Broken Wings
2 Um gato vermelho e seus olhos azuis
Pingos caem sobre minha boca seca me fazendo acordar. Muitos escorrem pelo meu queixo, descendo cansadamente até o meu pescoço.
Alguém esta me dando água. Tão fresca e pura que eu sinto como se não bebesse nada a dias.
—Não se preocupe, você não vai mais tomar água batizada. — Essa voz... Calma e serena... — Você está bem, amiguinho?
Abro meus olhos vagarosamente devido a luz forte acima do meu rosto. O mundo está turvo como se uma névoa cobrisse os meus olhos e uma silhueta escura se contrasta com a luz, me permitindo visualizar vagamente um homem.
Pisco algumas vezes e a névoa some dos meus olhos e me revela o rosto coberto pelos cabelos pretos, destacando o forte azul dos seus olhos. Mirando-me com curiosidade ele me oferece mais água num copo pequeno e eu o pego, levantando-me vagarosamente e sentando a alguns centímetros dele, o homem que me salvou.
—Você passou por maus bocados em. Qual é o seu nome?- Abraço minhas pernas e encolho meu corpo. O que ele quer de mim? — O que foi? Não quer me falar?
Lentamente eu solto minha mão e começo a escrever no chão empoeirado, deixando letras perfeitamente visíveis no chão cinza, formando a minha identificação.
—Yusuke... Nome legal, mas muito comum. — Ele chega um pouco mais perto e me encara. — Comum demais para alguém com a sua história. Além disso, tenho certeza que você não sabia de tudo o que você sofria.
Um arrepio sobe pela minha espinha, passando por cada cicatriz que tenho em minhas costas. "Como assim eu não sabia de tudo? O que ele sabe? "
—Você nunca se perguntou por quê sempre ela sempre te dava um copo de água todos os dias antes de todas as refeições? Aquilo era misturado com GHB, uma droga que suprime o sistema nervoso e te deixa vulnerável. Por isso você nunca teve força pra lutar ou resistir.
"Ela me drogava... Eu nunca desconfiei disso... Como ele sabe? Como ele sabia quem ela era?!"
—Calma, calma. Não precisa ficar assim. — Ele diz como se lesse a minha mente. — Vem comigo. — E me estende uma mão, aguardando minha resposta. Eu hesito, mas não consigo negar aqueles olhos azuis. Seguro em sua mão e me levanto cuidadosamente para me manter em pé. O mundo está mais claro, menos distorcido e mais... Colorido...
Ele sorri e me envolve com um dos braços, colocando-o gentilmente em minhas costas como se protegesse minhas feridas. Começamos a andar lentamente pelo galpão escuro, com apenas a lâmpada que havia me trazido a visão de volta. Vamos em direção ao que parece ser um quarto com uma cama e um pequeno sofá ao lado. Quando entramos ele me deixa sobre a cama gentilmente, se joga no sofá a um metro de mim e, jogando o cabelo pra trás, revela numa cicatriz sob o seu olho esquerdo com a forma de uma lança bem fina que desce até o seu queixo fino.
—Tá vendo isso? Eu era como você. Sofria muito nas mãos do meu pai. Ele e minha mãe nunca estiveram em sincronia e até hoje não imagino um jeito de deles terem um filho juntos. — Ele se deita, solta um grunhido e suspira. -Todos os dias que aquele alcoólatra miserável encontrava alguma garrafa, cheia ou não, fazia eu e minha mãe de saco de pancadas e sempre me deixava uma marca e essa foi a mais profunda. No dia em que eu ganhei essa no meu rosto, eu perdi a minha mãe. — Ele fecha a face e uma expressão de tristeza surge. — Era a única luz que eu tive na minha vida e quando aquele homem a tirou de mim, eu não suportei. Acho que você já sabe o que aconteceu em seguida. -Então, passando o dedo sobre o seu pescoço, ele sorri e olha pra mim. — No fim, a polícia concluiu que ele havia se matado quando percebeu o que tinha feito e que as minhas digitais na arma eram decorrentes da minha tentativa de salvar ele. Ha ha. — Ele leva uma das mão ao rosto cobrindo o olho e, olhando para o teto, ele continua. — Muitos se arrependeriam, mas a única coisa de que eu me arrependo é de não ter feito isso antes. Depois daquilo, eu fui para um orfanato e fiquei lá até completar 18 anos porque, aparentemente, ninguém quer um filho que já foi acusado de matar seu próprio pai. — Ele se senta novamente e olha pra mim, esperando alguma reação que não acontece. Então ele se levanta e vai até um pequeno armário ao pé da cama e trás até mim várias pastas amarelas com nomes escritos e, ligando a TV sobre o móvel, põe no canal 23, onde o Noticiário Nacional acabava de começar. Estavam fazendo um especial do Serial Killer da cidade e todas as suas vítimas conhecidas:
"A primeira vítima conhecida dele é o bancário Riuky Nagano, encontrado em sua casa com um corte profundo em sua garganta..." O dedo no pescoço!
