Bullets
1 Capítulo Único - Por favor
De todas as coisas que haviam acontecido, aquela era a última que Thomas esperava acontecer.
Tinha deixado Newt no Palácio dos Cranks. Tinha abandonado o amigo – ou talvez até mais do que isso? – e vinha passando os dias pensando apenas nele desde então. Via Minho sofrer e sentia-se culpado por estar se sentindo tão mal. O asiático conhecia o loiro há dois anos, enquanto Thomas o conhecia há apenas algumas semanas. Mas o que podia fazer? Amava Newt, e se odiava por ter percebido isso tão tarde.
E então estava ali, o loiro em cima dele, parecendo determinado a arrancar seus olhos e jogando em sua cara todas as coisas ruins que já havia feito. Naquele momento, percebeu que preferia encarar outros Cranks, enfrentar Teresa ou até mesmo submeter-se ao CRUEL, do que ouvir o amigo falando de todas aquelas coisas. Nada poderia ser pior.
- Quer saber por que manco assim, Tommy? Já lhe contei? Não, acho que não.
Com descrença, percebeu que o loiro realmente nunca havia lhe contado aquela história, e apesar do momento inoportuno, sentiu-se magoado.
- O que aconteceu? – pegou a arma e, enquanto ouvia Newt explicar o motivo de sua perna manca, horrorizado por saber que o garoto quase morrera por sua culpa, o loiro pegou a mão de Thomas que segurava a pistola e levou-a direcionada para a própria testa. O moreno estava quase surtando. O que Newt estava fazendo?
- Agora, faça sua parte! Mate-me, antes que me torne um desses monstros canibais! Pedi isso a você, e a ninguém mais. Vamos, atire!
Thomas sentiu que estava prestes a chorar. Sabia que o loiro havia deixado o bilhete para ele por saber que, diferente de Minho, Thomas não era impulsivo. Não rasgaria o bilhete e sairia correndo atrás do amigo, mas Newt devia saber que Thomas não conseguiria fazer aquilo. Como conseguiria matá-lo com tantos sentimentos em conflito?
Ouvia o garoto continuar falando, mas as palavras o machucavam tanto que se limitou a esquecê-las assim que elas entravam em sua cabeça. Esquecê-las rápido o suficiente para que não alcançassem seu coração. Mas não conseguiu evitar o que Newt disse em seguida.
- Mate-me agora, seu covarde de mértila. Prove que é capaz de fazer algo certo, para variar. Livre-me dessa situação miserável.
- Newt, talvez a gente possa...
Não conseguia fazer aquilo. Percebeu com horror que, se o amigo estivesse consciente, poderia matá-lo. Pelo menos Newt saberia o que estava pensando, o que estava pedindo. Mas não aguentava ouvir o amigo falar com aquela voz e simplesmente atirar. Newt precisava ser salvo.
- Confiei em você. Agora puxe o gatilho!
- Não posso.
- Puxe!
- Não posso!
Sentia lágrimas pelo rosto. Não era forte o suficiente para fazer aquilo, e sentiu as palavras de Newt fazendo sentido. Era um covarde, se importava apenas consigo mesmo. Não tinha coragem de salvar Newt dele mesmo, e por isso, aceitou completamente que o loiro o odiasse.
- Mate-me, ou então vou acabar com a sua raça – seu olhar era tão feroz que Thomas não duvidou. – Vamos, ande logo com isso!
- Newt...
- Faça isso, antes que me torne um deles!
- Eu...
- MATE-ME! – e então Thomas viu. O olhar de Newt estava lúcido, sem nenhum sinal da loucura anterior.
Thomas olhou dentro dos olhos azuis do amigo, do amante (poderia chamá-lo assim?), daquele que o acolheu sem dúvidas quando chegou à Clareira. Viu naquele olhar a primeira vez que Newt lhe dirigiu a palavra, o encanto até então desconhecido pelo garoto. Viu quando Teresa chegou à Clareira e Newt o olhou com raiva ao ver que a garota havia chamado por Thomas. Viu quando Newt o perdoou por ter ajudado o CRUEL, quando fugiram juntos, o loiro mancando apoiado em Minho e Thomas desejando estar no lugar do asiático. Viu os dois no deserto, conversando para passar o tempo. Na época, a mente do moreno estava em Teresa, e ele se arrependia agora que via o amigo sucumbindo à loucura.
Viu quando lutaram contra o CRUEL, quando enfrentaram os Cranks, quando quase morreram no meio do deserto, lutando contra as estranhas criaturas do CRUEL em meio à tempestade. Viu quando tomaram a decisão de não recuperarem as memórias, o choque no rosto do loiro quando foi anunciado que ele não era Imune, a raiva que ele passou a sentir desde então.
E então viu como ele era pelos olhos de Newt. Não aquele Newt Crank, que o havia xingado de tudo que provavelmente guardara consigo, mas o Newt que ele amava. O Newt que demonstrava ciúmes ao ver Thomas perto de Teresa ou Brenda, o Newt que o abraçava e beijava e que o amava mais do que tudo. O Newt que tinha consciência de que Thomas o amava, e mais que isso, que o prezava como amigo.
- Por favor, Tommy. Por favor.
Thomas desistiu. Aquele era seu Newt. Não aquele que queria que ele o matasse para que se culpasse, mas aquele que queria que Thomas o matasse para poupá-lo. Para que o loiro não sofresse mais.
- Eu amo você – sussurrou Thomas, e o sorriso triste no rosto de Newt mostrava que o garoto tinha ouvido. E então puxou o gatilho, tendo tempo de ouvir o mais velho responder.
- Obrigado.
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