Broken Girl
20 Capítulo vinte: Crianças Noturnas. 'Parte l'
Notas iniciais
Jamie tinha todo o tipo de pergunta. Na manhã seguinte quando o acordei para o café da manhã ele me bombardeou com elas. Perguntou sobre Castiel, se ele era mesmo um anjo, sobre como mamãe e papai morreram, sobre se ali seria nossa casa para sempre, sobre se ele iria para a escola, e sobre Dean e Sam, o que eles eram meus, como os conheci, por que isso era assim ou daquele jeito. O menino simplesmente era um questionário ambulante.
Respondi o máximo das perguntas não entrando muito em detalhes, tinha coisas que ele não precisava saber. Tentava fazê-lo ficar quieto para conseguir cortar direito seu cabelo. Estávamos no banheiro, Jamie sentado num banquinho alto de frente para o espelho enquanto eu cortava as pontas do seu cabelo um pouco cumprido e emaranhado demais.
_Jamie... – disse soando exasperada. Ele se calou de imediato, tão rápido que em surpreendeu.
_Desculpe. A Sra. Martha sempre dizia que eu falava muito e que isso era inconveniente. – disse num tão baixo e um pouco envergonhado. A última palavra soou como se fosse nova em seus lábios, talvez fosse mesmo. _Você se incomoda? É que eu tenho tantas perguntas, não deveria perguntar? – sorri para ele. Jamie não falava muito quando criança, sempre foi mais observador e absorvia tudo, mas quando falava era sempre uma boa pergunta ou um bom comentário onde eu ficava pensando alguns minutos antes de responder. Queria ter tido a chance de vê-lo crescer.
Mas o que mais me apavorava já tinha passado. Por mais que ele tenha sido criado em um lar com demônios a espreita ele tinha tido uma boa educação. Era como qualquer garoto normal da sua idade. Talvez teve uma vida melhor do que teria comigo e com o pai com todo seu rancor e luto. Ou talvez papai tenha sido diferente se soubesse que Jamie estava vivo, talvez ele tenha me olhado diferente. Bem, não importava agora.
_Não me incomodo, de jeito nenhum. Só que tem certas perguntas, para certas pessoas, que devemos guardar para nós. – disse cortando mais um cacho. Um coisa tão normal e cotidiana, devia isso a Castiel. Tinha rezado para ele na noite anterior, o agradecendo por aquilo. Esperava que tivesse ouvido.
_Mas e se eu quiser muito saber? Não posso simplesmente perguntar? – balancei a cabeça rindo.
_Jamie, você vai saber quando for esses casos em especiais. – disse. James era um garoto tão incrível que não foi nem um pouco resistente a mim. Ele me aceitava e confiava em mim como se nunca tivesse me ausentado tantos anos. Ao mesmo tempo em que queria que ele fosse forte queria que mantivesse aquela doce inocência.
_Ah. – exclamou baixo. Uma batida soou na porta.
_Abre! – gritei. A porta abriu e Dean apareceu na entrada. Tinha um jornal na mão que ergueu quando disse:
_Temos trabalho. – disse com um sorriso no rosto. Dean voltou para o corredor gritando por Sammy.
_Você tem que trabalhar? – perguntou Jamie me olhando com um ponto de interrogação no meio da testa. Com trabalho sabia que Dean queria dizer um caso. Tinha achado que esperaríamos até chegar a hora de enfrentarmos Fome, ou talvez era sobre isso o caso. _Então, onde você trabalha? – olhei para Jamie que agora me encarava com uma expressão estranha no rosto.
_Hã... o que achou? – disse apontando para o espelho. Ele olhou para o espelho. Passou a mão pelo cabelo soltando fios pelo ar.
_Eu gostei. – respondeu examinando os fios curtos, mas nem tanto.
_Ótimo. Jamie, pode fazer um favor para mim? – ele fez que sim com a cabeça.
_Pode ficar aqui e juntar todo esse cabelo no chão e colocar nessa sacola. – disse apontando uma sacola plástica no canto do chão.
_Está bem. – respondeu ele obediente. Que espece de irmã pede para o irmão caçula fazer trabalhos domésticos no meu lugar?
_Ok, eu volto para ajudar você. – deixei a tesoura na pia e saí para o corredor.
Sam estava sentado numa cadeira perto de frente para Dean em pé perto da lareira.
_O motivo de toda a sua animação são pessoas com gargantas destroçadas? – perguntou Sam com os olhos no jornal.
_É! – respondeu Dean que era a encarnação da animação. _Quer dizer, não as pessoas... Ah, você entendeu. São vampiros Sammy, malditos vampiros. Um normal e simples caso com vampiros.
_Uau, parece que você tropeçou na palavra "vampiros". – comentei me aproximando de Sam para olhar o jornal, ele levantou o olhar para mim e desviou rapidamente me entregando jornal..
_Engraçadinha. – disse Dean com um sorriso forçado.
Era uma matéria sobre três jovens encontradas numa caçamba de lixo com as gargantas perfuradas e com baixo teor de sangue. As vitimas tinham sido drenadas.
_Eu não sei cara, não deveríamos nos preparar para Fome? – argumentou Sam.
_Eu deixo você comprar um sanduíche no caminho. – respondeu Dean, sorri para o jornal, era fácil prever aquela resposta. Sam olhou sério para o irmão, depois se voltou para mim.
_O que acha? – perguntou.
_Eu? – rebati. Não estava acostumada a decidi a rota, sempre era Dean que dizia para onde iríamos e eu ia, muito menos pedia minha opinião sobre um caso. Olhei para Dean, sabia que ele estava louco para caçar vampiros, os malditos vampiros.
_Isso fica em Butte, Montana. Não é longe, mas...
_Mas... – incitou Dean.
_Jamie, eu mal acabei de voltar do hospital, não sei se deveria deixar ele sozinho por dias.
_Ele não está sozinho, o Bobby cuida dele, você ficou no hospital por quatro dias e ele ficou bem. – disse Dean. _Até por que seria melhor você ficar afastada por um tempo, até que essa loucura acabe.
_Não acha que seis anos não foram o suficiente? – perguntei irritada com a sugestão.
_Pense bem, se sabem que você tem um irmão ele é um alvo fácil. E você é um ímã para perigo, esse lugar é seguro, mas não é uma fortaleza indestrutível. Eu sei que é duro para você se manter afastada, mas seria melhor assim. – disse Dean com a voz cautelosa.
_Ele tem razão. – completou Sam. Olhei para ele, Sam tinha aquela expressão de "Eu sinto muito, mas é verdade".
_Ele vai ficar bem. Eu posso parecer só um velho bêbado numa cadeira de rodas, mas ajudei criar esses cabeças de vento aí. – disse Bobby atrás de mim. Sorri um pouco triste, confiaria minha vida em Bobby.
Os três estavam inflexíveis. No fundo eu sabia que tinham razão. Tinha que me separar de meu irmão por mais um pouco de tempo para poder ajeitar tudo para que ele ficasse bem. Colocando as coisas num modo prático parecia algo simples, mas no coração abria-se um vazio.
... — ...
_Então você vai embora, para sempre? – perguntou Jamie com os olhos arregalados.
_Não, não vou para sempre. Assim que der eu vou voltar para ver você. – disse agachada no chão para ficar a sua altura. _Eu prometo que volto. – Jamie mordeu o lábio e assentiu.
_Mas, o que vai fazer tão longe? É por causa do seu trabalho? – perguntou.
_É, é por causa do trabalho. – respondi.
_O que você faz? – insistiu. Estava sendo interrogada por uma criança de dez anos e não sabia o que dizer.
_Meu trabalho é caçar coisas que as pessoas não querem por perto. – respondi vaga.
_Se as pessoas não querem por perto, por que você ia querer chegar perto? – Boa, Jamie, é uma boa pergunta.
_Por que essas pessoas precisam da minha ajuda e a de Sam e Dean. É como um Super Herói, eles enfrentam os vilões para proteger as pessoas. – os olhos de Jamie se acenderam, mas logo o brilho se apagou.
_Vilões como a mulher de olhos pretos que me trancou no quarto, é isso que você vai caçar? – senti um frio na espinha. Não sabia o quanto Jamie sabia sobre demônios, mas ele via a família que o maltratou como monstros, isso era alguam coisa.
Estávamos no quintal do Bobby numa oficina aberta nos fundos enquanto Dean e Sam colocavam coisas no Impala para podermos partir, coisa que eu deveria está fazendo. O sol estava alto e quente brilhando na lataria dos carros como um mar de metal colorido a nossa volta.
_É, é isso. – respondi cautelosa.
_Tudo bem. – disse afinal. Uma expressão determinada desenhada no rosto de Jamie.
_Tudo bem? – perguntei, não esperava uma reação tão tranquila da parte dele.
_Se existem pessoas más como eles e vocês são heróis precisam detê-los, não é? – disse. Os olhos cor de chumbo me fitando com uma intensidade compreensiva de um adulto. Jamie entendia muito bem o conceito do que era ser um caçador. Lutar contra o mal e salvar pessoas. Não sabia se isso me deixava orgulhosa ou preocupada.
_É isso, Jamie. – ele assentiu.
_Quando crescer quero ser um herói como você e o Sam. Quero lutar contra os vilões também. – disse Jamie como se enxergasse um futuro que quisesse muito. Ah, como eu queria que ele dissesse que gostaria de ser um astronauta ou cowboy.
_Acredite, garoto, não é tão legal assim ser o herói. – disse Dean atrás de mim. Levantei do chão sentindo as pernas estalaram por causa da posição desconfortável.
_Como você sabe? – perguntou Jamie desafiador.
_Como eu sei? – Dean aplumou o peito e colocou as mãos na cintura numa pose ridícula de Super Herói. _Eu sou um deles.
_Não parece com um. – com essa resposta Jamie quebrou a pose de Dean.
_Pelo menos eu não sou baixinho. – rebateu Dean. Jamie ficou vermelho.
_Não sou baixinho. – afirmou com convicção. _Vou crescer. Já você é adulto e seu irmão mais novo é mais alto que você.
Antes que Dean respondesse resolvi interver.
_Jamie, pode nos dar licença um pouquinho. – Jamie olhou para Dean com os olhos apertados, Dean encarou de volta com uma sobrancelha arqueada. Por alguma razão eu achava que Jamie não gostava muito de Dean. Jamie enfim seguiu o caminho de volta. Quando estava distante o suficiente Dean disse:
_Tem alguma coisa errada com esse garoto.
_O quê? – perguntei cruzando os braços. Dean se recostou no carro atrás de si.
