Broken Souls

5 Sacrifício Benévolo


–Dá pra parar de me chamar de lindinha?-digo,enquanto voo pela cidade, e sinto o vento bater em meu rosto, eu gosto de voar, me sinto livre.

–Porque?- disse sorrindo.

–Porque é irritante.

–Então porque está sorrindo?- pergunta o ruivo, aliás porque diabos eu estou sorrindo?

–Porque eu sorrio antes de matar minha pobres vítimas.- respondo.

Ele finalmente cala a boca,eu aprecio o silêncio, que logo se torna irritante, mas após menos de um minuto, ele volta a falar:

–Lili ou Lilith?

–Kai ou Nikolai?

–Kai.

–Porque?

–Porque meu pai me chamava assim.-Minha mãe me chamava de Kai, então esse é meu nome.

–Tá. -me lembro da imagem de Irina, nos jornaisela parecia uma pessoa boa, pelo visto ela era, ao contrário de Kael, sinto compaixão pelo Kai, mas tomo o cuidado de tentar não demonstrar isso em meu rosto, não posso estar vulnerável, nunca mais.

–Esta é minha casa.-ele aponta para uma casa, meio escondida, e pobre.

Nós chegamos ao chão, e ele abre a porta, entramos, o lugarnão é muito bonito, parece mal cuidado...

Droga.

Acabo de notar que há um velhadentro da casa, a velha cujo eu chamei de "velha estúpida", ela deve ser a vó de Kai.

–O que ela faz aqui?- perguntoua velha, perplexa.

–Sem comentários vó, ela é gostosa,entao pode ficar.

–O que?- Você disse que posso ficar porque sou gostosa?-pergunto.

–Tá parei.- disse Kai, sorrindo, ele não parava de sorrir.

–Mas ela é uma assassina,tentou matar até crianças!

Eu a olho com indiferença.

–E me chamou de velha estúpida!- completou a velha.

–Com certeza é muita estupidez sua atacar uma psicopata como eu.

–Sua vadia desgraçada! Assassina!

–Sério? "Vadia" de novo? Todos nessa cidade utilizam as mesmas ofensas? Que falta de criatividade.- digo sarcasticamente.

–Como você... Você matou sua irmã!

Eu perco ocontrole, isso é demais pra mim, como essa mulher diz isso? Como se atreve?

–Isso mesmo, e eu ainda não escolhiminhas próximas vitimas , então deveria tomar cuidado.- ameaço, estou centímetros proxima à velha, e com minha mãos firmes em seu pescoço.

–Parem!-diz Kai. — Vem Lili. — ele puxa meu braço suavemente, me levadopara oque eu presumo ser seu quarto.

Entro no quarto. O quarto dele é muito mais limpo e organizado do que orestante da casa, vejo uma enorme estante de livros, observo os títulos, e os reconheço, todos com finais felizes.

–Por que você tem que ameaçá-la?-pergunta.

–Ela me ofendeu.

–Ameaça todos que te ofendem?

–Geralmente faço muito mais que isso.

Continuo observando os livros.

–Todos com finais felizes. -digo.

Ele olha para a estante e depois pra mim.

–Você não gosta?-ele me olha intrigado.

–De finais felizes? Não, absolutamente não. –digo.

–Por que? -ele continua me encarando.

–Porque é uma ilusão, uma zombaria idiota do fato de que eu nunca podereiter um final feliz, livros desse tipo me fazem ter esperança, e nada pode ser mais cortante do que a esperança para pessoas como eu.

–Uau. -Você é tão pessimista assim?

–E você é tão ingênuo assim?- respondo.

Depoisde uns minutos ele sorri.

–Onde vou dormir? –pergunto.

–Você ainda não sabe? -ele se joga em cima da cama.- Aqui.

–Como assim? E você vai dormir onde?

–Aqui também. — diz sorrindo,ele sorri tanto que sinto vontade de estraçalhar todos aqueles dentes, mas ao mesmo tempo me parece interessante.

–O que?

–Você é bem lerdinha mesmo né?

–Com...

–Eu...Você...Quarto...Sexo!

Eu o encaro,me perguntando se foi mesmo isso que eu ouvi, enquanto ele ri.

–É brincadeira- diz, e continua a sorrir, estouavisando a mim mesma para não estraçalhar aqueles lindos dentes brancos.

Eu sorrio.

É oficial, eusurtei, estou ficando maluca e devo te dupla personalidade, como posso gostar dele e ao mesmo tempo querer mata-lo? Insanidade talvez? Masnão me importo mais com isso.

–Vamos dormir?- pergunta Kai.

–Eu não durmo. -digo, eurealmente só queria saber onde dormiria para não ter que atura-lo, mas eu estou gostando de atura-lo, me faz sorrir e isso é estranho.

–Como assim?

–Por que você faz tantas perguntas?

–Porque você as responde?

Eu o encaro.

–Pesadelos. -E nenhum de nós precisa dormir.

–Bom, já que você não dorme, quetal darmos um passeio pelo castelo?

–Vamos.- digo sorrindo.- Mas como?

–Me abrace.

–Isso é uma desculpa para encostar em mim?- pergunto.

–Metida.

–Safado.

