Budapest
4 Cap. 4 - Let me help
Notas iniciais
Ao voltar para o hotel, sua perna latejava com a dor proveniente do corte em sua panturrilha, entorpecendo um pouco sua visão. Mancando, adentrou o quarto, onde Clint se encontrava preso à cadeira dando solavancos para tentar se libertar.
– Ah, finalmente! Você não sabe como é... – Perguntou ele surpreso, quando ela se posicionou de frente para ele. – O que aconteceu?
– Não importa, não é da sua conta. – disse se movendo lentamente.
O sangue continuava escorrendo, e as várias escoriações em seu rosto, não lhe faziam se sentir melhor. Podia perceber que perderia os sentidos se não retirasse a lâmina da faca alojada em sua perna e interrompesse o sangramento.
– Não parece que tudo está bem.
Ignorando-o, tentou tocar o ferimento para ver a situação e quase desejou que o homem que a havia ferido ainda estivesse vivo, só para que pudesse ter o prazer de mata-lo outra vez.
Odiava ter que recorrer a qualquer tipo de ajuda, mas dessa vez ela percebeu que era preciso deixar o orgulho de lado e fazê-lo. Um pouco tonta, aproximou-se de seu “prisioneiro”.
– Barton?
– Ainda aqui, considerando que estou acorrentado.
– Por mais que eu me odeie por pedir algo assim, especialmente à alguém como você, eu preciso que você me ajude. É o único que pode agora.
– Me solta dessa cadeira então.
– Como posso saber que não vai me matar quando eu soltá-lo?
– Não vai. Mas como você mesma colocou, sou sua única alternativa. Não tem escolha, vai ter que confiar em mim.
Ela estremeceu com tais palavras. Confiança. Uma ligação tão forte, e, no entanto facilmente extinguida. Para ela, esse era um termo que já não existia há muito tempo em seu vocabulário.
Sem muitas alternativas, ela aproximou-se e desamarrou suas mãos. Ele deu apoio a ela, a levando até sua cama, onde se sentou.
– Eu não sou médico, mas farei o que puder para dar um jeito nisso. Há um kit de primeiros socorros aqui, por acaso?
– Acho que no banheiro de ter algo assim.
Ele se levantou, e logo voltou com a caixinha em suas mãos. Ajoelhou-se na frente dela e retirou sua bota, cortando depois a calça até o ferimento.
– Vai me contar o que aconteceu? – disse ele limpando o local.
– Não.
– Ainda não confia em mim? – ele ficou sem resposta. Nada o impediria de ainda tentar mata-la, então a resposta continuaria a mesma.
Usando uma pinça ele arrancou a lâmina que se alojara na perna dela, enquanto Natasha serrava seus dentes contendo a dor.
Com cuidado, ele limpou e desinfeccionou o local, causando uma terrível ardência com o contato do liquido incolor no corte, fazendo Natasha serrar os punhos para conter o grito entalado em sua garganta.
– Desculpe. – ela fez um aceno com a mão indicando que não importava, o incentivando a terminar. Por fim, ele deu alguns pontos, e enrolou a perna dela com uma faixa.
Ele sentou-se ao seu lado e passou a examinar seu rosto, que possuía um corte no supercilio, além de outras escoriações, resultados do impacto do seu corpo na escada de incêndio enferrujada. Ele limpou todos esses, tratando com estranha delicadeza cada pequeno machucado.
– Obrigada Barton. – disse ela levantando a cabeça, e encarando os olhos azuis do arqueiro que a observava. Ela estranhou aquele olhar. Corajoso, firme, determinado e curioso; não o medo que sempre existia no olhar de todos que se deparavam com a Viúva-Negra tão de perto. – Por que resolveu me ajudar? Poderia ter me matado, e finalizado a sua missão, aqui e agora, mas não. Ao invés disso, você decidiu me ajudar, por quê?
– Ainda não sei exatamente porquê, mas talvez uma resposta possa depender somente de você.
– O que quer dizer?
– Digamos que você despertou meu interesse. Disse para mim que nunca quis nada daquilo, e é isso que eu quero tentar entender... Vai me contar o verdadeiro motivo de querer matá-lo?
Relutante, ela assentiu com a cabeça.
– Acho... Que você deve saber a verdade. Embora eu ainda não confie em você, espero que faça com que a SHIELD, pelo menos, largue do meu pé.
– Depois eu decidirei sobre isso.
– E já vou te avisar, é uma longa história.
– Você tem toda a minha atenção.
– Eu ainda era uma criança quando o conheci. Morava com minha família na Rússia e meu pai trabalhou com ele por um longo tempo. Depois de alguns anos, decidiu deixar os negócios, mas não perdeu o contato com Darrow.
“Quando minha irmã mais nova nasceu, ele percebeu que tinha que isso tinha que acabar. Eu deveria ter uns nove anos nessa época. Apesar de tudo, ele conseguiu abandonar o vício com substâncias, mas nesse ponto ele já havia acumulado uma dívida alta com Darrow. Ele não tinha dinheiro para pagar nem sequer metade desse débito. Em uma das cobranças dele, minha casa foi “inexplicavelmente” incendiada. Meu pai e minha mãe morreram naquela noite, mas eu consegui tirar a mim e a minha irmã de lá, antes que fosse tarde demais. – disse ela, os olhos distantes com a lembrança.”.
– Continue. – disse ele, percebendo a hesitação dela.