Apontando para as pastas ele sorri e se deita. Passo as pastas até achar o nome do bancário e abro-a e encontro várias fotos dele em vida, andando, bebendo... Depois uma única foto de seu corpo, com a abertura em sua faringe e sangue por todo lado. Aquilo me deixa perplexo, até que vejo uma página escrita com várias anotações: "Estupro de quatro jovens, estelionato e agressão. Casa média sem segurança. Hábitos: Cocaína e álcool. DELETÁVEL."
"A segunda vítima é Mya Kisuke, morta do mesmo jeito, também em sua casa..." Pego a pasta amarela com o nome descrito e encontro fotos do mesmo estilo, ela andando, chegando em casa, traficando drogas e a única foto de sua morte. Nas anotações: "Duplo homicídio, posse e tráfico de armas e drogas. Casa grande com segurança fraca: alarme simples. Hábitos: Metanfetamina, álcool e maconha. DELETÁVEL."
Á medida que a televisão anunciava as vítimas, eu achava uma pasta com os mesmos nomes, anotações e fotos de suas vidas ocultas com vários crimes hediondos que machucaram outras pessoas. Até agora 4 vítimas e faltava apenas uma pasta...
"Porém, a morte mais chocante desse assassino foi a morte de Amy Hagasaki." Esse nome! "Ela foi encontrada ontem em sua casa com o mesmo corte na laringe, mas seu coração foi arrancado de seu corpo e deixado a alguns centímetros do corpo."
—Você merecia um show. Veja.
Essa mulher tornou a minha vida um inferno por tanto tempo e, agora, ela esta morta. Não consigo esconder a minha ansiedade de ver.
Quando pego sua ficha minhas mãos começam a tremer e começo a sentir falta de ar, mas mesmo assim, eu quero saber. Abro lentamente e leio as anotações: " Atropelamento e fuga de três pessoas, tentativa de homicídio e tortuna de menor. Problemas mentais de esquizofrenia aguda e transtorno dissociativo. Hábitos: Alucinógenos pesados. POSSÍVEL REFÉM. DELETAR IMEDIATAMENTE."
Minhas mãos mal conseguem segurar a pasta e as fotos caem, se espalhando pela cama. Todas elas pertencendo àquele monstro. Muitas mostravam seu corpo em diferentes ângulos, com muito sangue cobrindo seu rosto e suas roupas. Seu coração estava a alguns centímetros da mão, como se ela quisesse alcançá-lo, quase como se aquilo fosse uma obra de arte. Um sentimento de segurança começou a se propagar por mim, até que meus olhos se encontraram com uma das poucas fotos que a mostravam em vida, arrumada, cabelos impecáveis e... aquele sorriso... Por quê... Por quê ele me persegue?!
—Ei ei, calma, calma. Ela não pode mais me te ferir. — Ele me abraça e eu percebo o quanto estava tremendo, o quanto minha respiração ofegava e o quanto eu estava suando.
Esse abraço foi tão caloroso que me senti como nunca antes, quase como se recebesse amor pela primeira vez em 16 anos de vida. Com lágrimas rolando pelo meu rosto, eu retribui o abraço
— Obrigado... — Eu digo olhando para aqueles lindos olhos azuis manchados de vermelho e juro em silêncio que faria de tudo por ele. — Você me salvou!
—Eu estou aqui por você Yusuke, pode me chamar de Neko.
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