Broken Girl

27 Capítulo vinte e sete: Ampulheta.


Notas iniciais
Oiee. Como vocês estão? Eu sei que já tá virando rotina de todo capítulo eu me desculpar pelo atraso, mas com começo das aulas na facul tá tenso para escrever haha... mas voltei o/ Sobre o capítulo eu espero que gostem, que não tenha ficado confuso ou ruim demais.... ( e se encontrarem muitos errinhos relevem ou me avisem, por quê como disse, não tô tendo muito tempo, e não posso passar 500 horas revisando e nunca postar ) Enjoy ^^



Se ali fosse a beirada do mundo, o lugar acima das nuvens, parecia que estava na beirada dele. Oscilando na cruel consciência.

Estava cercada por anjos.

Era terrível e belo ao mesmo tempo.

Todos estavam mortos. Não fazia ideia de como. Não sabia como eu estava no meio daquilo. Minhas mãos ardiam, e as adagas angelicais escorregavam no sangue nelas. Foi como ser lançava repentinamente a brutalmente em um pesadelo.

Mas estava acordada e descobri que tudo foi real.

Era belo pelo fato de que pudê enxergar. Consegui ver tudo. Naquele lugar eu vi nos ombros dos anjos suas asas. Enormes, brilhantes. Dourado, flashes pratas, pontas afiadas e cores negras e brilhantes como um corvo. Eles voavam e lutavam com adagas prateada, nada sedutoras em comparada ao brilho que eles irradiavam.

Eram lindos e incrivelmente tão reais que seriam um desperdício os humanos não poderem ver aquele espetáculo.

As penas ainda flutuavam baixo em minha volta. Roçando na minha pele como a chuva mais leve e se desintegravam em cinzas quando tocavam.

Minha pele estava machada delas. Assim como a impressão no solo.

Nada de brilho e nem flashes prateados ou dourados. Eram só cinzas negras agora.

O show de horrores aconteceu e acabou. Onde estava aquele tempo todo?

Minha mente estava funcionando de um jeito estranho. Eu lembrava de ter sentido a essência de todos eles, morrendo, cedendo e se partindo para sempre. Lembrava da sensação do sangue nas mãos, a satisfação. Mas também lembrava que não era eu quem comandava tudo.

Alguma coisa tinha acontecido.

O choque estava sendo tão grande que não senti a princípio a minha dor. Mas ela me levou para baixo. Meus joelhos bateram com força no chão, poeira de cinzas voaram leves. Estava suja com sangue, mas o meu também marcava meu corpo. Com os dedos trêmulos larguei as adagas e levantei a camiseta.

Um corte na minha barriga indicava a fonte da dor. Um corte sangrento e fundo na minha barriga. Logo o pânico começou a me dominar.

O que estava acontecendo? Como fui parar ali? E por que não lembrava de ter matado aqueles anjos? As avalanches de lágrimas vieram logo em seguida.

Chorava de dor e de medo. Estava completamente sozinha.

Não conseguia respirar direito. Mas me obriguei a levantar quando ouvi o barulho de asas se aproximando.

Comecei a correr.

Pular os corpo e correr eram os únicos estímulos que meu cérebro enviava.

74 horas Antes.

Whitefish — Montana

Acordei com alguém balançando meus ombros. Me sentei assustada e tentando encontrar meus reflexos, mas era só Sam.

_Bom dia. – ele disse me entregando uma xicara de café fumegando. Respondi com um aceno de cabeça. Minhas costas estavam doloridas. Passei a noite dormindo no chão da cabana. Apenas um colchonete velho entre mim e a madeira.

A noite passada foi um borrão. Só me lembrava do barulho suave do motor do Impala na rodovia e de cair no sono a maior parte do caminho, e depois praticamente desmaiar assim que tirei o vestido de festa do corpo.

Dormi num sono entorpecente. Sem sonhos ou visões estranhas se empertigando nas brechas da minha mente, sem vozes, nada. Considerando minha situação aquilo era mais do que poderia pedir. Deixei a caneca ao lado e passei a mão no cabelo. Suspirei dramaticamente quando meus dedos ficaram presos nos nós. Sam me observava com um sorriso no rosto. Ele estava ajoelhado numa perna só de frente para mim, como um príncipe preste a pedir a mão da princesa em casamento.

_Nada engraçado. Na verdade isso é muito injusto. Seu cabelo parece manteiga derretida e o meu um ninho de águia. – Sam sorriu e se levantou estendendo uma mão para mim. Peguei sua mão e ele me ergueu. Busquei a caneca no chão e dei um gole no café.

Olhei em volta da pequena cabana. Que não era exatamente do Bobby, era de um amigo próximo chamado Rufus. Fui até a janela. O lugar era isolado de tudo e cercado por pinheiros altos e carvalhos bem folheados. O som dos pássaros ditava a trilha. O ar estava úmido e frio, e o dia ia ser nublado. Queria sair e fotografar. Precisava.

Olhei para Sam, ele estava em uma das mesas concentrado em alguma coisa no notebook.

_Onde está todo mundo? – era notável o silêncio na cabana. Sam levantou os olhos da tela.

_Dean está lá fora e o Cass e a nova amiga estão... por aí. – então Dean não estava ali. Não via nada diferente em Sam. Dean ainda não tinha contado.

Eu poderia contar, deveria ter contado antes. Mas não conseguiria. Estava tão envergonhada e ao mesmo tempo apreensiva para o que poderia acontecer em seguida. Meu coração ainda estava dolorido, mas como se tivesse deixado do lado de fora da cabana ele ficará dormente e frio. Não sentia vontade de chorar, ou de ser consolada. Não estava cansada ou deprimida. E não queria ver Dean. Uma das sensações mais esquisitas. Talvez estivesse vazia. Ou simplesmente entorpecida.

Não tinha notado, mas enquanto minha mente vagava meus olhos ainda estavam pousados em Sam. Ele me fitava de volta com o cenho levemente franzido.

_Tudo bem? – perguntou.

_Tudo. Que horas são? – ele olhou o relógio no pulso.

_Três e trinta e sete. – levei um susto.

_É sério? Eu dormi esse tempo todo? Por que não me acordaram....

_Para quê? – eu não sabia. Só parecia errado ter dormido todo aquele tempo.

_Preciso de um banho. – anunciei em resposta. Varri os olhos no chão a procura das minhas coisas.

_Só que a água está fria. – uma pequena derrota para mim. Soltei um muxoxo desanimado. Sam sorriu. _É só entrar de uma vez só, como pular num lago.

_É, eu vou tentar pensar nisso. – peguei a minha roupa e segui para o corredor escuro e silencioso com o banheiro nos fundos.

A água estava muito gelada. Fiz o que Sam disse, me coloquei de baixo do fluxo de uma vez só, me pele se arrepiou e eu senti vontade de dar pulinhos para me aquecer. Mas era bom senti aqueles choquinhos das gotas geladas. Sentir alguma coisa. Lavar o corpo e esperar que a sujeira da alma fosse pelo o ralo também. Desembaraçar os nós do cabelo e esperar desembaraçar os nós da mente.

Fiquei mais tempo na água do que achei que ficaria. Quando desliguei o chuveiro minha pele parecia dormente como se eu tivesse dormido numa cama coberta de neve. Me sequei bem, assim como fiz com o cabelo e o calor do suéter de lã nunca foi tão bem vindo.

Quando saí para o corredor, congelei no lugar. Uma voz me fez parar. A voz de Dean. Tentei ser o mais silenciosa enquanto chegava mais perto para ouvir,

_... o que acha? – perguntava Sam.

_Já disse o que eu acho, oque mais você quer de mim? – disse Dean rispidamente.

_O que deu em você? Passou a noite fora e voltou todo estranho.

_Você acha? Eu acho que estou a mesma doçura de sempre. – o volume da voz de Dean mudava, dava apara ouvir seus passos pela sala.

