Na manhã daquela quinta-feira o "control c control v" de Matteo se preparou para ensaiar o que fará à noite na famosa cam chat. Sequer conseguiu dormir direito na madrugada, estava com a cara de abatido e sem a mínima vontade de sair. Entrou no estúdio, sentou-se na cadeira e ligou o PC.

O site pediu o login e a senha da conta de usuário membro. Ele colocou as duas coisas, antes de dormir na noite anterior ligara para o irmão pois o energúmeno havia esquecido de dar, e acessou. Havia todo um histórico de vídeos na conta e os que foram mais acessados. Dentre eles o famoso vídeo em que Matt se fantasiou de skatista e se lambuzou de danoninho. Aquilo era surreal, mas Lucca preferiu pegar algo menos hardcore para ver.

O vídeo mais acessado era do brother vestido com smoking, velas ao fundo e atuando como namorado de visitante. Também usava uma máscara preta que parecia de carnaval.

— Veremos como eu posso me comportar...

Deu play. A live já começava com Matteo na frente da câmera, dando aquele sorrisinho maroto e falando quase que roucamente. Em menos de dez minutos o vídeo estava no topo de doações do dinheiro virtual. Os próprios usuários no chat que davam mais, pediam que o rapaz tirasse as roupas, peça por peça. E como o desejo deles era uma ordem, a sessão de striptease começou. Nesse tempo o Gian era o fã número um e o que mais dava dinheiro ao modelo. E em vinte e cinco minutos Matteo já mostrava os seus músculos da cintura para cima — sem tirar a máscara. Até aí tudo bem, tudo zen... nada de anormal. O público era majoritariamente gay e só o fato do Big Johnny ficar descamisado explodiu em audiência. Os números no gráfico ao lado não mentiam: Matteo era um fenômeno.

Lucca só começou a ficar espantado quando em quarenta minutos o Gian doou o dobro da doação anterior e pediu que o modelo ficasse de cueca. Ao ver a cena do irmão se despindo, deu um nervoso, uns "calos frios", a lente do óculos embaçou de repente, uma vontade de enfiar a cabeça na terra igual um avestruz.

Foi quando o grand finale aconteceu. O momento em que Matt tirou a cueca. Foi horrível para Lucca ver aquela cena e imaginar que terá que fazer do mesmo jeito. Já tava tomando uns goró, uma vodca que achou na geladeira, só assim pra vergonha alheia passar. Depois quase cuspiu a bebida assim que os clientes pediram para o modelo gozar na live.

— Que gente mercenária! Eles vão até o fim. Como que o Matt se submete a isso?

...

Enquanto isso na Grécia...

Deitado no sofá, Gian ficou entre as pernas de Matt que ficou por cima dele. Repentinamente um líquido branco e viscoso espirrou em seu rosto, deixando-o um pouco frustrado.

— Ué, não gostou?

— Fiquei todo melado com isso. Você devia ter me dado direito e não jorrado feito louco na minha cara.

— Humph, que exigente — Matt lambeu as bochechas meladas de Gian. Depois colocou o frasco de iogurte sobre o móvel ao lado e passou a acariciar o loiro.

*Fala a verdade, pensou besteira hehehe.

— Espera... — a blusa dele foi retirada e os mamilos acariciados e chupados. — Não é hoje que o seu irmão vai fazer a live?

— Não fica falando do meu irmão numa hora dessa. Deixa aquele maluco se virar por lá. O que se pode fazer é aproveitar o momento só nós...

— Certo, mas pode sair de cima, por favor?

A cara de insatisfação do Matteo era notória. Aceitou o trabalho de ser acompanhante de Gian por uma semana, mas o cliente sequer demonstrou que queria sexo. Desde a primeira vez na primeira noite deles que o loirinho ficava adiando o momento crucial. Aquilo era no mínimo broxante.

— Não fica com essa cara.

— Que cara? Apenas estou entediado por causa do cliente que diz gostar de mim ficar de cu doce até agora. Será que é algo em mim que não te agrada?

