Broken Girl

1 Capitulo um: Um completo estranho


Notas iniciais
Não ficou muito bom, masss melhora mais para frente ; )

Pousei as mãos na grama seca sentindo a aspereza, era cedo a cidade ainda acordava, os primeiros raios de sol banhava Greeley, Pennsylvania, deixando tudo com um tom dourado.

Deixei um punhado de jasmim azul na base da lápide, à flor era a sua favorita.

Há seis anos minha mãe e meu irmão caçula morreram em um acidente de carro, desde então somos eu e meu pai. Ele está indo bem como pai, mas nem sempre foi assim. Tive que ser forte para conseguir salvar nossa família. Foi uma fase difícil para nós dois, principalmente com a culpa e o ressentimento latejando dentro de mim.

_Feliz Aniversário mãe – desde o acidente comecei a ir ali para conversar, meu pai fazia o possível, mas tem coisas que só mãe entende. Considerava aquele local o meu confessionário, meu refúgio, minha melhor amiga. Gostava de pensar que de alguma forma ela me ouvia.

Um pequeno pedaço de terra gramada e duas lápides protegidas por uma árvore foi onde confessei meu primeiro beijo, meu primeiro baile, e meu interesse pela fotografia.

Estava na parte elevada do cemitério, dali dava para ver o tapete de lápides que se estendiam nas extremidades. No lado esquerdo uma grande estatua de um anjo me observava. Sempre achei aquilo um pouco assustador, mas já havia acostumado.

_Desculpa não ter vindo antes, felizmente tenho estado ocupada com as fotos – sorri. _ Acho que finalmente estão gostando do meu trabalho – E era verdade. Tinha que entregar as fotos do festival da primavera para o jornal da cidade, onde trabalho como freelance, cubro eventos e acontecimentos importantes. Apesar de gostar das fotos, adoro mesmo é capturar momentos do cotidiano das pessoas, momentos espontâneos. A lente funcionava como uma visão melhorada de tudo, através dela enxergava melhor. A cada foto o mundo passava em câmera lenta a minha volta. Simplesmente amava a sensação.

Tinha para mim que a fotografia era entender e ter aquele olhar até mesmo peculiar para registrar coisas bonitas por meio de uma câmera. Era mais do que apertar um botão ou escolher um angulo certo, acreditava que a arte de fotografar era enxergar o que mais ninguém vê, era ser sensível para perceber algo que vai além do que nós vemos superficialmente.

Bom, acho que isso resume minha paixão pela fotografia.

_Sinto falta de vocês – me levantei, tinha que ir para não atrasar a entrega.

Desci a pequena encosta e percorri o caminho de volta ao portão de entrada.

_Bom dia Jerry – cumprimentei ao passar pela cabine do coveiro, ele assentiu com um gesto de mão. Jerry era um homem bastante velho, era só uma questão de tempo para que se juntasse a aqueles de quem vigiava.

Já no centro da cidade o ar quente e abafado me fazia sentir falta do clima fresco da Inglaterra. Há anos adotei a América como meu país, mas não podia negar que sentia falta da brisa fria que varria as ruas cinzentas, a arquitetura nobre e elegante. Onde por de baixo de um guarda chuva não se reconhecia ou precisava cumprimentar alguém, ninguém se importava com sua vida e eram educados demais para dizer isso.

Já Greeley todo mundo conhecia todo mundo. Ainda sonhava com o dia em me livraria de tudo isso. Do olhar das pessoas que passavam por mim, o tipo de olhar que não precisava de palavras, e aqueles dizia: “Pobrezinha, tão nova e já sentindo o peso das perdas”. Já tinha me acostumado, era algo que em uma cidade como Greeley ficaria marcado em você até o dia em que seja apenas a pessoa com coragem o suficiente para se arriscar em outro lugar.