_Dean, qual é o problema? – insistiu Sam. Ouvi um copo ou garrafa de vidro ser colocado com força em alguma superfície.

_Quer mesmo saber o problema, Sammy? – não tinha o carinho usual no apelido de Dean para Sam. Minha respiração estava descompassada. Meu coração cada vez mais apertado.

_Quero.

_Você, mentindo na minha cara. Eu só quero saber a quanto tempo? – dava para sentir a amargura na voz de Dean.

_O quê? Do que você... – ouvi um estalo alto. Demorei um segundo para perceber que era meu pente caído, que antes estava equilibrado em cima da pinha de roupas no meus braços.

Tirei o pente do chão com mãos trêmulas. Não tinha notado o quanto estava nervosa até ver meus dedos dançarem um ritmo raquítico.

Queria fugir daquilo, pular a janela do banheiro e correr sem parar até meus pulmões falharem. Mas ao invés disso respirei fundo e fui até a sala.

Sam e Dean estavam de frente um para o outro. A tensão entre eles era como uma corrente elétrica atravessando-os. Os dois se voltaram para mim quando entrei.

Olhar para Dean foi como receber de braços abertos uma avalanche. Sabia que não estava preparada. Por isso não queria vê-lo. Por que que no instante em que meus olhos encontrasse os seus eu seria sugada para toda aquela angustia. Sentiria tudo e a dormência cega da minha ignorância iria finalmente me entregar nua para a dor.

Ficamos os três estagnados na mesma posição. O primeiro a desviar o olhar foi Dean, seu foco agora era o copo cheio pela metade em cima da mesa, Sam parecia perdido. Coloquei as roupas de volta a mochila no chão. O silêncio era algo quase insuportável. O silêncio de Dean era pior ainda.

Minhas pernas pereciam articulações de um robô quando me forcei a chegar mais perto. Minha boca parecia cheia de areia quando a forcei a se abrir, as palavras simplesmente escorregaram da minha mente como água quando tentei me forçar a falar. Sentia os olhos de Sam e Dean em mim como pregos cravados numa parede. Eles esperavam que eu falasse alguma coisa. Esperavam que fizesse alguma coisa, que escolhesse. Na verdade todos esperavam algo de mim. Uma atitude, uma palavra, uma solução e salvação. Mas eu era uma só. Pequena demais para carregar o problema do mundo.

Então tomei a decisão mais covarde de todas; Fugi. Passei no meio dos dois e saí porta a fora em passos apressados e apavorados. Meu coração pulava no peito eu sentia uma necessidade enorme de gritar.

Meus pés me guiavam mata adentro completamente sem rumo. Só ia, não me importando com o frio, com o destino. Só queria que tudo parasse enquanto corria. Ninguém me seguiu e eu não fazia ideia de onde estava. Só estava andando tentando não hiperventilar.

Só parei quando tropecei na raiz de alguma árvore e acabei caindo pateticamente de joelhos. Tirei aquele tempinho para respirar, minha respiração acelerada formava nuvens de fumaça no ar. Olhei para onde estava. Era uma floresta ou reserva de árvores espaçadas, folhas marrom no chão por causa do inverno. Ainda ouvia-se pássaros como se fosse primavera.

Com a respiração regular e o coração mais tranquilo consegui ficar de pé e finalmente começar a me preocupar em onde eu poderia estar. Olhei para os lados e a floresta se abria para mim exatamente igual em Norte e Sul. Ótimo, estava perdida, literalmente.

Tentei retroceder os passos, mas quando me virei e deu de cara com uma pessoa. Meu coração deu um solto e eu dei um pulo para trás. Não tive tempo de reconhecimento, era uma garota, um demônio. Ela sorria, e eu sabia o que viria depois, mas não consegui reagir a tempo. Ela acertou com tudo o punho no meu rosto. Cambaleei para trás, minhas costas bateram no tronco de uma árvore e me jogou para frente de novo.

Ela veio para cima e tive pouquíssimo tempo para pensar no que fazer, quando tentou me acertar outro soco consegui abaixar. Estava totalmente desarmada — e ainda atordoada com o ataque surpresa — então isso retardou meu golpe, tentei acertar o punho em seu rosto, mas ela teve tempo para prever o ataque e segurou minha mão no meio do percurso. Ela era forte, muito forte.

Com as mãos agarrou meu ombro e me empurrou com violência para trás. Bati com as costas novamente na árvore, dessa vez com dez vezes mais impacto, e caí para frente. Uma dor subiu pela minha espinha e parecia que ia me partir ao meio. Rolei no chão grunhindo de dor e vi seus sapatos na terra se aproximando para acabar comigo de uma vez.

Ela vinha devagar, mais confiante, parecia gosta de me ver no chão. Isso me fez a odiar. O cabelo preto e longo junto a jaqueta preta de couro eram o par perfeito para que ela se assemelhar a um anjo da morte. Seus olhos estavam negros e a maquiagem preta faziam com que eles parecessem maiores, dando um efeito grotesco, como os olhos de botões costurados em uma boneca de pano.

Consegui enganar a dor com orgulho e me coloquei de pé. Esperei pelo o próximo ataque dela, não estava pronta e nem em condições de revidar com um grande golpe, mas estava com raiva, muita raiva. Dela, de todos os demônios. De Sam por me amar, de Dean por que o amava e o perdia e de mim mesma por ter sido tão cínica, mentirosa e burra. De Lúcifer que não podia ter simplesmente me deixado morrer.

A demônio puxou preguiçosamente uma faca grande o suficiente para arrancar um membro de dentro da jaqueta. Estava velha, a prata assumindo um tom de chumbo, mas parecia mortal. Não me assustava. A filha da mãe sorria para mim.

Levantei os punhos com uma energia renovada, a raiva faiscava perigosamente no meu peito, eu tinha certeza que poderia... Quando ela avançou para cima de mim uma força contrária a puxou para trás. Algo atravessou seu corpo, não algo, uma adaga. A ponta dela aparecia através da camiseta cinza. A mancha de sangue foi se alastrando escura enquanto ela brilhava e morria. Um olhar surpreso para baixo antes de cair de joelhos largando a faca no chão enquanto se apagava de vez. Quando ela caiu esperava ver Dean ou Sam, mas quem vi era completamente estranha para mim.

Ela olhou para mim por um instante, observando-me com olhos atentos. Deu um passo a frente e eu recuei. Ela parou no lugar e guardou a adaga — uma dos anjos — numa mochila as costas. Depois sua atenção se voltou pra mim novamente.

_Está ferida? – perguntou com cuidado. Estava tão surpresa que não respondi, apenas a encarei. Era uma garota, poderia ser um pouco mais velha que eu, mas era uma garota de cabelos ruivos brilhantes como um fogueira e olhos azuis claros que pareciam vidro. _Ela machucou você? – insistiu. Dessa vez acordei do transe e respondi:

_Não. – ela parecia incerta do que fazer em seguida, olhou para o corpo no chão e para mim.

_Hã... você deve está se perguntando oque eu diabos foi isso... bem... – ela tinha uma voz bonita, como uma cantora de folk teria. Antes que ela continuasse a interrompi.

_Um demônio. – soei mais ríspida do que pretendia, ainda estava com a adrenalina e raiva pulsando. Ela pareceu um pouco surpresa com minha declaração, mas logo se recuperou encontrando o reconhecimento da situação.

_Caçadora. – concluiu. Deu um passo para frente e estendeu a mão com um sorriso. Até seu sorriso era bonito. _Sou Amy.

_Isabel. – respondi apertando sua mão. Ela assentiu, e talvez fosse impressão minha, mas seu sorriso tremeu um pouco, e uma hesitação passou em seus olhos.