_Ele não gosta de mim.
_Claro, com certeza tem alguma coisa errada com ele. – disse indo para seu lado.
_Do que está falando? Todo mundo gosta de mim. – Dean cruzou os braços decidido na sua afirmação.
_Todo mundo você diz garotas bêbadas em um bar loucas por sexo com algum bonitão desconhecido. É, tem razão, todo mundo adora você. – Dean virou o rosto para mim com um sorriso torto no rosto.
_Você gosta de mim.
_O que te faz ter tanta certeza? – perguntei o provocando.
_Preciso citar o que me disse ontem a noite? O que foi mesmo? – ele fingiu lembrar. _Ah, sim, o quanto eu sou incrível e precioso para esse mundo e ainda por cima bom de cama. Continuo?
_Lindo. Usando o que eu disse para você com todo o meu coração contra mim.
_Aprendi com a melhor. – devolveu ele na mesma moeda.
_Será que nós somos incapazes de ter uma conversa como duas pessoas normais? Por que ou estamos brigando, nos provocando ou... – deixei o resto no ar, Dean conseguiu interpretar:
_Ou na cama. – concordei. _Não somos normais. – disse Dean olhando para frente, onde Sam, sentado na traseira do Impala, e Jamie estavam fazendo alguma brincadeira com toques de mão. Pareciam está se divertindo. _Olha só, o moleque ainda está roubando meu irmão. Agora é pessoal.
_Dean, ele é uma criança. – suspirei. Parecia que tinha que lidar com duas crianças.
_É, e vai me chamar de Tio Incrível quando eu terminar com ele. – balancei a cabeça sorrindo.
_Você é inacreditável.
_Viu, você me ama. – disse Dean convencido.
_Você me entendeu errado. Eu quis dizer que amava você como eu amo, hum, batata frita por exemplo. – disse tentando esconder o sorriso.
_Ah, é? Me trocaria por batata frita? – perguntou se fingindo de ofendido.
_Você me trocaria por torta? – retruquei erguendo uma sobrancelha. Dean abriu a boca para responder e fechou de novo, ele estava realmente pensando na possibilidade.
_Eu comeria uma torta de você. – respondeu me olhando com malicia.
_Isso não faz o menor sentido. – respondi com o rosto quente.
_Na minha cabeça faz. – o encarei e ele encarou de volta. Dean estava com barba por fazer, os pelos loiros escuros brilhando em dourado. Sexy, tinha que admitir...
_Não vou entrar nessa. – disse me desgrudando do carro. _Vou terminar de levar minhas coisas para o carro.
Lhe dei as costas sentindo meus passos sendo observados. Um sorriso estranho se espalhou no meu rosto. Será que aquilo significava que estávamos bem?
... — ...
_Ei, James. – cumprimentou Dean sentando perto do garoto num banco na entrada da casa de Bobby.
_James? – perguntou o menino levantando os olhos do livro. Harry Potter e a Câmara Secreta, leu na capa colorida com um moleque se segurando no rabo de um pássaro gigante vermelho. Dean não entendia qual era todo lance das pessoas com aquele menino mágico ou sei lá o quê.
_É o seu nome.
_É, mas ninguém me chama assim, eu prefiro Jamie. – declarou o garoto.
_Ok, desculpe, erro meu. É que o Sammy odiava quando eu o chamava de Sammy quando estava crescendo.
_Pode me chamar de Jamie. – reafirmou o menino.
_Tudo bem, Jamie. – Jamie tirou os olhos dele e os voltou para Sam que estava sentado encostado no porta malas do carro com Isabel à sua frente assentindo com expressão concentrada enquanto ele explicava alguma coisa.
_Você não parece com seu irmão. – observou Jamie.
_Não somos gêmeos. – Jamie revirou os olhos.
_Eu sei que não, quis dizer no jeito. – Dean assentiu se sentindo de repente idiota. _Eu acho que ele gosta da minha irmã. – Dean virou a cabeça para Jamie. O garoto ainda olhava para frente.
Ele via sim os sinais claro de que Sam gostava de Isabel, já tinha percebido isso há muito tempo, mas antes achou que fosse só um sentimento entre amigos, ou Sam via em Isabel a irmã que nunca teve. Tolo. Porém se até Jamie notara era algo que transcendia aos olhos dos outros.
Será que não tinha isso também? As pessoas não viam o quanto ele gostava dela também? Ele começava a se sentir como um empecilho numa estrada cheia de carros. Teria de sair para que tudo pudesse correr como deveria, ou ficava ali e complicava mais as coisas?
_Pode está errado. – disse Dean olhando, observando Sam e Isabel. Ele agora mostrava alguma coisa para ela em um caderno, o diário do pai, ela estava com a cabeça inclinada sobre as páginas de modo que seu cabelo bloqueava sua visão de seu rosto.
_Mas não estou. – Jamie deu certeza.
_Não deveria saber essas coisas. É só uma criança. – disse Dean descartando a opinião do garoto. Sam sorriu de algo que Isabel disse, ela também. E aí Dean reparou algo estranho no comportamento do irmão. Sam parecia desconfortável ali, com ela, os dois estavam perto, mas não se tocavam e Sammy parecia querer criar distância. Dean franziu o cenho e balançou a cabeça afastando o pensamento.
_Não sou criança! – Jamie levantou os olhos para ele com uma expressão irritava.
_Você tem o quê? Dez anos?
_Tenho quase onze. – disse Jamie com um ar de orgulho. Dean quase riu, mas achou que não seria uma boa ideia.
_Nesse caso, me desculpe senhor. – Jamie interpretou mal seu sarcasmo, o fitou com raiva e depois voltou a cabeça para o livro no colo numa clara mensagem de que o papo tinha terminado. Corands...
_Ei, Jamie, me desculpa cara, não quis... ofender você. Na verdade só queria fazer uma pergunta, mas já que não quer falar comigo... – tentou Dean. O garoto mordeu isca.
_O quê é? – perguntou, mas não levantou os olhos das páginas do livro.
_Gosta de carros? – a garoto continuou lendo.
_Por quê?
_Só queria saber se gostaria de me ajudar a concerta o meu um dia desses, posso te ensinar algumas coisa legais. – Jamie olhou para ele, Dean esperou com expectativa ver os olhos brilhando ou uma resposta animada mas o que ganhou foi:
_Eu prefiro livros. – disse Jamie sem realmente mostrar interesse na proposta de Dean. Ele suspirou vendo o por que o garoto gostava mais de Sam.
_É claro que prefere. – murmurou para si.
_Mas posso te ajudar se me contar uma coisa. – ali estava nos olhos de Jamie o que Dean esperava.
_O que quer saber?
_O que são as coisas que vocês vão caçar? – Dean ficou mudo com a pergunta. Isso o fez pensar na época em que Sam começara a fazer a mesma pergunta e ele não soubera oque responder. Nesse caso não cabia a ele ter de contar ao garoto.
_Se sua irmã não contou é por que não quer que você saiba. – Jamie o avaliou, os olhos cinzentos claros como o fundo de um rio cristalino e rochoso. Está aí o ponto forte e característico de família; os olhos grandes e bonitos. Dean sempre gostou dos olhos de Isabel, os olhos normais e azuis de antes. Ainda achava bonito agora também, mas o brilho intenso e o azul peculiar era um lembrete vivo do que ela era e o que isso já o custara.
_Tem medo dela? – perguntou. Dean viu um pitada de humor em sua voz.
_É claro que tenho, ela pode me dar uma surra. – Jamie sorriu. As coisas estavam progredindo. O sorriso de Jamie foi diminuindo até que virou um expressão entristecida.
_Ei, o que foi?
_Nada.
_Vamos, pode confiar em mim. Não vou contar para ninguém. – garantiu. Jamie decidia se podia confiar ou não.
_Nem para Sam? – Dean estranhou a pergunta.
_Nem para ele. – Jamie assentiu uma vez, hesitou no primeiro momento, mas depois começou a dizer:
_É que, se ela for fazer algo perigoso, ela pode se machucar de novo, e se ela se machucar muito, muito mesmo, ela pode... ela pode não voltar. – Dean soube que ele falava de Isabel, uma preocupação com a irmã que ele entendia. Sua única família. _Ai, eu vou ter que morar com outras crianças de novo. Vão me obrigar a mudar para outra casa. E se os novos pais forem como os outros que me machucaram, se aquele seu amigo anjo não conseguir me achar, e se...
_Ei, ei, vai com calma garoto. Respira. – Jamie fez o que Dean instruiu, solveu o ar com vontade. Falando rápido assim Dean teve até dificuldade de entender algumas coisas pelo sotaque forte do garoto. _Nada disso vai acontecer. Ela vai voltar e você vai continuar aqui com a gente. Ela só vai ter que passar alguns dias longe, mas ela vai voltar. Tudo bem? – Jamie assentiu várias vezes, mordendo o lábio trêmulo.
_Tudo bem. – disse com firmeza.
_Por que não quer que o Sammy saiba? – perguntou quando o garoto parecia mais calmo.
_Ele não pode saber que contei essas coisa para você, não quero que saiba que estou com medo. Ele vai pensar que não sou corajoso. – provavelmente foi o que Sam pediu para Jamie. Era uma boa coisa e parecia funcionar.
_Tenho certeza que ele não iria achar isso.
_Como pode ter certeza?
_Por que ele é meu irmão.
_Certo. Mas não pode contar para ele. – disse Jamie em quase ameaça.
_Não vou. – disse Dean levantando as mãos em rendição.
_Promete?
_Prometo. – Jamie relaxou um pouco. _Posso contar um segredo? Também não vai poder contar para ninguém.
_Não vou, prometo. – disse Jamie depressa, ávido para saber mais.
_Sabe, eu também gosto da sua irmã, tipo muito mesmo. Não vou deixar que nada de ruim aconteça com ela. – disse Dean, observando-a conversar com Sam.
_Espera, se você gosta dela, tipo muito mesmo, vocês são namorados? – perguntou Jamie com uma expressão estranha no rosto.
_Não exatamente... quer dizer, oque você sabe sobre namorados? – Dean não queria ser aquele que iria explicar esse tipo de coisa para um garoto de dez anos, mas achava que deveria, se não quem seria?
_Na minha antiga sala, tinha o Danny e a Joana. Eles eram namorados, sempre sentavam juntos e dividiam o lanche, apesar da Joana já ter dividido o lanche com David, mas o Danny não se importou muito. – explicou Jamie distraído nas lembranças.
_Escute Jamie, algo que deve aprender: Uma garota legal não divide seu lanche com outros caras. E nem um cara deve dividir seu lanche com outra garota. – Jamie assentiu, se ele não entendeu simbologia daquilo, iria entender mais tarde.
