Broken Heart
1 Contos de fadas não existem
Notas iniciais

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Capítulo 01 – Contos de fadas não existem
Maldições era uma das coisas que muitas das pessoas liam nos livros de contos de fadas da época. Desde princesas adormecidas a príncipes transformados em sapos. Contudo todos sabiam que não passavam de histórias para crianças com finais felizes e cheias de figuras, mas que no final não eram reais.
Histórias feitas para criar expectativas em amores impossíveis, em nutrir a imaginação de garotas sobre o amor deixando as maldições como algo bom no final das contas, criando controversas sobre as circunstâncias do amor.
Para Will elas eram reais. Todas as histórias que ele leu sobre maldições eram reais e malignas, criadas por mentes sem alma ou compaixão alguma, e todas elas não levavam ao amor, levavam à solidão. Will se sentia só.
Desde o dia em que fora amaldiçoado sentia-se cada vez menos humano; cada vez mais longe do sentimento que os livros contavam. Will não sentia que poderia amar alguém àquela altura.
Quantos anos já haviam se passado desde sua maldição? Ele perdeu as contas depois de um tempo, mas tinha certeza que bem mais do que sua mente era capaz de suportar. Devido a isso Will parou de esperar por alguém que quebrasse sua maldição, pois esse alguém quando aparecesse teria uma única e essencial missão: Destruir seu coração assim que Will começasse a amá-lo.
Como dissera antes, Will não acreditava no amor dos contos de fadas, pois ele poderia lidar com a dor da traição. Poderia suportar, afinal de contas o quão ruim esse sentimento poderia ser? Então pra que esperar por algo que nunca vai acontecer?
Apaixonar-se por um estranho? Estava fora de cogitação.
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O dia estava ensolarado. A manhã chegou como um dia radiante para quem morava na pequena vila. Pequenas e singelas carroças andando de um lado para o outro trazendo mercadorias de fora enquanto as pessoas andavam na pequena feira comprando diversas coisas, desde alimentos a objetos decorativos.
Aquele dia, no entanto, era especial na casa dos Di Angelo. Uma vez a cada três meses o senhor Lorenzo ia até a feira de Paris vender uma de suas invenções inovadoras. Ficava fora cerca de um mês antes de voltar com dinheiro o suficiente para os meses seguintes.
E devido a isso Nico, seu filho mais velho, estava aprontando o cavalo para a longa viagem até Paris. Phillip estava no estábulo enquanto Nico aprontava as correias e fivelas perto da carroça.
Estava com os cabelos presos em um rabo de cavalo mexendo concentrado nas correias de couro. Encostado no cercado de sua casa Nico aproveitava do sol da manhã, nem tão quente a ponto de queimá-lo, mas nem tão fraco a ponto de não passar o frio matutino.
Soltou um bocejo preguiçoso sacudindo a cabeça para espantar o sono intruso. Ouviu passos ao longe o fazendo encarar curiosamente para onde vinha o som. Fez uma careta desgostosa ao ver o rapaz subindo a ladeira até sua casa.
Um homem loiro de farda do exercito vermelha. Um sorriso debochado no rosto lhe dava um ar mais “filho da puta” o qual Nico tinha vontade de arrancar com um simples soco. Básico e rápido.
Bufou irritado virando o rosto no intuito de ignorá-lo. O homem abriu a portinhola entrando no terreno dos Di Angelo. Nico ficou mais atento aos movimentos dele.
― Como vai Nico? Linda manhã não? ― perguntou ele com ar debochado. Nico suspirou apertando as correias da cela de Phillip: ― Você trabalha bastante, vejo que é um homem bem dedicado.
Nico solta as correias se virando para o homem com cara tediosa:
― O que você quer Octavian?
― Não posso conversar com um amigo? ― rebateu pintando seu rosto com um sorriso debochado.
Nico soltou uma risada nasal irônica voltando a mexer nas correias:
― Já disse que você não vai desposar minha irmã. ― afirmou o moreno tentando ignorar novamente a presenta dele. Octavian trincou os dentes.
― Ela está em casa? Adoraria conversar com Hazel. ― disse ele dando passos em direção a casa. Nico entrou na frente com ar ameaçador. Octavian recuou.
― Dá o fora.
O loiro bufou: ― Não pode manter ela solteira para sempre, Nicolà. Uma hora ou outra ela vai casar, e vamos ver como vai ficar sua cara quando for meu cunhado.
Ele se virou e foi embora. Nico soltou xingamentos baixos passando a mão pelos cabelos nervosamente. Quem esse homem pensa que é?
Casar-se com sua irmã caçula? Mas nem por cima de seu cadáver!
― Nico! ― ouviu sua irmã chamando. Olhou para trás vendo ela no batente da porta. Os cabelos presos de lado com um laço azul o deixando bem volumoso. Nico abriu um enorme sorriso.
Nico amava sua irmã. Ele poderia ficar dias admirando sua beleza, e outros dias a mais defendendo ela de homens nojentos como Octavian. Mesmo eles sendo filhos de mães diferentes o carinho que ele sentia por Hazel era quase palpável, então chutar alguns soldados não era problema.
― Quer tomar chá? ― perguntou ela.
― Adoraria. ― respondeu deixando as coisas no estábulo e indo até a irmã. A tomou pela mão e entraram na casa.
Ela era bem singela. Seu pai era um inventor e o dinheiro que ele recebia não era o bastante para lhes dar uma vida de luxo, mas Nico e Hazel se contentavam com o que tinham.
Uma plantação pequena para sustentá-los; galinhas, vacas, ovelhas; até mesmo um cão que Hazel carinhosamente apelidou de Cérbero quando era menor. Atualmente combina bem com ele, não tinha bicho mais diabólico que ele, mas era um bom cão de guarda.
A cozinha e a sala eram juntas praticamente. Uma mesa de madeira próxima a pia, do outro lado um sofá com uma poltrona de lado. Estantes com livros dos mais diversos, desde explicações sobre construção de relógios a romances bobos e melosos.
A casa toda era decorada com flores. Hazel tinha uma paixão enorme por elas, principalmente pelas tão famosas rosas. Nico ainda se lembrava claramente de sua mãe sempre que olhava pra uma delas.
Se lembrada da casa em Paris e do jardim de Rosas que sua mãe tinha lá. Super bem cuidado e com rosas de cores das mais variadas. Nico ainda podia sentir o cheiro daquele jardim sempre que fechava os olhos.
Sua mãe morreu ced quando ele tinha dez anos por conta da peste. Bianca adoeceu meses depois pelo estresse da perda deixando Lorenzo sozinho para cuidar de Nico e Hazel que na época tinha seus seis anos de idade.
Sentaram-se na mesa e Nico bebeu do chá quente e saboroso. Hazel sentou-se a seu lado.
― O papai não vai descer. ― comentou ela encarando a cadeira vaga em frente a eles: ― Disse que tinha muito trabalho pra fazer, precisa terminar ainda hoje pra chegar na feira em Paris.
Nico aquiesceu.
Todo ano era a mesma coisa: os mesmos preparativos, a mesma loucura de sempre tendo de forçar seu pai a sair do quarto nem que fosse para uma xícara de chá. Lorenzo era um homem dedicado ao seu trabalho, muitas vezes negligenciando a família.
Um dos motivos pelo qual Nico ainda morava com eles era justamente sua irmã caçula. Seu pai não tinha mais pulso para protege-la adequadamente.
Tomou do chá quente respirando fundo saboreando o gosto do cravo. O mês seguinte seria bem quieto.
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― Tome cuidado na estrada, papai. ― pediu Hazel segurando o chapéu preto do pai nas mãos. O homem de idade sorriu afagando-lhe os cabelos.
― Não se preocupe meu anjo, eu sempre faço esse caminho. ― disse ele pegando seu chapéu. Depositou um beijo singelo em sua testa abraçando-a na sequência.
― O tempo está estranho. ― comentou Nico entrando novamente. Eles se separaram.
― O dia está ensolarado hoje, Nicolà. ― rebateu Lorenzo encarando o céu.
Poucas nuvens se acumulavam em um ponto ao longe no horizonte. Caso fosse cair alguma tempestade seria mais ao norte.
― O sol não quer dizer nada. ― rebateu o rapaz colocando as mãos na cintura sério: ― Acho melhor o senhor deixar para ir amanhã.
― Besteira. ― exclamou ele saindo da casa seguido pelos filhos: ― Preciso chegar amanhã de manhã, caso contrário vão comprar coisas mais interessantes que a minha invenção.
― Não tem nada mais interessante, pai. ― afirmou Hazel sorrindo. Nico rolou os olhos.
― Bom, o que meus filhos vão querer desta vez na feira? ― perguntou Lorenzo subindo na carroça. Segurou as correias firmemente controlando Phillip.
― Nos traga as mesmas rosas de sempre. ― pediu Nico sorrindo. Lorenzo soltou uma risada cômica:
― Vocês sempre pedem rosas. ― comentou o homem.
― Gostamos de rosas. Nos lembra a Bianca. ― disse Nico com um sorriso nostálgico. Era um pouco difícil falar da mãe e da irmã abertamente, mas eles sempre faziam um esforço. O homem não disse mais nada.
― Me desejem sorte. ― falou galopando para o Sul. Hazel acenou para ele ao longe. Nico somente aquiesceu dando meia volta.
― Por que você sempre pede rosas só por que eu peço? ― comentou ela com uma pontada de irritação que Nico achou cômica.
― Porque eu gosto de rosas.
― Mentira, você detesta. ― rebateu ela tirando uma risada do irmão: ― Você só faz isso porque não acha justo pedir coisas enquanto eu ganho rosas.
― Chegou nessa conclusão sozinha? ― zombou ele pegando a cesta perto da porta.
― Nico! ― bradou a irmã irritada enquanto o seguia em direção a cidade. Ela parou ao seu lado suspirando: ― Você é um projetista incrível irmão. O papai pode ser um inventor, mas você quem faz a carapaça de tudo, que planeja, projeta e arquiteta. Pede para ele te deixar ficar na nossa antiga casa em Paris. Lá você vai poder crescer!
Ela disse abrindo os braços erguendo-os para o céu. Nico somente a encarou:
― Imagine você projetando aquelas Igrejas colossais Francesas como Notredame ou a Basilica di San Vitale. Imagine você o novo Leonardo Da Vinci. ― imaginou a irmã extasiada. Nico soltou uma risada.