_Fazendo novos amigos? – perguntou outra voz. Olhei para o lado e vi Dean com o cenho franzido e a faca que mata demônios na mão. Amy olhou de mim para Dean percebendo que estávamos juntos e que não tinha perigo. Afinal, éramos colegas de trabalho.

Ela se adiantou para perto de Dean e estendeu a mão novamente. Dean a cumprimentou, ainda podia ver a tensão nele, não confiava nela — ou talvez fosse só cautela — eu também não.

_Sou Amy, você deve ser o Dean ou Sam. – eles soltaram as mão e Dean levantou uma sobrancelha.

_Eu deveria saber quem você é? – Amy balançou a cabeça se afastando.

_Não deveria. – disse ela com um sorriso contido. _Meu pai é amigo do Rufus, eu tinha ficado de usar a cabana esse fim de semana, mas Sam e Dean se adiantaram. Eu, é claro, ficaria num hotel, estava indo para lá quando meu carro morreu na estrada e aí eu vi o demônio entrando no terreno, bem o resto você pode imaginar. – Dean concordou a medindo. Ela era alta, ficava quase na altura dele. E aí ele olhou para mim e meu rosto queimou, tanto pelo o soco surtindo efeito e tanto por tudo que antecedeu aquele estranho encontro. Uma rápida examinada — discreta, ele não queria mostrar muita preocupação comigo — em mim, ele concluiu que eu estava bem, então voltou sua atenção novamente para Amy.

_Disse que seu carro morreu...

_É, eu não entendo muito dessas coisas, então deixei ele na encosta aqui perto. – disse ela como se desculpasse pela sua falta de sabedoria no assunto carros.

_Posso dar uma olhada. Eu entendo muito dessas coisas. – disse Dean com meio sorriso. Ela retribuiu com um sorriso estonteante para ele. Para ele. Não era só meu rosto que queimava, meu sangue parecia ferver. Sentia uma necessidade enorme de me colocar no meio dos dois e apontar as coisas relevantes ali; como eu ser atacada por um demônio, ou ter um corpo sangrando no chão e o fato de que mal conhecíamos Amy, não tinha motivo em confiar nela. Tentei ignorar aquela súbita vontade e optei por fazer notar minha presença com mais sutileza.

_O que veio fazer aqui? – perguntei me limitando em apenas olhar para ela. Ela se desviou de Dean com o sorriso se apagando e me respondeu prontamente:

_Fiquei de caçar o que parece ser um Wendigo por essas bandas. Não viu nos jornais? – Não, estava ocupada tentando não ser ração de cão do inferno. Ela continuo sem esperar uma resposta minha. _ Algo arrasou um acampamento, foram membros destroçados e alguns desaparecimentos.

_Veio caçar sozinha? – pergunto Dean.

_Não, tenho uns amigos caçadores vindo para cá. – Dean assentiu e olhou em volta. Ia escurecendo, a floresta ia se enchendo de sombras com o céu se tornando roxo.

_Tudo bem, tem espaço na cabana, passe a noite e de manhã eu vejo o seu carro. – não era uma pergunta, ele estava afirmando que ela passaria a noite. E Dean sabia bem que ela não poderia dizer não. Ele era atraente — gostoso -, já havia caído naquele encanto e aceitado sair daquele bar com ele, para onde quer que ele fosse me levar.

_Ah, eu não sei... – ela tentou. Já sabia que era uma causa perdida. Não queria ela dormindo no mesmo teto que nós.

_Eu insisto, e também acho que devemos uma a você. – ele olhou para o corpo do demônio no chão bem ao meu lado.

_Fiz o que qualquer caçadora faria. – não me sentia grata, poderia ter matado o demônio sozinha. Mas mesmo assim me senti pressionada em um agradecimento.

_Obrigada. – disse sem a menor animação. Ela deu de ombros.

_Vamos, deixa que eu carregue isso. – ele retirou a mochila de suas costas e começamos a caminhar entre as árvores enquanto elas recebiam a noite e as estrelas.

Os segui à dois passos atrás. Sentia uma pontada estranha e desconhecida no coração. Mas nada podia negar que ele aparecera para me resgatar naquela floresta escura e perigosa, não é?

...



Dean contava nossa situação para Amy, enquanto distribuía garrafas de cervejas e sentávamos a mesa como se aquilo fosse uma mera reunião entre amigos.

_Então, vocês não fazem ideia do que vão encontrar? – estava agradecida por Dean ter deixado alguns detalhes de fora. Como o quanto aquilo parecia uma armadilha para mim, que os anjos estavam tentando achar um jeito de me capturarem. De como eu me tornará o pivô de tudo e isso não era nada bom.

Amy sabia dos anjos, dissera, nunca tinha topado com um, mas conheceu pessoas que sabiam de outra pessoa que alguém tinha visto eles. E foi assim que ela conseguiu a Adaga, numa espécie de mercado negro entre os caçadores. O modo como ela falava da caçada como se equilibrasse o peso da "profissão" com o valor dela, era irritantemente admirável.

Como um bichinho o ciúmes e a culpa me corroía aos poucos. Era um sentimento diferente, não era juvenil ou estúpido, eu sentia ciúmes de quem quer que estivesse falando com Dean. Ele mal havia olhado para mim, ou falado diretamente comigo. Uma nuvem carregada sobrevoava acima de nós três, Sam, Dean e eu, e a chegada inesperada de Amy foi como um bote para todos nós. Estávamos adiando a tempestade.

Mas eu queria parar. Arrastar Dean para um canto e enfrentar o que tivesse para enfrentar. Não iria mais fugir. Não estava pronta, mas já sentia a dor. Já via que tudo tinha que ser resolvido de uma vez. Que aquela linha tinha de se desenrolar. Precisava de um ar fresco, tirar um pouco a corda do meu pescoço.

_Não, tudo que temos é um corpo retalhado com rabisco de anjos e uma cidade fantasma. – disse Dean tirando a tampa da sua garrafa com a mão. A minha ainda estava fechada na mão, o suor do gelo escorrendo na palma.

_Não é exatamente uma cidade fantasma. – explicou Sam. _É um campo aberto nos limites de um vilarejo com uma ferrovia abandonada. Basicamente as coordenadas não dão em nenhum lugar em específico. Fiz uma pesquisa pelos jornais locais próximos e não tem nada de anormal ou estranho.

Todos nós tiramos o tempo de um gole para pensar na informação que Sam nos fornecia. O que parecia estava claro, mas sabia que não tinha só isso, apenas um convite de "Venha me encontrar se tiver coragem."

_Tudo bem, eu posso ajudar...

_Não. – disse alto demais, com intensidade demais, grossa demais. Sam e Dean olharam para mim como se fosse uma aluna se comportando mal. Amy me olhava com... curiosidade? Tentei suavizar a voz para continuar. _Quero dizer, não queremos ninguém de fora correndo riscos por nossa causa. Não quero ofender, mas isso não é seu problema.

Houve silêncio. Minha justificativa soava fraca e, pior ainda, pessoal demais. Ela me fitou corajosa e não ofendida.

_Me desculpe, eu... – deixei o pedido morrer. Murchar com todo o brilho que vinha dela, do modo como parecia radiante mesmo em uma sala escura, como seu cabelo ruivo brilhava como se carregasse luz própria. Me sentia cada vez mais parte das sombras. Uma silhueta em preto e branco.

_Eu ouvi falar sobre você. – disse ela calmamente. Arqueei uma sobrancelha.

_Só coisas boas, imagino. – rebati numa resposta carregada de sarcasmo. Ela deu um pequeno sorriso.

_É bem diferente do que imaginava. – falou como se aquilo respondesse tudo. Não sabia exatamente o que estava acontecendo ali com Amy. Não era uma discussão ou uma competição. Mal nos conhecíamos, e ela supostamente me salvou, só me sentia carregada perto dela. Talvez fosse o tal ciúmes, mas de quê exatamente?

