Bubbles And Leaves

3 03. Delivery Service


Notas iniciais
"Por fim, a terceira coisa que entrara na mente de Alfred e não saía de lá era a seguinte questão... Aquele cara seriamente era a pessoa que havia pedido pelo entregador mais atraente da pizzaria? Ele não parecia nada com o perfil que Alfred F. Jones imaginara. Não era uma mulher de trinta anos provocante ou uma adolescente aventureira. Era simplesmente um rapaz quieto com um sotaque incrível e roupas esquisitas."

03. Delivery Service

Na profissão de Alfred, não falta uma estória estranha para ser contada. Um entregador de pizza encontra todos os tipos de pessoas afinal, ainda que seja por alguns minutos. Há casos picantes, engraçados, bizarros e até mesmo perigosos – “Vocês acreditam que o cara me ameaçou com uma arma para não ter que pagar a pizza dele? Caramba, que diabos! Tudo isso por uma pepperoni?”. O caso preferido de Jones, no entanto, era de uma qualidade que raramente se vê em um serviço de entrega e foi exatamente por essa razão que ela se manteve popular nas conversas entre os entregadores por um bom par de anos: um caso romântico.

Tudo começou em uma noite monótona de serviço na qual Alfred não conseguia parar de pensar em como seria maravilhoso chegar em casa, tomar um banho, comer uma lasanha instantânea e assistir ao novo episódio do seu seriado preferido. Aquele não estava sendo um dos dias “Como eu amo esse trabalho!” para ele... Assim, foi com impaciência, com um bufar e com um revirar de olhos que ele lidou com o pedido inesperado de seu chefe, quando o turno dele estava prestes a acabar(!), para que todos os entregadores homens se reunissem em frente à cozinha.

O que era? Seja o que fosse, por que tinha que ser resolvido agora? Todos pareciam bastante tensos com uma certa possibilidade, pois não era segredo para a maioria dos rapazes que o James(entregador) andava transando no banheiro feminino das funcionárias com a Érica(garçonete) durante o horário do almoço. Justamente por não ser nenhum segredo para eles, houve uma preocupação geral se o James ficaria com problemas e, principalmente, se eles seriam considerados como cúmplices. Alfred F. Jones era possivelmente o único que estava mais aborrecido do que ansioso. Que se danasse o James! Sete bilhões de pessoas e ele quer transar logo com a Érica? Vinte e quatro horas em um dia e ele não conseguia esperar o fim do expediente? Bah! Aquele imbecil teria o que merecia por impedi-lo de assistir Supernatural!

– Eu vou fazer uma pergunta e eu quero uma resposta honesta. – disse o chefe em um tom solene, remexendo na sua barba por fazer e observando seus funcionários com um ar inquisidor — Eu não quero desculpas ou evasões, portanto sejam francos e diretos, homens. – todos inspiraram profundamente, assustados. A inspiração de Alfred foi a única que possuía apenas impaciência — Quem é o mais bonito entre vocês? A resposta “eu” não vale.

Em outro contexto, os homens poderiam ter se sentido mais irritados ou desconfortáveis e evitado uma resposta. No entanto, a onda de alívio coletivo que os contagiou fez com que eles se sentissem desinibidos e descontraídos o suficiente para darem uma resposta sincera.

– O Alfred!- o primeiro gritou em um tom brincalhão.

– É! O Alfred! – um segundo concordou e complementou com um assobio chamativo.

E todos foram concordando e fazendo brincadeiras como “Você não deveria estar desfilando em algum lugar em vez de entregar pizzas, Alfie?”. Oh. Se aquela houvesse sido uma pesquisa casual e tivesse parado por aí, seria uma boa estória de qualquer modo. Especialmente para o James que quase havia desmaiado em um dado momento.

Entretanto, o evento definitivo começou a acontecer quando o chefe pediu que as brincadeiras fossem cessadas e anunciou que, sendo essa a escolha deles, o Alfred seria o cavalheiro que entregaria a pizza de um cliente muito especial.

Fatos sejam ditos, o cliente se revelaria a pessoa mais especial da vida de Alfred...

– Quê?! Você está me punindo por ser bonito demais! Isso é tão injusto!

...No entanto, não era como se ele soubesse desse futuro, quando o enredo mal estava começando.

– A pessoa que fez o pedido colocou no acréscimo especial dele a solicitação de que nós mandássemos o entregador mais atraente da pizzaria. – o chefe explicou com um sorriso vagamente perverso — Fazia tempo que nós não recebíamos pedidos divertidos assim e achei que seria engraçado fazer uma pesquisa e mandar o nosso galã para a casa dela.

– Mas eu pensei que o meu último pedido seria... Bem, o último pedido!

– Falta meia-hora para o seu turno acabar e você pode fazer uma exceção em nome de uma boa piada.

Os colegas de Alfred concordaram com risadas e amigáveis tapas nos ombros. Traidores, todos eles. Se eles estivessem em Hogwarts, nenhum iria para a Lufa-Lufa. Infelizmente, reclamações à parte, Alfred tinha um emprego a manter e ele foi fazer a sua entrega com um ou dois resmungos e cogitando na possibilidade de pedir para assistir o novo episódio na casa de seu cliente, caso fosse isso que estivesse passando na TV.

Diferente dos seus colegas muito entretidos com o assunto desde o início, ele somente começou a pensar na identidade do seu cliente, quando tocou a campainha de sua residência e ouviu os passos dele se tornarem mais altos.

O cliente deveria ser uma mulher. Ela havia pedido especificamente pelo entregador mais atraente. Uma adolescente em uma festa de pijama ou uma mulher de trinta anos provocante eram as opções mais prováveis e menos interessantes, tendo em conta que Alfred tinha vinte e um anos e era gay. Bem, pelo menos, seria um tanto engraçado observar a reação tímida ou sensual da pessoa em questão. Ou era o que Alfred pensava, pois, para o seu enorme espanto, quem saiu daquela elegante e tradicional casa cor de creme foi um sujeito muito sério que podia ter a mesma idade que a sua, não fossem aquelas vestes de gente velha e chata. Um perfil completamente diferente do que o seu entregador estava trançando.

– Oh, desculpe-me pela demora. – ele falou com a polidez e o sotaque característico de um inglês. Depois de anos de experiência com documentários e séries, Alfred poderia reconhecer aquela pronúncia à la BBC em qualquer lugar e ele teve rapidamente um sobressalto animado com ela, precisando conter-se para não exclamar “Você é inglês!!! Wow! O seu sotaque é tão legal!” e acabar assustando o freguês. — Eu estava terminando de ajeitar a minha mesa.

Alfred estava estático e não conseguia parar de piscar e de remexer seus ombros. Várias, várias coisas estavam sendo confusamente processadas ao mesmo tempo por sua mente. A primeira era... Fatos fossem ditos, o sotaque daquele cara era perfeito e combinava totalmente com a voz grave e suave dele! A audição de Alfred entrava em êxtase quando aquele sujeito abria a boca.