― Ok, duas coisas irmãzinha: primeira a Basilica di San Vitale fica na Itália. Segundo, Leonardo Da Vinci é mais artista do que arquiteto. ― explicou ele desviando de uma carroça que vinha no caminho contrário a eles.
― De toda forma deveria pedir para se mudar para Paris. ― falou ela.
Nico negou: ― Não vou deixar vocês aqui sozinhos. O papai tem andando meio lunático de uns tempos pra cá.
― Ele não é louco Nico. ― repreendeu a irmã séria.
― Não, mas ele ficou estranho depois que a mamãe morreu, e mais ainda depois da Bianca. ― ergueu o olhar para o céu soltando uma lufada de ar: ― Não posso te deixar sozinha com aquele louco do Octavian querendo casar com você.
Ela soltou uma risada: ― Ora o que tem contra ele?
Nico parou bruscamente horrorizado: ― Você quer?
― Eca, não! ― negou ela: ― Mas você sabe que eu vou casar um dia certo?
― Sim, aliás já passou da hora. Ta ficando velha. ― zombou ele voltando a andar.
― Nico!!! ― exclamou Hazel voltando a segui-lo.
Entraram na cidade e na bagunça de todas as manhãs. Carroças para um lado, pessoas para outro, frutas, utensílios de cozinha, ciganas dançando pela cidade e várias outras coisas no pequeno centro.
Passaram por um grupo de moças no centro que soltaram suspiros apaixonados:
― Ah! É o Nico! ― disse uma delas baixinho soltando risadinhas abafadas pelas mãos. As outras concordaram alegres.
Hazel soltou uma risada maldosa:
― Por que não casa com uma delas? ― perguntou ela apontando com a cabeça. Nico as encarou fazendo com que elas entrassem envergonhadas na casa.
― Com uma das cabeças de vento? Nunca. ― disse ele: ― Além do que são filhas da Afrodite, não quero isso para mim.
― Oras, Afrodite é a deusa da beleza, deveria aproveitar. ― zombou a irmã sonhadora.
― E dona do bordel da esquina. ― complementou Nico: ― Afrodite é a deusa da beleza e do amor, mas não do casamento. ― replicou ele: ― Enfim, vai comprar o que?
― Frutas em geral. E talvez pão para o chá da tarde. ― respondeu encarando as barracas. Pegou em mãos uma laranja encarando-a seriamente.
Nico segurou a cesta tediosamente aguardando a irmã caçula parar de namorar as frutas. Olhou para o lado dando de cara com o estupido soldado de guerra. Passou o braço pelos ombros de Hazel encarando Octavian ameaçadoramente.
O homem grunhiu desviando da moça e fazendo caminho para outro lugar acompanhando de um rapaz asiático. Diferente dele, esse homem tinha várias medalhas em sua roupa.
― Octavian? ― perguntou Hazel ainda encarando as frutas. Nico afirmou com a cabeça.
― Não seja maldoso com ele. ― repreendeu a irmã.
― Quer casar com ele é? ― zombou. A moça negou na mesma hora:
― Já disse que não. ― abaixou a cabeça na sequência: ― Mas o amigo dele até que é bonitinho.
Nico tirou o braço dela encarando-a sapeca: ― O amigo soldado?
― Capitão. E sim, ele parece legal. ― comentou a irmã olhando para trás onde eles estavam: ― O nome dele é Frank e é o Capitão do Octavian. Na verdade só sei isso dele.
Nico balançou a cabeça compreendendo. Pegou a irmã pela mão a fazendo soltar a fruta.
― Tive uma ideia. ― falou ele puxando Hazel consigo.
― Tenho até medo de saber o que é. ― resmungou ela se deixando ser arrastada. Nico passou perto de Octavian que desviou o olhar caminhando para longe.
Cruzou olhares com Frank chamando-o com a cabeça para um canto. Hazel ficou branca. O asiático piscou algumas vezes antes de segui-los disfarçadamente.
Chegaram a um beco. Hazel de cabeça baixa quase colada em Nico e o irmão encarando o Capitão que parecia mais um gatinho assustado. Nico estranhou isso.
― O que Octavian realmente quer com a minha irmã? ― perguntou ele sério. Seu olhar era ameaçador o que fez Frank ficar desconcertado.
― Bom, ele quer desposá-la. ― disse o Capitão desviando o olhar. Nico arqueou a sobrancelha como se soubesse que tinha mais. Frank suspirou: ― Disse que ela é a mais bonita da cidade, e que ele merece só o melhor.
― Maldito. ― praguejou Nico.
― Olha o linguajar. ― repreendeu Hazel. Frank a encarou por um tempo deixando a garota constrangida.
Inclinou-se para ela segurando sua mão.
― Desculpe ser descortês com a senhorita. Sou Frank. ― apresentou-se beijando sua mão educadamente. Afastou-se: ― Não deem atenção ao Octavian, ele mais ladra do que morde.
Nico franziu o cenho: ― Espero que sim. Você é o Capitão dele, mas age sem pulso nenhum. Tem certeza que é Capitão do exército?
― Nico!
― Eu sou um homem de pulso firme quando preciso, principalmente nas guerras. ― explicou Frank: ― Quando estou fora prefiro usar mais da gentileza. Fui criado pela minha mãe sozinha, ser rude não é muito meu perfil.
Nico sorriu com a resposta: ― Gostei de você.
Frank desviou o olhar encabulado, igualmente Hazel.
― Bom, vamos indo. Mande Octavian ficar longe da minha irmã se ele souber o que é bom pra sua saúde. ― ameaçou Nico indo embora e levando Hazel consigo.
― Não acredito que fez isso. ― comentou Hazel assim que estavam longe o bastante de Frank.
― Fiz o que? ― perguntou ele inocentemente.
― Você sabe muito bom o que você fez! ― rebateu ela emburrada: ― Quer me fazer passar vergonha?
― Pelo contrário. Sei exatamente o que estou fazendo. ― ele disse lhe piscando o olho sapeca.
― Não compreendo. ― resmungou ela num suspiro: ― O que se passa nessa sua mente maligna?
― Não vai me achar tão maligno daqui a pouco. ― murmurou ele ajeitando a cesta vazia em suas mãos jogando-a nas costas como uma bolsa.
Hazel encarou a cesta, mas rolou os olhos, como se não valesse a pena discutir. Compraram o que precisavam, mas antes de irem embora ela passou na biblioteca para pegar algum livro interessante.
Nico esperou do lado de fora recostado na parede áspera da casa. Bocejou preguiçosamente piscando os olhos repetidamente. Olhou para o lado vendo Frank parado perto de alguns homens que conversavam algo com Octavian.
O rapaz olhou Nico por um momento antes de voltar à atenção para a conversa pouco convidativa.
Nico se lembrava de quando eles apareceram na vila. Há pouco mais de três meses Frank foi o primeiro a aparecer. Montado num cavalo branco com medalhas no peito e um olhar ameaçador pronto para dar o bote em quem quer que fosse.
A primeira impressão de Nico do rapaz foi que ele era perigoso, e saber que era o Capitão de um exército o deixava mais aterrorizante ― quem diria que na verdade ele era manso? ―, já Octavian chegou tempos depois e resolveu ficar na mesma cidade de Frank.
Diferente do Capitão Octavian parecia não ter interesse em morar em Vilas, mas não foi motivo suficiente para ir embora.
Ouviu o sino da porta tocar e Hazel se despedindo. Saiu radiante com um livro azul em mãos. Ele retribuiu o sorriso oferecendo o braço. Ela pegou e seguiram caminho de volta para casa.
Reparou no olhar de Frank para Hazel, um olhar que ele conhecia muito bem. Sorriu pra si mesmo com o quão previsível homens do exército eram. Não se interessam a menos que tenham tido uma primeira interação, não importa como ela seja.
Voltaram para casa naquela tarde e passaram o resto dela conversando na sala sobre banalidades. Vez ou outra Hazel comentava sobre alguns livros que havia lido na semana o qual Nico quem recomendara e era exatamente o mesmo que ela pegou.
Contando a história de um príncipe encantado e que a maldição é quebrada pelo amor verdadeiro e várias outras baboseiras amorosas. Nico lia livros assim, mas admitia que eram mais besteiras para garotas se iludirem que qualquer outra coisa.
Quando a noite caiu uma tempestade cruel veio junto. A chuva que supostamente era para cair mais ao Norte chegou antes mesmo que tivessem tempo de se preparar para ela. Nico saiu da casa até o estábulo checando os animais nela e garantindo que as portinholas estavam bem fechadas.
Foi até o portão da certa de sua casa que estava escancarado batendo nas vigas de madeira de suporte. As trancou amarrando-as uma corda que trazia consigo. Respirou fundo sentindo um arrepio correr por seu corpo pelo frio.
Abraçou a si mesmo voltando para dentro da casa, mas o relinchar de Phillip o fez parar e virar-se para a floresta. Apertou os olhos imaginando serem sons de sua cabeça, mas assim que viu a carruagem de seu pai voltando do caminho soltou um som exasperado correndo para o portão que havia acabado de fechar.
Phillip passou rapidamente por ele e Nico os seguiu deixando o portão aberto.
― Pai? ― chamou ele vendo o homem descendo desengonçadamente da carroça. Nico segurou as correias de Phillip acalmando-o.
A chuva ficou cada vez mais forte e era difícil ouvir qualquer coisa além do vento zumbindo em seus ouvidos.
O homem o ajudou a levar Phillip e a carroça para o estábulo. Lá puderam ter uma conversa mais decente.
― O que houve? Por que voltou? ― perguntou Nico preocupado enquanto seu pai tentava se secar em vão.
― A chuva nos pegou de jeito. Eu não conseguiria continuar. ― admitiu o homem tossindo forte sentindo espasmos por todo seu corpo.
Nico o segurou pelos ombros:
― Vem, vamos pra dentro. ― falou carregando o pai para dentro da casa. Hazel já os esperava na porta.
― Papai? ― ela foi até ele afagando seu rosto: ― Está gelado, venha!
Enquanto Hazel o puxava para a lareira para se secar Nico foi até a cozinha atrás de chá quente para espantar o frio. Batia o queixo de tão gelado que estava. Sentiu as mãos de Hazel em seu braço.
