Bruxa

1 Capítulo Único


Fazia certo tempo desde que ela não via ninguém. Trancada na sua cela fétida e úmida, apenas podia encolher-se e tremer. Seu hábito rasgado e rústico em nada a esquentava, deixando o frio entrar por entre os mais inconvenientes lugares. Os pulsos estavam presos em algum lugar acima de sua cabeça, os ombros estavam doloridos e inertes há dias. As pernas, juntas pelos calcanhares, de quando em quando eram separadas por algum guarda bêbado. Nesses momentos, seus gritos silenciavam o mundo.

Cuspiu, sentindo um gosto terrível na boca. Davam-lhe apenas água por meio de uma pequena tigela, para que não pudesse usar as mãos; não havia comida. Rosnara algumas vezes para os ratos e os insetos, tentando agarrá-los com os lábios furiosos. Em vão — nenhum ser, com exceção aos homens, aproximava-se mais.

O cabelo negro e comprido cobria-lhe o rosto, e ela não podia ver nada. Preferia assim a ter de abrir os olhos durante o interrogatório, aqueles momentos terríveis de tortura e sofrimento. Certa vez, furaram seu corpo com uma agulha enorme, atingindo todos os lugares, o sangue banhando-a por inteiro. No momento em que parara de gritar, eles haviam hesitado, os capuzes brancos entreolhando-se, até um deles dizer que era um truque, e continuarem. Apenas cessaram quando ela não demonstrou reação. Não sentia mais nada.

Aquilo havia sido há muito tempo, quase há uma vida de distância. Porém, era o castigo mais brando. Hoje era um dia especial, um dos homens dissera. Era o dia em que ela seria livre.

Livre? Ela esquecera o significado dessa palavra. A sensação da liberdade era estranha, a palavra, sussurrada em sua boca seca e sem voz amargava, e ela cuspiu novamente. Alguns minutos se passaram, suficiente para a luz sair do canto leste na fresta da sua porta roída por cupins até chegar ao oeste, onde a luz passava em abundância pela janela minúscula.

Um som de ferros — e encolheu-se, esperando o calor -, a madeira rangendo. Um grunhido de um animal, e tiraram seus ombros daquela posição. Todavia, ela não conseguia os abaixar, e ao forçarem-na, um som estalado cumpriu sua missão. Ela nem sequer gritou. Não sentia os braços há semanas mesmo. Arrastaram-na, o chão de pedras esfolando sua pele, sua carne, seus ossos. O sangue era marca de sua passagem, mas as lágrimas não. Tiraram seu cabelo de sua frente, e ela abriu os olhos.

Ela abriu os olhos, e cegou-se. Não podia ver a um palmo de distância, tão habituada estava à escuridão de suas pálpebras. Não podia ver, pois, nas raras ocasiões em que a violência era demasiada, via a palmos, embaçado. Naquele momento, todavia, houve muito tempo para que suas pupilas se acostumassem novamente à luz do poente, e ela não pode evitar a não ser arfar. Aquela luz... Aquelas cores eram-lhe familiares. E tudo voltava, de uma vez e em pedaços, peças incompletas de memória, mescladas com sofrimento e sombras. Mas ela se lembrava da luz e da cor, e aquilo lhe deu medo.

Não estava livre. E milhares de pessoas, vultos à sua frente, furiosos, penosos, indiferentes, compartilhavam da mesma conclusão.

Aquilo era o contrário de estar livre.

Comandou ao seu corpo, mas a mente já não era dona dos membros. Continuou tentando, os músculos fracos, perdedores da esperança. Por fim conseguiu a audição começando a compreender as palavras da autoridade mais próxima. Ela temeu o traje branco dele, o colarinho e o capuz, impossibilitando de as cores darem-lhe forma. Conseguiu, e suas mãos estavam presas. O tato não voltara, e ela não sabia o que lhe prendia. Mas sentia ardência na linha dos pulsos, e supôs que eram cordas. Não sabia se havia alguma em seu pescoço também.

Sentia desconforto novamente, mesmo este sendo terrivelmente usual. Vinha dos pés, ou algum lugar próximo. Já não tinha o sentido de onde seu corpo terminava. Era tudo, e absolutamente ínfima. O desconforto vinha dos pés, então ela olhou para baixo. Algo de cor amarela, uma cor dourada a fez lembrar.

O dourado sumia do horizonte, mesmo que este dominasse suas lembranças mais e mais. O dourado, ah! O dourado fora a sua glória, seu gozo. Ela, mesmo não tendo o dourado, também fora a maravilha dele. Fora o que ele dissera, e a moça acreditou. A moça fizera de tudo, desde serviços — que serviços? — até esconder-se nas sombras.

As sombras aumentavam no horizonte, e também em sua mente. Por que fora às sombras se amava o sol? O escarlate pintou-lhe os olhos, e voltou a ser cega. Era sangue o que ele queria, recordou-se subitamente. E trincou os dentes. Eram o sangue e a carne, parentes próximos. Não se lembrava de quem, lembrava-se dos gritos, da agonia, e da recompensa. Os olhos obedeceram, e vasculharam a multidão.

Não demorou a encontrá-lo. Era dourado como a última luz daquele dia. Era dourado, mas os olhos eram baixos, incolores. Não havia sorriso, mas havia alegria em todo aquele ser. Apenas faltava sapatear.

O silêncio caiu, e ela soube que era hora. Não desviou o olhar. Devia sentir algo por ele, mas era tudo confuso. Devia ser uma emoção passional — raiva? Desejo? Devia, e alguma pequena chama no seu interior bradava-lhe que sim, era isso, isso, isso; ‘isso o quê?’; ela respondia em retorno.

A lágrima iniciou o fogo, e não cruzou toda a extensão de sua face. Não ouvia os gritos próprios, a dor era além da pele, dos músculos, da alma.

O dourado foi-se, e a multidão dissipou-se. Quando a prata surgiu, imenso, no horizonte, a brisa levou as cinzas e ela nunca esteve ali.

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