A segunda era... Nossa, que tipo peculiar era aquele cliente. Quantos anos ele deveria ter? Ele parecia jovem, quase juvenil, porém isso era desmentido pelas suas roupas e pelos seus modos elegantes, confiantes e sérios, mais condizentes com os de um homem maduro.

Alguns segundos silenciosos se passaram entre a declaração do cliente e a resposta de Alfred, terminando quando o último saiu de seu breve estado catatônico.

– Sem problemas, cara. – Alfred sorriu um pouco nervoso. Ele abriu a mochila com pressa e retirou o pedido para dar a ele, evitando encará-lo nos olhos — Uma pizza vegetariana pequena e um suco de morango de quinhentos, certo?

– Precisamente. – o freguês confirmou com um meneio, estendo os braços para segurar a caixa e a garrafa, mas tendo algum trabalho para equilibrá-las após recebê-las — Muito obrigado. – ele deu um curto sorriso educado e fez um esforço legítimo para manter sua postura solene, ainda que estivesse praticamente pulando para segurar a pizza e o suco contra o corpo, enquanto tirava o valor da conta do bolso sua calça – A-Aqui está o dinheiro.

– Ah... Valeu?

Por fim, a terceira coisa que entrara na mente de Alfred e não saía de lá era a seguinte questão... Aquele cara seriamente era a pessoa que havia pedido pelo entregador mais atraente da pizzaria? Ele não parecia nada com o perfil que Alfred F. Jones imaginara. Não era uma mulher de trinta anos provocante ou uma adolescente aventureira. Era simplesmente um rapaz quieto com um sotaque incrível e roupas esquisitas.

Além do quê, se o entregador mais atraente da pizzaria havia chegado até ele, não deveria haver uma reação de sua parte? Nem que fosse um comentário brincalhão? Uma gargalhada? Uma inspeção atenciosa? Em vez disso, ele estava parado com uma expressão calma inabalável na frente de Alfred. Se aquilo era uma atuação, Alfred deveria reconhecer que ele não havia deixado o ato cair por um segundo.

O entregador, naquele instante, estava o observando com atenção, procurando indícios quaisquer de que aquele era o cliente certo e de que o seu pedido pelo entregador mais atraente havia sido atendido, contudo ele somente conseguiu obter um franzir desconfiado das sobrancelhas anormalmente grandes daquele cliente e justamente por ter ficado o encarando boquiaberto por tanto tempo.

– O que exatamente você está esperando? – perguntou o cliente, parecendo vagamente aborrecido e impaciente. O que era simples de entender, considerando-se que ele ainda estava com problemas para segurar seu pedido.

O que Alfred estava esperando? Honestamente? Qualquer coisa. Aquilo não estava sendo normal! Jones sentia-se ludibriado de uma maneira que ele não conseguia captar inteiramente e essa sensação era perturbadora.

– Nada. – Alfred negou espontaneamente, agitando o rosto para os lados e pondo as mãos nos bolsos da calça — Então... Hm. – ele umedeceu seu lábio inferior e abaixou seu rosto, levantando apenas seus olhos para o cliente no que seria um raríssimo apelo silencioso seu. Ele já estava indo embora! O cara realmente não ia dizer ou fazer coisa alguma?! — Eu estou indo. – ele tentou dar um último aviso.

– Certo. – o homem concordou, arqueando uma sobrancelha como quem dissesse “Duh”, mas em linhas um tanto mais britânicas. Algo como “Pelos meus crumpets e pela rainha, é claro que você está saindo daqui”.

E com essa deixa o entregador se retirou.

Andando até a sua moto vermelha com a logomarca da pizzaria, Alfred ainda arriscou vários olhares na direção dele e, embora o senhor sotaque-atraente-roupas-nem-tanto tenha continuado a observá-lo por um longo tempo do seu portão, ele não esboçou nenhuma resposta que sugerisse que ele desse a mínima para a aparência da pessoa que entregou a sua pizza. Deveria ter acontecido um engano.

De qualquer modo, Alfred tinha mais com o que se preocupar. O trabalho estava acabado e isso significava correr para casa e tentar pegar o episódio de Supernatural que passaria em quarenta minutos! Prioridades, prioridades!

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Essa estória poderia terminar nesse ponto e continuar a ser curiosa. Entretanto, como o mundo às vezes gira em direções muito interessantes, mais fios foram tecidos ao seu desfecho.

Duas semanas depois desse incidente, outro pedido de pizza veio da mesma residência no meio da noite. Uma pizza de palmito pequena com um suco de laranja de 500. Como acréscimo, o cliente colocara a seguinte instrução...

– O quê?!

– O cliente pediu que você dissesse que ele era atraente. — o seu chefe repetiu lentamente, como se saboreasse sua sentença — Nessas exatas palavras.

– E ele pediu especificamente por mim? – Alfred estranhou. Aquilo não batia com o que ele havia observado do seu cliente na outra noite. Ele não tinha certeza nem se o freguês havia prestado atenção no seu rosto, então era totalmente estranho que ele quisesse vê-lo novamente.

– Não, mas tendo em conta que vocês são conhecidos, eu pensei “Quem mais poderia ser tão apropriado para o trabalho?”. – o seu chefe o corrigiu com um sorriso muito satisfeito.

– E nenhum outro nome apareceu?!

Qual é! Alfred tinha planos de sair mais cedo do trabalho para assistir uma maratona de anime!

– Oras, Jones. Essa situação está sendo hilária. Vamos lá. Não é tão ruim assim. Você fará parte de uma estória divertida e talvez tenha um pouco de chances no amor com essa senhora?

Normalmente, Alfred corrigiria o engano na hora dizendo que não haveria chances alguma de que aquilo acontecesse. Digo, tenham dó, ele era cem por cento gay. No entanto, ele lembrou-se de que o cliente da casa pomposa era, de fato, um cavalheiro e por mais que as chances de surgir um envolvimento entre eles fossem bastante remotas, elas não eram inexistentes. Hm.

– Eu gostava mais de você quando você não se envolvia tanto com os pedidos. – bufou Jones com um desgosto muito visível, apanhando a nota das mãos de seu chefe.

Após cerca de quinze minutos, ele estava novamente naquela residência tradicional.

Deparando-se com aqueles muros cor de creme, com aquelas flores adornando um familiar portão gradeado de ferro, ele deu um fundo suspiro repleto de cansaço e desconforto enquanto descia de sua moto para tocar a campainha. Afinal, dessa vez, diferentemente do que havia ocorrido na primeira, a sua cabeça esteve lotada em todo o trajeto e ela não ficou mais leve naquele momento.

Vejam o problema.

Alfred, como foi mencionado, era gay. E o cliente, como foi mencionado, era um cara da sua idade com voz e sotaque extremamente agradáveis. Para complementar, o freguês era um cara que havia solicitado pelo entregador mais atraente da pizzaria e agora seria chamado de “atraente” por este. Juntando esses fatos com o comentário implicante de seu chefe, uma matemática começou a desenvolver-se inevitavelmente na cabeça do Jones.

