Brown Eyes
6 Capítulo 6- Falando Sobre
Notas iniciais
— Me desculpe por isso. — Esther disse quando finalmente conseguiu parar de chorar.
— Por favor, não se desculpe. — A professora respondeu se afastando um instante para pegar uma cadeira da fileira da frente da sala.
— É que eu não falo sobre isso. Sobre o acidente. — Uma linha de dor atravessou sua voz durante a frase.
— Que acidente? — Shinara sentou na cadeira infantil (o que a deixou mais baixa do que Esther) sem deixar de olhar para a mãe de sua aluna. — Se é que eu posso perguntar.
— O acidente no qual a minha esposa morreu.
— Sua esposa?
— Sim. — Um soluço escapou.
— Sinto muito. A senhora deve sentir muita falta dela.
— Bastante. Nossa, como eu sinto falta da minha marrentinha.
— Ela era marrenta? — Shinara sorriu de lado, estava tentando levar a conversa para lembranças boas ao invés das trágicas.
— Ah era. — Esther também sorriu. — E competitiva também. Não tinha nada que quisesse ganhar que não conseguisse.
— Incluindo você, não é?
Esther cobriu o rosto com as mãos e riu baixinho. — É. Ela me encarou como um desafio, mas foi uma tática minha, eu já era caidinha por ela.
— Como foi que vocês se conheceram?
— Bom... Eu e a Bonnie nos conhecemos no ensino médio...
— O nome da sua esposa era Bonnie?
A mulher soltou uma risadinha com a expressão confusa de Shinara. — Na verdade não. O nome dela mesmo era Camila Pfeifer. Bonnie era só um nome artístico, por assim dizer. Bonnie. Combinava com ela.
— Artístico? Ela era musicista?
— Atleta. Era uma skatista. O sonho dela era ser bicampeã mundial como a ídola. E ela era muito boa no que fazia, uma excelente profissional. Ficou bem famosa no meio aqui no Brasil, mas aí veio o primeiro 360 das nossas vidas.
— O que?
— 21 anos e a carreira decolando, então vem uma doença e acaba com tudo.
— Oh meu Deus. — A professora cobriu a boca com as mãos.
— Ela tinha Hipercaliemia. Não era grave, mas era debilitante se ela não tomasse Furosemide. O único problema era que Furosemide é barrado pelo anti-doping. Se fosse pela Bonnie, ela preferiria sofrer as consequências do que ficar sem competir, mas essa doença afeta justamente os músculos, o que ela precisaria. Então foi pega pelo impasse, pra qualquer lado que ela fosse, teria que abandonar as competições.
— Nossa, isso deve ter sido difícil pra ela.
— Muito. Como eu disse, ela era competitiva e determinada, não poder correr atrás do sonho era frustrante, mesmo que estivéssemos muito bem financeiramente. Eu não aguentava vê-la daquele jeito, então conversei com ela sobre realizar mais cedo outro grande sonho que tínhamos desde o colégio.
— Já até imagino o que seja.
— Filhos. De início a Bonnie bateu o pé dizendo que era muito cedo pra isso, mas eu consegui, com MUITO esforço, diga-se de passagem, convencê-la a visitar clínicas e orfanatos só pra fins de pesquisa. Então vimos a Karen e, nossa... Eu me lembro como se fosse ontem, nos apaixonados a primeira vista por aquele rostinho rosado. A mãe biológica dela morreu no parto e nenhum familiar foi localizado, então ela foi dada pra adoção com duas semanas de nascida. A Bonnie tinha certa influência, então nós conseguimos agilizar muito a papelada. Ela que escolheu o nome, por causa da Karen Jonz, obviamente.
— Por causa de quem?
— Você não sabe quem é a Karen Jonz? — A mulher arregalou os olhos, incrédula.
— Me desculpe, mas não tenho nem ideia.
— Karen Jonz é simplesmente uma das melhores skatistas ever.
— Eu não sou lá muito fã de esportes.
— Não dá pra dizer pelo seu corpo. Quer dizer... E-eu não... Droga. — Mais uma vez cobriu o rosto com as mãos enquanto ficava corada.
