Broken Souls
8 Minha salvação
Não! Não! Não é justo! Por que? Agora que tudo estava bem, tinha me tornado uma pessoa melhor, na medida do possível, aquela estúpida supérflua decide dar à luz? “Dar à luz”? Ela está dando é a desgraça para minha vida.
Mas tem que haver um jeito, porque... se Kai se apaixonar pela criança e perdoar Malia? E se Nathan também não entender o quanto a existência desse bebê é uma humilhação pra mim? Se Lucy e Tate se esquecerem o real propósito que devem seguir por causa dessa maldita criança? Talvez todos se tornem uma família feliz junto com Tony e minha mãe.
E eu ficarei sozinha com os meus demônios, para sempre.
Porém há uma maneira de que nada disso aconteça, eu posso matar a criança com um estalar de dedos enquanto ela está nascendo... Ninguém saberá que fui eu...
Não! Não.
Isso não. Como posso pensar em ser boa, se planejo matar um recém-nascido? Não, eu não farei isso, eu mudei, estou mudando.
Mas eu quero ser boa, tenho que proteger aqueles que amo, mas a pior parte é de quem eu tenho que protegê-los?
De mim mesma.
O melhor pra todos é estarem longe de mim, eu estava bem e em segundos eu queria matar, não sou egoísta o suficiente, para arriscar a vida de quem eu amo pela minha felicidade.
– Lily! Vamos? – Kai me tira de meu devaneio, e me traz a realidade onde terei de fazer o necessário.
– Não. Você vai, eu não.
– O quê?
– Kai, eu não tenho mais o mínimo controle sobre mim, e o melhor que posso fazer e afastar quem eu amo de mim.
– Ei! Não, você não ter que me proteger, sou tão forte quanto você, e tão louco quanto, quer você acredite ou não. – diz calmamente.
Agora me pego pensando que ele é Imortadre como eu.
– Minha mãe me odiava! Porque talvez houvesse algo ruim dentro de mim! Minha irmã me amava e veja o que aconteceu! Tony me amou, e agora nem é capaz de pensar por si mesmo, é apenas um brinquedinho. –Há um grande preço por me amar, ou ser amado por mim.
–Lilith...
— Kai eu estava pensando em matar aquela criança...–digo com a voz mais trêmula do que deveria.
–Mas você não matou, se arrependeu, sente culpa, isso é quem você é, você tem um lado bom Lila, um lado muito mais lindo do que muitas pessoas “boas”. Você pode ser quem você quiser. E nada do que aconteceu com sua irmã ou Tony é sua culpa.
– Mas...
– Mas nada. Eu conheço o seu melhor lado, sei como você pode ser realmente boa se quiser, e não há a mísera maldade na garota que estava comigo hoje.
– Tá. – digo, tentando esconder as lágrimas. – Mas se eu tentar te machucar, você não pode permitir, se eu for ferir alguém inocente ou Nathan, ou a você... Kai quero que... se precisar, mate-me.
Vejo que minhas palavras o atingiram como uma explosão em seus ouvidos.
– Promete?
Vejo as lágrimas nos olhos dele, é como uma flechada em minhas costas, se isso é o certo, por que sinto tanta culpa?
Ele me abraça.
– Lily se eu não prometer, você vai fugir e se matar não é?
– Você sabe que... sim. –murmuro as palavras que digo cortam meus lábios como cacos de vidro, mas é exatamente isso que farei.
– Sim.
***
Estamos quase chegando a casa dele quando ele dispara:
– Lily. – Seu... Preciso te contar uma coisa.
– O quê?
Ele parece trêmulo, está suando.
– Lembra quando eu disse que meu pai me exilou porque minha natureza verdadeira se revelou...e minha mãe.
– Sabe, quando meu lado Imortadre se revelou, foi pelos piores motivos... eu...– Ele não consegue falar, como se as palavras o tivessem devorando por dentro enquanto ele não podia gritá-las.
– Kai, não há nada que você tenha feito que vá me assustar? Não lembra da assassina louca que sou?
– Meu melhor amigo se chamava ...... um dia estávamos jogando... Não. Não dá pra contar dessa maneira.
– Kai...
– Era uma vez um garoto chamado Theodore Alaska, era de família nobre, tinha cabelos escuros e olhos verde-dourados, tínhamos 10 anos, ele era um garoto muito legal, era gentil e humilde, ele jogava basquete com um garotinho ruivo, ele era o príncipe herdeiro de um rei que achava tal esporte inútil, o ruivo também era uma boa criança, mas um dia durante um jogo ele sentiu uma pontada de raiva por perder, e acabou explodindo a mente de Theodore acidentalmente, não houve sangue foi uma morte limpa, mas o cérebro do garotinho se dissolveu dentro de sua cabeça. – E... Naquele dia o príncipe provou ser a aberração que seu pai tanto desconfiava.
– Kai, não foi sua culpa, você...
– Quando meu pai soube que fui eu que o matei, ele disse “Você é igual a ele” mas eu não sei quem é ele, depois Kael disse que isso era culpa de minha mãe por se envolver com ele, mas ela negou todas as acusações, até que ela foi morta.
