Broken Trust - Season 2
7 Grande Noite
Notas iniciais
Estive muito desanimada durante esse período que passou, mas em consideração às lindas leitoras que não deixam de comentar a cada capítulo, decidi continuar escrevendo essa fic. Bem, depois desse tempo sem escrever, acabei perdendo um pouquinho do jeito e do ritmo, então perdoem se a narração parecer um pouco confusa ou enrolada.
E para compensar a demora dessa vez, vou postar DOIS capítulos hoje. ^^
Enfim, boa leitura.
Maka POV
Despertei de um adormecimento pesado, sentindo a sonolência ainda tomar meu corpo. Depois de uma série de piscadelas, abri os olhos vagarosamente, reconhecendo pouco a pouco a imagem do ambiente ao meu redor que se formava. Era um quarto, que aparentemente eu nunca havia entrado, de pouca mobília e bastante espaçoso. Pela pintura rica em detalhes das paredes e pelo luxo dos móveis grandes e das cortinas compridas, premeditei que ainda estava na mansão Evans. Eu estava deitada em uma cama de solteiro, de lençóis claros e impecavelmente limpos. Ao me perguntar o motivo para que estivesse deitada ali, as lembranças do que havia acontecido antes que eu caísse no sono vieram à tona em minha mente, num relampejar repentino. As imagens da breve luta corporal contra Soul se formaram em série, e a última coisa que eu me lembrava era ter terminado com a foice de Soul fincada em minha própria garganta. Ele estava completamente diferente, de uma forma obscura, e nesse momento cheguei a pensar seriamente que morreria ali mesmo, nas mãos dele.
Com a consciência de volta ao presente, toquei levemente a ponta dos dedos, de forma receosa, na região onde Soul havia me atingido, na base da garganta. Pude notar um curativo coberto por esparadrapos tapando o ferimento. Engoli seco e senti um leve desconforto que indicava que a ferida ainda não havia se fechado por completo. Depois de correr o olhar pelo cômodo, e assim confirmar que estava sozinha ali dentro, projetei meu corpo para fora da cama e dei meus primeiros passos em direção à porta, sem mais delongas. Ao longo do percurso, percebi pelo céu noturno, através de uma das janelas, que já era noite. Assim que abri o limiar de madeira, uma harmoniosa música clássica veio de encontro aos meus ouvidos. Procurando descobrir a origem de tal som, dei continuidade aos passos pela extensão do corredor bem iluminado. Quando cheguei à área que dava acesso às escadas, espiei pela esquina de uma das paredes o que estava acontecendo no primeiro patamar, e, por ventura, tive uma inesperada surpresa: A festa de bodas de prata dos pais de Soul já estava acontecendo. Eu realmente havia dormido demais; um dia inteiro, para ser mais exata. O andar abaixo de mim estava repleto de pessoas bem vestidas, que conversavam e riam baixo entre si, serviam-se de bebidas caras e pratos finos, enquanto eram regidas por uma pequena orquestra ao centro da sala. O maestro de tal era ninguém mais, ninguém menos do que o pai de Soul, que gesticulava majestosamente para um grupo de 15 músicos. Ao lado da orquestra, no meio das dezenas de olhares que assistiam à apresentação, estava Frances, a mãe de Soul, sentada em uma cadeira de rodas, sorrindo de forma fraca, mas sincera. Desviei a atenção para o restante das pessoas presentes ali, tentando encontrar a cabeça grisalha de Soul. Mas por mais que eu tentasse encontrá-lo, havia muita gente, e eu estava longe demais para identificar alguém naquela multidão.
Quando estava prestes a voltar ao quarto onde estive há poucos instantes, senti uma mão me tocar por trás, em meus ombros. Meu corpo inteiro tremeu de imediato e, por reflexo, me virei rapidamente, enquanto repelia com um tapa as mãos que me tocavam. A experiência que tive na suíte com Soul dominado pelo sangue negro havia realmente me deixado traumatizada.
– Ei, vai com calma, estressadinha! – Disse Wes, enquanto se afastava com um passo para trás, devido à minha reação.
– Que susto, baka! – Proferi baixo, evitando ecos, depois de ter suspirado aliviada. – O que aconteceu? A festa foi adiantada, ou eu que fiquei desmaiada por um dia inteiro? – Indaguei a Wes, enquanto empurrava-o para trás, assim nos afastando de perto da escada e de toda aquela gente.
– É, você decidiu bancar a bela adormecida depois daquele susto que todos tomamos na suíte... – Ele interrompeu.
– O que aconteceu depois que eu apaguei? – Questionei de forma animada, por saber que alguém poderia me contar o que realmente havia acontecido.