― Ele está desolado. ― admitiu ela. Nico soltou uma lufada de ar pesada.
― Eu sei. Precisava chegar a Paris amanhã, mas eu disse que a chuva seria um problema. ― ressaltou o rapaz passando a mão pelos cabelos encharcados.
Deu uma breve olhada no chão da cozinha e depois para trás vendo o rastro de água que deixou. Torceu para Hazel não perceber ainda.
― O que vamos fazer? Nós conseguimos nos manter bem com o que temos aqui, mas sem o dinheiro não temos como comprar alguns grãos, ou pães. ― ressaltou a irmã secando Nico com um paninho.
O rapaz respirou fundo passando a mão pelo rosto tenso. Olhou para o pai por cima do ombro o vendo sentado em frente à lareira com um cobertor por cima de si ainda com as roupas molhadas. O olhar baixo e decepcionado.
Nico resmungou com a solução que encontrou:
― Eu vou. ― avisou ele virando-se para os quartos. Lorenzo e Hazel o seguiram com os olhos.
― Não! Espera! ― pediu a irmã correndo atrás dele.
Nico retirou a camisa molhada fazendo Hazel dar meia volta e ficar de costas pra ele. Foi atrás de outra peça de roupa e seu pesado sobretudo.
― Não pode ir assim! Está chovendo muito, pode se perder. ― avisou a irmã ainda de costas.
― Eu preciso ir. Você mesma disse que seria difícil nos virarmos sem esse dinheiro, então estou indo. ― relembrou vestindo o sobretudo e trocando a calça e as botas.
Pegou uma mala de mão colocando algumas roupas dentro. Hazel aproximou-se dele com um chapéu preto com as abas largas. Nico sorriu para ela pegando-o e agradecendo com a cabeça.
― Só me prometa que vai ficar bem. ― pediu a caçula com a voz baixa. Nico sorriu beijando-lhe a testa de forma terna.
Hazel o abraçou na sequência afundando seu rosto em seu peito. Nico a abraçou forte sussurrando palavras de conforto para a irmã.
Nico sabia o quanto ela odiava quando ele saia. Na ultima vez que ficou mais que alguns dias fora de casa foram para servir no exercito na guerra para reconquistar as terras francesas das mãos dos ingleses, comandado por Joana D’arc. Naquela época Nico ainda era novo e não tinha certeza se conseguiria voltar vivo para casa.
Ficou fora por cerca de quase um ano nas guerras antes de retornar assim que reconquistaram Orleães. Lembrava-se daquele dia claramente quando Hazel correu até ele debulhando-se em lágrimas alegres e aliviadas.
Aquele dia ele chorou também, por mil e um motivos. Infelizmente ainda estavam em guerra, mas naquele momento aproveitavam a pequena paz que tinham antes de provavelmente voltar ao campo de batalha.
Ter de deixa-la novamente lhe partia o coração, mas era um mal necessário, tal qual a batalha. Beijou seus cabelos a afastando.
― Eu prometo. ― falou ele acariciando seu rosto: ― Mas quero que me prometa algo também. ― a encarou sério: ― Não deixe ninguém saber que eu sai no lugar do papai. Diga que ele não pode ir e que eu peguei um resfriado com a chuva, ok?
― Por que? ― perguntou a irmã curiosa.
― Octavian pode aproveitar que não estou aqui e tentar algo. Quero evitar dor de cabeça desnecessária. ― complementou com a voz rasgada.
Hazel soltou uma risada rolando os olhos.
― Não acho que é pra tanto, mas prometo. ― falou ela fazendo menção de pegar a mala por ele, mas Nico foi mais rápido. Saiu pelo quarto de mãos dadas com a irmã.
Lorenzo já estava de pé olhando o filho com olhos aflitos. Aproximou-se do senhor recebendo um abraço apertado dele. Retribuiu com um sorriso pequeno.
― Fique bem meu filho. ― pediu o homem: ― Se achar que não tem como continuar pare em algum lugar e peça abrigo.
― Entendido.
― E volte assim que a feira acabar. Deve durar um mês em média. ― relembrou o pai: ― Volte assim que terminar, nem um dia a mais.
Nico riu: ― Pode deixar.
― Ah e não venda por menos que quinhentos denaros! ― avisou o homem: ― Alguns mercadores vão tentar comprar por menos ou por Libra, não aceite.
― Anotado. ― zombou ele segurando com firmeza a mala. Hazel ainda ocupava sua outra mão: ― Vou ficar bem, não se preocupe.
Lorenzo sorriu triste: ― Eu sei que vai.
Nico saiu pela porta dando um ultimo abraço em Hazel correndo para o estábulo. Colocou a mala dentro da carroça e foi até Phillip acariciando-o.
― É garotão, vamos ser só nós dois por um mês. ― falou ele sorrindo para o cavalo que relinchava pelo carinho.
Voltou para a carroça subindo nela e a tirando do estábulo. A chuva ainda estava muito forte e não conseguia encarar o arredor. Segurou firmemente Phillip pelas rédeas e saiu pelo portão em direção à floresta densa.
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Nico não soube dizer por quanto tempo ele andou na floresta. A chuva estava cruel e não conseguia andar com Phillip mais o que alguns metros antes que o mesmo parasse exausto. Seu chapéu havia se perdido com o vento há algum tempo atrás.
Resfolegou pesadamente enquanto tentava enxergar por entre o vento forte que estapeava seu rosto sem piedade. Péssima hora para ir até Paris. Péssima hora. Um pouco mais a frente viu uma bifurcação.
Do lado esquerdo as grossas folhas sendo levadas pelo vento e pela chuva em uma pequena enxurrada pelo pequeno desnível do solo. Do lado direito foi o que intrigou Nico. O rapaz parou Phillip encarando a passagem.
Colocou uma das mãos sobre os olhos encarando a passagem branca. Parecia dali neve, mas era impossível naquela época do ano. Era pleno verão. Ainda um pouco distante resolveu se aproximar um pouco da passagem.
Exatamente no meio da bifurcação viu o caminho de neve sem nenhuma chuva castigando-a. Torceu o lábio ao sentir uma sensação estranha sobre o caminho. Puxou Phillip para o lado, mas então novamente olhou para a passagem.
Ou ele enfrentava aquela passagem com chuva forte ou pegava o atalho com neve. Encarou Phillip por um momento. O equino parecia exausto pelo esforço na chuva forte. Respirou fundo.
― Não custa nada tentar. ― resmungou para si mesmo voltando com Phillip para a estrada de neve.
Assim que entrou não sentiu mais a chuva só um frio avassalador embalando-o. Soltou uma lufada de ar incrédulo vendo-o condensar. Olhou para trás observando a chuva caindo perfeitamente na divisa entre a passagem de neve e o resto da floresta.
Curioso.
Voltou para frente seguindo caminho com Phillip vagarosamente. Ali não precisava ter pressa alguma afinal não chovia e poderia dar um descanso ao animal. Recostou-se no assento da carroça deslumbrando o local com certa curiosidade.
Tudo estava coberto pelo branco da neve e o silêncio da floresta o lembrava bem das noites de inverno na vila. Tudo quieto pelos animais escondidos pelo frio. Ali não era muito diferente.
Avançaram um longo caminho e quando mais andavam mais Nico sentia-se sendo observado. Olhou para trás algumas vezes preocupado. Aquele sentimento era terrível, tinha certeza absoluta que algo o observava de longe.
Balançou a cabeça e seguiu com Phillip, desta vez mais rápido. Assim que acelerou o passo ouviu alguns logo atrás. Ousou olhar para ver o que era sentindo seu sangue gelar.
Uma matilha de lobos o estava seguindo. Três atrás e dois nos lados em cima dos barrancos da passagem. Nico engoliu em seco olhando para frente de novo. Apertou as rédeas e com um atiçar delas pôs Phillip a correr.
Ouviu o uivo das feras e elas o seguindo no mesmo embalo. Correu com o cavalo pelo caminho estreito da passagem. A carroça os atrasava, mas não tinha como parar e cortá-la sem que um dos lobos os fizesse de lanche. Respirou fundo virando na curva vendo a carroça inclinar assombrosamente para a direita levantando as rodas esquerdas.
Ela voltou para o chão, mas Nico continuou desesperado. Acelerou encontrando-se a alguns bons metros de um enorme portão de ferro retorcido em forma de rosas. Logo no fundo um gigantesco Castelo pintado de branco pela neve que caia.
Phillip fez sons estranhos ao perceber que Nico não iria parar. Foram de encontro com o portão fechado rapidamente.
― Eu sei que está fechado, mas não podemos parar! ― gritou Nico como se o cavalo fosse entender algo.
Continuou acelerando monitorando os lobos pela visão periférica. Seu coração parecia que iria saltar de seu peito pela adrenalina. Respirou fundo ao ver o portão cada vez mais perto.
Um deles avançou pelo lado contra a carroça tentando subir e alcançar Nico. Ele desviou da mordida do animal tombando o corpo para a esquerda. Voltou a ficar ereto encarando o portão aumentando de tamanho.
― Que não esteja trancada, por favor! ― implorou ao fechar os olhos preparando-se para o impacto com as barras de aço.
Antes de colidirem os portões se abriram sozinhos permitindo a passagem de Phillip, mas barrando os lobos. Nico abriu os olhos rapidamente a tempo de conseguir desviar de uma amurada de pedras.
Virou Phillip pro lado com brusquidão tombando a carroça no processo. Phillip desviou da amurada, mas Nico foi lançado longe junto com a carroça. Acertou o chão em cheio, mas a dor parcialmente amenizada pela neve.
Soltou uma lufada pela dor ficando deitado na mesma posição.
O portão se fechou novamente e um feixe de luz foi disparado das barras de aço encobrindo toda a área do Castelo como uma cúpula invisível. Segundos depois a luz desapareceu.
A luz chamou a atenção de quem morava no Castelo. Da torre principal dois pares de olhos azuis encaravam preocupados o rapaz deitado no chão e a carroça destruída.
― Pobre visitante infeliz. ― disse um relógio de mesa suspirando pesadamente. Will concordou com o fato.
― Vão recebê-lo. ― pediu ele sem retirar os olhos do rapaz que começava a se levantar.
― Sim, senhor. ― respondeu o relógio saindo em disparada para os andares de baixo.
