Bullets In Blue Sky
9 Capítulo 7: Começando de novo
Disclaimer: Não possuo Evangelion ou Metal Gear Solid, seus direitos e personagens pertencem respectivamente a Gainax e Konami. Bullets In Blue Sky Capítulo 7: Começando de novo — Senhor, como vocês vão fazer com... esse disfarce? Marianne perguntou enquanto manejava as duas panelas pelas bocas do fogão. Panela maior na boca maior, panela menor na boca menor. Como mandava a lógica, pensava ela. Acendeu o fogo das duas primeiras e desligou uma terceira. Tirou a chaleira e levou até a mesa. Virou-a delicadamente, derramando o líquido fervente em dois copos. Não estava acostumada a tomar chá, muito menos em copos. Mas como não encontrou nenhuma xícara pela casa — exceto por uma cheia de cerveja – nem se importou muito. — Já informamos o Comandante da NERV que o Mark vai precisar se ausentar. — E? – Ela perguntou curiosa. — Evidentemente ele não gostou da notícia, mas aceitou sem maiores problemas. — Isso é estranho... não é? — É. Ele provavelmente desconfia de alguma coisa, ou até mesmo sabe de tudo. Mas não podemos fazer nada quanto a isso. Não agora. — Mas isso pode ser uma estratégia dele. Talvez Ikari tenha se aliado a Seele, ou pior, aos Patriots. Tentando parecer despreocupado, ele pode estar querendo nos enganar. — Isso teria algum sentido, se não estivéssemos falando de duas das vidas mais importantes no planeta. Os dois pilotos valem mais do que os seus Evangelions, em comparação, até mesmo a perda de um dos robôs é mais aceitável que a das crianças. — Então ele esta querendo parecer despreocupado... propositalmente? — Exatamente. Gendo Ikari quis transparecer isso por algum motivo, só nos resta descobrir o porquê. — Hm... como esta o chá? – Marianne perguntou com um sorriso. — Bom... apesar de não conseguir identificar esse sabor... E não conseguia mesmo. O líquido amargo possuía um gosto familiar, mas Snake não tinha idéia do que ela. O mesmo para Marianne, que pegou os pacotinhos de chá ao acaso no armário. Só conseguiu identifica-los pelo TEA em letras romanas-latinas, pois se fosse depender do seu conhecimento em kanjis... ela preferia nem pensar. — Tem uns desenhos nele. Tentei descobri o que eram mas... – Sentou na cadeira do lado oposto à Snake e observou novamente os desenhos no saquinho de chá. — Não consegue ler kanji? Deixe-me ver. – Ignorou os desenhos e foi direto para o que estava escrito. Em várias cores diferentes, os kanjis indicavam o quase irreconhecível sabor de camomila. — É... camomila? – Tomou um gole do chá e perguntou. — Sim – O homem respondeu, e acompanhou a moça no momento de silêncio que veio em seguida. — Quando que o Mark vai... partir? – Olhava fixamente para a xícara, não se importando com o vapor que sai dela e que começava a incomodar seus dois olhos azuis. — Quando elas chegarem. — Elas? Quem são elas? – Ann perguntou com curiosidade. — Sunny e as garotas da Beauty & The Beast Unit – Ele respondeu, já prevendo a reação que viria a seguir. A xícara teria caído na mesa, quebrado e os pedaços se espalhariam por todos os lados, acompanhados do líquido quente que espirraria e mancharia a roupa dos dois. Se ela já não estivesse segura e intocada na superfície da mesa. Marianne demorou a digerir as palavras, não sabia quem era Sunny e nem queria saber, a julgar pelo nome de quem a acompanhava. Mesmo passado o tempo das guerras a Beauty & The Beast Unit continuava um tormento na cabeça daqueles que lutaram contra elas. Talvez até de quem lutou ao seu lado. -- — Qual era a cor da minha mala mesmo? – A loira perguntou. — Não lembra? – Uma moça asiática se aproximou da loira. — Não... — Talvez por que não tenha sido você que arrumou a mala, Jan – Disse uma ruiva ao se juntar as outras duas. — Não foi? – A loira de nome Jan voltou a perguntar. Duas malas vermelhas passaram na frente do trio e a ruiva se apressou para pegá-las. Colocou-as no chão enquanto esperava o resto das companheiras pegasse cada qual as suas. No caso de Jan, descobrisse qual a que pertencia a ela. Provavelmente ficariam esperando no aeroporto