Broken Girl

21 Capítulo vinte um: Crianças Noturnas. 'Parte lI'


Notas iniciais
Eii, viu, não tiveram que esperar muito hahaha Espero que gostem! Enjoy ^^



Sam entrou no quarto de hotel afoito para contar suas descobertas, mas parou quando notou Dean no banheiro, a porta aberta, ele olhando para o espelho enquanto costurava um ferimento no ombro.

_Dean? – disse Sam indo parando na porta do banheiro e examinando o irmão. Tinha uma garrafa de Uísque equilibrada na pia, gazes ensanguentadas em um lado e uma tesourinha manchada de sangue. _O que aconteceu?

Dean ruiu a linha com o dente finalizando a costura de um pequeno ferimento. Ele pegou a garrafa de Uísque, tomou dois goles e depois derramou um pouco no ferimento costurado, fez uma careta de dor e Sam o ouviu praguejar baixo.

_Dean, o que houve com você? – repetiu a pergunta começando a ficar nervoso.

_O que parece que houve comigo, Sam? Um tirou houve comigo! – respondeu Dean tomando outro gole, já tido metade da garrafa. Sam pensou no quanto foi ingerido e o quanto foi no ferimento.

_Dean... – foi aí que ele teve um estalo de uma das peças faltando ali. Varreu com os olhos o pequeno quadrado que era o quarto. _Onde está Isabel?

_Ela foi levada. – respondeu Dean passando por Sam que sentia como se o irmão tivesse jogado um copo de água gelada em seu rosto.

_Como assim foi levada? – perguntou ele tentando acalmar os batimentos. Dean levantou as mãos em sinal de obvio.

_Quer que eu procure no dicionário para você? Ela foi levada, arrastada, tirada de mim. – Sam via o quão Dean também tentava se controlar para não se desesperar.

_Para onde? – Sam sabia que era uma pergunta idiota, mas foi incapaz de se segurar, a voz elevada ao ponto de raiva e nervosismo. Como Dean deixou isso acontecer?

_Acha que se eu soubesse estaria aqui sangrando com a porra de um inútil!? – Sam se obrigou a respirar fundo, contar até dez e pensar direito. Era um sentimento horrível que sentia no peito. A amava ao ponto de se sentir zonzo com a beira de pânico na boca do estômago só de pensar que ela estava correndo perigo em algum lugar. A vontade histérica de correr pela cidade inteira se fosse preciso até encontrar... Fique calmo, Sam.

_Me conta como aconteceu. – pediu calmamente.

Dean depois de engolir o nervosismo e raiva sentou na beira da cama e contou ao irmão o que aconteceu exatamente. Sam se focou em seguir a linha racional das coisas, e enquanto o irmão contava ele via as coisa começarem a fazer mais sentido. A teia ia se desenrolando aos poucos. O tiro, a menina vampira e Donovan.

_Agora tudo faz sentido. – disse distraído em pensamentos.

_Como eu levar um tiro, Isabel ser sequestrada pelo chupa sangue faz sentido para você? – perguntou Dean.

_Emily Donovan. A filha caçula do delegado Donovan, ela estava no hospital internada no último estágio de câncer. Quando chegamos lá a garota simplesmente desapareceu, dois corpos, gargantas dilaceradas e o delegado branco como um papel praticamente correu do local. – Sam jogou as cartas na mesa e deixou que Dean entendesse o jogo.

_Está dizendo que a menina que nos atacou era a filha do delegado? – Dean entendia Sam, mas ainda tinha suas ressalvas.

_Pense bem. Donovan descobre o ninho de vampiros, ao invés de relatar ou acabar com eles, ele pede que transformem sua filha na esperança de salvá-la em troca de proteção, o que para um ninho organizado seria bom ter o acobertamento do delegado da cidade. Uma aliança que os beneficiaria como aconteceu com o caso da arma plantada e um pobre coitado preso.

_A garota é transformada e se descontrola no hospital. E claro ele conseguiu rastrear a menina até o prédio abandonado. O tiro que levei foi de um profissional, um delegado protegendo a filha. – concluiu Dean. _Filho da mãe.

_Tenho certeza que ele sabe onde fica o ninho. – disse Sam. Dean concordou e começou colocar a camisa. Deveria toma um banho, estava cheirando a álcool e sangue, mas Sam achou que não deveria levantar a questão. Tinham prioridades.

... — ...

Meus pulsos doíam. Tinha acordado a poucos minutos com a cabeça latejando o ferimento no ombro doendo como o inferno. E agora os pulsos começavam a doer onde os grilhões prendiam. Estávamos amarradas com correntes num cano no teto baixo de algum porão úmido e cheirando forte a mofo com uma única luz vinda de lampião na parede.

Éramos três, garotas, os braços estendidos pela pressão da corrente e de joelhos no chão imundo por que não dava para ficar tanto tempo em pé, mesmo que isso aliviasse o aperto nos pulsos. Troquei algumas palavras com elas quando acordei, uma delas se chamavam Alina a outra Lydia. Essa última era a que mais choramingava — o motivo de eu ter despertado — já Alina era mais controlada apesar de mostrar medo.

A porta de acima da escada de madeira se abriu. Dois homem entraram, os sapatos pesados fazendo a escada ranger alto. Um dos homens era um alto negro o outro um mais baixo e bem magrelo. Supunha que o primeiro fosse o líder do grupo, pois ele se curvou e disse algo no ouvido do outro e ele se voltou para nós.

_O que acha, Robbie? – Robbie olhou para todas nós. Parou em frente a Lydia que recomeçou a chorar. Robbie só balançou a cabeça, o outro assentiu. Então ele parou de frente para mim. Apertou os olhos.

_É essa que é a caçadora? – perguntou, a voz grave combinando com sua expressão dura.

_Sim, é ela... e... bem íamos beber o sangue dela no caminho, mas... o sangue dela tem gosto diferente, achei que quisesse vê-la. – disse o magrelo.

_Hum, interessante. – disse Robbie, com um movimento rápido ele aproximou o rosto do meu e inspirou do meu ferimento no ombro. Depois me fitou nos olhos abrindo um sorriso.

_O que você é criança? – perguntou. Fiquei muda. Ele esperou por um tempo minha resposta, então sorriu.

_Chuck, é essa, vamos transforma-la. – disse acima do ombro para Chuck. Robbie analisou Alina. Olhei para ela como sinal de que não deveria mostrar fraqueza. Um pouco antes tinha afirmado para elas que sairíamos dali, que Sam e Dean viriam nos salvar. Alina olhava para baixo, o lábio inferior tremendo.

_Essa também... – a porta abriu de novo abruptamente.

_Robbie, conseguimos localizar a menininha. – disse o homem à porta. Robbie sorriu.

_Ótimo. Chuck leve a primeira, talvez a menina ainda esteja com fome. – Chuck, pegou uma chave no bolso da calça larga e foi até Lydia. A garota começou a gritar e espernear. Desviei o olhar enquanto ela implorava pela vida.

Chuck arrastou Lydia pelos cabelos, um emaranhado de fios dourados cobria seu rosto grudado nas bochechas por conta das lágrimas. Meu coração apertou quanto ela gritou meu nome antes da porta se fechar atrás de Robbie.

... — ...

O homem estava ajoelhado numa poça de sangue, o corpo logo ao lado. Dean não queria, mas sentiu pena de Donovan, o corpo era da filha mais velha Hanna. Eles nem bateram, a porta estava aberta, os facões continuaram firmes nas mãos. Sam relaxando deu um passo em direção a Donovan, Dean impediu o próximo.

Ele pegou uma lanterna do bolso e lançou o facho na direção de Donovan, o homem se virou imediatamente, Dean examinou seus olhos, mas confuso do que outra coisa. Mas mesmo assim...

_Eles sangraram em você? – perguntou. O homem franziu o cenho.

_O quê? – perguntou numa voz fraca.

_Os vampiros, sangraram em você?! – a voz fria e grave soando alto na casa vazia e silenciosa. Donovan o olhou por um instante e balançou a cabeça negativamente.

Ele ainda vestia o uniforme de delegado, o tecido marrom sujo de sangue, assim como suas mãos e o rosto onde elas foram colocadas. O homem estava acabado, Dean via isso, atingindo duramente o fundo do poço e morto por dentro tanto quanto o cadáver da filha.

_Não são federais, são caçadores. – concluiu Donovan com a voz fraca.

_É somos, estamos tentando fazer o trabalho que você não faz, por sinal, obrigado pelo tiro, foi divertido. – Sam interveio como sempre fazia quando Dean estava preste a socar alguém.

_Donovan, sua filha Emily está aqui? – perguntou Sam olhando os lados. Donovan balançou a cabeça de novo.

_Cheguei não faz muito tempo, a porta estava aberta e... – a voz dele variava entre a emoção e firmeza.