Nico levantou-se num resmungo pela dor aguda nas costas. Estalou as mesmas correndo até Phillip.
― Como está amigão? ― perguntou ele afagando sua crina: ― Foi um susto e tanto, né?
Separou-se do equino indo até o portão. Andou cuidadosamente com medo dos lobos reaparecerem do nada. As barras eram largas o bastante para uma cabeça de lobo passar por ela. Nico estranhou o fato de não estarem tentando passar.
Olhou para os lados curioso ainda a dois passos do portão. Constatou não estarem por lá tocando na barra para puxar o portão e olhar melhor. O toque no metal foi gelado, mas logo depois uma descarga elétrica passou por seu corpo o lançando a uns bons cinco metros de distância.
Nico caiu de lado gemendo pela dor e susto. Respirou fundo afundando o rosto na neve fofa. Sentou-se olhando abismado para o portão. Levantou-se desconfiado. Deu dois passos em direção a ele, mas voltou.
― Não. Não vou fazer isso de novo. ― decidiu ele segurando seu braço esquerdo que formigava. Olhou novamente fazendo menção de tentar uma segunda vez, mas bufou e fingiu que não havia nenhum portão ali.
Pegou Phillip pela correia puxando-o consigo. Já que estava seguro ali dentro ― mais aprisionado que seguro ― se permitiu deslumbrar o local. As estatuas eram retratações de bestas assustadoras, algumas delas com cabeças humanas nas mãos, outras com lanças e olhos assustadores.
Todo o jardim coberto de neve, mas dava pra ver claramente pelo formato dos arbustos que imitavam os labirintos dos palácios reais. O Castelo era bem escuro, e o contraste com o branco dava um ar macabro ao ambiente. Nico sentiu os pelos de sua nuca se arrepiarem.
Chacoalhou a cabeça e continuou puxando Phillip consigo. Mais a frente havia um estabulo singelo, com feno e água disponíveis. Nico sorriu:
― Vem, vamos abusar um pouco mais da hospitalidade. ― falou o rapaz entrando no estábulo: ― Se bem que nem devem saber que estamos aqui. ― murmurou soltando Phillip que foi diretamente pra agua.
Respirou fundo abraçando a si mesmo tentando se esquentar. Estava frio demais para uma noite de verão. Claro, estava nevando, mas ainda sim.
― Vou tentar falar com o dono daqui. O portão não vai abrir. ― disse a Phillip seguindo caminho em direção aos portões de entrada do Castelo.
Caminhou com certa dificuldade pela neve que já estava alta. Chegou à porta batendo duas vezes antes da mesma se abrir sozinha. Parou encarando-as:
― Qual o problema das portas daqui? ― reclamou ele puxando os lados do sobretudo e se envolvendo ainda mais neles.
Entrou no Castelo e a porta fechou-se automaticamente.
― Olá? ― chamou ele encarando os arredores.
O Castelo parecia abandonado, com teias, partes quebradas e bem silenciosa. O eco de sua pergunta correu por todas as entradas do edifício voltando para ele segundos depois.
― Tem alguém aqui? ― perguntou ele mais alto: ― O portão de vocês não quer abrir. ― explicou ele, ainda sem respostas.
Andou mais um pouco parando ao lado de um Candelabro com as velas acessas. Se estão acessas tem gente morando.
― Impossível não ter ninguém. Isso aqui é enorme. ― reclamou ele irritado. Olhou mais atentamente para o Candelabro vendo um relógio de mesa do lado: ― Alguma alma viva tem de existir nesse fim de mundo.
Trincou os dentes nervoso. Estava com frio, e o silêncio só piorava seu nervosismo.
― Não seja rude! ― bradou o Relógio apontando-lhe as partes de metal que aparentavam serem braços raivosamente: ― Deveria ter esperado que nós o atendêssemos antes de entrar.
Nico encarou o relógio embasbacado. Abriu a boca pra falar, mas nada saiu.
― Garoto?
Ele soltou um grito de pavor correndo para a porta de entrada. Segurou a maçaneta tentando puxar, mas ela sequer se moveu. Malditas portas!
― Vamos, vamos, vamos! ― pediu ele batendo na porta: ― Abre!
― Garoto, relaxa! ― pediu o relógio descendo da mesinha. Nico arregalou os olhos e voltou a bater nela.
― Vamos lá, abre! ― continuou sentindo o desespero subir por seu peito.
― Eu mandei vocês não assustá-lo. ― Nico ouviu uma voz feminina atrás de si. Virou-se lentamente vendo um Bule falando com Relógio.
― Um bule que fala? ― sussurrou para si mesmo grunhindo depois: ― Um bule que fala! Ah, me deixa sair! ― desesperou-se ainda mais. Olhou para cima esperançoso: ― Se me deixar sair eu juro que não maltrato mais o Octavian.... Ok, isso é mentira, mas vamos!
Esperou e nada da porta se mexer. Respirou fundo olhando para trás sobre seus ombros.
― Eu estou morto. Só pode ser isso. ― concluiu Nico: ― O lobos me pegaram. É isso. É a explicação lógica.
Os objetos continuaram a encará-lo solidários.
Mordeu o lábio nervosamente: ― Não acredito que vou fazer isso.
Virou-se totalmente praquelas coisas. O Candelabro aproximou-se dele:
― Já está mais calmo? ― perguntou preocupado. Nico respirou fundo novamente:
― Então... Senhor Castiçal ― começou Nico.
― Candelabro. ― corrigiu ele.
― Tanto faz. ― bradou: ― Então, eu preciso mesmo ir embora. Tem como abrir o portão pra mim?
As peças o encararam por um tempo antes de desviarem o olhar. Nico estranhou isso ficando ereto.
― O que foi?
― É melhor você conversar com nosso Amo sobre isso. Ele pode te explicar melhor do que nós. ― sugeriu o Relógio olhando para o andar de cima. Nico o seguiu com o olhar.
Atrás de alguns pilares pode ver a silhueta de alguma coisa o encarando do alto.
― Seu chefe? ― perguntou Nico: ― E ele é o que? Um piano.
― Não seja arrogante garoto. ― repreendeu o Candelabro, mas sem aumentar o tom de voz.
― Estou morto, posso ser arrogante. ― resmungou caminhando para as escadas: ― Não que fizesse diferença eu estar vivo.
Subiu rapidamente os degraus caminhando até o Amo deles. Parou a poucos metros dele que ainda se escondia nas sombras.
― Com licença? ―chamou ele: ― Seu Relógio me mandou vir falar com você. ― disse ele repreendendo-se depois: ― Ok, não foi a melhor apresentação, mas juro que não sou louco.
A silhueta se mexeu e um par de olhos azuis se fez presente. Nico ficou ainda mais desconfortável com duas orbes azuis flutuando no escuro o encarando.
― Então, eu tentei sair, mas o seu portão não abria de forma alguma. ― explicou ele: ― Na verdade me deu um choque, mas enfim.
Silencio novamente. Isso irritou Nico profundamente.
― É sério, eu preciso sair daqui. Tenho de estar em Paris daqui a algumas horas. ― continuou ele, mas nada da pessoa dizer algo ou se mover. Respirou fundo: ― Não vai se apresentar pelo menos?
A coisa desviou o olhar.
― Bem, eu sou Nico. ― apresentou-se: ― Posso sair?
― Não tem como. ― respondeu Will tristonho. Nico ficou tenso.
A voz dele não era assustadora, mas era mais grossa do que ele imaginaria que pudesse ser. Ainda assim parecia dócil.
― Por que não? ― bradou ele irritado: ― Quer saber? Cansei da sua frescura de se esconder nas sombras. ― andou a passos pesados em direção a ele pegando um ângulo de luz.
Assim que o enxergou deu três passos para trás horrorizado. Ele deveria ter uns dois metros e pouco de altura; o pelo era claro, com roupas brancas e amarelas cobrindo seu corpo largo e amedrontador. Em sua cabeça um par de chifres tortos nas pontas e caninos a mostra, mesmo que pouco.
Aquilo era aterrorizante.
― Jesus Cristo! ― bradou automaticamente. A fera recuou ofendida fazendo menção de ir embora: ― Não! Não! Não! Desculpe, não foi minha intenção. ― Will o encarou receoso: ― O que é você?
― Uma fera. ― respondeu.
― Isso eu percebi. ― falou rolando os olhos: ― Olha senhor fera, eu tentei sair do castelo, mas não consegui. O que está acontecendo?
Will suspirou:
― A maldição. ― resmungou ele ficando ereto lhe dando bons trinta centímetros a mais de altura. Nico sentiu-se nanico perto dele.
― Que maldição?
― A que assola nosso castelo. Não fomos sempre assim! ― explicou ele apontando para si mesmo e os objetos no andar de baixo: ― Infelizmente parte da maldição é que quem entrar no castelo não sairá mais.
― O que? ― balbuciou Nico incrédulo: ― Opa, espera um pouco. Eu não posso mais ir embora?
Will negou.
― Ah! Ótimo Nico. ― bradou o moreno andando de um lado para o outro: ― Grande ideia fugir da tempestade seguindo por um caminho totalmente estranho só porque ficou curioso pela neve. Neve no verão! AH! EU E MINHA CURIOSIDADE!
― Se acalme. ― pediu a fera.
― Me acalmar? ― bradou Nico o encarando com raiva: ― Como quer que eu me acalme se acabou de dizer que não posso mais sair?
Will respirou fundo olhando para o lado.
― Descanse por hoje. Providenciar-lhe-ei um quarto, fique por lá. Amanhã de manhã conversamos. ― disse a fera dando meia volta e saindo.
Nico bufou passando a mão pelos cabelos nervosamente. Ouviu barulho de coisas de metal batendo no chão. Virou-se vendo o Candelabro no chão aproximando-se.
― Providenciar-lhe-ei? Sério? ― resmungou para si mesmo voltando sua atenção para os seres inanimados-não-inanimados.
― Venha conosco, visitante. ― pediu ele andando para o lado oposto da fera.
Nico ficou tentado a dormir com Phillip no estábulo. Odiava admitir, mas estava apavorado. Partes da mobília que na verdade falavam e um anfitrião cachorro? Na verdade o que era aquilo? Sinceramente ele só poderia estar morto e ali era o inferno.
― Jovem? ― O bule o chamou fazendo Nico encará-la: ― Eu sei que é tudo aterrorizante, mas espero que possa descansar essa noite e nos deixar explicar tudo amanhã com mais calma.