— Não, de maneira nenhuma! Eu te acho perfeito pra mim. Não pense nisso, por favor. É que eu preciso de tempo para me preparar.

— Vai decidindo logo, porque depois de uma semana eu não darei mais chance.

O celular sobre a mesinha de centro tocou. Era um amigo de Gian chamando-o para uma partida de tênis na quadra do clube. Pensando seriamente em sair antes de ser atacado por um "seco" Matt, aceitou o convite.

Vinte minutos depois...

— Vai aonde?

— Vou jogar tênis com os meus antigos amigos da faculdade. Se quiser, pode ficar enquanto me divirto lá em baixo.

— Mas de jeito nenhum. Vou junto. Inclusive eu sei muito bem jogar tênis.

— Sério?

— Uhum. Eu frequentava um clube quando eu era adolescente. Pode me aguardar um pouquinho?

Pouco tempo depois Matt se arrumou para acompanhar Gian à partida de tênis no térreo. Encontraram-se com quatro rapazes, todos engomadinhos, riquinhos, do nível dele.

— Olha só quem deu as caras. Giancarlo, meu amigo, como vai? Faz tanto tempo, né?

— Ele é o seu amigo? — perguntou Matt.

— Sim. Foi ele quem me ligou. Esse é o Victor Hugo, antigo colega meu de faculdade. Victor esse é o Matteo Silvestri, amigo meu.

— Como vai? — O tal Victor era alto, do tamanho de Matt. Bem moreno, típico homem do Mediterrâneo, não era um cara muito forte, porém ostentava olhos azuis chamativos que quase deixou Matt com inveja.

— Eu vou bem, obrigado — disse seco.

Claramente Matteo ficou um pouco incomodado com a aproximação do Gian com Victor. Era nítido que eles se davam muito bem.

Mais alguns colegas chegaram na quadra de tênis. Gian pediu a Matt que fizesse dupla com uma outra pessoa, mas o acompanhante decidiu fazer par com Gian. Victor sorriu de uma maneira bem sonsa e fez dupla com outro rapaz.

A partida de tênis começou. Matt demonstrou uma boa habilidade no esporte, surpreendendo o loirinho. No entanto, Vuctor Hugo era tenista profissional e mostrou que sabia humilhar qualquer um que se metesse no seu caminho. Depois de mais de uma hora a dupla de Victor venceu o jogo.

— Cansado, amigo? Pensei que fosse alguém à minha altura. Oh, não me ache prepotente, eu sei dos esforços que você fez, mas já estava escrito que eu seria o melhor.

— Hahaha. Estou rindo como ninguém — disse Matt nervoso.

Depois da partida, Victor segurou Gian pelo braço e pediu que o acompanhasse até a sua suíte. Matteo simplesmente largou eles e foi para o bar do resort e pediu alguns drinques.

— Que fujão. Nunca o vi desse jeito.

— Desse jeito como?

— Sei lá, talvez com ciúmes de mim. Não, espere aí... Tá com ciúme?

— Tá doido? Eu nunca me envolvo emocionalmente com os meus clientes. Foi só impressão sua.

— Uhum, fingirei que acredito. A propósito, o Victor sempre me respeitou. Ele é um cavalheiro. É bonito, mas não faz o meu tipo.

— E qual é o seu tipo?

— Você.

— Ah é? E por que que até uma data dessa você foge de mim todas as vezes que eu quero... F-U-D-E-R?

Envergonhado pela falta de pudor de Matt, Gian desviou o olhar. O gigolô logo viu que o loiro ficou desconcertado e segurou a sua mão.

— Aonde vamos?

— Tomar banho juntos.

— É o quê?

Dentro do apartamento, Matt nem esperou e foi logo levando o rapaz para dentro do baheiro. O rosto de Gian não escondia a sua tamanha vergonha. Ainda não se sentia preparado para transar com aquele homem.

— E quem disse em transar? Eu disse tomar banho. Nunca forçaria você a nada.

— É...