Uma batida na porta ouviu-se como o apito de um juiz pedindo pause. Todos nós olhamos na direção que vinha o som desconfiados. Sam se levantou, assim como Amy, Dean e eu. Não tínhamos olho mágico para ver quem nos esperava do outro lado, o jeito era abrir e esperar. Foi o que Dean fez. E logo a pressão deixou o meu peito. Pelo menos aquele eu conhecia.

_Boa noite, meninos. – Steve tentou dar um passo para frente, mas a armadilha do diabo pintada em baixo do tapete o impediu no meio do ato. _Um tapete felpudo com boas vindas combinaria mais com a decoração.

_Ele é... – começou Amy já tentando alcançar sua adaga.

_Não, esse é meu. – disparei sem pensar. A frase saiu totalmente errada. _Quero dizer... ele... eu conheço ele.

Me aproximei da porta, ficando mais perto de Dean desde que... Steve, como sempre, estava muito bem vestido, como uma versão moderna de um motoqueiro dos anos 50.

_O que ele está fazendo aqui? – a pergunta partiu de Sam. Me virei para ele, era visível sua irritação com Steve.

_E trouxe minha turma para acampar e assar alguns marshmallows. – ele se moveu na entrada mostrando o que tinha atrás de si.

Olhei receosa e um pouco assustada. Era um grupo de pessoas, não pessoas, demônios esperando do lado de fora. Pareciam um grupo de sete ou mais possuindo mulheres e homens. Pareciam uma massa de pessoas flutuando em veludo preto com suas roupas da mesma cor. Rostos fantasmas olhavam para mim, aquele efeito a noite era opressor. Minha respiração falhou. Steve tinha conseguido, não um exército, mas o suficiente.

_O que fazem aqui? – disparou Dean.

_Eu fui convidado. – respondeu Steve dando de ombros e abrindo um sorriso direcionado a mim. Eu o tinha chamado, como disse que chamaria, tinha me esquecido e não supunha que ele seria tão rápido.

Dean me olhava com faíscas nos olhos.

_Eu posso explicar...

_É, ultimamente você está tendo que explicar muita coisa. – disse em tom de acusação tão repentina que me abalou. _Talvez não precise mais de nós, já provou que pode tomar suas decisões como bem entende.

O que era aquilo? Ele estava tentando me expulsar? Me largar como um animal que está pronto para a selva, sem cuidado e completamente por conta e risco. Não acreditava, não queria.

_Dean... – foi Sam que começou. Parou e se voltou para a peça que não se encaixava ali. _Amy, pode nos dar licença por um instante, tem um quarto nos fundos...

_Entendi. – obediente ela sumiu no corredor.

Sam cruzou a sala e fechou a porta na cara de Steve.

_Okay, Dean, o que está acontecendo? – exigiu saber.

_O que está acontecendo...

_Ele sabe sobre nós. – respondi interrompendo Dean. Para quê esperar mais? Para quê dar voltas e voltas se pararíamos naquele mesmo lugar? Sam olhou só para mim, não sabia bem como interpretar sua expressão, tranquilidade, espanto, mágoa? Não sabia.

Talvez eu deveria ter dito a Sam primeiro. Ter conversado com ele, lhe dizer que iria contar a Dean, que precisava, que estava sendo pressionada e me sentia mal por esconder aquele segredo que nos pertencia, mas afetava diretamente outra pessoa, seu irmão. Definitivamente deveria ter contado a Sam.

_Ah. – foi a única coisa que disse.

_Ah? – repetiu Dean como se não acreditasse. _Ah, essa é muito boa.

_O que quer que eu diga? – perguntou Sam desamparado. Dean deu sorriso forçado e estranho, passou a mão no rosto como se para controlara algo dentro de si que não queria expor.

_Você mentiu para mim, olhou na minha cara e mentiu para mim. O que eu queria de você, o que esperava, era que fosse honesto comigo. – e ali eu entendi que toda a decepção, a mágoa maior era com Sam. Para mim sobrava a rispidez e o gelo, mas o que mais o feria era a escolha de seu irmão por não ter divido aquilo com ele. A minha parte era a mais previsível, era alguém de fora, já o tinha machucado tanto. Não sabia o que pensar.

_Eu não menti para você. Só não quis contar, não por que achei que você ia ficar com raiva de mim ou sei lá, surtar como fez da última vez. Não contei por que era algo meu. É pessoal, me pertencia. E eu... – Sam respirou fundo e continuou com calma. _Eu a amo, você sabe disso. E naquele dia, eu estava mal por você, pelo o que poderia ter acontecido, ou o que iria acontecer, e... eu tinha ela. – ele olhou para mim fazendo o meu papel de figurante ali se dissolver. Eu era o motivo, a parte da história e a consequência. Se voltou para Dean. _E foi especial para mim. Por que era eu, eu era a escolha, foi consensual e não me importei se no dia seguinte ela voltasse para você. Naquele momento eu só queria poder amá-la sem pensar em mais nada, por que sabia que tudo iria mudar a parti daquele momento. E estava certo.

Meus olhos ardiam, lutava para não chorar, para permanece no meu lugar de traidora, amada e causa de tanta confusão e dor. Estava surpresa e muito tocada pelas palavras de Sam, na sinceridade e honestidade nelas e sabia que Dean sentia também por ele ficou mudo. Toda a postura desafiadora e furiosa foi desaparecendo aos poucos até sobrar uma casca exausta de tudo aquilo.

_Acha que se não tivesse me dito isso antes eu não iria entender? – perguntou para Sam.

_Eu não sei. Você entende? – Dean não respondeu, então Sam continuou: _Me desculpe. – Dean só assentiu. E foi isso, um pequeno gesto, uma trégua, um entendimento distorcido e ainda ferido, mas estava lá. Eles ficariam bem, dava para ver que ficariam.

_Eu... – Dean parecia um pouco perdido. Por fim olhou para mim. Uma corrente elétrica passou pelo o meu corpo e eu me preparei — tentei — para o que viesse. Não ia chorar, aquilo já estava definido, não iria discutir, nem fugi, estava ali para escutar. _Podemos conversar depois?

Ele estava sério, mas não furioso. Via em seus olhos o quanto custava olhar para mim. Parecia me ver como uma perda terrível ou simplesmente tentava encontrar um sentido naquilo, em nós dois, em como tudo poderia funcionar dali a diante. Ele não gostava de mim naquele momento. Não estava bravo comigo ou indiferente. Só se esforçava para tentar entender.

_Tudo bem. – respondi débil. Dean se voltou para a porta. Me apressei a explicar. _Eu chamei ele por que achei que seria um ajuda contra os anjos. Não temos como enfrentá-los sozinhos, não sabemos quantos são, e só temos Cass e um outro anjo ferido. Só achei que seria... não sei, alguma coisa. É melhor ter demônios lutando do nosso lado do que contra nós.

_Bem, são seus demônios, você cuide deles. – fiz que sim com a cabeça. _Eu... preciso... – ele olhou para os lados como se a procura de algo. _Vou consertar o carro.

E assim Dean se foi, claro, antes tirou a faca que mata demônios da jaqueta. Uma olhada lá para fora mas os demônios tinham desaparecidos na mata.

Ficamos eu e Sam sem exatamente uma bússola para seguir. Estávamos sozinhos e abandonados.

_Eu precisava falar para ele. Eu... Me desculpe Sam, mesmo, eu só... não sabia o que fazer...

_Tudo bem. – foi o que ele disse me interrompendo. Pisquei uma e duas vezes. Enquanto eu sentia meus pulmões se esforçaram para trejeitar o ar ele parecia conformado demais, como uma verdade que ele só estava esperando que fosse dita.

_Tudo bem? – perguntei soando mais irritada do que pretendia. _Está agindo assim por que nunca achou que nós tivéssemos alguma chance? – disparei a pergunta que surgiu do nada na ponta da língua. Sem filtro ou freio. Ele franziu um pouco a testa.