_Tudo bem, precisamos que nos diga onde fica o ninho. – Donovan tomou um instante para pensar, depois levantou do chão e olhou as mãos vermelhas de sangue.

_Não posso. – disse com um fio de voz encarando as mãos.

_Não pode ou não quer? – perguntou Dean ríspido. Sam o olhou, o olhar do tipo "Deixa isso comigo" Dean suspirou impaciente.

_Não quero, se contar a vocês vão atrás dela, vão matá-la. – disse Donovan tomando de novo a postura de delegado. Sam guardou a faca de volta no coldre na cintura e chegou mais perto de Donovan.

_Delegado, eu sei que deve ser difícil, mas tem que nos deixar fazer nosso trabalho, sua filha vai machucar mais gente inocente, como a Hanna. – tentou Sam.

_Você tem filhos? – perguntou Donovan. Sam fez que não com a cabeça.

_Então não sabe como é. Não deve ser difícil, é... – ele parou de falar colocou as mãos na cintura e desviou o olhar brilhando com lágrimas. _Não posso, é minha garotinha...

_Isso não é certo Donovan, transformar sua filha em uma daquelas coisas não é a resposta, não pode salvá-la. Precisa deixa-la ir. – disse com a voz suave e baixa. As lágrimas desciam do rosto sujo do delegado Donovan.

_Ou o próximo pescoço vai ser o seu. – Sam lhe lançou um olhar severo. Dean já estava farto daquilo, queria obrigá-lo a falar, não convence-lo a abrir o bico, não tinha tempo para isso.

_Sua filha tem sangue nas mãos, tenho certeza que não é isso que queria. Eu não tenho filhos, não posso nem imaginar oque está sentindo, mas tem uma garota com eles que precisa de nós, que conta comigo e com meu irmão. Você pode ajudá-la, e provavelmente outros. – Donovan cedia aos poucos, as lagrimas escorriam como a constatação de algo terrível acontecendo. O homem perdeu tudo. _Emily não é mais sua garotinha.

_Sabe depois que minha mulher morreu e eu tive que cuidar das meninas sozinho... elas eram tudo que eu tinha, o que me fazia seguir em frente então Emily adoeceu. Eu trocaria de lugar com ela se fosse preciso, faria qualquer coisa. Até que encontrei o ninho sem querer numa ronda, eles iam me matar, mas o líder disse que tinha uma proposta para mim. Ele salvaria minha filha se eu encobrisse os pequenos acidentes na cidade. Eles queria viver aqui e não queriam ser incomodados por caçadores. O que eu deveria fazer? Ele disse que salvaria minha filha.

_Mas ele não a salvou, transformou ela num mostro que matou a irmã, é isso que queria Donovan? – Dean achou que seria melhor fazer mais pressão. _Nos diga onde é o ninho.

Dean viu que talvez Sam tinha razão, ir com calma, ele agora perdia Donovan, o cara não ia colaborar. Ele deu um passo para trás balançando fortemente a cabeça.

_Não, não posso fazer isso. Saiam da minha propriedade! – a aí estava a gota para Dean. Ele sacou a arma e apontou para o peito de Donovan.

_Você tem duas opções: Seja bonzinho e me diga onde está o ninho, ou bem, não seja bonzinho e mesmo assim você vai me dizer onde está o ninho. – ameaçou Dean, ele esperava um olhar de advertência de Sam, mas o irmão caçula sabia que a situação era diferente.

_Ou você vai me matar? Vai em frente, atire em mim. – Dean no fundo sabia que sua investida não ia dar em nada. Donovan estava morto, ele atirando ou não.

_É aqui, não é? – perguntou Sam. Dean viu que ele segurava um mapa da cidade, atrás dele uma cômoda com a gaveta de cima aberta. No mapa tinham três pontos marcados com X. Donovan olhou para Sam, seu olhar dizia tudo.

_Não, não é...

_Bem aqui fica o prédio comercial abandonado, o que resta dois outros lugares, um deles fica do outro lado da cidade. Aqui não mostra muito, mas apostaria que é aqui. – disse Sam apontando para o x direito no mapa, um pouco mais afastado dos outros. Donovan estava chorando de novo.

_Por favor... não... – Dean não saberia o que ele tinha a dizer. Com apenas um de direita ele apagou o cara. O delegado Donovan caiu com um baque no piso de madeira, o corpo estirado perto do da filha. Sam se voltou para Dean.

_O que é? Não temos tempo para isso. – Dean seguiu para a porta tomando cuidado para não encostar em nada. Sam o seguiu depois de limpar suas digitais no local.

...

O Impala foi estacionado um pouco distante do prédio, mas não bastante para que eles pudesse ver a estrutura enorme se erguendo para o céu estralado. Estavam com saquinhos de ervas no carro para encobrir o cheiro deles. Mas por alguma razão Sam achou que aquilo não adiantaria muito. Dean conferiu as seringas de sangue de homem morto na jaqueta e o facão no coldre na cintura, ia descer do carro quando Sam segurou seu braço.

_Ei, espera, não deveríamos ter um plano ou coisa assim? – perguntou ele.

_O plano é invadir e cortar as cabeças daqueles filhos da mãe. – respondeu Dean prático.

_Dean, não podemos dar uma de John McClane, não sabemos quantos tem lá dentro, e está de noite. – Sam via como aquilo poderia dar muito errado. O prédio abandonado, que na verdade foi um hotel de luxo anos passados, era grande o suficiente para abrigar centenas de vampiros. Só os dois entrando lá seria quase suicídio. Queria tanto quanto o irmão resgatar Isabel, mas tinha que colocar a razão em primeiro para não acabar os três mortos.

_E o que sugere?

_Podemos usar luz, muita luz. – disse Sam, já tinha pensado nisso antes, o queria usar ia dar a eles um pouco de vantagem.

_A não ser que tenha o sol no bolso, como vamos fazer isso? – Sam se esticou no banco e pegou uma bolsa com armas no banco detrás, remexeu em alguns facões e armas e encontrou três sinalizadores de alta potência. Mostrou a Dean e o irmão entendeu o que ele queria fazer.

Tinha usado sinalizadores parecidos para combater o demônio de sombras comandado por Meg, na vez que vez em que seu pai apareceu depois de semanas sem comunicação. Parecia ter sido um século atrás.

_Mas isso não vai nos cegar também? – perguntou Dean preocupado.

_Não, não é tão forte, mas é o suficiente para os vampiros. – Dean assentiu.

_Ok, vamos nessa. – os dois saíram do carro e se manterem à sombra na calçada.

O quarteirão estava deserto e só contava com dois postes de luz, um no final e outro no começo. Tudo à volta estava fechado ou abandonado. Chegaram na entrada do hotel, onde havia um portão de ferro adornado entre aberto. Dean e Sam tiraram as facas do coldre e adentraram o terreno.

Tinha uma escadaria logo na entrada, e portas duplas enormes no fim delas, lacradas com tábuas de madeira pregadas nelas. Sam olhou para cima. O hotel tinha sido um hotel de luxo um dia. A arquitetura era estilo vitoriano. Fileira e mais fileiras de longas janelas com acabamento arqueados, o vidro escuro por mais madeiras pregadas do lado de dentro.

_Bem vindo ao Motel Bates. – murmurou Dean.

_Vamos tentar os fundos? – perguntou Sam. Dean parou no começo da entrada olhando para cima como Sam havia feito.

_Não, vamos tentar essa porta. Seria um pouco obvio os fundos. – assim eles foram. A madeira nas portas estava podre pelo tempo e se soltou facilmente, eles tomaram todo o cuidado para não fazer barulho, mas era meio impossível que já não soubessem que estavam ali.

Dean segurou o puxador da porta, lançou um olhar para Sam, que assentiu, o coração começando a bater mais rápido. Dean a abriu a de uma vez, a porta rangeu e soltou poeira e ferrugem em cima deles. Os dois entraram com as facas prontas para qualquer coisa. Mas nada aconteceu.

A lua estava clara o suficiente para vazar das janelas e iluminar o local com seu brilho fantasmagórico — o saguão enorme onde eles desaguaram. A tapeçaria onde pisavam estava tão suja e gastas que era impossível distinguir a estampa nelas, em frente uma escadaria larga, que antes já fora luxuosa com corrimões dourados e a madeira dos degraus polidas e brilhantes. Agora acumulavam poeira nos degraus e os corrimões ruídos de ferrugem.

Ao lado tinham entradas de corredores tomado de sombras que era impossível ver o que tinha mais além, esquerda e direita. Os dois deram mais passos hesitantes para frente. Sam se sentia exposto naquele enorme salão, como se um grande alvo tivesse sido pintado em suas costas.

Dean fez sinal para que eles subirem a escada. Assim que Sam pisou no primeiro degrau ele ouviu um grito feminino alto e estridente vindo de algum lugar, o eco fazendo seu sangue gelar. Não era Isabel, ele sabia que não.