_Você não divide seu lanche? – perguntou ele como se tentasse seguir a linha de raciocínio de Dean.
_Não, não divido minha torta.
_Nem com o Sam? – a pergunta o pegou de surpresa. A metáfora estava tão clara para Dean que ele pensou antes de responder:
_Nem com ele.
_Mas e se ele estiver com muita, muita fome? – Dean riu baixinho.
_É melhor ir lá se despedir de sua irmã, já vamos sair. – Jamie suspirou não muito contente com a falta de resposta. Mas mesmo assim deixou o livro no banco e foi, no meio do caminho se virou para Dean.
_Eu acho seu carro maneiro. – disse Jamie. Dean sorriu. Começava amar aquele garoto. Jamie correu para Sam e Isabel. E foi como a escapatória que Sam esperava, ele falou alguma coisa para os dois e foi até Dean sentando no lugar que antes Jamie ocupava. Sammy encostou a cabeça na parede atrás de si e fechou os olhos.
_E aí, o que está rolando entre vocês? – perguntou Dean direto.
_O quê? – Sam abriu os olhos.
_Você e Isabel. Você está... estranho. – Sam o encarou e depois voltou a encostar a cabeça na parede. Dean entendeu que aquilo era um sinal de que ele não falaria sobre o assunto com ele. Não insistiria.
Isabel mexia na sua bolsa enquanto Jamie esperava. Ela se virou para casa olhando a janela de cima, Jamie saiu em disparada para casa passando por eles como um foguete.
_Ele gosta mesmo de você. – disse Dean distraído. Isabel abria o porta malas.
_Jamie?
_É.
_Você e ele pareciam bem. – respondeu Sam.
_É... – Dean deixou a frase no ar pela visão... Isabel estava inclinada para dentro do porta malas colocando sua mochila em algum lugar ou mexendo em alguma coisa, não importava, ela estava com a bunda toda empinada em sua direção. Dean sentiu a temperatura subir, estava se sentindo assim ultimamente, mas agora a causa não tinha nada ver com isso.
No seu lado ele reparou em Sam, os dois estavam com a cabeça inclinada para o mesmo lado e com expressões... perdidas. Sam notou o olhar de Dean e vise versa. Os dois se retesiaram no banco de repente muito desconfortáveis um como o outro. Sam disfarçou olhando para o lado totalmente oposto.
Jamie irrompeu na porta com a câmera dela na mão. Nessa altura Isabel já tinha batido a tampa do porta malas e esperava por Jamie sorridente.
_Espero que isso esteja sendo tão constrangedor para você do que está sendo para mim. – disse Dean.
_Está. – concordou Sam.
_Podemos revisar. Você fica com a segunda, terça e quarta, eu com a quinta sexta e sábado, o domingo é só para ela. – Sam suspirou.
_Que bom que isso já virou piada para você. – disse Sam sarcástico se levantando.
_Podemos trocar os dias. Vamos Sammy, não seja egoísta. – Sam o ignorou. Dean deu de ombros.
_Vamos falar com o Bobby, temos que pegar a estrada. – ele se levantou e chamou por Isabel, que tirava uma foto com Jamie, os dois dando língua para a lente. Dean sorriu, apesar de fazer piadas e ver simbologias com torta ele se via numa situação completamente nova e complicada.
... — ...
Butte– Montana
O lado de fora do bar tinha uma fachada escura e discreta. Janelas escuras e um pequeno letreiro em neon indicando que era um bar. Pessoas passavam à frente impedindo que visse detalhes dos cartazes colados na parede. Dean estacionou o Impala no encostamento e descemos do carro. Depois de horas de viajem era bom sentir o cheiro da noite.
Um ar fresco corria pela rua movimentada, ajeitei minha jaqueta no corpo e segui Dean e Sam para dentro do bar, me desviando de pessoas. Um ar um pouco abafado e condensado me atingiu assim que abri a porta me fazendo afrouxar a jaqueta no corpo. O interior do bar fervia em conversas animadas, tilintar com os copos de cervejas, passos ligeiros dos garçons tentando dar conta de todos os pedidos e uma música agitada tocada num piano no fundo, nada de Rock pesado.
Dean olhou pela extensão do salão à procura de uma mesa. Acabou que Sam achou uma desocupada mais ou menos no meio. Serpenteamos pelas mesas ocupadas com todo o tipo de pessoas, não só motoqueiros e homens tatuados bêbados, mas casais, grupo de amigas, mulheres ou... homens? vestindo cores fortes e brilhantes, maquiagens exageradas e saltos altíssimos. Elas, ou eles, deram uma boa checada em Sam e Dean quando estes passaram pela mesa sem notarem as investidas. Sorri discretamente.
Sentamos à mesa, tinha um pequeno Dean tamborinou na mesa com dedos, olhando para os lados. Na mesa tinha uma vela pequena em um recipiente quadrado como um copo de vidro fosco.
_Estou me sentindo... estranho aqui. – disse Dean.
_Muito limpo para você? – perguntou Sam.
_Na verdade é. – confirmou Dean. _Cadê o cheiro de cerveja e suor? As mesas de sinucas e as garotas de minissaia no bar? E que diabos é essa música de boiola? – revirei os olhos.
Um garçom veio anotar nossos pedidos, Dean ficou com seu clássico X-bacon, Sam e eu pedimos salada de frango. Minutos depois que o garçom saiu o salão inteiro caiu a meia luz, uma música de suspense foi tocada no piano. Dean olhou para mim intrigado, dei de ombros. Não tinha notado antes, mas à frente tinha um palco, uma plataforma pequena com um cortina vermelha como em teatro.
Assim que a música tomou um ritmo acelerado a cortina foi se abrindo. E começaram a aparecer relances de lantejoulas e penas, até que surgiram cinco mulheres — só que não eram mulheres, a essa altura já estava confusa — em poses que remitiam a sensualidade, acima letras luminosas com luzes diziam "Show das Divas". O bar explodiu em aplausos e assovios. Aos poucos fui percebendo o que acontecia. Os cartais lá fora eram os anúncios de um show com Drag Queens, que por sinal eram deslumbrantes. Lindas com uma firmeza e leveza nos seus saltos que nem em sonho eu teria. Vestidos maravilhosos e brilhantes, corpos femininos dos mais cheinhos ao mais torneados. Perucas de cores e tamanhos diferentes, todas sedosas e com um brilho natural. A única coisa que as denunciavam eram seus rostos — cobertos por maquiagens impecáveis — ainda podia se ver os traços masculinos na mandíbula ou pescoço.
_Ok, no três, levantamos devagar e saímos. – disse Dean disfarçadamente encarando o palco como se fosse uma exibição alienígena. Não queria ir, aquilo poderia ser divertido. Olhei para Sam, ele também olhava o palco, mas com o cenho franzido em curiosidade.
_Olá, sejam bem vindos ao Show das Divas, eu sou Jessamine e vou conduzir o show esta noite. Apertem os cintos marujos. – disse uma delas ao microfone com um sorriso brilhante, à do meio com uma peruca loira, magra com um corpo desejado por muitas mulheres e um vestido longo e com fenda vermelho inteiro de lantejoulas.
_Ok, Um...
_Vamos conhecer a tripulação.
_Dois, três. – quando Dean terminou de contar e estava no meio do processo de levantar, um refletor iluminou nossa mesa, apertei os olhos para a luz repentina.
_Hum, acho que temos carne nova aqui meninas. – a voz de Jessamine voou até nós, ou melhor até Dean. Ela desceu do palco, os saltos fazendo barulho enquanto caminhava até nossa mesa. Parou diante de Dean, que parecia em choque. _Qual é o sua graça querido? – perguntou ela levando o microfone à altura da boca de Dean.
Era raro, muito raro vê-lo ficar vermelho, mas lá estava. Estendeu-se um silêncio, as pessoas com olhos cravados neles, Jessamine e todos esperando uma resposta.
_Hein? – foi o que Dean conseguiu dizer.
_Dean, o nome dele é Dean. – disse me vindo uma inspiração travessa. Jessamine se voltou para mim alegrando-se. _Ele está tímido agora, mas não parava de falar em chegar a tempo para o Show das Divas, vai Dean, conta para ela.
_O quê? – disse Dean num fio de voz me fuzilando com os olhos. Olhei para Sam que parecia preste a cair na gargalhada.
_Ah, meninas temos um fã, e dos tímidos, meu tipo favorito. – disse Jessamine olhando sobre o ombro, as outra no palco deram gritinhos animados. _ E você querida, ah como queria ter esse rostinho de boneca, como se chama?
_Isabel. – respondi ao microfone. Ela sorriu para mim assentindo e seus olhos descobriram Sam.
_Oh, e esse rapaz bonitão ao seu lado? – ela se moveu para o lado de Sam. _Olá, querido, como se chama? – Dean abriu a boca para falar pelo irmão, mas Sam foi mais rápido:
_Sam, namorado dela. – respondeu Sam rápido.
_Ah, mas que pena. – lamentou ela/ele. _Parece que somos só eu e você Dean. – Jessamine passou a mão no rosto de Dean prendendo seu queixo com dedos decorados com unhas postiças que brilhavam com purpurina.
_Não, eu não sou... eu sou... eu sou homem! – gaguejou ele com a fala enrolado por conta do aperto de Jessamine. Ela riu, assim como as pessoas no bar, principalmente os homens. Sam sorria e eu mordia o lábio para não gargalhar.
_Aposto que é anjinho. – disse ela soltando Dean e se virando para o palco. _Meninas tenho um encontro essa noite! – mais gritinhos animados. _Mr. Julio! – Imediatamente uma banda surgiu detrás de outra cortina e logo veio o som inconfundível de I Will Surviver. Ela piscou para um Dean que parecia desesperado para afirma sua sexualidade, se afastou cantando o primeiro verso.
O bar estava muito animado com música e o Show das Divas rolando no palco, com uma coreografia envolvendo bailarinos masculinos sem camisas. Definitivamente era divertido.
_Nunca vou perdoar os dois por isso. – disse Dean entre dentes nos lançando um olhar ameaçador que nos fez cair na gargalhada.
Uma hora depois já estávamos alimentados, Dean muito emburrado, e assim que tivemos uma brecha nos esgueiramos para fora do bar no meio do refrão de It's Raining Men. Entramos no carro e Dean começou dirigir como se tivesse tentando fugir de alguém.
_Ah, foi divertido. – comentei ainda com Don't Rain on My Parede na cabeça.