_Não é isso...

_Você disse para mim que não se importava se eu não sentisse da mesma forma que você, e tudo o que acabou de dizer para o Dean. Acha que eu não te amo o suficiente? – era estranho o modo como eu me sentia mal com aquilo. Irritada. Nenhum dos dois acreditavam em mim, que eu fosse capaz de amar tanto assim. Ele me fitou, parecia que ia dizer algo, mas desistiu.

Pela segunda vez naquele dia saí pela porta sem rumo e amedrontada.

...

Mais uma vez foi um burrice sair daquele jeito, ainda mais de noite. Não fazia ideia de onde estava indo... Ouvi um mínimo movimento atrás de mim, um galho se partindo. Antes que alguém me golpeasse por trás me virei rápida pronta para atacar qualquer coisa. Nada, só arvores e o vazio. Me virei de volta e antes que fizesse qualquer coisa alguém tapou minha boca. Olhei assustada para quem quer que fosse pensando numa forma de reagir, mas logo reconheci o sorriso de Steve brilhando no escuro. Empurrei seu peito com as mãos o afastando a força. Ele me soltou cambaleando para trás.

_Qual o seu problema? – perguntei com raiva.

_Ah, vamos começar nos abrindo desse jeito? Tudo bem, meus problemas... Eu não consigo fazer as pessoas creditarem que sou loiro natural, também sou péssimos nos solos mais longos no Guitar Hero, oque mais... – ele colocou o dedo no queixo como se pensando. _Ah, eu também sou um foragido do inferno, é, isso não é muito legal...

_O que está fazendo aqui? – o interrompi impaciente.

_Você me chamou, lembra?

_É, mas eu não achei que você iria aparecer aqui.. alias, como sabe sobre esse lugar? – ele sorriu sacana.

_Você tem seus truques e eu tenho os meus. – soou misterioso.

_Mas...

_Shhh, não se preocupe com isso. Você queria demônios, eu tenho demônios. Vem. – ele começou andar sem me dar chance de questionar ou fazer qualquer objeção. O segui apertando o passo para não o perder para a noite.

Alguns pássaros piavam, grilos cantavam e ouvia-se o som de animais rasteiros nas árvores e folhas. Aquilo começava a me preocupar. Não que fosse daquelas que tinha pavor de insetos ou bichos nojentos, só não seria legal topar com um deles.

Andamos um pouco até que ele parou de repente fazendo com que eu quase me chocasse contra suas costas. Balancei a cabeça contornando-o e parei abruptamente quando notei que estávamos a beira de uma encosta. Uma descida íngreme mas não muito longa. E o que tinha lá embaixo era o que interessava.

Eles estavam todos em volta de uma fogueira, apesar de demônios não sentirem frio. Em um círculo em volta das chamas, sentados no chão, recostados um no outro, rindo e... se divertindo? Uma garrafa era passada de mão e mão com a tranquilidade e normalidade de apenas jovens universitários curtindo um acampamento. Tinha barracas também, o que parecia um luxo bizarro a criaturas saídas do inferno. Mas aí lembrei de Sebastian e sua mansão, seus quadros caros e sua festa muito humana.

De onde estava não conseguia ouvir o que eles falavam nem ver exatamente a fisionomias de cada um, muito menos seus olhos negros.

_Vocês estão... acampando? – perguntei abobada demais para me preocupar em esconder a surpresa.

_É, nos intervalos entre desossar bebês ou aparecer no meio do clube do livro de algum aprendiz de satanista estúpido, nós também gostamos de nos divertir. – fiz uma careta. Ele se aproximou da árvore ao lado e encostou o ombro ali, a postura relaxada e as mãos nos bolsos. _O quê é?

_Nada, é só... como conseguiu, e em tão pouco tempo?

_Eu sou bom. – e foi só. Olhei para ele, para seu perfil, Steve não sorria, observava o grupo de demônios abaixo entre as árvores com um ar pesado.

_O que foi? – ele se virou para mim. Não me preocupava ou me importava realmente em saber o que se passava naquela mente terrível, mas estava curiosa com ele, como sempre ficava.

_São como porquinhos preste a irem para o abatedouro. Acredite ou não alguns estão ali por mim, por que eu pedi e os enganei para levá-los a morte por você. – aqueles olhos me fitavam intensos e sedutores, fazendo algo dentro de mim se contorcer. Steve ainda era tão desconhecido para mim e eu não sabia lê-lo completamente. Uma ideia errada sobre ele poderia me levar a morte. Dei um passo mínimo para trás engolindo em seco.

_A causa é maior do que alguns demônios. – ele continuou em silêncio me encarando. Minha mão soava apesar do frio. Steve poderia me lançar lá em baixo para os demônios como um oferenda, poderia sacar sua adaga a me matar ali mesmo, ou ele poderia sorrir e fazer alguma piada. Não fez nenhuma dessas coisas, apenas se voltou novamente para o acampamento. Isso me preocupava.

_Para seu próprio bem, é melhor que isso tudo dê certo. – senti meu sangue gelar.

_Está me ameaçando? – perguntei soando ridiculamente surpresa.

_Não, princesa. Não preciso. – ele deu de ombros, mas continuou. _As coisas estão complicadas no Inferno. Lúcifer parece confiante demais, ele aposta alto em você e em Sam. Não fazem ideia de onde Ele esteja e o que anda fazendo. Está tudo uma bagunça, não tem controle ou organização. É como se Lúcifer tivesse deixado o zoológico sem guarda por que sabe que não vale a pena salvar alguma coisa já que vai haver uma grande avalanche que varrerá tudo e todos por ele. – Steve estremeceu, não de frio. _Não vou voltar lá.

_O que aconteceu com você? – perguntei não conseguindo entender muito bem qual era a posição de Steve ali. Meu estômago revirava. Ele se virou novamente para mim, agora tinha um sorriso perverso no rosto. Começou a tirar a jaqueta e eu me perguntei o que estava fazendo, mas permaneci quieta esperando. Ele a deixou no chão quando sua mão foi parar na barra da camisa branca, dei outro passo para trás, mas ele só a levantou até o peito e arfei não conseguindo me conter.

Sua pele branca estava toda marcada. Pareciam marcas recentes. Era como se uma criança tivesse pegado um giz de cera vermelho e começado a fazer desenhos aleatórios. Linhas e círculos se registravam na sua pele, do peito ao abdômen. Alguns pereciam queimaduras, outros fendas como se alguém tivesse cravado algo ali, muitos estavam costurados outros cicatrizando. Involuntariamente cheguei mais perto dele me sentindo horrorizada.

Não percebi quando com os dedos toquei a borda de uma delas no seu peito, uma linha horizontal. Um calafrio varreu minha espinha fazendo meus dedos tremerem na sua pele surpreendentemente quente. Eu, é claro, sentia sua energia e era recíproca. Lembrei das minhas próprias cicatrizes, a mais antiga parecida com aquela a baixo da minha cintura. Pela primeira vez senti compaixão por ele.

Quanto tentei afastar a mão ele a pegou e com a sua espalmou meus dedos em seu peito. Aquela pressão da mão dele por cima da minha e a minha em contado direto com sua pele fez a minha pressão subir. A pressão da essência do anjo querendo emergir e o sangue de demônio querendo chegar mais perto, se embebedar ali e se entregar completamente ao que éramos feitos. Era confuso e conflitante. Equilíbrio. Foi o que Sebastian disse.

_Isso é... sexy. – disse rouco fazendo minha mão deslizar mais para baixo.

_Steve? – sussurrei de forma quase sensual.

_Sim, princesa.

_Se não quiser a marca dela para sua coleção de cicatrizes eu sugiro que solte minha mão. – disse friamente. Ele apenas abriu um sorriu maldoso. A compaixão que tive por ele foi evaporando. Ele soltou devagar minha mão e me afastei dele rápido demais, como se tivesse levado um choque. Steve reparou meu nervosismo e sorriu para si.

