Broken Hearts
64 Primeiro dia do resto de nossas vidas
Notas iniciais

I'll be a better man today
I'll be good
And I'll love the world, like I should
Yeah, I'll be good
For all of the times that I never could
♫
Eu serei um homem melhor hoje
Eu serei bom
E vou amar o mundo, como deveria
Sim, vou ser bom
Por todas as vezes que nunca pude ser
♣ Gotham City || Mansão Wayne ♣
Dizer que foi surpreendente o pedido de Bruce que todos permanecessem na mansão após os acontecimentos trágicos envolvendo os heróis da Liga foi, no mínimo, um eufemismo. Ele pedira a Alfred que avisasse a todos – Dick, Tim, Bárbara e Damian – que gostaria de contar com a presença de todos no jantar. Reiterando o pedido para que Alfred conzinhasse algo especial para família.
Ninguém entendeu, mas todos – à exceção de Damian, que não conhecia o temperamento de Bruce em tais circunstâncias – ficaram felizes com a mudança. Que logo creditaram a Diana, obviamente.
Bruce normalmente levaria muito tempo para sair do casulo após um acontecimento como este. Ele afastaria as pessoas, se isolaria na caverna, como sua rotina de autopunição tradicional.
O inglês previa que seu mestre* estaria de bom-humor e fez questão de preparar um jantar apropriado para comemorar essa mudança de postura. Prevendo que Bruce teria algo bom a dizer, mas estava tão longe da verdade, que ele também ficaria desconcertado com as noticias.
Os pratos foram servidos pontualmente às 19h30, na imensa mesa provençal, de madeira maciça, que estava na família Wayne desde o século XIX, trazida da França. A intuição do inglês de que era uma ocasião especial não falhara e ele fez questão de usar a louça de porcelanas Royal-Limoges, que Bruce logo reconhecera como as que sua saudosa mãe Martha usava em ocasiões e especiais, como o Natal.
(...)
Enquanto todos fizeram o caminho de saída da sala de jantar, felicitando Diana de formas distintas – peculiares a cada personalidade – mas com igual entusiasmo, Bruce permaneceu sentado à mesa.
O semblante ilegível não denunciava os rumos que sua mente tomara. Não havia nada que sugerisse o que ele estava sentindo ou experimentando.
Mas o notável mordomo inglês era capaz de ver através dele. Logo, não fora surpreendente o sorriso sutil nos lábios dele, observando Bruce de soslaio, enquanto recolhia a louça do jantar. O olhar focado parecia distante, sugerindo que seus pensamentos estavam à deriva, que ele estava alheio a tudo ao seu redor.
Contudo, ainda que Bruce dominasse a arte de camuflar suas emoções com perfeição, Alfred sabia que, à sua maneira, ele estava experimentando o sentimento mais próximo do que podemos chamar de felicidade.
Alfred observara a respiração profunda, os movimentos sutis do corpo e o olhar de volta ao presente que Bruce exibiu anunciando que sua mente esgotara todos os desdobramentos possíveis. Permitindo que Bruce tomasse conhecimento de sua presença.
— Mestre Bruce... Se o senhor me permite a licença da palavra... – O ex-ator exibiu a postura impecável de sempre, com a maestria imensurável que tornavam indetectáveis as emoções intensas que ele vivenciara.
— Toda, Alfred... – A resposta de Bruce veio acompanhada de um sorriso espontâneo, que surpreendera a ambos.
— Seria ousadia ser franco, senhor?
— Não, meu velho.
— Os meus anos de serviço a esta família me levaram a amá-lo como a um filho, mestre Bruce. Um filho gerado por meu coração. Talvez eu não tenha o direito de dizer-lhe, mas eu sinto-me tão espontaneamente preenchido de orgulho, que ouso dizer que ele não pertence apenas a mim, bem como aos seus pais, que eu amei com todo meu coração. Estamos todos muito orgulhosos de você, meu filho.
