Broken Hearts

7 Encontros e desencontros


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“A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida”.

(Vinicius de Moraes)

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*** Planeta Diário / Metropolis***

Clark Kent, olha fixamente para lugar nenhum, além da meia-parede branca à sua frente, dividindo as estações de cada jornalista e dando-lhes um mínimo de privacidade. Ele ouve perfeitamente a conversa de seu amigo Jimmy com a estagiária recém-contratada, Dayse. Eles estão falando dele. De como era esquisito o que ele estava fazendo por mais de dez minutos.

Mas ele não se importa. Nenhum pouco. Ele está mais preocupado com o que está fazendo agora e nada mais. Talvez ele verdadeiramente se incomode com os milhares de sons ao seu redor, perturbando sua concentração.

Se ele estivesse fazendo o mesmo, com o olhar perdido contemplando o nada, em sua outra frente de trabalho, certamente todos os seus amigos entenderiam. Mas ele não estava com eles... Não agora.

Clark Kent ajusta seus óculos de grau, desviando os olhos da parede e volta a atenção ao computador. Perry – editor chefe de um dos jornais mais prestigiados e respeitados do país. – deu-lhe mais uma pauta de esportes. Clark suspirou como quem desistiu de nadar contra maré. Não é o que ele quer. Ele quer a chance de cobrir uma pauta realmente relevante. Mas depois de tantos pedidos, respondidos com uma negativa de seu chefe, ele simplesmente ‘jogou a toalha’. Não que ele tenha desistido de vez, mas hoje não era um bom dia para se colocar em uma discussão.

Seus olhos azuis se acenderam quando a tela do computador brilhou, O papel de parede era uma foto dele abraçando uma mulher, tão bonita quanto ele. Um de frente pro outro, olhando-se nos olhos e sorrindo.

À contra gosto, ele resolve limpar a mente e se concentrar na matéria sobre a grande final do super bowl. Mas o fato de digitar 5 mil palavras e 10 segundos não necessariamente iria mantê-lo ocupado.

Tudo que ele queria era não pensar em Lois. Mas seu coração o traia e ele acabava voltando ao que estava fazendo, olhando fixamente a parede e vendo através dela.

Clark Kent, filho de Martha e Jonathan Kent, criado na fazenda família, na minúscula SmallVille, também era Kal-El, de origem kryptoniana, filho de Jor e Lara- El.

*** Flashback / Superman ***

O homem de aço pousa suavemente na varanda de um apartamento. Ele ouve o som do chuveiro ligado e supõe que ela deva estar no banho. ‘óleo de amêndoas’, ele respirou profundamente para inalar mais da fragrância que tanto o agradava. Não porque a essência perfumada estava em sua lista de preferências e, sim porque esse era o cheiro dela, da mulher que amava.

As portas da varanda estavam abertas, como um convite estendido a ele, permitindo-lhe a entrada, como um sinal claro de que ela o estava esperando. Ele não entrou... Permaneceu na varanda, cotovelos apoiados no parapeito, corpo inclinado, olhar fixo em sua cidade, atento a qualquer coisa que necessite de sua ajuda.

Talvez ele pudesse simplesmente sair dali. Ela não o vira chegar, então não saberia que ele esteve lá. Mas enquanto refletia se devia ou não partir, o destino o pegou de surpresa e decidiu por ele: Lois saiu o banho e o viu na varanda. ‘Agora é tarde demais’, suspirou, derrotado. ‘Se o Batman soubesse... Eu jamais recuperaria minha dignidade’, ele imaginou a cena:

— Superman?! – Ela capturou o olhar do homem com um traje azul marinho,, botas e a capa esvoaçante vermelhas.

Quem o conhecia, teria percebido que ele estava lutando contra alguma coisa dentro de si. Sua postura e seus olhos o traiam miseravelmente. Nisso, ele e Diana eram realmente parecidos. Ambos são péssimos mentirosos; e imensamente transparentes. Mas Lois não era tão íntima dele – Kal – para perceber que ele demorou mais tempo que o normal para respondeu ao seu chamado. Foram dez segundos de hesitação. Não parece muito, mas para ele durou uma eternidade. Logo ele, que desde que conhecera Lois, resgatando-a quando ela estava em apuros – o que, no caso de Lois Lane, era completamente natural. Lois sempre foi um imã para encrencas. Então, não foi surpresa para ninguém ela estar apaixonada por ele.

Em princípio, entre um resgate e outro, ela e Kal foram desenvolvendo um vínculo afetivo. E enquanto o Superman tentava resistir aos seus encantos, temendo que ela se tornasse um alvo de seus inimigos, Clark Kent, seu companheiro de trabalho, mostrava-se cada vez mais disponível e apaixonado por ela. Perguntando-se se um dia ela finalmente o notaria.