Dois caras gays e atraentes reunidos poderiam formar um resultado não-nulo. Esse era o cálculo que enchia a sua mente.

Não era como se Alfred esperasse que eles vivessem um grande amor cinematográfico. Ele sabia que, orientações sexuais à parte, ele era o entregador sexy e aquele era o cliente com péssimos gostos de vestimenta. Era óbvio que os seus destinos tão diferentes não poderiam se misturar tanto.

O que estava em seus pensamentos não era realmente a possibilidade de que ele e o freguês britânico vivessem uma estória romântica avassaladora, mas a graaande chance de que eles pudessem flertar um pouco um com o outro. Era possível, seria divertido e tornaria menos desconfortável aquela situação bizarra.

Essa mesma possibilidade trouxe outra questão aos pensamentos de Jones. Será que ele gostaria de ser flertado pelo cliente da voz agradável? Hmmmmm. Por um lado, o cliente da voz agradável... Bem, ele tinha uma voz agradável. Grave, suave, sexy e marcada pelo lendário sotaque inglês no estilo BBC. Uma voz que facilmente poderia deixar Alfred excitado até os seus limites se viesse em um sussurro próximo ao seu rosto em um momento íntimo. Por outro lado, tirando a voz, ele não se lembrava de muita coisa da aparência do seu cliente, tirando as suas recordações pouca animadoras de que ele tinha sobrancelhas enormes e se vestia como um velho experimentando as roupas do seu bisavô.

Sem falar que o cara havia pedido para ser chamado de atraente pelo seu entregador de pizza. Vamos lá. Não era exatamente o tipo de comportamento se poderia esperar de um sedutor. Talvez Alfred não devesse ficar tão empolgado. Talvez aquele cliente fosse muito...

– Olá. Aqui está o dinheiro. O meu pedido...?

...Muito, muito atraente.

Os olhos verdes dele foram o primeiro choque de Alfred. Na sua última visita, Alfred esteve tão espantado com o gênero inesperado do cliente, com o seu sotaque e com o seu comportamento estranho que não se lembrou de checar sua aparência. Dessa vez, no entanto, ele estava tão atento a ela que aqueles olhos quase o empurraram para trás. A cor deles era simplesmente incrível. Ela era de uma tonalidade escura com reflexos claros, como uma jóia colocada contra o sol, e Alfred não sabia como havia a deixado passar despercebida.

Mesmo porque os olhos eram somente um de vários detalhes no conjunto de traços no estilo “eu-reforço-o-estereótipo-de-que-homens-britânicos-são-super-desejáveis” do seu cliente.

Prestando maior atenção, aquele cara tinha um físico de tirar o fôlego. Ele tinha um corpo delgado com curvas discretas nos lugares certos e uma leve camada de músculos o encobrindo. As pernas dele eram ligeiramente longas e as coxas dele eram... Eram algo no qual Alfred não devia fixar seus olhos daquele jeito, quando o cliente estava parado bem na sua frente, com uma mão estendida segurando o que parecia ser o valor exato da conta, e com as suas recentemente apreciadas orbes se enchendo mais uma vez de desconfiança.

– Ah, hm... Ok! – ele sorriu e agitou seu rosto rapidamente, tentando manter-se desperto. Ok, ok. Mantenha-se calmo, Jones. Não perca a pose. Você precisa parecer bem na frente desse estrangeiro sexy que gosta de pizzas. — Está aqui também!

“Está aqui também”... É claro que estava lá também! O cliente não estava dando o dinheiro dele para a caridade! Parabéns, Alfred. Você conseguiu dizer uma frase no top dez “Sentenças desnecessárias e embaraçosas”. Argh. Se ele pudesse paralisar o tempo para bater a sua mão na sua testa sem parecer mais estranho ainda...

– Muito obrigado. – o cliente agradeceu tranquilamente com um bufar, antes de apanhar sua pizza e seu suco, ignorando por completo o drama interno de Alfred.

Pela aquela indiferença, dava para ver que a estória terminaria do mesmo jeito de antes. O freguês receberia a pizzaria, o herói receberia o dinheiro e pronto. Sim, sim. Possivelmente, seria esse o encaminhar daquele segundo encontro... Se Alfred F. Jones não tivesse um acréscimo especial a cumprir ou se ele não tivesse reparado que o senhor corpo-atraente-escondido-por-roupas-horríveis à sua frente parecia estar esperando alguma coisa dele a julgar pela ansiedade que o seu olhar(adorável) revelava e pela maneira como ele estava se remexendo inquietamente.

Alfred usualmente não era muito bom em ler a atmosfera, mas aquele cliente estava sendo evidente demais.

Ele engoliu em seco e reuniu coragem.

– Senhor...?

– Sim? – o cliente inclinou a cabeça para o lado. Adoravelmente.

Arghhhhh.

– Você realmente fez aquele pedido? – Alfred perguntou de uma vez, encarando a calçada com determinação. Chega daquela tortura. Era agora ou nunca. De qualquer modo, era o cliente que havia feito aquele pedido embaraçoso e era ele que deveria sentir vergonha por ali! Alfred F. Jones estava sendo totalmente profissional!

Bom, excluindo a pequena parte que envolvia a sua certa atração sexual pelo freguês. Detalhes, detalhes.

– O quê? – os olhos verdes do freguês arregalaram-se um pouco com essa questão. Adoravelmente.

A mão de Alfred foi levada para a parte de trás do seu pescoço automaticamente. O contato o permitiu sentir o quanto ele estava quente.

Sempre pensando que ele deveria permanecer legal e não perder a pose, ele fez o seu melhor para manter um sorriso cativante em seu rosto, porém era notório que o seu rosto estava fazendo contorções esquisitas e ele nem queria saber que tipo de resultado aquilo estava produzindo na sua expressão.

– Para dizer a você... – ele soltou um riso nervoso e respirou fundo — Hm... Q-que você é atraente.

Houve um silêncio profundo no qual Alfred, mesmo sendo tão heróico e intrépido, não conseguiu ter coragem de encarar o cliente.

Por cerca de dez segundos.

Depois desses segundos, o silêncio foi rompido por uma gargalhada explosiva e interminável do cliente.

Alfred levantou seus olhos e observou com uma mistura de estranhamento e revolta. Aquele sujeito seriamente estava rindo assim na cara dele?! Certo, ele ficava mais de cinco mil vezes atraente quando estava rindo, mas que droga!

