Broken Wings
3 Decisão de um cão sem dono.
A delegacia estava um caos com todos os policiais, analistas e detetives que haviam sido chamados para Shibuya para investigar os misteriosos assassinatos que assustavam a região a quase um mês. Pouco avanço havia sido feito e o chefe da polícia, o oficial Masaki Ukihara não dormia há muito tempo, tanto que seu rosto havia ficado mais fundo, a barba geralmente aparada e impecável mais longa e as olheiras de preocupação ainda mais evidentes.
"Onde estamos errando?" Ele repetia em silêncio ao olhar os papeis em sua mesa, cada um com informações das vítimas do degolador. "O que está errado nesse caso?!"— Chefe? — Um dos analistas o tira de seu tormento pessoal. — O senhor tem que dar uma olhada nisso.— O que foi? Encontraram alguma coisa? — Masaki responde rapidamente indo para a porta.— Um padrão. Ao som dessas palavras o oficial sai de seu escritório e corre até a sala de reuniões segurando os papeis que o analista o entregara, chamando todos do caso até la com urgência. Não mais do que 2 minutos se passam e todos já estão ali e, pegando o seu microfone e se levantando, Ukihara começa:—Bem, eu não sei muito bem a quanto tempo vocês estão aqui, de onde vieram ou o que fazem fora dessa delegacia. Porém, aqui dentro eu sou o responsável por vocês e agora mesmo eu cheguei a conclusão de que eu estou fazendo um péssimo trabalho. — Todos fazem um barulho que mescla duvida e espanto. — Vocês estão aqui a quase um mês senhores e senhoras e hoje, somente hoje, chega a minha sala o padrão desse assassino. — Ele agarra o encosto da cadeira e continua. — Como é possível que quase 20 pessoas não tenham percebido que todas as vítimas já tinham ficha criminal?! Eu achava que isso era impossível, mas a realidade realmente assusta. — Ele então leva a mão direita ao rosto e aperta o meio dos olhos para se acalmar, respirando bem fundo e contando até 10. — De acordo com isso, ele é um justiceiro orgulhoso que não liga de deixar a sua sujeira. Sem remorso ou qualquer hesitação ou arrependimento e, nesse raciocínio, ele trabalha com alguma instituição pública, talvez aqui mesmo. — Todos da sala olham atentamente para Masaki. — Chamem o técnico para verificar alguma invasão no nosso sistema. + + + — Bom dia! Dormiu bem? — Pergunta Neko alegremente enquanto usava um avental branco com felizes letras dizendo "Beije o cozinheiro". O forte cheiro de bacon e ovos preenchia meu nariz me dando água na boca.— Bom dia. — Eu digo tropeçando na cadeira e me sentando depois de massagear o dedinho. — Melhor que antes com certeza.— Pesadelos de novo? — Eu aceno com a cabeça positivamente. — Não se preocupe, eles não são reais. Por mais que pareçam, eles não podem te fazer nenhum mal e o melhor... — Ele se aproxima e diz falando baixinho: "Você tem controle sobre eles.", voltando logo em seguida para o fogão. Quando ele volta, coloca um prato sorridente com bacon e dois ovos estrelados na minha frente juntamente com um copo grande de suco de laranja. Neko se senta a minha frente e com um alegre "Vamos comer!" atacamos a comida. Três dias haviam se passado desde a minha chegada e eu já me sentia em casa. Depois que o pai de Neko morreu, essa antiga oficina dele foi passada para seu filho, que fez dela sua nova casa. E que casa! O lugar havia uma grande garagem com um único carro que ele usava para ir ao seu trabalho como técnico de computadores e conexões. A cozinha era pequena, porém bem arrumada com uma mesa e duas cadeiras combinando com a geladeira e o fogão igualmente minúsculos. O quarto também era super aconchegante com o armário onde Neko guardava suas pastas e câmeras, a cama fofa e o sofá onde ele insistia em dormir. Contudo, o meu lugar favorito de lá era o teto do galpão, onde podíamos ficar sem preocupação e apreciar a linda vista da cidade de Shibuya e seus prédios altos. O relógio de Neko apita e ele corre até o quarto para colocar seu uniforme de trabalho: Um macacão de corpo inteiro e um boné com um distintivo de costura em que ele esconde seu cabelo grande. Ele seria outra pessoa se a cicatriz no seu rosto não fosse tão evidente e, parecendo perceber esse erro, abre a primeira gaveta do criado mudo ao lado da cama e tira um pedaço de silicone que ele coloca sobre o rosto e parece se encaixar perfeitamente sem dar na vista que é falso. O um disfarce perfeito.