Consultei o relógio e constatei que de fato estava atrasada, caminhava o mais rápido que podia, tinha ainda muitos quarteirões pela frente. Amarrei o cabelo em um coque, sentindo já o alivio da brisa fresca na nuca. Passei a mão no rosto para tentar diminui o suor, dei uma olhada no que estava vestindo para ver se estava tudo em ordem. Usava um vestido leve azul e calçava coturnos. Conforme andava rápido, a bolsa que guardava as fotos e meu equipamento batia na minha coxa e eu sentia as pontas pontiagudas de mais ou menos 30 fotos tentando atravessar o tecido gasto da bolsa pinicar minha perna.

Atravessava a rua quando sentir algo sólido bater em mim, me derrubando. A minha frente um para-choque de um carro preto entrou em foco. Estava assustada demais para me mexer, nem mesmo tinha entendido o que tinha acabado de acontecer. Um homem saltou do carro e estendeu a mão para mim.

_Me desculpa você atravessou na frente do carro e... Você está bem? – perguntou o homem. De onde estava o sol atrapalhava a minha visão de seu rosto. Pensei no quão patético deveria estar parecendo àquela cena. Ele esticou o braço com a mão espalmada, segurei nela e com um aperto forte ele me impulsionou a levantar.

_Você está bem? – perguntou ele novamente. Por ter olhado tempo demais na direção do sol tentando identificar o rosto do rapaz agora pontinhos pretos dançavam a minha frente. Ele me encarrava como o cenho franzido.

_Estou, eu... Estou bem – conseguir dizer. Agora tinha uma visão melhor do seu rosto. Ele era um homem muito bonito, o cabelo castanho claro, ou seria loiro escuro?, olhos de um verdes lindos. E era mais alto que eu, um bom porte físico.

Buzinas começaram a soar atrás de nós, foi então que percebi que o conteúdo da minha bolsa estava espalhado pela estrada. Ajoelhei tentando recuperar o material. O rapaz se juntou a mim. Juntamos tudo o que podíamos colocando de qualquer jeito de volta a bolsa. As fotos foram espalhadas pelo vento, tornando tudo aquilo cômico para quem assistia.

O coque se soltou e os cachos escuros e desformes que era a bagunça do meu cabelo se espalharam pelo meu rosto dificultando minha visibilidade. Esperava que aquilo não fosse parar no youtube com a legenda “A louca do trânsito”.

Tínhamos recuperado quase tudo, mas algumas fotos voaram para fora de alcance. Verifiquei minha câmera, tudo certo exceto...

_Minha lente. – disse num sussurro.

_O quê? – o rapaz perguntou confuso.

Meus olhos varreram o chão procurando a lente, as buzinas agora se tornaram um coro. Algo brilhava do outro lado da estrada. Minha lente! Corri para alcança-la. Não consegui ir adiante, uma mão forte me puxou pelo braço no exato momento em que um carro passou como um vulto diante de mim. A lente agora era só estilhaço. Minha lente favorita tinha virado pó no asfalto.

_Tudo bem? – perguntou o rapaz num tom um pouco preocupado.

_Estou. – respondi um pouco ríspida demais, não queria ser grossa, mas o cara me atropelou. _Você me atropelou – disse com firmeza me livrando da sua mão em meu braço.

_Foi você que entrou na frente do meu carro, e de nada por salvar sua vida – ficamos nos encarando por um tempo, pensei numa resposta, mas o que ele disse fazia sentido, será mesmo que eu atravessei na frente de seu carro? E sim, ele tinha salvado minha vida.

_Eu tenho que tirar o carro daqui então... quer uma carona? – avaliei a situação por um instante. Estava muito atrasada.

_Quero – disse recobrando a compostura, as pessoas nos carros agora gritavam e xingavam. Entramos no carro e seguimos viagem.