_Quanta agressividade, estou ferido, merecia um pouco mais de carinho. – reclamou fazendo bico, abaixou a camiseta e pegou a jaqueta de volta.

_Quem fez isso com você? – perguntei desviando o rosto para não aparentar minha bochechas vermelhas.

_Não importa. – descartou a pergunta recolocando a jaqueta e voltando a postura de antes. _Mas só estou aqui, lindo e sexy para você por que aqueles demônios ali salvaram minha pele. – apesar dos poucos sorrisos e piadas dava para ver que algo o perturbava, se é que se podia dizer isso de um demônio. Steve voltou a ficar sério e eu também voltei a senti aquele aperto no estômago. A temperatura caindo bruscamente.

_O que quer que eu faça? – perguntei observando o grupo lá em baixo. Um deles estava de pé fazendo algum tipo de jogo de imitação. A luz das chamas na fogueira dançava em seus rostos alegres, um tipo diferente de luz que não a do inferno.

_Quero que faça dar certo. Estou perdendo aqui também, assim como você. – disse impassível.

_Não como eu. – pensei em Adam, no meu pai, em Dean vendido para Miguel, em Sam dominado pelo sangue de demônio. Em Cassie, no ex namorado dos tempos de faculdade com o peito retalhado nos jornais e em mim que não era mais a mesma de antes há muito tempo. Em todas as vidas que foram roubadas por mim, pela minha causa e pela minha vida. Como alguém poderia saber como era?

_Estou fazendo o meu trabalho e espero que faça o seu. – retrucou Steve.

_Estou tentando.

_Tente só um pouquinho melhor. – e uma centelha de raiva que desde o começo daquele dia estava preste a virar chamas.

_Você acha que não estou fazendo o suficiente? Acha que eu só fico presa num triângulo amoroso o tempo inteiro? Estou tentando. Estou fazendo o melhor. Agora se você acha que não é o suficiente pode juntar seus coleguinhas de acampamento e tentar um ataque contra Lúcifer sem minha ajuda. Se acham que podem, vão em frente! – estava trêmula de raiva. Teria dito mais se ele não tivesse começado a rir. Uma coisa subia na minha garganta e eu queria acertar um soco em Steve.

_Me desculpe. – disse ainda entre risos. _Você fica uma gracinha com raiva, e está vermelha e tudo. – meu rosto esquentava. Dean já havia me dito algo parecido, o que servia para me deixar mais irritada ainda. O soco que o demônio acertou no meu rosto latejava como nunca.

Mal percebi quando o empurrei contra o tronco da árvore e meu antebraço parou contra seu peito o prendendo. Uma raiva repentina se apoderava de mim como uma cobra em volta do meu pescoço se estendendo aos meus punhos que queria esmagar Steve. Sua risada tinha cessado.

_Sabe de uma coisa? Estou farta dessas suas piadas, esse sorrisos falsos, das opiniões sobre a minha vida. Não é isso que quero de você. Não esquece quem você é aqui, importante, mas dispensável. Então vê se cala a boca e faça o que eu digo para fazer. Não há espaço para sentimentalismo entre demônios, não ache que o que você fez, o que está sacrificando aqui, chega perto do que tive que abrir mão. Você vai deixar que eu os leve para morte ou seja lá o que for e não vai abrir a boca. Se quer vencer é melhor achar que posso e eu vou matar você se ficar contra mim. – seus olhos dourados estavam grandes e brilhantes para mim, eu podia sentir sua respiração no meu rosto de tão próximos que estávamos. Sua pele estava iluminada por um brilho esbranquiçado. Demorei alguns segundos até perceber que o brilho vinha de mim.

O soltei, mas não me afastei muito. Ele colocou a mão no peito e arfou, como se sofresse de um ataque cardíaco. Tentei não sentir pena, não me sensibilizar, me recusava a deixar aquela fagulha de raiva.

_E tem mais, eu quero falar com eles. – Steve ajeitou sua postura e a jaqueta me olhando com um misto de surpresa e receio.

_Como? – perguntou. Olhei para os demônios lá em baixo. _Para quê?

_Só me leve até eles. – ele me encarou estupidamente. _Não tenho a noite toda, Steve.

_Tudo o que a princesa quiser. – ele começou a descer a encosta. Olhei para meus braços quando ele não olhava, não tinha mais o brilho, mas podia sentir minha pele quente.

Tentava o máximo não escorregar e rolar encosta abaixo enquanto Steve descia com graça. Ele me ofereceu a mão duas vezes e recusei, mas silenciosamente me esforçava para enxergar onde pisava.

Meu plano falhou miseravelmente quando chegamos na parte mais baixa. A sola do sapato escorregou na terra fofa e meu corpo foi lançado para frente. Com um braço em volta da minha cintura Steve me parou antes que desse de cara no chão. Ele me pegou do alto e me colocou no chão plano. Assim que meus pé pisaram no solo me livrei dele o empurrando para longe. Steve levantou as mãos em sinal de rendição.

_Entendi o recado. Mas saiba que nunca subestimei você. Estou aqui e não vou recuar. Pode confiar em mim. – foi a minha vez de sorrir.

_Me disse para não confiar em ninguém e está me pedindo para confiar em você?

_Viu, esse é um sinal de que você ouve meus conselhos. – ia responder, mas me virei quando ouvi alguém. Meu nome, alguém me chamava. Rápido ouvimos o som de passos e meu nome sendo chamado mais de perto. Era Sam, ele gritava meu nome. Me afastei de Steve e olhei para cima.

_Aqui! – chamei. Logo Sam apareceu acima de nós. Estava ofegante a testa brilhando de suor. Ele olhou para mim vi o alívio na sua expressão, depois olhou para Steve e por fim o acampamento á metros. Os demônios ainda não nos virá. Sam se voltou para mim.

_É o... Cass. – disse com a respiração cortada. Senti meu coração dar um tranco. Seu tom de voz sugeria que não era algo bom, seja lá o que aconteceu com Cass não era bom. Com o coração martelando comecei a subir a encosta. Sam desceu e me ajudou a completar a subida. Steve vinha logo atrás.

_O que aconteceu? – perguntei frenética tentando acompanhar Sam. Nós praticamente corríamos. Minha ansiedade fazia minha respiração falhar muito rápido. _O Castiel... ele... ele está bem? – Sam parou e olhou para mim. Balançou a cabeça.

_Eu não sei. – havia um medo controlado na sua voz. Ia questioná-lo.

_Hã, pessoal... – olhamos para Steve, ele tinha os olhos fixos num ponto distante entre as árvores. _São... puta merda, são anjos.

_Onde? – perguntou Sam. Anjos? Eles estavam ali, nos encontraram antes que nós fossemos encontra-los.

_Perto. – Steve estava muito sério, nervoso e inquieto, ele olhava para os lados como se pudesse captar algo das sombras.

_Rápido, vamos. – Sam pegou minha mão e começamos a correr para o caminho que tínhamos percorrido.

De repente me dei conta de para onde estávamos indo. Puxei o pulso de Sam fazendo ele parar.

_Se formos nessa direção eles vão encontrar os demônios e nos encontrar. – Sam concordou entendendo rápido, depois olhou em volta. E bem longe, mas ainda audível vozes masculinas.

_Por aqui. – sussurrou Steve.

Corremos mais pouco e eu consegui cair em outra encosta íngreme, a queda fazendo meu cotovelo bater em alguma pedra, a dor quase me cegou enquanto escorregava nas folhas úmidas e terra. Conseguindo parar, Sam me levantou pelo braço e Steve apontou uma concavidade na colina.

Fomos para lá e nos deparamos com o que parecia uma caverna natural.