_Dean... – Sam só conseguiu olhar uma vez para figura surgindo de um canto antes que essa o atingisse. Ele sentiu um ombro em seu estômago o atingindo como uma bola de demolição o lançando para longe.

Sam caiu de costas. Viu que mais figuras apareceriam acima da escada e encurralava Dean. Sam não podia ajudar o irmão, o vampiro estava em cima dele, as presas amostra. Sam usou o cabo da faca para atingir o rosto do vampiro. A cabeça do vampiro virou bruscamente, ele então recolheu o braço e lançou a lâmina para frente atingindo o pescoço. Ele fechou bem a boca e virou o rosto quando sangue esguichou.

Sam deu um chute no corpo decapitado para longe. Ele podia ver que Dean lutava com dois deles. Levantou depressa, passou as costas da mão para limpar o sangue da bochecha e correu. Algo agarrou o colarinho de sua camisa e o puxou para trás, para o corredor escuro, para longe de seu irmão.

... — ...

Dean escorregou no degrau gasto e quase caiu, mas no último momento conseguiu se equilibrar. A faca pronta, ele sentia o vampiro a suas costas. Girou e enterrou a faca em sua barriga, sabia que não adiantaria, mas foi o que podia fazer no curto tempo até ser atingido pelo segundo vampiro. Ele puxou a lâmina e o chutou no ferimento aberto, o vampiro caiu para trás com o impacto. Com o segundo fez a mesma coisa, afundou a lâmina no abdômen — de onde estava não conseguiria cortar a cabeça, então tinha que seguir alguns passos primeiro.

Puxou a faca girou e fez um arco com a lâmina no pescoço do vampiro ressurgindo atrás dele, a cabeça caiu para o outro lado do corrimão fazendo barulho enquanto quicava no chão de madeira. Dean virou, o outro vampiro pulou em cima dele, o pegando pelo ombro e empurrando para trás. Dean rolou escada a baixo, girando uma vez e outra, o vampiro em cima dele, seu ombro costurado começando a reclamar. Agarrou o cabo da faca com uma mão e com a outra pegou o corrimão áspero para parar de cair.

O vampiro se agarrou a camisa de Dean que ergueu o joelho e o chutou no meio das pernas, ele não fazia ideia se vampiros sentia esse tipo de dor, mas aquele pareceu sentir. Ele rolou para o lado e Dean girou o facão o descendo em sua garganta, só que o vampiro foi rápido em girar para o lado bem a tempo.

Dean ficou de pé com rapidez, o vampiro já estava a sua espera no começo da escada. Um sorriso no rosto do tipo desafiador, Dean é claro aceitou o desafio. Preparou a faca na mão e partiu para cima do vampiro. O primeiro golpe foi interceptado, o segundo também, o vampiro era rápido e Dean começava a ficar com raiva. Então ele fechou punho, Dean só teve um segundo para pensar em algo, ele conseguiu desviar a tempo, pegou o pulso do vampiro e o puxou para frente batendo seu ombro no dele o impulsionando para o chão, a dor do impacto no ferimento quase o fez de cego. Dean colocou seu calcanhar atrás do tornozelo do vampiro e recuou o pé.

O vampiro desabou no chão com um som surdo pela tapeçaria, uma nuvem de poeira subiu. Dean levantou o facão... um clarão surgiu num dos corredores, lançando a luz esbranquiçada e intensa no salão iluminando os dois. Sua mente disparou com um único pensamento: Sam.

O vampiro soube usar a distração e hesitação de Dean. Aplicou o mesmo golpe que o fez cair. Dean foi ao chão tão rápido que mal registrou o que aconteceu, num momento estava de pé preste a arrancar a cabeça daquele filho da mãe, no outro luz e a preocupação constante com o irmão martelando e Pam! estava no chão rolando na poeira tentando se desviar do aperto do vampiro em cima dele.

Dean lhe deu uma ajoelhada, empurrou sem ombro e conseguiu inverter a posição, sem delongas ele mirou o meio traqueia, fechou a boca, afundou a lâmina naquele ponto. O sangue espirrou em sua camisa e com um último grasnado o vampiro morreu. Indo para sei lá onde. Venci, filho da... Dean já se perguntou para onde os monstros iam depois da morte. Existia uma Monstrolândia? Não importava, com tanto que acabasse com a praga, para ele já era o suficiente.

Ele se levantou rápido. A luz no corredor tinha morrido, logo veio um barulho de coisa se partindo e ele começou correr de encontro ao som cruel da luta.

... — ...

Sam protegeu os olhos quando acendeu o sinalizador banhando o corredor com uma luz branca intensa. Ouve um grito à suas costas. Sam levou o cotovelo para trás atingindo o peito do vampiro o impulsionando para longe. Girou o corpo, mas o vampiro não estava mais lá.

Sam lutou para enxergar qualquer sombra de alguém no corredor. A luz irradiava de todos os lugares, talvez Dean tivesse razão, aquilo os cegaria também. Sam saiu cambaleando para o fim do corredor largo. A faca firme na mão os sentidos alertas.

O foco da luz ia ficando para trás enquanto Sam seguia o corredor imaginando para onde o vampiro havia ido. Descobriu logo depois quando se deparou com uma porta no meio do corredor. Sam pousou a mão na maçaneta. Respirou fundo e tentou controlar os batimentos se concentrando apenas na adrenalina.

Quando ia abrir a porta a mesma irrompeu para frente abruptamente. A madeira apodrecida foi com tudo em sua testa o jogando para trás zonzo. Sam cambaleou e alguma coisa o agarrou pela camisa o tirando da luz e jogando no breu dentro de alguma sala. Ele tropeçou para frente, sendo amparado por um carrinho, daqueles de limpeza em hotéis. Só conseguia enxergar o contorno das coisas com luz que vinha do corredor; uma cadeira com a perna quebrada, baldes empilhados um dentro do outro, esfregões e vassouras dispostas em cantos junto a carrinhos que compactavam tudo aquilo, e prateleiras com potes e frascos. A sala com coisas de limpeza.

Detalhes insignificantes Sam. Sua consciência tinha razão, o tempo que levou examinando o local foi o tempo que o vampiro usou para ataca-lo de surpresa, usando o joelho em suas costas o empurrando para frente. Sam bateu com força na prateleira de produtos químicos, o queixo chegou a estalar com o choque. Ele se virou já com a facão pronto.

A lâmina fez um arco acima da cabeça do oponente, quando a cabeça levantou foi para acerar um soco no pulso de Sam. Uma onda de dor percorreu todo seu braço e com espasmos de nervos ele teve que soltar a faca. Não tinha tempo de pegar de volta, ignorou a dor e atacou.

Os nós dos dedos de Sam acertaram o vampiro na maça do rosto fazendo seu rosto virar bruscamente. O vampiro soltou um rosnado quase animal, as presas afiadas visíveis mesmo na escuridão quase total. Sam ia acertar mais um soco, mas o vampiro interceptou apertando seu pulso dolorido. Mais dor o percorreu. Sam não queria admitir, mas era terrível, algo gradual, não como quebrar o pulso em uma queda de uma vez só, mas algo que ele podia sentir a cada polegada. Seus ossos seriam esmagados e ele estava cego pela dor.

Então sua mente inflamada de dor permitiu que ele lembrasse de uma coisa. Sam rapidamente soltou o braço do vampiro — que tentava inutilmente afastar o toque esmagador. Seus dedos agarraram a seringa com sangue, tirou a proteção da agulha com os dentes e ele viu que o vampiro ia o morder. Com um movimento rápido ele enterrou a seringa no peito dele.

Depois disso houve uma sequência de eventos. O vampiro soltou Sam, se jogou para trás, a luz no corredor apagou os deixando entregue a escuridão total, ouviu-se som de coisas sendo quebradas e derrubadas, e então silêncio.

Sam esperou, o coração se chocando no peito. Ele tentou usar todos os seus sentidos de caçador, o que tinha no momento era audição. Escutou. Não se arriscaria a se agachar para procurar a faca. Com o tato, bem devagar ele conseguiu discernir os contornos dos cabos de vassouras num canto, pegou um. Parecia uma criança brincando com uma espada de brinquedo, dando golpes que na verdade não iriam fazer efeito algum. Mas era o que tinha.

O silêncio era esmagador, ele temia se mexer muito, tentava controlar a respiração para ouvir acima de seus batimentos. E ouviu, um ruído apenas, um passo atrás dele. Girou e como um lançador de beisebol moveu o cabo. A haste atingiu o vampiro e se partiu ao meio. Como resposta o vampiro se lançou para cima de Sam.