_Divertido? Divertido? – ele apertava o volante com tanta força que os nós dos dedos estavam brancos, ele parecia preste bufar de raiva. _Foi divertido para você, por que eu fui molestado por um cara de vestido!
_Não seja exagerado. Ela, ele, mal tocou em você. – Dean olhou para seu reflexo no vidro retrovisor e passou a mão pesadamente no rosto, os dedos voltaram brilhando com um pouco de purpurina.
_E ainda por cima fui purpurizado. – disse indignado.
_Relaxa, não acho que ela vai ligar para isso no encontro. – disse Sam que eu via tentava ao máximo não cair na gargalhada.
_E você nem fale comigo. – disse Dean para Sam e ligou o rádio em volume alto. Olhei para Sam e não conseguimos mais segurar e caímos na gargalhada. Um breve momento que me fez esquecer o quanto ele estava estranho comigo mais cedo.
...
_Desculpe, mas só temos um quarto de casal disponível. – disse a jovem recepcionista do hotel. _Estamos com a lotados, muitos vieram para o Show das Divas, deveriam ir ver, só vai ficar essa semana. Ouvir dizer que é um ótimo...
_Tudo bem, as chaves. – cortou Dean. A menina fez o check in e o entregou a chave.
A principio eu tomei a iniciativa de pedir três quartos, Dean olhou de relance para mim, parecia que ia dizer alguma coisa, mas desistiu. As coisas ainda estavam... estranhas entre nós. Talvez fosse melhor não dividimos um quarto por enquanto.
Entramos no quarto e meu corpo imediatamente começou a pedir um banho quente e uma cama para dormir, cama que por sinal era só uma.
_Eu fico com a cama. – disse Dean passando por mim e jogando sua mochila no colchão. Larguei a minha no chão.
_É bom saber que o cavalheirismo ainda não morreu. – ele olhou para mim.
_Considere isso como uma recompensa pelos danos psicológicos causados pela humilhação da noite. – respondeu ele com um sorriso irônico.
_Ah, para, aprenda a rir de si mesmo. Não é justo você ficar com a cama. – disse diante dele com os braços cruzados.
_E por que seria justo você ficar com a cama? – perguntou ele cruzando os braços também. Tinha razão, a lateral de seu rosto brilhava com purpurina.
_Por que... por que... – eu não tinha exatamente uma razão. _Sam. – pedi por ajuda me virando para ele que tirava o notebook da mochila e o colocando em cima da mesinha no canto.
_Não olhem para mim, eu vou ficar bem no chão. – ele deu de ombros. Me voltei para Dean inflexível.
_Vamos tirar na moeda. – sugeri. Ele tirou uma moeda do bolso da calça.
_Cara. – dissemos os dois em uníssono. Bufei frustrada. _Tudo bem, você fica com cara. – ele jogou a moeda para cima e apertou com um estalo nas costas da mão. A desgraçada da moeda deu cara. Dean sorriu vitorioso para mim.
_A melhor de três. – pedi.
_Ah, para, aprenda a lidar com a derrota. – disse se jogando na cama e fechando os olhos com um sorrisinho no rosto. Essa viagem não tinha começado bem.
_As crianças já terminaram? – perguntou Sam com os olhos no notebook aberto na mesa.
_Manda, o que tem para nós. – disse Dean ainda jogado na cama. Fui até Sam e me sentei ao seu lado vendo o que ele via no computador.
_Sabemos que os corpos foram encontrados pelo delegado Donovan em um prédio abandonado, mas a notícia do momento no jornal da cidade é que ele já encontrou o assassino. – disse Sam. Dean se sentou na cama.
_Ele prendeu o vampiro? – perguntei.
_Não, eu acho. O sujeito foi encontrado com a arma do crime e no local. De acordo com a perícia o sangue na faca e numa peça de roupa confere com os das vítimas. E parece que o cara era apenas um desses arruaceiro lunáticos que causava alguma confusão, tanto que já tinha sido preso por isso, mas nunca realmente foi uma grande ameaça. Aparentemente o homem não confessou o crime e também não desmentiu. Enfim, as provas encontradas e o estado mental do cara já diziam por si só.
_Isso não faz sentido. – disse Dean com o cenho franzido. _Se fosse um vampiro o delegado não conseguiria o prender, mas também tem uma arma do crime. Então, não tem caso, as mortes foram obra de algum psicopata de rua?
_Não sei, não parece ser só isso. E pelo ferimento e pelo tempo em que os corpos foram encontrado nada explica a drenagem do sangue. – explicou Sam. Ficamos um tempo parados pensando, tentando encontrar a uma peça para encaixar no quebra cabeça.
_Seria pedir demais um caso simples, mais... Blade e menos Robert Langdon. – reclamou Dean voltando a se jogar na cama.
_Você leu Dan Brown? – perguntou Sam incrédulo.
_Não, eu vi os filmes. – respondeu Dean. Sam assentiu como se já soubesse a resposta.
_Tudo aponta para o delegado Donovan, ele encontrou os corpos e o assassino. Talvez ele tenha ligação com os vampiros. – arrisquei a dizer.
_Tem razão, se pensar bem ele é delegado, conhece o bode expiatório perfeito, um homem louco que ninguém dá a mínima. Ele teve acesso aos corpos, pode ter plantado a arma. Talvez ele esteja de alguma forma encobrindo tudo. – Sam emendou meu pensamento. Uma das coisas que eu adorava em trabalhar com Sam era que ele compreendia meu modo de pensar sem eu precisar dar muitas explicações.
Ele me olhou notando que eu o encarava, estávamos sentados lado a lado de modo que estávamos praticamente cara a cara. Algo se agitou dentro de mim. Lembrei de como ele se auto titulou meu namorado, sabia que era por conta da brincadeira com Dean, mas para ele pareceu tão natural...
Sam foi o primeiro a afastar o olhar rapidamente, sentir como se voltasse a terra firme numa aterrissagem brusca. Os sentimentos por Sam se misturando no estômago e doendo no coração. Ainda não tivemos tempo de conversar e queria tanto ficar sozinha com ele...
_Por que ele estaria encobrindo vampiros? – perguntou Dean encarando o teto.
_Essa é a pergunta de um milhão.
_Tudo bem, vamos amanhã conversar com o delegado e o possível assassino. – Dean encerrou a conversa.
... — ...
Ele estava cercado por sangue e neve. Figuras que não se mexiam, não o alcançavam, nem tentavam o ataca. Por que estavam todos mortos. Todos em meio ao cobertor branco de neve suja.
Dean tinha sido deixado por último para ouvir os ecos de agonia nas ruas, para sentir em um calafrio na espinha a morte cavalgando por ali, um cavaleiro solitário recolhendo os desesperados e os levando para um lugar que Dean não saberia dizer.
Ele deu um passo para frente, os pés fundando na neve vermelha, desviou de um cadáver para encontrar outro. Não se deu ao trabalho de olhar em seus rostos congelados, não teve coragem...
_Dean. – a voz o atravessou como espetos de gelo no coração. Ele se virou já sabendo o que iria encontrar.
Ela parecia um dos flocos de neve em meio ao carvão de tão destoante que era do cenário a volta. Estava linda, a pele parecia porcelana fazendo as poucas sardas parecerem ter sido colocadas ali por um lápis de colorir. O cabelo negro como piche caía-lhe as costas e cintura em ondas. Ela usava um vestido dourado feito ouro líquido moldado em seu corpo. E seus olhos eram... o mais impressionante azul que ele já vira.
Isabel se aproximou dele. Os passos firmes como se estivesse pisando no asfalto.
_Dean, eu acho que quebrei o mundo. – disse à ele.
Dean queria tanto tocá-la, pega-la nos braços e levá-la para longe daquela chacina, mas bem no fundo, bem no calafrio que lhe subiu a espinha, ele soube que ela não era mais sua garota.
_Você ainda me ama, Dean? – perguntou. A voz tinha quase uma emoção artificial. Ele ficou mudo. _Ainda me quer mesmo sabendo que matei essas pessoas?
_Isabel... – ele sentia o coração disparar no peito.
_Seus amigos, sua família, pessoas inocentes. Ainda consegue me perdoar, Dean? – ela pegou sua mão. Um toque tão frio como um lago congelado. _Mesmo eu parecendo assim. – ele olhou para baixo, para suas mãos juntas.
As linhas negras começaram a subir pelo seu pulso, como valas abrindo caminho na areia limpa. Ele seguiu as veias se desenhando pelo seu braço até seu pescoço ficando mais finas nas têmporas e laterais do rosto. Lembrava-lhe um vaso fino e branco com vincos de rachaduras. Os olhos como lanternas azuis neon, a cor contornada por um anel negro que parecia querer tomar o azul para si.
Uma escuridão levando para longe o que era belo.
_Ainda consegue me amar assim? – perguntou de novo, a voz fria. Dean parecia congelado pelo seu toque. Ele viu quando ela tirou de algum lugar uma faca grande e mostrou para ele a lâmina encarando-a com um fascínio sombrio.
_Eu amo você. – disse Isabel. A frase pareceu muito errada saindo de sua boca. Foi então que ela sorriu para ele e enterrou a lâmina em...
_Dean! – ele acordou puxando o ar com força. Encontrou os olhos de Isabel fixos nele. O mais impressionante azul que ele já vira. Por puro reflexo do sonho ele agarrou-a pelo ombro, ainda sentindo a dor abrindo-lhe o peito e o gosto amargo do pânico na boca. Isabel arfou com olhos arregalados encarando-o assustada.
Ele ouviu sua própria respiração ruidosa, os batimentos loucos. Dean tivera aquele sonho pela segunda vez, uma noite seguida da outra. E nas duas vezes acordou sentindo-se em pânico, foi o que levou ao quarto de Isabel naquele dia. Depois que seus batimentos se assentaram ele tinha que vê-la, ter certeza de que àquela Isabel era só fruto do seu subconsciente que fazia parte só do mundo dos pesadelos. Não significava nada.
Agora pego de surpresa, olhando naqueles olhos estranhos e impressionantes ele só conseguiu agir por instinto, por isso demorou um pouco para notar que talvez a estivesse machucando. A soltou de uma vez só. Mas Isabel não o deixou, segurou seu rosto nas mãos.
_Você está muito quente? O que aconteceu, está se sentindo bem? – Dean mal conseguia olhar para ela agora, por isso afastou seu toque e saiu da cama.
_O que está acontecendo? – perguntou Sam com a voz rouca de sono. Ele olhou para o irmão do outro lado da sua cama, só visível acima do ombro. Sam tirou o cabelo desgrenhado do rosto e começou levantar. _Dean?