— Obrigada. — Shinara sorriu docemente para sanar o nervosismo de Esther.
— De nada.
— Continuando a história.
— A Karen foi crescendo e era muito esperta. Eu a ensinei a ler e com três anos ela já era capaz de ler qualquer coisa, e quando tinha cinco, a Bonnie a ensinou a andar de skate. Elas amavam fazer isso juntas e eu ficava olhando quase tendo um ataque de tricotilomania. Tive vontade de matar a Bonnie por fazer uma coisa tão perigosa com a minha bebê, mas era divertido vê-las tão alegres.
— Por favor, me diga que tem vídeos.
— Ora, mas é claro que tem. Como é que eu ia resistir a filmar os dois amores da minha vida praticando esportes juntas?
— Impossível.
Alguns segundos silenciosos se passaram. O sorriso de Esther foi diminuindo até se extinguir, acompanhado do de Shinara.
— Que saudade. E o pior é saber que a culpa é minha por ter perdido o que eu tinha de mais importante na vida, a minha esposa e o amor da minha filha.
— Não diga isso. A culpa não foi sua. E a Karen ainda te ama.
— Sim, foi minha culpa.
— Não foi.
— Você nem sabe o que aconteceu.
— É eu não sei. Mas ainda assim tenho certeza de que não foi sua culpa. Você disse “acidente”, então não foi culpa de ninguém.
— Mas a ideia foi minha.
— Que ideia?
— A Karen tinha ganhado prêmio na escola e eu tive a ideia de a gente ir pro play center do shopping pra comemorar. E além de ter tido essa ideia brilhante e não ter insistido o bastante pra dirigir, eu ainda comecei a cantar com o rádio no carro e as duas me acompanharam. Talvez se eu não tivesse feito isso, os reflexos da Bonnie estivessem um pouquinho mais rápidos e hoje ela estaria aqui comigo.
— Você tá se ouvindo? Esther, foi uma coisa normal, acontece. Que mãe não ia querer recompensar o filho por ganhar um prêmio na escola? Quem não gosta de cantar com o rádio quando tá feliz? Você tava tendo um dia ótimo com a sua família. A culpa não é sua se o destino é um carinha muito irônico e malvado.
— Já ouvi isso das minhas irmãs, da minha cunhada, da minha mãe. Mas eu sei que a culpa é minha. E a Karen também sabe, por isso ela me odeia.
— A culpa não é sua.
— Com licença. — Uma mulher com o uniforme de faxineira da escola disse educadamente. — As aulas da tarde vão começar daqui a pouquinho, professora. A sala tem que ser limpa.
— Ah, claro. — Shinara se levantou e começou a organizar suas coisas dentro da pasta que estava em cima da mesa. — Esther, você tem que se perdoar pela culpa que acha que tem, e não tem. Por você e, principalmente, pela Karen. Por mais que seja difícil pra você, e eu sei que é, ela é só uma criança que passou por uma experiência muito traumática e precisa que você seja forte para apoia-la.
— Como eu posso apoia-la se ela não olha nem na minha cara?
— Eu vou falar com ela, okay?
— Tem ideia de onde ela possa estar agora?
— Tenho sim. A senhora pode esperar no portão da escola enquanto eu converso com ela?
— Posso.
— Só tenho uma perguntinha.
— O que?
— De onde é que saiu esse “Bonnie”?
Esther olhou para Shinara com o cenho franzido por alguns segundos, então começou a rir da pergunta feita num momento tão crítico. — Ela era ruiva. E potterhead.
— Aaaah. Bonnie Wright.
— Essa você sabe, né?
— Sou potterhead também.
Shinara se afastou de Esther e seguiu com cautela para o jardim da escola, escrevendo e reescrevendo mentalmente um discurso. Não estava errada, logo no primeiro instante viu Karen sentada na grama abraçando as próprias pernas com a mochila jogada ao lado.
— Pequena. — Chamou, mas tudo o que a garota fez foi virar a cabeça para o lado oposto. — A sua mãe... Ela me contou sobre... Aquela noite. O acidente. — Karen virou também o corpo para o outro lado e se encolheu ainda mais. — Pequena, ouça, a sua mãe te ama mais que tudo no mundo e...