uma hora a mais do que o previsto, como já ocorrera antes algumas vezes. Ou então que tratassem de achar Sunny antes para que a menina lhes dissesse qual a mala que preparou para sua “irmã mais velha”. — Onde está a Sunny? – A japonesa perguntou. — Não era você que ia ficar de olho nela, Kumiko? – A ruiva botou as malas no chão e passou a vista pelas áreas próximas. — Era a Jan. Mas ela devia estar muito ocupada não fazendo as malas! – Kumiko retrucou. — Ah, não se preocupem! Eu tenho certeza que ela está melhor que nós. Daqui a pouco ela aparece aqui com um mapa da cidade ou sei lá! – Jan deu uma risada e voltou à atenção para a esteira de malas. — Falando nisso, você não poderia nos ajudar, Kumiko? – A ruiva voltou a perguntar para a oriental. — E como eu faria isso, Maureen? – Respondeu irritada, prevendo o que a ruiva falaria. — Você não... fala japonês? — O que te leva a pensar que eu sei falar japonês? — Você não é japonesa? — Só pelos olhos? – Levantou uma sobrancelha. – Eu poderia ser tailandesa, filipina, chinesa, ou sei lá, até sul-africana. Ter descendência asiática não quer dizer que eu nasci aqui ou que falo a língua. — Ok, desculpa, foi uma pergunta idiota. — Esquece. Afinal eu sou japonesa mesmo, hihi – Viu Maureen virar para o lado e xingar alguma coisa em espanhol. A brincadeira não foi feliz. — Kumiko, o que quer dizer o kanji que parece um bonequinho de braços abertos segurando uma bolsa? – Jan perguntou apontando para uma placa. — Quer dizer a mesma coisa que a placa de baixo, em inglês. — Ahhhh... – Jan sorriu. – Ei, acho que a mala era azul! --- Era um prédio de apenas vinte andares, portanto o elevador não tinha a necessidade de ser tão rápido. Um dos motivos de Snake preferir prédios mais altos, tipo aqueles gigantescos do Oriente Médio com mais de uma centena de andares. Por maiores que fossem, os elevadores neles eram incrivelmente rápidos. Subiam uma dezena de andares no tempo que este em que estava no momento subia três, no máximo quatro. E a sensação que eles tinham também era melhor. Bizarro ele pensar nisso, mas aquele friozinho na barriga era algo muito agradável, ou mesmo sentir a força da gravidade agindo no momento em que eles paravam depois de seus velozes percursos verticais. Mas esse elevador em especial era incrivelmente lento. O agente pensava que poderia fumar meio cigarro num passeio de ida e volta do primeiro ao último andar. Logo trataria de botar seu plano em ação. Só não o faria agora em respeito a menininha ao seu lado. Menininha não, se corrigiu ao observar a jovem com o canto dos olhos. Aquela garota exalava qualquer coisa menos a inocência jovial de uma criança. Era uma bela moça, daquelas adolescentes que tinham as generosas medidas de mulheres, atraindo os olhares seja qual fosse o local em que dessem o ar de sua graça. E ele não era diferente de qualquer outro ser humano. Então, teve Snake que ceder o olhar para garota por mais tempo que gostaria. O que achou estranho, já que esse era o tipo de coisa que conseguia manter o controle. Pelo menos por algum tempo. Nunca que tinha cedido em menos de um minuto. Ainda mais para uma garota tão jovem. Ele até sentiria repulsa de si mesmo, se não fosse algo absolutamente natural ser enfeitiçado dessa forma. Mas tinha alguma coisa nela, alguma coisa na jovem de cabelos de um rosa exótico — quase como se fosse a cor natural de suas mechas — que chamava a atenção mais do que o normal. Provavelmente até mulheres teriam suas atenções atraídas para a garota com óculos escuros de armação dourada. De uma maneira totalmente não-sexual, é claro. Embora sempre houvessem exceções. Ele nem viu a pequena e delicada mão estendida na sua frente. — Bom dia, senhor. — Bom... dia – Snake respondeu, apertando a mão da garota. Obviamente sentindo-se estranho com a situação. — Acredito que eu seja sua nova vizinha. — É verdade, lembro de ter visto um caminhão de mudanças hoje cedo. — Meu nome é Liara T’soni. – Um delicado sorriso surgiu em seu rosto. – E o senhor, seria? — Iroquois Pliskin. — É um prazer conhecê-lo, senhor