_Eu estou bem. Voltem a dormir. – disse Dean sentando a beira da cama para vestir os sapatos.
_Você vai sair? – perguntou Isabel atrás dele, ainda ajoelhada em cima da cama. _Não pode sair assim.
_Eu estou bem. – repetiu Dean. _Só preciso de ar fresco.
_Dean, o que houve? – perguntou Sam naquele tom que usava quando sabia que tinha alguma coisa errada e que era difícil de se contar, um tom reconfortante e convidativo para fazer você falar. Dean olhou para o irmão esperando que ele entendesse. _Foi só um pesadelo. – Sam assentiu devagar apesar de preocupado entendeu o recado.
Dean se levantou e pegou a jaqueta. Isabel o parou no meio do caminho da porta.
_Não pode sair. Você está queimando em febre. – ela tinha razão, estava se sentindo quente, suor brotando das têmporas e nuca. Ele se obrigou a olhar para ela.
_Estou bem, só vou tomar um ar e volto logo. – disse devagar.
_Mas, Dean... – ele se inclinou e beijou sua testa a fazendo se calar.
_Fique com a cama. – disse e se afastou dela para porta.
Dean desceu as escadas com a mente lotada e o coração começando a encontrar seus batimentos normais. Saiu pela porta do hotel ganhando um lufada de ar frio muito bem vinda. Ele respirou o ar da noite como se tivesse prendendo a respiração desde de que acordou.
Colocou as mãos nos bolsos da calça e começou a andar, a princípio sem rumo. Só precisava clarear a mente. Eram um pouco mais de duas da manhã o que significava que as ruas estavam quase completamente desertas. Ele se obrigou a pensar sobre o caso, os vampiros, será que toparia com um deles? Se sim o que iria fazer? desceu apenas com a arma no bolso da jaqueta, inútil.
Mas o que ele queria mesmo, talvez fosse até o objetivo da caminhada noturna, era colocar as coisas em perspectiva. Pensar bem e entender oque tinha para compreender e não faria isso sozinho. Dean parou num beco escuro e fechou os olhos tentando se sentir menos ridículo fazendo aquilo.
_Cass, Sou eu, Dean, é estou vivo e convocando você. Estou numa rua perto do hotel Monteiro, em Butte, Voe para cá, preciso falar com você. – ele abriu os olhos e olhou para os lados esperando ver Castiel, não estava lá.
Dean esperou pacientemente, começou a mexer com uma latinha no chão e cada vez se sentia mais frio. Vamos lá, Cass, sei que deveria ter chamado antes, mas vamos, arraste seu traseiro alado para cá. Dean pensou que talvez não tivesse sido muito especifico quanto ao local. Então decidiu encontrar um ponto de referencia, andou para a saída do beco quando ouviu o barulho suave e inconfundível de um farfalhar de asas. Olhou imediatamente para trás, não viu ninguém, franziu o cenho se voltou para frente dando de cara com Castiel a poucos centímetros dele.
_Como pode ainda está vivo? – perguntou Castiel o olhando com o cenho franzido e uma expressão concentrada. Dean deu alguns passos para trás dando distância entre os dois. Castiel tinha um problema sério com espaço pessoal.
_É bom ver você também, Cass. – disse Dean.
_É impossível ainda esta vivo e bem. – disse Castiel não se livrando daquela expressão.
_Bem, ninguém disse isso para a garota estrela.
_Isabel? Ela expulsou Miguel de seu corpo? – perguntou Castiel.
_Ela matou Miguel com a adaga, no meu corpo, e aí me trouxe de volta. – respondeu Dean fixo em Cass. Ele parecia um pouco diferente, cansado ou talvez esgotado. Dean se perguntou onde o anjo esteve nos últimos dias.
_Ela ainda está viva? – perguntou Castiel surpreso pela primeira vez.
_É claro que está, por que não estaria? – Cass olhou para ele por um instante, não respondeu. Dean sabia que Cass era quem mais sabia sobre Isabel, sua história e origem do seu poder, sabia tanto que Dean tinha até medo de perguntar.
_Como se sente Dean? – perguntou recobrando sua inexpressividade.
_Estou bem. – respondeu automaticamente, não era bem esse o objetivo de ter chamado Castiel, e o anjo sabia.
_Se estivesse bem não me chamaria aqui, à essa hora.
_Poderia ter chamado só por que queria tomar uma cerveja com um amigo. – respondeu Dean sabendo que não era verdade. Pensou nas vezes em que chamou por Castiel, sempre pedindo ou precisando de alguma coisa. Se sentiu de certa forma mal por isso, nunca tinha parado para pensar no assunto. _Queria me... desculpar por ter mandado você para, sei lá, Legolândia. Estava mal naquele dia e errado, me desculpa por... desapontá-lo. – Dean despejou as desculpas um pouco sem graça. Não que não quisesse pedir desculpas, mas estava um pouco envergonhado pelo o que fez a si e com Castiel.
_Mas não foi por isso que me chamou aqui. – respondeu Cass seco. Será que ainda estava com raiva dele?
_Cass, eu já pedi desculpas...
_Não é isso. – cortou desviando o olhar.
_O que aconteceu com você? – perguntou Dean estudando Castiel que continuou olhando para o nada.
_Perdi um amigo quando resgatei o irmão de Isabel, um bom amigo. – disse Castiel e Dean ficou imaginando se ele soava melancólico. Era sempre difícil saber com Castiel.
_Eu... Sinto muito.
_Não é isso que me incomoda. – Cass dispensou as condolências de Dean. De novo, era sempre difícil saber com Castiel.
_Bom saber. – disse Dean comentando o desapego do amigo. O que será que Castiel sentiu quando achou que ele estava morto, ou quase isso, quando foi tomado por Miguel? Cass se virou para ele, os olhos brilhando no escuro como os de um gato, a expressão imutável.
_Ele me disse algo um pouco antes de eu ir até ele pedindo por ajuda.
_Tudo bem, o quê ele disse?
_Disse que tudo iria terminar em um banho de sangue. Que não fazia sentido lutar já que o destino já estava traçado. – Dean sentiu um calafrio subir a espinha. Ele ter chamado Castiel era por aquilo, por ter com quem falar justamente sobre o sonho e o que aquilo significava.
_Esse cara deve ser ótimo em animar festinhas. – disse, mas sem nem um pingo de humor.
_Dean, se Miguel está morto isso leva as coisas á uma escala maior de que eu e você e Sam. Deve está uma completa rebelião lá em cima, os anjos irão descer e punir a culpada por isso.
_Tentaram, não conseguiram. – disse Dean se sentindo pior do que antes. Castiel olhou bem nos olhos dele, um olhar tenso e perigoso, ele soube que viria bomba.
_Dean, se alguma coisa acontecer, se Isabel não for mais a mesma, tenho que ter certeza de que você fara o que será preciso fazer. – Dean sentiu a fenda que a lâmina da adaga abriu em seu peito arder. Talvez fosse psicológico, o medo aparecendo em uma dor física. Mas em cada palavrar de Castiel ele pode sentir como uma, duas e três adagas em seu coração.
As linhas negras começaram a subir pelo seu pulso, como valas abrindo caminho na areia limpa. Ele seguiu as veias se desenhando pelo seu braço até seu pescoço ficando mais finas nas têmporas e laterais do rosto. Lembrava-lhe um vaso fino e branco com vincos de rachaduras. Os olhos como lanternas azuis neon, a cor contornada por um anel negro que parecia querer tomar o azul para si.
Uma escuridão levando para longe o que era belo.
_Do que está falando? – perguntou com uma voz fraca e distante.
_Sabe do que é preciso para trazer alguém de volta a vida? – Dean achou que fosse uma pergunta retórica, por isso não respondeu. _Muita energia. Algo que um corpo humano normal não conseguiria conter. Isabel está ficando mais forte, o que a torna uma arma mais poderosa, o que torna sua ligação com Lúcifer mais fortalecida. O que quero dizer é que ela é literalmente nossa última esperança de parar o diabo, mas também pode ser nosso pior inimigo. Lúcifer deve está esperando o momento certo, ele vira atrás dela quando chegar a hora, se isso acontecer...
_Não, Cass, não venha com essa merda de novo. Agora não, já passamos por isso. – cortou Dean com raiva. Aquela ladainha de novo não.
_Dean, não vê que estamos todos perdidos. A única chance que tínhamos era Miguel, entendo por que disse Sim, sabia que era a nossa única esperança. Mas agora ele está morto. Não vê como isso é assustador? Estamos sem Deus, estamos sem o único arcanjo capaz de enfrentar Lúcifer. Os anjos estão apavorados, Lúcifer pode nos exterminar a qualquer momento, na verdade não sei por que ainda não fez isso. Isabel e nossa única esperança ou ruína. – Dean podia sentir uma pequena fagulha de medo na voz do anjo. Algo que ele achou tão estranho e assustador.
Sua cabeça girava. Até então não tinha notado o quão desesperador a situação toda era.
_Se usarmos Isabel como arma contra Lúcifer, ela sobrevivera a isso? – perguntou sentindo nas palavras uma pontada de pânico. Castiel não precisou responder, Dean viu nele a resposta que não queria ouvir.
_O que devemos fazer? – perguntou soando exasperado.
_O que quer salvar Dean, o mundo ou seu amor? – um grande "Eu não sei o que fazer, preciso de ajuda" sinalizou na cabeça de Dean. Era uma pergunta capciosa a qual ele não saberia responder ou tinha medo de encontrar uma resposta.
O tipo de pergunta que iria o assombrar pelo pouco o restava de tempo. Ele odiou Castiel por isso, não se podia fazer esse tipo de escolha. Em qualquer uma das duas opções ele perderia. Como poderia suportar à mais essa queda?
_O quer dizer Cass? – perguntou a voz atrás dele.
_Sam, o que está fazendo aqui? – Sam nem olhou para o irmão, estava com os olhos fixos em Castiel enquanto se juntava a eles.
_O que está dizendo é que Isabel não sobreviverá ao confronto com Lúcifer? – perguntou direto. Castiel olhou uma vez para Dean e depois para Sam.
_Sim. – levou um instante para Dean e Sam absorverem aquilo. _Sinto muito. E Dean, o que está sentindo sua alta temperatura, é os resquício da graça de Miguel em seu corpo. Posso extraí-la, será doloroso, preciso de um instrumento para isso, mas se sentira melhor quando termina. – Dean assentiu distraído.Tinha até esquecido daquilo, o corpo parecia submerso ao mar no inverno.