Nico assentiu, mas não disse mais nada.
Depois de vários corredores e escadas chegaram a uma suíte maravilhosa que Nico supôs ser do tamanho da casa dele inteira. Aquilo era desproporcional a tudo que ele conhecia. Automaticamente foi até a sacada abrindo-a.
O vento gélido agredindo seu rosto fez suas bochechas corarem na mesma hora. Apoiou-se na grade olhando para baixo. Estava bem alto por sinal. Dali conseguia ver a entrada e parte do estábulo. Oh! Droga tinha deixado suas roupas na carroça.
― Amanhã venho te acordar. ― avisou o Candelabro fazendo uma breve reverência e saindo seguido dos outros objetos.
Nico bufou fechando a sacada e caindo com tudo contra a cama fofa e um pouco empoeirada. Encolheu-se em posição fetal tapando o rosto com as mãos.
― Que seja um sonho e eu acorde, que seja um sonho e eu acorde, que... ― continuou ele como um mantra até cair no sono.
Infelizmente o dia seguinte chegou.
E ele ainda estava lá.
✿❀✿
Ouviu batidas na porta o chamando para sair. Nico simplesmente ignorou encarando o teto do quarto. Aquilo era surreal demais. Ele ainda não entendia o que se passava ali, e por mais que tenha tido uma curta noite de sono no momento em que acordou pelo sol da manhã pensou estar em sua cama com Hazel o chamando para o café.
Contudo ela não chamou. No lugar ele somente ouviu o silencio do Castelo. O tilintar dos enfeites de pedras no teto colidindo-se pelo vento da pequena fresta que ainda havia ficado na sacada. O espelho enorme em frente à sua cama podendo ver bem a bagunça que ele estava.
Havia retirado o sobretudo e estava enrolado nas cobertas empoeiradas e com travesseiros de pluma dos lados. Suspirou pesadamente afundando seu rosto no cobertor.
― Visitante? ― chamou uma voz doce e melodiosa.
Nico estremeceu olhando para o lado curioso. Do lado dele um guarda-roupa com as portas abertas e olhos artificiais o encarava fraternalmente. Mesmo sendo uma parte da mobília Nico não sentiu medo dela. Talvez pelo teste de nervos de mais cedo.
― Qual seu nome, querido? ― perguntou o guarda-roupa solidário.
― Nico. ― respondeu num sussurro baixo. A mobília teve de se inclinar para assimilar o nome.
― Nico! Que nome bonito. ― exclamou ela juntando as portas: ― Me chamo Piper, muito prazer.
Ele sorriu irônico: ― Gostaria de dizer o mesmo.
― Eu sei que está assustado, mas o que acha de me dar uma chance de explicar o que acontece aqui? ― sugeriu ela num sorriso estranho, mas que Nico ainda sim pode identificar.
Ele assentiu seguindo-a para a sacada. Sentiu o gelado do chão sob seus pés descalços. Abriu a sacada para ela passar sentindo a brisa da manhã gélida, mas ao mesmo tempo deliciosa. Debruçou-se na grade esperando por Piper começar a falar algo.
― A maldição que nos assola é de muitos anos. ― começou ela olhando para o céu parcialmente nublado: ― Sei que te assustamos, acredite todos sabem. ― Nico se encolheu no lugar: ― Mas entenda que não temos culpa do que somos.
― A questão é que somos todos vítimas de uma maldade sem tamanho, e por conta disso nosso Amo e nós fomos fadados a termos essa aparência fora do comum. ― acrescentou olhando-o: ― Dê uma chance para que ele se explique. Você é a primeira pessoa que aparece em anos, ele não está mais acostumado com pessoas.
― Eu preciso ir embora. ― ressaltou Nico baixo: ― Não ligo pro que aconteceu com vocês, sinceramente. ― admitiu desviando o olhar: ― Só preciso voltar.
Ela suspirou: ― Receio que seja impossível.
Nico mordeu o lábio se virando para ela. Piper já o encarava.
― Por que não?
― A maldição.
― Ok, isso eu entendi. ― comentou: ― Agora o que a maldição faz com que eu não possa sair?
Piper negou com a cabeça: ― Não é um direito meu contar sobre ela.
Nico resmungou irritado passando a mão pelos cabelos.
― Eu entendo tá! Droga vocês estão passando por um aperto aqui, mas eu tenho família lá fora na Vila aqui ao lado! ― esbravejou desesperado: ― Não posso ficar preso aqui!
― Se acalme!
― Não vou me acalmar! ― gritou ele furioso: ― Sabe quantas vezes eu ouvi para que me acalmasse de ontem pra hoje? Não quero me acalmar! Quero gritar, esbravejar, surtar! Porque tem coisas muito erradas acontecendo ao mesmo tempo e não consigo pensar qual delas é pior!
― Eu tenho uma família que precisa de mim para leva a mercadoria que tenho na carroça para Paris, um lunático perseguindo minha irmã a cada segundo do dia dele e para piorar o meu dia tenho também que aturar um guarda-roupa tentando me dizer para pensar logicamente. Um guarda-roupa! ― grunhiu resfolegando pelas palavras cuspidas com crueldade.
Voltou para dentro calçando suas botas:
― Quer que eu fale com o seu “amo”? Tudo bem eu falo. ― disse ele ficando de pé. Puxou seu sobretudo ainda úmido da noite anterior vestindo-o. Piper entrou novamente no quarto ainda calada: ― Mas onde que vai me ajudar?
― Vai ajudar a se acal― Ela parou reformulando: ― Para entender o que acontece e que você não é o único que surta quando as coisas dão errado. Acredite nisso.
Nico chacoalhou a cabeça saindo abruptamente do quarto acertando algo com a porta. Ouviu um “clank” e viu o Candelabro levantando-se do chão.
― Mais cuidado ao abrir as portas. ― pediu ele ainda com a voz calma e suave.
― Desculpe. ― pediu fechando a porta atrás de si, mas antes teve um vislumbre de Piper voltando para seu lugar ao lado da cama.
― Vamos, precisa tomar café. ― avisou ele caminhando até que rápido para um objeto. Nico o seguiu cautelosamente como se pudesse ser atacado a qualquer momento.
Prestou um pouco de atenção no castelo. Tudo escuro, as cortinas grossas bem fechadas impedindo a entrada de luz; um tapete que seguia por todos os corredores de cor azul; as estátuas de bestas monstruosas não eram nem um pouco convidativas. As colunas, por outro lado, eram maravilhosas e Nico se viu encantado pelas gravuras no entablamento delas, pareciam contar histórias de guerras; o capitel retorcido ascendendo à descendência grega na arquitetura.
Alguns vasos espalhados pelos corredores entre as colunas, mas sem flores; quadros empoeirados de tal forma que mal se via a pintura. Nico imaginou há quantos anos eles estavam à mercê daquela maldição. Voltou a olhar para frente descendo a grande escada principal.
Entraram na sala de jantar com um lugar arrumado para ele na cabeceira da mesa. Sentou-se vendo uma porção de sopa servida no prato fundo. Seu estômago resmungou ao ver o alimento e com um suspiro derrotado serviu-se dela.
Estava muito boa, por sinal.
Não se demorou muito ali, assim que terminou saiu em disparada para fora em direção a Phillip que estava desamarrado da carroça e dentro de um cercado com feno e água. As rédeas penduradas em um prego perto da carroça. Nico parou no meio do caminho curioso. Quem o teria desamarrado?
Encarou o arredor intrigado, mas continuou seu caminho até ele. Afagou sua cabeça encostando sua testa na de Phillip.
― Parece que estamos presos aqui amigão. ― comentou ele acariciando seu pescoço: ― Quanto tempo até eles darem por nossa falta?
Respirou fundo virando-se para o jardim. Deixou Phillip no estábulo e continuou caminho até o amontoado de árvores cobertas de neve. Elas criavam um caminho que muito o lembrava um labirinto. Sentia tanto frio ali que começara a bater o queixo descontroladamente.
Parou uns instantes observando a paisagem. Havia entrado no labirinto e rezava para não se perder ali dentro, mas o máximo que aconteceria seria morrer de hipotermia e na situação atual parecia uma opção plausível.
Mais para frente parecia acabar em uma área aberta, como o centro do labirinto em si. Assim que passou pela ultima arvore enroscou o pé em uma raiz elevada caindo desajeitado no chão. Conseguiu apoiar-se nos antebraços antes de colidir, mas não evitou de soltar um gemido de dor.
Olhou para trás amaldiçoando as raízes. Levantou-se com dificuldade vendo dali uma fonte congelada. Encarou ela melhor aproximando-se com curiosidade e dor nas pernas.
Estava inteiramente branca pela neve, mas uma parte descoberta o fez imaginar que essa fosse sua cor original. A água congelada em um formato convenientemente cômico, como se tivesse sido congelada instantaneamente fazendo o chafariz do topo congelar a água em queda.
Passou a mão pelo gelo intrigado. O toque lhe arrepiou inteiro, mas a sensação ainda assim foi boa. Contornou a fonte namorando-a até que acabou chutando alguma coisa perdendo parte do equilíbrio, mas conseguiu se manter.
Olhou para o chão vendo um livro fechado sobre a neve fofa. Intrigado abaixou-se para pegar. Não parecia estar lá a muito tempo, na verdade parecia recém tirado de uma prateleira.
Olhou em volta imaginando quem estava ali antes dele chegar.
― Olá? ― chamou olhando em volta. Puxou o sobretudo mais apertado pelo frio: ― Tem alguém ai? Esqueceu seu livro. ― Falou levantando o livro como que mostrando-o.
Ouviu barulho de folhas atrás de si. Um frio na barriga foi o que sentiu ao constatar que realmente tinha alguém ali, e esse alguém provavelmente não era uma flauta. Virou-se lentamente vendo a fera parada em frente a ele.
Estava com uma postura diferente do dia anterior, nada reclusa ou assustada. Parecia bem sério e talvez um tanto irritado. Nico não soube imaginar ou dizer o porquê disso. A fera se aproximou estendendo a mão.
O moreno encarou ela antes de se tocar que queria o livro. O depositou em sua mão enorme e voltou a abraçar o próprio corpo. Will segurou o livro para depois olhar Nico atentamente.