Pliskin. — Igualmente – Soltou a mão de Liara, esperando que ela fizesse o mesmo. E fez, embora tenha demorado um pouco. Snake teve a impressão que ela usou o tempo para analisá-lo de cima a baixo. Ela virou o rosto em direção à porta do elevador, sugerindo que ela era mais digna de sua atenção que o homem. Não foi uma virada de rosto qualquer, Snake pensou. Foi uma com arrogância que ele nunca tinha presenciado antes, e ainda assim, elegante. Foi estudado e considerado desprezível. Assim que a menina fez com que ele se sentisse. Um idoso inútil e dependente, digno de pena. Quando ela sorria era o que aparentava. Um gesto de piedade. Como se ele, Solid Snake, fosse alguém carente e necessitado. — Foi um prazer conhecê-lo, senhor Pliskin – Liara repetiu a frase de momentos atrás. Tocou no ombro dele e deslizou os dedos até o peito. Passou pelo terno, a camisa e a gravata. Parou na última. Puxou-a para fora, os dedos com as unhas pintadas de um rosa mais forte que os cabelos dela, acariciaram e sentiram o tecido da peça. As duas mãos já estavam de posse da gravata do homem perplexo, quando ela virou as lentes negras e armação dourada para ele e sorriu. Ou talvez os lábios já estivessem arqueados daquela forma delicada antes, quando tocou no terno dele. Snake decidiu que isso não importava. Liara segurou o segundo botão do terno e o puxou. Colocou a gravata no lugar e a ajeitou, do início até o fim, na gola da camisa. Deixando o homem num aspecto mais bem organizado que antes. Quase se permitiu tirar a gravata do pescoço dele e refazer o nó, que o tal Pliskin teve a proeza de deixá-lo mal feito. O que a impediu de fazer isso foi ao colocar a gravata no lugar, sentir uma textura diferente sobre o tecido da camiseta, como se não só ele cobrisse o homem. Era como se tivesse algum traje por baixo, que não permitia que o algodão da camisa deslizasse facilmente. Algo de borracha? Cogitou. Sabia que estava na hora de se despedir, e tratou de dar inicio ao ato o mais rápido possível. Ou atuação. As mãos foram do terno do homem para os seus óculos. Liara retirou-os. O objeto dourado deixou o rosto dela para repousar em um lugar mais chamativo. Dobrou-o e colocou sobre o decote. Os olhos dela estavam fechados, para a surpresa de Snake. Quase pensou que fosse cega, mas a lembrança dos movimentos graciosos da moça fizeram com que descartasse a idéia logo em seguida. Pelo menos não acreditava que alguém desprovido de visão pudesse ser capaz de tal delicadeza e beleza nos movimentos. Embora o tato, a maneira como ela tocava as coisas de uma forma que parecia que só sendo esse o mais aguçado dos sentidos para ser capaz de provir tais sensações com um simples tocar nos ombros ou aperto de mãos. Finalmente ela abriu os olhos. Fixos, estáticos, perfeitos. Dois rubis, eram o que pareciam. Intimidadores ao encará-lo, mas que junto do sorriso dela se tornavam amáveis e encantadores. — Ela pode não ficar boa com esse terno e essa camisa. Mas combina com os seus olhos. Desprezou o homem novamente. Deu as costas e as mechas rosadas para ele e saiu pela porta recém aberta do elevador. A lente dourada desfilou no vestido branco até que ela atravessasse o corredor e chegasse na porta que levava a rua. Ela estava há vários metros de distância, iluminada pelos raios da manhã que adentravam as janelas de vidro do corredor, refletidos por piso e parede brancos. E mesmo assim os olhos vermelhos chamaram toda a atenção para si. A moça piscou, acenou e colocou os óculos. E desceu as escadas. Snake saiu do elevador e parou no corredor. Assistiu as imagens do que ocorreu há pouco se repetirem algumas vezes na sua cabeça. A imagem da jovem de cabelos rosados não saindo da sua cabeça em momento algum, exceto quando cediam lugar aos olhos vermelhos. Era estranho, não conseguia imaginá-la como um todo. A pele branca, os cabelos rosados, o vestido branco e os olhos. Esses últimos sempre apareciam acompanhados de um esboço de uma face alva e um sorriso misterioso. Um close de câmera na natureza exótica e hipnotizante da moça. Andou