– Oh, desculpe-me! – o cliente tentou desculpar-se, engasgando-se com o próprio riso. Ele mal conseguia abrir os seus olhos os quais estavam enchendo-se com lágrimas. — Eu não estava certo de que eles estavam lendo os meus acréscimos, então...! – o cliente tentou olhar diretamente para Alfred, mas essa ação apenas o fez intensificar sua risada a ponto de quase cair no chão e derrubar sua pizza — Oh, céus, eu estou morrendo! Desculpe-me, desculpe-me! Eu não sabia que eles... E a sua cara... – ele apontou para o rosto de Alfred, deixando seu rosto expressar um divertimento inesgotável — Está tão vermelha!

– Bem, você é atraente. – Alfred admitiu corajosamente com os ombros erguidos e sua face quase alcançando uma temperatura de ebulição. A ideia de que o cliente risse dele, embora ainda constrangedora, parecia menos assustadora depois de vê-lo fazer isso por quase cinco minutos.

Felizmente, essa declaração conseguiu interromper o riso do cliente e aumentar a intensidade de escarlate do seu rosto de imediato.

– Ah. – a expressão do cliente tornou-se bastante séria e ligeiramente desconfortável. Supostamente, ela deveria causar alguma hesitação da parte de Alfred, entretanto ela somente conseguiu dar a ele mais ânimo por ser a primeira vez que ele observava uma reação menos confiante e indiferente daquele freguês.

– Eu estou sendo sincero aqui. Não é necessário que você bote isso em um pedido de pizza para ouvir um elogio, cara.

– Não seja tão monótono. – o cliente fez um bico discreto e franziu as sobrancelhas. O seu rosto ainda não havia perdido o rubor adicional que adquirira há pouco. — Foi somente uma brincadeira inocente. – ele assumiu um ar vagamente professoral combinado com um inexplicável sorriso orgulhoso, uma postura um tanto engraçada se levado em conta o fato de que ele permanecia com uma pizza e um suco nos braços — Como eu praticamente não saio de casa e não fiz amigos nesse lugar, essa foi a atividade mais divertida e simples que fui capaz de encontrar. Você recebe o dinheiro, eu dou risadas. Todos ganham.

– Você se mudou há quanto tempo? – Alfred indagou com genuína curiosidade.

– Eu estou nos Estados Unidos há dois anos e estou nesse estado há três meses. Eu não consegui me acostumar com os dois, no entanto. – o cliente revelou em resposta, com um semblante que exprimia certo pesar.

– Bah, com o tempo você vai gostar daqui! – um sorriso muito animado tomou o rosto de Alfred F. Jones — Esse lugar é ótimo. Ele tem excelentes...

– Pizzarias? – o cliente ergueu uma sobrancelha e deu um meio-sorriso implicante.

– Há, há, há! – Alfred riu irônica e irritadamente. — Eu iria dizer lojas de gibis, sabe!

– Minhas desculpas, garoto. Eu não queria provocá-lo. – o cliente agitou seu rosto para os lados, emitindo certa complacência de si mesmo — Não muito. – ele decidiu adicionar como se esse complemento fosse indispensável — Eu sou inglês, o meu sarcasmo é um impulso. – mudando de atitude, ele lançou um pequeno sorriso sincero na sua direção e questionou com o rosto novamente inclinado para o lado — Para um escritor de romances que não gosta muito de gibis, quais são suas recomendações?

– Mude os seus gostos. – o entregador deu um amplo e cínico sorriso — Comece pelas suas roupas.

Essa resposta conseguiu fazer o cliente ficar um pouco aborrecido, mas não inteiramente ofendido, o que significava que o seu insulto atingiu a medida certa. Cinquenta pontos para o herói!

– E você tem algum conselho mais útil e menos vingativo? – o cliente perguntou em um tom que também possuía irritação disfarçada por um bom humor.

Alfred F. Jones começou a pensar. Para que lugar ele levaria aquele cliente, caso os dois fossem a um encontro? Certo, ele não poderia carregá-lo para o paint-ball antes do quinto encontro, porém havia outras boas opções...

– Eu não sei se você sabe, mas há uma livraria muito boa a uns quatro quarteirões daqui. – ele finalmente declarou após uma rápida reflexão — Além disso, tem um cinema super-legal onde passam uns filmes antigos e...

– Espere. – o cliente o interrompeu, fitando-o com autoridade — Eu vou colocar essas coisas na mesa e pegar um papel para anotar os endereços.

Alfred teve tempo apenas para balbuciar um “Ok!”, pois o freguês correu atrapalhadamente para dentro de sua residência, carregando seu pedido consigo.

Embora não fosse o momento certo para notar isso, Alfred não pôde deixar de soltar um sopro de apreço ao ver os contornos da posterior daquele freguês. Não era muito correto que ele ficasse prestando atenção nisso, mas... Caramba. Ele era humano. Um recém-saído da adolescência solteiro para piorar.

Pelo menos, ele teve a decência de tentar esquecer sua observação, quando o freguês retornou com um bloco de notas, uma caneta e com seus olhos cintilando de entusiasmo. Glup.

Era tão injusto que alguém fosse ridiculamente sedutor e adorável ao mesmo tempo, quando havia pessoas nesse mundo que não eram nenhum dos dois.

De todo modo, disfarçando seus pensamentos sobre o físico do cliente e sobre as injustiças na distribuição divina dos charmes entre os seres humanos, Alfred apanhou o bloco de notas e começou a anotar os endereços de possíveis encontros dele com o freguês – não que ele precisasse saber daquele detalhe – enquanto comentava expansivamente sobre cada um deles. Ele podia ver que o cliente estava verdadeiramente atento ao que ele dizia, e essa atenção o deixava de algum modo orgulhoso de si mesmo.

É uma pena que existam limites para a quantidade de tempo de conversa que seria normal entre um entregador e um freguês, e uma pena maior ainda que esse limite tivesse sido ultrapassado pelos dois há um bom tempo porque, ao terminar de anotar os endereços, Alfred percebeu que ele realmente precisava voltar para a pizzaria.

A pior maneira de terminar aquele encontro seria recebendo uma ligação agressiva do seu chefe ou a questão “O que diabos você ainda está fazendo aqui?!” do freguês.

– Bom, eu tenho que ir... – ele deu um sorriso um pouco desanimado, deixando o bloco nas mãos do cliente e mantendo-se nelas por instantes adicionais, como uma recompensa pelas suas recomendações — Qual é o seu nome mesmo?

– Arthur. – falou “Arthur”, esboçando um sorriso o qual Alfred torcia imensamente para que fosse tão resignado quanto o seu — Arthur Kirkland.

– Entendido! – Alfred retirou suas mãos de Arthur Kirkland para fazer uma continência — O meu nome é Alfred! – ele contou, sorrindo com uma euforia bem mais sincera dessa vez. Perguntar o nome de Arthur e receber uma resposta era uma ótima conquista para ele! Era um degrau a mais na gigantesca escada da intimidade e agora tinha um nome para acompanhar possíveis imagens da sua imaginação! — Nós nos vemos depois, Arthur!

“Arthur Kirkland”. “Arthur”. “Kirkland”. Esses nomes se repetiram velozmente na mente de Alfred, durante sua descida igualmente acelerada pelas ruas iluminadas da noite até o seu destino.

