Broken Heart

2 Cacos de um Coração quebrado


Notas iniciais
Voltei como prometi gente! Sexta feira 13, estreia da quarta temporada de voltron, imagina o quão feliz eu num tô? CONSEGUEM IMAGINAR? AAAA Esse cap é mais curto que o primeiro, mas ele encerra a história ♥ Obrigada pelo feedback de vocês, amei ler cada comentário, me encorajaram bastante! Fico contente que tenham gostado do Will como fera, mesmo que a maioria imaginasse o Nico né? reihruehruehrue Tem tanto momento fofo nesse cap que eu quase morro de fofurice reuhreurheu acho que vao gostar também, mesmo com o final meio tenso. Não se preocupem que ela não é triste do jeito que vocês estão imaginando, oras não sou má assim *cofcofmentiracofcof* enfim, sem mais delongas! Boa leitura :3

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Capítulo 02 — Cacos de um coração quebrado

Will se sentia estranho. Já fazia um tempo desde a ultima vez que teve alguém em sua casa e não se sentia assim tão alegre há muito tempo. Era como se o castelo voltasse a ter vida depois de tantos anos de escuridão.

Era um sentimento bom poder estar com alguém, mas ainda assim era estranho porque não se lembrava de todo esse nervosismo quando ainda era humano.

Por que sentia-se tão nervoso com os toques de Nico?

― Will? ― chamou o rapaz cutucando-o no braço. Virou-se para o moreno que lhe mostrava algo no livro: ― Parece um pouco com sua história, mesmo eu sem saber qual ela é.

Pegando o livro Will percebeu a pequena semelhança: Príncipe amaldiçoado que se apaixona por uma garota, mas ela só descobre que ele é na verdade humano no final da história, depois de uma reviravolta trágica. Ele sorriu pra isso. Por mais que sua história fosse similar ele não via o final de seu livro.

Algumas histórias simplesmente nunca se encerram.

―Parecido, mas não é isso.

Nico riu pegando o livro de volta e folheando. O cabelo comprido preso em um rabo de cavalo e uma das mãos sobre os lábios rachados. Parecia alegre e intrigado. Quando trocaram olhares sentiu-se esquentar precisando desviar o olhar.

Agora entendia o que estava acontecendo, e pelos deuses como queria que fosse mentira.

✿❀✿

Depois de alguns dias Will sumiu novamente para dentro de seu quarto. Por um dia inteiro não saiu para nada, nem mesmo comer preocupando Nico um pouco. Chegou a perguntar a Kayla o que havia acontecido, mas ela disse que às vezes ele se afastava de todos. Era normal.

Nico torceu o lábio. Para ele não era tanto assim.

No dia seguinte resolveu ir atrás dele para pelo menos saber como estava. Bateu na porta algumas vezes não recebendo resposta alguma. Respirou fundo abrindo-a lentamente:

― Will? ― chamou Nico entrando em seu quarto. Abraçou o próprio corpo pelo frio que fazia ali dentro: ― Com pode ser tão gelado o tempo todo?

Olhou em volta em busca do ser peludo.

― Will? ― chamou uma segunda vez dando alguns passos para frente. Correu os olhos pelos lados parando em uma mesinha singela na sacada com um vidro protegendo algo.

Curioso, Nico seguiu até essa mesinha. Dali conseguia ver uma rosa dentro do vidro. Torceu o lábio em desagrado. Sempre rosas.

Ficou frente a frente com ela inclinando o rosto para ver melhor. Era uma rosa em pé com duas pétalas secas em sua base, indicando que começara a morrer. Infelizmente plantas assim não tinham muita vida útil, ainda mais no frio.

Deu a volta na mesa para pegar o espelho que ali continha, mas viu algo estranho na flor. Inclinou-se novamente vendo-a a alguns centímetros da mesinha. Arregalou os olhos chocado.

― Não está tocando a mesa? Como? ― bradou virando para o lado pegando um ângulo melhor da flor. Esticou a mão para tocar o vidro e tirar.

― Nico? O que faz aqui? ― perguntou ele ao longe se aproximando: ― O que fez com ela? ― perguntou assustado.

― Nada. ― admitiu afastando-se: ― Só estava olhando sua flor... Mágica?

Will aproximou-se do vidro tocando-o com cautela. Não encarou Nico.

― Vai embora. ― pediu: ― Falei para não vir aqui, certo?

O moreno ficou tenso com a grosseria, mas concordou.

― Foi mal, não quis chegar perto da sua flor. Estou indo. ― avisou voltando pelo caminho de onde veio.

Assim que saiu Will retirou o vidro de cima dela encarando a flor intacta e a segunda pétala ressequida caída na mesa. Apertou os olhos preocupado. Aquela era nova, não tinha visto ela minutos antes enquanto ainda estava no quarto.

Suspirou pesadamente passando a mão pelo pescoço. Encarou a porta mordendo o lábio arrependido. Tapou novamente a rosa e foi atrás de Nico.

Chegou até ele rapidamente.

― Nico. ― chamou fazendo o rapaz parar para olhá-lo: ― Desculpe, eu achei que tinha tocado nela, não quis ser rude.

Nico negou: ― Tudo bem, mas eu não toquei. Afinal por que ela flutua?

Will engoliu em seco desviando o olhar.

― Faz parte da maldição.

― Suponho que também não possa me contar. ― admitiu Nico. A fera negou: ― Bom, ela é importante?

― Se você tivesse tocado nela... Ficaríamos assim para sempre sem volta. ― respondeu tristonho. Nico arregalou os olhos horrorizado.

― E-Eu... Eu poderia ter tocado! Por que não me disse antes? ― repreendeu o rapaz incrédulo. Will ficou um tanto tenso.

― Não imaginei que fosse acreditar. ― admitiu: ― Além do que esse tipo de coisa instiga a curiosidade.

― Mas não a ponto de eu arriscar sua vida pra comprovar o que você disse. ― rebateu o moreno passando a mão pelos cabelos.

Voltou a andar com Will um pouco atrás. Abraçou-se com força ainda pelo frio excessivo daquele Castelo ridículo. Desceu as escadas com agilidade.

― Por que não fala com Piper para pegar mais roupas? ― sugeriu a fera ao seu lado. Nico o encarou dando de ombros:

― Não acho que vá funcionar. Normalmente o frio não passa totalmente só ameniza. Vou ficar em frente ao fogo um pouco, vai ajudar. ― explicou andando pelo corredor longo e parcialmente destruído.

Sempre que passava por esses lados pensava no tempo que esse Castelo deveria ter. As teias de aranha eram grossas e ocupavam quase todos os cantos do teto ou entre colunas. As rachaduras eram tão profundas que em um dos corredores havia uma fenda grande o bastante para que Nico pudesse passar e cortar caminho.

Estava tão agredido pelo tempo que a coragem de perguntar a Will quanto tempo estava amaldiçoado morria em sua garganta. Talvez por mais tempo que a sanidade aguentasse. Assim sendo evitava o assunto e começava outra coisa, sempre outra história.

― Então, por que sumiu por tanto tempo? ― perguntou Nico curioso. O príncipe abaixou o olhar.

― Só um contratempo. ― respondeu mordendo o lábio.

― Algo ruim? ― insistiu parando de andar. Will fez o mesmo encarando-o tristonho.

― Não realmente. ― admitiu: ― O problema é o que isso vai gerar lá na frente.

Nico arqueou a sobrancelha sem entender:

― Então é ruim. ― concluiu voltando a andar: ― Algo que eu possa fazer?

― Não. ― respondeu prontamente: ― Só... Só ser você mesmo que vai ficar tudo bem.

― Ceeeerto. ― disse entrando na biblioteca atrás da lareira: ― Tenta não sumir na próxima, fiquei preocupado.

Will sorriu meigamente sentando-se no sofá com Nico agachado em frente à lareira com as mãos esticadas.

― Desculpe por isso. ― pediu apoiando-se em seus joelhos: ― Mas me diga o que tem planejado pra hoje?

