Brothers
2 CH02: Lucca
Giancarllo Porpetonne — Toscana
A comuna interiorana da Toscana abrigava monumentos históricos e uma belíssima vinícola da família Silvestri. Na periferia, a região com mais de cinquenta hectares produzia um dos melhores chiantis da Itália.
Visitantes podiam fazer um tour na propriedade por 20€ e provar um dos vinhos tintos mais cobiçados.
As garotas da universidade católica tiravam fotos das videiras quando um cavalo parou perto delas. O homem robusto e bonito estava montado no animal.
— Senhor Maurizzio, viu o meu pai?
— Ele está colhendo uvas mais à frente.
Elas sorriram para ele e receberam um sorriso de volta. Lucca Silvestri ajeitou os óculos e foi na direção que o seu empregado dissera.
O senhor Marco Polo Silvestri recebeu o filho depois de uma semana de viagem a Paris.
— Aqui estou eu, papa.
— Lucca, você sabe alguma coisa do seu irmão? *aka moleque transudo* Eu tento ligar para ele, no entanto não consigo nunca uma resposta. Será que ele esqueceu que daqui a dois dias é o aniversário de casamento entre mim e sua mãe?
— Não! Tenho certeza que ele virá!
— Que otimista você é. Sua mãe está lhe chamando.
A senhora Úrsula Silvestri deu um abraço apertado no filho e perguntou se havia alguma notícia do Matteo. Todos se importavam muito com ele, mas Lucca não entendia.
De volta para a mansão, o gêmeo Silvestri encontra o seu velho amigo de infância Donatello Fernando. Este era mais baixo do que Lucca, ruivo e da mesma idade.
*Medo de mim mesmo, porque até uma data dessa não teve treta na história.
— E como tá indo a vida amorosa? Já conheceu alguma mulher adequada para ser a sua esposa?
— Não é estranho? Dois anos morando na Sardenha e não encontrei ninguém que me satisfaça — Donatello abaixou a cabeça enquanto sentava na cadeira do escritório. Lucca ficou sentado no outro lado da mesa e sentou na cadeira de Marco.
— Uma pena...
— Mas não venha me dar lição de moral. Sei muito bem que você também tá na friendzone hahaha. Como você pode dispensar aquela garota na faculdade?
— Ela não fazia o meu tipo. Aí... o que veio fazer aqui mesmo?
— Minha família vai abrir uma loja de vinhos aqui em Giancarllo. Estou aqui pra tratar de assuntos profissionais e abrir um acordo com tua família.
Ambos conversaram muito sobre a vida do tempo da escola, faculdade. Também conversas sobre a profissão foram abordadas de maneira detalhadas.
— O que vai fazer depois daqui? Se tiver tempo, vem comigo malhar.
— Aceito.
Dentro da residência havia uma academia pessoal. Apesar de recatado e tradicional, Lucca gostava de praticar esporte e musculação. Ganhou um corpo atlético e boa disposição física com treinamentos regulares. Donatello era mais fraco, porém ainda assim tinha alguma massa muscular.
— Foi massa. Há tempos que eu não me divertia malhando. Acho que é a nostalgia.
— Pode crer, amigo — Lucca ficou sentado na cadeira com uma toalha em volta do pescoço. Limpou as lentes suadas dos óculos.
— E Matteo? Ainda está em Roma? Ele... não gosta de fazer contato.
E foi assim que Lucca resolveu ir atrás do seu irmão gêmeo.
...
— Que merda de "meretriz macho"? Essa expressão nem existe. Porra! — Matteo se sentou no sofá.
— Eu pensei... que você me disse que homossexualidade não era sinônimo de imoralidade, mas isso...
— Ah, cala a boca! É verdade que nem todo o gay é imoral, mas eu sou, e daí? Há tempos sou garoto de programa e stripper. Maninho, você está chocado porque vive na idade média e vendendo chianti. Não me venha dar lição de moral.
*I ate his liver with some fava beans and a nice chianti — Lecter, Hannibal
— Escute aqui, Lucca, sou maior de idade, moro sozinho, ganho dinheiro chupando pirocas e priquitos, por que está se incomodando?
Matteo mostrou ser completamente oposto ao irmão. Além de não dar a mínima para regras tradicionais, ele falava sem pudor.
— Gian, querido Gian, pode ir pra sua casa. Você teve à disposição meu corpo por 1 hora, mas fez cu doce. Se quiser sexo é só me pagar. Talvez eu te dê um peru no Natal... peru de comer, tá ok?
— Mas eu...
— Sem mais. Tchau.
Gian quase infartava. Eram exatamente iguais na aparência, exceto pelo fato de um ser diferente do outro por dentro. No entanto, ele foi expulso antes de dizer algo importante.
*Tava doido para um ménage... ;)
— Jesus, quanta sujeira — se levantou e ficou perto da varanda. — Se nossos pais descobrissem isso...
— Que eu transo com homens por dinheiro? Ora, eu me atraio por mulheres também. Agora eu sempre quis saber do que você gosta — abraçou Lucca por trás.
— De homem que não é.
— É, realmente você é bem diferente de mim. Até achei que você tava a fim daquele seu coleguinha de infância.
Lucca riu e afirmou que o irmão era muito engraçado.
— Eu só vim avisar mesmo. Se não quiser ir, não vá. Mas caso queira, ligue pra mim amanhã de manhã.