E que carro, diga-se de passagem. Impala 67 se não me enganava. Não era nenhuma conhecedora de carros só tinha visto o Impala 67 como destaque numa antiga revista automobilística. O interior deste era simples, ao invés de um rádio digital um toca fitas que deixava tudo bem autêntico. No auto falante o vocalista do AC/DC berrava sua súplica de amor “Baby please don't go down to New Orleans, You know I love you so, Baby please don't go”.

O silêncio entre nós começava a ficar desconfortável.

_Então essas fotos são suas? – disse o desconhecido quebrando o silêncio.

_Você é novo na cidade, não é? O que te trás aqui?

_Eu... Vim a negócios.

_Negócios? Em Greeley? – O rapaz notou a minha descrença e não se incomodou, apenas sorriu.

_Conhece algum hotel barato por aqui?

_Quanto tempo pretende ficar na cidade? – rebati.

_Você sempre faz isso? – perguntou ele virando à direita, a música ainda tocava. Tarefa difícil ficar parada ao som.

_Isso o quê? – perguntei não entendo sua pergunta.

_Isso! Responder uma pergunta com outra pergunta. Você quer informação, mas não dar nada em troca. – apenas sorri. Ele não era a primeira pessoa a me dizer aquilo. Não percebia quando o fazia, apenas não gostava que me fizessem perguntas sem nem ao menos saber alguma coisa sobre quem as fazia. Problemas de confiança? É, talvez.

_Não estou disposta a compartilha informações da minha vida com um gostosão estranho que me atropelou. Isso pode ser perigoso. – me arrependi do que tinha dito no exato momento em que as palavras saíram da minha boca. Agora um sorriso bobo estampava o rosto do estranho.

_Você me acha gostoso e perigoso? – seu sorriso se alargava, meu rosto estava em brasas.

_Eu não acho que seja perigoso. – respondi parte da pergunta, seu sorriso se abalou um pouco, ele parecia um tanto desapontado.

_Mas poderia ser.

_Você é? – ele não respondeu, outra música começava a tocar, dessa vez era o Kansas que berrava na caixa de som.

_Está num carro com um desconhecido, não acha isso perigoso? – perguntou ele arqueando uma sobrancelha.

_Eu precisava da carona. Valia o risco – olhei de relance para ele, um sorriso presunçoso se formava em seus lábios. _E era o mínimo que você podia ter feito por me fazer quebrar minha lente favorita. – acrescentei.

_Então, o que acha de mim? – reparei no que havia no interior do carro e o avaliei.

Não era muito boa em ler pessoa, mas esse rapaz tinha uma postura rígida e os olhos de quem viram e passaram por muitas coisas. A jaqueta de couro e até o carro contribuía para que eu tivesse uma noção sobre ele: Um sobrevivente. Reconhecia aquele olhar por que era obrigada a encará-lo todo dia no espelho. Poderia está enganada, porém parece que encontrei um aliado.

_Pelas embalagens de fastfood de lugares diferentes e pelas revistas pornôs no porta luvas... – ele fechou o porta luvas com um estalo, tarde demais. _ Eu diria que você é como um cigano ou andarilho, não tem moradia fixa, você segue a estrada, gosta de comer torta e cerveja no capo do carro. O Impala não é só um meio de transporte, diria que é o que você tem de mais próximo de casa ou de uma pessoa. Está procurando alguém ou alguma coisa. Mas não é perigoso. – ele ficou mais sério, reflexivo até. _Também posso está errada. Você pode ser algum assassino procurado pela policia. Talvez esteja me sequestrando, me levando para uma cabana no meio de uma floresta onde eu nunca mais veria a luz do sol e fosse obrigada a ser sua escrava sexual. – ele riu, seus olhos brilhando em divertimento.

_Você tem uma imaginação e tanto.

_Definitivamente deveria ter imaginado essa possibilidade antes de aceitar sua carona. – retruquei. Paramos num sinal vermelho.

_Você acertou. – disse depois de alguns minutos quando o carro voltou a andar.

_Meu Deus, você é algum pervertido da floresta? – brinquei. Nem tanto.