Eram nomes tão sofisticados. Nomes que soavam tão bem no sotaque de “Arthur Kirkland”. Nomes que combinavam perfeitamente com ele.

Alfred ficou tanto tempo suspirando ao pensar nesse nome que somente foi arrepender-se de não ter colocado o seu telefone no bloco de notas quando chegou à pizzaria. Ninguém entendeu porque ele deu um grito indignado de “NÃO!” ao pisar no primeiro degrau da entrada.

Ele ficou tão transtornado com sua própria incompetência que demorou vários minutos para perceber que não era certo que seu interesse fosse recíproco, e realizar que Arthur poderia ligar para reclamar com o seu chefe se ficasse ofendido com aquela ação. Ninguém entendeu porque ele deixou sua cabeça afundada em uma das mesas por um longo tempo quando a pizzaria estava sendo fechada.

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Certo suspense seria mais envolvente para a narrativa porque quem não se simpatizaria com um protagonista que agonizasse longamente por amor? Essa é a razão pela qual um ou outro narrador dessa estória aumentou o tempo para o terceiro encontro deles para três semanas ou até dois meses em versões mais emocionadas. Todavia, verdade seja dita, cinco dias depois da segunda visita de Alfred, Arthur Kirkland voltou a ligar.

Não sabendo ainda o endereço do pedido, Alfred deduziu que era ele só de ver o seu chefe aproximando-se com um risinho sórdido.

– Você sabe o que eu vim dizer, Jones?

Antes de respondê-lo, ele alongou seus ombros e fechou seus olhos, completamente acostumado com aquela sequência de eventos e não se opondo à ideia de ver Arthur “Estonteante” Kirkland novamente.

– Qual é a requisição estranha dessa vez e por que diabos você decidiu me mandar para lá de novo? – ele perguntou casualmente.

– Essa é a melhor parte. – o chefe deleitou-se em dizer — A requisição do cliente é “Mandem o Alfred”.

– Hã?!

CERTO! Por essa ele não esperava nem um pouco! O queixo dele quase encostou no chão! Que brincadeira era aquela?

– Alfred, seu cachorro! Eu estava brincando quando falei que você acabaria tomando o coração dessa senhora! Eu não esperava que você conseguisse mesmo! Eu estou orgulhoso de você. Nós deveríamos tomar uma cerveja juntos um dia desses.

Alfred não estava conseguindo acreditar no que estava ouvindo. Era tão estranho. Parecia um sonho, uma alucinação, um engano.

– “Mandem o Alfred”? Essas são as palavras exatas do acréscimo? – ele perguntou vagarosamente, incrédulo demais para sequer conseguir sentir-se contente — Tipo, é isso mesmo?

– Cada sílaba. – confirmou o chefe – Eu posso pedir um favor, Alfie? Não deixe essa dona ser correspondida muito cedo. Se nós continuarmos recebendo dois pedidos de uma mesma freguesa em menos de uma semana, poderemos pensar em abrir uma segunda pizzaria muito em breve.

Alfred nem se deu ao trabalho de responder ao seu chefe. Ele tomou a nota de suas mãos, recebeu o pedido e correu para a sua moto, sentindo seu estômago remexer-se de ansiedade.

A perspectiva de ver Arthur Kirkland, o tentador e encantador Arthur Kirkland, com o seu sorriso bonitinho, com aquele jeito provocativo e inteligente, com aquela voz e com aquelas curvas terrivelmente tentadoras para Alfred, a pedido do próprio Arthur era tão inacreditável quanto um episódio de Além da imaginação! Caramba, ele estava completamente nervoso. Ao mesmo tempo em que ele estava super-feliz em ver o senhor Kirkland de novo, ele sabia que aquela era uma chance única de causar uma forte impressão positiva em Arthur e essa ideia o deixava um tanto assustado. Aquela experiência também era assustadora por conta do seu próprio excesso de empolgação com ela. Ele não deveria ficar tão animado. Não era como se Arthur Kirkland, um escritor estrangeiro morando em um casarão daqueles, fosse seriamente sair com o entregador de pizzas. A realidade estava chamando Alfred constantemente de modo que a voz dela estava começando a deixá-lo estressado.

Quando tocou a campainha, Alfred teve a sensação de que um liquidificador foi ligado dentro de si.

E a sensação de que o liquidificador saltou do nível um para o nível três no instante em que Arthur apareceu no portão.

– Olá, Alfred. Aqui está o dinheiro. O meu pedido...?

Como nas ocasiões anteriores, Arthur Kirkland surgiu diante de si com as suas maneiras graciosas usuais, embora tivesse feito um pedido adicional que mataria de vergonha qualquer pessoa normal. E como o habitual, ele estava usando suas roupas de aparência velha... Mesmo que Alfred precisasse reconhecer que as atuais eram um pouco mais elegantes e coladas ao seu corpo.

Cabelos bagunçados e loiros, olhos de uma tonalidade fantástica de verde, sobrancelhas engraçadas, roupas de um homem maduro, uma voz que provocava arrepios. Ah! E ele havia chamado por Alfred, que não tinha a menor noção do que dizer naquele instante.

Mas ele tinha que falar alguma coisa, então ele falou:

– Você gosta mesmo de pizzas saudáveis. – Alfred comentou muito sério, entregando sua encomenda.

O senhor Kirkland cerrou rapidamente suas pálpebras e agitou o rosto para os lados.

– Bem, eu não tenho o hábito de comer pizzas, então eu estou tentando compensar com escolhas mais saudáveis de sabor.

– Sério? – Alfred arqueou um pouco suas sobrancelhas — Eu nunca imaginaria isso, já que essa é a segunda pizza que eu deixo aqui, nessa semana.

Veio então o inesperado. Arthur Kirkland, por razões incompreensíveis, corou violentamente ao escutar essa fala e fez uma alarmada expressão escandalizada e raivosa.

– O-O que você quer insinuar com esse comentário?! – ele questionou exaltado. Suas orbes verdes e irascíveis quase saltavam do seu rosto — N-Não é como se eu estivesse pedindo pizzas por su...!

– Eu não queria dizer nada! – Alfred agitou seus braços, querendo interromper aquele ataque logo porque a cor do rosto de Arthur sugeria que ele estava se tornando mais e mais capaz de jogar aquela pizza na sua cara. Urgh! Seria um saco receber uma pizza na cara! Ele nem sabia o que havia deixado o Arthur bravo daquele jeito. Talvez ele devesse esclarecer uma coisa... — Eu só estava pensando que você talvez estivesse passando a gostar de pizzas, depois de experimentar as da nossa pizzaria.

– Oh.

Score! Um mal-entendido realmente havia acontecido e acabou sendo resolvido graças aos feitos do nosso herói. Infelizmente, como efeito colateral de suas ações, ele acabou deixando Arthur Kirkland visivelmente sem graça e até mesmo um tanto... desapontado. Sabe-se lá por quê.