— Não, não ama. — Sussurrou sem soluçar enquanto as lágrimas corriam por seu rosto corado.
— O que?
— Ela não pode me amar depois do que eu fiz. Eu acho que ela tenta por obrigação, mas no fundo ela não deve me amar mais. E eu não a culpo.
— Depois do que você fez? Do que está falando?
— Não se faça de boba, Shi. Ela te contou sobre o acidente, você sabe o que eu fiz. Matei a minha mamy. Ela tá morta por culpa minha.
— O que?
— Foi quando ganhei um prêmio idiota na escola. Depois que chegamos em casa, minha mãe disse pra eu tomar um banho, então eu fui pegar a minha toalha no quarto e quando estava indo pro banheiro, ouvi ela conversando com a mamy...
Flashback Onn
— Como tá se sentindo hoje, marrentinha?
— Ótima. — A ruiva respondeu em um tom quase irônico. — Eu sempre to ótima antes de tomar essas porcarias de remédios que me deixam super. ultra mega blaster morgada.
— Primeiro: não exagera. Segundo: que diferença faz? Você tem que tomar só à noite mesmo. E terceiro... Tem certeza que esse remédio te deixou tão super. ultra mega blaster morgada assim?
— Hm. — Camila arqueou a sobrancelha naturalmente bem desenhada de forma desconfiada. — Por quê? Alguma ideia em mente?
— Eu estava pensando em levar a Karen no Play Center daqui a pouquinho pra comemorar o prêmio que ela ganhou. E nós sabemos que A KAREN adora o Play Center.
— O Play?! É! — Bonnie abriu um sorriso que quase lhe cobriu o rosto, mas logo retomou uma postura de adulta. — Tem razão, ela tá merecendo. Eu vou tomar um banho rapidão e tu fala lá com ela, beleza?
— Beleza. — Esther riu e ganhou um selinho de Bonnie que em seguida se afastou até alcançar a porta, mas antes que pudesse atravessa-la, a morena disse. — Ei marrentinha.
A ruiva virou para a esposa e respondeu. — Fala, Santinha.
— I love you.
Bonnie sorriu grandemente e voltou para dar um beijo de verdade em sua morena antes que retribuir em búlgaro. — Obicham te.
Flashback Off
— “Obicham te”? — Shinara repetiu com o cenho franzido.
— É búlgaro. Elas eram fãs de Krumione. — Karen murmurou enxugando as bochechas que logo estavam molhadas de lágrimas de novo.
— Ok. Pode continuar. Estou esperando o momento em que justifica você achar que a culpa foi sua. — A professora pronunciou cruzando os braços.
— Você não ouviu? Eu não falei desse jeito à toa, a mamãe literalmente enfatizou quando disse “A Karen gosta do Play Center”. Se eu não tivesse ganhado aquele prêmio estupido, a minha mãe nem teria lembrado a existência daquele lugar e não estaríamos naquela rua no mesmo momento em que aquele Jeep, e minha mamy estaria aqui.
— Karen, não se culpe.
— Como não vou me culpar se foi culpa minha? A vergonha que eu sinto por ter tirado o amor da vida da minha mãe é tão grande, tão esmagadora que eu sequer consigo olhá-la nos olhos ou falar com ela. Ou com qualquer outra pessoa. Eu não posso suportar essa culpa, eu não mereço estar aqui no lugar dela. Devia ter sido eu.
— Meu Deus. — Mais uma vez naquele dia a voz de Esther por trás de Shinara paralisou o corpo de Karen. — Minha filha... — a pequena tentou fugir novamente, mas sua mãe a alcançou e a abraçou forte. — Eu te amo, eu te amo, eu te amo, eu te amo. Nunca mais repita que eu não te amo, você é a coisa mais importante do mundo para mim, Karen Jonz Lohane Pfeifer.
Shinara deveria saber que depois de quase nove meses sem ouvir a voz da própria filha, Esther com certeza não esperaria no portão da escola, mas mesmo sendo pega de surpresa teve o bom senso de observar sem interferir.