– Kai...Como você ainda tem os olhos âmbar?
– Eu não sei, talvez eu seja diferente, eu sei que não faz sentido.
– E se Theodore estiver vivo? Seu pai é um homem ardiloso, pode ter forjado algo...
– Eu procurei por todos os lugares, ele está morto.
Eu o abraço, como se nunca fosse soltá-lo, sei que não há nada que eu possa dizer que o livrará da culpa, algo que por sinal sou especialista.
– Eu descobri quem é ele, após procurar muito na biblioteca de minha vó, mãe de minha mãe, não encontrei nada, porém encontrei um livro na biblioteca do palácio, nos arquivos escondidos de Kiel, o diário de Joshua Naklon, ele era apaixonado pela minha mãe, sofria bullyng, e matou toda a família de meu pai para se tornar Imortadre, talvez isso esteja de alguma forma relacionado a mim, mas ele conhecia milhões de rituais da nossa maldição, tudo isso antes de ser preso.
– Bom, ao menos nós dois podemos dizer que somos loucos assassinos de criancinhas apaixonados. – digo com um sorriso mórbido.
Ele fica em silêncio, por trás de toda a luz de Kai, existe algo escuro, ao contrário de mim, que tento encontrar uma luz dentre minhas sombras.
Duas pessoas danificadas pelos seus demônios, juntos nós vamos curar e ferir um ao outro.
– Somos LADCA – diz sorrindo.
***
É a hora.
Chegamos até a casa, a criança está lá dentro, só basta nós entrarmos, só isso. Não deve ser tão difícil, ao menos não devia ser.
Eu pedi para que Kai me deixasse entrar sozinha, mas essa porta vermelha nunca foi um obstáculo tão grande quanto é agora.
Eu coloco minhas mãos na maçaneta enferrujada, como se ela fosse uma flor cheia de espinhos.
Eu entrei. Desde quando dar um passo se tornou tão difícil? “Vamos garota, você consegue!” Ouço a voz de Lizandre na minha mente, as vezes eu esqueço que ele é um traidor.
Eu adentro por entre a sala, tudo que vejo é sangue no sofá velho, e a maldita está inconsciente com as pernas abertas, caída no chão, como se estivesse morta.
Lucy está com a criança nas mãos, me olhando da mesma maneira que Nathan, o qual está me encarando apreensivamente desde que cheguei, como se estivesse com pena e medo de mim.
– Oi! Lily? – diz me encarando mais ainda, assim com Tate e Kai que acabou de entrar, será que pareço tão insana como me sinto?
– Lily, quer segurá-lo?
Antes que eu possa responder a avó materna de Kai interrompe, tinha esquecido da existência dessa velha!
– Não! Não podem entregar um coisa tão bela para essa... criatura!
– Criatura? Pode me atualizar a modinha do “vadia” já acabou?
O sarcasmo em minha voz é suficiente para calá-la.
– Posso? – diz Lucy, hesitante e assustava enquanto estende o bebê para os meus braços.
– Kai...– Lembra do nosso acordo? – digo, eu realmente não sei qual Lili irá segurar esse garoto.
–Sim.
Ao vê-lo de relance minhas pernas vacilam, e Nathan e Kai me seguram até que eu recupere o equilíbrio.
Eu o carrego nos braços, olho nos olhos dele, procuro traços de Tony. Vejo o semblante inocente e leve, como uma coisa que deveriame humilhar pode ser tão bela e pura?
– Ele... – eu perco a voz. – Ele tem os olhos dele. –digo com as lágrimas escorrendo sobre meu sorriso surpreendente.
O garoto tem os mesmos olhos azuis, que um dia me amaram, os quais agora querem me ver morta.
O cabelo quase escuro é dela.
Por um instante me lembro de uma noite há muitos anos atrás, eu tinha 14 anos, estava muito frio, eu e minha irmã estávamos voltando da escola, eu havia ido muito bem em uma prova de feitiços defensivos, eu achava que isso faria com que minha mãe tivesse o mínimo orgulho de mim, afinal ela era excepcional nisso.
Mas quando eu contei a ela, sua reação foi inesperada.
– O que é isso? Lili Grennê! Como você quer que eu fique feliz com isso? E acima de tudo você viu a nota da Alison? Ela acertou apenas metade da prova! Isso é sua culpa, sua irresponsável! – Um corte enorme surge em minha perna e segue até meu pescoço, enquanto ela murmura feitiços com aquele olhar insano.
Porque ela faz isso comigo?
Mais cortes surgem enquanto ela grita:
– Garota egoísta! Se preocupou apenas com seu resultados, e que se dane sua irmã não é?
—Mas... Eu só queria que você tivesse orgulho de mim. – digo tentando me manter de pé.
— Como eu teria orgulho de um fracasso decadente como você? – disse enquanto cortava meus tornozelos, eu caí e fiquei sobre seus pés e os segurei.
