Broken Girl
7 Capítulo sete: Sorrisos Quebrados
Notas iniciais
Uma ligação e Bobby nos indicou um abrigo seguro ( íamos para sua casa se não estivesse tão longe e nós dois tão cansados ). A casa de um caçador amigo do John Winchester. Quando chegamos ao local vimos que se tratava de uma fazendo, onde vizinhos ficavam a quilômetros de distancia, longe de qualquer civilização.
Atravessamos o terreno e paramos diante da porta. Por fora a casa parecia grande, velha e empoeirada. Tudo ali tinha um aspecto de gasto pelo tempo sem uso e sem cuidado. O mato crescia em volta da casa, o celeiro não tinha a metade das telhas, alguns cercados completamente desolados e vazios.
Dean bateu uma vez, a porta rangeu e se abriu. O suficiente para dar uma espiada dentro.
_Felix? – chamou Dean abrindo mais a porta. _Felix, sou Dean Winchester, filho do John. Estou entrando. – gritou para o vazio dando uns passos para dentro da casa, sua voz ecoava pelo hall da entrada, que não era muito diferente do lado de fora; Uma grossa camada de poeira se estendia no chão de madeira. Um painel horroroso pendurado na parede com a cabeça de veado nos recepcionava, teias de aranha enfeitavam os chifres do animal.
Demos mais alguns passos adentrando a sala vazia e decrépita. Dean sacou a arma. Vasculhou com os olhos a local.
_Parece que a faxineira anda faltando. – comentou. _Felix! – chamou mais uma vez. Nenhuma resposta. Nenhum som a não ser o do piso rangendo sob nossos pés.
Vasculhamos todos os cômodos do andar de baixo. Nada além de poeira e sujeira. Obviamente o lugar fora abandonado às traças.
Fomos para o andar de cima. A escada rangia tanto que pensei que fosse se deteriorar sob nossos pés. Olhamos no primeiro cômodo, um quarto, completamente vazio. Na segunda porta o que parecia ser um escritório abarrotado de livros velhos por toda a parte. Na parede do fundo, dispostas cuidadosamente presas por ganchos na parede revestida de veludo vermelho: três espadas, do tipo ninja, aquelas que se ver nos filmes do Bruce Lee. Dean parecia encantado.
_Incrível. – disse baixinho tocando com cuidado o cabo. Fez menção a pega-la mais desistiu.
_Vai ficar ai alisando essa espada ou vamos vasculhar essa casa velha? – perguntei impaciente.
Continuamos nossa expedição. Como antes não encontramos nada. Restavam duas portas. Abrimos à primeira. Um cheiro horrível invadiu nossos narizes, tampei o meu com a manga da jaqueta de Dean, que ainda estava vestindo. Entramos no quarto, o cheiro era mais forte dentro. Encontramos Felix.
Sentado em uma poltrona em frente a um porta retrato - com a foto de uma mulher - o corpo em decomposição e manchado de sangue seco. O cheiro da putrefação me causava náuseas. Era com certeza uma imagem não muito agradável de ser vista. O rosto de Felix estava desfigurado, vários buracos em seu corpo serviam de moradia e alimento para larvas que passeavam despreocupadamente pela carne morta. Na sua mão uma arma, que provavelmente foi a responsável por deixar um buraco escurecido na lateral da sua cabeça. Pelo estado do corpo diria que Felix se matou há meses.
_Acho que ele não se importa de passarmos a noite aqui. – a voz de Dean saiu abafada pela mão pressionada no nariz e boca.
Saí do quarto antes que vomitasse, Dean saiu logo em seguida batendo a porta com força. Inalamos o ar empoeirado, mas respirável, do corredor. Dean abriu a última porta. Um banheiro, bem espaçoso.
Depois de verificar toda a casa Dean usou o material de Felix para fazermos dali um abrigo seguro. Foram pintadas armadilhas do diabo em toda parte, símbolos nas janelas e linhas de sal em qualquer entrada existente. E depois de Felix ganhar um enterro de caçador Dean isolou bem o quarto onde estava o corpo para o cheiro, que estava impregnado em cada viga, não se espalhar.
_Acho que é isso. Vou tomar um banho. – anunciei exausta precisando desesperadamente de um banho. Antes de vir para cá passamos no hotel e Dean pegou nossas coisas, que agora está no quarto de hóspedes. Não esperei pela resposta de Dean, subi as escadas e entrei no banheiro.
Abri a torneira do chuveiro, os canos rangeram alto antes das primeiras gotas caírem, vinha morna e depois se tornou fria. Enquanto deixava a água parada tanto tempo no cano escorrer olhava meu reflexo no espelho, limpei um pouco a sujeira para aumentar a visibilidade.