Os dois foram cuspidos para fora da salinha, a madeira cedendo ao peso e soltando lascas para todo lugar. Estavam de volta ao corredor poeirento. O vampiro em cima de Sam tentava o morder, ele atacou de novo. O cabo quebrado batendo violentamente em sua cabeça, e ele reagiu com um soco, rápido, uma e duas vezes, até que Sam sentiu o sangue na boca e a cabeça rodar. As mãos do agressor esmagava em seu peito as seringas com sangue do homem morto, Sam sentiu elas se partirem e molharam sua camisa.

O vampiro levou a cabeça para trás projetando as presas prontas para estraçalhar a garganta de Sam. Ele pensou rápido, com a mão livre passo-a no próprio peito e o levou para o rosto do vampiro, lambuzando-o com o sangue do homem morto. O vampiro se afastou como um demônio se refugia da água benta.

Sam assistiu ofegante enquanto o vampiro se arrastava de joelhos se agarrando ao papel de parede mofado e gasto do corredor. Apenas uma sombra sendo visível apenas pelo sangue brilhando no rosto. Sam se levantou. Firmou o cabo de vassoura quebrado nas mãos. O vampiro estava recostado na parede, fraco, Sam deu impulso e afundou o cabo de madeira em seu abdômen. A ponta farpada passou pela carne órgãos e ossos e penetrou a parede podre atrás. Estava preso como uma borboleta num alfinete em mostruário. O vampiro grunhiu fraco de dor.

Sam pegou uma lanterna do bolso e varreu a sala de onde saíram exatamente quando outra luz veio do inicio do corredor. Dean vinha até ele, a luz dançando nas mãos fazendo o vampiro se retesiar mais. Quando chegou mais perto Dean direcionou o facho para o peito de Sam.

_Não é meu. – explicou Sam e viu o alívio no rosto do irmão. Ele colocou a mão dentro da jaqueta e retirou os restos das seringas tomando cuidado para não espetar as mãos na agulha e pequenos vidros.

_E você? – perguntou varrendo Dean como facho da sua lanterna. Dean também tinha sangue nas roupas, também tinha o rosto marcado com alguns cortes e hematomas. Ele assentiu e se voltou para o vampiro preso na parede.

Sam voltou a ação de antes: achar seu facão.

_Então dentuço, quer me dizer onde vocês esconderam uma garota magrela, cabelo escuro cacheado e uns olhos assustadoramente azuis? – perguntou Dean pousando o cotovelo na parede, ao lado do vampiro, e descaçando a cabeça na mão fechada, relaxado como se conversasse com um amigo.

_A garota não humana? Ela deve está morta agora, ou transformada. – Sam ouviu o vampiro dizer fraco quando voltava com seu facão para o corredor. Ele reparou que a única coisa que o mantinha em pé era como estava preso.

_Hum, acho que você esta mentindo, para o seu bem espero que esteja. – o vampiro riu, uma gargalhada fria. Dean ficou de frente para ele com uma expressão séria.

_Posso ouvir sua pulsação caçador, está morrendo de medo... foi um erro entrar aqui... – Sam o interrompeu cortando sua cabeça. Dean lançou um olhar interrogativo para ele.

_Como você disse, não temos tempo para isso, ele não ia falar nada. – Dean concordou.

Saíram no corredor, usavam a lanterna, já sabia que estavam ali a muito tempo, não fazia mais sentido serem tão cuidadosos.

_E aí, para cima ou para baixo? – perguntou Sam quando eles pararam no salão de entrada. Podiam subir a escada, ou continuar para o outros corredores e adentrar a parte de baixo do hotel decaído.

_Vamos verificar aqui em baixo primeiro, deve ter pelo menos centenas de quartos lá em cima. – disse Dean lançando o facho da lanterna para os degraus da escada.

Ele foi seguindo com a luz até... a luz amarelada iluminou um rosto branco e magro no topo, tão repentino que fez os dois recuarem. Eles os ouviram sibilar antes de vê-los na sacada um andar acima. Rostos jovens inexpressivos com ângulos marcados pela luz pálida. Pelo menos seis vampiros o encaravam de cima.

_Sam, não saia de perto. – disse Dean enfiando a mão devagar na jaqueta pegando um dos sinalizadores.

_Espere. – disse Sam antes que Dean o acendesse. Dean congelou. Sam sabia o que os vampiros iriam fazer, iam pular. Se usasse a luz agora os fariam recuar com tempo de se recuperarem. Sam soltou a lanterna no chão, o som na madeira reverberando pelo recinto com uma atmosfera tensa. Ele pegou o sinalizado quando o primeiro vampiro pulou.

_Agora! – o salão explodiu em luz artificial.

... — ....

Alina era religiosa. Descobri isso quando ela começou a rezar baixinho quando os primeiros sons de luta soaram acima. Para ela poderia ser o fim ou a mão de Deus trabalhando para nos salvarmos, mas eu sabia o que era. Os Winchester. Sem Deus do lado deles, apenas dois caras lutando para nos salvar.

_Alina, está tudo bem, eu disse que eles viriam. – tentei tranquiliza-la interrompendo o salmo. Ela me olhou, os olhos castanhos e brilhante de lágrimas. Alina era uma garota bonita, tinha olhos pequenos e intensos, marca da descendência japonesa. O cabelo escuro e escorrido tinha um corte da moda, longo nas pontas da frente e curtos atrás.

_Como consegue ficar tão calma? – me perguntou.

_Não estou calma, na verdade estou morrendo de medo pelos meninos lá em cima. – disse, e era verdade. Meu corpo todo vibrava de vontade de sair dali e ir ajudar.

_Seu namorado está lá? – perguntou ela. Sorri pensando no assunto, a minha vida amorosa estava tão tumultuada que eu nem sabia mais como chamar aquilo. Ela assentiu. _Saquei, ainda não tiveram à conversa.

_É por aí, só que bem mais complicado. – ela fez que sim de novo com um sorriso trêmulo. _Quantos anos você tem? – perguntei. O som lá em cima ficava mais estrondoso.

_Dezenove e você?

_Vinte e dois.

_Quer rezar comigo, pelo seus amigos? – perguntou ela com os olhos expressivos.

_Ah, não, eu não sou muito de rezar. – disse de modo que não desrespeitasse sua crença. Ela assentiu uma vez e recitou:

"Deus deseja impedir o mal, mas é incapaz?

Então não é onipotente.

É capaz, mas não deseja?

Então é malevolente.

É capaz e deseja?

Então de onde vem o mal?

Não é capaz nem deseja?

Então por que chamá-lo de Deus?"

_Meu pai citou para mim uma vez, ele também não era muito de rezar, mas tinha lá sua fé. Foi uma das últimas coisas que me disse antes de morrer. É uma coisa velha, grego antigo, eu acho. – explicou ela.

_Eu gostei. – disse. _Nós vamos sair daqui Alina, vou tirá-la daqui. – ela assentiu e sorriu fraco, não sabia se acreditava em mim ou não, mas eu cumpriria o que disse. Tiraria Alina dali.

De uma vez só tudo parou. E som de passos pesados foram ouvidos se afastado para longe. Tinha que gritar.

_Temos que gritar. – disse para Alina.

_Mas e os vampiros não vão ouvir? – perguntou preocupada.

_Acho que não tem mais vampiros. – esperava que não. Esperava que os passos lá em cima fossem Sam e Dean. _Vamos.

Alina irrompeu em um grito de socorro e eu chamei por Dean.

_Sammm! – gritei até ficar rouca. Teve mais movimentação mais próxima. Passos correndo. Por favor, que seja Sam e Dean.

A porta se abriu. A primeira coisa que notei era que não era Sam ou Dean. Robbie nos encarou com presas à mostra. E então eu sorri, não pela situação e não para ele, mas por que Dean estava preste a cortar sua cabeça. A faca desceu e a cabeça voou quicando em um degraus e depois rolando para baixo parando perto de mim, os olhos abertos sem foco dele fixos em mim.

Dean pulou o corpo atravessado no caminho e desceu o resto da escada, quase num pulo. Ele correu para mim, mal notou Alina, meu coração pulava no peito o chamando. Meu herói. Mas antes que ele fizesse menção em me tirar das algemas disse:

_Ela primeiro. – indiquei Alina com a cabeça. Ele hesitou um instante e fez oque pedi. Examinou as correntes e o cadeado prendendo as algemas.

_Preciso que estique o braço e a corrente. – Alina olhou para mim e eu afirmei indicando para fazer o que Dean pediu. Ela fez. Dean não estava exatamente na sua melhor apresentação, tinha sangue no rosto um pouco ferido e nas roupas, ficava um pouco assustador à pouca luz.

Dean sacou a arma e a posicionou no cadeado de modo que pudesse atirar sem machucar Alina. Pediu para que ela não se mexesse e fechasse os olhos. Olhei para o alto da escada. Onde estava Sam? O tiro soou alto, Alina deu um gritinho de surpresa. Dean terminou de solta-la perguntando se estava bem, ela confirmou então ele parou a minha frente.