― Como passou a noite? ― perguntou curioso. Sentou-se na fonte sem se importar com a presença de Nico. O moreno deu de ombros.
― Turbulenta. ― respondeu evitando olhá-lo: ― Tive uma discussão com um guarda-roupa. Fora isso tudo tranquilo.
A fera arqueou a sobrancelha:
― Brigou com Piper? ― indagou com um tom cômico em sua voz. Ele encolheu-se.
― Talvez. ― murmurou evitando olhá-lo.
A fera soltou uma risada tímida como que zombasse do moreno. Nico o encarou por um tempo. Admitir que brigou com um guarda-roupa já era estranho, agora ter uma fera rindo de sua estupidez era um tanto irônico.
Trincou os dentes respirando profundamente:
― Bom, por que não me explica melhor o que acontece? ― pediu Nico cruzando os braços.
Will ficou tenso apertando os dedos contra a capa dura do livro ilustrado.
O Moreno esperou. Ao que tudo indicava ele tinha tempo de sobra pra esperar sua explicação para o motivo de não conseguir ir embora do Castelo. A fera apontou a cabeça para o lado fazendo menção para Nico sentar.
O rapaz suspirou sentando-se um pouco distante. Will depositou o livro no espaço entre eles e começou a falar, manso e o mais claro que pode:
― Este Castelo, como todos nós nele fomos amaldiçoados muitos anos atrás. Perdemos contato com o mundo exterior e com pessoas. ― disse sério encarando a parede de folhas à sua frente, totalmente coberta pela neve: ― todos já fomos humanos em algum momento, mas estamos fadados a esta forma, em parte por culpa da minha família.
― Não tem como desfazer a maldição? ― sugeriu Nico com pouca fé. A fera afirmou:
― Existe um jeito, mas quase impossível de acontecer. ― ressaltou ele.
― Quase. ― destacou Nico. Will o encarou curioso: ― Olha, não sei o que você fez pra ser amaldiçoado e sinceramente pelo rumo da conversa você não vai me dizer. ― disse o óbvio fazendo Will abaixar o olhar: ― Então vamos fazer assim... Me responde só essa pergunta: por que eu não posso sair?
Will ficou calado. Encarou o camponês que esperava pacientemente por sua resposta. Desolado soltou um suspiro pesado levantando-se da fonte.
― A maldição não permite que ninguém saia. Uma vez dentro não tem volta justamente para que a maldição se concretize totalmente. Precisa de alguém de fora para ela funcionar. ― respondeu ríspido. Nico ficou tenso abaixando o olhar decepcionado: ― Mas não é totalmente impossível sair.
― Não se contrarie. ― resmungou Nico.
― Não estou. ― admitiu: ― Uma vez dentro não há volta, uma vez transformado não tem solução, exceto se ela for quebrada. ― Disse: ― Existem etapas, digamos assim, para quebrar a maldição. A primeira delas abre os portões para quem entrou e não faz parte do feitiço. ― explicou a fera sucintamente.
― No caso eu. ― ressaltou Nico.
― Sim.
― Perfeito. Como quebramos isso? ― perguntou um pouco mais entusiasmado.
― Eu cuido disso, você é meu convidado. ― falou Will pegando o livro em mãos: ― Está frio. Melhor entrar.
Nico concordou levantando-se e o seguindo para dentro do Castelo.
― Então significa que vamos ter de nos aturar. ― comentou o Moreno.
― Não me acho tão desagradável. ― falou um pouco magoado. Nico riu:
― Não foi isso que quis dizer Totó. ― zombou Nico caminhando em direção à entrada. Abraçou o próprio corpo a medida que as tremedeiras começavam a piorar.
Ouviu um grunhido contrariado atrás de si:
― Não me chame de totó. ― repreendeu Will incomodado.
― Então o que você é? ― perguntou Nico batendo o queixo na sequência. Travou a mandíbula tentando disfarçar.
― William Solace. ― respondeu ele sério: ― É o bastante.
― Ou seja, nem você sabe. ― murmurou Nico dando de ombros. Will soltou um som incrédulo.
Ambos entraram novamente no Castelo gelado e silencioso. Respirou fundo abraçando-se ainda mais. Suas pernas começaram a doer, coisa que não estavam momentos antes.
Um arrepio passou por seu corpo o fazendo estacar no lugar. Will o encarou preocupado.
― O que houve?
― Aqui é frio demais, e acho que esse sobretudo ainda está molhado. ― admitiu batendo os dentes sentindo um frio repentino terrível.
Will pousou sua mão quente e peluda em sua testa. Nico quis tirá-lo de perto, mas não tinha forças para isso. Seu corpo doía demasiadamente. Provavelmente ficaria doente por causa da chuva e da neve e do castelo e tudo naquele lugar ser estupidamente gelado.
― Está frio. Vou pedir para encherem uma banheira com água quente pra você, e ver se Piper tem roupa masculina pra te emprestar. ― avisou ele conduzindo Nico de volta para seu quarto.
Quis protestar, afinal não estava muito a fim de um banho ou mesmo conversar com o guarda-roupa de novo, mas como não estava com muita energia para rebater se deixou ser guiado pela fera.
Um cansaço se apoderou de seu corpo o levando a crer que ficaria doente nos próximos dias. Depois de uma caminhada longa chegou a seu quarto sendo recebido por Piper que arrumava algumas peças de roupas para ele, mesmo antes de Will pensar em pedir.
― Fique aqui, vou pedir para prepararem o banho. ― avisou a fera saindo e fechando a porta. Nico ficou sozinho com Piper no quarto.
O móvel aproximou-se dele com ar preocupado, ainda que difícil de identificar fisicamente.
― O que houve Nico? ― perguntou ela: ― Esta tremendo todo. Caiu na fonte?
― Está congelada. ― rebateu ele sentando-se na cama abraçando-se ainda mais. Piper o encarou:
― Seu sobretudo está molhado. ― observou ela: ― Tire-o.
Sem contestar ele o fez jogando-o no chão do quarto. O mesmo caiu pesado no piso por ainda estar úmido. Nico torceu o lábio. Se estivesse em sua casa Hazel o repreenderia por ter usado algo molhado e ficado doente, mas ainda assim o mimaria como ela sempre fazia com ele.
Sorriu para isso fechando os olhos por poucos instantes. Quando os abriu novamente estava escorado no móvel que o impedia de cair no chão frio do quarto. Ficou ereto com dificuldades enquanto a mesma usava das portas para endireita-lo.
― Nico fala comigo ok? Não durma! ― pediu ela em tom desesperado: ― Vamos você está com inicio de Hipotermia, não pode fechar os olhos.
― Cansado. ― respondeu com dificuldades de manter as pálpebras abertas.
― Eu sei, mas conversa comigo só mais um pouco. ― falou ela: ― Me conta sobre a sua irmã. Que cor é a sua favorita, se gosta de dançar. Me conte sobre.
Nico respirou fundo apoiando-se em Piper.
―Azul. Ela adora azul. ― respondeu Nico em tom baixo e rouco: ― Ela gosta de dançar, mas não sabe mesmo eu ensinando. Ama ler, e mesmo que não seja bem vista eu e meu pai apoiamos seu gosto pela leitura. Gosta de passear na chuva, mas odeia quando eu faço isso porque fico doente muito fácil.
Sorriu na ultima parte para o quão verdadeiro ela era. Afinal estava doente, quase desmaiando com um guarda-roupa o aparando. Ficou calado depois disso, mas fez de tudo para se manter consciente.
Respirou fundo abraçando-se com mais força. Que situação patética. Ouviu passos pesados aproximando-se e uma conversa que ele realmente não prestou atenção. Quando deu por si já estava sendo guiado para uma banheira de água quente.
O choque térmico o acordou num sobressalto. Arfou pesado sentindo como se milhares de agulhas adentrassem sua pele nua doendo de uma forma irritante. Assim que mergulhou totalmente resolveu olhar o arredor se vendo sozinho com dois móveis próximos de si, um deles um cabideiro que segurava uma esponja de banho.
Olhou para frente, para a imagem no espelho ficando em choque. Seus lábios estavam roxos e rachados, sua pele transparecia as centenas de vazinhos em seu rosto alvo como um mapa hidrográfico bem detalhado. As sardas claras que até então passavam desapercebidas estavam ressaltadas e bem visíveis.
Respirou fundo recostando-se na beirada da banheira enquanto ambos móveis começavam a encher a banheira com sais de cheiros doces e gostosos. Nico fechou os olhos por alguns instantes, dormindo consequentemente.
✿❀✿
Acordou no outro dia debaixo de cobertas quentes em seu quarto. Sentia-se melhor que no dia anterior, mas seu corpo ainda pesado e cansado. Soltou uma lufada de ar deitando a cabeça no travesseiro fofo novamente.
Não percebeu quando dormira de novo, mas quando acordou e viu uma bandeja com uma sopa vermelha bem convidativa sorriu involuntariamente. Sentou-se na beirada da cama com os cobertores em volta de si e deliciou-se com a sopa de tomate.
Naquele dia Piper ficou quieta somente o observando atentamente, vez ou outra fazendo menção de ajuda-lo quando o mesmo pendia zonzo de um lado para o outro em direção ao banheiro.
Durante esse tempo pediu desculpas à Piper. O guarda-roupa soltou uma risada meiga aceitando as desculpas e começando uma conversa sobre a aldeia, a qual ela não ouvia sobre a muitos anos.
Isso deixou Nico deveras intrigado. Afinal pelo tom que eles usavam estavam presos naquela maldição por muito tempo, com certeza alguém saberia da existência desse castelo e do que acontecia com cada um deles.
Resolveu ficar quieto quanto a isso, lembrava-se bem da feição incomodada de Will ao falar sobre o assunto.
Nico ficou no quarto por dois dias inteiros antes de finalmente sentir-se melhor para sair da cama definitivamente. Esticou a coluna estalando-a levemente. Vestiu as roupas chiques e pretas ― depois de muita insistência sua contra as cores gritantes que Piper escolhera ― e desceu para uma refeição no salão.
A mesa estava posta com somente seu lugar ajeitado com talheres, copo, prato e várias comidas suculentas das quais Nico sequer chegara a conhecer antes. Sentou-se encarando as cadeiras vazia da imensa mesa de no mínimo trinta lugares.
