Notas iniciais
Autora: Jamille Nunes [http://www.orkut.com/Profile.aspx?uid=10638656324918625528] Co-autora: Ana (eu no caso) [http://www.orkut.com/Profile.aspx?uid=4977064941928094684] Fic presente de aniversario para a nanda: [http://www.orkut.com/Profile.aspx?uid=15607435615998545657] É né, se eles fossem meus eu não estaria dividindo com vocês ¬¬'
I think I'm missing something.

Eu acho que eu estou perdendo algo.

A subtle target on my heart.

Um objetivo sutil em meu coração.

Gerard sentou-se e tomou mais um gole de seu café, sentindo o frio tomar conta. Analisou sua caneca enquanto a levava para longe e balançou seu conteúdo, distraindo-se com nada. O líquido outrora deliciosamente amargo estava esfriando e perdendo o gosto original, estava passando do ponto. Era idiota comparar uma coisa com a outra, mas era exatamente como se sentia no seu relacionamento. Não que ele mesmo não fosse culpado. Tinha se tornado mais gélido nos últimos tempos, sem paciência e freqüentemente era visto com olheiras profundas que denunciavam suas noites mal dormidas.

Noites acompanhadas pelo café, diga-se de passagem. Porque era a única coisa com a qual ele poderia ficar por mais de cinco minutos. A face dela estava irritando-o com facilidade desde a primeira briga séria que acontecera havia poucos dias.

Precisava admitir que não fazia muita questão de fazer as pazes, mas fizeram. Porque ela procurou-o. Se dependesse dele, continuaria solteiro. Não sabia dizer o que era, porém cansara de… tudo. Queria agir para saciar o sentimento de que algo estava faltando. Saber o que era e como o faria, era um grande problema. Não tinha respostas para suas perguntas recentes. E isso deixava-o deveras incomodado.

- Por que você está aqui?

Gerard sorriu para si, não precisando virar-se para identificá-lo. Conhecia aquela voz muito bem. O mesmo aplicava-se ao dono, que habitualmente o ‘visitava’ durante a noite.

- Insônia.

Ele soltou um barulho compreensivo e o sorriso de Gerard aumentou. Se havia alguém que poderia dizer que o entendia era ele. Por várias noites que ficara acordado enquanto a maioria aproveitava um sono pesado e gostoso, ele estivera lá para ouvir seus problemas com sua namorada ou para esperar que Gerard dormisse, mesmo com o sol já raiando e anunciando o novo dia que estava por vir. Sem contar os conselhos que dava em relação a mulheres.

Sempre funcionavam. “Nunca discuta, elas estão certas na maior parte do tempo”, “Falar algo sobre os olhos sempre as deixa sem graça” ou “Um carinho vale mais que um beijo, acredite”. Não entendia, entretanto, como ele estava sem namorada durante tantos meses. Até porque Frank costumava estar sempre com alguém, porque aparentemente gostava de ter uma presença alheia para encher de mimos.

- Quer que eu fique aqui com você?

Gerard sentia-se o pior dos amigos. Não ouvia as lamentações de Frank, não tinha palavras sábias na ponta da língua para quando ele precisasse e ainda por cima tirava suas horas preciosas de sono. Era mesmo um bastardo. Que tipo de pessoa horrorosa e egoísta ele era? Não era mesmo nem um pouco parecido com o amigo, embora desejasse ter um tantinho de seu comportamento espontâneo do tipo não-ligo-para-nada-nem-para-ninguém-e-não-ligo-para-a-sua-opinião, que acabava por ser um dos motivos do fato de ele estar sempre rodeado de pessoas. Diferente de Gerard, que preferia sua alegria solitária, onde não haveria ruído o suficiente para atrapalhá-lo no processo de ouvir seus próprios pensamentos.

Engraçado como, apesar das diferenças, eles eram tão iguais.

- Se você puder ficar, eu agradeceria.

Frank sentou-se ao lado dele, numa confirmação que deixaria Gerard mais exultante do que se palavras tivessem sido usadas.

I think I'm missing someone,

Eu acho que eu estou perdendo alguém,

And that someone is you.

E que o alguém é você.