até mais ou menos metade do corredor iluminado. Uma das mãos coberta por uma luva que para um observador próximo aparentariam borracha ou látex, repousou sobre um dos ouvidos. — Otacon. Aqueles tais anjos, qual a cor dos olhos deles? Continuou parado por um momento, esperando a resposta do cientista. — É óbvio que estou falando do que tinha forma humana. Mais um momento, dessa vez pouco mais longo que o anterior. Snake achou que foi de propósito. — Vermelhos? É, eu imaginei. Assim como os da Primeira Criança. Por que a pergunta? Pensou, repetindo as palavras que Otacon lhe dissera do outro lado da linha. Aproveitou para responder para o amigo e a si ao mesmo tempo. — Não é por nada. Mas eu acho que acabei de ver um clone. Ou então, um anjo. --- Todo o tempo que passou ali serviu para que ela refletisse sobre o sentimento que lhe dominava. Chegou a ler sobre ele algumas vezes em livros recomendados pela Doutora Akagi, e mesmo ouviu sobre em conversas aleatórias na rua ou escola. Mas nunca, em toda a sua vida, tinha notado a sua presença. Era da impaciência que se referia com algo muito próximo ao desgosto. Passou a odiá-la nas últimas horas, tanto quanto os motivos de tê-la sentido: os intermináveis exames os quais passou. Iam desde os mais ridículos e banais como abrir a boca e resmungar alguma coisa até os aparentemente mais importantes que envolviam gigantescas máquinas com cabos e botões para todos os lados e que produziam uma sinfonia de barulhos eletrônicos que ela fazia questão de esquecer. Sentiu-se estranha ao pensar que de certa forma, aquilo tudo era uma coisa boa. Afinal, mesmo irritantes aqueles exames e barulhinhos lhe despertaram um sentimento novo, que nunca antes lhe dera o prazer de sua companhia. Uma companhia irritante, mas que não era de seu total desgosto. A impaciência fazia parte de mais uma de suas descobertas, e isso era uma coisa boa. Mas bem que ela podia se retirar um pouquinho, pensou Rei Ayanami. Não com essas palavras. A porta abriu novamente, anunciando a entrada de mais uma pessoa na sala além das enfermeiras. Rei se decepcionou quando percebeu que não era nem Akagi nem um dos Ikaris. Já tinha visto o Comandante e até mesmo falado com ele. Mas ainda esperava a visita do outro de mesmo sobrenome. Sentiu-se estranha ao cogitar tal possibilidade. Queria ver uma pessoa, e queria mais do que qualquer coisa naquele momento. Sentiu algo lhe esquentar a pele, e dessa vez não era a luz do Sol. No reflexo do vidro espelhado a sua frente, viu seu rosto ganhar cor. As bochechas ficaram avermelhadas enquanto sua mente a brindava com imagens e mais imagens de Shinji Ikari. Não entendeu porque aquilo aconteceu, embora tivesse idéia. Mas era algo muito complexo para ser cogitado, pensado ou refletido no momento. Teria tempo para isso depois. Assim ela esperava. Também não entendeu porque levou as mãos ao rosto, escondendo a face enrubescida. Já eram duas coisas para refletir, agora. Talvez fosse melhor começar a fazê-lo agora, assim quem sabe a impaciência lhe daria a tão desejada licença. — Senhorita Ayanami? – Era uma voz forte e profunda, que fez com que todos os sons das máquinas parecessem irrelevantes, e também atraiu a atenção de uma ou duas enfermeiras. Rei seguiu o exemplo delas. Deixou Shinji e outros pensamentos de lado e cedeu atenção ao dono da voz até então desconhecida para ela. — Sou seu novo guarda-costas. A voz fez com que fosse direto para o rosto dele. O cabelo e a barba eram de um castanho escuro, e os olhos, profundos, de um azul bem claro, quase tanto quanto o cabelo da moça que lhe dirigia atenção. Percebeu algumas diferenças entre ele e os outros seguranças da Section 2. O terno continuava sendo de um negro impecável e discreto. A diferença começava na camiseta, apesar de branca possuía finas listras verticais de alguma cor escura que ela não fez questão de identificar. E por fim, a gravata azul-escura. Rei achou que ela combinava com os olhos dele. E estranhou, pois jamais tinha pensado coisa parecida de alguém. — Meu nome é Iroquois Pliskin. Pliskin