Brumas Da Morte
1 As trevas e a Luz
Notas iniciais
os filhos tornar-se-ão algozes de seus pais,
E a fé estará perdida, até vencerem o mal.
AngelSPN
O mundo de Aislin jamais conheceu a pobreza, a miséria. Suas planícies verdejantes eram um imenso tapete que cobria toda a extensão daquele mundo mágico. O lugar era acolhedor em Aislin, os moradores desse lugar paradisíaco, estavam sempre organizados. O sol brilhante era o nascer do trabalho que faziam com amor e dignidade, e a noite era o descanso para seus corpos.
A noite chegara límpida e agradável. Não havia mudanças bruscas no clima. Em uma enorme torre estava um espelho dourado, emoldurado de ouro e prata que cintilavam. Era nele que os moradores se guiavam para a climatologia, se o ouro brilhasse o sol apareceria com todo seu esplendor. Se a prata tivesse maior intensidade, a chuva viria para banhar os campos e dar vida as novas sementes semeadas. E como todo o lugar existia um rei e uma rainha que governavam Aislin. Sim, era como os contos de fadas, ambos eram queridos por todos e o povo parecia ter ciência que a união era o segredo do sucesso desse mágico lugar. Ao leste de Aislin havia uma densa floresta, conhecida como a floresta de Brianna. Nela viviam os seres da natureza, mágicos, mitológicos ou simplesmente animais, insetos e toda a cadeia alimentar. Quase toda a população humana era herbívora, muito poucos comiam carne e quando as comiam vinham da pesca.
Sentado embaixo de uma gigantesca figueira que parecia estender seus “braços” para envolver os presentes, estava o pequeno Ryan. O povo celebrava a vinda de mais um membro ao clã. Muitos nascidos de Aislin, e outros ao oeste da terra selvagem de Asmeth. Uma terra longínqua e tortuosa. Nela apenas os seres que cultuavam a magia negra habitavam. A família do pequeno Ryan fugira milagrosamente para as terras próximas a Aislin, foram encontrados semimortos. A fome, as disenterias assolavam seus corpos. Ryan havia sobrevivido ao terror da morte lenta, como os habitantes chamavam. O pai de Ryan com idade bastante avançada não sobrevivera e morrera naquelas terras sombrias, antes mesmo de conseguirem se aproximar de Aislin. Agora com doze anos e com o corpo de um garoto de nove anos, ele olhava divertido ao homem de barbas longas e negras, que gesticulava freneticamente com os braços.
—Então, quando o rei de Asmeth conjurou as terríveis gárgulas para devorarem nossas crianças, instintivamente minha lança cortava os céus daquela terra, que para mim é inóspita, contra o peito do maldito ser com garras muito afiadas.
—O senhor o acertou? —os olhos do homem encontraram aqueles profundos mel que cintilavam de curiosidade, isso o animou ainda mais.
—Sim, Ryan. Mas a primeira lança quebrou ao contato com a espessa pele da criatura, foi aí que com os meus olhos de águia...
—Enxergou um pequeno orifício que cintilavam como fogo e acertou a segunda lança em cheio no peito da criatura que sobrevoava os arredores de Aislin. — Todas as crianças e jovens que pararam para ouvir a história de Gordik, voltaram sua atenção para o cavaleiro pessoal da rainha, Sir Gareth.
Mesmo não se atendo as reverências que os presentes lhes forneciam, Sir Gareth gostava de sentir-se querido pelos jovens e respeitado pelos demais. As moças entravam em alvoroço para vê-lo passar, tão majestoso em seus trajes que brilhavam com a cor celeste e o emblema de seu clã o dragão de sete cabeças. Seus cabelos caíam-lhe pelos ombros em um negrume quase azulado e sedoso. Seus olhos acompanhavam a cor da noite e havia neles um brilho diferente dos demais cavaleiros. A lenda do nascimento de Sir. Gareth encantavam os moradores de Aislin e assustavam os seres de Asmeth. O cavaleiro apenas sorria aos risinhos assanhados das jovens donzelas. Ele jamais fora visto com alguma mulher, e isso as deixavam curiosas e atrevidas. Quem seria capaz de conquistar o coração do jovem que já era cavaleiro do rei?
—Sir Gareth, acabou com a minha magnífica performance. — risos foram ouvidos.
—Gordik, meu velho amigo de luta. Quantas vezes as crianças e os jovens terão que ouvir seus contos de bravura? —Gordik aproximou-se do rapaz, seus olhos em tons vermelhos o encontraram e a mão do homem de longa barba pousou no ombro do jovem. —Você costumava gostar delas! — e ambos gargalharam juntos.
Ryan estava fascinado, um dia seria a mistura de ambos. Seria um cavaleiro com feitos heróicos e com uma bela armadura. Encantara-se com os dragões incrustados no peito de Sir Gareth. Os dragões em Aislin eram comuns, um dia enquanto caminhava desbravando a mata a sua frente com um pedaço de pau, encontrara um ninho. Os ovos eram enormes e assustou-se deixando-se cair na relva que cobria todo seu pequeno corpo magricela, quando o par de olhos cintilantes o espreitava. Ryan jamais esqueceria aquela aventura. E desde então, fora muito mais cauteloso. Mesmo que os dragões nada lhes fizeram em centenas de anos, não gostaria de provocar a ira daquelas criaturas aladas que diziam cuspir fogo pela boca.
Todos bebiam e cantavam suas antigas canções que passavam de geração a geração, estavam felizes. Eram na maioria das vezes felizes. Os deuses da fertilidade, do progresso, do amor, da sabedoria e da longevidade, os abençoavam a milhares de anos. Tinham apenas a tarefa de semear a bondade e colhê-la com seriedade e dignidade. A noite enluarada pelas luas de cada canto da rosa dos ventos iluminava os rostos corados de todos os habitantes. Aguardavam o nascimento do novo anfitrião de Aislin. O jovem príncipe que no futuro governaria no lugar do rei, Vossa Majestade Thortien. Os berros fortes da criança silenciaram a algazarra e a cantoria. Dando lugar aos aplausos de homens que se ajoelhavam como cavaleiros do rei e sua rainha, e do povo que clamava benevolência e sorte ao recém nascido. O rei Thortien, emergiu da cortina de seda da sacada, com o varão em seus braços e ali mesmo gritou o nome do filho ao seu amado povo.
— Benjamin Constantin Thortien! Do clã das águias sagradas! — sua voz calou toda a movimentação por instantes, até que uma saraivada de palmas encheu a noite de alegria, enquanto o rei aninhava novamente seu filho em seus braços, levando-o de encontro a sua amada rainha Betina Thortien.
Os cavaleiros do rei desembainharam suas espadas que formavam um caminho brilhante, ali estavam reunidos os quinze sagrados cavaleiros do rei.
Sir Jean Gareth sentiu as sombras dançarem no caminho que as suas espadas iluminavam, seus olhos bem treinados vasculharam o céu. E em poucos minutos as luas ganharam a cor vermelha e trovões foram ouvidos. Todos olharam a torre onde marcava prata cintilante, e um tremor com intensidade catastrófica, fez a tão amada torre cair lentamente. Caia em direção ao povo de Aislin.
—Protejam-se! —Sir Gareth gritou sentindo seu coração palpitar em ritmo descompassado, enquanto a torre começava a encontrar o solo. Aislin viveria o mundo da guerra.
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