_Não. – respondeu a minha provocação com um sorriso torto. _ Eu gosto de torta e cerveja. – completou. Sorri para ele e olhei pela janela, estava chegando ao prédio da editora.

_Pode me deixar aqui. – disse à ele que parou o carro no acostamento.

_Obrigada pela carona, por salvar minha vida e por não me sequestrar – ele assentiu sorrindo e eu saí do carro.

_Ei, qual é seu nome? – gritou o rapaz da janela enquanto eu puxava a maçaneta da porta, me virei, sorri para ele e entrei no prédio. Tinha uma sensação estranha de que iria encontra-lo de novo.

...

Entrei na loja e encontrei Adam vestindo seu uniforme que consistia em um colete preto com o logotipo da loja estampado peito.

_Pera aí, você está me dizendo que foi atropelada? – as sobrancelhas de Adam estavam erguidas, sua expressão de surpresa.

Há poucos minutos atrás tinha contado sobre meu encontro com o desconhecido.

Adam, meu melhor amigo desde colegial, vivíamos grudados um no outro. Sabia que muitos achavam estranho o fato de não sermos namorados ou nunca ter acontecido nada entre nós, não ligávamos. Era só amizade no seu estado puro.

_É, exatamente o que você acabou de ouvir. – disse ajeitando colete do Mario’s Convenience. A pequena loja do meu pai (que antes foi contador num pequeno banco no centro da cidade), de vez em quando dava uma força para Adam. Digamos que ele ainda estava descobrindo sua vocação e esse processo estava demorando um pouco, ou seja, era homem de 22 anos que estava desempregado.

Ele Tinha tentado o ramo musical, mas a banda era péssima, tentou medicina, mas ele tem medo de agulhas, tentou até ser ator, tinha a beleza, mas não tinha muito talento para interpretação.

_E você está bem? – perguntou ele franzindo o cenho.

_Estou. Nenhum arranhão. – assegurei.

Torcia para que Adam encontrasse seu caminho. Não dava para trabalhar o resto da vida na Mario’s Convenience.

_Que loucura. – comentou ele colocando o boné da loja, as pontas dos seus cabelos castanho escuro desgrenhado escapava pelas bordas do boné azul. _Vai fazer algo hoje à noite? – perguntou indo para o meio da loja.

_Não, por quê? – ele agora arrumava as prateleiras de enlatados. De manhã o movimento ficava fraco então não tinha uma viva alma nos corredores.

_Tessa e eu vamos para um bar novo hoje à noite e gostaríamos que você fosse, e não se preocupe eu vou levar um amigo.

_Já tinha pensado em recusar quando você disse “Tessa e eu” – disse fazendo o sinal das aspas com os dedos. _Você sabe muito bem que Tessa e eu não somos exatamente melhores amigas – disse arrumando a prateleira ao lado. Tessa era namorada de Adam há três anos e até hoje ela nunca foi com minha cara, e claro o motivo era ciúmes da melhor amiga do namorado.

_ A qual é? Ela só... – começou ele. _ Ok, ela odeia você, mas vamos você precisa conhecer alguém...

_Não, por favor, não começa com isso, esse papo de que eu preciso conhecer alguém, me diverti, e blá, blá, blá, olha não é só por que você está todo apaixonadinho e feliz que eu também tenho que está. Eu juro, estou bem assim.

Ele levantou as mãos em sinal de rendição, mas sabia que não desistiria tão fácil. Então se virou para mim sorrindo. Os olhos de Adam eram castanhos como chocolate, e ele era bem mais alto que eu. Bonito, fazia sucesso com as mulheres e ele sabia disso.

Nossa amizade começou bem antes disso, foi quando ele no primário dividiu um pacote de jujubas comigo. Desde então somos o equilíbrio um do outro, eu sou quem o impediu de virar um babaca completo, e ele que eu enlouquecesse e me isolasse como costumava fazer. Adam sabia que era meu único e melhor amigo. Diria até como uma ancora.