Ele não precisou pedir, fechei os olhos estiquei as correntes e esperei o tiro. O som alto zuniu no meu ouvido enchendo ele com barulhos de sinos. Dean estava ajoelhado de frente para mim, com um ar preocupado ele pegou de leve meu queixo e inclinou um pouco minha cabeça para poder ver melhor o ferimento no meu ombro. Depois pegou meus pulsos marcados.

_Tudo bem? – perguntou olhando para baixo. Assenti, mesmo sabendo que ele não olhava para meu rosto.

_Você veio. – disse.

_É claro que vim, não ia deixar minha garota ser jantar de sangue suga. Você é minha torta, lembra? – disse ele com um sorriso torto.

_Cuidado, está deixando aparecer seu lado Romeu. – ele abriu um novo sorriso e olhou para mim.

_Não sou romântico, só tenho um apetite egoísta. – uma sombra apareceu no topo da escada que reconheci como sendo Sam. Deixei a leve pressão da preocupação por ele evaporar. Nossos olhos se cruzaram numa pergunta silenciosa "você está bem?" Fiz que sim levemente com a cabeça e ele se voltou para Dean.

_Dean, temos que ir. – disse Sam urgente.

Dean me ajudou a levantar. Meu corpo estava moído, balancei a mão com o formigamento da circulação do sangue retornando normalmente. Dean me entregou uma injeção com sangue e uma faca, não muito grande, mas podia fazer um estrago.

Dean tomou a frente depois Alina e por último Sam e eu. Seguimos nessa formação até o andar de cima do que, agora via, se tratar de uma adega ainda com garrafas cobertas de um espesso pó nos barris e o cheiro de bebida alcoólica recentemente aberta.

Fomos parar em uma cozinha, os fachos da lanterna de Sam e Dean iluminando poucos detalhes, como teias de aranha no fogão industrial e nas mesas de metal enferrujadas e o mais chocante foi o corpo estirado de Lydia em uma delas. Alina começou respirar forte ao meu lado. A cabeça pendia da plataforma, os cabelos caindo da beira como uma cacheira dourada, os olhos claros estáveis em um ponto fixo. O sangue escorria lentamente da sua boca num filete fino. A pele do seu pescoço estava tão rasgadas pelos caninos do vampiro que soltara em alguns pontos. Era grotesco.

_Oh, meu Deus. – sussurrou Alina, a mão cobria a boca e os olhos estavam cheio com o princípio das lágrimas.

_Vamos, temos que sair daqui. – disse Dean. Engolindo em seco segurei o braço de Alina para conseguir movê-la para frente.

Andamos em um silêncio sepulcral até a parte de cima. Saímos numa sala e finalmente percebi que estávamos perdidos e para complicar ainda mais a lanterna de Dean começava a falhar. Se apagasse teríamos apenas uma fonte de luz.

_Acho que não faria mal se você fizesse sua mágica com a luz. – disse Dean para mim.

_Eu não faço mágica com a luz. E não é algo que eu controlo precisamente. – sussurrei de volta quando entramos em outro corredor escuro como breu. Ele sorria.

_O que é tão engraçado?

_Nós tendo que resgatar você, como a donzela em perigo. – disse com um risinho.

_Cala a boca.

_Shhh – sibilou Sam para nós dois. Nos calamos e ficamos atentos. Sam virou para trás subiu o facho de luz e... arfei quando no final do corredor dois vampiros se tronaram visíveis, Chuck era um deles o outro uma mulher alta e esguia numa calça de couro e botas de salto.

_Está de brincadeira, o que é isso, o clubinho do Drácula? – murmurou.

_Leve a garota para fora daqui. Siga o corredor e suba as escadas, saia pelo salão e espere no carro. – sussurrou Dean me entregando sua lanterna e as chaves do Impala. Chuck fez o primeiro movimento.

_Mas Dean, eu posso...

_Vai! – Dean foi para cima de Chuck, Sam para mulher. Os facões erguidos.

_Isabel? – disse Alina num fio de voz. Por mais que queria muito me meter na briga e ajudar Sam e Dean, tinha que colocar Alina em segurança.

_Tudo bem, vamos. – a peguei pelo braço e corremos.

Corremos como nunca pelo corredor, o barulho do piso velho e a poeira levantando nos acompanhando, o som da luta ficando para trás. Tinha mesmo uma escada para o final do corredor. Entreguei a lanterna falhando para Alina e segurei firme o facão como Dean ensinara.

Saímos numa área ampla, provavelmente o salão que Dean mencionou. Paramos quando vimos o primeiro corpo sem cabeça. A luz da lua entrava pelas janelas altas e iluminava o recinto com um brilho perolado que tornava a luz da lanterna dispensável e o sangue brilhando em prata.

Vários outros corpos e cabeças estavam espalhados pelo piso sujo e nas escadas. Finalmente entendi que aquilo era um antigo hotel. Alina tremia ao meu lado, chocada com a visão. Pousei minha mão no ombro gentilmente.

_Temos que ir. – disse em tom baixo. Aos poucos ela foi dando passos hesitantes tentando desviar ao máximo do sangue e os corpos. Era meio que impossível não sujar as solas dos sapatos.

Conseguimos finalmente um pouco do ar puro da noite. Descemos correndo as escadas e chegamos ao portão. Praticamente nos jogamos contra as barras que não cedeu passagem. Estava trancada por uma corrente com um cadeado unindo dois anéis.

_O quê faremos agora? – perguntou Alina. Um vento frio soprava a região e a lua mais parecia um holofote. Tentei pensar em algo para fazer. As barras eram gastas de até soltar ferrugem na mão, se quebrássemos as barras certas...

_Vamos ter que quebrar isso aqui. – disse pegando uma das barras em volta à corrente. _Pegue a outra.

Fizemos força. As mãos ficado vermelhas de ferrugem. Puxamos mais um pouco usando todo o peso dos nossos corpos para trás. Ouvi um farfalhar, relaxei o aperto e olhei para meu lado direito. Tinha alguma coisa nas sombras de uma árvore ao lado.

Peguei o facão no chão e me preparei, atenta como Dean tinha feito antes.

_Isabel? – perguntou Alina. Sinalizei com o dedo para que ela ficasse quieta.

Dei alguns passos à frente, os pés esmagando as folhas e capim seco. Fiquei parada encarando a árvore, os tentáculos escuros se entendendo para mim não deixando a luz esbranquiçada da lua me alcançar.

Foi então que houve outro farfalhar e aos poucos uma figura foi se materializando, saindo das sombras e parando com a mão espalmada no caule da árvore, como se quisesse tirar energia da madeira. Ela não parecia querer me atacar, mas fiquei preparada.

_Ei! – chamei. Ela se virou para mim. Não deveria ter nem dezessete anos. Os cabelos eram longos e castanhos. Ela sorriu para mim.

_Eu amo a noite, tem certa... magia. Você não acha? – perguntou ela. Fiquei muda. Era uma menina bonita e tinha certa inocência nos seus olhos escuros. Chegava a ser duvidoso que seria alguém capaz de rasgar a garganta de outra pessoa. _Não deveria está aqui.

_Concordo com você. – disse. Tinha noção de Alina paralisada atrás de mim com a respiração forte.

_É hora do jantar caçadora, e sabe, eu ainda não comi. – ela deu um passo à frente. Usei todo o meu autocontrole e um tanto de coragem para não recuar.

_Bem, não acho que façam entrega nesse endereço. – ela sorriu docemente , os dentes inumanos começando a pontuar sua boca. Não esperei mais, ataquei com o facão.

A vampira conseguiu bloquear meu golpe, apertando meu pulso, ela imobilizou meu braço e chutou minha barriga. Me curvei com o golpe e usei a posição para acerta com o ombro seuu abdômen. Levei ela para trás, o corpo bateu na árvore com força. Ela me soltou. Girei a faca na mão e lancei para o pescoço dela. A vampira se abaixou, a faca se enterrou na madeira atrás, tentei puxar de volta, mas tinha ficado presa.

A vampira me agarrou pelo ombro, como duas garras de uma águia, e me jogou para trás com tanta força e sentia meus pés saírem do chão e minhas costas afundarem o mato alto. Atrás de mim Alina gritou. A vampira se jogou por cima do mim. Seu corpo em cima do meu parecia pesar toneladas.

Agarrei sua confusão de cabelo impedindo-a de avançar com os dentes no meu pescoço. Ela rosnava feito um animal coagindo a presa. Os olhos, antes puros, agora cheios de uma fúria assassina e uma voracidade quase insana. Ela balançava a cabeça tentando avançar. Fechei os dedos com mais força no seu cabelo e soltei a mão direita. Levei o punho para trás e depois para frente acertando uma no seu queixo. Ela provavelmente não sentiu dor, mas sua cabeça virou bruscamente para o lado.

