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2 Bloco 1: Companheirismo
Bloco 1: Companheirismo
— Harry, honestamente e mais uma vez, me desculpe.
Rony pediu, com as mãos unidas, pela centésima vez na sexta-feira seguinte.
A verdade é que tinha ficado muito surpreso com o convite feito de forma tão corriqueira pelo amigo depois de uma semana nada normal. O Potter tinha evitado com maestria suas aproximações e o ignorado toda vez que tentava iniciar uma conversa. Durante dias assustadores jurou que tinha perdido o amigo.
— Estava muito bêbado. — continuou realmente envergonhado. — Não quis ofender você e muito menos Hermione.
O ruivo viu uma sobrancelha negra arqueando com lentidão e se perguntou se Harry estaria se questionando se deveria lembrá-lo que só tinham bebido duas cervejas.
Para sua sorte, ele apenas respirou fundo, fechou os olhos por dois segundos e disse:
— Tudo bem, já passou. Não te chamei aqui para falarmos sobre o meu relacionamento com a minha mulher de novo.
Rony desviou os olhos e engoliu em seco. Esse lado passivo agressivo era novidade.
— Na verdade, — o Potter prosseguiu meio sem jeito. — Te chamei aqui para que possamos falar dos seus relacionamentos.
Rony quase cuspiu.
— Que? Harry! De onde tirou isso? Que besteira...
— Falo sério, Rony. Da última vez você tocou no nome da Lilá... Novamente! Talvez você não tenha superado esse término ainda... Afinal, vocês estavam há um bom tempo juntos e...
— Besteira! — interrompeu com firmeza, apesar de estar vermelho até as orelhas.
— Não tem problema, Rony. Somos amigos.
O ruivo ficou um minuto em silêncio, encarando Harry com olhos estreitos e desconfiados, apenas para jogar a cabeça para o lado e inquirir:
— Foi Hermione quem te disse para fazer isso, não foi?
— Que? — Harry exclamou, olhos arregalados e jogando o corpo para trás na defensiva. — É claro que não. Ela nem insistiu duzentas vezes para que conversássemos sobre isso.
Se encararam e riram.
Simultaneamente levaram os copos aos lábios e Rony aproveitou o alívio do líquido refrescando sua garganta. Pensou que o assunto estivesse encerrado. Grande engano.
— Porém — Harry começou sem olhá-lo nos olhos. — Devo admitir, Rony: acredito que ela possa estar certa. Falar pode fazer com que você se sinta melhor. E eu garanto que nada do que for dito sairá daqui.
Foi a vez do Weasley arquear a sobrancelha.
— Nem para os ouvidos da sua esposa?
O ex-apanhador balançou a cabeça, negando com calma.
— Nem para os ouvidos dela.
O queixo de Rony caiu. Uma conversa sobre relacionamento não tinha sido apresentada em nenhum dos possíveis cenários imaginados para aquela noite. Não sabia ao certo se gostaria de ter aquela conversa; se sentiria ainda mais humilhado diante do Potter, como um pré adolescente pedindo conselhos sobre garotas para um homem adulto. No entanto, depois de ter dito o que disse sobre o casamento do amigo e sua esposa, era impossível não se sentir devedor.
Engolir o orgulho não foi nada agradável.
Deu de ombros, como se não se importasse muito.
— Ok. Não é como se tivéssemos outros assuntos tão mais importantes para discutir, não é? — o ruivo tentou uma brincadeira mesmo com a voz alongada de amargura e ironia. — E então, conselheiro amoroso, o que me diz?
Harry olhou-o, sério e sem qualquer preparação disse:
— Rony, você é sempre muito babaca quando se apaixona.
O ruivo não demorou nem meio segundo para reagir e quando o fez a voz estava ainda mais amarga e irritada:
— Ah! Muito obrigada, Harry. Era isso mesmo que eu queria ouvir para animar a minha sexta-feira.
O Potter ergueu a mão.
— Rony, escuta. É cruel o que estou dizendo, admito, mas... Algumas coisas que você fazia com a Lilá, por exemplo, eram difíceis de aceitar... Talvez devesse ter falado isso antes... — concluiu pensativo, bebericando sua cerveja.
— Ah, é? E que tipos de coisas, Casanova?
— Bom... Lilá, apesar de ser uma garota meio sonsa, sempre esteve ao seu lado. Sempre foi sua companheira e apoiadora. E você? Eu não me lembro de uma vez que você a tenha apoiado em nada. Quando ela disse que estava pensando em fazer teatro, você afirmou que ela tinha tantas expressões quanto uma colher.
— E você pode me julgar, Harry Potter? — Rony questionou furioso cruzando os braços na frente do peito. — Porque eu me lembro muito bem que quando Hermione começou com aquele negócio de F.A.L.E o único que a apoiou foi Dumbledore e vocês já estavam de enrosco que eu sei.
— Certo, ponto pra você. É verdade, eu também fui babaca, porém eu tinha quinze anos na época. E amadureci.
Os olhos verdes ficaram desfocados como só ficavam quando Harry falava da esposa.
— Hermione sempre foi minha companheira em tudo, ela nunca me abandonou, mesmo nos momentos mais críticos. Não me esqueço disso, sabe? Dos riscos...— balançou a cabeça para afastar um pensamento ruim. — A questão é que eu também quero que ela se sinta segura ao meu lado, que saiba que torço por ela e que, qualquer que seja o resultado de suas decisões, bom ou mau, eu vou estar ali, por ela... sempre.
Rony não deixou de encarar o amigo com firmeza, como se quisesse garantir que o que estava sendo dito era verdade. Harry não piscou nem desviou os olhos, sua expressão sonhadora permaneceu e ele continuou:
— É estranho dizer mas depois de tudo que aconteceu em Hogwarts e depois que as coisas voltaram ao normal e Voldemort estava finalmente derrotado, meu relacionamento com Hermione estremeceu. Eu queria viver tudo o que não tinha vivido, queria viajar, me divertir com tranquilidade e ela queria voltar pra escola e estudar para conseguir um cargo no Ministério. Foi um verdadeiro impasse. — ele riu de forma misteriosa. — Tivemos conversas intermináveis e uma discussão muito séria. Ela me disse que eu fosse, já que queria tanto, e eu furioso disse que iria mesmo. Acredite, eu até arrumei as malas, mas não fui.
Ele parou para beber, deixando Rony curioso sobre o fim da história.
— E? Por que não foi?
Harry deu de ombros.
— Como eu poderia ir e deixar para trás a mulher que eu amo em uma das fases mais difíceis da vida dela? Sem os pais e, como todos nós, muito fragilizada. Eu fiquei, a ajudei nos estudos, cuidei dela... E percebi que a nossa relação mudou, amadureceu. Agora era uma via de mão dupla, eu confiava nela e ela em mim. No dia da formatura, eu a pedi em casamento.
O silêncio foi reflexivo antes do Potter tornar a falar:
— É isso. Se acredita que a pessoa que está ao seu lado não merece sua ajuda e apoio ou se está com uma pessoa que não faz nenhuma dessas duas coisas quando você precisa, seria melhor não estar em um relacionamento.
Lançou um olhar significativo para o amigo.
Rony mordeu a língua.
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