O sorriso no rosto de Nico deixou Will tenso. Parecia estar planejando algo não muito agradável.

― O que acha de uma guerrinha?

✿❀✿

Nico desviou da bola de neve bem a tempo. Talvez se tivesse sido atingido por aquilo teria tido sua cabeça arrancada sem piedade. Will gargalhou de onde estava jogando uma bola pra cima e para baixo de forma ameaçadora.

― Então, desiste? ― zombou tirando um olhar debochado de Nico.

― Nunca. ― dito isso pegou uma jogando nele com força, mas não o atingiu.

Will jogou outra, mas Nico pulou para o lado numa pequena cambalhota parando ajoelhado no chão da pequena ponte. O príncipe riu:

― Para de fazer encenação! ― bradou ele formando outra bola.

― Não é encenação. ― rebateu escondendo-se atrás da amurada: ― Pra ser franco ajuda a esquentar o corpo.

― Sei.

Nico juntou um punhado de neve fazendo a bolinha. Respirou fundo levantando-se para acertá-lo, mas quem tomou o tiro foi ele bem no ombro o jogão no chão com força. Resmungou de dor enquanto ouvia Will rindo do outro lado do rio.

Soltou uma lufada de ar e uma risada boba na sequência. Sentou-se com dificuldades.

― Soldado abatido. ― resmungou puxando-se para cima com a ajuda da amurada: ― Olha, a sua força é muito injusta.

― Você quem está dizendo. ― falou o príncipe dando de ombros aproximando-se da pequena ponte.

Nico se curvou para frente: ― Meu OMBRO diz que você é forte demais pra estar nesse jogo.

― Você quem sugeriu. ―relembrou ainda com um sorriso pintando o rosto. Nico arqueou a sobrancelha:

― Você é alguma espécie de sádico?

Will deu de ombros: ― Sou uma espécie de pessoa que ama vencer.

― Ok, escuta aqui. ― Nico avançou um pouco mais perdendo o equilíbrio na amurada.

Caiu para frente fechando os olhos a espera do impacto. Caiu no rio congelado, mas em cima de algo fofo e com cheiro de canela. Estranhou isso abrindo os olhos. Viu Will gemendo de dor massageando a cabeça.

― Porcaria de gelo. ― resmungou encarando os olhos de Nico na sequência. O moreno estremeceu com o olhar prendendo a respiração por breves instantes.

Os olhos azuis pareciam tão vivos, o azul do céu que ele tanto sentia falta, a cor que ele mais amava e ao mesmo tempo sentia saudades quando a via. Mordeu o lábio sem coragem de desviar o olhar.

Will respirou fundo sentando-se e ajudando Nico com o mesmo. O camponês sentou-se no gelo um pouco sem graça.

― Desculpe, não calculei bem.

Will negou: ― Tudo bem. ― respondeu com a voz baixa e rouca, um sussurro aos seus ouvidos. Nico o encarou:

― Se machucou?

― Não. Escorreguei quando te peguei, mas fora isso. ― ele se levantou oferecendo a mão para o rapaz que aceitou de bom grado: ― Vou pro meu quarto um tempo. Te vejo na janta.

Nico não pediu para ele ficar. Desta vez preferiu dar espaço a ele, pois seu coração ainda não havia parado de batucar seu peito.

O viu sumindo a distancia e o aperto em sua caixa torácica aumentando. Repuxou a camisa confuso, mas logo fez questão de apagar as ideias que lhe veio a mente. Não tinha nada a ver com o que ele estava pensando. De jeito nenhum.

✿❀✿

Will entrou em seu quarto recostando-se na porta recém-fechada. Resfolegou pesadamente fechando os olhos por breves instantes. Seu coração não parava de martelar e se fosse humano provavelmente estaria bem vermelho.

Respirou profundamente encarando suas mãos. Lembrou-se do calor do rapaz contra se corpo e dos olhos caramelos tão fascinantes. Will se encantou por eles na mesma hora e se não fosse pelo pequeno espasmo que sentiu em seu corpo ainda estariam naquela posição vergonhosa.

Escondeu o rosto nas mãos murmurando coisas desconexas. Afastou-se da porta andando vagarosamente até a rosa. No mesmo momento uma terceira pétala resolveu cair, pétala que indicava os sentimentos de Will.

Quanto mais fundo ele gostava de alguém mais pétalas cairiam. Sabia que estava gostando dele, de verdade, mas o medo da maldição começou a assombrá-lo novamente. Ele sempre quis que alguém aparecesse logo e quebrasse isso de alguma forma, mas o jeito como Nico o olhava fazia Will amolecer internamente.

Suspirou apoiando a cabeça nos braços sobre a beirada da mesa. Aquilo doía muito, seu peito parecia que iria explodir, mas não era um sentimento ruim. Era algo intenso, algo bom, algo caloroso.

Sorriu com isso. Poderia pensar nas consequências depois. Não teria mal algum em aproveitar aquele sentimento novo, teria?

Qual poderia ser o prior problema em ele se apaixonar por Nico?

✿❀✿

Nico jogou as pernas sobre o braço do sofá deitando-se folgadamente em todos os espaços dele obrigando Will e sentar-se no chão recostado no móvel. O moreno lia algum livro de terror que havia encontrado no segundo andar da biblioteca, já Will lia um romance clássico.

Vez ou outra o príncipe parava a leitura para fazer algum comentário com Nico tirando risadas ou piadas de mal gosto. Na terceira vez que vez isso não recebeu nenhuma resposta, só ouviu o barulho do livro caindo em seu colo e a respiração tranquila do camponês.

Will se virou para ele vendo o rosto sereno imerso em um sono tranquilo de final de tarde. Ele sorriu afagando seu rosto com seus dedos delicadamente. O rapaz se remexeu, mas não fez menção de acordar.

Abrindo um sorriso largo, Will debruçou-se ao lado de Nico fechando os olhos também e dormiu, se permitindo relaxar um pouco perto do rapaz.

(...)

Quando Nico acordou estava de lado deitando sobre o braço de Will que dormia tranquilamente com a cabeça no assento do sofá. Ficou tenso em um primeiro momento fazendo menção de se afastar, mas pensou melhor encarando o príncipe que dormia tranquilamente.

Sorriu para ele encarnado os chifres em sua cabeça. Um tanto curioso passou os dedos por eles sentindo a textura áspera lembrando vagamente de touros ou bodes. Sorriu com o pensamento imaginando a cara raivosa de Will ao saber que ele imaginava isso.

Resolveu voltar a dormir, não desperdiçaria a oportunidade.

✿❀✿

O tempo foi passando e Will e Nico se aproximaram cada vez mais. Will totalmente imerso naqueles sentimentos novos, mas Nico alheio ou pelo menos fingia estar. Diferente de Will ele ainda estava mais focado no mundo de fora, ainda tinha um pouco de noção do que poderia ou não fazer.

Já o príncipe aproveitava todos os momentos que tinham juntos. Durante as duas semanas seguintes outras quatro pétalas caíram deixando Will ligeiramente preocupado com a velocidade em que se aprofundava naquele sentimento novo. Ele gostava da sensação, mas a maldição começou a persegui-lo.

E quando ele começasse a amá-lo de verdade? Nico teria de traí-lo para poder quebrar a maldição? Will pensou nessa possibilidade e o simples ato doeu mais do que ele esperava. Decidiu, pela primeira vez em anos, que não queria a maldição se cumprindo.

Pela primeira vez ele queria que contos de fadas tivessem um final feliz.

✿❀✿

― Will, o que acha de fazermos alguma coisa diferente dessa vez? ― sugeriu Nico jogando mais um livro em seu pequeno monte.

O príncipe o encarou por cima do seu:

― Tipo?

Nico se jogou no sofá novamente pensando bem. Will rolou os olhos voltando a sua leitura. Não demorou muito para sentir ser puxado para cima e arrastado para fora da biblioteca.

― Onde está me levando?

― Você vai descobrir. ― disse piscando o olho sapeca. Will estremeceu com isso rindo.