Os dois ficaram juntos na banheira. Matt lavou as costas do seu cliente, às vezes passando as mãos em outras partes do corpo.

— Estou doido para comer carne branca — sussurrou no ouvido de Gian.

— Ca-carne branca...? Como assim?

Momentos depois...

— Ah, isso — disse Gian olhando para uma travessa com peixe.

— Pensou que "carne branca" seria o quê?

*a bunda de Gian kkk

Eles almoçaram. O dia não teve muitas novidades, exceto uma recepção de acionistas do resort que Gian teve que comparecer. Nesse meio tempo, Matteo permaneceu sozinho no bar tomando alguns drinques.

— Um dry martini, por favor — disse Victor Hugo sentando-se ao lado dele. — Que coincidência nos encontrarmos pela segunda vez. Cadê o Gian?

— No trabalho.

— Você não é simplesmente um amigo dele que de repente se hospedou aqui e participou daquela disputa de tênis. Acertei?

— Se você diz.

— Obrigado — recebeu a bebida. — Eu não digo, é um fato. Conheço aquele Gian há anos e sei das suas preferências sexuais. Sei que ele é homossexual, apesar de não militar pela comunidade LGBT, mais por causa da sua formação mais tradicionalista. O que mais me causou espanto foi que um cara tão certinho quanto ele esteja se enveredando para um caminho que, convenhamos, não tem volta.

— Meu chapa, aonde quer chegar?

— Você é acompanhante de luxo, não é? Não precisa se envergonhar.

— Não estou com vergonha. Sim, eu sou. E daí?

— Isso era o que temia. Vou te dar um conselho: Gian é um rapaz delicado, que se apega fácil e é facilmente sentimental. Se você não gosta dele, saia fora. Deixe para alguém que já o conhece fazê-lo feliz.

— Você?

— E quem mais seria?

O homem bebeu o dry martini e saiu do balcão. Matteo apenas ficou olhando para a bebida no copo.

À noite, por volta das dezenove horas, Gian entrou no apartamento e viu Matt dormindo no sofá com um rosto tão inocente. Desligou a televisão e chamou o homem.

— Pensei que ficaria acordado para ver o seu irmão na live.

— Eu disse para ele começar às 21 horas. Como foi no trabalho?

— Muito bem. A minha família apesar de ser zoada é muito eficiente. Eles adoram trabalhar. Conseguimos um acordo no Emirados Árabes.

— Que bom. Agora vem aqui.

— Onde?

Matt pegou o menor e pôs sentado nas suas pernas.

— Que tal se abrir pra mim hoje e parar dessa procrastinação? Que? O que é isso?

— Um catálogo de hotéis em Santorini. Como não tenho quase nada para fazer aqui, tirando um negócio com um árabe, que tal passarmos o resto da semana lá? Algo de errado?

Mas Matt não contou nada sobre a breve conversa que teve com Victor Hugo para não preocupar Gian.

...

As horas se passaram e o coração de Lucca estava para sair de sua boca de tanto nervosismo. Não sabia como começar a live, quais palavras iniciar. Aquele público pervertido sacaria a diferença em qualquer escorregadela que ele fizesse. Para a piorar a situação, as roupas que Matteo deixou para ele escolher eram ridículas. As calças tão justas quanto àquela do Lenny Kravitz.

— Seja o que Deus quiser.

Não, ele escolheu não usar nenhuma fantasia e ir apenas com as roupas normais. Ele imitaria o Lucca, imitando ele mesmo na live. Será que dará certo?

Com uma camisa pólo amarela simples, óculos e cabelo bem penteado, o homem iniciou a transmissão. Logo as pessoas no bate-papo notaram a diferença na vestimenta dele. Perguntavam se era apenas um aviso ou algum personagem nerd.

— Boa noite a todos... ah...

Não sabia o que falar a partir dali. Era o fim?

Enquanto isso...

— Calma, não vai destruir meu notebook — implorou Gian para um Matt descontrolado.

— Eu juro que mato esse estúpido! LUCCA!!!

Continua...