- Você está bem? – ele perguntou, hesitante.

Gerard ponderou. Este era o tipo de questionamento para o qual ele possuía um leque de respostas montadas e convincentes. Respostas que ele daria para os outros, não para Frank. Não havia mentiras entre eles dois, porque não havia motivos para omitir ou distorcer verdades.

- De certa forma. – falou, esperando que algo dentro dele gritasse sua insatisfação. – As coisas ainda estão um pouco conturbadas, se é que você me entende.

Frank assentiu, ficando em silêncio por uns minutos. Embora, dessa vez, algo estivesse errado com ele. Gerard sabia apenas porque as mãos do mais novo estavam inquietas sobre o colo dele e seus dedos brincavam incessantemente de uma maneira que até o teria incomodado. Claro que vindo dele, esse tipo de coisa não incomodava. Se fosse ela, entretanto…

Gerard tomou outro e outro gole do café, perguntando-se porque Frank estava estranho. Calado, porém agitado. Silencioso, porém aflito. No fundo, ele sabia que deveria ser algo sobre garotas, algo que ele queria contar a Gerard mas não encontrava palavras para iniciar o diálogo. O mais velho concluiu que, no mínimo, ele estava namorando – ou havia se enrolado – com alguma garota que Gerard não gostava. Acontecera certa vez.

Nem ele mesmo sabia porque reagira tão mal quando soubera com quem Frank estava. Implicara com a tal garota, achando defeitos mínimos em coisas inexistentes. Completamente infantil, e tinha total ciência disso. Mas o modo como ela jogava o cabelo, como abraçava Frank, como ficava cochichando inutilidades e cumplicidades no ouvido dele… ah, era apenas ridículo. E desde então o amigo ficara receoso sobre contar de seus próprios relacionamentos. O que era estúpido, porque agora Gerard havia aprendido a aceitar que se tal garota fosse considerada boa para Frank, então ela era boa para ele também.

Viu só como ele era uma péssima pessoa?

- Para você as coisas não parecem estar tão boas. Ou estou errado?

O mais novo riu nervosamente. Mais um sinal de que ele estava escondendo qualquer coisa, e a curiosidade de Gerard foi instantaneamente atiçada. Sabia o quão tímido ele era para conversar sobre esse tipo de coisa.

Frank não respondeu. E um silêncio incomodo invadiu o quarto. Aquilo era bem estranho, estranho mesmo. A relação deles era assim, eles nunca ficavam em silêncio, nunca mesmo. Eles sempre tinham algo para falar, nem que fosse a coisa mais inútil do mundo, mas mesmo assim eles tinham. E isso fazia daquilo uma amizade completamente diferente de todas as que Gerard tinha. E mesmo que ficassem em silencio por meros segundos, ao invés daquilo ser incomodo e constrangedor como estava sendo agora, era nada menos que acolhedor.

O mais velho começou a se inquietar também, e a mexer suas mãos como Frank estava fazendo.

- Mas me diga, por que todo esse desanimo? O que esta te perturbando, Gee?

– disse, para a alegria de Gerard que estava começando a corar loucamente.

— Eu ando meio insatisfeito com o meu namoro, sabe como é? Ela não esta me satisfazendo. O que estou dizendo? – corrigiu-se o mais velho, como se acabasse de dizer a coisa mais estúpida que já tinha dito em toda a vida. – Eu não gosto dela. Não é que eu não gosto. Eu não encontro nela o que eu preciso.

Frank soltou um suspiro. Um suspiro quase de alivio. Mas alivio do que? Gerard queria saber. Saber o que estava o incomodando, saber o porquê de não querer o contar. Eles confiavam tanto um no outro. Pelo menos Gerard confiava inteiramente em Frank.

I want you right here,

Eu a quero aqui mesmo,

I want you right now.

Eu a quero agora mesmo.

- Como assim ela não tem o que você precisa? – o mais novo perguntou, tentando parecer que não estava ligando realmente. Como se aquela fosse uma pergunta simples, um questionamento automatico. Ou até mesmo que tinha perguntado por educação.