― Por que será que não gostei do seu tom?

Se recusando a responder, Nico continuou o caminho pelo castelo abrindo porta por porta dele em busca de algo que não compartilhou com Will.

Passaram por vários corredores, e no que parecia ser a trigésima porta Will resmungou:

― AH, pelo amor de Deus me fala o que você quer! ― pediu entediado: ― Você não para de abrir portas sem motivo algum.

― Não reclama porque eu acabei de achar. ― disse entrando rapidamente na sala que Will reconheceu imediatamente.

A sala de musica. Ele era mais fã disso do que de livros, mas não era como se pudesse voltar a tocar instrumentos.

― O que quer tocar? ― perguntou Will olhando o arredor para vários dos instrumentos dispostos na sala com um pano branco os cobrindo da poeira.

― O que nós vamos tocar, mas no momento estou mais preocupado em saber o que tem vida e ou que não. ― resmungou cutucando um violoncelo. Will rolou os olhos:

― Tudo aqui não tem vida. São simples instrumentos.

― Não tem como eu saber.

― Estão cobertos por lençóis. ― rebateu Will.

― Podiam estar brincando de fantasmas. ― zombou Nico retirando os lençóis deles. Will se recusou a responder aquilo: ― Vamos fazer uma apresentação pro seu grupinho de amigos.

― O que?

Will franziu o cenho sem entender.

― O que você toca?

O príncipe olhou para a sala dando de ombros: ― Um pouco de tudo.

Nico bufou: ― Tá senhor perfeitinho, estou falando sério. Qual deles você realmente toca?

Pensando um pouco mais seriamente Will se lembrou de quando tocava piano para sua mãe. Ela adorava ouvi-lo tocar, mesmo quando ele errava várias notas. Sorriu para isso indo em direção ao piano.

Passou a mão por sua cauda nostálgico sentando-se no banco. Levantou a tampa dos teclados e dedilhou ouvindo o som agudo, mas ao mesmo tempo cheio de história para contar. Nico sentou-se do lado dele, mas de costas para o piano.

Will começou a tocar. Uma melodia de infância, uma música triste, mas que fez parte de sua vida. Sorriu com cada nota, e ainda mais a cada erro. Era realmente como voltar para quando tinha dez anos e sua mãe ainda estava viva.

Ouviu o som de outro instrumento o acompanhando. Parou de tocar vendo Nico com um Violoncelo em mãos. O moreno sorriu:

― Continue.

Will o fez e juntos tocaram aquela partitura.

E Will sentiu mais uma vez aquele calor irradiar por seu peito.

✿❀✿

Eles fizeram a apresentação, mas na condição de ter um baile depois dele. Nico não gostou da ideia, mas Will adorou então o rapaz foi na onda.

Dançaram um pouco com as músicas com Nico interpretando comicamente uma dama da alta sociedade com caras e bocas. Will gargalhava enquanto dançavam pelo salão.

A ultima musica, no entanto, Will o puxou pela mão colando seus corpos para uma dança lenta. Nico ficou tenso, mas entrou no passo e no ritmo da melodia. A mão firme de Will em sua lombar o fez estremecer e o medo de abrir a boca e sair algum som estranho o obrigou a parar com as piadinhas.

Will o encarou nos olhos convidando Nico a fazê-lo também. Ficaram desse jeito a dança inteira, em um clima somente entre eles, corações batendo como loucos e uma troca de olhares amorosa e cheia de significado.

O príncipe o puxou para mais perto, como se necessitando de mais contato fazendo Nico retirar sua mão de seu braço levando-a a seu ombro para manter o equilíbrio. O camponês arfou pesado sem cortar contato visual.

Antes que algo a mais acontecesse a musica parou obrigando os dois a se afastarem a contra gosto. Nico sorriu sem graça colocando uma mexa de cabelo para trás.

― Vou para o meu quarto descansar. ― respondeu: ― Vejo você amanhã?

Will concordou: ― Amanhã.

Sem dizer mais nada os dois se separaram, cara um para seu próprio quarto com seu pensamento e coração em ritmos similares. Will sorriu entrando no quarto seguido por seus amigos.

Cecil se aproximou preocupado:

― Meu amo você precisa evitar se apaixonar, senão o portão vai se abrir e ele vai embora. ― bradou Cecil exasperado: ― Porque assim você pode ter um amigo por alguns anos.

Will bufou:

― Não é como se eu pudesse controlar. ― Resmungou ele passando a mão pela cabeça descendo-a para o pescoço: ― Eu não controlo por quem eu me apaixono!

― Nós sabemos meu Amo, mas preciso que entenda que a partir do momento em que você se apaixonou ficou mais próximo do amor. Ele é só o passo seguinte. ― Disse Kayla preocupada: ― Eu entendo que você não controle, mas se apaixonar é se permitir cair na maldição.

Will mordendo o lábio:

― Eu já caí Kayla. ― Admitiu com um sorriso sôfrego sentindo um pequeno tremor sobre seus pés.

Olhou para fora vendo uma pequena corrente elétrica passar por cima do castelo caindo ruidosamente no portão que se escancarou. Aquilo era o golpe fatal. A verdade sendo revelada enfim.

Will havia caído na maldição. Só cabia a Nico cumpri-la.

✿❀✿

A indecisão de contar ou não ao moreno o perseguiu durante todo o trajeto até a Biblioteca no dia seguinte. Seu peito doía como nunca, mas estava disposto a arcar com aquilo. Nico tinha a chance, depois de dois meses, de ir embora finalmente. Ver sua família e viver uma viva ao ar livre, não poderia privá-lo daquilo.

Will foi até Nico que estava deitado na poltrona da biblioteca de frente para a lareira. Estava deitado transversalmente com as pernas penduradas no braço da poltrona. Mantinha o rosto sereno enquanto lia as páginas do livro que pegara horas antes.

A fera respirou fundo.

― Nico? ― chamou ele.

― Sim? ― respondeu o rapaz sem tirar os olhos do livro.

― Os portões se abriram.

Nico estacou no lugar levantando a cabeça lentamente como se assimilasse o que dissera. Seus olhos se arregalaram fechando o livro e levantando-se da poltrona.

― Eu posso sair? ― perguntou desconfiado. Will confirmou. Um sorriso aliviado brotou no rosto de Nico apertando o coração frágil de Will: ― Isso é bom. A sensação de viver preso é terrível. ― disse ele encarando a fera com curiosidade: ― Então você pode sair também?

Ele negou: ― Só você.

O sorriso de Nico murchou. Mordeu o lábio desviando o olhar na sequência. Ficaram em um silêncio constrangedor pelo que pareceram minutos.

― Bom, eu venho te visitar. Trago a Hazel na próxima. ― disse ele tentando colocar um sorriso no rosto.

Will queria dizer que adoraria que ele visitasse e que trouxesse a tão aclamada irmã. Contudo ele sabia que não tinha como. Estavam fadados a se separar e, se no processo Will pudesse continuar a ser uma fera, ele com certeza aceitaria isso de coração aberto.

― Não tem como você me visitar. ― respondeu ele negando. Nico ficou tenso: ― Uma vez fora você nunca mais poderá voltar. ― sua voz saiu fraca, mas alta o suficiente para o rapaz ouvir.

Nico arregalou os olhos em choque. Abriu a boca algumas vezes, mas dela nenhum som saiu. Seu coração se apertou de uma forma que Nico sentiu-se sufocar por aquelas palavras. Ele queria sair, era o que desejava desde que entrou no Castelo. Então quando foi que ele se encheu de dúvida?

Por que, repentinamente ele não tinha mais a certeza de querer ir embora?

― Eu... ― respirou fundo engolindo em seco: ― Preciso pensar sobre isso. ― disse por fim: ― Com licença.

Saiu às pressas da Biblioteca sentindo sua cabeça girando feito um cata-vento. Ele queria ir embora, mas a simples hipótese de nunca mais ver Will o fez parar de andar subitamente. Fechou os olhos respirando fundo.