_O que você acha que vão fazer com ele? – a pergunta veio de um dos anjos próximos mas ainda não visíveis.

Nem tive tempo de expressar qualquer coisa, Steve segurou meu ombro e me empurrou para o chão, obrigando-me a me agachar e praticamente me lançou no espaço mínimo que era a caverna. Sam se jogou do meu lado, encolhido com as costas na caverna e do outro lado Steve estava agachado.

_Não sei, e pare de fazer perguntas, sabe que Josias não gosta delas. – respondeu um outro.

As palavras viajavam até nós tão próximas agora, mas ao mesmo tempo pareciam distantes. Mas, assim como Steve, conseguia distinguir as essências dos anjos por perto. E uma pontada de pânico me acertou em cheio. Eles me sentiriam também. Saberiam que eu estava ali, eu e Steve com nossos braços se tocando produzindo eletricidade o suficiente para que nossas essências demoníaca pudesse nos denunciar, denunciar Sam.

_Shhh. – sibilou Steve em alerta. Respirava forte e ficar parada naquele espaço mínimo me sufocava.

Era escuro demais para qualquer coisa, só via dentes e o brilho de suor na pele de ambos. Insuportável e intolerável como um caixão. Mas me esforcei para permanecer paralisada, por que tinha certeza que eles estavam quase acima de nós.

Senti dedos deslizarem entre os meus e soube que era Sam. Olhei para ele e ele apertou minha mão em resposta. Não sabia se era um toque para acalmar, um aviso ou se ele queria me dizer alguma coisa. Seu rosto era só escuridão sem sombras ou contornos não me indicando nada.

Segurei forte sua mão e minha imaginação abstrata pelo o medo me jogou coisas da qual eu não queria pensar, mas pensei mesmo assim. Coisas como; De quem eles estavam falando? E por que Sam apareceu sozinho? Onde estava Dean e o que aconteceu com Cass?

Meu coração estava batendo tão rápido que tinha certeza que os anjos poderiam ouvir. Até que o toque de Sam me deixou rígida e imóvel de preocupação e concentração. E continuamos a esperar. Mergulhados no escuro e no silêncio sufocante. Mais passos, mas folhas se partindo sob o peso dos de pés.

_Não acha ele um pouco... não sei, sádico? – perguntou a voz mais jovial.

_Do que está falando, Rael? – repreendeu o outro.

_Eu não sei. Só... o que ele pediu para fazer. Não era preciso, só isso. – houve um longo silêncio e depois:

_Tome cuidado Rael, se não vai acabar como ela. – disse a voz fria e monótona.

_Não. Eu não estou....

_Espere! – interrompeu o outro. Mais silêncio.

Minha cabeça doía, assim como minhas pernas e meu cotovelo. Minha mente soava alerta. Eles nos encontraram.

_Kaliel, oque foi? – perguntou o mais novo.

_Não sente isso? – respondeu a outra voz, parecia até... alegre.

_Isso o quê? Não tem nada aqui, vamos embora já fizemos o que tínhamos de fazer...

_Silêncio! – o outro se calou.

Mais passos, próximos demais. Tinha certeza que parara de respirar. A tensão de Sam e Steve eram quase palpáveis. Steve se mexeu ao lado e só consegui distingui o brilho prateado de sua adaga. Era aquilo. Acabou o jogo de se esconder.

_É ela.

Não conseguiria ficar parada. Arranquei a adaga da mão de Steve e fiz um corte na palma da minha. Antes que qualquer um dos dois dissesse alguma coisa me arrastei para fora do buraco. Sam tentou me segurar mas soltei com um puxão.

Devagar e sem fazer muito barulho conseguir subir a encosta agachada e agora via os anjos. Estavam de costas para mim. Só tinha um segundo ou menos. Me escondi atrás da árvore próxima e comecei a desenhar.

Foi rápido o suficiente. No último traço fui descoberta. Por alguns segundos ficamos nos encarando, todos os meus nervos dizendo que deveria me virar e correr. Mas permaneci no lugar, sentia Sam e Steve se erguendo atrás de mim.

Sem mais apertei a palma da minha mão no símbolo. Esperei pela explosão de luz, mas não aconteceu nada. Absolutamente nada. Olhei para o sigilo desenhado no tronco da árvore. Estava certo, tinha certeza.

O anjo abriu um sorriso gelado e ao mesmo tempo parecia contente. O outro anjo era só uma estátua aparentemente deslocada ali.

_Ora, nunca iria funcionar. – ele deu um passo a frente. Sam também. _Seu sangue não é puro, garotinha. – da manga de seu terno a lâmina de uma adaga surgia.

_Mas o meu é. – o brilho que esperava acendeu com foguete. Uma explosão de luz branca e rápida. Tampei os olhos com a mão, um grito, e num segundo tudo terminou.

Quando tirei as mãos o contorno de Dean apareceu para mim. Perto de uma árvore. Meu primeiro impulso afoito foi correr e jogar meus braços nele. Não fiz isso, nem ele.

_Tudo bem aqui? – concordamos com a cabeça. Ninguém falou nada.

...

Lirá estava morta. Foi o que Dean disse. Deixaram o corpo na estrada principal, pendurado na placa da rodovia com letras de sangue:

Venha buscar seu anjo.

Uma visão da qual não em arrependia de ter sido poupada. Um grande relógio soava acima das nossas cabeças. Tínhamos que arrumar tudo o mais rápido possível sem deixar qualquer pista para trás.

Não conseguia me livrar da sensação esmagadora no peito e das minhas entranhas geladas. Eles tinham Cass e não fazíamos ideia de como iríamos encontra-lo. Mas seja o que for estávamos indo. Sentia que aquilo se estreitava cada vez mais. O término que Dean havia falado.

Tudo estava quase pronto a não ser pela ideia absurda que passou pela minha cabeça. Parei no meio do movimento de fechar minha mochila. Dean estava ao meu lado, verificando a arma.

_Dean, não posso ir com vocês. – disse á ele.

_O quê? Não, vamos, leva esse traseiro magrelo para aquele carro, agora. – não era um pedido ou sugestão. Mas não podia fazer aquilo. Dean se afastou esperando que o seguisse para fora. Fui e ele fechou tudo, Amy e Sam nos esperávamos. Fui direto até Amy.

_Ainda quer ajudar? – perguntei, ela olhou para mim sem entender. Dean tinha deixado claro que não deixaria ela participar, ele iria deixá-la no hotel mais próximo — seu carro não ficou pronto a tempo. _Então?

_Hã, sim...

_Ótimo, preciso do número de quem você conseguiu essa adaga. – disparei.

_Espera, para quê você quer isso? – questionou Sam.

_Preciso de armas contra esses anjos. – não precisava dizer para quem eu queria as armas. Amy me encarou de um jeito estranho.

_Essas coisas são muito raras, não vai conseguir muita delas num dia, e mesmo se conseguir, elas são muito caras. – explicou Amy.

_Digamos que eu vou pegar emprestado.

_Espera, você quer roubar as adagas, é isso? – perguntou Dean.

_Mais ou menos isso.

_Você... Perdeu a cabeça? – como imaginava Dean não gostou nada da ideia.

_Eu não vou está sozinha, e são só homens. – tentei fazer sentido naquela loucura.

_São caçadores. – corrigiu Sam sombriamente. Não teria o apoio dele nessa.

_Eu posso fazer isso. – os quatro ficaram em silêncio por um tempo. Eu sabia da presença de Steve ali por perto, felizmente ele não interferiu, ia piorar as coisas.

_Vamos com você. – disse Sam.

_Uma garota e alguns demônios roubando um caçador é uma coisa, mas os Winchester... Desculpe Sam, não quero colocar vocês nessa. Já tive experiências o suficiente com caçadores bravos para saber que eles não esquecem tão facilmente. – Sam parecia querer argumentar mais, mas sabia que eu estava certa. Me voltei para Amy. _E nem você, não vou citar seu nome. Eu só preciso do número, por favor.