Bruce foi tomado por uma sensação de pertencimento indescritível. Uma sensação que só lembra ter experimentado na infância. Aquela sensação de estar onde deve estar. De aceitar a vida como ela é, porque entende como extrair o melhor dela. Finalmente!
— Mas como tal, desejo vos dar alguns conselhos. – O inglês continuou – A senhorita Diana é uma jovem capaz de amá-lo como um todo. De ver a luz por baixo da escuridão. Como eu o vejo, meu filho. Como eu sempre o vi... Como aqueles que o amam vêem, senhor. Uma senhorita que não me deixa sem dormir a noite, com medo que ela esmague o coração sofrido do meu menino. Alguém que eu adoraria servir como a senhora desta casa e desta família... – Bruce esboçou um imenso sorriso no rosto enquanto o queixo erguido do mordomo tentava, inutilmente, sufocar uma lágrima – Se seu pai estivesse aqui, diria para fazer o que um homem honrado faria neste momento. Assim como ele e sua mãe. Diria para assumir sua prole e tomar as devidas providências cabíveis.
Bruce sorriu ainda mais e Alfred estava prestes a continuar, mas foi cortado pelo abraço do homem mais novo. Era estranho para ambos, mas era memorável.
Alfred parecia tomado por emoções fortes o bastante para tirá-lo do eixo régio da postura impecável. Ele deixou-se abraçar e chorou – ainda que comedidamente – abraçado ao seu menino. O menino que desde os oito anos condenou-se a sofrer a esmagadora culpa por algo que não lhe cabia decidir ou impedir.
Eles eram como uma família, mas ainda havia uma barreira apropriada entre eles, que Alfred poucas vezes se permite cruzar. Agora, com suas palavras, Bruce sentiu a necessidade de agradecê-lo. Não com palavras ou dinheiro, como ele tenta fazer. Ou dando-lhe férias que ele nunca goza.
Mas com o tipo de carinho que um filho mostra um pai. Bruce nunca esqueceria seus verdadeiros pais, mas ele nunca negaria que sobreviveu sem graças a este homem. Ele deu um passo para trás, olhando os olhos marejados do mordomo atordoado.
— Você é minha família, Alfred. Nunca se esqueça disso – Bruce deu-lhe um sorriso reconfortante – Diana me disse uma vez que você era o meu rande amor. E ela está certa... Nenhuma mulher vai ocupar o espaço que você e meus pais ocupam no meu coração, meu velho.
Alfred sorriu antes de pedir-lhe: – Por favor, siga-me, mestre Bruce – O tom de voz não era usado desde que ele tinha 19 anos, um tom que não deixava espaço para negociação ou escolha.
O inglês o levara até a imagem de seus pais.
— Eu o conheço o bastante pra saber que o senhor irá titubear. Duvidar que merece ser feliz. Então, meu dever é ajudá-lo a lembrar: que ela o ama e que o senhor não pode negar a reciprocidade.
— Você sabe que não é tão simples, Alfred – Bruce não desrespeitaria o momento com uma resposta desonesta, só para agradá-lo.
— Claro que não é, mestre Bruce – Respondeu Alfred, com um aceno de simpatia no rosto – Mas nada é simples na vida de dois heróis, certo?
Antes de Bruce argumentar, com uma nota de advertência em sua voz, o mordomo o interrompeu.
— Meu filho, eu o criei por 35 anos, desde que você nasceu. Aqui mesmo, nesta casa. Assumi a missão de tutor, 8 anos após seu nascimento, muito mais por amor, que por dever moral. Eu amava verdadeiramente seus pais, mestre Bruce. Meu coração se alegrava com a honra poder servir as duas pessoas mais virtuosas que conheci na vida... – Bruce percebeu a emoção de Alfred quando sua voz falhou sutilmente ao falar de seus pais.
— Eu amava igualmente a criança que geraram. O pequeno mestre herdeiro – O inglês olhou para a imagem de seus amigos – Mas me permita a honestidade de dizer-lhe, mestre Bruce, que não poderia ser comparado ao sentimento que lhe dedico após todos estes anos ao seu lado, senhor. Por isso, permita-me a ousadia de revelar a dor de um coração de pai, que não tem sequer direito de agir como pai, ao vê-lo sofrer.
