provavelmente teria trazido donuts quando assinaram minha soltura.
Peguei minha mochila e joguei no ombro.
— Eu tô indo nessa, Davies.
Dei meia-volta quando ele chamou por mim:
— Ei, Norton.
Parei e virei o rosto por sobre o ombro, Davies lançou alguma coisa na minha direção e apanhei no ar por reflexo — uma carteira de CoK, cigarros pelos quais eu já tinha quebrado alguns narizes por menos da metade de uma embalagem.
Girei o maço entre os dedos.
— Suborno?
— Presente de despedida. — ele esclareceu.
— Você tá amolecendo, hein. — guardei os cigarros na mochila.
— Não se acostuma... e tenta não voltar pra cá, tá legal? Nem se matar lá fora.
Isso me deixou desconfortável... porque eu eu não fazia ideia do que responder quando ele resolvia agir como gente.
E eu não podia prometer nenhuma daquelas coisas, mas nenhuma delas estava nos meus planos também.
— Se cuida, Davies.
E aí, saí.
Eu já esperava, mas era estranho cruzar o pátio da frente sem ter alguém me segurando com os pulsos atrás das minhas costas. Quando passei pela guarita, a guarda Melanie me cumprimentou e abriu o portão automático...
O sol de Carcer City estava ridiculamente brilhante — imagino que alguém, em algum lugar, acharia isso simbólico.
Uma frase inspiradora teria sido apropriada pro momento, mas eu não conhecia nenhuma.
Eu tinha sonhado em sair de Saint Mary por tanto tempo que agora só conseguia encarar a estrada vazia neste lado do Rio Blake.
E a única epifania que tive foi perceber que não fazia a mínima ideia do que fazer com a minha pobre e tenra vida a partir dali.
Respirei fundo.
Então... era esse o lendário ar da liberdade? Continuava cheirando a escapamento e esgoto.
Talvez a um corpo desovado — Carcer City sempre gostou de manter tradições...
Nada mal pra uma manhã de quarta-feira.
CONTINUA...
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