Ela olhou para Dean como quem pede permissão, aquilo foi como uma agulhada de irritação. Dean não era meu pai ou o meu responsável para eu precisar da aprovação dele para qualquer coisa. Mas não disse nada, afinal aquele tipo de atitude ou resposta minha já foi combustível para muitas brigas.

Dean não disse nada, só desviou o olhar para Steve; recostado numa árvore com os braços cruzados. Não dava para interpretar bem seu olhar, era uma mistura de aviso e raiva.

_Não foi ideia minha, amigo. – disse Steve.

Amy verificou o celular e me entregou. Com uma caneta falha risquei o número rapidamente num recibo de lanchonete achado no fundo da mochila.

_Eu vou ligar, e daí vamos nos encontrar no meio do caminho. – Sam assentiu.

Era aquilo. Iria partir na picape de Steve. Dobrei o papel e coloquei no bolso da calça, mas não fiz menção de me afastar, parecia faltar alguma coisa. Equilibrei a mochila na costas e meu olhar foi parar em Sam, a pessoa mais maleável naquele grupo. Ele hesitou um pouco, mas deu um passo a frente se encurvando para um abraço rápido, rápido até demais.

E foi a vez de Dean. Ele não estava nada feliz com toda a situação e sabia que não iria ganhar um abraço dele. Então com o pingo de coragem que me restou perguntei:

_Posso falar com você? – ele não respondeu, apenas passou por mim se afastando de Amy e Sam que já se dirigiam para o Impala entendendo o recado. Steve também se afastou.

_Vou avisar o pessoal. – disse ele e sumiu na floresta.

Agora era só eu e Dean.

_Acho que precisamos conversar. – comecei hesitando muito.

_Não. – disse ele.

_Como assim não?

_Eu não quero falar com você, não agora. – respondeu simplesmente. Sentia algo afundar no meu peito. _Boa sorte. – e começou a se afastar.

_Dean, espera. – pedi indo atrás dele. Puxei a manga da sua jaqueta o fazendo parar. _Não faz isso comigo, e nem com você. Sei que está com raiva...

_Não estou com raiva. – me cortou. Não sabia se dizia a verdade.

_Dean. Me diz o que tem para dizer. Se ainda se importa, ou sente qualquer coisa, não aja assim. Fale comigo, eu aguento. – disse mesmo sabendo que talvez não aguentasse, talvez ainda fosse fraca por ele.

_Se quer tanto conversar procure um psicólogo ou um padre. Não temos tempo para isso agora...

_Isso não deveria ser assim! – o cortei praticamente gritando. Meu coração disparava muito rápido e me sentia como se tivesse dentro de uma ampulheta, a areia descendo e me cobrindo eu incapaz de fazer qualquer coisa para parar. Parar o tempo e parar aquilo que ia chegando ao fim e me enterrava. _Grite alguma coisa para mim, e aí eu grito alguma coisa de volta, e depois você me beija e eu arranco sua camisa, e nós faremos sexo com raiva nessa floresta, e...

_O quê? – interrompeu meu raciocínio ilógico e agitado. Quase gritei e apontei para seu rosto como uma criança quando vi a sombra de um sorriso nos lábios de Dean, claro, estava escuro e claro foi tão rápido que talvez nem fosse real, mas não importava.

_Eu não sei... Eu não sei, está tudo muito confuso, eu não consigo pensar direito... E nossa como isso dói. – falei só agora notando o latejar na minha bochecha, onde o demônio acertou horas antes.

_Coloca gelo para não inchar.

_Vou colocar. Está latejando e ardendo como se meu rosto estivesse numa frigideira.

_O gelo vai aliviar e tome um comprimido para dor. – o que era aquilo? Estávamos com anjos preste a aparecer e nos matar, um amigo preso e conversávamos sobre analgésicos.

_Não posso parar de amar você. – choraminguei sem pensar. Já não queria mais policiar minhas palavras, então deixei que aquelas rolassem soltas, e não pararia as outras que viriam. Dean não disse nada por um tempo, depois:

_Tenho uma coisa para contar.

_Okay, pode falar. – respirei fundo e procurei me acalmar.

_Eu passei a noite com uma mulher que conheci em um bar, uma completa estranha que gostava de um bom Uísque. Nós fomos para o apartamento dela e dormimos juntos. – fiquei muda. Será que ele podia ouvir meu coração se partindo? Sabia que não podia exigir nada, e ele também sabia disso. Não era direito meu me sentir enjoada, sentir todas as pontadas da traição e do ciúme ardendo tão forte que pareciam queimar dentro de mim. E o modo como disse, tranquilo, apesar de pesado, mas sem muita alteração. Se era a intenção dele me machucar de propósito, missão cumprida.

_Por que está me contando isso? – minha voz estava fraca.

_Só estou sendo honesto, coisa que você não foi em o quê? Nove meses, um ano inteiro? – disse soando pela primeira vez magoado e ressentido. Era a troca mais estranha e doentia; eu o machuquei e ele me devolvia na mesma moeda.

_Isso não é verdade. – minha voz era um fio envergonhado e esgarçado.

_Você disse que quer ouvir? Tudo bem, eu vou falar. Você mentiu para mim, me manipulou, manipulou meu irmão, enfiou uma adaga no meu peito. E eu o tempo inteiro pensando que você merecia alguém melhor que eu, um namorado de verdade por que eu não sabia ser o que você queria, mas na verdade quem não sabe nada de nada é você. – Não chore. Não chore!

Apertei os dedos em volta do lenço cobrindo corte na palma da mão, tão forte que a ponta dos meus dedos estavam úmidos de sangue e a dor me distraia a ponto de conseguir — por mais irônico que seja — segurar as lágrimas.

_Tem razão eu...

_É claro que eu tenho a porra razão. E demorei muito para perceber isso. Mas ainda sou capaz de me preocupar com você a ponto de querer amarra-la na baby só para não deixar você ir com aqueles demônios, ao ponto de... está nervoso com isso... Mas estou tirando dos meus ombros a responsabilidade dos seus atos e suas escolhas. Se quer ir, vai.

Nos olhamos, os olhos se encontrando. Talvez nós dois estávamos encontrando o que não queríamos; O fim. Quando minha visão ficou turva me afastei e me virei sem dizer nada.

_Isabel. – virei quando o ouvir me chamar. _Tenha cuidado. – assenti e segui o oposto do seu caminho.

48 horas Depois.

Parecia que aquele mundo ia me engolir.

Poderia desaparecer para sempre.

Talvez já estivesse morta.

Mas não estava. Só desejava que já estivesse.

Encarava o céu mais lindo. Estrelas de diamantes, nuvens de algodão doce e uma lua brilhante do tamanho de um planeta. Respirava o ar mais puro. O silêncio tinha sensações; Paz e solidão.

Queria continuar deitada, mesmo no chão de terra, mesmo no frio. Ali eu tinha a companhia das árvores. E elas farfalhavam como se estivessem sussurrando segredos para mim.

Meus ossos eram feitos de ferro pois estavam pesados. A dor era como um manto cobrindo-me. Talvez já estivesse a ponto de delirar, talvez meu sangue perdido pelo caminho me fizesse ver coisas enquanto suas últimas gotas deixavam meu corpo, mas poderia jurar ter visto um anjo cruzar o céu.

Asas tão brilhantes que poderiam ser cometas.

Uma chuva de luz caiu sobre mim enquanto ele descia. Suas asas batiam leves às suas costas. Estava começando a perder a consciência. Indo para muito longe...

Suas asas tinham penas feita de ouro e ele brilhava como uma estrela da manhã.



Notas finais
Então, o que acharam ??? Não se preocupem que no próx. capítulo tudo vai fazer mais sentido... See y'all later, angels ;) XOXO