Bruxo
1 Frio branco cortante e um recomeço
Suas botas marrons estavam brancas de neve, e mesmo aquela roupa grossa parecia não proteger de quase nada. O vento nas montanhas era frio e teimoso, pois parecia soprar cada vez mais forte. O ar quente que saía ofegante da boca de Shouto se condensava instantaneamente. No chão, via-se suas pegadas e a marca do pedaço de madeira que usava como cajado para escalar.
Para sua sorte, ele conseguia manipular o fogo. Sua mão esquerda estava sem luva e emanava uma chama contínua que ele mantinha perto do rosto. Sua primeira tentativa com aquilo era se aquecer, a segunda era não deixar seu nariz dormente e a terceira talvez fosse apenas poder gerar algo que não fosse mais branco ali. Ainda mais agora que havia chegado no pico de uma das montanhas: não conseguia ver nada além daquela coisa asquerosa que caía no inverno. Acima de tudo, carregar uma mochila pesada naquele clima não era muito favorável.
Estava cansado, com fome, com dor de cabeça, dor nas pernas, a visão embaçada... E nem um feixe de sol vinha para ajudar. Nem um pássaro voava por ali. Não havia nada. Se tentasse gritar, mal ouviria sua própria voz, pois a tempestade a cortava e sua garganta estava péssima.
Nunca havia se sentido tão solitário.
Ainda assim, seguiu nessa caminhada, por dias e dias, sozinho. Outrora conseguia achar uma caverna para comer e dormir.
Normalmente, este trajeto seria feito em conjunto com, no mínimo, umas dez pessoas, e elas voltariam para o vilarejo depois. Porém, Todoroki não tinha mais nenhuma vontade de viver ali. Sua mãe estava em repouso há anos, sem poder ter contato frequente com as outras pessoas do vilarejo, e seu pai era um maníaco que procurava a fusão perfeita entre seus poderes e os poderes de sua mãe. Outras pessoas viviam ali para ajudar a produzir alimentos e manter as construções bem feitas, mas nunca eram bem tratadas e normalmente eram viajantes perdidos que não tinham para onde ir. Nunca havia visto seus irmãos; seu pai, Endeavor, falava que eles eram imperfeitos.
Um dia, treinando na neve, Shouto encontrou um objeto metálico, pequeno, diferente das outras coisas que haviam ao redor naquele ambiente nefasto. Ele brilhava e absorvia mais energia térmica do sol do que o esperado. Pegou-o e, girando o objeto um pouco, ele mostrava um holograma de um prédio comprido, de vários andares e janelas espelhadas. Shouto nunca havia visto nem um objeto do tipo, nem um holograma e nem um prédio. Perguntando para um dos moradores do vilarejo, informou-se de que aquilo provavelmente viria da capital. Logo foi motivado pelo desconhecido: não procurava um lugar melhor para ir, e sim, sair do ninho em que foi criado e da obsessão que seu pai tinha com ele.
Entretanto, grande parte de sua motivação era sentir. Sensações. Coisas que mudam tanto sua forma de pensar quanto a forma de seu corpo reagir. Arrepios, calafrios, surpresa... Qualquer coisa. A apatia que o tomava não o deixava muito diferente de um objeto inanimado no momento.
Dois dias depois que seus suprimentos acabaram, ele só conseguia olhar para baixo. Aos poucos, o branco incansável formou um degradê com o cinza escuro, e o barulho de seus passos no chão também mudou. Continuou andando, quase fechando os olhos, sem mais forças. Sabia que, se caísse ali, não seria fácil levantar depois. Mas quem o garantia que ele teria vontade de levantar?
Sentiu sua cabeça bater contra algo e, logo em seguida, sua consciência esvaiu.
—x-
Alguém estava tentando acordá-lo. Abriu seus olhos levemente quando sentiu a mão de uma pessoa em seu braço, mexendo-o.
— Ei, acorde, acorde! Se você dormir aqui desse jeito, talvez as câmeras te confundam com um corpo morto.
Era um garoto de cabelos verdes e arrepiados. Ele usava uma capa verde escura e preta, com um capuz preso ao conjunto com um adorno prateado. Todoroki escorou-se na parede mais próxima, se desvencilhando da mochila e tentando entender as palavras que aquele rapaz lhe dizia.
O garoto se aproximou e olhou atentamente para Shouto. Estava concentrado.
— Você tá com umas olheiras enormes. Parece semi-morto. — Tirou uma garrafa de água e entregou para Todoroki. — Tome.
— O que é isso?
— Água.
Olhou perplexo para o objeto que segurava em mãos. Era um cilindro de vidro. Dava para ver a água por dentro conforme a garrafa se mexia, mas não havia sinal de tampa ali.
— Eu não sei como abre isso... — disse enquanto tentava descobrir, curioso.
— Meu deus... — suspirou — Você veio de quão longe daqui?
— Uns cem quilômetros.
— Então você veio de um vilarejo, certo? — Continuou ao ver o outro assentir. — Olha, eu não sei seus motivos, mas por enquanto você precisa recuperar suas energias. — Fez um gesto com a mão e imediatamente a garrafa se abriu, como se seu topo de vidro tivesse derretido. — Se conseguir andar, venha...
Parou de falar ao ver Todoroki desesperado bebendo a água da garrafa. Ele realmente não era da capital. Aceitar ajuda de um desconhecido sem muitas perguntas, além de demonstrar que a pessoa não tinha escolha e estava completamente em desespero, destacava que ela veio de um lugar em que ela podia confiar nas pessoas ao seu redor, independente de quem fossem. Isso não era o caso daquela capital.
Por um momento, o garoto achou divertida a situação.
— Venha comigo. Tem muita coisa que você precisa saber sobre a cidade.
As amídalas de Shouto ainda estavam inchadas e doíam do frio, mas a água deixou a situação um pouco menos pior. Um pingo de sua racionalidade havia voltado.
— E por que você me ajudaria? — falou com a voz arranhada.
— É um motivo complexo para alguém que não entende como as coisas funcionam aqui. Mas acho que você não tem muita escolha agora. — Estendeu a mão para Shouto. — Você vem?
— Vou tentar. — Aceitou a mão. Realmente precisava de força para ser puxado naquele momento.
— Ótimo! Então, antes de irmos, só me diga seu nome.
— Todoroki Shouto. E o seu?
— Midoriya. — Sorriu. — Midoriya Izuku.
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