— Em 27 anos, você aprendeu tudo o que tentei ensinar-lhe – o mordomo sacudiu a cabeça tristemente – E eu realmente receio que isso inclua o pior de mim também: eu sou uma referência de solidão e isolamento. Não de amor e relações afetivas apropriadas.
— Por isso, eu o trouxe aqui, meu filho. Esqueça este velho que o ama. Lembre-se de seu pai. Não apenas sobre você e senhorita Diana, mas também em suas atividades noturnas – Bruce ergueu as sobrancelhas, incapaz de pensar numa analogia convincente.
Alfred convivera com seu pai por muito tempo e o conhecia como ninguém. Mas nenhum dos dois falava sobre isso. Foram raras as ocasiões, mas a dor despertada pelo tema os feria e eles nunca se prolongaram em qualquer conversa.
— Seu pai era um grande homem, mestre Bruce. Ele era um brilhante médico, empresário e filantropo. Ele era um homem gentil e amoroso, e um querido amigo – Alfred fez uma pequena pausa – Diga-me, mestre Bruce: Seu pai já negou atenção a você ou sua mãe? Já negou amor? Estava ocupado demais para lhes dar afeto?
Bruce relembrou o afeto de seu pai...
— Não – Ele finalmente respondeu, embora com alguma hesitação.
— Você é tão ocupado quanto ele e mesmo assim, dedicando-se a Gotham e seu povo, ele tinha seu tempo para amar sua mãe e você. Você é mais parecido com ele do que você percebe, Bruce.
— Estou prestes a compartilhar com você um dos últimos segredos que guardei por anos – Quando Bruce se virou para ele, com os olhos arregalados, não com surpresa, mas com extrema curiosidade, Alfred permitiu-se um sorriso – Houve um tempo, Bruce, quando seu pai também se perguntou se o amor era algo que ele poderia ter. Ele havia jurado dedicação à Gotham, como você. Então seu pai conheceu sua mãe...
— Mas mesmo apaixonado, seu pai estava dividido entre ela e sua missão – Continuou Alfred. – As exigências de sua profissão e trabalho voluntário tomavam seu tempo inteiro. Ele era um médico de renome com qualquer número de pedidos para seus serviços extraordinários, além das inúmeras ações de auxílio aos menos favorecidos. Uma noite, seu pai me disse que ele não podia dar ao luxo de amar ninguém, nem mesmo a mulher que eventualmente seria sua mãe.
— Sua mãe, como a senhorita Diana, não desistiu dele. Um espírito de amazona, sem dúvida. E seu pai aceitou o amor de sua mãe e se permitiu ser feliz, sem deixar a missão. Melhor, agora, com sua mãe dedicando-se também a Gotham... Por isso, lembre-se do seu pai, meu filho. Do meu melhor amigo.
— Obrigada, Alfred. – Bruce suspirou.
Bruce observou enquanto Alfred subia as escadas. Ele não podia contar o número de vezes que o homem estava errado sobre alguma coisa. Ele nunca estava errado.
♣ ♣ ♣
♣ Gotham City || Mansão Wayne ♣
|| Um mês depois – 4º mês de gestação ||
Ela se sentiu um tanto fora de lugar. “Mas cemitérios não são exatamente um lugar para a felicidade e a alegria, certo?”, ela pensou. Eles poderiam ser um lugar para lembranças de momentos mais felizes talvez. Era como ela achou que deveriam ser, mas os vivos estavam muito ocupados sofrendo para sorrir para eles. Eles não tinham a ideia da felicidade nos Campos Elísios*, como seu povo.
As chuvas do meio do ano não ajudaram muito. Até o tempo estava sombrio. Nem os raios de sol ajudaram, encobertos pelas nuvens escuras e espessas.