Castiel desapareceu deixando os Winchesters sozinhos. Sam olhava para onde Castiel tinha acabado de desaparecer. Os olhos cheios da dor do compreensão das coisas. Dean já havia passado por aquilo.
_O quanto você ouviu? – perguntou.
_O bastante. – respondeu Sam enigmático. Ele se voltou para Dean. _Dean, isso que dizer que... O que vamos fazer?
_Eu não sei. – admitiu Dean.
_Se Castiel tem razão, se ela for nossa ultima esperança, talvez a do mundo...
_Não, não. Você não Sam.Vamos achar um jeito, como a gente sempre fez, juntos. Eu digo para você que vamos passar por isso, que nem eu, nem você e nem Isabel vai morrer aqui, entendeu? – disse Dean mais para se convencer do que para convencer Sam.
_E desde quando pensamentos positivos funcionou para nós? Dean, não temos nada, Bobby é bom, mas não consegue fazer milagres. – Dean via a nota de desespero na voz do irmão.
_Vamos encontrar alguma coisa, vamos achar um jeito...
_Para de dizer isso Dean, eu sei que nem você acredita mais, foi por isso que se entregou a Miguel. Não tem jeito, e você sabe disso. – disse Sam em voz alta, uma raiva e desespero a cada palavra.
Dean se recusava a se render de novo. Tudo o que ele queria era um fiapo de esperança. Algum milagre ou alguém aparecendo para ele e oferecendo uma solução brilhante, como naqueles comerciais de Tv sobre produtos revolucionários. Precisava de uma solução revolucionária.
_Então o que sugere? – perguntou em voz alta, soando como um trovão. _Quer usá-la como arma? Deixar que ela compre briga com Lúcifer para impedir nossa morte iminente?
_Não se trata só de você e eu, é o mundo inteiro. Tudo está caindo aos pedaços na nossa cabeça e vai continuar...
_Não acredito no que estou ouvindo. – disse Dean passando a mão pelo cabelo exasperado. _Depois de tudo é você que está querendo pular do barco agora? Vai desistir dela?
_Não! Não é o único aqui tentando salvá-la. – afirmou Sam com toda certeza.
_É mesmo? Por que de onde estou é o que está parecendo.
_Sabe que eu faria qualquer coisa por ela, eu quase morri por ela. Nunca pense que eu não me importo tanto quanto você. – disse Sam em tom definitivo. Dean sabia disso, só estava com a cabeça quente demais para pensar direito.
_Então, o quê quer fazer? O quê quer de mim? – perguntou Dean beirando a histeria e raiva explosiva. Ele respirou fundo tentado se acalmar.
Os anéis dos cavaleiros pareciam algo sugerido por uma criança, uma ideia boba e sem fundamento. Mas era tudo o que tinha. Mas quer saber, ele já estava farto de tudo aquilo; Anjos, demônios, o fim do mundo. Ele podia ficar ali sentindo aquela dor, se isolando naquele frio que iria congela-lo ou poderia seguir em frente e ver oque aconteceria. De uma coisa ele tinha certeza, iria proteger Isabel até a última respiração, ia fazer de tudo ao seu alcance para não deixar Lúcifer chegar perto dela...
Sam inspirou e olhou para além de Dean. Estava pensando, Dean sabia, tentando encontrar alguma coisa, talvez a solução mágica que Dean precisava. Ele desejou que Sam encontrasse, o irmão mais novo tinha a cabeça mais no lugar, era inteligente e focado quando queria alguma coisa.
Já Dean se sentia corrompido pela emoção. Sempre fora assim, agia de acordo com o que sentia no momento, o que seu instinto falava, do tipo que atirava primeiro e perguntava depois. Nunca se arrependeu de agir impulsivamente, de certa forma era como ele fazia as coisas acontecerem para ele. Nunca se arrependeu de ter ido para o inferno para salvar o irmão, nem de ter perdoado Sam, e muito menos se arrependeu de Isabel. Ele só esperava que Sam fosse o cérebro ali.
_Eu não sei. – admitiu Sam. _Podemos voltar para casa do Bobby. Juntos podemos pensar em algo. Nós vamos enfrentar Fome daqui à dias e não fazemos ideia de como fazer isso. Dean, eu ainda acho que não deveríamos está aqui.
_O mundo ainda não explodiu, então até lá eu pretendo lutar, fazer o que sei fazer. Esse sempre foi o objetivo Sammy; salvar pessoas. Não sabemos como salvar bilhões, mas eu vou tentar salvar o quanto puder aqui. Esse é nosso caso e não vou sair até não matar aqueles malditos vampiros, entendeu? – disse Dean determinado. Sam assentiu. _Então vamos, temos trabalho a fazer amanhã.
... — ...
A secretária da delegacia sorriu para Sam e Dean assim que eles mostraram as credencias e se apresentaram. Era tão frustrante ainda não ter uma dessas. Mas o que tinha em mente era o que houve na noite anterior. Sam e Dean voltaram de cara amarrada e não falaram muita coisa quando eu perguntei. Dean me deixou com a cama e deitou no chão, assim como Sam. Ainda estava preocupada com Dean, apesar de parecer bem sabia que tinha alguma coisa errada com ele. Já Sam parecia um garoto que perdeu o cachorro e o pior, me evitava.
_Podemos falar com delegado Donovan. – disse Sam.
_Agentes Wolgast e Doyle, o delegado não está se sentindo muito... bem no momento. Poderia me adiantar o assunto, talvez eu possa ajudar. – ela disse. Era uma jovem um pouco mais velha que eu. Ela tinha todo um estilo hippie, um hippie chic por assim dizer, pelas suas roupas e o cabelo longo com algumas tranças entre as mechas.
_É um assunto oficial. É urgente, se não se importa, vai levar só alguns minutos. – insistiu Sam. Ele tinha todo um jeito de lidar com pessoas que se fosse eu no lugar dela já teria ido incomodar o delegado.
_Não acho uma boa ideia agente, se não se importa, pode voltar outro dia...
_Tudo bem, eu falo com eles. – disse um homem saindo de uma sala nos fundos do corredor. Ele parou diante da garota e colocou o braço em volta do ombro dela. _Desculpem minha filha, estou ficando velho e ela é que virou super protetora. – emendou o homem sorrindo.
_Mas pai...
_Tudo bem Hanna. Pode nos dar licença por um instante? – depois de olhar para o pai, o tipo de olhar que dizia "você tem certeza disso", ela saiu, sumindo no corredor onde antes Donovan surgiu. _Então, do que se trata cavalheiros?
_Somos os agentes...
_É eu ouvi. Doyle e alguma coisa. Do que se trata? – Donovan cortou Dean.
_Viemos falar sobre as três vítimas que tiveram as gargantas cortadas e o sangue drenado. Soubemos que o senhor prendeu o assassino, queremos interroga-lo e temos algumas perguntas.
_Chegaram um pouco tarde. O bastado já foi mandado para federal, deveriam saber disso. E não vejo o por que o interesse nesse caso, já foi solucionado, fim da história. – Sam e Dean trocaram olhares.
_Podemos ver o relatório? – perguntou Sam.
_Não. – respondeu o delegado.
_Como assim não? – perguntou Dean ríspido.
_Olha, agentes, eu estou um pouco atarefado agora, não disponho do tempo de vocês para investigarem crimes já solucionados. Então se me dão licença... – um barulho de estatística soou no seu rádio. Uma voz fanhosa chamando por ele. Hanna apareceu agitada.
_Pai, aconteceu alguma coisa... no hospital. – disse ela para o pai em tom baixo, mas não o suficiente para não ouvirmos. A reação de Donovan foi o mais curioso, seu rosto ficou branco e perturbado por um instante. Depois ele disfarçou numa expressão dura, mas não foi o suficiente para eu perceber que tinha alguma coisa errada naquilo tudo.
_O que aconteceu delegado? – perguntou Sam.
_É isso que vou descobrir. – disse ele passando por nós em direção a porta, mais dois policias o seguiram.
_Sam. – disse Dean lhe dando a chave do Impala.
_Você não vem? – perguntou Sam.
_Não, vou verificar o prédio abandonado onde as vítimas foram encontrada. Vê se deixaram alguma coisa para trás, temos que achar o ninho. – respondeu. Sam assentiu.
_Eu vou com você. – disse depressa antes que Sam saísse.
_Não. – respondeu ele com a mesma rapidez que até Dean achou estranho. _É melhor ir com Dean. – e saiu as pressas. Dava para ouvir as sirenes da viatura da polícia se afastando. Parte de mim queria ter ido com ele e descobrir o aconteceu, e outra só queria ter um tempo sozinha com Sam, o colocar contra a parede.
_Vamos. – disse Dean indo para a porta. Olhei para Hanna perto a sua mesa. Ela tinha a mesma expressão do pai. Parecia tão distante que nem me notou a encarando. _Isabel!
... — ...
Sam abriu passagem entre médicos e pacientes aterrorizados, escutou algumas frases de choques e horror se generalizando entre as pessoas. Chegou no circulo de policiais mostrou a credencial, um policial levantou a faixa amarela da policia para que ele passasse.
Ele passou e encontrou Donovan parado no meio da ala hospitalar transformada em cena de crime. No chão dois corpos estavam cobertos com um lençol branco, o pessoal da perícia andavam entre eles escrevendo em pranchetas e conversando baixo entres si.
Sam pegou luvas com um dos médicos e se agachou perto de um dos corpos. Levantou o lençol manchado de sangue e observou o rosto branco da mulher, lábios rachados e olhos fundos fechados. O cabelo claro com uma estampa sinistra por conta do sangue. Como suspeitava a sua garganta parecia ter sido cortada várias vezes por um arame farpado.
O que Sam não entedia era o padrão da mordida, não eram precisos pequenos buracos, era como se o vampiro estivesse faminto demais para se controlar. Outra coisa que o incomodava era o descuido, era parte da tarde. Por que não esperar a noite? E por que se arriscar num hospital cheio de testemunhas? Por mais que aquela ala não tivesse câmeras, não se podia correr o risco de se expor daquele jeito.
A janela no fundo do cômodo extenso — com camas hospitalares vazias e intocadas estava quebrada, o vento que corria lá fora soprava as cortinas finas como um fantasmas os agourando. Pelo que ouviu não tinha testemunhas que viu alguma coisa, mas tudo indicava que o vampiro pulou a janela, o que poderia significar que tivesse imagens das câmeras externas do momento da fuga.
Sam olhou para Donovan. Ainda desconfiava do envolvimento dele com o caso, isso ficou evidente agora que outro ataque ocorreu quando o suposto autor está preso em uma prisão federal. Teria de apertá-lo para ver o que conseguia.