Eu o abraço, e nos tele transportamos, para dentrodo salão principal do castelo o lugar continua enorme, e com barras de ouro espalhadas pelos móveis.

–Vamos ficar invisíveis?

–Vamos.

Nos tornamos invisíveis, é estranho mas pode ser interessante.

Estou lembrando de algo relacionado a esse lugar, mas não sei oque é...oh meu deus, minha alma ainda está ligada com a do bebê maldito, eu quase o matei quando ia me matar, que trágico.

–Ei, vamos espioná-los?

–Isso pode ser interessante. –digo

–Vamos, eu sei onde ficam os quartos, gosto de fazer “brincadeirinhas” aqui de vez em quando.

Penso em quanto deve ser difícil para Kai, o fato de que a irmã dele temtudo que deveria ser dele, e ele nãotem praticamente nada.

Ele puxa meu braço,e me encaminha para um corredor, nós vamos correndo, até que ele tropeça e cai de quatro no chão e permanece imóvel.

Eu o observo, rindo, ele continua na mesma posição, de quatro.

–E você esperando que seria o primeiro a me ver assim. -digo sorrindo.

Ele também ri.

Faz tanto tempo que eu não rio, tinha me esquecido de o quanto era bom.

–Ei, vamos!- diz Kai sorrindo.

Noto que há alguém no cômodo ao lado, eu e Kainos viramos para ver quem é, reconheço que é minha mãe que está lá agarrada a alguém, os cabelos loiros, a postura...

Lizandre.

Lizandree Kalenna se beijando.

–Você está vendo?-pergunto.

–Sim, meu pai está sendo traído. — diz Kai, com satisfação no rosto.

–Ele é meu mentor, ficou preso no Deserto quando eu sai.

–Ah meu deus... Venha. — diz ele que parece tão chocado quanto eu.

Como assim? Lizandre e minha mãe? Ele me enganou, desde quandoisso aconteceu? Como ele saiu do Deserto? Traidor.

–Vamos ver o quarto dos outros dois?-diz Kai, tentando mudar de assunto.

Eu concordo com a cabeça.

Seguimos por um corredor meio longo, e chegamos.

O quarto é grande, enorme aliás, tem barras de ouro nos móveis assim como o restante do palácio.

Vejo que Malia está no quarto, com a barriga enorme, como cresceu tanto? Faz um dia que a vi e ela parecia normal.

Uma figura morena ebronzeada surge ao seu lado. Kael.

–Querida você sabe o que isso significa.- ele indica a barriga. -A criança será um monstro como Nikolai, comoaquela mulher-diz se referindo à mim.- Infelizmente teremos que exterminá-la, é uma sacrifício benévolo...

–Mas é meu filho!-diz Malia.

“Sacrifício benévolo”, depois a vadia psicopata sou eu.

Desligo minha alma da dessa pobre criança.

–Ele é uma aberração, como aquela psicopata é! Vocêviu oque ela fez, matou a própria irmã, oque ela fez no seu casamento...

–Você está certo, ele tem que morrer. — interrompe Malia conformada.

Eu perco o controle e deixo deser invisível e com um mero movimento com as mãos, lanço Kael para a parede, e agora estou segurando o pescoço de Malia.

–Me solta!- diz desesperadamente.

–Não, como você vai matar seu próprio filho?

–Não é uma criança,é um monstro como você, e ele -ela indica Kai, que está parado atrás de mim.

–Você planeja matar seu próprio filho, e ela que é um mostro?- diz Kai.

–Não é meu filho, é uma aberração.

Eu não sei porque tenho pena dessa criança, mas eu não quero deixá-la morrer, principalmente agora que descobri que ela é como eu.

–Você virá conosco hoje, querida.- diz Kai.

E comas minhas unhas eu faço um corte e seu braço. Ela grita.

–Pare!- diz implorando,quando eu corto o outro braço.- Por favor.

–Que meiga. –Ela sabe dizer “por favor”. -debocha Kai, noto que ele está se divertindo com o sofrimento da irmã, e de certa forma eutambém estou.

–Por que me odeia tanto, Kai?

Kai me olha, e eu entendo o olhar,acho que ele não pretende falar sobre isso, ele a odeia porque ela tem tudo que deveria ser dele, e ela nem sequer merece, eu entendo seu ódio.

–Cale a boca!- digo,e num estalar de dedos, eu a deixo inconsciente -Estou cansada de te ouvir. -digo sorrindo sarcasticamente.

–Vamos ter de levá-la.- diz Kai.

–É.

–Já sei! Tem um papel?

Eu encontro um papel e uma caneta em cima de uma mesa de madeira, eentrego à ele.

–Obrigada.- diz enquanto escreve, ele tem uma letra bonita, porque diabos sempre reparo nisso?

Quando ele termina, e pego o papel para ler.

Pai, sinto muitíssimo por isso, mas não posso deixar que mate meu filho, por isso eu fugi, me desculpe. Diga a Tony que eu oamo, e que em breve voltarei.

De sua amada filha, Malia.

–Isso foi inteligente.- digo.

–Foi.- responde sorrindo.

E nós três nos tele transportamos para sua casa,deixando Kael desacordado com o bilhete nas mãos.