― O Will não vem? ― perguntou curioso enquanto Kayla enchia uma xícara de Chá. O bule negou:
― Ele come no quarto. ― respondeu ela enquanto a pequena xicara subia habilmente para a mesa. Nico tomou dela resolvendo não perguntar nada.
Comeu em silêncio ouvindo as conversas animadas dos móveis e risadas exageradas vindas da cozinha. Tinha certeza de ter ouvido algo se quebrando lá dentro e um “O amo vai se irritar” em tom de alarde.
Nico franziu o cenho. Will não parecia ser do tipo assustador, na verdade ele não era nem um pouco. Talvez Nico fosse intimidador se comparado àquela bola de pelos ambulante.
Durante o resto do dia explorou o Castelo, sendo alertado sempre de não ir para a área Leste. Quando perguntou sobre isso recebeu simplesmente um “O quarto do Amo fica lá, e ele gosta de privacidade”.
Achou justo evitando assim aproximar-se do corredor largo e com vários quadros nas paredes. Tentou-se em avançar pelo menos para vê-los ― talvez ter um vislumbre do rosto humano de Will ―, mas se conteve.
O primeiro dia foi de exploração do Castelo. O Segundo o jardim ― desta vez com muita roupa e seco. O terceiro ficou no quarto jogando conversa fora com Piper. No quarto dia ficou entediado.
Depois de uma semana o tedio transformou-se em irritação.
Nico sentou-se à mesa para almoçar e como de costume Will não desceu para se juntar a ele. No começo relevou, afinal era novo no Castelo e não podia começar a fazer barraco à toa. O pior nem era isso e sim o fato de Will não dar as caras desde que ficou doente. Parecia até com medo de pegar uma doença.
Já estava ali há uma semana e não aguentava mais comer sozinho ― tirando, claro, os móveis ou utensílios que o acompanhavam diariamente. Não era acostumado com o silêncio comparando com sua casa barulhenta pelas risadas de Hazel.
Levantou-se abruptamente saindo a passos pesados da sala de jantar.
― Nico? Aonde vai? ― perguntou Kayla curiosa.
― Tirar o totó do quarto. ― bradou alto seguindo para as escadas. Ouviu o protesto dos objetos atrás de si, mas não deu ouvidos e agradeceu por ser humano e rápido.
Não demorou a chegar a frente ao quarto de Will. O corredor era diferente dos outros, mais detalhes nas paredes e os quadros que tanto o intrigavam. O triste é estarem gastos e o máximo que conseguiu ver foi uma pintura de três pessoas, uma delas sentadas em uma cadeira. Totalmente opaca e gasta pelo tempo.
Dos três quartos dispostos no corredor o quarto do fundo parecia ser o único no uso.
Aproximou-se dele batendo na porta duas vezes e esperando. Na sequência bateu mais cinco, depois dez, logo depois batia incessantemente na porta de madeira reforçada. Alguns segundos depois ela foi aberta com brusquidão e Will apareceu levemente irritado, mas um pouco curioso.
― O que faz aqui? Não pedi para que não viesse por esse lado? ― perguntou um pouco grosseiro, mas Nico resolveu relevar esse detalhe.
Puxou Will pelo braço o arrancando do quarto. Will ficou chocado pela força do menor. Nico fechou a porta e empurrou a fera corredor a fora.
― Vai descer comer comigo. Ta pensando o que? ― bradou o moreno irritado. Will bufou, mas nada disse.
Se deixou ser empurrado para o andar de baixo se sentando bruscamente na cadeira ao lado de Nico. O moreno sentou-se novamente enquanto os objetos riam timidamente da cara pasma de Will.
― Doeu descer pra comer comigo? ― zombou Nico rolando os olhos. Will deu de ombros.
― Só perdi o costume. ― admitiu torcendo o lábio: ― Não tinha motivos para descer. Não tem nenhum humano no Castelo.
― Agora você tem um prisioneiro humano, então trate de comer aqui de agora em diante. ― respondeu ele servindo-se da sopa já fria. Will ficou tenso juntamente dos objetos.
― Você não é meu prisioneiro. ― rebateu a fera convicta, o que de fato era verdade. Nico o encarou:
― Ambos somos prisioneiros, mas de formas diferentes. ― disse baixo: ― É como se fôssemos colegas de cela.
Will soltou uma risada incrédula. Balançou a cabeça e começou a se servir da sopa em seu prato.
― Então... ― comentou Nico mexendo na sopa sem vontade de toma-la: ― O que você faz aqui para se divertir?
Will encarou a mesa pensativo:
― Na maior parte do tempo eu fico em meu quarto. ― respondeu simplesmente: ― No começo eu me preocupava em procurar algo pra ocupar a mente, mas depois de tantos anos você simplesmente se acostuma.
― Acostuma com o que?
― Com a solidão. ― respondeu soltando uma risada fraca. O pequeno bule aproximou-se da fera com o olhar carinhoso.
Will retribuiu ele. Nico ficou intrigado, mas nada disse.
― Me sinto como um objeto, assim como eles. ― emendou voltando a fitar o camponês.
Nico estremeceu com o olhar pesado, mas o sustentou. Ele não tinha ideia de como era estar em sua pele. Na verdade ele se desesperaria se, de alguma forma, se encontrasse em uma situação parecida.
Pelo menos ele não estava totalmente sozinho, mas até que ponto sua mente aguentava realmente aquela solidão fria? Respirou fundo afastando o prato.
Talvez ele precisasse de ajuda?
― E se achássemos algo pra fazer? ― perguntou Nico sugestivo. Will arqueou a sobrancelha como que o desafiando.
― Como o que? ― indagou a fera incrédula.
― Me dá um minuto. ― respondeu colocando a mão em seu queixo pensador com intenção genuína.
Ouviu a fera rir, mas ela não quebrou sua linha de pensamento. Quando estava sozinho em sua casa a única coisa que o distraía eram livros. Com certeza era uma fuga, pelo menos um começo até ele achar algo de interessante para fazer que mexesse com mais do que somente o cérebro.
― Por acaso tem uma biblioteca?
✿❀✿
Depois do almoço Will o guiou por corredores frios e escurecidos pelas grossas cortinas nas janelas impedindo a luz. O cheiro de poeira estava bem forte o obrigando a tapar o rosto com a manga da blusa grossa.
A fera então abriu uma das portas com uma chave. Nico entrou atrás dela numa sala escura e tão empoeirada quando o próprio corredor. Franziu o nariz incomodado.
De súbito a luz se fez presente e Nico sentiu-se perder o ar em êxtase. Era simplesmente enorme! Tantos livros que se perdiam de vista daquele cômodo descomunal. Deu uma volta no lugar sem fala.
Soltou uma risada alegre virando-se pra Will com os olhos brilhando. A fera sorriu tímida de braços cruzados perto da cortina que abrira.
― E ainda me diz que fica no quarto trancado quando tem tudo isso? ― falou ele esticando os braços para cima: ― Esse paraíso?
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!Will meneou a cabeça:
― Nunca fui muito fã de leitura, para ser franco. ― admitiu. Andou até as outras janelas abrindo-as para deixar o cômodo ventilar: ― Mas vou dar uma chance pra sua ideia maluca. ― falou virando-se a Nico que ainda mantinha o rosto iluminado de felicidade.
― Vamos começar?
Nico então vasculhou a biblioteca começando com a parte térrea atrás de livros que pudessem ler de interessante naquela tarde fria. Do lado de fora nevava um pouco diminuindo a sensação térmica.
Pegou uns bons dez livros os depositando perto da lareira no canto direito da biblioteca. Lá tinha uma poltrona, um sofá e um tapete peludo. Nico bateu no estofado subindo uma quantidade considerável de poeira. Tossiu afastando a pequena névoa que se formou de seu rosto.
Saiu de perto e viu alguns objetos apossando-se do lugar. Aos poucos as coisas começaram a ser limpas. Tentou sair do caminho indo até a fera que pegava uns livros em mãos, um pouco mais concentrado do que antes.
Nico parou encarando-o por um momento. A primeira vista Will era uma fera inofensiva, e talvez até mesmo fofa? Mas ao decorrer dos dias ele pareceu ganhar mais segurança pra falar com ele. Talvez, só talvez, ele não quisesse o assustar no começo?
Porque, naquele exato momento, com o corpo totalmente ereto e o olhar sério parecia intimidador, assustador. Nico sentiu que seria devorado. Prendeu a respiração ao sentir um arrepio correr por seu corpo.
Soltou o ar afastando-se de Will e voltou a prestar atenção nos objetos sentindo a tremedeira em seu corpo recomeçar.
Por que isso logo agora?
Um tempo depois as coisas estavam limpas. A lareira havia sido acesa e assim Nico pegou um dos livros de seu monte, sentou-se no sofá e o abriu. Olhou para o lado e um pouco receoso e chamou Will para se sentar.
A fera o fez ao seu lado observando com curiosidade para a página aberta de seu livro. Nico evitou olhá-lo.
― Então, vamos ler esse? ― sugeriu ele: ― Se chama “O tesouro do castelo de Hohenstein”, conhece?
Will negou:
― Acho que nunca li. ― falou sincero. Nico então lhe entregou o livro.
― Eu já li, se quiser pode ler é um bom conto. ― Will não pegou o livro abaixando o olhar: ― O que foi?
― Seria patético se eu dissesse que não lembro como se lê? ― perguntou em voz baixa olhando-o nos olhos.
Nico, mais uma vez, estremeceu temendo dar uma resposta errada. Negou com a cabeça suspirando.
Não era hora de surtar!
― Então terei de ler pra você. ― concluiu ajeitando-se no sofá. Will ficou pasmo encarando o camponês de olhos arregalados: ― Anda, se acomoda. Vai ser divertido.
Sem retrucar ele o fez aproximando-se consideravelmente de Nico para que pudesse ver as páginas.
E então ele começou a leitura. De forma calma e continua vez ou outra fazendo comentários com Will que rolava os olhos na maior parte do tempo. Quando terminaram esse foram para outro e outro, e à medida que avançavam nas leituras Will se sentia mais acomodado com as letras no livro se propondo a ler.
Um pouco enferrujado, dando umas pequenas travadas, mas conseguia avançar bem e isso deixou Nico orgulhoso. Aos poucos foram se aproximando no sofá e Nico só foi se tocar desse fato quando estava recostado no braço peludo de Will olhando para as páginas do livro que o mesmo lia.