- Eu não sei realmente. Falta algo nela. Só tenho que descobrir o que é. Gerard sorriu, beijando a bochecha de Frank demoradamente como costumava fazer sempre que não sabia mais o que dizer. Ele foi até o microondas que ficava em um dos cantos do não muito luxuoso quarto de hotel.

Sem que percebesse, Frank levou uma das suas mãos até a bochecha que Gerard tinha beijado, tocando o lugar como se ainda pudesse sentir seus labios lá.

Ele sabia exatamente o que estava sentindo agora. Demorou dias para descobrir isso. Descobrir não, porque ele sempre soube, mas sim para aceitar o fato. Sempre soube que não era normal aquelas borboletas que sentia em seu estomago toda vez que se aproximava de Gerard. Toda vez que demonstravam algum tipo de carinho a mais nos shows, ou até mesmo quando simplesmente se olhavam.

Frank tirou rapidamente a mão do rosto quando notou que Gerard estava voltando com mais um daquelas canecas gigantes de café, e que, como ele tambem costumava fazer, derramou um pouco do liquido agora quente em sua mãe, soltando um murmúrio e lambendo em seguida o que tinha derrubado. O mais novo sorriu, notando que já sabia todas as manias de Gerard.Ele se sentou na cama ao lado de Frank, dobrando suas pernas e o encarando. O silêncio havia retornado, mas Gerard não estava mais constrangido agora. Pelo contrário, estava bem mais a vontade agora que seu recipiente estava cheio e renovado. Finalmente estava da maneira como ele queria.

Então Gerard entendeu. Encarando o que tinha entre seus dedos, o que poderia ser apenas café para os outros meros mortais e que para ele era tão precioso por ser quase um amigo, ele entendeu qual seria a solução para que a estagnação e o tédio em que estava atolado fossem substituídos pela sensação prazerosa que deveria ser constante — e não era. Era bastante simples, na verdade, e ele perguntava-se porque não tinha pensado nisso antes: se o café estava ruim, o que fazer? Trocá-lo. Era fácil, rápido e indolor. Bem, pelo menos deveria ser indolor.

- No que você está pensando? – Gerard perguntou, pensando que resolveria sua vida amorosa mais tarde. Queria se distrair e cá estava Frank para ajudar-lhe.

O mais novo piscou e não se mexeu.

- Em nós dois. – disse mecanicamente

.O café, que estava a meio caminho para ir a garganta, voltou e Gerard se engasgou. Frank pareceu acordar de um devaneio com um estalo e olhou para o amigo com uma interrogação no rosto. Ambos pareciam igualmente confusos, de maneiras diferentes.

Gerard franziu o cenho.

- Nós dois? Como assim?

- Uh. Nossos problemas. Você e sua namorada e eu…

Ele engoliu visivelmente. Gerard deu um olhar incentivador, o qual Frank ignorou. Era certo agora: tinha algo muito errado com ele ou o mesmo não estaria desconfortável por coisa nenhuma. O mais velho estava a ponto de chacoalhá-lo para tirar qualquer informação dele. Diferentemente de Iero, Way resolvia-se com rapidez e praticidade. Ou era oito ou oitenta. Ou ele sabia de tudo ou nada, não gostava das coisas pela metade.

Foi interrompido pela voz falha de Frank.

- As coisas estão confusas para mim, Gerard. Você se importaria de me ouvir por hoje?

Claro que não, estava mais do que na hora de Gerard parar de falar e começar a escutar os outros.

- Pode falar. – e ao final da frase, levantou-se para realmente ficar ao lado de Frank, com seus ombros quase se tocando. Viu-o respirar fortemente, procurando por algo nas paredes que imaginou ser coragem. Gerard estava ficando deveras preocupado com a enrolação toda. Estaria ele envolvido com drogas? Ou dívidas? Ou…?

- Eu estou… digamos assim, interessado em uma pessoa. E eu sei que el–a tem uma vida praticamente construída e ela está feliz com quem quer que seja. Certo, não muito feliz, mas é uma fase. Ela – a pessoa – é um tanto quanto cabeça-dura demais para perceber que já está com alguém que a ama.

- Entendo.