– Ficamos sozinhas, e assim, passamos a morar em uma instituição do governo para órfãos. No pouco tempo que fiquei lá, descobriram sobre minha facilidade para desenvolver novas habilidades. Fui separada dela e passei mais de cinco anos recebendo os melhores treinamentos do governo e posteriormente me tornei uma espiã da KGB. Certo tempo depois trabalhando para a Rússia em dezenas de missões, fui recrutada para o programa Viúva-Negra, e acredite quando eu digo que o treinamento ao qual nos submeteram nos fez desejar nossa própria morte. Eu estava para ser ativada, mas fugi. Quando eu estava para completar 19 anos, se não me engano, Darrow me encontrou, e me lembrou da dívida de meu pai. Como eu não podia pagar, ele propôs que eu realizasse alguns serviços para ele, e então quitaria a dívida. Eu estava pronta para negar e acertar um tiro na cabeça daquele filho da mãe, mas ele ameaçou minha irmã. Disse que a mataria se eu não colaborasse; se não fizesse seu trabalho sujo. Posso ter sido treinada para esconder, e até mesmo para não ter sentimentos “fúteis”, mas eu ainda tinha essa capacidade. Sentir. Principalmente quando se tratava dela. Eu tive que aceitar, era o único jeito de ela sobreviver.
“Por muitas vezes fui mandada para matar os devedores de Darrow, e também suas famílias e amigos. Porém, quando fui enviada à Alemanha, com o objetivo de matar a filha caçula de um importante “empresário” concorrente de Darrow, Dreikov, me recusei a continuar com aquilo. Então eu fui presa e levada de volta a Rússia, onde fizeram uma nova lavagem cerebral em mim. Dessa vez, eu não sabia quem eu era, ou quem eu realmente já tinha sido uma vez. Era como se tivessem colocado outra coisa em meu lugar. Tudo o que eu desejava era matar, e seguir cegamente as ordens de Darrow. Tudo o que eu era, se resumia em uma perfeita atuação do que foi dado a mim na maldita Sala Vermelha.”.
“Eu fui enviada para a Alemanha, e matei a garotinha na frente de seus pais. O grito da mãe dela, de alguma forma, conseguiu trazer à superfície um mínimo resquício da Natasha Romanoff. Como se eu tivesse tomado uma pancada muito forte na cabeça, e isso fez com que eu retomasse o controle. Quando eu vi a garota morta no chão frio, eu percebi... – ela parou, inspirando profundamente antes de continuar – Percebi que era a minha irmã. – disse, com uma lágrima teimosa escorregando por sua bochecha, antes de limpá-la rapidamente. – Naquele momento, algo acordou dentro de mim, eu mudei. Era estava no controle agora, e com um enorme desejo de vingança. A partir daí, tudo começou. São Paulo, o incêndio do hospital... Em todas às vezes que eu tentava matá-lo, as ações dele colocavam outros inocentes na linha de tiro. E ele sempre conseguia escapar, pensando que tivesse me matado. Agora você entende Clint? Entende porque tenho que fazer isso? Eu tenho que matá-lo.”
– Natasha eu entendo como se sente. Mas vingança não vai poder mudar o passado. Faça da maneira certa agora. Ajude-me a prendê-lo; depois levamos o caso a SHIELD e eles nos darão a ordem para mata-lo.
– Ah, por favor. Você acha que eles acreditariam em uma palavra do que acabei de lhe dizer? Realmente acredita no que está me propondo? No final Darrow ainda daria um jeito de comprar a própria liberdade, ou então fugiria novamente como a vítima, como sempre aconteceu.
– Posso garantir que isso não aconteça.
– Vamos lá, Barton. Você sabe que não é tão fácil assim.
– Nada é fácil para pessoas como nós Natasha. A vida sempre se encarrega de nos fazer pagar pelo que fazemos... Os pecados que cometemos, muitas vezes voltam para nos assombrar. Mas cabe a nós decidir o que fazer, é nossa a decisão sobre escolher o que é certo e errado.
– Sei bem disso, mas receio que essa não seja uma questão entre certo e errado. Clint, eu vou fazer isso, ele não vai sobreviver dessa vez.
– Se você não acredita que o que eu disse realmente vá funcionar, então façamos outro acordo. Capturamos ele, e você passa a trabalhar para os mocinhos. Torne-se uma agente da SHIELD.
– Eu seria presa assim que colocasse os pés em solo americano.
– Posso mudar isso. É claro, se você cumprir nosso acordo.
– E se...
– Se não houver outro jeito, não te impedirei de cumprir sua vingança. E então? Trato feito? — disse ele, estendendo a mão.
Ela hesitou, encarando seu gesto, imaginando milhões de probabilidades do que poderia vir a acontecer se aceitasse mudar de vida.
– Natasha, eu te prometo que é uma vida melhor que essa. Não é fácil, admito, mas com certeza é melhor.
– Como sabe que a SHIELD vai aceitar isso? Pelo que sei, fazem de tudo para ter a minha cabeça em uma bandeja.
– Disso cuido eu. Tenho certeza de que eles não são burros, ao ponto de recusar uma oferta como essa. Depende só de você aceitar. O que me diz? – perguntou estendendo a mão para ela.
– Eu... Eu aceito sua oferta, Agente Barton. – respondeu por fim, pensando no que o futuro estaria reservando para ela, dali em diante, e segurou sua mão, selando o combinado. Ele sorriu verdadeiramente desta vez.
– Seja bem-vinda ao lado dos bonzinhos, Romanoff.
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