― merda.

Correu para seu quarto encostando-se na porta e escorregando para o chão lentamente. Repuxou a camisa sentindo o palpitar pesado de seu coração. Ele poderia enfim sair e ver sua irmã tão amada novamente e seu pai. Puxou os joelhos abraçando-os com força.

Tinha que voltar, não tinha o que pensar a respeito. A única coisa que ele realmente queria era ter a opção de voltar visita-lo. Era só isso que ele pedia. Suspirando levantou-se dolorosamente pegando sua bolsa e pertences. Olhou para Piper que se mantinha calada todo o tempo.

Não teve coragem de falar com ela. Subitamente sentiu-se um traidor por ir embora e deixar eles naquele castelo gélido.

Contudo não tinham “e ses”.

Era uma escolha sem volta.

Tentou achar a fera para se despedir, mas enquanto passava pelos corredores sentiu como se os objetos e até mesmo o Will se escondessem dele. Evitar o doloroso adeus. Ele aceitou isso, ainda que doesse mais do que imaginou.

Aprontou Phillip e com um ultimo olhar para o Castelo avançou com o animal para fora dos portões de aço.

✿❀✿

Will viu Nico cavalgar para fora do castelo. No momento em que Phillip pisou do lado de fora um tipo de energia cobriu no castelo como um relâmpago passando rapidamente por suas cabeças.

Ele viu Nico parar abruptamente olhando para trás. Naquele momento Will gostaria de poder ver que tipo de feição ele estaria fazendo. Gostaria de poder ler sua mente naquele exato momento em que ele soube que nunca mais se encontrariam novamente.

Will mordeu o lábio quando Nico continuou a cavalgar para longe. Seus servos apareceram com olhares solidários.

― Não deveria ter deixado ele ir embora, meu amo! ― bradou Cecil: ― Deveria tê-lo deixado aqui, o senhor não estaria assim agora.

― Não poderia. ― respondeu Will baixo. Kayla foi até ele com o olhar sofrido pela fera.

― Por que não? ― insistiu Cecil, mesmo com os protestos de Austin.

Will repuxou sua camisa na altura de seu peito com força enquanto as lágrimas desciam com força por seu rosto. Aquela havia sido a primeira vez que chorava desde o dia que se transformou.

A primeira vez que sentia uma dor tão profunda em seu peito que não soube como descrever, somente sentiu a dor escorrendo por seus olhos.

― Porque eu amo ele. ― disse Will tapando o rosto com suas mãos tremendo desolado: ― Amo demais.

Ele o amava! Essa era a verdade nua e crua. Em tão pouco tempo Nico conseguiu roubar seu coração de forma discreta e tão natural que Will só percebeu já estar apaixonado quando as pétalas começaram a cair como cascata. Só então ele entendeu aquilo que ele sentia toda vez que via Nico rir daquela forma tão única e amorosa.

Foi só naquele momento que ele ligou as peças mais dolorosas que um dia pensou juntar: Amava Nico com todas as suas forças. E ainda assim aquela dor que ele sentia em seu peito por sua partida não foi o bastante. Ainda estava transformado em fera.

Pois Nico não o traiu, somente seguiu em frente. A maldição não foi quebrada, e Nico nunca mais poderia voltar.

A maldição de Will havia tomado proporções cruéis.

✿❀✿

Nico cavalgou por quase uma hora antes de chegar a sua casa. Viu a fumaça saindo da chaminé, os animais pastando dentro das cercas da pequena fazenda, as plantas em seu auge para colheita antes do outono começar a castigar a folhagem já se tornando amarelada.

Viu então Hazel sentada na cerca de madeira encarando o horizonte. O olhar perdido e com um chapéu em mãos, o mesmo que havia perdido no dia da tempestade. Engoliu em seco continuando com a carroça.

Hazel virou o rosto para o som roboticamente, mas assim que viu Nico levantou-se de sobressalto correndo até ele. Nico desceu da carroça a abraçando com toda a saudade e carinho que reuniu naquele momento.

Sua irmã chorou. Um choro sofrido e cheio de desespero, mas também repleto de felicidade. Ele não chorou, mas se sentiu imensamente feliz em ver a irmã novamente, ainda que no fundo algo faltasse para ele.

Hazel o puxou para dentro ajudando a colocar a carruagem no estabulo e soltando Phillip para pastar um pouco. Entraram na casa e sua irmã outra vez o abraçou com força.

― Onde você estava? Por que demorou tanto? ― perguntou desesperadamente: ― Eu achei que você... Vo-você...

Ele a puxou para o abraço enquanto as lágrimas ainda desciam teimosas. Beijou o topo de sua cabeça:

― A história é longa.

― Não ligo. ― resmungou limpando o rosto com as costas das mãos: ― Vou chamar o papai.

Ela se foi deixando Nico naquela cozinha tão nostalgia. Sorriu para isso mordendo o lábio na sequencia.

A primeira lágrima caiu, mas essa não era de saudades.

✿❀✿

Os três se juntaram para conversar. Nico contou tudo o que pode, mesmo que tivesse uma pequena chance de nenhum dos dois acreditar nele, mas por incrível que pareça eles acreditaram. Hazel sempre insistia em saber sobre a maldição dele, mas isso era algo que nem o garoto sabia.

Conversaram bastante e a pequena bronca que recebeu de seu pai por ter se atrasado mais do que devia foi bem recebida. Nico deu de ombros retirando da bolsa o que era pra ter o invento de seu pai, mas só achou um saco de dinheiro e uma carta.

“Gostei disso, se importa se eu ficar com ele? Ter uma lembrança sua me faria bem.

William Solace.”

Nico tapou a boca deixando as lagrimas de dor descerem por seu rosto. Finalmente, depois de horas lutando contra elas Nico soltou. As lágrimas de quem havia se tocado de algo tarde demais para voltar atrás.

Percebido que amava William Solace de verdade.

✿❀✿

Do lado de fora Octavian abriu um sorriso maldoso segurando sua arma em mãos:

― Então era lá que você se escondia, seu merda? ― alisou o cano dela com um olhar maléfico: ― Talvez eu devesse dar uma ajudinha ao meu futuro cunhado?

Sem dizer mais nada afastou-se da casa e saiu andando maquinando ideias em sua mente perversa.

✿❀✿

No dia seguinte tiveram um café da manhã entre Hazel e Nico. Seu pai havia saído para a feira atrás de grãos com o dinheiro que Will havia dado. Dinheiro esse que os sustentariam por pelo menos um ano direto de vida boa e farta.

― Como ficaram as coisas sem mim por aqui?

― Caóticas. ― respondeu: ― Octavian vinha todo dia encher o saco. Eu sempre dizia que você estava ocupado com um invento do meu pai e que se você o ouvisse o apunhalaria sem dó.

Nico riu: ― Essa é minha menina.

Ela sorriu tímida: ― E também eu conversei com o Frank.

― Frank? O cão medroso?

― O Capitão. ― corrigiu ela: ― E sim. Ele apareceu por aqui e conversamos bastante, com o papai acompanhando claro.

― Fico feliz por você Hazel. ― admitiu ele sorrindo alegremente: ― Acha que dá casamento?

― Ele está bem sério, então creio que sim. ― o sorriso dela se alargou: ― Ain, estou tão ansiosa e nervosa e desesperada.

Ele riu: ― Normal. Está apaixonada.

― E o que você sabe sobre paixão?

Nico desviou o olhar dolorosamente. Hazel tapou a boca: ― Desculpe, foi sem querer.

Ele negou: ― Tudo bem.

Batidas frenéticas na porta os distraíram. Levantou-se para atender dando de cara com Octavian e Frank. Nico fechou a cara.

― O que quer?

― Não vai convidar um amigo para entrar? ― zombou o loiro fazendo Nico franzir o cenho.

― Tem razão. Pode entrar Frank. ― falou o rapaz dando espaço para o Capitão que passou de bom grado. Octavian bufou, mas o seguiu para dentro.

― Bom ver você Senhor Di Angelo. ― disse ele educadamente.