No fundo, ele queria que ela o amasse como Clark em primeiro lugar, mas sua obcessão pelo Superman a deixava completamente fora de seu eixo. Não que fosse um sentimento durável, porque ele não conseguia mantê-lo, mas em dia como este, Clark deixava a raiva emergir. E o sentimento de frustração era o passo seguinte.

‘Se ela amasse Kent...’, ele disse a si mesmo, ‘eu poderia revelar a ela que Clark e Superman são a mesma pessoa’. Essa era a regra: Ele era Clark Kent; Clark não é simplesmente um disfarce, e sim quem ele verdadeiramente era.

Amar o Superman enquanto Clark é sumariamente rejeitado, dava-lhe uma visão de que Lois amava uma fantasia. Um homem perfeito, um deus entre os homens.

*** Apartamento de Lois / Metropolis ***

Superman a seguiu para dentro do apartamento. Ela inda estava de toalha. Os lindos cabelos ainda molhados gotejavam alguns pingos d’água por cima dos ombros, percorrendo a pele. Vê-la assim o fez corar e ele agradeceu por ela não acender as luzes, deixando apenas a luz da lua iluminar seu quaro.

Ele podia jurar que ela o estava seduzindo conscientemente. O que tornara as coisas bem mais difíceis para ele. Uma mulher sexy, consciente de seu poder de sedução e com planos para capturar sua presa, era infinitamente pior que enfrentar Darkside. Especialmente porque ele não sabia o que fazer.

Lois voltou usando apenas uma camisola fina de seda – obviamente sem um hoby, que certamente diminuiria a quantidade de pele exposta. Mas ao contrário do que o Superman pensara, ela se sentia vulnerável e insegura em sua presença. Imaginando se ele poderia amar alguém como ela, um ser humano sem poderes extraordinários. Mas no momento em que percebeu o desconforto dele, suas paredes emocionais vieram todas abaixo, com um único e poderoso golpe.

Quando ele ligou dizendo que precisava vê-la, ela assumiu uma atitude esperançosa de que finalmente eles dariam o passo seguinte, assumindo um relacionamento. Ela o amava, imensa e verdadeiramente. Estava disposta a aceitar todas as regras que ela teria que seguir a fim de proteger a ele, a si mesma e sua família.

Clark não falou muito. E mesmo que tivesse, ela não teria ouvido. Ela estava entorpecida demais para prestar atenção. Honestamente, as únicas palavras que ela ouvira foram ‘Um relacionamento COM VOCÊ estava fora de questão’; e alguma coisa parecida com ‘sinto muito, Lois. Nós podemos ser amigos’.

Se ela fosse uma pessoa com um mínimo de fé, ela agradeceria a Deus por ele ter ido embora quando terminou de falar. Ela era orgulhosa demais para chorar na frente dele.

Infelizmente, a noite não tinha vindo com o sono, nem mesmo depois que ela derramou um volume de lágrimas tão grande, que poderia aumentar o volume de um rio seco.

Virando de um lado ao outro da cama, sem conseguir relaxar, sua mente retornou às palavras do Superman:

‘Um relacionamento NÃO comigo? Então com outra pessoa seria viável?’

‘Talvez ele esteja com outra pessoa. Uma heroína? Alguém da Liga?’

‘Pare com isso Lois... Você não é do tipo que sente pena de si mesma. Você é esperta demais pra isso’, disse a si mesma.

Quando o sol nasceu, o sono finalmente veio reclamar seu lugar e ela finalmente fechou os olhos. Mas de repente, saltou da cama, com as duas mãos cobrindo o rosto.

‘É ela... só pode ser ela’. Lois desabou novamente em sua torrente de lágrimas.

‘Eu odeio a Mulher Maravilha... Odeio!’, foi a última coisa que disse antes de cair literalmente no sono de tanto chorar.

*** Torre de Vigilância/ refeitório ***

Diana acordou na manhã seguinte com a curiosidade elevada à enésima potência. Ela pulou da cama e tomou um banho frio rápido, colocando um traje civil qualquer: algo confortável como uma calça básica de algodão e uma camiseta regata. Poliu rapidamente as peças de metal da armadura, incluindo sua tiara e depois de fazer um rabo de cavalo desleixado nos cabelos, seguiu para o refeitório.

Ela imaginou que não houvesse ninguém lá, afinal, era domingo e à exceção de J’onn, que estava monitorando, na sala de controle, todos os outros estavam fora: Batman estava em “sua cidade”; Flash Tinha um encontro com Beatriz – Fogo (“ou seria com Linda?”, ela não lembrava); Shay e John estavam em missão (eles sempre se ofereciam quando uma missão os levaria para longe); e Kal iria ver Lois.

Então, ao se deparar com um Superman cabisbaixo, sentado, esfregando a ponte do nariz como se quisesse afastar um dor de cabeça. Diana foi até lá para perguntar ‘o que houve ‘, ele levantou os olhos e não disse uma palavra:

— O que houve, Kal? – Diana perguntou, preocupada.