O casaco a protegeu um pouco dos respingos que começaram a cair. Ela o colocou sobre o short jeans leve e a camiseta de algodão – e sorriu para a falta de adequação do vestuário com a moda, completando o ‘look’ com galochas de cano curto. Nada fashions, mas excelentes para atravessar o terreno da mansão na direção norte, onde fica o imenso lago da propriedade. Próximo de onde Bruce havia rearranjando o túmulo de seus pais e o mausoléu em honra aos seus antepassados – já que não restavam mais as cinzas do legado Wayne neste plano material, jogado ao vento, após a destruição de Bane.
Bruce ficara menos indignado após Diana convencê-lo de que agora, eles estavam livres, não mais aprisionados em urnas. Que o que restava d físico, agora vivia para adubar a terra e renovar a vida. E que os espíritos estavam descansando no paraíso.
Ela se ajoelhou ao chegar, sem se preocupar com a grama orvalhada, que molhara seus joelhos. Passando os dedos sobre as letras grifadas na lápide, sussurrou: “Thomas & Martha Wayne”.
— Não conheço os costumes do Mundo do Homem. Eu... Não tenho experiências com a morte. Eu não vi meu povo sofrer perdas, como minha mãe, antes de Themyscira ser protegida pelos deuses. Mas... Gotham me mostrou não só a morte, mas mortes ruins... – Ela começou sua ‘conversa’.
— Eu também senti a dor de perder um amigo*. E me devastou... Até saber que ele não se foi. E voltou pra nós. – Os lindos olhos marejados da amazona piscaram suavemente – Eu agora compreendo o sentimento. Eu sei como dói em uma medida muito menor que a do Bruce.
— Eu queria prestar meus respeitos, me apresentar: Eu sou Diana, filha de Hipólita, rainha das amazonas. – Ela pôs a mão sobre a lápide delicadamente, como se segurasse as mãos de ambos – Vocês não sabem quem eu sou, mas eu já ouvi muito sobre vocês. Sobre como eram heróis para o povo de Gotham. Heróis no coração altruísta e bondoso.
— Vocês devem estar orgulhosos do seu filho. Ele é um grande homem, que me faz crer no quanto vocês são especiais. Porque só pessoas muito especiais poderiam despertar o heroísmo em alguém de forma tão extraordinária. – Diana sentiu uma linha fina de lágrimas rolarem sobre as maçãs do rosto – Mas vocês não são os únicos. Eu me orgulho tanto dele... Eu o amo tanto... Eu só quero que ele entenda que merece o amor. Que se deixe amar... Que não acorde um dia achando o contrário.
Ela olhou para baixo, colocando a mão direita sobre o ventre, quando sentiu o estômago se agitar, causando um leve desconforto com um cheiro de madeira molhada se propagando no ar.
— Os deuses nos abençoaram. Me permitiram carregar a semente do nosso amor – A mão de Diana alisou a barriga – Há uma vida dentro de mim que é parte de vocês também.
A suave garoa ganhou um pouco mais de intensidade, mas não a ponto da chuva realmente encharcar. Mas seus deuses deram-lhe a potência da durabilidade, tornando-a muito mais resistente às alterações de temperatura e do clima.
Ela colocou duas rosas vermelhas sobre a grama, aos pés da lápide. Rosas do jardim de Martha, que Alfred cuidava com capricho – tendo a companhia da amazona desde que ela morou na mansão, quando a Sentinela fora destruída na Invasão Thanagariana. Ela amava o jardim de Martha, bem como o mordomo. Era como se fosse uma forma de se ‘conectar’ com a mãe do homem que amava. Amando o que Martha amava. Cuidando do que Martha apreciava.
— Bruce não sabe que estou aqui. Eu tive que vir na primeira hora do dia, quando ele ainda está dormindo... – Ela baixou os olhos timidamente – Eu sei que ele não gosta de companhia quando ele os visita. Especialmente hoje. Essa data o trás memórias muito dolorosas... Quando eu não o entendia, eu achava que deveria perfurar seu isolamento, para confortá-lo... Mas agora, eu compreendo que respeitar seu isolamento é o único modo de alcançá-lo. Agora eu sei o caminho para confortá-lo, sem empurrar as barreiras emocionais que ele ergue, para afastar quem ama.