― Nico. ― Nico respondeu cruzando os braços: ― Então, a que devo sua visita?

― Na verdade Octavian disse que tinha algo pra te dizer, mas decidi não deixar vocês dois sozinhos.

― Escolha sábia. ― rebateu Nico. Olhou para o outro soldado: ― Então?

― Como se passa pelos lobos pra chegar lá? ― perguntou o Soldado. Nico arqueou a sobrancelha:

― Lá aonde?

― No Castelo.

Nico arregalou os olhos descruzando os braços tenso.

― O que...?

― Eu ouvi a conversa. Nada justo esconder isso do seu futuro cunhado. ― falou ele com falso sentimento de dor: ― Mas claro que eu preciso manter a imagem de bom cunhado e genro certo?

― Do que está falando?

― Ora, meu amado e querido Cunhado foi atacado pela fera enquanto escapava por sua vida, certo? ― falou ele com voz baixa e ameaçadora.

Nico ficou em posição de luta igualmente Frank que levou a mão à arma.

― Não estou entendo e para ser franco nem quero. Saia daqui.

Octavian sorriu e antes que alguém fizesse algo puxou uma arma atirando em Nico na altura de seu abdômen. Ele arfou curvando-se pra frente. Hazel gritou desesperada enquanto Frank tentava desarmá-lo, mas Octavian apontou a arma para a cabeça de Nico que se encontrava de joelhos no chão.

― Mais um passo e eu estouro seus miolos. ― disse sério: ― Não me teste, amor.

Hazel torceu o nariz com lágrimas aos olhos ao ver o sangue escorrendo pela ferida do irmão mais velho.

― Vocês vão educadamente andando até o porão da casa onde vão esperar pacientemente o meu retorno. Entenderam? ― perguntou ele puxando Nico pelo braço.

O moreno o olhou com ira, mas não reagiu. Frank e Hazel foram à frente e entraram no pequeno porão com acesso pelo lado de fora. Assim que os dois entraram jogou Nico sem nenhum cuidado escada abaixo.

O rapaz caiu ao chão gemendo de dor com Hazel em cima dele.

― Maldito! ― bradou ela.

― Volto mais tarde meu amor, junto com a cabeça da fera. ― ele disse fechando a porta com Nico gritando por seu nome cheio de ira.

✿❀✿

Octavian chegou à cidade correndo desesperado. O centro estava lotado como sempre ficava àquela hora da manhã. Resfolegou gritando bem alto:

― Socorro! Preciso de ajuda! ― pediu ele correndo por entre a multidão. As pessoas pararam para olhá-lo: ― Nico e Hazel estão em perigo, por favor me ajudem.

― O que houve com os Di Angelo? ― perguntou um homem preocupado.

― Foram atacados. Estávamos em um caminho na floresta quando uma besta os arrastou para um castelo. Era enorme, uma espécie de demônio.

As pessoas soltaram sons exasperados enquanto trocavam olhares.

― Ele parecia sedento de sangue. Nem sei se eles ainda estão vivos. ― falou com pesar na voz: ― Mas ele pode voltar. Pode caçar todos nós! Preciso de homens para vir comigo! Precisamos deter aquela fera!

― Mas não somos soldados! ― bradou outro homem seguido de mais alguns.

― Somos maioria. Vamos vencer. Não tenham medo, meu Capitão está lá nos esperando nas portas do Castelo. ― esbravejou alto: ― Quem vem comigo expulsar esse demônio de nossas terras?

Vários homens gritaram e começaram a se armar.

Octavian sorriu de suas mentes pequenas.

Nico provaria de seu próprio remédio.

✿❀✿

Nico tentou mais uma vez abrir a porta de saída com Frank, mas foi inútil. Estava trancada por fora e era mais grossa do que ele lembrava. Passou a mão pelos cabelos cambaleando para longe das escadas.

Hazel o segurou pelo ombro: ― Se sente, está sangrando muito.

― Não posso. O Will está em perigo. ― falou ele tomando fôlego para tentar de novo.

Frank entrou na sua frente:

― Nico não tem como. Não por aqui. ― disse apoiando a mão em seu ombro: ― Não conhece nenhum outro jeito de sair? Uma pedra solta? Assoalho?

Nico arregalou os olhos:

― Tem um alçapão que dá direto em um quarto perto da cozinha. É de mantimentos, mas acho que dá para passar por ele. ― relembrou olhando o teto.

― Sabe como ele é por baixo? ― perguntou Frank. Nico negou:

― Não me lembro, mas podemos tentar.

Hazel também ajudou. Olhou para todos os lados no teto do porão atrás de alguma abertura, escada embutida, alça, algo que desse pra puxar.

Subiu em um pequeno palanque olhando mais atentamente para as ripas de madeira quando achou a pequena alça.

― Nico, Frank! Aqui! ― gritou ela.

Os dois se aproximaram e Frank tentou abrir. Nico respirou fundo desesperado. O tempo estava passando e ele não tinha ideia do que Octavian estava tramando.

✿❀✿

A marcha de Octavian seguiu a trilha até a bifurcação onde seguiram pela passagem de neve. Diferente de Nico desta vez não havia nenhum lobo para ataca-los, nem mesmo um pequeno uivo.

Octavian sorria diabolicamente enquanto liderava o grupo caminho adentro. Não demorou pra achar o castelo e os portões negros de ferro retorcido. Lambeu os lábios em ansiedade.

― Vamos!

Num grito de guerra invadiram os jardins do Castelo chamando a atenção de Will que estava em seu quarto junto de seus objetos. O grupo irrompeu em gritos de morte e perseguição à fera.

Cecil se desesperou:

― Quem são eles? Como chegaram aqui? ― perguntou Cecil ao lado de Will.

― Não sei, mas estão com tochas. ― complementou Austin preocupado. Olhou Will temeroso: ― Será que Nico――

― Ele nunca faria isso! ― negou Will desacreditando: ― Ele não faria.

― Meu amo! Ninguém mais saberia chegar aqui. ― complementou Kayla decepcionada. Will negou avidamente.

― Ele não fez isso. Não pode ter feito isso. ― repetiu ele para si mesmo como um mantra.

Nico não o traiu. Não, não, não e não.

― Onde está a fera? ― gritou Octavian do jardim: ― Estamos atrás de William Solace.

Não!

― Apareça fera! Vim aqui por causa de meu cunhado. ― bradou alto seguido pelo resto dos homens que gritavam coisas sem sentido para Will.

Por favor, Não!

― Estou aqui para mata-lo em nome de Nico di Angelo, Fera! ― O homem exasperou: ― Ataquem o Castelo.

NÃO!

Will não soube quando as lágrimas desceram por seu rosto, e nem quando uma adaga perfurou seu coração com tanta força rasgando-o em dois pelo impacto. Soltou um grito abafado pela dor que sentiu em seu peito.

Ajoelhou-se no chão segurando seu peito com as mãos. As lágrimas não cessavam de forma alguma.

Não, não, não, não!

A dor era sufocante e não dava sinal de melhorar. A adaga afundava mais e mais em seu peito sem dó ou piedade. O som da porta sendo forçada não o fez se mexer, nem seus servos o chamando desesperadamente. O que o fez levantar o rosto foi o céu brilhar em dourado e verde.

No céu a feiticeira se fez presente com um sorriso vitorioso no rosto. Com um movimento de mãos o Castelo foi envolto em cores, como várias estrelas voando ao redor da grande edificação.

Will sentiu-se mudar, e quando uma das estrelas o atingiu em cheio pode, pela primeira vez em anos, ver seus cabelos loiros caindo sobre seus olhos; seus braços sem pelos e o mais importante pode finalmente entender o que se passava ali.

Nico o havia traído.

Levantou-se cambaleante ainda sentindo a dor. Olhou para baixo vendo os homens confusos com os brilhos. Ao longe Will viu seus soldados avançando contra eles em posição de combate. Will não os impediu.