– Bem... Você entrou na suíte e pouco depois a porta fechou. Quando tentei abri-la de novo, senti o ar ficar denso e todas as minhas forças fraquejarem. Minha mãe desmaiou na cama, acho que também por causa dessa força. Eu aguentei a pressão por apenas alguns segundos e também apaguei. Acordei graças a um grito seu, e devido ao ar menos denso, consegui abrir a porta. E aí vi o Soul... Sabe... Quase matando você... – Wes deixou a voz tornar-se mais fraca nas últimas palavras.
– Ele não ia me matar! – Protestei, chamando a atenção do olhar surpreso de Wes, que até então estava distante.
– Só Deus sabe o que iria acontecer se eu não o tirasse de cima de você, Maka. – Disse ele com seriedade e com certo tom sombrio, fazendo-me calar. – Naquela hora, quando vi todo o sangue que você já tinha perdido, tirei você do alcance dele o mais rápido que pude e liguei para um médico conhecido da família. Ele veio imediatamente e tratou do seu ferimento. Mas mesmo assim, você não acordou, o que preocupou todo mundo aqui em casa. Eu expliquei a minha mãe parte do que aconteceu, sem contar é claro do que Soul havia se transformado, afinal, nem mesmo eu entendi muito bem. Mas o difícil foi explicar ao meu pai. Minha mãe não queria que ele soubesse do surto do Soul, então tive que inventar uma história. Mas acho que meu pai não acreditou muito.
– Tá, mas e o Soul? Como ele está? – Perguntei preocupada.
– Eu não sei bem. Quando ficou sabendo que você estava desacordada, ele entrou em estado de choque e sumiu daqui de casa. Não apareceu até agora. – Respondeu Wes, apresentando lamentação no timbre de voz.
– Não apareceu? Como assim? Ninguém procurou por ele?!
– Claro que procuramos, Maka! Mas ninguém o viu. Estamos esperando o tempo estipulado pela lei para entrarmos em contato com a polícia. – O grisalho proferiu e voltou a repousar as mãos em meus ombros, tentando me acalmar.
– Eu vou atrás dele! – Exclamei e me aprontei para sair dali, mas fui impedida por Wes, que me agarrou pelo pulso.
– Deixa de loucura, Maka. Vai começar por onde?! Não temos nem sinal dele. – Ele pausou a fala, mas, antes que eu tivesse tempo de protestar contra, sua voz voltou a soar. – Espera ao menos que o dia amanheça. Depois disso, prometo que eu vou procurá-lo com você.
Senti a força de sua mão cessar ao redor do meu pulso, e um sorriso brando surgir em seus lábios, em um pedido mudo para que eu não tomasse nenhuma atitude precipitada. Eu tinha que reconhecer que seria uma atitude vã sair correndo às cegas naquela cidade enorme que eu mal conhecia, sem nenhuma pista.
– Então ta. – Respondi, dando-me por vencida. – Mas amanhã de manhã vamos procurá-lo, entendeu?! – Questionei, intimidando-o com um olhar estreito.
Ele assentiu com o mesmo sorriso brando de antes.
– Bom, já que você não poderá sair da mansão até o amanhecer, que tal descermos para a festa? Não que eu esteja adorando todo esse tumulto, mas é que tem uma mesa de comida muito boa lá em baixo. – Wes proferiu, seguido de risadas de ambos.
– Você acha que eu vou aparece lá assim?! – Apontei para mim mesma, expondo minha simples veste.
– Se quer saber, eu acho que você está fantástica assim. – O grisalho disse, erguendo as sobrancelhas. Senti minha face corar por um instante, entretanto, antes que houvesse tempo para risadas nervosas, Wes continuou. – Minha mãe deixou um vestido naquele quarto, caso você acordasse a tempo. – Ele apontou para o quarto em que eu estava antes.
– Hm... Está bem, eu desço pra festa. Mas só por causa da comida. Então, espero que esteja realmente bom! – Proferi autoritária e brincalhona, provocando risadas no grisalho. – Me espere só um pouco, irei me trocar.
Segui até o quarto no fim do corredor e adentrei o cômodo, fechando a porta atrás de mim. Dentro de um armário branco, havia o tal vestido concedido por Frances. Era preto com dégradé branco, marcado na cintura e chegava à altura de meus joelhos. Para minha contente surpresa, também havia um par de saltos, não muito altos, acompanhando a vestimenta. Frances estava se tornando cada vez mais amável a meu ver. Depois de vestida, joguei os cabelos soltos sobre os ombros, na tentativa de disfarçar o curativo a altura de minha clavícula e saí novamente do quarto.