Nós estávamos próximos agora, tinha que inclinar um pouco a cabeça para poder encara-lo.

_Vamos vai ser divertido, esse cara é legal você pode gostar dele.

_Assim como eu gostei do seu último cara. – disse sarcástica.

_Ah, eu admito que daquela vez eu possa ter escolhido errado.

_Errado? O cara só faltou comer a mesa.

_Ele só tinha um bom apetite. – argumentou Adam.

_Ele estava interessado mais na comida do que em mim. – retruquei. Adam sorriu e se voltou para sua prateleira, fiz o mesmo.

_Então, teve problemas no jornal? – perguntou mudando o assunto.

_Não, eles, é claro, não gostaram do atraso, mas correu tudo bem, perdi quase metade das fotos, mas as que sobraram foram suficiente.

Ficamos em silêncio por um tempo, era só uma questão de minutos para ele voltar ao assunto do encontro de casais.

_Não. – disse antes mesmo de ele começar.

_Você não precisa ficar muito tempo, se não gostar do cara pode inventar uma ligação de emergência e dar um fora.

_Adam...

_Por favor, vai, não é tão difícil assim – ele olhava para mim os olhos castanhos brilhando de esperanças e ansiedade. _ Por mim. – acrescentou, fazendo cara de cachorro que caiu da mudança.

_Tudo bem eu vou, mas se ele for um mala vou embora. – ele sorriu satisfeito, e voltou ao trabalho.

_Você é a melhor. – disse me dando uma cotovelada amigável.

...

Já era noite, quando sair da loja. Estava em casa secando o último prato da pilha de louças. Papai tinha tentado cozinhar, o resultado foi catastrófico, então pedimos uma pizza. Tinha decidido não contar sobre o atropelamento, era uma informação um tanto irrelevante, não ia preocupa-lo com isso.

_A que horas vai sair? – perguntou papai da sala. Um homem alto, nem magro nem gordo. Possuía um bom porte físico o que o dava um aspecto mais jovem, porém seu cabelo o entregava, faixas grisalhas brigavam por mais espaços em meios aos fios castanhos.

_Daqui à uma hora. – disse pondo o prato em seu lugar.

_Tenha cuidado. – seu tom transpirava preocupação. Era muito difícil saber se era uma preocupação verdadeira, mas confortava saber que pelo menos ele estava tentando.

Lembrava sempre da conversa que tivemos no ano anterior, as promessas e desculpas acompanhadas por lágrimas. Ele assegurou que podíamos ter um novo começo. Era uma promessa, por que estava tão difícil acreditar totalmente em suas palavras? O que tinha de errado em confiar? Afinal ele era meu pai, o amava acima de tudo. Essa era minha vez de me esforça, reprimir toda a magoa e a antipatia. Era um novo começo, tinha de alguma forma me acostumar com aquilo.

_Eu vou ficar bem. – gritei das escadas.

Meu quarto era uma zona, mas o entendia. A decoração simples. Uma cama, uma estante com livros e meus trabalhos como fotografa, ao lado prateleiras acima de uma mesinha. Nas prateleiras estavam expostas minhas câmeras e lentes junto ao meu material. Tinha um toque vintage nos móveis no seu acabado e os relevos gravados neles.

Após o banho, fui para o armário. Por sorte o hematoma na minha perna tinha sumido. Fiquei uns minutos fitando as roupas nos cabides, por fim peguei um vestido vermelho de um tom escuro. O vestido tinha um modelo seiscentista e simples. Apesar da cor forte demais para meu gosto, gostava dele, pertenceu a minha mãe. Papai sempre dizia que eu era muito parecida com ela, tínhamos os mesmos olhos azuis os mesmos cachos escuros e até as sardas no rosto. Gostava disso, e o vestido funcionava como se eu tivesse um pedacinho dela comigo.