✿❀✿

Assim que Frank conseguiu abrir o alçapão subiram aceleradamente. Nico não esperou nenhum minuto antes de correr para fora.

― Nico! Espera! ― pediu Hazel: ― Não pode ir lá! Não com esse ferimento.

― Eu preciso Haz. ― falou ele entrecortado: ― Preciso saber se ele está bem.

― Nós vamos também. ― rebateu Frank. Nico apertou os olhos indo até o Capitão. Puxou sua arma de seu cinto com força quase desequilibrando o rapaz. Frank o encarou desconfiado:

― O que você?

Nico colocou a arma em seu cinto antes de olhá-lo seriamente:

― Eu vou sozinho.

Disse somente isso antes de subir em Phillip e sair em disparada para o Castelo. Correu por um longo caminho antes de ouvir o trotar de outro cavalo atrás de si. Revirou os olhos sabendo exatamente quem era:

― Eu mandei vocês ficarem lá! ― Bradou Nico do cavalo.

Frank aproximou-se dele com Hazel o segurando na cintura. A menina mostrou um sorriso como se pedisse desculpas.

―Desculpe, mas não podia te deixar sozinho. ― rebateu o asiático: ―Além disso deixar Hazel sem ninguém na casa seria irresponsável. ― respondeu seriamente.

Nico o encarou por um tempo antes de soltar uma risada irônica e voltar o olhar para a trilha de folhas.

― Eu gosto cada vez mais de você. ― admitiu Nico entrando no caminho de neve para o Castelo.

O rastro de destruição dos aldeões o fez se desesperar momentaneamente. Há quanto tempo eles haviam passado por ali? Contudo a neve de antes não estava mais no caminho. Nico estranhou esse detalhe.

― Mas você deveria parar e me deixar resolver as coisas com Octavian. A ferida esta aberta. ― pediu Frank solidário. O ferimento de Nico era sério, mas nem ele ou Hazel conseguiram o impedir de subir no cavalo e sair em disparada para o Castelo.

Nico ficou tenso:

― Estou gostando menos. ― rebateu ligeiramente irritado. Já haviam tido essa conversa momentos antes, e não tinha dado em nada. Pra que insistir?

― Nico, por favor! Essa ferida pode ser mortal. ― implorou Hazel desesperada. De onde ela estava dava para ver nitidamente o sangue aumentando de tamanho na roupa branca.

O rapaz negou:

― Octavian também é! ― disse ele apertando as correias nas mãos com força. Só de imaginar aquele homem tocando em Will seu sangue ferveu.

― Mas ele com certeza sabe se defender! ― comentou Frank: ― Afinal ele――

― Ele pode ser uma fera, mas não é perigoso! ― Gritou Nico irritado cortando Frank. O Capitão ficou tenso com o tom de voz, mas não perdeu a compostura.

Nico era amedrontador, mas Frank também era.

― Ele tem a aparência de uma Fera, mas... ― Nico engoliu em seco sentindo seu peito se apertar ―, mas ele nunca machucaria ninguém.

Os dois se calaram e Nico agradeceu por isso. O fundo de sua garganta começou a arder prevendo lágrimas irritantes, as quais não soube dizer se eram da dor do machucado ou do medo.

E Se Octavian fez algo pra ele? E se ele o machucou? Trincou a mandíbula nervoso. Sentia em sua cintura a arma de pólvora que conseguiu de Frank. Ele o mataria, sem sombra de dúvida.

Chegaram à frente dos portões arrombados, mas antes de passarem Nico parou Phillip bruscamente.

Aquele... Era o Castelo?

― Nico? O que houve? ― Perguntou Hazel com Frank parado alguns metros a frente de Nico dentro dos limites do Castelo.

Phillip estava parado antes da entrada. Nico respirou fundo encarando a construção. Todo o ar sombrio que antes ele carregava, a neve, as estatuas assombrosas enfeitando o jardim, tudo havia mudado.

Era como se estivesse de frente para outro Castelo. O jardim estava bem cuidado, com os arbustos do mais verde que ele já viu; as estatuas representando anjos, soldados e imagens que em nada lembravam os seres demoníacos de antes.

A neve desapareceu das construções e o calor do verão estava finalmente penetrando o Castelo. Nico soltou o ar impressionado com o lugar.

― Nico?

Chacoalhou a cabeça em choque encarando os outros dois que o olhavam preocupados. Engoliu em seco avançando um passo com Phillip.

“Uma vez fora você nunca mais poderá voltar.”

Assim que entrou no Castelo avançou com rapidez ignorando as perguntas incessantes de Hazel. Como ele passou? Quando foi embora viu claramente os portões se fecharem e o Castelo desaparecer por detrás deles, impossível de retornar.

Algo estava errado.

Correu com Phillip entre a multidão enfurecida e soldados do castelo armados até o pescoço. Nico franziu o cenho, nunca os tinha visto antes.

Desceu do cavalo e correu até onde Octavian estava.

― Octavian! ― bradou ele resfolegando cansado. Vários aldeões uivaram de alegria perguntando se ele estava machucado. Nico não respondeu a nenhum deles: ― O que diabos está fazendo?

― O que precisava ser feito por você, meu cunhado. ― disse ele de braços abertos. ― Viemos caçar a maldita fera.

Nico trincou os dentes: ― Toque nele e eu mesmo vou te matar.

Octavian sustentou o olhar de ódio.

― Nico?

O rapaz retesou-se olhando para cima da escadaria. A porta havia se aberto e de lá um rapaz em roupas gastas e largas, cabelos longos e loiros e olhos azuis o encarava. O rosto manchado de lágrimas.

O camponês prendeu o ar:

― Will?

― Essa é a fera? ― falou Octavian rindo alto: ― Quem diria. Um homem que você chama de fera? Ele é o que, estupidamente arrogante igual você?

Nico o ignorou:

― Como? O que?

Will sustentou o olhar, ressentimento encobrindo todo seu rosto.

― Por que mandou eles atrás de mim Nico?

― O que? ― respondeu ele horrorizado: ― Eu nunca faria isso. Foi esse idiota quem começou toda a confusão. ― apontou Nico para Octavian que sorriu ardilosamente.

― Eu vim salvá-lo dessa besta. ― bradou ele dando de ombros. Nico viu Will estremecendo e olhando para o outro lado evitando contato. O rapaz mordeu o lábio:

― Will...

― Ele atirou no Nico! ― gritou Hazel desesperada abrindo caminho entre os camponeses com Frank logo atrás.

Os aldeões olharam para ela confusos:

― Ele enganou todos vocês! Ele atirou em Nico e nos prendeu no porão! Só pra vocês matarem esse homem por ele. ― bradou ela raivosa.

Os homens da vila começaram a resmungar entre si trocando olhares nervosos com o loiro. Ninguém na vila gostava muito de Octavian, mas tinham ido até lá por causa dos Di Angelo, e Octavian também sabia disso.

Will arregalou os olhos para a ferida em Nico que manchava sua roupa em uma quantidade preocupante.

― O que está acontecendo aqui? ― murmurou Will.

Octavian deu alguns passos em direção à Nico:

― Está pagando com a própria moeda, Nicolà. ― respondeu ele nervoso: ― Maldito assassino.

O rapaz ficou tenso olhando-o:

― Assassino? Essa é nova.

― No campo de batalha, você matou um amigo muito importante para mim. O matou a sangue frio, ele sequer estava armado. ― disse Octavian com raiva na voz: ― Maldito francês.

Nico arregalou os olhos antes de rosnar nervoso instintivamente levando a mão à arma e ficando entre Octavian e William:

― Britânico.

Octavian sorriu:

― No começo eu pensei em usar sua irmã contra você. Matar ela no dia do nosso casamento pra você ver de primeira mão e sentir a dor! A invalidez de não conseguir salvar alguém que você considera demais bem diante de seus olhos! ― ele cuspiu, gritando alto o bastante para todos ouvirem: ― Sabe o pior? Você o matou, mas deixou gente viva enquanto voltava pra trincheira. Por que ele?