Conseguindo essa distração levantei o joelho e chutei a lateral de seu corpo usando todo o meu para poder girar e ficar por cima. Empurrei-a e conseguir fazê-la cair para o lado. Fiquei de joelhos e me levantei com pressa para buscar o facão. Nem cheguei perto, ela me agarrou pela camiseta e me puxou para trás jogando-me com força bruta contra o portão. O portão balançou fazendo barulho. Pensei que fosse se abrir, mas não. Tinha certeza que as marcas das barras estariam estampadas nas minhas costas.

_Alina, corre para os fundos! – gritei no exato momento em que senti o joelho da vampira acertar minha costela. Reagi de imediato conseguindo acertar um soco em seu nariz e empurra-la para trás. Foi então que dor se fez presente, numa explosão tardia em toda região das costas e abdominal me paralisando por alguns segundos e me fazendo buscar o ar com mais força.

Vi Alina correr e depois foi tudo tão repentino que achei que era efeito da dor; Alina só correu alguns metros e uma figura pequena apareceu atrás dela e no outro segundo ela estava no chão o grito desesperado rasgando os céu estrelado.

Tentei correr para ela, mas já estava envolvida com a vampira que pela mínima distração minha conseguiu devolver o soco que dei. A adrenalina era tanta que nem senti dor, só senti meu rosto acertar a barra de metal atrás de mim e alguém me agarrar pela gola da camiseta. Meus dedos se envolveram em uma das barras quase solta. Outro grito de Alina, um pedido de socorro estridente. Puxei a haste com toda a minha força restante, usando a força contrária da vampira que insistia em me deixar longe do portão, o metal se soltou.

Virei a barra na mão, não pensei direito nem calculei muito, só senti a ponta penetrar na barriga da vampira. O metal enferrujado afundando em sua carne e ultrapassando suas costelas. Ela me soltou e cambaleou para trás. Não fiquei para ver o que aconteceria, corri para Alina.

Os poucos metros que me separavam dos seus gritos pareciam quilômetros. De onde estava via dois corpos se engalfinhando no grama alta se aproximar. Estava quase chegando quando algo zuniu perto do meu ouvido, algo quebrando a pressão do ar, e só vi o que era quando aterrissou um pouco á frente de mim me fazendo parar bruscamente. Minha orelha ardeu numa dor irritante, e a barra, que usei para acertar a vampira, fincada no chão como um dardo lançado. Por muito pouco aquilo não perfurou minha cabeça.

Me virei sincronizando o movimento com a vampira, ela olhava para Sam atrás dela com o facão erguido para em seguida desce-lo no seu pescoço fazendo sua cabeça se desprender do corpo e voar num arco com a força aplicada no golpe.

Dean corria até mim. Me virei para recomeçar a correr e paralisei. Logo ali perto estava um homem, uma espingarda de cano duplo na mão. A arma foi erguida, um pequeno acerto de mira em seguida os canos da arma brilhou num lampejo antes que registrasse o som do disparo.

Dean parou ao meu lado, tinha sangue no rosto e um hematoma recente na mandíbula. Chegamos mais perto da cena. Um corpo pequeno estava jogado para o lado com um arrombo na cabeça loira. Desviei o olhar, era só uma criança, a mesma que me atacou antes. Voltei os olhos para o delegado Donovan, ele retribuiu o olhar. Por alguma razão reconheci aquele tipo de olhar, não por ter conhecido ele antes, mas o sentimento que transmitiu, um fio esticado apenas para mim. E eles diziam a mais profunda declaração de tristeza e solidão. Algo vazio de quem já perdeu tudo.

De alguma forma sabia o que viria a seguir. Dei alguns passos apressados até ele, mas tudo acabou rápido demais para eu impedir. Numa sequência ele levantou o cano da arma para o próprio queixo e disparou. O som estalou nos meus ouvidos, o sangue quente espirrou no meu rosto deixando minha bochechas marcadas como se fosse lágrimas. Ele não tinha mais rosto, o rastro da bala levou consigo seu olhar e sua expressão e qualquer sinal de humanidade. O corpo caiu, mas aquela imagem parecia estática na minha visão.

Dean me puxou gentilmente para trás, fui sem protestar. Sam ajudava Alina a se levantar. O corpo todo dela trêmulo e uma expressão de assombro e um pouco atônica estampava o rosto. Ela me olhou com olhos arregalados cheios de lágrimas, colocou a mão no pescoço machado de sangue, dava para ver os furinhos nele. Dean a ofereceu um lenço e ela o pressionou no pescoço.

_Eu vou... vou virar uma dessas coisas? – perguntou ela preocupada.

_Ela sangrou em cima disso? – perguntou Dean. Alina fez que não.

_Ela só... me mordeu. – respondeu em tom fraco.

_Não vai se transformar, pode ficar tranquila. – ele me olhou. _E você? Tudo bem?

_Estou bem. – respondi rápido dispensando sua preocupação.

_Temos que sair daqui, alguém pode ter chamado a policia por conta dos disparos. – disse Sam.

Queria poder ter tempo para pelo menos enterrar Donovan e a menina, mas sabia que não teríamos tempo para isso, só podia seguir os meninos para o portão e enterrar aquele sentimento.

Depois que conseguimos destrancá-los saímos depressa nos escondendo ás sombras da rua para chegar ao Impala.

_Eu sei, as vezes odeio esse trabalho também. – disse Dean para Sam que pela expressão dizia tudo oque eu sentia.

Entramos no carro e voltamos a ficar tão silenciosos quanto a pilha de mortos que deixamos para trás.

...

Levei Alina até onde podia da porta do hospital. Foi bom receber o abraço dela e o agradecimento. Daí confirmamos a versão de que Alina tinha sido atacada por um cachorro, e ela prometeu não contar nada à ninguém sobre vampiros e coisas assim.

Dean me esperava encostado no carro com os braços cruzados, ainda com as roupas sujas de sangue, assim como eu. Sam estava dentro do carro esperando.

_E aí, ela vai ficar bem? – perguntou.

_Vai, é uma garota forte. – respondi.

_Sabe, até que você é uma boa caçadora. – estranhei a declaração, por isso fiquei num meio termo entre um sorriso.

_Acho que foi a coisa mais legal que você já me disse. – respondi, ele sorriu de leve.

_Só estava escrito no meu signo para hoje que deveria dizer algo legal para algum idiota, você estava no topo da lista, então... – só Dean mesmo para me fazer rir numa situação daquelas.

_Bobby tem razão, você é um idiota. – ele sorriu mais ainda e abriu a porta traseira do Impala. Entrei sentindo todo o peso da noite ficar um pouco mais leve.

... — ....

Acordei com um barulho do lado de fora. Levantei a cabeça para olhar pela janela fechada. Ainda estava escuro e o silencioso lá fora. Dean dormia pesadamente no banco da frente e Sam não estava lá. Estalei o pescoço por conta da posição que adormeci. Arrumei o cabelo em um coque alto e saí do carro o mais silenciosa possível.

Estremeci no frio de inicio de inverno, apertei o fino cardigã em volta do corpo levando o ar gelado para os pulmões. A grama abaixo dos meus pés estava úmida e escorregadia. O fim da madrugada estava claro o suficiente para eu enxergar bem para onde ia e não tropeçar nas vinhas no chão.

Depois de passar um tempo no hotel cuidando dos ferimentos e depois de um banho rápido, trocamos as roupas sujas com sangue — a recepcionista quase teve um treco quando nos viu — e decidimos pegar a estrada. Mas o cansaço se abateu sobre nós, então Dean decidiu parar o carro numa área a beira da estrada para dormimos um pouco. Antes ele tinha me colocado a pá do que eles descobriram sobre o caso depois que fui levada. Ainda sentia por ter deixado Donovan e a família do jeito que estavam, mortos no chão frio. E pobre Emily.

Andei um pouco até a inclinação que a encosta fazia. O que me recebeu foi Sam com uma arma apontada para mim. Ele relaxou quando percebeu que era eu.

_Ah, é você. – disse, eu jurava que senti um certo desapontamento em sua voz. Senti aquilo como um tapa na cara. Então ele preferia um monstro ou um ladrão à mim?

_Não se preocupe, eu não quero quebrar sua meta de me evitar a todo custo. – disse ríspida, encontrando em mim uma fagulha de raiva que nunca esteve presente com Sam. Me virei para subir a encosta de volta para o Impala.

_O que você esperava de mim, que eu fosse recebe-la de braços abertos? – rebateu ele me fazendo virar.

_Sam, se tem algo para me dizer, me diz logo, não fique tentando me afastar.

_Tudo bem. – me preparei para o que viria com o coração palpitando. _Eu fiquei sim com raiva de você, talvez ainda esteja um pouco, eu acho. Foi um pouco difícil para mim passar por cima disso como Dean fez. Por que você me fez sentir como um idiota, usado, só por que não confiou em mim, ou Dean. Seus amigos. Preferiu manipular e agir com Miguel soprando no seu ouvido à nos contar o que estava acontecendo...