Que chato.

– Cara, relaxa. – Alfred tentou soar confortante — O que você achou que eu estava querendo dizer?

– Nada. – Arthur apressou-se em responder. No entanto, o seu rosto negava sua resposta. Ele estava contraído em uma expressão sombria e decididamente fechada que exigia um silêncio mortal.

– Se você diz... – Alfred murmurou em um tom cético. Ele não estava totalmente convencido, mas bastava um vislumbre do rosto do Arthur para que ele soubesse que não seria bom insistir no assunto. Eles tinham que mudar a direção da conversa e que melhor caminho poderia haver do que aquele anteriormente incogitável? — Ei. Eu soube que você pediu por mim, não é? O que foi, cara?

– Ah, sim. – Arthur se recompôs e adquiriu um semblante mais animado — Eu queria agradecê-lo pessoalmente pelas suas sugestões. Eu visitei a maioria dos lugares que você me recomendou e os apreciei bastante, embora tenha sido ligeiramente constrangedor ir para alguns deles sozinho.

Era óbvio que havia sido ligeiramente constrangedor ir sozinho para alguns lugares. As recomendações eram de locais para os quais ele levaria Arthur em um encontro. Ele tinha um pouco de pena ao pensar em Arthur sozinho em um ponto de encontro de casais, porém, ainda assim, ele permanecia convencido de que não havia nenhuma necessidade de informá-lo disso! O que os olhos não vêem o coração não sente(fúria), não é? Há, há, há!

Outro pensamento lhe ocorreu.

“Eu poderia visitá-los com você da próxima vez! Seria um encontro!”. Alfred por muito pouco conteve seu impulso de dizer isso. Ele não era estúpido. Ok, ele era um tanto impulsivo e podia dizer certas frases inconvenientes antes de pensar, mas ele não era tão idiota a ponto de não conseguir se controlar quando se tratava de algo importante! Aquela frase seria um grande “não-não” e ele imediatamente a impediu, trocando-a por outro comentário.

– Você visitou os lugares que eu recomendei em cinco dias? – ele deu um largo sorriso admirado e discretamente implicante — Wow. Pessoas com dinheiro são mesmo desocupadas!

– Para a sua informação, eu sou um escritor de romances e explorar o mundo é uma das experiências que preciso para adquirir inspiração! – Arthur reclamou com as faces vermelhas de indignação, apertando a caixa da pizza mais fortemente contra o seu corpo.

– Wow! Escritores são mesmo desocupados! – Alfred repetiu, não alterando o seu sorriso.

– Oras, seu...!

– Mas, sério, foi só por isso que você me chamou? – Alfred riu, divertindo-se em deixar o senhor Kirkland agitado daquela forma. Embora soubesse que o senhor Kirkland queria brigar com ele, ele o interrompeu de propósito, fingindo que não havia feito de modo algum comentários que exigiam uma resposta furiosa. Ei! Não havia tempo a ser perdido com reclamações, ele tinha um trabalho. Além disso, o Arthur frustrado e zangado com coisas pequenas era ridiculamente adorável. — Para agradecer as minhas sugestões? Você podia ter deixado o recado pelo número da pizzaria, sabe.

– Eu... Eu tenho consciência disso. – Arthur reconheceu, abaixando ligeiramente o seu rosto e transparecendo concentração — N-No entanto, não seria cavalheiresco de minha parte deixar meus agradecimentos por um recado no seu lugar de trabalho! Eu não poderia ser rude assim. Além disso, eu tenho uma questão a fazer para você...

– Huh?

O coração de Alfred bateu um pouco mais forte.

– Como exatamente eu chego a esse endereço? – perguntou Arthur, desmanchando o rápido entusiasmo de Jones em um golpe único, definitivo e um tanto ridículo.

Ele havia voltado a pular desajeitadamente com seus pedidos na mão para apanhar algo no bolso de sua calça, como no primeiro dia em que eles se viram. Dessa vez, o que ele mostrou foi o bloco de papel em que Jones havia anotado as suas dicas. Alfred F. Jones ficou extasiado em perceber o quanto o papel parecia desgastado.

Arthur estava apontando para o local em que ficava o Winter Garden Theatre.

– Eu não visito um teatro há vários meses, você não imagina o quanto estou ansioso para ir até lá, todavia não sei que rua é essa ou por onde devo ir para chegar nela. – Arthur Kirkland explicou com um sorriso bastante discreto e um pouco tímido — Eu tenho medo de ser enganado por taxistas se sair sem orientação.

– Quê? Por que você não verificou no Google Maps?

Alfred não insistiu naquele ponto, pois o encarar sombrio e ameaçador que veio do rosto de Arthur deixou bem claro que a sua jugular seria atacada se ele insistisse naquele ponto. E não de um jeito legal.

– Você conhece a rua...?

Resposta imediata:

– Não.

Alfred teve a vaga premonição de que não seria fácil resolver aquilo.

– Ok, ok. E a 6th Avenue? Você conhece?

Outra resposta imediata e com a mesma expressão vazia:

– Não.

Caramba. Aquilo seria trabalhoso.

– Seguindo direto nela, você encontra o Bryant Park e, depois, o Central Park. Você conhece o Central Park?

– Na teoria, sim. Geograficamente, não.

Alfred desistiu aí. Ele queria ser prestativo e legal com o cara por quem ele tinha uma queda platônica, mas o príncipe encantado não estava colaborando! Como é que ele iria explicar um endereço para uma pessoa que não conhecia nem o Central Park? Alfred gostava de Arthur, queria impressioná-lo e o seu coração era repleto de virtudes, porém ele tinha um defeito do qual ele não podia escapar. Ou melhor, dois defeitos.

Ele era impaciente e impulsivo.

– Será que eu vou ter que fazer o desenho para você? – ele acabou dizendo em uma voz frustrada e aborrecida porque arghhhh. Como o Arthur morava há meses naquele lugar e não conhecia o Central Park?

Mas ele mal havia sua boca, quando se arrependeu de ter falado daquela forma. Droga, droga. Ficar resmungando não vai te dar muitos pontos, Alfred. Não haja como a opção de Bad Ending de um otome game.

Ele achou que havia, de fato, cometido um erro e somente mudou de ideia ao ver Arthur murmurando com o rosto para o lado e marcado por algum constrangimento:

– S-Se você insiste...

Arthur Kirkland. Como ele era atraente. Como ele era estranho. Como ele era frustrante com aquele comportamento inquietante dele. Ele havia conquistado Alfred acidentalmente e agora ele estava acidentalmente motivando uma linha de raciocínio em Alfred F. Jones que não deveria estar ali, mas que fazia total sentido e...!

– Argh! Ok, Arthur! Eu faço o seu bendito desenho! – ele se rendeu, batendo a sua mão com força contra a sua testa. Ele continuou a sentir-se tão instável por dentro que precisou complementar sua sentença com uma acusação que parecia inocente e justa a uma primeira vista — Mas só para que você saiba, seria dez mil vezes mais fácil e satisfatório resolver esse problema se você simplesmente fosse para lá comigo!