Olhei para a fileira de sapatos, ou melhor, de botas, tênis, e coturnos, gostava principalmente dos coturnos, peguei um par deste marrom. Olhei meu reflexo no espelho. Com um suspiro cheguei a conclusão que não tinha muito que se fazer. Fiz uma maquiagem leve e deixei o cabelo natural modelando alguns cachos. Arrematei colocando uma jaqueta perfecto preta de couro.

_Você está linda. – disse papai ao me ver no topo das escadas.

_Adam vem te buscar?

_Não, vou pegar um taxi. – mais cedo Adam havia telefonado e me dado o endereço. Era um lugar novo, uma espécie de bar/restaurante.

_Aqui está o dinheiro para o taxi. – disse ele pegando algumas notas da carteira e me entregando, agradeci e sair ouvindo sua última recomendação para eu ter cuidado.

...

A noite estava fria. O vento serpenteava através das árvores, o som era como sussurros querendo me dizer alguma coisa. Tinha alguma coisa no ar, um presságio ruim. Balancei a cabeça afastando a ideia. Seria uma noite agradável, nada de ruim aconteceria.

Podia se ouvir a balburdia que irradiava do bar à metros de distancia do local. A fachada era simples e bonita, o nome Yellow Submarine, (claramente uma referência aos Beatles), chamava a atenção, as letras grandes e amarelas em luzes neon.

O interior era bonito, decoração simples e sofisticada, muitas luzes neon, iluminação um pouco baixa e as paredes com tijolos marrons a mostra dava um ar rústico. No lado esquerdo mesas espalhadas, no direito um bar. Os bartenders faziam malabarismo com garrafas atrás do balcão. No fundo, o que parecia uma pista de dança, pessoas dançavam.

Em uma das mesas Adam acenava para mim. Fui até eles, todos se levantaram. Adam foi o primeiro a cumprimentar.

_Achei que você não viria. – disse ele no meu ouvido e depois me apresentou a George, o seu amigo, o tal cara. Um sujeito bonito, tinha que admitir, cabelos loiros e um bronzeado natural. Tessa forçou um sorriso para mim, fiz o mesmo.

Sentamos e fizemos nossos pedidos ao garçom. Seria uma longa noite.

... — ...

Dean limpava na pia do hotel o sangue seco da faca, acabara de matar um vampiro, encerrando assim seu caso na cidade. Ele sentou em sua cama e ligou a TV, deu uma zapeada pelos canais apenas para confirma que não passava nada de bom, esperava na verdade assistir um episodio de Dr.Sexy seu prazer culpado. Acabou se decidindo em sair. Nada como umas cervejas para animar a noite, e quem sabe não encontraria uma gatinha perdida. Pensou ele.

Seus pensamentos vagaram involuntariamente para a garota misteriosa que conheceu naquela manhã, sabia que na manhã seguinte tinha que sair da cidade, mas queria encontra-la de novo antes disso.

Entrou no Impala e foi à procura do bar mais próximo. Tinha grandes chances de se dar bem esta noite, estava confiante o suficiente para acreditar nisso.

... — ...

Há quase uma hora ouvia George contar suas aventuras. O cara era um porre, adorava falar de si mesmo, e ainda por cima um mentiroso em potencial. Sério, como Adam conhece esses idiotas? E o pior é como ele pode achar que me interessaria por esses caras?

_Vou pegar um drink. – interrompi George que falava sobre surfar com golfinhos no Havaí. Adam estava na pista de dança com Tessa, então deixei George sozinho saindo depressa antes que ele resolvesse ir junto.

_Uma dose de gim tônica com limão, por favor. – disse ao bartender. Não costumava beber, mas a situação exigia.

_Dia difícil? – uma voz grave perguntou. Olhei para o dono da voz. Era ele, o cara que me atropelou. Ele exibia um sorriso torto, estava sentado a dois bancos de onde eu esperava minha bebida, debruçado sobre um copo cheio pela metade. Sorri de volta.