Nico franziu o cenho tentando resgatar a memória em sua mente, mas foram tantas batalhas, não tinha como ele se lembrar disso. Ele negou com a cabeça:

― Se o matei era porque era um soldado, e provavelmente era perigoso. Se poupei alguém foram merecidos. ― Nico disse sério.

Octavian avançou alguns passos. Nico recuou alguns.

― Quando você não me deixou chegar perto de sua irmã e descobri sobre essa fera. ― ele falou olhando Will momentaneamente antes de voltar para Nico: ― Soube exatamente como te atingir de verdade, afinal você tecnicamente não poderia mais voltar aqui. Pelo visto algo deu um pouco errado.

― Cai fora daqui. ― rosnou Nico olhando para Frank que num aceno começou a mandar as pessoas embora.

― Acha que vai ser simples assim? Vai conseguir se livrar de mim e nunca mais vai me ver? Sonhe, francês. ― Octavian tirou a arma do cinto no mesmo tempo que Nico.

Hazel gritou pelo irmão e os soldados de Will avançaram:

Então o que acha de um duelo? ― propôs Octavian: ― Contagem de zero à dez. O primeiro a atirar e matar vence.

Nico sabia que tinha alguma armação, mas era o único jeito no momento de acabar com aquilo. Viu de soslaio as pessoas indo embora apressadas e Frank retirando sua própria arma servindo de escudo para Hazel.

Do outro lado viu os soldados de Will com espadas prontos para atacar. Ele poderia negar. Poderia deixar aquilo para soldados de verdade, mas Octavian poderia mudar de alvo: Will, Hazel, Frank. Qualquer um deles poderia receber um tiro que era pra ele.

A bagunça que ele tinha de arrumar.

Respirou fundo: ― Aceito o duelo.

― NÃO! ― gritou Hazel sendo segurada por Frank: ― Não aceite!

― Não tem perdão dessa vez Nicolà. Morte é a única escolha. ―ele disse abaixando a arma e se virando de costas.

Nico o fez também correndo seu olhar até Will que o encarava horrorizado. Havia descido alguns degraus com um soldado de cada lado. Ele negou com a cabeça, como um pedido silencioso para que ele parasse com aquilo, mas Nico somente sorriu da forma mais meiga que pode e aprontou a arma.

― Comecemos. ― Octavian disse e começaram a contar e andar.

Nico apertou os olhos no três girando o corpo e apontando sua arma para Octavian que também o fez. Nico puxou o gatilho antes o atingindo em cheio na cabeça. Octavian soltou um arfar antes de cair de joelhos no chão e na sequência despencar, olhos abertos em uma máscara congelada de horror.

Nico respirou fundo soltando a arma de suas mãos trêmulas. Encarou Octavian por longos segundos antes de suas pernas começarem a fraquejar. A adrenalina finalmente deixando seu corpo e toda a dor e cansaço da perda de sangue vindo a tona. Sentiu sua vista embaçar consideravelmente. Cambaleou para trás despencando ruidosamente no chão.

― NICO! ― Hazel correu desesperada até ele acariciando seu rosto enquanto examinada o ferimento: ― Frank, por favor!

Will correu até eles agachando-se ao lado do rapaz inconsciente.

― Austin chame nosso médico. Precisamos cuidar do ferimento dele o mais rápido possível. ― pediu ele enquanto via a cor deixando o rosto de Nico. Mordeu o lábio nervoso.

Todo o rancor de mais cedo se foi transformando-se em puro desespero. Ele não poderia morrer. Por favor, não!

Frank o pegou no colo levando-o para o interior do castelo por orientação de Austin. Will os seguiu, mas parou para olhar Hazel que encarava Octavian com puro ódio. Ela apertou os punhos limpando as lágrimas antes de ir até onde o príncipe estava segurando seu braço.

― Obrigada por cuidar do meu irmão, Will. ― falou ela com o rosto ainda molhado pelas lágrimas. Ele sorriu:

― Sempre.

✿❀✿

Eles cuidaram do ferimento de Nico o mais rápido que puderam. Felizmente o ferimento não tinha atingido nenhum órgão vital, sendo assim a perda de sangue o mais preocupante. Depois de limpar o ferimento era esperar por ele acordar.

Quando se passaram três dias sem ele dar sinal de acordar Will começou a se desesperar. Não saia do quarto pra nada, nem ele ou Hazel. De vez em quando o Pai deles aparecia para tirar a moça para comer algo, mas nem pra isso o príncipe saia.

Debruçou-se na cama ao lado dele e esperou.

No quarto dia Nico acorda. Cansado, mas feliz em ver o rosto alegre de Will, mesmo que cheio de lágrimas desesperadas.

Ele tentou se levantar, mas Will o impede:

― Ainda está machucado. Descanse.

Nico sorriu concordando. Ficaram em silêncio no quarto somente eles dois. Nico não deixou Will sair de perto dele pra chamar Hazel ou seu pai.

― Você nunca me contou sobre a sua maldição. ― disse ele num fiapo de voz. Will sorriu fraco.

― Vamos deixar pra outra hora, ainda está debilitado. ― pediu Will segurando a mão de Nico com firmeza. O moreno respirou fundo.

― Poderia me contar agora? Não sei se vou conseguir passar dessa. ― comentou baixo. Will estremeceu arregalando os olhos assustado.

― N-não fale bobagem. ― pediu ele gaguejando: ― Você vai ficar bem.

Nico negou: ― Melhor prevenir do que remediar. ― ressaltou: ― Por favor.

Assim Will lhe conta toda a história.

― Meu pai, quando era mais novo se apaixonou por uma feiticeira, Circe era seu nome. ― Ele começou sentando-se na beirada da cama brincando com os dedos de Nico: ― Ele fez uma promessa a ela de que casariam e ele faria dela sua rainha.

― Um dia eles pararam de se falar e meu pai se casou com a minha mãe ao invés de com Circe. ― ele torceu o lábio: ― Ela não aceitou muito bem a traição dele.

Nico riu:

― Eu também não teria aceitado.

Will rolou os olhos: ― De toda forma ela jurou vingança, matando meus pais quando eu tinha dez anos deixando o castelo sobre meu comando. ― respirou fundo antes de continuar: ― Quando fiz dezenove ela apareceu para mim como uma mendiga, me oferecendo uma linda rosa em troca do meu amor. Eu recusei, disse que o amor não funcionava daquele jeito. Ela concordou comigo.

― Disse que se meu pai tivesse pensado mais em amor e menos em dinheiro e posses ela não teria que me amaldiçoar. ― Will mordeu o lábio nervoso. Sentiu sua mão ser apertada pela de Nico o encorajando: ― Ela me amaldiçoou a ser uma fera por toda a eternidade, imortal, a menos que encontrasse alguém que eu amasse e essa pessoa me traísse da mesma forma que ela foi traída. Assim a maldição se quebra.

Nico arregalou os olhos:

― Mas... A maldição se quebrou...

Will sorriu para ele beijando sua mão: ― Eu amei e fui traído, mesmo a traição tendo sido falsa.

Nico aquiesceu absorvendo as informações.

― Ela fez tudo isso por vingança? ― exasperou Nico em choque. Will aquiesceu: ― Que estupida.

Will o repreendeu: ― Nico, não!

― O que? Ela está ouvindo? ― perguntou curioso olhando os arredores com cautela.

― Talvez, não tenho certeza. ― admitiu o príncipe dando de ombros, mas apertando as mãos de Nico com firmeza a qual ele não conseguia retribuir ainda.

Nico sorriu sussurrando um “estupida” para o vazio da sala fazendo caras e bocas como se Circe pudesse vê-lo. Voltou o olhar para Will que o encarava com a sobrancelha arqueada.

― O que?

― Você é impossível. ― disse balançando a cabeça descrente.

― E você me ama por isso. ― zombou o moreno sentindo o gosto amargo da palavra na boca deixando de ser uma brincadeira no momento que ela saiu. Will parou sem falar nada deixando Nico tenso.