À primeira vista. Restritamente.

– H-Huh?

Alfred não havia percebido o que ele mesmo havia dito até ver que as sobrancelhas de Arthur estavam formando dois arcos perfeitos e que o seu lábio inferior caíra alguns centímetros, formando uma expressão da mais pura perplexidade.

Ele estava tão, tão ferrado.

– Er... – ele agitou seus braços desesperadamente como se tentasse apagar o que estava acontecendo. Todos os palavrões que ele conhecia estavam brandindo na cabeça dele e aquilo era totalmente uma droga porque ele precisava do espaço para pensar em uma desculpa plausível! — O que eu quero dizer totalmente não é o que você entendeu!

– Eu... – Arthur respirou fundo e declarou confiante, mas ainda um tanto estático e piscando rapidamente. — Eu acredito que seja exatamente o que eu acabei de entender.

Palavrões. Palavrões. Palavrões. Palavrões.

– Há, há, há! – ele forçou um riso irônico, arriscando o seguinte esquema... Se ele pudesse fingir que não havia dito nada sugestivo e que as interpretações erradas decorrentes daquilo eram culpa de Arthur, ele poderia salvar-se do vexame, não é? Sim, sim. Não era culpa dele. Ele havia feito uma brincadeira inocente, como o cara sociável que ele era. — Não seja arrogante, Art...!

– Você chegou a utilizar a palavra “satisfatório”.

Oh, droga.

Pelo visto, ele estava em um beco sem escapatória. O seu interesse platônico estava praticamente paralisado na frente dele, sabendo que ele era o alvo das atenções do seu entregador de pizzas, e Alfred, o dito e bravo entregador, tinha outras pizzas para entregar, mas não queria perder a oportunidade de esclarecer o que ele sentia de modo direto porque sabe-se lá se eles se encontrariam depois daquela noite e aquilo era tão confuso e horrível e....Argh.

Ele decididamente estava perdido e completamente ferrado.

Tanto que, ele pôde concluir depois de uma pausa cheia de tensão, ele não tinha mais nada a perder.

– Urgh! – ele engoliu em seco, perturbado com aquela cena e com o que ele estava prestes a fazer, antes de exclamar com intensa sinceridade — Olha, eu não sou um daqueles tipos estranhos que aparecem nos hentais! Eu juro! Eu sou muito mais heróico e nobre geralmente! Sério! Na primeira vez em que eu te vi, eu estava achando o seu acréscimo mais engraçado do que qualquer coisa!

– Esse não é exatamente um comportamento heróico... – Arthur começou a dizer, mas Alfred não se deixou ser interpelado.

– O meu ponto é: eu não costumo dar em cima de clientes desse jeito. – ele declarou mais nervosamente do que gostaria e não conseguindo fixar o seu olhar em parte alguma — Eu não costumo dar em cima de caras desse jeito. O meu irmão diz que se eu combinar esse comportamento com os meus defeitos irritantes, eu nunca arranjarei um namorado, mas eu sei que ele está sendo exagerado por invejar a minha popularidade e...!

– Alfred. – a voz de Arthur estava calma e resoluta, o que a tornava insuficiente para deter o discurso incontrolável de Alfred.

– Eu não vou negar! – ele gritou com o rosto extremamente vermelho e honesto — Eu me sinto fisicamente atraído por você! Eu não posso evitar! É a natureza, cara! Os hormônios e todos esses lances! É algo como a passagem das estações e as abelhas produzindo mel...!

– Alfred.

Os olhos dele registraram que Arthur colocou a caixa de pizza e suco no chão, embora os seus pensamentos não tenham o feito, pois ele não teve tempo para prestar atenção nisso. Ele estava despejando os seus sentimentos em uma correnteza desenfreada, caótica e aparentemente ininterrupta.

– Mas não é só atração física, entende??? – ele perguntou com uma ponta de desespero e, por alguns segundos, as suas mãos se moveram como se quisessem tocar os ombros de Arthur, mas ele as recolheu para os seus bolsos. — Eu gosto do jeito como você tenta disfarçar o quanto é desajeitado e atrapalhado, gosto da sua voz acidentalmente sexy, do seu senso de humor e da cor dos seus olhos e da maneira totalmente adorável como você gesticula e fica franzindo as suas sobrancelhas sem pensar! Eu não estou dizendo que estou apaixonado por você, duh, mas eu realmente sinto que nós poderíamos dar certo se você ao menos me desse uma chance...!

– Será que você pode calar a sua boca por um segundo, Jones?! – Arthur berrou vigorosamente. A agressividade em seu tom havia sido tão latente e pulsante dessa vez que, enfim, ele conseguiu chamar a atenção do inquieto Alfred F. Jones à sua frente e calá-lo da pior maneira possível.

Alfred não só se calou, ele congelou ao ver quão irritado Arthur Kirkland estava. O senhor Kirkland estava respirando como um cavalo e parecia prestes a esmurrar o portão, exibindo um nível de ira que ele não supunha ser possível naquele cavalheiro inglês que comia pizzas vegetarianas, não tinha senso de direção, gostava de roupas velhas e vivia em uma casa parecia com as de Dowton Abbey.

Ele não cogitava de jeito nenhum que a sua confissão acalorada seria respondida com tamanho desprezo, mesmo que já esperasse não ser correspondido. Alfred F. Jones ficou tão arrasado que não teve nem forças para pedir desculpas pelo inconveniente e pedir que ele, por favor, não ligasse para reclamar com o seu chefe. Ele ficou parado ali, infeliz e miserável com os ombros caídos e com o rosto afundado no chão.

Depois de alguns segundos de silêncio, percebendo que Alfred não mais o atrapalharia, Arthur suspirou de alívio e falou com notas que carregavam vestígios de impaciência:

– Ótimo.

Tudo parecia acabado, destruído e encerrado. Aquele possivelmente seria o mais trágico fim de uma estória sobre entrega de pizzas. Todavia, logo naquele momento, quando Alfred sentia-se como se estivesse sendo afundado no chão por toneladas e toneladas de uma pressão descomunal, uma força repentina puxou seu rosto para cima. Ele demorou alguns segundos para realizar que aquela força não era um sentimento de superação, mas as mãos muito palpáveis de Arthur que seguravam firmemente os dois lados de seu rosto. Ele arregalou os olhos, surpreso com aquela proximidade que ele não se lembrava de ser tão curta, porém antes que ele pudesse pelo menos processar aquele encadeamento de ações, Arthur apagou completamente a sua mente ao puxá-lo para si e colar as suas bocas com uma pressão docemente agressiva.