estendeu a mão para a mocinha, que continuou lhe encarando, mas de maneira mais suave que a última de olhos também vermelhos. A de cabelos azuis tinha uma expressão mais apática que a outra, em compensação, era bem menos intimidante. Depois de piscar algumas vezes em silêncio, com a estranha vontade de que Pliskin lhe falasse mais alguma coisa, segurou a mão dele e usou-a de apoio para descer da cama. Isso pareceu surpreender um pouco o homem, mas sua expressão não demonstrou isso, se mantendo serena. O trio de enfermeiras, pego de surpresa ficou sem entender nada. Não ousaram falar nada, nem chamar a atenção da garota. Rei estranhou a luva que ele usava. Era fria e com uma textura estranha. Mais uma coisa que diferenciava Iroquois Pliskin dos demais seguranças que teve ou viu pelo complexo da Nerv. Além da estranha simpatia que sentiu por ele, não conseguindo imaginar se devido a aparência serena, ou pela voz que lembrava muito a do Comandante Ikari, só que mais grave e áspera, e que parecia trazer uma coisa que a do velho Ikari se mostrava incapaz, pelo menos até pouco tempo atrás: confiança. — Senhor Pliskin... poderia me tirar daqui? – Rei perguntou. A voz dela era calma e tranqüila, mas as palavras fizeram com que se tornasse um pedido sincero. Os olhos dela eram parecidos com os de Liara, mas havia algo neles, uma espécie de súplica, que faziam com que a única alternativa aceitável no momento era a de atender o pedido da garota. Snake olhou para as enfermeiras. Uma delas de ombros, e as outras assentiram. Ou os exames já tinham acabado e elas estavam apenas se prolongando, ou o que faltava não era de muita importância. Largou a mão da garota ao fechar a porta e acompanhou o olhar dela, fixo no fim do corredor vazio. — Meu quarto fica lá. 4-4-2 – Disse num tom sem muita emoção, o que chamou a atenção de Snake – Eu preciso me trocar, e aí podemos ir, Senhor Pliskin. — Tudo bem, mas pare com esse “senhor”. Eu não sou velho, e nem mereço esse respeito – Improvisou um sorriso, esperando receber outro. Rei encarou ele por alguns segundos, tentando entender o porquê daquele pedido. Assentiu ao chegar a conclusão alguma. Se ele queria deixar as formalidades de lado, ela não tinha nenhuma objeção a isso. Mas não sorriu. — Como quiser. — E depois disso, para onde vamos? – Perguntou com uma honesta curiosidade. — Algum lugar ao ar livre. Eu... preciso sair daqui – Quase nem acreditou que falou aquilo. — Bom, eu estou na cidade á pouco tempo, mas talvez conheça alguns lugares que você possa gostar. --- — Que horas são? A pergunta perfeita para começar uma conversação. Só não ganhava da clássica “calor hoje, não?”. Mas ela não conseguiu pensar em nada melhor, então foi essa mesma. O cenário se diferia do de um elevador, onde a última pergunta é comumente feita. Era um campo aberto. Um parque. Um dos únicos de Tóquio-3 que estava aberto ao público, os outros todos sofreram algum dano nas batalhas contra os anjos. Asuka andava com sua companhia por uma estrada de tijolos que se estendia por todo o parque. Eram blocos num tom quase amarelado, o que fez com que brincasse em pensamento ao lembrar do famoso filme onde apareciam os ilustres tijolos amarelos. — Quase onze horas. – Respondeu Shinji. — Daqui a pouco temos de voltar para fazer o almoço – Fez questão de utilizar o plural. — É. — É... Sentiu-se a pessoa mais idiota do mundo com sua última palavra. Ela que tinha sugerido virem ao parque para conversar e não conseguia desenvolver diálogo algum que não envolvesse as coisas mais casuais possíveis. Os dois subiram uma pequena elevação de terra, indo ao ponto mais alto do lugar. Haviam duas árvores, uma ao lado da outra. Não tinha a menor idéia de quais espécies eram. Não tinham flor alguma ou qualquer outra característica em especial. Estranhou essas duas árvores comuns em um dos lugares mais belos que já viu. Era estranho pensar nisso, mas tinha de admitir que era verdade. Uma bela vista, não tinha como negar. Ali do alto podiam ver várias estradas de tijolinhos levando à lugares diferentes do