_Delegado, preciso fazer... – o homem simplesmente virou as costas e foi andando sem nem Sam ter terminado a frase. Sam ficou olhando enquanto o homem se afastava dos médicos e policias. Quando a surpresa à reação de Donovan passou ele decidiu ir atrás, mas ouviu alguém falar com ele.
_Pobre homem. – lamentou uma enfermeira ao seu lado observando o delegado passar depressa pelos curiosos e desaparecer de vista.
_Como assim? – indagou Sam.
_Não soube? – perguntou ela olhando Sam desconfiada.
_Soube do quê? – a mulher balançou a cabeça, provavelmente era algo que Sam deveria saber.
_A filha dele, desapareceu. – explicou a mulher. Sam sentiu seu cérebro se reanimar com aquela informação, ao mesmo tempo em que tentava suprir a confusão.
_Hanna? – perguntou com o cenho franzido. Tinha visto a garota a menos de uma hora atrás. A enfermeira balançou a cabeça de novo.
_Não, Emily. Ela estava internada aqui faz meses. Pobre Em, só Deus sabe para onde esse psicopata a levou. – Sam se animou com a nova descoberta, era errado, mas ele via aquilo como uma peça crucial do quebra cabeça. Ele encarou a enfermeira, tentou não parecer tão ansioso.
_Preciso que me conte tudo sobre Emily.
... — ...
_Sabe, não faria mal se você pegasse o metrô ou um ônibus. – disse quando já chegávamos no prédio abandonado. Dean estacionava o carro roubado no acostamento da calçada.
_E qual seria a graça disso? Eu sou um fora da lei, foras da lei não pegam o metrô. – fiz o máximo para não rolar os olhos.
O prédio ficava em um lugar em uma rua cheia de construções mal acabadas e poucas lojas funcionando. Dean desligou o motor e continuou no carro.
_O que foi? – perguntei olhando pela janela. A rua estava praticamente vazia. Só alguns pedestres aqui e ali, saindo de uma loja de tatuagem ou entrando em outra de discos. Ainda era dia, então não tinha perigo de sermos atacados.
_Você nunca caçou um vampiro. – respondeu Dean.
_Por favor, não começa. Na verdade deveríamos ter ido com Sam. O que espera encontrar aqui? – Dean não respondeu. Apenas desceu do carro e foi até o porta malas, onde colocou os dois facões que pegou no hotel. Entregou um para mim. Não era muito grande nem muito pesado, mas serviria a seu propósito.
_Não é assim que se segura uma dessas. – Dean pegou minha mão e ajeitou meus dedos em volta do cabo de modo que ficasse firme e ao mesmo tempo confortável de segurar num impacto. _Desse jeito, e como uma arma fique preparada para o impacto. Está afiada, bem afiada, cuidado ou pode acabar cortando os próprios dedos. – assenti. Dean olhava para mim com uma preocupação paternal. Sorri.
_O que é? – questionou ele soltando minha mão. Balancei a cabeça.
_Nada. – ele franziu o cenho para mim e depois deu de ombros.
_Segunda lição: Corte a cabeça. E três, não deixe que sangrem na sua boca ou em um ferimento. É assim que eles se transformam.
_Eu já sei disso, Dean. – disse.
_Sabe?
_Sam me contou. Ele também me mostrou o que seu pai escreveu no diário sobre os vampiros. – Dean levantou as sobrancelhas e assentiu.
_Ok, então vamos lá, Buffy. – o segui até a parte dos fundos do prédio. As janelas no alto estavam lacradas com madeira e plásticos pretos. E a porta dos fundos fechada, ainda com a faixa da polícia rasgada ao meio esvoaçando na brisa. Dean tentou a maçaneta enferrujada, mas claro estava trancada. Ele deu impulso para trás e chutou a porta. Ela cedeu imediatamente lançando lascas de madeira podre para dentro da escuridão lá dentro.
_Fique atrás de mim. – Dean entrou comigo ao seu lado apertando com força o cabo da faca. Ele olhou para mim, parecia que ia dizer alguma coisa, mas desistiu suspirando e balançando a cabeça.
A luz do dia vazava pelas frestas entre as placas de madeiras nas janelas nos fornecendo luz o suficiente. Por dentro era um lugar oco e empoeirado. Não tinha nada que identificasse aquele lugar como o que teria sido antes. O teto era baixo e o chão sujo, pilastras nuas e com bolor sustentava os andares acima da nossa cabeça.
Adentramos o local sentindo ar condensado com partículas de poeira. Caminhamos lado a lado alerta a qualquer coisa. A parte de baixo era vasta e no final dela dava para ver o foço de uma escada e as portas de metal enferrujadas de um antigo elevador.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!Andamos até a escada e subimos os degraus desaguando em um outro amplo espaço vazio e mais escuro que o anterior. Nesse dava uma pista do que poderia ter sido um prédio de escritórios. O piso no chão era gasto e empoeirando, mas oque um dia foi linóleo. Algumas mesas quebradas e outras viradas foram empurradas para o canto. E a nossa frente via-se o esqueleto de um grupo de cercados, como numa empresa de telemarketing. Tudo sujo e muito destruído pelo tempo.
A iluminação escura dando o efeito fantasmagórico nas sombras produzida pela pouca luz que vinha das janelas quebradas. Pelo menos a ventilação ali era melhor. Caminhos no corredor entre as cabines e nada. Não tinha nada ali. Segui Dean para o outro andar.
A cada andar ia ficando tudo mais escuro. Este estava vazio como o térreo, só que com mais entradas para corredores vazios que davam em salas com cheiro de mofo. No centro tinha uma grande vidraça encardida que era impossível ver o que tinha do outro lado ou deixar que a luz do sol penetrasse. O chão era de madeira gasta e suja. Do teto de gesso pendiam fios elétricos como os fios de uma teia de arranha.
_Vai me contar ou vou ter que arrancar de você? – disse quando achei que era seguro falar.
_Não sei do que está falando. – Dean continuava a examinar o chão e as sombras escuras no canto.
_Dean, eu posso ser idiota as vezes, mas não sou burra. Sei que tem alguma coisa errada com você, desde de que voltou e também ontem a noite. Sei que tem uma bola quicando ainda entre nós e seria melhor se fosse honesto comigo, me conta oque está pensando, ou o que está acontecendo com você. – disse chegando ao assunto que não queria chegar, mas precisava.
_Por que quer saber? – perguntou ele voltando a andar. O acompanhei andando rápido para conseguir a sua frente.
_Por que me importo com você. – respondi com a resposta obvia. Ele olhou para além de mim, parecia querer evitar o contato comigo.
_Posso perguntar uma coisa? – seus olhos indicavam algo que eu não sabia interpretar muito bem.
_Como conseguiu, como pôde me matar, mesmo naquelas circunstâncias? Eu me lembro, olhei em seus olhos, você nem piscou. Eu fico pensando nisso, se a situação fosse contrária, digamos que eu esteja na mesma situação que você e eu tivesse que... – ele se interrompeu e via mais claramente o que não soube antes; Dor. Ele sentia dor e não raiva. Algo afundava em meu peito. _Não conseguiria.
_Eu disse a você. – respondi numa voz débil.
_Acho que eu preciso de um pouco mais do que me disse, essa sua certeza de quê talvez conseguiria me trazer de volta. E se não conseguisse?
_Eu consegui.
_E se não conseguisse? – olhei para ele, os olhos queimando. Não tinha uma resposta, ou talvez não quisesse encontrá-la. _Vamos logo, vai começar a escurecer. –Dean não esperava uma resposta, pois me deu as costas e começou a andar para as escadas. Queria muito poder dizer algo, mas como eu ia dar a ele uma resposta se nem eu conseguia enxergá-la.
Continuei parada por um tempo encarando a janela forrada com um plástico preto. Dei alguns passos à frente decidida a tirar aquilo e consegui uma iluminação decente. Fui envolvida as sombras, e quase tropecei numa placa de madeira solta, mas me recuperei a tempo e voltei a andar. Dei só dois passos quando senti meu pé direito encontrar o vazio.
Um raio de gelo me subiu a espinha, rápido demais, e eu previa a queda com meu corpo inclinando para o abismo quando senti algo forte enlaçar minha cintura e me puxar para trás, Meu coração foi a boca e eu acabei soltando o facão no processo. Ele caiu lá em baixo com uma única fagulha prateada contra o carvão aterrissando com um barulho metálico. Não tinha iluminação o suficiente para ver o que tinha no fundo, era só um buraco no meio com um emaranhado do que parecia toras de madeira e concreto como escombros.
Ainda estava com o braço de Dean em volta de mim me apertando contra si, o coração dele batendo forte contra minhas costas. Ele deu um passo para trás comigo junto, me afastando da beira.
_Tudo bem? – perguntou sem me soltar, dava para sentir sua respiração forte no meu cabelo.
_Ahan. – murmurei colocando a mão por cima da sua apertando minha cintura, o senti recuar, mas o apertei contra mim como se se ele fosse não voltaria mais, por que era assim que o via, escorregando da minha mão sempre. Aquilo era o mais próximos que ficamos nos últimos dias. E sentia falta até mesmo do seu braço me enlaçando e de seu corpo junto ao meu.
Dean me girou me colocando frente para ele me marcando contra si. Ele olhava para baixo, para minha boca. Minha garganta ficou seca como se agora a ideia de seu beijo fosse o que aplacaria minha sede. Dean se inclinou para frente e eu inclinei minha cabeça para trás, nossas bocas seguindo o mesmo caminho. Fechei os olhos esperando ansiosa por ele.
_Quando decide oque está rolando aqui – disse ao meu ouvido. Ele tocou com o dedo o lugar onde ficava meu coração. Abri os olhos, ele olhava para mim concentrado. Dean roçou os lábios no meu me provocando antes de se afastar e completar a frase com: _Eu apago esse seu fogo. – ele me soltou de uma vez só deixando um vácuo entre nós.
_Vamos, e olha por onde anda. – ele me deu as costas de novo e começou a subir as escadas. Filho da mãe. Quando decidi oque rolava no meu coração... Eu tinha que escolher?
Dean voltou para o caminho de antes. Encarei suas costas imaginando o que ele pensava e se se sentia tão mexido quanto eu.
Com tudo o que acontecia eu ainda tinha tempo para me meter no que parecia uma floresta de espinhos, onde à cada espertada me despertava uma dor e um sentimentos diferente e carregado...