Versões mais emocionadas desse relato diriam que os dois começaram a envolver-se apertadamente nos seus braços e que línguas ardentes trocaram carícias intimas e desesperadas longamente, continuando assim mesmo quando uma chuva começou a cair sobre eles. Fatos sejam ditos, os seus lábios foram pressionados juntos por somente dez segundos. Dez segundos. A noite continuou no mesmo clima ameno nesse curto período.

É lastimável que certos corações não tenham a sensibilidade de compreender quão especial aqueles dez segundos foram e tenham a necessidade de prolongá-los. Eles foram todo o tempo necessário para que Alfred F. Jones a três descobertas que marcariam seu futuro.

01º Os lábios de Arthur eram rachados de mordidas impacientes, quente e um pouco finos. O que não diminuía remotamente o quanto ele havia gostado de tê-la contra os seus ou o seu desejo de conhecer o interior daquela boca.

– Oh, céus. – Arthur Kirkland gemeu ao separar suas bocas — Ainda bem que você também se sente assim. – ele fechou seus olhos e expirou uma grande quantidade de ar — Eu estava com medo de estar sendo influenciado pelos pornôs baratos que assisto! Ficar pensando repetidamente em sair com o entregador de pizzas. Eu estava me sentindo ridículo.

– Bom, não se pode negar que essa estória é mais próxima de um pornô do que de um livro do Nicholas Spark. – colocou Alfred. Essa sua sentença seria a responsável pelas acusações de alguns que ele teria modificado a estória e não revelado seu final picante no qual o beijo deles teria levado ambos a uma noite de sexo animal.

– Não me fale desse autor, por favor. – Arthur espremeu seus olhos, profundamente hostil — Qualquer referência a ele vai destruir a magia dessa cena.

02º Arthur Kirkland definitivamente tinha vários outros lados interessantes a serem descobertos. Muito provavelmente, eles nunca acabariam.

– Então... – Alfred esfregou a parte de trás do seu pescoço e inclinou seu rosto para o lado, sorrindo com uma mescla de agitação feliz e timidez repentina. Ele tinha tanta vontade de pular em cima de Arthur que não conseguia parar de mudar o apoio do seu peso de uma perna para a outra. Sem desespero, Alfred. Seja sedutor como um legítimo James Bond. Não estrague tudo sendo impulsivo. Deu certo uma vez, mas pode não funcionar na próxima! — Na prática, isso quer dizer que eu posso levar você ao teatro?

– N-Não tente escapar de uma proposta feita por você! – ele exclamou muito vermelho e, pela primeira vez, Alfred soube que aquele rubor não provinha de um sentimento de raiva. Com essa visão, uma alegria morna e repleta de borboletas preencheu o peito de Alfred F. Jones. Essa afeição deve ter sido noticiada com embaraço, pois, recompondo-se, Arthur tentou perguntar de maneira mais pragmática — Quando você tem uma folga? Preferencialmente, de um dia inteiro?

03º Alfred F. Jones tinha o melhor chefe, trabalho e futuro namorado de todo o universo.

– No domingo!

– Nós nos vemos no domingo, nesse caso. – Arthur sorriu sincera e sutilmente — Eu estou bastante curioso para ver como você fica fora desse uniforme.

– Cara... – Alfred contraiu os cantos da boca e focou um olhar recriminador sobre Arthur, deixando o último novamente constrangido e alarmado.

– E-Eu quero dizer em roupas casuais, seu idiota!

– Claro que sim. Claro que sim. – Alfred riu, revirando os olhos com uma descrença que aumentou a irritação e o corar de Arthur. — Nós nos vemos no domingo, Artie!

– Sim, no domingo!

Naquela noite, em troca da pizza de atum e do suco de morango que ele havia deixado, ele recebeu dez dólares e a página de um bloco de papel com o telefone de Arthur Kirkland.

Nunca um cara teve tanto lucro entregando uma pizza.

Notas finais
Waaa! Olá, queridos leitores! Muito obrigada pelos seus comentários e incentivos nessa coletânea! Eu espero que a fic atual tenha sido do seu agrado!

Eu queria ter postado essa one-shot independentemente porque não a achei suficientemente original para essa coletânea. Sendo honesta, eu a escrevi rapidamente porque ela foi mais uma fonte de diversão do que um projeto sério. Por isso, ela tem menos profundidade do que as minhas outras fics e eu não tenho problemas com isso, uma vez que ela não tencionava ser profunda. Além disso, ela foi um pagamento de dívida com o meu "eu" de um ano atrás, pois, nessa época, eu havia visto um post(assim que entrei no tumblr), falando sobre um incidente no qual uma cliente havia colocado o pedido de ser chamada de "atraente" no acréscimo da sua pizza e o entregador realmente o cumpriu, embora bastante constrangido, e eu disse para mim mesma que um dia faria uma one-shot com aquilo!

Quem diria, "eu" do ano passado? Essa dívida foi quitada! Agora faltam apenas algumas centenas delas.

Eu somente estou postando essa one-shot aqui porque:
01. Eu prefiro deixar minhas one-shots juntas.
02. Eu não tenho uma fanart adequada para ser capa dessa estória.
03. Ela é uma rápida apresentação de um universo alternativo, então ela não deixa de ser compatível com essa coletânea.

AU! Pizza: Não há nada de especial nesse universo alternativo. Ele é bastante popular nas fics estrangeiras - com um foco maior no pornô e no ponto de vista da pessoa que pede a pizza, no entanto - e eu queria utilizá-lo especificamente dessa forma. Eu queria fazer um fluffy leve, rápido e simples com o incidente comentado. Perdoem-me se as suas expectativas eram diferentes. LOL

Sobre o ponto de vista do Arthur... Deixe-me dizer, ele realmente estava brincando ao fazer o primeiro pedido dele e não tinha a intenção de seduzir ninguém. Entretanto, ele ficou impressionado de tal modo com o quanto o Alfred era atraente que ele começou a se perguntar se o acréscimo dele realmente havia sido atendido! No segundo encontro deles, realizado porque o Arthur queria conferir se os pedidos dele estavam sendo cumpridos mesmo, ele ficou bastante cativado com o comportamento tímido do Alfred, com o elogio sincero dele e com as suas recomendações, o que o levou a desenvolver uma queda por ele. No terceiro encontro, ele fez uma tentativa impulsiva de aproximar-se um pouco mais de Alfred e os seus planos decorreram melhor do que ele pensou.

Eu iria apresentar todas essas informações em um omake, mas eu tenho tantas coisas a escrever que decidi não fazê-lo! Ele não seria tão divertido de escrever e eu adorei a frase de conclusão dessa one-shot!XD

Eu me sinto bem melhor da minha depressão e a minha vida está mais organizada agora! Sendo assim, eu pretendo responder aos seus comentários, fazer reviews nas fics que eu acompanho e talvez colocar outra atualização nessa coletânea muito em breve!

Eu espero que vocês possam continuar a ler, apreciar e comentar essa coletânea! Como eu mencionei anteriormente, reviews são um grande incentivo para que eu continue me esforçando.

Bai, bai!:3