— Não me toque! – disse com repulsa, e saiu até a porta, e me arrastava e gritava:
— Não! Mãe! Espera! Eu te amo...–suplicei, mas ela apenas me olhou com repulsa, e fechou a porta em meu rosto com aqueles olhos verdes cruéis e o cabelo idêntico ao meu, ela era a minha versão ruim.
Eu permaneci chorando naquele cômodo escuro onde ela me trancafiou, após uma hora eu pude ouvir minha mãe cantar para Alison, mas eu entendo minha irmã era tão boa e tão amável, apesar de eu ter motivos para odiá-la eu a amava, amava demais, apesar de invejá-la um pouco.
Meus cortes começaram a se curar, minha mãe os curava depois de uma surra, para que eu não tivesse provas caso pedisse ajuda, o que importava era eu passar pela dor.
— Ei! – eu ouvi uma voz na janela, me arrastei até lá, pois ainda estava dolorida.
— Quem é você? – digo, enquanto abro a janela, aliás quebrou.
— Meu nome é Tony! – disse um garoto de olhos azuis e cabelo escuro. – Eu ouvi seus gritos, o que aconteceu, quer vir comigo?
— Vamos. – pulei a janela ignorando a dor e a prudência, e acompanhando o garoto sorridente.
Naquela noite com ele eu descobri o que era esperança, e que eu podia ser feliz, independente de minha mãe.
***
Acordo de meu devaneio sobre Tony e Kalenna, ainda estou com a criança nos braços, todos estão me olhando, quanto tempo passou?
A criança me encara como se eu fosse a primeira coisa que ela realmente comtemplou, por que ele não tem medo de mim?
Após relembrar sobre minha mãe, me lembro que a mesma tortura que ela usava em mim, eu usei em Malia, o mesmo olhar que ela tinha, agora era meu, o veneno que ela destilava eu também destilo, ela era minha versão ruim, e eu acho que acabei me tornando ela.
Mas esse bebê pode ser minha esperança, assim como Tony foi um dia.
Não sei como mas essa criança me conforta de uma maneira que eu nunca me senti, como se sua pureza me contaminasse.
Mais uma vez eu sorrio sobre as lágrimas e ele me devolve o sorriso, e uma risada meiga e infantil que atinge minha alma benevolamente. – Qual é o nome dele? – pergunta Kai. – Nós devemos escolher, somos a única família dele.
Como eu poderia quer matá-lo?
Reflito sobre o fato de que seu avô quer sacrificá-lo, e sua mãe também, e seu pai tem a mente controlada pela minha mãe e os outros.
Mas ele não está sozinho.
– Quando eu e Tony conversávamos sobre casamento, e o filho que um dia teríamos... – tento esconder a dor em minha voz. – Queríamos chamá-lo de Dominic.
– Posso segurar Dominic? – diz Kai sorrindo.
Eu entrego o bebê a ele.
Ouvimos um estrondo, e a porta é arrobada.
– Olá Vadias! — anuncia um homem de cabelos escuros e pele pálida.
E tudo ficou escuro.
***
Acordo, está muito frio, não sei direito onde estou, mas estou sobre areia, e a temperatura gelada queima como fogo.
– Kai! Nathan! – grito.
Estou sozinha aqui...
Estou no Deserto Mortal.
– Não! Não! Eu não posso ter sido pega de novo! Não! – grito histericamente.
Sinto uma mão sobre meu ombro.
Reconheço as sombras da pessoas que me tocou, me lembro daqueles cabelos brancos, e olhos gélidos.
Lizandre.
–Lily, eu não tenho muito tempo. – ele parece perplexo
–Seu maldito! Traidor! – grito afastando sua mão de mim.
—Eu estou na sua cabeça, você não foi pega. Desculpe-me por não ter avisado sobre meus planos –diz.
Eu o encaro em silêncio.
– Você sabe o quanto eu gostaria de me vingar de Kiel não é? Pois bem, eu não queria que ninguém soubesse que eu me infiltraria no castelo, então fiz com que meus próprios lobos me atacassem, e te enganei, sua mãe é o que Kiel mais deseja e talvez mais ame, se é que a capaz disso, eu vou tirar tudo dele, inclusive ela, e seu reino, e tudo que ele mais ama.
–Um homem me ensinou tudo que eu não sabia sobre ele, seu nome era Joshua, ele foi meu mentor, assim como eu fui o seu, Joshua conheceu Kiel, se tornou Imortadre pela forma com a qual matou a família dele, ele desapareceu mas eu consegui constatá-lo, ele virá ajudar vocês, eu também vou.
– Perdoe-me Lili, por tudo. – ele faz uma pausa e eu tento raciocinar. – Tenho que lhe contar algo, sobre a sua mãe... O tempo está acabando... Mas ela...
***
Oh Deus! Isso me deixou confusa demais.
Como ele pôde me contar tudo tão rápido?
Voltei a casa de Kai, estão todos acordando, quando um homem de cabelos negros e olhos azuis com cristal, ele estende as mãos pálidas para mim, me ajudando a me levantar, e se apresentando:
–Meu nome é Joshua, eu vou ajudar.
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