— Por que não fica aqui?
— Tchau.
Matteo já sabia do número do celular do irmão, mas nunca encontrou motivo para ligar. O aniversário de casamento dos seus pais seria esse motivo?
Gian esperou Lucca para abordá-lo.
— Eu posso falar com você?
— Gian, não é? Eu não tenho nada a ver com essas coisas...
— Não é nada sobre isso. Pode me acompanhar numa cafeteria aqui perto?
Minutos depois os dois já estavam sentados à mesa.
— Nossa, você é igualzinho ao Matt.
— Pode falar. É sobre ele?
— Eu estou apaixonado por ele. Ele pensa que nossa primeira noite de contato visual foi hoje, mas não. Quando eu estava numa boate gay, eu o vi sentado perto do barman; eu estava ao lado dele. Parecia que ele chorava, infeliz com algo e eu comecei a bater um papo. Foi a melhor conversa que eu tive com alguém. Seu irmão, Matteo, me incentivou a continuar a viver e não ligar para preconceitos. Foi nisso que me apaixonei, claro que os músculos dele me deixam com tesão... por isso que fiquei excitado ao te ver lá no apartamento dele... desculpa.
— Bom, eu não sou bom em conselhos amorosos, sobretudo de homossexuais. Só posso dizer pra você ir à luta.
Gian agradeceu à Lucca.
...
Dia seguinte.
— Mas que porra é essa? O que o Gian tá fazendo aqui no seu carro?
— Oi, Matt. Sou convidado do seu irmão para a festa dos seus pais.
— Entra logo, cabeça de vento. Decidi na última hora trazê-lo.
— Eu mereço. Nada de gracinha!
Durante a viagem, Gian tentava iniciar uma conversa com Matteo, mas ele sempre o ignorava.
Na Vinícola Silvestri, o gêmeo pródigo foi recebido pelos pais com muito amor. No entanto, Marco Polo ficou indignado que seu filho mais velho *mais velho uns dois minutos que o outro* era homossexual. O seu catoliscismo entrincheirado.
— Aqui é o seu quarto. Quase não tem nada. Mesmo você não morando aqui há anos, mamãe e papai nunca se atreveram a desocupar.
— Eu me lembro de quando éramos crianças. Brincávamos nas videiras. Quando ficávamos à tarde estudando, escapávamos por esta janela, a janela do meu quarto.
Gian se aproximou dele e tentou abraçar o seu braço. Lucca riu da situação.
A festa começou à noite. Os convidados eram parentes próximos e um pouco mais afastados.
— Parabéns, senhor e senhora Silvestri — disse Donatello.
Do outro lado do hall, Matteo viu o amigo do irmão e sorriu. Subiu ao quarto de Lucca e o viu ajeitar a camisa social.
— Pelo menos não está sendo brega como sempre. Eu vi o Don lá em baixo. Sério que tu não percebeu? Uma coisa que me intriga desde a adolescência.
— Quê?
— A bicha louca que tem dentro daquele rapaz. Aquele monstro está prestes a sair do armário. Eu sei, eu farejo um semelhante a milhas de distância.
— Para com isso.
— Vocês nunca deram uns pegas? Talvez no banheiro da escola. Sempre ocorre uns pegas... Ah se os banheiros escolares falassem.
— Não! Eu não sou pervertido que nem você. Sabia que todos os domingos vou à missa? Nem mesmo o seu irmão gêmeo é parecido contigo.
Matteo parou com a conversa e ajudou a por a gravata borboleta no irmão. Quando Lucca foi pegar os óculos no criado-mudo, sentiu seu braço esquerdo ser preso numa algema, a outra parte sendo presa à cabeceira da cama.
— O que está fazendo? Isso são algemas de verdade?
— Um experimento social. Farei uma brincadeira com os convidados. Calma, caralho — Matt colocou os óculos do irmão.
— Volta aqui! Isso é uma tolice!
O gêmeo pervertido voltou para o hall e se aproximou de Donatello. O rapaz sorriu e o parabenizou pelos pais.
— Podemos conversar nas videiras? Claro que se não quiser...
— Lucca... a-acho que sim.
Matteo sorriu maliciosamente.
Don caminhava pelo campo das plantações de uvas acompanhado por Matteo, achando que era Lucca.
— Bom, já estou aqui, nos afastamos um pouco da sua casa. O que quer?
— Cara, eu vou ser direto e não me interprete mal, pois não é uma ofensa. Você é gay?
— Não! Lucca, que pergunta foi essa? Isso é um absurdo...
Ele se aproximou do menor.
— Então por que ficou agitado de repente? Eu... eu sou muito infeliz, Don — passou os dedos nos olhos, enxugando as lágrimas.
*De crocodilo.
— O que... que está pensando?
Matteo roubou um beijo de Donatello. A surpresa foi tamanha que ele pulou para trás. O usurpador ficou dizendo coisas acalentadoras.
— Dispensei aquela guria da faculdade, porque no meu eu... eu sou gay. Gosto de você. Eu te amo, Don. Sempre te amei.
— Ta-também gosto de você... sim, eu gosto. Desde que nos beijamos no primeiro ano do ginásio.
Aquela informação surpreendeu até mesmo Matt. Nunca imaginou seu irmão certinho ter beijado outro homem na escola. Daí em diante, foi muita gargalhada, apavorando Donatello.
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