— Eu sei que vocês sabem como seu filho é maravilhoso, mas senti que precisava dizer-lhes isso. Dizer-lhes que, não só vocês, mas há muitos mais que enxergam o quão especial ele é, de muitas maneiras. Ainda que ele insista em pensar que não. – Diana limpou as lágrimas, que nada tinham de infelicidade – Isso é graças a vocês e a Alfred, que o ensinaram o melhor. Mesmo acometido por tantas tragédias, ele é o homem mais generoso, honrado e altruísta que conheci na vida.
Ela fechou os olhos, sentiu um aroma de rosas que fez seu estômago reclamante novamente equilibrado. Ela não queria pensar que estava falando com uma lápide fria, mas com dois espíritos eternos que a ouviriam de onde estivessem.
Ela tinha fé que seus deuses concederiam-lhe a graça de levar a mensagem aos pais de seu amado. Para neste dia que relembra a tragédia de sua morte violenta, eles tivessem a alegria de saber que a vida dentro dela era um sinal de renovação para seu Bruce.
— Eu não posso ficar mais – Ela finalizou – Se ele notar que não estou na cama, vai achar que os enjoos me fizeram passar mal. E Se eu não estiver no banheiro, Bruce vai se preocupar... E vocês sabem o que significa, certo? – Ela sorriu apertando os olhos, sinalizando o afeto nas palavras.
— Eu espero ser digna dele... Espero fazê-lo feliz... Espero que me abençoem, senhor e senhora Wayne!! – Diana se despediu com uma reverência.
♣ ♣ ♣
♣ Mansão Wayne || Batcaverna ♣
Ele desligou a tela do computador sem pressa. Recostando-se contra a confortável poltrona de couro sintético em frente a impressionante estação computadorizada, na plataforma da Central de Inteligência eletrônica da Caverna. Ainda se familiarizando com as emoções que acabaram de invadi-lo.
O sistema de segurança da mansão era praticamente inviolável – à exceção de um ataque de Darkside, o que poderia ser justificado como mérito do vilão e não como falha ou defeito de segurança. Haviam câmeras indetectáveis não só espalhadas por toda mansão e caverna, como em pontos estratégicos ao redor da propriedade, dando a Bruce uma visão de tudo.
Além disso, o satélite da WayneTech na órbita da terra – construído com o melhor da tecnologia humana e aperfeiçoado com tecnologia marciana (uma parceria entre Bruce e J’onn) – fornecia com precisão uma imagem nítida e incrivelmente aproximada de qualquer ponto da terra, solicitado por Bruce.
Por isso, não seria surpreendente o fato de que ele teve uma visão perfeita das recentes ações de Diana – ainda que tivesse tomado todos os cuidados para escondê-las dele. Tampouco, causaria surpresa saber que além de imagens, ele tinha acesso ao áudio da conversa, bem como a localização exata dela.
Desde o início do envolvimento de ambos – precisamente após a contaminação que quase a matou – Bruce tratou de acoplar a um dos braceletes dela um nano-chip, indetectável, que se integra ao elemento em que é inserido. Como um camaleão... Contudo, inanimado. A tecnologia o permite captar áudio, sinaliza a localização dela e sinais vitais, a partir da pulsação.
Ele ouviu cada palavra...
Bruce acostumara-se a dormir com ela ao seu lado. Especialmente no último mês, com o conhecimento de sua gravidez, que o fez mais protetor; além de seu afastamento da Liga, que o tornou frágil em certa maneira, ainda que não admita. A proximidade dela o trazia segurança.
Logo, as primeiras horas da manhã, eram o momento em que ele pegava no sono e os pesadelos costumavam visitá-lo (agora com menor frequência). Então, a adrenalina o fazia despertar levemente entre as 5h e 6h da manhã, abraçá-la e voltar a dormir.