— Mas... Eu tirei o amor da sua vi...
— Ninguém tirou o amor da minha vida porque você é o amor da minha vida. E não diga que é culpa sua, porque não é.
— Mas... Se eu não tivesse ganhado aquele prêmio idiota...
— Meu amor, sua mãe e sua mamy sempre foram duas crianças crescidas. Não precisávamos de uma desculpa pra ir ao Play Center, o que você fez foi só nos encher de orgulho. Te criamos da melhor forma que podíamos com a ideia de ter uma boa filha, mas você, Karen, é muito melhor do que conseguiríamos imaginar. É mais inteligente do que eu, mais forte do que a Bonnie e com uma criatividade e originalidade que só pode ter sido presente de Deus. Não diga que devia ter ido no lugar dela porque as nossas vidas não teriam o mínimo sentido sem você.
— Mesmo assim. Foi por minha causa que estávamos lá justamente naquela noite. E nunca vou conseguir me perdoar por ela ter ido por minha culpa.
— Karen, não é culpa sua. Não é culpa de ninguém, foi um acidente. A sua mamy estava tendo um ótimo dia com as duas pessoas que ela mais amava no mundo, a família dela. “Não é sua culpa se o destino é um carinha irônico e malvado”. Você só tornou o ultimo dia dela feliz, devia se orgulhar disso, como nós nos orgulhamos de você.
— Só está dizendo isso pra eu não me sentir mal.
— Não. Estou falando porque é verdade. Me perdoa por não ter entendido a sua dor.
— Com uma condição.
— Qualquer coisa.
— Me promete que eu nunca mais vou ter que ver aquela nojenta da Nicole Lira.
— Você não gosta dela?
— Eu a odeio, a senhora nunca notou?
— Bom... Não. Eu notava que você ficava meio desanimada às sextas-feiras, mas eu não achei que fosse por causa dela, até porque ultimamente você tem estado com um animo melhor.
— Mas isso é por causa dela, a minha melhor amiga. Uma pessoa que se importa comigo de verdade. –Karen apontou para Shinara que sorriu torto, de forma acanhada. — Se dependesse daquela doutorazinha, eu estaria em uma clínica suja e a ela atracada no seu pescoço ou sei lá.
— O que?
— Também nunca notou que eu ela tem uma quedinha, ou melhor, um abismo por pela senhora?
— Bom... Não, mas... Parando pra pensar... Nossa, como eu sou anta.
— Seria, tipo assim, muito inadequado pra minha patente concordar?
— Não nesse caso.
Minutos Depois...
— Ei, pequena. — Shinara chamou da porta de seu Uno antes que Karen entrasse no Cross Fox.
— Oi, Shi.
— Você devia me visitar, sabe? Nas férias. Assim a gente continua a tradição das sextas-feiras.
— Não precisa mais, eu não vou ser mais obrigada a olhar pra cara daquela “palavra inapropriada para a minha idade” da Nicole.
— Então você não quer mais ganhar um livro por semana?
— Claro que quero.
— Então venha me visitar.
— Okay.
— Esse aqui é meu número, diz pra sua mãe me ligar.
— Eu to aqui ouvindo toda a conversa de vocês. — Esther se pronunciou abaixando o vidro do motorista. — Você chama sua professora de “Shi”?
— Somos amigas, mãe. Devia passar cinco minutos conversando com ela, aí a senhora vai descobrir que não tem como não adorar essa mulher.
— Talvez eu passe mesmo. Cadê o número?
— Aqui. — A professora estendeu o papel para a morena e lhe ofereceu um sorriso que foi instantaneamente retribuído.
— Eu te mando uma mensagem mais tarde pra você guardar o meu número.
— Okay. Tchau, Esther. Tchau pequena.
***
Shinara estava deitada na rede em sua varanda aproveitando o vento daquela tarde tranquila quando ouviu a palavra “Expelliarmus”, o que indicava que havia acabado de receber uma mensagem. Ao desbloquear a tela, supôs pelo número ser desconhecido que ela de Esther, e estava certa.
“Obrigada por tudo.
–E.”
O Fim
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