Arregalou os olhos afastando-se de súbito. Deu uma risada sem graça para a fera que parou a leitura para olhá-lo curioso.
― O-O que acha de pegarmos chá? ― propôs Nico passando a mão pelos cabelos envergonhado.
― Pode ser. ― aceitou Will fechando o livro brevemente: ― Austin? ― chamou ele vendo o candelabro aparecendo no cômodo: ― Pode pedir pra Kayla trazer chá pra nós?
― Como queira. ― respondeu o objeto desaparecendo na sequência. Will voltou a atenção pra Nico que encarava o local onde Austin saíra.
― Ainda não se acostumou? ― perguntou Will curioso. O moreno encolheu os ombros:
― Não muito. Para ser franco ainda é bem estranho. ― admitiu cruzando as pernas em cima do sofá: ― Vamos continuar?
Concordando brevemente Will voltou a ler e Nico tentou voltar a prestar atenção na leitura mantendo uma distância saudável entre eles. Um tempo depois Kayla apareceu com chá quente e agradável.
Nico segurou a xícara em mãos apreciando o calor emanando dela. Recostou-se no sofá olhando para Will de soslaio. O mesmo falava algo com Kayla enquanto tomava do chá. Sorriu minimamente voltando o olhar para frente, para a pequena lareira com o fogo ardendo.
Fechou os olhos se deixando levar pelos pensamentos. Imaginou como Hazel reagiria depois de um mês e Nico não voltasse para casa. Se ela soubesse que ele nunca mais voltaria será que conseguiria seguir em frente?
Temia um pouco pela irmã. Era forte, mas tinha se tornado dependente demais de Nico depois da morte de sua irmã e mãe. Seu pai nunca foi o mais presente então deixar uma menina de quinze anos por conta o preocupava.
Respirou fundo tomando abrindo os olhos e comando outro gole do chá. Olhou para Will se surpreendendo ao cruzar diretamente olhares com ele. Deu um sorriso tímido tomando outro gole.
Aquilo era um pouco constrangedor, mas Nico faria funcionar, nem que pra isso precisasse inventar coisas para os dois fazerem durante todo o tempo que ficaria ali.
Logo depois disso Nico arrastou Will para o jardim. Antes disso, claro, foi obrigado a colocar mais um cachecol e uma touca que Piper havia escolhido para ele. Estava parecendo uma daquelas crianças que a mãe enche de roupa para brincar na neve com medo de pegar gripe.
Bom, vendo por esse lado Nico era com certeza uma criança que pegaria uma gripe. Andou pelo jardim com Will atrás perguntando algumas coisas. Muitas das flores estavam congeladas, então as únicas que ele realmente conseguia identificar eram a rosa pelo seu formato único.
No centro do pequeno labirinto tinha um arco onde as rosas não pareciam tão mortas pelo frio. Esticou a mão pegando uma delas e observando. Era muito bela mesmo frágil e quebradiça.
Virou-se para Will que estava sentado na fonte encarando-o com curiosidade. Voltou-se para a fera sentando ao seu lado com a pequena rosa em mãos. Não disseram nada no começo, somente aproveitaram a companhia um do outro naquele dia frio.
― Quando nos falamos aqui você estava com um livro. ― lembrou Nico olhando-o de soslaio: ― Mas me disse na biblioteca que não lembrava direito como lia.
Will soltou uma risada: ― Eu conheço aquele livro de cor, só gosto de ter ele em mãos, mas nunca realmente abro e leio. É como se eu me sentisse confortável com ele em mãos.
― Valor simbólico? ― supôs Nico.
― Pode se dizer que sim.
Depois disso se mantiveram calados. Um silêncio nada desconfortável.
✿❀✿
― Ah qual é Will, é divertido! ― chamou Nico segurando Phillip pelas rédeas. Will ficou meio distante com os braços cruzados.
― Não! Você vai cair. ― bradou ele sério fazendo Nico revirar dramaticamente os olhos.
― Ora vamos já fiz muito disso antes. Não vou cair. ― falou apoiando o pé na pedaleira pegando impulso e subindo na sela. Segurando-se nas rédeas arrumou Phillip em direção aos arbustos baixos, mas bons o bastante para servirem de obstáculos: ― Além disso Phillip não se movimenta tem quase duas semanas. Ele precisa fazer o sangue correr.
― Isso não me deixa menos desconfortável. ― afirmou Will aproximando-se.
― Ah, o máximo que pode acontecer é eu quebrar algum osso. ― admitiu Nico sorrindo sapeca: ― Ou o pescoço.
E então avançou com Phillip ouvindo o resmungo indignado de Will ficando para trás. Acelerou com o cavalo pulando o primeiro obstáculo com maestria. Então virou para o segundo e terceiro, depois quarto sorrindo de orelha a orelha.
Quanto tempo não fazia isso? Sentir o vento contra o rosto e a adrenalina de cada salto? Phillip também parecia estar curtindo esticar as patas. Então veio o obstáculo maior. Viu de canto de olho Will tenso encarando-o por todo o percurso.
Os objetos estavam por perto fazendo algo que ele não identificou. Então virou-se pra frente se concentrando no salto. Então ouviu um barulho agudo que o fez gelar até a alma. Um tiro.
Como que por instinto puxou as rédeas de Phillip parando abruptamente, mas não a tempo de impedi-lo de pular. Quando voltaram para o chão Nico caiu diretamente na neve grunhindo pela dor. Respirou fundo levantando-se abruptamente olhando o arredor tenso.
Um tiro? Ali dentro? Ou será que era lá de fora? Não era época de caça. Se sentiu ficar ofegante. Sentiu uma mão em seu ombro e afastou-se com o choque vendo o rosto assustado de Will.
― Se machucou? ― perguntou preocupado. Nico negou ainda olhando o arredor.
― O que foi esse barulho? ― perguntou o moreno ainda sério e tenso.
― Fomos nós. ― avisou o relógio de mesa: ― Deixamos cair as coisas. Desculpe garoto, acabamos te assustando?
Respirou fundo colocando a mão no peito. Assustando? Sentiu como se tivesse por breves instantes voltado para a guerra em Paris. Engoliu em seco negando.
― Tudo bem. ― foi ver se Phillip não tinha se machucado. Passou a mão na testa tenso, mas depois voltou-se para Will que ainda se mantinha ali mais sério do que Nico gostaria: ― Não me venha com um “eu te avisei”. Sério, não preciso disso.
O lábio de Will repuxou brevemente contendo um sorriso: ― Quem disse que eu ia falar isso?
― Eu sei que ia. ― resmungou o camponês rolando os olhos. Puxou a rédea acariciando focinho do cavalo.
Will se aproximou dele pousando a mão em seu ombro delicadamente. Nico o ignorou um tempo, mas visto que não conseguiria fugir dele suspirou:
― Eu participei da guerra um tempo atrás. ― respondeu o camponês sem olhá-lo: ― As vezes eu lembro de algumas coisas. Aquilo pareceu com tiro, me pegou desprevenido.
― Guerra? ― perguntou Will tenso: ― Que guerra?
Nico o encarou em choque: ― A guerra contra a Inglaterra? ― ele tentou, mas Will somente franziu o cenho: ― Joana D’arc? ― a mesma expressão e Nico grunhiu: ― Esqueci que está preso aqui. A França está em guerra e tive de me alistar e marchar para Paris. Não foram os melhores dias da minha vida para ser franco.
― Sinto por isso. ― falou Will: ― Não estava sabendo de nada, é meio impossível pegar informação de fora.
― Imagino. ― falou Nico numa risada: ― Bom, segundo round?
― O que? De jeito nenhum! ― bradou Will nervosamente: ― Podia ter se machucado!
― Mas não machuquei. ― retrucou cruzando os braços.
― Isso não está aberto a discussão. ― falou Will em um tom de voz grave. Nico apertou os olhos.
― Pensei que não fosse seu prisioneiro. ― cuspiu sentindo-se ligeiramente traído.
― Não é, mas ainda sou príncipe daqui. ― rebateu cruzando os braços: ― Tente fazer algo menos mortal pelo menos!
― Tipo o que? Não sei se você notou, mas não temos muitas opções de diversão por aqui, eu to tentando pelo menos, mas até agora tudo que ouvi de você foram reclamações. ― bradou nervosamente andando de volta para o estábulo puxando Phillip.
― Eu estou reclamando, mas você é muito inconsequente. ― defendeu-se o seguindo.
― Ah sou? ― zombou prendendo Phillip e virando-se para ele: ― Olha, já deu dessa conversa. Vamos comer que a gente ganha mais, essa discussão não tem sentido e você sabe disso.
Will grunhiu recusando-se a dar o assunto como encerrado. Nico então avançou alguns passos ficando “cara a cara” ― ignorando a diferença monstruosa de altura ― com Will:
― Você sempre foi príncipe acostumado a ter tudo que quer, mas adivinhe só você não me controla William. ― trovejou o moreno afastando-se da fera.
O resto da tarde inteira passaram sem falar um com o outro. Will trancado em seu quarto e Nico na biblioteca devorando livro após livro.
A convivência deles não estava muito boa e Nico sabia muito bem disso. Preferia, é claro, poder simplesmente ir embora e deixar toda a situação cômica para trás, mas sabia que não tinha jeito. Estavam presos um ao outro.
Alguns dias depois Will pediu desculpas pela forma como agiu e depois disso voltaram a fazer as coisas juntos. Nico deixou de ser tão inconsequente como as propostas de contornar o castelo pelas paredes externas ou andar nas vigas da prisão a mais de quinze metros de altura. Assim sendo decidiram fazer coisas mais normais.
Um dos dias Nico sugeriu que tentassem cozinhar. Will torceu o nariz, pois com certeza nunca entrara na cozinha para nada a não ser pedir algo. Foi cômico e ao mesmo tempo bizarro o estado que a cozinha ficou, mas conseguiram fazer um bolo depois de muito esforço.
O tempo foi passando e quando Nico se deu conta já havia se passado um mês. Trinta dias que passaram voando em seu relógio biológico. Trinta dias que se divertiu como não fazia há muito tempo. Trinta dias com um amigo que se tornou tão próximo que nem pareciam que se conheciam há um mês.
Nico ainda estava preso.
Mas não se sentia mais um prisioneiro.
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