Brutal
1 Capítulo 1
I.Os dedos sujos com a graxa preta viscosa tremiam, escorregando e apertando-se, em vão, contra o orifício queimado em carne outrora viva, o sangue espesso e pedacinhos acinzentados lutando para saírem e espalharem-se pelo chão, vida derramada sobre o concreto.O olho verde, solitário, brilhante no negrume da noite, ofegante, lacrimejava: de desespero, de susto, de choque em ver que o vermelho do sangue era tão vivo quanto o dos olhos abertos, agora estáticos, arregalados, atônitos, desfocados. O olho chorava de desalento, de horror cujo motivo ele próprio desconhecia.O suor escorria-lhe pelas têmporas e molhava-lhe a longa cabeleira ruiva — negra, no entanto, na escuridão envolvente -, que se grudava no rosto reluzente de pálido, manchado em pequenos pingos pelo ardor espirrado em líquido.
A boca aberta balbuciava palavras ininteligíveis, e os dedos continuavam a tentativa de bloqueio e aperto da pele que ele, absorto em suas emoções não compreendidas (não mencionadas, não desejadas) pelo albino ensangüentado, não notara -se regenerara.II.Fumaça branca, cabelos brancos, lençóis brancos e sujos, cinzas formando uma montanha em miniatura no cinzeiro de um laranja desbotado. O aparelho de som meio quebrado de Badou tocava uma música que ele sabia que devia conhecer — mas não conhecia.Buracos de tiros há muito haviam rasgado e destruído o papel de parede, e pelo chão haviam peças de roupa e fios de cabelo ruivo que ele se recusava — não tinha coragem — a juntar. Sentado no colchão duro da cama, ele escondeu o rosto em uma das mãos, a outra imóvel no joelho, segurando um cigarro aceso e intocado, cinzas caindo no chão, intensificando o cheiro de tabaco do apartamento.Os olhos olharam por entre os dedos, permeando mas não vendo a figura ruiva que o encarava: plácido, mas triste; não completamente material, não completamente espírito. Os dedos calejados simplesmente atravessaram os ossudos do albino, etéreos, e era desesperador.Os tiros ainda ressoavam nos ouvidos dos dois, homem e espírito, e embora o sangue houvesse parado de jorrar, o vermelho ainda era visível.No cabelo em memória, nos olhos em vida.E Badou chorou lágrimas irreais, desejando que ao menos uma vez Haine não apenas o enxergasse, mas o visse. Sem sexo, sem omissões, sem armas, cigarros ou álcool.E Haine soltou um urro, um grunhido ininteligível, atirando o cigarro na direção de Badou, o fumo aceso atravessando-o, e as duas mãos sujas agarraram o cabelo alvo.E era tudo tão...... Cruel.III.O furor da adrenalina consumindo-lhe o cérebro — armas em riste, atirando e matando pessoas — era imbatível. A fumaça e as explosões faziam seu sangue ferver, faíscas voando para todos os lados, raspando em sua pele. O som das balas saindo dos canos soava como música a seus ouvidos, o som de carne sendo rasgada fazia-o sentir-se vivo.Como um cão faminto, assassino.Via o rosto de Giovanni em cada um dos homens que atacava, imaginando que o matava no lugar dos outros, para ele sem nome, sem rosto. Sua mente palpitava e ele conseguia apenas pensar na satisfaçào, no alívio em sentir o precioso líquido vermelho saindo pelos buracos abertos nas testas, nos olhos sem vida encarando-o sem de fato vê-lo.\'Haine.\'\'Por que sinto prazer quando mato? Por que, Lilly? Me responda! Eu rasguei suas vísceras e me senti tão bem! Por quê? Por quê?\'\'Haine, pare. Acabou.\'\'Eu matei a Lilly. Eu a matei!\'\'HAINE!\'O silêncio.\'Pare com a merda dos tiros, tá todo mundo morto!\' a voz rouca do ruivo reverberou no imenso lugar, e ele era o único que podia ouvi-lo. Era possível ouvir placas e pedaços e metal caindo, e o silêncio parecia pesar ainda mais, a insanidade canina esvaecendo-se, dando lugar a uma tristeza e a um abismo que parecia envelhecer o olho verde de Badou.\'Eu a matei.\'\'Eu não me importo se você matou a sua irmã ou seja lá o que for, idiota. Merda, não me importo se você mata pessoas ou não. Olhe pra mim, olhe pra quem eu sou!\' o cigarro caiu no chão e o ruivo se aproximou, agarrando os ombros magros demais.\'Essas suas crises de loucura me deixam furioso, sabe?\'\'Badou...\'\'Eu sou o doido de merda.\'IV.Haine atirou mais uma pequena pedra no rio acinzentado e túrgido, olhos fixos na água que refletia uma cidade sem cor. Ploft.O sangue escarlate ainda corria da carne rasgada dos corpos sem vida e adentrava pelos bueiros, espesso, sinistro, enquanto outras pedras encontravam o fundo do rio. Ploft. Ploft. Ploft. As roupas rasgadas evidenciavam tiros que haviam penetrado a pele indestrutível, mas a pele lisa e estupendamente branca fazia o quadro parecer uma obra surrealista.\'Não consigo com a ajuda dele.\'Haine levantou uma mão ao céu acinzentado, quase artificial da cidade sem-nome. As unhas esfoladas, sujas de sangue, e os calos nos dedos; todos evidências cruéis de uma vida em meio a tiros, mortes, e à inexistência da esperança.
\'Mas também não conseguiria sem sua ajuda.\'O longo fio ruivo de cabelo preso na barra da manga negra, no entanto, também era uma prova, uma afirmação de que o horror havia cessado: a lembrança as carícias suaves (que até mesmo faziam cócegas) das pontas vermelhas em sua pele; o monocromático de sua vida — de sua alma — em contraste ao vermelho vibrante.E os revólveres e as metralhadoras e as risadas e os beijos e os cigarros e o vermelho e o verde e a pólvora e o cheiro de morte e a loucura. E o vazio.E o nada.V.Era estranho (embora talvez necessário) o distanciamento que Haine e Badou punham entre suas pessoas. Era também estúpido, pois até mesmo o padre, cego, sentia a tensão — sexual ou não — e os olhares que lançavam um ao outro. As balas e graxas para as armas eram largadas ao lado de um maço não-terminado ou de um isqueiro, mas a confiança de dois parceiros — o companheirismo — não estava lá.Era estúpido e mesmo burro; Badou fingindo não se interessar e Haine fingindo desprezar, a fumaça dos Marlboros do ruivo entre os dois, bloqueando e abrindo caminhos, impedindo e instigando, excitando-os, despertando luxúria, inveja, agressividade.Era até engraçado o modo como tentavam esconder o bizarro relacionamento; e Naoto ou Nill os encontravam em momentos íntimos na sacristia, olhando horrorizadas para o padre, que apenas meneava a cabeça.Era triste; o olho verde de Badou enevoando enquanto via as células de Haine se sobreporem — tornando-o perfeito novamente — e estendia a mão, cicatriz brilhando, clara e nítida, na luz artificial.Era brutal: desejar sem amar; usar, machucar e ao mesmo tempo querer se prender; caminharem lado a lado sem se darem as mãos.--
Notas finais
Cookies, pedradas, pulseiras de arco-íris, o tapa-olho do Badou ou pingüins? Reviewe-me.
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