_Sam, era Miguel e Lúcifer! Meu irmão entre eles. Vocês são bons, mas as vezes as pessoas se machucam. Não podia deixar que fosse meu irmão. – respondi com raiva, mal administrada. Não queria brigar com Sam.

_Isabel, eu perdoei...

_Eu não pedi pelo seu perdão. Eu fiz o que fiz por que era o único jeito de salvar meu irmão e não vou me desculpar por isso. Eu ferrei com tudo? Sim, mas eu sei que você e Dean fariam a mesma coisa um pelo outro. E não precisa acreditar em mim quando eu digo que tudo o que passamos juntos foi real, por que para mim foi. E foi... maravilhoso, de um jeito que você... – parei de falar quando senti que minha voz estava embargando. A raiva ia se esvaindo de uma única vez. Sam respirou fundo e desviou o olhar para a grama abaixo.

Eu não sabia até aquele ponto o quanto aquilo me magoava. O quanto sentia como um espinho no coração por ter magoado Sam. Ele se tornou alguém tão importante para mim que doía tanto ter de me manter a distância. Era disso que me arrependia, o que valia a minhas desculpas. Ter o ferido no processo, não por ter feito o que tinha que fazer.

_Eu não... – começou Sam dando um passo a frente. Juntei os braços em volta da cintura tanto para afastar o frio quanto para não me entregar aos espasmos que sofria para conter no peito. A um passo de desabar. _Eu não odeio você. Só queria que soubesse que o que faz tem consequências. Que não precisa brincar com os sentimentos dos outros para conseguir alguma coisa. Mas... nunca conseguiria odiar você. Disse no hospital que entendia suas razões e entendo.

_Então, por que me quer longe? – perguntei com voz trêmula. Desviei o olhar para as árvores ao lado e a cidade a distância. Não ia chorar. Não posso chorar.

Sam não disse nada por isso me obriguei a olhar para ele. Ele olhava para o ponto onde antes meus olhos estavam. Passou a mão pelo cabelo e respirou fundo. Parecia conter alguma coisa, talvez uma explosão de raiva, pensei, ou talvez não quisesse me dizer o que me queria longe dele por que sabia que isso me magoaria. Meu coração parecia que ia diminuindo cada vez mais. Sam finalmente olhou para mim, os olhos expressivos em um certo desespero mudo.

_Por que eu quero você. – despejou. Foi como se ele tirasse um peso das costas. _Doí para mim saber que eu não posso ficar com você. Doí até está perto de você por que tudo em você é um lembrete constante do que eu estou perdendo. Se aquela foi maravilhoso para você, para mim foi... foi catastrófico, de um jeito bom e ruim ao mesmo tempo. Por que eu achei que tinha encontrado algo que perdi há muito tempo. E era só você. Antes eu tentei de todas as formas possíveis ignorar por que você era a garota do meu irmão, ainda é. Mas eu ganhei cicatrizes por você, comprei uma maldita fita para você, quase me entreguei ao diabo só para que você tivesse o seu irmão de volta. Eu até te levei à um encontro. – ele sorriu amargurado e sem um humor verdadeiro. _Agora tenta imaginar como foi para mim saber que você armou todo um esquema para consegui meu Sim, que era só ter pedido e eu diria. Imagine como é difícil está apaixonado por Isabel Corand.

Meu rosto estava quente pelas lágrimas que escorriam sem controle. Estava tão... abalada. E ele continuou de modo que se não colocasse aquilo para fora fosse sufocar:

_E é isso mesmo, eu amo você, e não me importo se você não sente da maneira que eu sinto. Eu só tenho que dizer agora. Por que oque não posso mais é ficar carregando esse... peso de te amar e, por conta disso, ter de ficar longe. Nunca perto o suficiente. E por favor, não se sinta na obrigação de corresponder ou ter de dizer alguma coisa. Não quero te colocar nessa situação.

Um soluço abalou meu peito. Nunca em anos eu poderia prever oque sentia agora. Nunca nem quando eu encontrei Dean pela primeira vez eu sonharia que iria sentir tanto amor. E que esse amor seria multiplicado. De modo que eu só sabia manifestar em lágrimas com o quão dolorido era. A espada da indecisão perfurando meu peito.

_Por favor, pare de chorar. – pediu Sam vacilando em seu lugar a poucos metros de mim.

_Eu.. eu não sabia. – respirei fundo e tentei me controlar. Passei as mãos pelo rosto afastando as lágrimas. Sam tirou um pedaço de papel do bolso — um guardanapo — chegou mais perto e me ofereceu. O peguei e assoei o nariz nele. Definitivamente eu deveria está nojenta.

Queria muito poder retribuir aquela declaração, mas simplesmente as palavras adequadas fugiram da minha cabeça e foram espalhadas no céu acima. Não poderia alcança-las e nem lê-las de tão longe.

_Sam, me desculpe por ter te magoado, por não ser quem você esperava que eu fosse.

_Você sempre foi a mesma para mim, só que eu ainda não tinha visto seu lado mais sombrio. Do mesmo modo que você nunca viu o meu. – disse.

O vento frio soprou na minha nuca exposta me deixando arrepiada e fazendo um cacho do meu cabelo soltar do coque. Sam esticou a mão para meu cabelo desfazendo o nó. Os fios caíram para meu pescoço e ombros, amenizando um pouco o frio na região. Meu rosto esquentou, meu cabelo deveria está como um ninho de rato, não tinha passado o pente neles e nem nada e meu rosto ainda estava marcado pela a luta com a vampira. A vontade que tive de afastar sua mão e refazer o coque foi grande.

_Eu sei, eu devo está parecendo a Bellatrix. – falei sem graça e vermelha. Sam deu um sorriso rápido trêmulo, ele conhecia a referência.

_Eu gosto do seu cabelo. – disse exatamente as palavras que havia dito para ele ao que parecia ter sido há anos, não dias. Sua mão desceu para meu rosto. Cobri sua mão com a minha e a afastei do meu rosto entrelaçando nossos dedos. Sam parecia preste a se afastar de novo, os músculos tensos, mas me mantive firme no gesto.

_Queria poder chamar você para sair agora. – disse conseguindo arrancar dele um sorriso.

_Não podemos. – respondeu ele olhando nossas mãos juntas. Estávamos perto um do outro, pouca coisa nos separando. Mas eu queria está mais perto que isso, queria me enrolar em seu braços para afastar o frio. _Mas podemos ficar aqui, olhar as últimas estrelas.

_Parece um encontro para mim. – disse e ele me puxou para um pouco mais baixo na encosta.

Sentamos numa área ampla de grama onde a vista era a cidade abaixo entre as árvores. Um tapete de luzes, parecia que o céu acima tinha descido e se entrelaçado entre os prédios. Dei um pulo quando senti algo pesado em meu ombros, relaxei quando vi que era só a jaqueta de Sam. O calor de seu corpo ainda nela me aquecendo gradativamente enquanto me envolvia no tecido pesado esperando sentir naquilo como se fosse seu abraço.

Sam desceu as costas para trás, o rosto apontado para o céu, e a cabeça em cima da palma da mão. Fiz o mesmo. O céu se ampliou para nós, uma grande rede de veludo azul cobalto pontilhados por estrelas tão brilhante quanto diamantes. A luz estava baixa, não ia demorar até o amanhecer. Me senti tão pequena diante da imensidão daquilo. Meus problemas sendo diminuídos.

Olhei para Sam ao meu lado. Queria poder ser uma desenhista e desenha-lo ou então ter minha câmera para poder eternizar aquele perfil perolado pela luz da noite. Sam me pegou olhando para ele.

_Disse que queria poder me chamar para sair, para onde iria me levar? – perguntou Sam, os olhos na pouca luz brilhando.

_Todo lugar. Qualquer lugar. Onde queria que eu levasse você? – perguntei voltando o rosto para o céu.

_Qualquer lugar para mim seria incrível. – respondeu Sam, ainda podia ver seus olhos em mim como canto de olho. Ele estava sorrindo.

_Então qualquer lugar é o que seria.

Ficamos em silêncio por um longo tempo, contemplando o céu. Tão bonito que parecia ter sido moldado por um artista e não consequência de um evento natural. De repente me veio uma pontada de tristeza, algo mais concreto que agora percebia que vinha sentindo há meses. Como se de alguma forma aquela visão tivesse destrancado aquele sentimento em mim e ele estava preste a transbordar.

_Eu não quero morrer, Sam. – Sam virou o rosto para mim e ajeitou a postura se apoiando no cotovelo.

_E não vai. – disse com muita certeza. Olhei para ele.

_Eu sei que se fosse atrás de Lúcifer, se conseguisse matá-lo eu morreria no processo, para mim estava tudo bem, até à poucos dias atrás eu estava bem com esse ataque camicaze, afinal não tinha nada para deixar para trás...