_Você nem imagina. Fui atropelada por um maluco, que parecia muito perigoso – dei ênfase nas duas últimas palavras o fazendo sorrir mais. _Quebrei um equipamento de trabalho e ainda estou tendo que aguentar o mala do meu encontro. – o bartender entregou meu drink, o estranho se levantou e sentou ao meu lado.

_Agora você pode me dizer seu nome? – perguntou.

_Isabel Corand. – respondi dando um gole na minha bebida, o gosto era forte a bebida desceu rasgando na minha garganta, desviei o rosto para que ele não visse minha reação.

_Michael Cooper. Agente federal Michael Cooper. – ele estendeu a mão, nos cumprimentamos trocando sorrisos. Talvez seja pela bebida, mas podia dizer que senti certa hesitação no modo como apresentou seu nome e sua profissão.

Isso vinha com certeza da minha mania de desconfiar de qualquer coisa que eu não conheço bem e que não esteja em meio controle, algo que não era muito preciso.

Na verdade isso só deixava Michael cada vez mais intrigante.

A noite se seguiu entre conversas banais e flertes explícitos. Michael era um homem lindo e depois de alguns drinks ele se tornará muito mais atraente que antes.

_O que você acha de sair daqui um pouquinho? – perguntou Michael no meu ouvido. Não sabia ao certo o que estava fazendo, minha consciência gritava comigo para não segui-lo e voltar para o meu encontro, (que a essa altura não sabia onde mais estava), mas a vontade de ir rumo ao desconhecido era maior. Não estava bêbada, tinha plena consciência de minhas ações, os drinks me deixaram apenas mais desinibida.

Por sinal não me lembrava da última vez que sair com um cara assim.

Sorri para ele que interpretou como um sim. Me puxou pela mão indo em direção à saída.

Fomos envolvidos pelo o silêncio da noite e o ar fresco assim que as portas se fecharam atrás de nós. Estávamos no estacionamento a céu aberto atrás do bar. Caminhamos um pouco entre as fileiras de carros até chegar ao Impala. Michael parou encostando-se à porta do carro cruzando os braços, tirei minha jaqueta e coloquei em cima da lataria.

O gesto me deixou bem próxima dele, podia sentir o cheiro do álcool exalado de sua boca, ele sorriu travesso, devolvi o sorriso. Um som irrompeu o clima fazendo nos afastarmos num sobressalto, era palmas vindas de... George?

_Pensei que você fosse uma garota de família. – disse ele diretamente para mim com um sorriso estranho estampado no rosto, e seus olhos... Bem, seus olhos estavam pretos, totalmente pretos, pisquei algumas vezes e então seus olhos voltaram ao habitual tom de azul acinzentado. Foi com certeza uma ilusão de ótica, tentei me convencer. Uma ilusão de ótica. Afinal o estacionamento estava relativamente escuro, então era bem provável que eu estivesse vendo coisas. Efeito do álcool é claro.

Não respondi, Michael mudou de postura ficando tenso, podia sentir, ele agora se colocava a minha frente. Não tinha percebido quando e de onde ele havia tirado uma faca que segurava com firmeza em sua mão direita. Meu coração começava a dispara. Nas sombras surgiu mais um homem, era bem grande vestia uma roupa social se parecia muito com um dos seguranças do lugar.

_Chamou a amiga. O que é? Não se garante sozinho? – provocou Michael num tom surpreendentemente despreocupado e até mesmo debochado. George alargou ainda mais o sorriso estranho.

_Sempre engraçadinho né Winchester. Não é por nada não, mas a assunto aqui não é com você. – George olhou para mim, senti meu sangue gelar. E, ele chamou Michael de Winchester?

Durante um tempo ninguém disse nada, então George deu um passo à frente, Michael — ou sei lá qual for o seu nome — fez o mesmo. Eu só conseguia pensar: O que diabos estava acontecendo?

Notas finais
Comentemmmm o que acharam :)