Notei Wes debruçado no corrimão da escada, observando a festa lá em baixo. Quando me aproximei dele, vi sua face mudar completamente de um aparente tédio para uma admiração que chegava a brilhar-lhe os olhos.
– Então... Não vamos descer? – Indaguei, completamente desconfortável pela expressão pasma de Wes.
– Claro! Desculpe-me. – Ele balbuciou, parecendo nervoso.
Ele me concedeu o braço e, juntos, descemos as escadas. Fomos recepcionados por dezenas de olhares curiosos, seguidos por cochichos que se sobressaíam à música. Senti vontade de correr escadas à cima de novo, mas eu já estava no primeiro patamar, e se fizesse isso, chamaria ainda mais a atenção.
– Vamos logo para algum canto, antes que sejamos bombardeados por curiosos querendo saber se você é minha namorada. – Wes disse me arrastando para longe da multidão que nos fitava, enquanto eu sentia minha face queimar mais uma vez.
Fomos direto à mesa de frios, repleta de pratos que eu nem sequer sabia que existiam. De início, senti-me receosa em comer algo no meio de tanta gente refinada que parecia tratar aquela mesa como um mero enfeite. Mas depois de um tempo, peguei-me devorando tudo o que via pela frente, junto a Wes. Rimos de boca cheia, por parecermos dois refugiados de guerra que não viam comida há tempos.
Depois de uns minutos, e de muita mastigação, fui surpreendida pela voz do pai de Soul ao microfone, anunciando o início da valsa da grande noite. Notei Wes estender a mão no ar, em um convite cordial para que lhe acompanhasse na dança.
– Ah, não, Wes! Eu vim aqui para comer. Somente isso. – Voltei a atenção para a mesa de frios. – Além do mais, só consigo dançar se for com o Soul. – Proferi desanimada, lembrando de seu desaparecimento e deixando eminente o abalo que tal fato me causava.
– É só uma dança, Maka. Vamos lá, não vai fazer mal nenhum. – O grisalho insistiu.
Bufei e lhe dei a mão, um pouco hesitante, sem saber por que eu me deixava ser rendida por todos os pedidos de Wes. Com calma, ele me levou até outra parte da sala, ainda permanecendo nas extremidades, longe da concentração de pessoas. A mão do grisalho pousou em minha cintura, enquanto a outra pairava junto a minha no ar. Mantive minha outra mão sobre um de seus ombros largos, deixando-me ser guiada em seguida pelos seus passos de dança. E assim ele fez. Não sei se era de família, mas ele conseguia me conduzir tão bem assim como Soul fazia. Tranquilamente, sentindo a música fluir pelo meu corpo, parecia que estávamos flutuando, e o ato de dançar não exigia mais esforços de nenhum de nós. Tomada por uma sensação de extrema leveza, permiti-me fechar os olhos e sentir aquela boa atmosfera por inteiro.
Passados alguns instantes, estava completamente submersa naquela serenidade. Mas como tudo que é bom, dura pouco, fui sugada novamente para a realidade. Senti uma pequena dormência nos lábios e uma umidade estranha em minha boca. Quando voltei a abrir os olhos, dei de cara com a última coisa que pensava em ver: Wes estava com a boca colada à minha, em um beijo.
– Wes! Você está louco?! – Exclamei sem me preocupar com o olhar curioso de terceiros, depois de empurrar o grisalho para trás.
Inconscientemente, limpei a boca com as costas da mão, o que chamou a atenção do olhar envergonhado do grisalho que estava boquiaberto, parecendo tentar falar alguma coisa, mas sem sucesso.
– Maka, eu... – Ele gaguejou, e quando tentou me pegar pela mão, desviei-me de seu alcance.
– Não me toca! – Esbravejei. – Você só queria se aproveitar, não é? É óbvio. Mas eu não sou dessas, que é só pegar e levar. Entendeu bem?! – Há essa altura, eu já estava gritando com Wes, e todos ao redor nos fitavam assombrados.
Mas eu não me importava. Tudo que eu queria era sumir dali. Iniciei alguns passos largos e rápidos para fora da sala, deixando Wes sozinho no meio da multidão. Atravessei até a porta de saída, sendo fuzilada por dezenas de olhares. Assim que consegui sair, suspirei aliviada, fechando a porta atrás de mim, e me escorando na parede ao lado. Tudo que podia escutar agora eram os grilos que cantavam sob o céu pouco estampado daquela noite.
Quando pensei que finalmente estava sozinha, notei uma silhueta no canto pouco iluminado da varanda frontal da mansão, em frente à vidraça que dava vista à sala da festa. Foquei meu olhar nela e senti meu coração paralisar quando identifiquei o dono de tal sombra: Era Soul Eater, assistindo a tudo que acontecera antes, na festa.
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