_Não diz isso, você tem a mim, Dean, o Bobby e seu irmão. Você faz parte disso agora, é da família. – disse Sam numa voz que transpirava confiança e algo como um desespero de que eu não acreditasse nele. Ele queria que eu acreditasse, era como se ele precisasse que eu acreditasse.

_E é por isso que não quero morrer. Eu tenho meu irmão agora, quero está lá por ele no futuro, quero poder vê-lo crescer, ir para faculdade, a primeira namorada, só quero poder vê-lo viver. Mas aí eu penso o quão egoísta estou sendo. E se tiverem razão e eu ser a única capaz de parar esse caos? Não é isso o que importa, salvar pessoas. Não posso simplesmente me agarrar a vocês e deixar que tudo morra por que eu não queria abrir mão de tudo. – Sam se sentou, olhou para frente fixamente, parecia pensar no que eu disse ou simplesmente não queria ter de ouvir aquilo.

Me sentei apertando sua jaqueta em volta do corpo. Olhei para o mesmo lugar que ele, a cidade abaixo. Um mundo de concreto, metal e um dos habitat do homem, tudo aquilo preste a quebrar e morrer.

_Isabel, precisa ter fé. – disse Sam com voz baixa.

_Fé? Não tem ninguém para nos salvar. – respondi. A amarga verdade embolada na garganta.

_Mas sempre temos à nós mesmos. Acredite em você, lute para continuar, faça a sua parte e eu faço a minha. E ficaremos bem. – ele não acreditava nisso de verdade, só queria muito acreditar.

_Mesmo se eu, não sei, der para trás em tudo isso, Ele vai me achar. Vai me arrastar para guerra de novo, eu não sei se posso resistir, não sei se sou forte o suficiente. Na verdade não sou. Eu matei o Dean, simplesmente por que era isso o que Ele queria. Posso continuar dizendo a mim mesma que sabia o que estava fazendo, mas não posso fingir que não fiz aquilo por que Ele me disse para fazer. – talvez fosse isso que Dean queria ouvir de mim e não tive coragem de dizer. _Se eu não enfrentá-lo ele vem atrás de mim e vai me usar como arma nuclear, me matando no processo ou me transformando em algo que não quero ser. E eu fico dizendo que vou matá-lo, que vou matar todos, mas na verdade eu não sei se posso fazer isso. Fiz todo um discurso para os demônios sobre como sou forte e invencível, mas na verdade sou só um produto criado por Lúcifer e estou fadada a sucumbir à ele.

Sam me encarou como se não acreditasse no que eu estava falando.

_Eu posso senti-lo em mim. Como um vírus percorrendo no meu corpo, é uma ligação tão forte que tentar matá-lo seria como colocar o Superman para nadar num mar de kryptonita. Há uma pequena chance de ele conseguir chegar à margem e outra com ele morrendo no meio do caminho. A metáfora é ruim, mas é essa chance que eu tento me agarrar e continuar com isso.

Sam se calou por um tempo. Uma expressão indecifrável desenhada no rosto.

_Quando se sentir assim, não pense, apenas tente olhar em seu coração. Tente enxergar você através Dele. Cada sentimento, como seu irmão, Dean...

_Você. – acrescentei achando que ele não se juntaria a soma. Ele só assentiu sutilmente.

_Isabel, apenas se deixe sentir por isso. Ache a falha na armadura que ele criou em você. Use isso para achar uma saída. Para se libertar. Eu ainda acredito em você. Você é forte. Pode fazer a escolha que eu não consegui. – ele olhou para as mãos os pensamentos distantes. _Sabe, Ruby me disse algo logo depois... logo depois de tudo. Ela me disse que me ofereceu as opções e que as escolhas foram minhas. Estava certa. Eu deixei que ela soprasse no meu ouvido, eu escolhi seguir aquele caminho, como escolhi tomar a primeira gota do sangue do demônio. Escolhi errado, muito errado. Mas... posso te pedir só uma coisa?

_O quê? – perguntei vendo em seu rosto algo como um fiapo de esperança remanescente que lutava para não deixar dissolver.

_Não o enfrente. Não use seu poder para isso. Acredito que você possa fazer diferente. Se Ele vier até você faça o que não fiz, seja melhor do que eu fui e mostre para qualquer demônio que mesmo tendo o sangue de um deles nas veias, você não é como eles. Encontre em você e em mais ninguém a garota forte que é e tenha fé nela, se não tem em nós. – pediu suplicante.

_Sam...

_Não faça isso consigo, com seu irmão...

_É por ele que eu deveria fazer. – ele balançou a cabeça, ainda não iria se convencer por mim. Abracei os joelhos convencida no que dizia.

_Tem muita nobreza no sacrifício, mas também é uma atitude egoísta. Enxerguei isso quando Dean se sacrificou por mim, eu não estaria aqui se não fosse por ele. Eu tive que deixar meu irmão ser arrastado para o inferno só por eu está vivo. Vendo de um ponto de vista isso foi uma demonstração indiscutível de amor, mas na minha visão eu fiquei com a dor e culpa quando ele se foi. – era primeira vez que Sam falava no assunto. Já tinha ouvido a versão de Dean sem arrependimento do que fez por Sam, uma lealdade ao irmão inabalável, que mesmo que tenha sofrido horrores ele faria de novo se preciso. Tudo por Sam. E eu era uma das pessoas que achava aquilo uma demonstração indiscutível de amor. Mas também conseguia entender o lado de Sam.

_O que eu deveria fazer?

_Confiar em nós. Podemos fazer isso juntos. Eu e Dean perdemos muito em toda nossa vida. Nossos pais, amigos, eu perdi a Jessica... Não quero perder você. – só conseguia olhar para ele. Imagine como é difícil está apaixonado por Isabel Corand .

_Como consegue fazer isso? Gostar de mim? – perguntei sendo complemente sincera na pergunta. Ele sorriu e olhou para o lado.

_Não é tão difícil quanto imagina. E só isso que precisa saber, já fiz elogios demais à você por hoje, não quero que fique convencida. – disse ainda sorrindo.

_Ah, poxa, queria tanto ouvir você dizer o quanto sou maravilhosa e incrível, e que qualquer um se renderia ao meu charme e encanto. – lamentei sendo completamente sarcástica. Sam riu. Um som alegre e incomum naqueles dias.

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Segui com o polegar a linha de seu maxilar, parando na pequena cavidade de sua covinha, ele tinha a atenção voltada para mim agora. Me inclinei para o lado e lhe dei um selinho. Ele olhou para baixo e recuou.

_Sam?

_Isabel, não... posso. Estou usando todo o meu controle para não agarrar você aqui. – senti meu sangue esquentar.

Num ímpeto tão natural e involuntário sentei em seu colo e o beijei. Algo tão repentino o pegou de surpresa que no começo eu comandava o beijo, usando meus lábios para abrir caminho entre os seus. Mas logo ele pegou o ritmo e me correspondia com urgência e intensidade onde nossas línguas tentava encontrar espaço, onde ele ia com sua e me provocava com choques de excitação.

Me agarrava a sua nuca como se ele fosse se afastar a qualquer momento, mas só em sentir suas mãos presas no meu quadril eu sabia que ele não iria a lugar algum. Seu coração batia forte contra a camisa fina e o meu acompanhava em uma sintonia.

Começávamos a perder o fôlego, daí separamos o beijo ofegantes. E via nos olhos dilatados de Sam que ele lutava para manter o controle. Também tinha de reuni todo o meu juízo para parar por ali. Sam me fitou por um tempo e sorriu. Os batimentos acalmando. O desenho desenfreado encontrando freio. Foi um sorriso tranquilo e nada sofrido, ele só sorriu e pensei no que pensava, no que pensava de mim, daquela loucura. Sorri também e encostei minha testa na sua.

_Obrigada. – sussurrei com os olhos fechados, respirando o ar que ele respirava e sentindo oque ele sentia.

_Pelo o quê? – perguntou no mesmo tom.

_Por me amar. – ele respondeu com um beijo rápido.

Saí de seu colo e me sentei ao seu lado vendo o dia começando a chegar. No horizonte se via surgindo o sol, uma gema grande e laranja que enviava seus raios até nós nos aquecendo e iluminando o cabelo de Sam em dourado.

_Vamos. Temos que pegar a estrada. – disse.

Nos levantamos e subimos devagar a encosta. Voltando para o mundo real e sangrento. Onde aquele tipo de amor tinha um espaço mínimo.

Notas finais
Gostaram da conclusão do capítulo? E me perdoem se meus capítulos tem ficado cada vez maiores, tento ao máximo resumir tudo e tirar o desnecessário masss... enfim, continuo dizendo, se for um problema me avisem aqui. E COMENTEM!!! T+ Anjos :) XOXO