— Nada de importante! – Ele disse entristecido.

— Vamos, Kal... me conte!

— Não é nada que eu queira falar, Diana – ele fez uma pausa antes de continuar – Bom, mas e você?

— O que tem eu? – Ela disse, analisando-o por cima da borda de sua xícara, tomando um grande gole de café.

— Há rumores de que você e o Batman tiveram uma noite interessante.

— Interessante é bem o conceito da noite passada! – Ela lhe deu um sorriso arrebatador e Clark tentou sondar o que aquilo realmente significava.

— Soube que houve um incidente em Gotham – Superman continuou – Eu estou surpreso que Batman deixou você ir com ele.

Diana corou ligeiramente, enquanto colocava geléia na torrada: – Eu meio que o obriguei! – ela respondeu timidamente. – Aposto que não terei outra chance – Ela disse, num tom desanimado.

— Hum, eu não teria tanta certeza.

— Por que você diz isso? – Ela sorriu, mostrando empolgação.

— Di, acredite, se o Batman não quisesse, ele teria dispensado você. – O homem de aço deu-lhe o melhor dos seus sorrisos e os olhos dela brilharam em consentimento. Havia algo neles que causou em Clark uma certa preocupação. Por mais que ele amasse seu amigo Bruce, ele sabia que sua ‘ escuridão’ não era a melhor opção para alguém sem defesas como Diana.

*** Mansão Wayne ***

Bruce chegou em casa às 15h. Como de costume, Alfred o esperava com uma maravilhosa refeição, antes que ele pudesse voltar à Batcaverna. E também como de costume, havia uma certa ‘luta’ entre eles até que Alfred o convenceria a comer, mesmo que a refeição fosse servida na caverna.

Diante do computador, Bruce começa sua varredura de costume sobre o que acontece na torre de vigilância. Para atualizar seus relatórios sobre o ‘Protocolo Rouge’, ele mantém um olhar atento sobre os seus companheiros de Liga. Ao menos, é o que diz a si mesmo: muito embora, seu olhar tenha estado um tanto mais atento a uma companheira em questão.

Vagando pelas imagens das câmeras, ele viu quando ela saiu do refeitório e caminhou até o quarto. Observou-a trocar de roupa e colocar um traje de ginástica, apropriado para um treino – bebendo da imagem da mulher deslumbrante à sua frente e convencendo-se à exaustão, de que não passava de necessidade protocolar, nada além disso, o que provocara uma certa onda de pigarro em seu fiel mordomo.

Alfred emitiu o som de uma leve tosse antes de começar: – Se me permite a ousadia, mestre Bruce: vejo que o senhor tem passado um bom tempo a observar uma certa amazona. O senhor não acha?

— Minhas intenções são puramente profissionais, Alfred. Eu preciso me certificar que eles são confiáveis. – Bruce manteve a voz de desdém em curso.

— Muito bem, meu jovem. Se o senhor diz... – Alfred deixou a bandeja de prata com o almoço sofisticado na bancada ao lado dos computadores e fez seu caminho de volta à mansão – Mas devo dizer-lhe, mestre Bruce: para um homem que trocou suas fraldas e o conhece melhor que o senhor mesmo, eu recomendo que o senhor deveria trabalhar mais sua performance cênica de indiferença. Eu não estou convencido de sua ‘falta de interesse na senhorita Diana’.

Bruce não se dignou a responder e Alfred não precisava de uma resposta. As cartas já estavam na mesa e o mordomo sabia reconhecê-las. Ainda mais ao ver o sorriso genuíno brotar no roto de seu ‘filho’, ao contemplar a tela do computador:

*** Torre de Vigilância/ Sala de treinamento ***

Mulher Maravilha estava na sala de formação. Era um deleite vê-la em batalha – se fossem sinceros, os heróis da Liga diriam que era um deleite observá-la sob quaisquer circunstâncias.

Diana estava no meio de uma luta com vários inimigos e, para surpresa do Homem Morcego, eram todos da sua galeria de vilões: Coringa, Senhor Frio, Pingüim, Clayface, Hera Venenosa, Mulher Gato.

Um sorriso atravessou os lábios de Bruce até chegar aos seu olhos, que agora traziam um certo brilho. Ele estava intrigado: Por que ela estava lutando com eles? Ele a observou por mais de uma hora. Exatamente o tempo em que ela esteve lá, tentando levar vantagem sobre seus inimigos, mas suas táticas eram um tanto unidimensionais e obsoletas, tirando-lhe a vantagem.

Ele decidiu mudar o jogo e mandou-lhe uma mensagem para o celular, surpreso por sua atitude. Mas ao vê-la sorrir, através dos monitores, enquanto enxugava o suor do rosto, todas as suas encucações caíram por terra.

Princesa,

Você precisa melhorar sua técnica.

Amanhã, 15h, sala de treinamento.

Não se atrase!

B