parque, cada um deles com vegetações diferentes uns dos outros. Dois lagos artificiais cercavam os dois pilotos. Não eram lá tão grandes, apenas o bastante para chamar tanto a atenção quanto as vegetações coloridas, essas sim naturais. Asuka ficou observando um deles por algum tempo, esquecendo completamente o compromisso de iniciar a importante conversa que um devia ao outro. — Sobre a nossa conversa... – Shinji começou, para a surpresa dela. — Não podemos evitar, né? — Não – Ele respondeu de forma quase seca. Por sorte a visão do lago impediu que Asuka percebesse. — E por onde começamos? – Deixou o lago por enquanto e voltou a atenção ao outro. — Hm... me desculpe? – Segundos depois ele se viu obrigado a forçar o sorriso, tentando demonstrar que aquilo foi uma piada. Asuka não gostou, mas perdoou a tentativa infame de Shinji. Ele obviamente não possuía experiência alguma para lidar com a situação. E nem ela, tinha de admitir. Por isso sorriu. Forçadamente, mas sorriu. Embora admirasse a tentativa de demonstrar senso de humor por parte do jovem Ikari. — Acho que já passamos por essa parte, não foi? Shinji estava adorando presenciar aqueles sorrisos agora não tão raros de Asuka. Eram encorajadores para ele. Faziam com que esquecesse sua habilidade natural de protagonizar besteiras e falasse quase tudo que queria. Ou que fosse necessário. Gostaria de descobrir qual era o segredo para fazer com que a ruiva agisse assim. Sorrindo, conversando, sentindo-se confortável perto dele. Sua total inexperiência o impedia de encontrar tal resposta. — Vamos... começar tudo de novo – Nem acreditou que falou aquilo. E nem Asuka que ouviu. — Como assim começar de novo? O que nós tivemos para... recomeçar? – Pensou um pouco antes de pronunciar a ultima palavra. — Eu... eu não sei... mas não podemos negar que seja lá do que possamos chamar aquilo que... tivemos, não deu muito certo. — É. – Ela observou um dos lagos enquanto refletia no que falar. – Talvez uma ou duas coisinhas tenham dado certo. Por iniciativa minha, evidentemente. Você nunca fazia nada certo. – Surpreendeu-se consigo mesma quando sorriu para Shinji ao dizer isso. — Quer dizer que salvá-la do vulcão foi uma decisão errada? — Tá, tudo bem. Ponto para você. Uma coisa pelo menos fez certo. — E na luta contra o oitavo anjo? — Aquela não conta, foi uma ação conjunta. Embora você tenha realmente nos surpreendido aquela vez. — Então eu, por conta própria, só acertei uma vez até agora? — Basicamente é isso. – Respondeu e olhou para a camiseta verde dele. Percebeu que nunca tinha visto ele trajando a peça, e concluiu que devia ser nova. Só não tinha a menor idéia de quando ele a tinha comprado. Notou o olhar dele no momento. Shinji olhava a ruiva fixamente, mas de alguma forma parecia distante, parecendo pensar em alguma coisa que o levou para bem longe dali. A garota tentou imaginar o que ele pensava e estranhou não sentir nenhuma repulsa ou vergonha com a atenção que recebia. Ele piscou, voltando a realidade, e prosseguiu: — Posso tentar acertar mais uma vez? – Perguntou, diminuindo a distância entre eles. — Uh..? Como assim, tentar? – Sentiu um arrepio quando começou a entender o que ele pretendia. Não podia acreditar que Shinji Ikari fazia isso, e nem que resolveu cooperar. — Ok, não vou tentar então – Encontrou-se agindo de um modo totalmente automático, colocou os braços em volta da ruiva e se aproximou ainda mais – Vou acertar. A ruiva fechou o olho desprotegido pela gaze, aceitando – e gostando — da mais improvável situação que já vivera. Antes que Shinji fizesse o mesmo, duas figuras atrás de Asuka chamaram sua atenção de tal forma que seus olhos não se permitiram fechar. — R-rei? Asuka olhou indignada para ele, e quase se desvencilhou dos braços do rapaz, mas percebeu o olhar distante dele e resolveu dar algum crédito à mais uma idiotice de Shinji Ikari. Voltou-se para aquela direção e entendeu o motivo do espanto do jovem. Um fantasma de cabelos azuis e olhos vermelhos se aproximava deles. ---
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