— Eu volto logo. Se quiser tem comida e suco na geladeira. Até mais tarde! — E ele entra no carro e saindo pelo portão que se abria enquanto eu acenava desejando um boa dia de trabalho. Depois de comer, fui para a TV e fiquei vasculhando por algo para assistir até Neko voltar, quando no canal 5, um documentário sobre Hachiko, o cão símbolo da cidade. Eu já havia ouvido falar sobre ele e sua incrível lealdade de sempre esperar o dono voltar à estação mesmo depois de nove anos que seu dono havia falecido. Com lágrimas nos olhos quando o programa acabou, eu senti inveja daquele cão e como ele foi com seu dono. Mesmo depois de tanto tempo, ele continuava a esperar na frente da estação todos os dias. "Eu não serei diferente." Disse a mim mesmo enquanto levantava da cama. "Farei tudo por ele."
Assim, eu decidi começar arrumando a gaveta dos arquivos de Neko que não estava nem um pouco organizada com fotos, folhas e identificações misturadas. Demorou um pouco contudo, consegui dar fim a pilha interminável de papeis, restando apenas uma única folha empoeirada e com teias de aranha. Algo parecia se esconder sob ela, formando uma estranha circunferência. Rapidamente eu puxo o papel cheio de pó e o jogo no lixo, restando apenas aquilo que eu observava. "Uma coleira?" Parecido com um cinto, o acessório reluzia como se fosse novo. Uma fivela brilhava em prata juntamente com a plaquinha de identificação, contrastando com a forte cor do couro preto. Não havia nome no pingente, apenas uma gravação clara porém legível: "Sempre ao seu lado." Eu não acreditava no que via. Aquilo parecia ser feito para mim. Agarrei com força o pingente e saí procurando algo para marcar meu nome, arranjando uma faca da cozinha. Levou muito tempo para que eu conseguisse formar todas as letras no alumínio, mas o resultado foi muito bom. Quando acabei, coloquei a coleira no pescoço com orgulho e esperei por Neko, que chegou 5 minutos depois. Saindo do carro, eu corro até ele e o abraço. Ele parece confuso, no entanto retribui na mesma hora.— Oi! Como foi seu dia? — Ele diz tirando a prótese e o boné enquanto lentamente desfazemos o abraço. Quando me afasto, ele percebe o brilho em meu pescoço e sorri para mim. — Pelo jeito você esteva bem ocupado. — Eu suspiro e ponho meus sentimentos para fora.—Neko, você foi a única pessoa que já se importou comigo na minha vida. Você me salvou de um inferno, cuidou de mim e agora eu escolhi fazer isso por você. — Me ruborizando e mostrando o pingente, eu continuo. — Quero deixar tudo para trás e recomeçar com você e o meu novo eu, porque... — Engulo saliva, respiro e continuo. — Porque eu te amo! Ele parece um pouco atordoado com tudo o que eu disse no primeiro momento. Um brilho incomum surge em seus olhos azuis e uma única lágrima rola pela sua face, passando por sua cicatriz. Neko se ajoelha e eu o imito, ficando na mesma linha de seus olhos, que passam pela plaquinha vendo minha nova identificação.— Eu não acredito que depois de tudo que eu fiz, todos os pecados, todo o mal, eu ainda consegui achar um anjo. — Neko pega o pingente e lê enxugando o rosto. — Hachi... Que belo nome. Me sentindo como nunca antes eu me aproximo de seu rosto fecho os olhos, sentindo o exato momento quando nossos lábios se tocam. Ele retribui o beijo e uma nova sensação juntamente com uma lágrima brota em mim. "Então isso é o amor!"
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