Hoje, ela não estava... e ao contrário das outras manhãs, Diana também não estava adormecida no banheiro, apoiando a cabeça no vaso, cansada de vomitar.
Ele correu para caverna, para saber onde ela estava... E viu e ouviu sua ‘interação com seus pais’.
Mas como as experiências de sua vida com ela, era estranho não lembrar que dia era hoje, assim que acordara. Não sentir o peso da melancolia que o atingia como uma parede de tijolos nesta data, todos os anos, a partir dos 9 anos.
A falta dela tomara sua mente e as preocupações sobre seu ‘paradeiro’ não permitiram-no atentar para qualquer data no calendário. A necessidade de abraçá-la, protegê-la, vê-la sorrir como primeira ação de seu dia era tão instintivo, que ele só se deu conta do aniversário de morte dos pais ao deduzir porque Diana fora até aquele lugar.
Este era certamente um momento estranho – mas não ruim. Ele ainda não havia se acostumado a não sentir algumas emoções que por anos o afligiram. Como o escravo, acorrentado por anos, que mesmo liberto ainda sente o peso dos grilhões por um tempo.
Ele nunca pensou que esta data não o fizesse sentir-se miserável. Bruce não estava feliz. Mas ao menos, o breve esquecimento da data o livrou do aborrecimento imediato. E ouvir Diana o provocou emoções que estavam longe de serem ruins. Durante muito tempo, Alfred foi o único que poderia fazer isso, em raras ocasiões. Mas não era dessa forma. Porque – agora Bruce entendia – o inglês estava tão emocionalmente ferido quanto ele. Seus pais eram seus melhores amigos. Ele já havia perdido tudo na Inglaterra. Os Wayne eram sua família, que também lhe fora arrancada.
E Bruce se culpou por pensar tanto em sua dor e esquecer que seu pai substituto se esforçara tanto para não causar-lhe mais dor, que sofria tão o mais que ele, sem nem mesmo ter um Alfred (como ele tinha) para ser sua âncora. Talvez fosse por isso que Alfred amava Diana. Por isso sentiu-se tão a vontade com ela. Porque no fim das contas, ela era um alívio para ambos – não só para Bruce.
Isso geralmente era um problema, um problema que ele havia treinado para lutar contra. Mas neste ponto, em sua casa e longe da missão, ele aprendeu a deixar-se amar por ela. A mãe de seu filho!!
“Filho!”, isso trouxe-lhe um sorriso. Mesmo que não falasse abertamente, ele estava agradecido por tudo que estava acontecendo. Ainda que não pudesse impedir o medo de tudo desmoronar a qualquer momento. Significava muito para ele o que ela fizera.
(...)
Um beijo suave na tíbia ainda úmida de Diana mostrou essa apreciação, quando ele a recebera na entrada dos fundos da cozinha. Nenhuma palavra precisava ser dita.
Depois disso, ele a tomou pela mão. Ele não tinha certeza de onde ele realmente estava indo, mas era mais simbólico do que qualquer outra coisa. Era sua maneira de dizer mais uma vez que Diana era mais que bem-vinda em sua casa, à sua família, em seu coração. Bruce e Diana realmente estavam juntos agora, em todos os sentidos da palavra.
Claro, Bruce e Batman manteriam sua missão. Gotham ainda precisava de ambos. Felizmente, Diana entendia. Ela sempre entenderia. Porque ela tinha igual missão para com o mundo.
No fim, ela, Alfred, Leslie e até mesmo Clark, estavam certos sobre o fato de que ele poderia ter um pouco de felicidade em sua vida.
A inteligência de Bruce não deixou escapar a ironia do destino: Obrigando um homem descrente, de variadas formas, a resgatar ao menos um pouco da Fé perdida, ao encontrar felicidade fora da lógica e da razão.
Eles pararam ao chegar em frente à lareira, onde a imagem enquadrada dos Wayne era exibida acima dela. Bruce tomou uma posição por trás de Diana, enlaçando-a com os braços, na altura da cintura. Ele sentiu as mãos dela sobre as dele, quando apoiou o queixo sobre o ombro da amazona, inalando o perfume que ela exalava pela manhã.