Um sorriso brilhante brotou no rosto do príncipe contagiando o moreno de forma anormal.

― Amo mesmo. ― admitiu.

Nico ficou em choque. Com certeza não esperava por aquilo. Sua feição ficou inexpressiva e aos poucos o sorriso de Will morreu dando espaço a algo que Nico não identificou, mas que lhe doeu da mesma forma.

― Desculpe, foi... Meio repentino né? ― desviou o olhar suspirando.

Soltou sua mão e se levantou da cadeira.

― Vou chamar a Hazel. Ela queria saber quando você acordaria. ― avisou saindo do quarto.

Nico permaneceu ali em choque. Aos poucos um sorriso bobo surgiu em seus lábios tapando-os com as mãos para evitar que escutassem sua risada. Por Deus ele o amava também. Ele realmente o amava? Não era uma brincadeira?

Se sentia como uma criança novamente. Deitou-se melhor tapando o rosto com a palma das mãos soltando grunhidos desconexos. Estava feliz demais, oh! Como estava.

[...]

Will havia se deitado cedo naquela noite. Despediu-se de seus hóspedes e se recolheu com Austin e alguns empregados aprontando a cama para que dormisse. Trocou de roupa, ajeitou-se debaixo das cobertas e se permitiu descansar.

Não admitiria em voz alta, com certeza não perto de Nico, mas quando não recebeu um “Eu te amo” de volta foi como se tudo pelo que ele passou fosse em vão. Foi um aperto em seu peito pela rejeição, a dor de não ser amado de volta.

Escondeu-se em seu quarto depois daquilo deixando algumas lágrimas descerem silenciosas e imperceptíveis por seu rosto. Mais uma vez ele subestimou os sentimentos. Da mesma forma que a traição doía a rejeição também, talvez não tão intensa quanto.

Respirou fundo afundando o rosto no travesseiro.

Pelo menos ele estava vivo, pelo menos estava livre e feliz. Pelo menos poderia vê-lo sempre que quisesse.

Aos poucos caiu na inconsciência embalado pelo quente do cobertor e o silêncio confortável do castelo agora acolhedor.

Algumas horas depois sentiu uma mão acariciar seus cabelos e um sentimento delicioso o embalou a medida que o cafuné continuava. Eram movimentos delicados, mas sentiu dali que as mãos tinham calos de trabalho árduo e contínuo.

Não se permitiu abrir os olhos até ouvir uma melodia calma e tranquila, aquele tipo de som que soltamos quando fazemos algo tão natural que nem percebemos o ato de cantar. Não reconheceu a música, mas reconheceu a voz.

Abriu os olhos rapidamente olhando Nico estupefato. O moreno parou o carinho, mas sorriu para ele amorosamente. O coração de Will falhou uma batida.

― O que faz aqui? Não pode se levantar ainda. ― repreendeu o príncipe sentando-se no mesmo nível que o rapaz.

― Você falou sério mais cedo? ― perguntou Nico direto. Will gelou.

Encarou a feição séria do amigo e temeu responder que sim. Contudo devia uma explicação por aquilo. Poderia dizer que era em outro sentido, afinal eram amigos, mas não se encaixava ali. Ele queria dizer, mesmo que voltasse a chorar assim que ele fosse embora.

Suspirou:

― Sim falei. ― admitiu ele não tendo coragem de encará-lo: ― Mas não se preocupe, eu entendo que é algo platônico. Afinal é um sentimento profano.

Respirou fundo encarando suas mãos evitando olhá-lo. Nico aproximou-se puxando seu rosto com os dedos bem próximo dele. Will paralisou sem reação com a aproximação excessiva.

― Eu pareço alguém religioso? ― perguntou sugestivo, o tom de voz rouco e sedutor. Will não soube dizer se era proposital ou não, mas que sentia as batidas de seu coração ressoarem como loucas ele sentia.

― Não, mas todos tem alguma religião. ― ressaltou o príncipe encarando as orbes negras de Nico. O rapaz meneou.

― Eu tenho uma. ― falou aproximando-se mais dele pousando suas mãos em seus ombros tensos: ― Mas não tem um nome ainda, não consegui pensar em nada.

― Você inventou uma? Típico. ― zombou o loiro tentando amenizar a tensão, mas a forma como Nico o encarou só fez piorar.

― Não inventei, só virei adepto de uma que ainda não tem nome. ― respondeu: ― Mas já tem um tempo que meu mudo gira em torno dele.

― Quem? ― perguntou inocente.

O sorriso de Nico foi doce não condizendo com a postura de antes. Passou a mão de seus ombros até sua mandíbula acariciando seu pescoço no caminho. Os pelos de Will arrepiaram-se com o toque gélido e calejado.

― Você.

A resposta veio com um suave toque de lábios. Doce e tímido, mas que fez o coração de Will encher-se de uma felicidade que ele não sabia que cabia. Não sabia o que fazer dali por diante, não lembrava, mas Nico fez o trabalho por ele.

Passou a mão pela cintura fina do rapaz com certa cautela evitando tocar na ferida. Já Nico entrelaçou seu dedos em seus cabelos louros aprofundando o beijo.

Se separaram em ofegos com Nico apoiando sua testa na de Will exausto, ainda não estava em boa forma pra isso. O moreno levantou o olhar encarando as duas safiras repletas de carinho.

― Eu amo você Will. ― respondeu ele: ― Amo muito.

O príncipe arregalou os olhos soltando uma risada aliviada. Ele o amava. Ele retribuía aquele sentimento conturbado que ele sentia e, por Deus, como estava feliz com isso.

As lágrimas desceram sem permissão causando pavor em Nico ao vê-lo chorando.

― O que foi? Will? Por que está chorando? ― perguntou ele secando suas bochechas confuso.

Will o puxou para si o abraçando com força. Esqueceu-se do machucado, da educação, de tudo que lhe era necessário pensar antes de demonstrar esse tipo de afeto. Somente se permitiu afundar seu rosto no ombro de Nico e chorar alegremente.

― Você me ama? De verdade? ― perguntou abobado. Nico soltou uma risada abraçando-o de volta.

― Muito, Raio de Sol.

O sorriso de Willl se alargou beijando a pele exposta de Nico em seu ombro. Estava feliz como há anos não se sentia. Naquele momento nada mais importava somente os dois abraçados sentindo o calor um do outro.

Ficaram algum tempo conversando antes de Nico cair no sono abraçado em Will. O príncipe o embalou nos braços beijando sua cabeça com ternura.

Um dia Will fora amaldiçoado injustamente por uma feiticeira que, por ódio e mágoa fez com que Will quebrasse seu coração em pedaços como o seu se estilhaçou. Contudo ela não calculou bem.

Will teve seu coração partido, mas Nico não o partiu. Ele colou os pedaços, um a um, de seu coração fragmentado. Agora lhe pertencia. Cheio de remendos, imperfeito.

Mas era seu, e somente seu.

Aquele amor de conto de fadas.

Notas finais
Antes que alguém fale: "Ah, eles estavam se atraindo fisicamente um pelo outro na dança" Eu digo NÃO ESTAVAM NÃO! Pelo amor de tudo que me é mais sagrado isso seria zoofilia, ruehruehreuhrue Eles se atraem pelos olhares, pelo carinho um pelo outro, nada fisico aqui em! Não quero ouvir ninguem falando isso em! O que acharam da história em si? Foi boa? O final ficou do agrado de vocês? Por que o Will sempre chora nas minhas histórias? Não sei, eu sou má, acho, mas ele é meu filho sensivel, ME DEIXA! Octavian era do exército inimigo desde o começo, alguém imaginou isso? Me digam reurheurhuerhue No final das contas não foi uma traição de verdade, mas doeu do mesmo jeito. MY POOR SON! Final feliz porque todos gostam. Sério mesmo, espero que tenham gostado e se sim me deixem saber! Adoraria ver um comentarios de vocês ♥ Até o próximo projeto! Pit-a-Pat ainda continua em, então isso não é adeus, só me realocando. beijinhos~
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!