- E eu apenas não quero atrapalhar isso. Eu vou ser o vilão da história, sabe? Eu vou ser o intrometido no meio dos dois.

Gerard estendeu os olhos, tomando um gole do café.

- Há quanto tempo você está interessado nela? Antes de ela se comprometer?

- Oh, sim. Há tanto tempo que eu realmente não lembro quando isso tudo começou.

- Uau. Ela sabe disso?

- Está sabendo agora.

You want me, you got me.

Você me quer, você me teve.

Gerard demorou sete segundos para processar o que ouvira, para ter certeza e para formar uma reação decente que não fosse engolir rápido e quase se engasgar. Houve um flash repentino e todas vezes em que ambos estiveram juntos – sozinhos ou não, no palco ou não – passaram velozmente pelo seus olhos, deixando-o tonto. Os toques, os abraços, até os beijos que considerava amigáveis… tudo fazia parte disso? Todas as vezes que fingiam estar se agarrando, que brincavam um com outro na frente dos outros, era tudo…?

- O quê?

- Eu apenas tinha que te contar isso. Agora que já está feito, eu preciso ir. Não estou pedindo nada – ele levantou-se, deixando Gerard em pânico. Iria ficar sozinho, insone, com uma interrogação na testa e com seu café. E agora a companhia do seu líquido favorito não era suficiente. Seguiu-o até a porta e antes que ele alcançasse a maçaneta, segurou seu pulso –, nem estou querendo que venha atrás de mim. – completou, embora seu punho não pudesse mover-se por causa do aperto.

Right here, right now.

Aqui mesmo, agora mesmo.

- Você estava falando sério?

Frank bufou, ofendido.

- Eu não brincaria com uma coisa dessas.

- Então não vá.

Frank, que havia abaixado a cabeça provavelmente por conta de uma vergonha infantil, levantou os olhos timidamente para se certificar de que ele não estava brincando.

- E porque eu não iria?

A resposta de Gerard foi a que ele mais esperava e foi a que mais supreendeu o próprio. Não sabia se estava fazendo isso porque Frank era, afinal de contas, seu amigo e não queria magoá-lo, não sabia se era por sua namorada que não o satisfazia de maneira nenhuma ou se fazia simplesmente porque queria. Sabia que queria, esse tempo todo. Claro, a declaração provavelmente não estava inclusa no pacote. Mas se viera de bom grado, por que recusar? O importante era que seus corpos estavam ligados e unidos, mais próximos do que jamais estiveram em eras.

E ele entendeu de novo. Entendeu no minuto que seus lábios estavam juntos, quando segurou o rosto dele com as duas mãos e fez o café cair no chão com um barulho abafado, sujando todo o carpete do hotel. Percebeu que uma coisa que estava começando tão naturalmente poderia transcorrer melhor do que a merda de relação que fora arranjada com aquela mulherzinha chata e fútil. Antes de tudo, Frank era seu amigo.

E daqui para frente seria seu amante.

Seu café quente de todas as manhãs.

E das noites também.

So take a step back, tell me what you wanted,

Então dê um passo pra trás, me conte o que você quis,

- Gerard. – ele deu um passo para trás. – Você… tem certeza?

- Toda-a-certeza – falou, dando um beijo em um local diferente a cada palavra. – Mas eu continuo não te perdoando.

Frank fez uma expressão preocupada, a despeito de estar beijando-o com todo o carinho e compaixão que podia.

- Perdoar?

- Por você não ter falado antes e por ter me visto ficar com ela, quando tudo o que eu queria era não estar com ela.

- Desculpe, então.

- Okay, mas pague com beijos.

Certo, isso era só o começo. Porque tudo o que Gerard começava, ele terminava.

Falling off the deep end, feeling guilty as charged.

Caindo profundamente, sentindo culpada e carregada.

- Mas e ela?

Frank não estava pensando direito, e por que raios estava se importando com aquela mulherzinha?

- Esqueça, ela não tem importância.

Não teve, não teria. Ela seria apenas uma linha no livro de Gerard. Enquanto o seu enredo estava bem à sua frente, a sua razão e esperança de que houvesse um final que realmente valesse a pena.

Bullets are scene.

Balas são cena.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!