O casal ficou em silêncio, contemplando a figura da família diante de seus olhos, movimentando apenas as pontas dos dedos, fazendo um carinho sutil um no outro – como se não tivessem permissão para mover-se.
A pintura à óleo de pouco mais de um metro de Thomas, Martha e do pequeno Bruce (de 6 anos, à época), parecia tão real.
Seu pai era um homem de cabelos e olhos escuros. Os traços fortes e marcantes do rosto mostravam a semelhança com Bruce – especialmente a mandíbula quadrada que garantia a ambos uma imagem que transbordava masculinidade. Thomas Wayne era um homem bonito e, ainda que estivesse longe da surpreendente forma física de seu filho, era inegável que isso fora possível graças aos seus genes. Na imagem, ele estava ao lado da esposa, envolvendo o braço direito ao redor da cintura dela protetoramente – o que fez Diana lembrar-se de Bruce imediatamente.
Martha Wayne tinha um corpo delgado – não tão magro a ponto de parecer frágil. O rosto de feições delicadas era emoldurado pelos cabelos acobreados, um tom mais escuro que o dourado, e um corte Chanel, na altura do queixo, formando cachos nas pontas, que faziam-na parecer uma linda atriz de cinema dos anos 60.
Sua mãe tinha um porte inegavelmente elegante, que poderia ser interpretado como arrogância. Entretanto, o sorriso gentil e o olhar compassivo que ela sempre exibia, praticamente anulavam impressões desse tipo sobre sua personalidade.
O olhar de Bruce concentrou-se em seus olhos, inexplicavelmente retratados quase a ponto de dar-lhes vida. Mas escapa-nos a compreensão de que, mais que o grande talento do artista, é nossa sensibilidade que torna uma obra mais ou menos impressionante. Ele amava os grandes olhos verdes de sua mãe, porque sua memória afetiva está vinculada com mais força ao brilho que eles emitiam quando ela olhava para seu filho. Seu coração guardara a certeza do amor de sua mãe na lembrança de seu olhar.
Algo que o despertava emoções tão intensas que era um dos motivos de seu arrebatamento por Selina. Ainda que completamente diferente de sua mãe, o olhar de esmeralda dela tinha intensidade semelhante e o hipnotizavam, roubando-lhe a atenção para si.
Martha colocara a mão direita sobre o ombro do filho, a frente do casal. O sorriso do menino, embora tímido, não deixava dúvidas sobre a vida feliz que desfrutava. Seus olhos apertadinhos acompanhavam o sorriso de lábios colados. O pouco que se podia ver deles não lembrava em nada o olhar do homem de pé, contemplando a própria imagem. Certamente não era forte como hoje. Na verdade, era frágil. Como o de toda criança que sonha, que não foi maculada por dores que não lhe pertencem.
Ele respirou fundo antes de sussurrar no ouvido da mulher que ama, como se tomado pela fé de que eles poderiam ouvi-lo – como Diana fizera há pouco.
— Pai... mãe... Esta é Diana. – Ele olhou pra eles, sem a dor de antes, quando não se atrevia a olhar a imagem nesta data – Vocês serão avós em alguns meses... E eu tenho certeza de que, se estivessem aqui, vocês a amariam, como eu a amo.
Diana o abraçou, voltando-se para ele.
Eles estavam felizes... Realmente felizes.
Não era uma tolice dizer que o amor pode curar feridas.
♣ ♣ ♣
♣ Monte Olimpo ♣
O som melodioso da voz feminina acompanhara a ondulação que se formara sobre a superfície aquosa que preenchia uma espécie de cuba, provocada pelo movimento de um par de dedos finos.
— É o suficiente para convencê-los, irmãos? – A beleza indizível da figura feminina que voltara sua atenção em direção as demais, tinha um brilho que a rodeava, elevando a inacreditável formosura à níveis celestiais.
(...)
— Eu lhes disse... Não me subestimem... Não subestimem o poder do amor.
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