_Você... você pode me ajudar? – me virei num pulo quando ouvir a voz fraca atrás de mim. Esperava encontrar tantas coisas, um vampiro irado, um civil perdido, mas não esperava aquilo; Uma garotinha. Deveria ter imaginado pela vozinha, mas era absurdo demais para passar pela minha cabeça. Ela vestia um conjunto branco e encardido de terra e sangue, assim como suas mãozinhas e o rosto salpicado com a mesma substância. Apertando no peito um coelho rosa molenga e também já sujo de sangue.
_Oi, eu... – dei um passo para frente e ela recuou. _Tudo bem, não precisa ter medo. – ela deixou que eu me aproximasse e me ajoelhasse à sua frente.
_Os caras maus... eles... – ela parou de falar como se desligasse um interruptor. Seus olhos castanhos me encaravam com intensidades. Concluir que ela não teria nem a idade de Jamie, diria uns sete ou seis anos. Meu coração inflamava de preocupação.
_Eles o que? O que fizeram com você? – perguntei com cautela tentando controlar meu nervosismo para ajudar a menina. Ela maneou a cabeça para o lado me avaliando, os fios do cabelo pegajosos de sangue pendiam pela sua bochecha e nariz.
_Eu posso ouvir. – disse ela baixinho como se estivesse em transe.
_Ouvir o que, querida?
_Seu coração. – depois de um momento ela sorriu. Percebi tarde demais o que tinha errado. Sua mãos largaram o coelhinho e em seguida se fecharam em volta do meu pescoço com uma força incrível que me fez cair para trás.
A garotinha se jogou em cima de mim. Envolvi com as mãos seus pulsos magros ossudos que meus dedos deram a volta neles. Ela olhava para mim com olhos ensandecidos e vermelhos, a fome descrita neles. Aos poucos os dentes afiados foram pontuando sua boca. Uma fileira deles, brancos como os de um tubarão.
Ela largou meu pescoço, prendeu meus pulsos no chão levantou a cabeça e em seguida desceu o corpo. A dor se incitou no meu ombro antes mesmo de eu registrar seus movimentos seus dentes já tinham se cravado na minha carne com pequenas navalhas. Gritei não conseguindo me conter.
O sangue quente escorreu pelo meu ombro para chão e o sentir sendo sugado pela vampirinha. Quando ia tentar reagir empurrando para longe Dean apareceu atrás de nós, seu facão erguido e uma expressão assassina no rosto, Ele puxou o cabelo da menina afastando sua boca do meu ombro, afirmou a faca na mão e...
Uma barulho alto soou. Um tiro. Dean se abaixou institivamente a menina aproveitou o momento para se lançar para trás se livrar das mãos de Dean. Ele cambaleou para trás, mas foi para baixo mesmo quando um segundo tiro soou. Dean se jogou no chão largando completamente a menina. Se arrastou para trás de um pilastra e ficou.
Ouviu-se um som de madeira estalando e se partindo. A menina tinha desaparecido em algum canto escuro numa janela atrás de mim. A luz do sol se lançou forte no recinto no novo buraco aberto. Agora eu podia ver Dean com mais clareza. Ele apertava o braço esquerdo, os dedos mal escondendo a mancha escura na jaqueta. Ele tinha sido atingindo.
Engatinhei até ele mesmo com seus protestos sussurrados para ir para trás da pilastra atrás de mim. Me encolhi ao seu lado. Olhei para seu ombro machucado. Ele tirou a mão para avaliar também. Não tinha sido tão grave quanto pensei, não dava para ver direito por conta dos tecidos, pelo fluxo da mancha na jaqueta diria que a perda de sangue não era tanta.
_Você... – comecei, mas Dean fez sinal para que eu ficasse quieta. O tiro, desconfiava, que tinha vindo da janela aberta atrás de nós. Onde estávamos não tinha como um atirado localizar o alvo. Então não fazia sentido manter silêncio. Mesmo assim obedeci.
Meu ombro pulsava como se fosse uma coisa viva. Doía, mas era algo suportável. O silêncio total só era incomodado com nossa respiração ofegante. Foi assim que pude sentir o cheiro de meu sangue liberando adrenalina fazendo o latejar ficar mais forte.
Assim os ombros de Dean relaxaram e ele colocou o braço para fora do perímetro da pilastra testando a mira do atirador invisível. Nada aconteceu. Devagar nos levantamos e Dean colocou o braço na minha frente me impedindo de avançar. Olhou para a janela aberta. O vento lá fora ficando forte e varrendo a poeira para o alto deixando as faixas de sol iluminarem as partículas dançando no ar.
_Tudo bem? – ele se virou para mim preocupado. Olhou para meu ferimento e depois para mim. _Ela sangrou em você, no seu machucado ou na sua boca? – perguntou afastando a gola rasgada da minha camiseta para examinar os furos, resisti a vontade de me encolher com a dor.
_Não, eu não vou virar vampira. – disse o tranquilizando. _Ela era só uma criança, acho que nem sabia o que estava fazendo.
_Para mim parecia saber muito bem... – ele se interrompeu olhando para o lado como um gato aguçado pelo o movimento da presa. _Tem alguém aqui. – sussurrou erguendo o facão para o emaranhado escuro de sombras entre as pilastras mais à frente. Olhei para onde ele olhava e não vi nada.
Dean colocou a mão dentro da jaqueta devagar e tirou de lá uma seringa. Sangue do homem morto. Ele me entregou a seringa e eu me senti melhor com alguma coisa em mãos. Não era bem uma arma, mas poderia ser algo crucial entre minha vida e morte. Tirei a proteção da agulha e olhei para todos os lados esperando algum ataque.
Meu coração batia forte, a esperava me deixava nervosa. Tanto que prendia a respiração sem perceber, sentindo o gelo no estômago tomar as veias. Dean deu um passo à frente, dei um trás dele. Ficamos parados alertas a qualquer coisa além do som do plástico balançando por conta do vento e insetos correndo pelos cantos. Dean desviou o olhar para mim, um olhar de aviso. Fique atenta a qualquer coisa e não saia de perto de mim.
Assenti e ele voltou a olhar para frente, não a tempo de desviar do ataque contra ele. Dean foi pego tão de surpresa quanto eu. Numa velocidade impressionante um homem se lançou contra ele como um zagueiro de futebol americano. O corpo de Dean foi jogado para trás, assim em consequência me derrubando com um efeito dominó.
Atingi o chão com uma pancada forte, o pior foi Dean ter caído em cima de mim me esmagando momentaneamente. Senti a dor nos seios em baixo de suas costas e meu ombro ardeu forte. Foi tudo tão rápido que logo Dean foi arrastado pelo colarinho de cima de mim e lançado para o lado com violência. Dean rolou no chão nos separando por metros.
O vampiro tinha ficado de pé mostrando os dentes afiados, rosnando como um animal enquanto descia para cima de Dean no chão. Usando o pé Dean conseguiu interceptá-lo no caminho. Dobrou o joelho e o impulsionou para frente fazendo o vampiro cambalear para trás e bater em uma das pilastras. Usei os cotovelos para me sentar e ficar de pé.
O vampiro finalmente me notou, foi um rápido olhar meio confuso. Dean lutava contra o ombro sangrando para ficar de pé e o vampiro aproveitou essa vantagem. Andou em encontro à Dean e pisou com tudo no seu ombro. Sentir a dor em mim vendo Dean grunhir com os dentes cerrados e fazendo uma careta de dor.
Me levantei e antes que tivesse a chance de ajudá-lo o vampiro se adiantou para minha direção sorrindo. Firmei a seringa na mão. Ele avançou rápido como um animal nem se dando o trabalho de correr. Tinha poucos metros até ele colidir contra mim. Me senti recuar aos poucos, seus dentes de tubarão à mostra me fazia estremecer. Minhas costas bateram em uma das paredes de concreto e eu levantei a seringa na mão preparada.
Um passo e estaria em suas mãos ou ele nas minhas. Mas em vez disso ele dobrou o joelho caindo ao chão como um pretendente pedindo a mão da moça em casamento. Olhei confusa para ele e vi a faca enterrada na sua coxa e Dean avançando por trás. O vampiro levantou o rosto para mim e esticou a mão agarrando minha blusa e me forçando a cair para onde ele estava.
Meus joelhos bateram no concreto dolorosamente, levantei a seringa e agi rápido ao enterrar ela em seu pescoço. Ele berrou no meu ouvido me fazendo ouvir sinos. E Dean havia chegado. Arrancou o facão de sua perna, joguei meu corpo para trás lhe dando espaço e ele desceu a lâmina no pescoço do vampiro.
A lâmina passou direto pelo pescoço sem muita dificuldade. O sangue espirou para minha blusa. A cabeça ainda permaneceu no corpo por um segundo, os dentes e olhos vidrados ainda ali, depois a linha vermelha apareceu no corte e a cabeça caiu para lado como um pendulo. Me encolhi toda para que o corpo sem cabeça não caísse em cima de mim.
Dean me estendeu a mão e eu a peguei para que ele me ajudasse a levantar. Pulei o corpo e parei com a mão no peito sem eu peito. Olhei para o seu ferimento aberto. A mancha de sangue estava maior do que antes.
_Vamos, temos que cuidar disso. – disse preocupada com a possibilidade de ele perder muito sangue. Dean dispensou meus cuidados dando um passo para trás.
_Estou bem.
_É, você parece fantástico. – ironizei.
_Vamos logo. – disse Dean apertando o braço ferido. O segui para as escadas que levavam ao andar de baixo.
Passávamos pela parede de vidro sujo quando ouvi um estalo, mínimo, como um trovão que antecede a tempestade. Olhei para o vidro e só tive tempo de proteger o rosto quando a parede inteira se partiu lançando os cacos para todos os lados.
O sol lá fora tinha mudado, a tarde tinha chegado e com ela uma ventania frio que me atingiu com uma lufada forte quando a parede de vidro caiu de uma vez só. Olhei parar Dean e me perdi entre um grito e um movimento quando senti um braço enlaçar minha cintura me arrastar para fora. Dean esticou a mão para minha estendida, mas só que eu já me sentia passar pela sacada e cair de três andares.
Gritei, um grito curto. O braço em volta de mim me envolvia forte. Meu cabelo tinha ido para frente atrapalhando minha visão enquanto caía. Aterrissamos no chão rápido, quem me segurava parecia ter pulado apenas por alguns centímetros, os três andarem não eram nada para ele. Olhei para cima desesperada. Tive um vislumbre de Dean olhando para baixo desamparado. Me arrastaram até uma van preta.
Vi meu reflexo no vidro da janela antes da minha cabeça o rachar e eu cair num lugar escuro.
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