A coisa estava bem feia. Meu pescoço além da linha fina do corte que fiz estava um pouco vermelho onde o demônio apertou, até para engoli saliva ficava difícil. O antigo corte na minha perna sofreu um retrocesso no seu processo de cura. Meu corpo parecia ter sido atropelado por um caminhão.
E minhas mãos. Só parecia como deveria parecer, o corte continuava lá, o sangue coagulado manchava a palma de vermelho. Nada de luz. Nem um pequeno facho. E por mais que tentasse não conseguia mais alcançar aquela energia. Aquela luz, aquela energia não deveria está ali. Eu era uma pessoa normal. Nada mais que isso.
Tirei a jaqueta de Dean e coloquei num suporte para roupas perto da porta, quando ia tirar meu pijama lembrei de que não tinha trago roupas limpas. Antes de eu pensar em sair Dean entrou no banheiro de súbito, trazia na mão um ramo de margaridas do campo brancas. O aspecto das flores não era em nada animador, a maioria murcha e seca. Ele apenas olhou para mim.
_Esqueceu como se bate na porta? – reclamei.
_Não tem nada aí que eu não tenha visto, quer dizer... – Dean sorriu torto. Não sorri.
_Dean, eu vou tomar banho agora, se não se importa.
_Eu quero pedir desculpas. – ele deu passo à frente. Recuei. Apesar das fortes emoções das horas passadas não tinha como esquecer a magoa que insistia em permanecer. _Eu peguei isso no canteiro do lado da casa. – ele levantou as flores sem vida quando fez menção a elas. _ Não é bem um presente de aniversário, mas é uma forma de pedir desculpas.
Apressei-me a falar. Tinha que por para fora se não explodiria.
_Pelo oque? Por esquecer meu aniversário? Por me deixar sozinha naquele hotel? Por não está lá quando eu me afogava? Ou quando eu tive que corta meu pescoço para salvar sua pele?
_Eu sei, você tem toda a razão de está brava, cometi um erro, isso não vai acontecer de novo, eu sinto muito.
Rir forçado, um som seco e estéreo escapou.
_Você é inacreditável.
_Você não faz ideia do que passei naquele bar, não faz ideia do show de horrores que passou na minha cabeça. Fique preocupado com o que...
_Se estivesse mesmo preocupado não me deixaria sair da droga daquele bar. Dean, tem demônios nas minhas costas e basta aparecer uma pessoa que tenha peitos e uma bunda grande e você esquece tudo isso. – Dean pareceu surpreso com a minha acusação, mas logo se recuperou, sua postura e expressão ficando mais tensa e séria.
_Eu não sou esse cara que você pinta.
_Então me diz onde está o homem exemplar que você é que não estou vendo? Eu sei que sou só um peso para você, um farto que tem que arrastar por ai. Claro, você diz que vai me salvar, mas não percebe que está fazendo isso para si mesmo. Se conseguir salvar uma alma condenada vai poder dormir a noite, e se falhar eu vou ser só mais uma tarefa na sua pilha de fracassos. – Tinha atingido um dos pontos fracos de Dean, pude ver pela sua reação. Seu rosto ficou rígido, a mandíbula em contornos duros.
_Isso não é verdade. Não a vejo como fardo. Se estou fazendo isso, se estou com você é por que eu quero, tenho colocado sua vida na frente da minha. Nunca arriscaria a vida de alguém, a sua vida, por mulher nenhuma. Saberia disso se não estivesse tão empenhada em reparar no pior em mim. Não consegue enxergar o sacrifício diário que faço por você. Para de ser essa... louca, egoísta e injusta. Não é só você que está com problemas aqui.
_Eu perdi minha mãe, meu irmão e meu pai, estou sendo caçada por demônios, minha cabeça está a ponto de explodir. Então me desculpa se não presto a atenção nos seus problemas, me desculpa se estou sendo tão egoísta. Talvez eu devesse parar para pensar na paz mundial enquanto minha vida estar sendo arruinada a cada dia. Talvez eu devesse parar de pensar no sangue do meu pai em minhas mãos, talvez eu tivesse que ignorar toda a dor e sofrimento que causei. Quem sabe eu não faço como você, me importe mais com as outras pessoas, ha, espera você não se importa, essa é só a droga do seu trabalho. – ele me olhou, um sorriso frio brincando em seu rosto.
_Você sempre faz isso, põe suas necessidades na frente das dos outros. Novidades Mary Poppins, pessoas morrem. Não é só você que perdeu alguém aqui. Não se faça de coitadinha, não combina com você. – aquelas palavras me atingiram como uma pancada forte, ele notou minha reação, mas continuou: _ Estou me matando e essa é a forma que retribui? Jogando acusações e sarcasmo em cima de mim. Você não me conhece, não sabe pelo que passei para chegar aqui. Então quando eu digo que você é muito mais do que só um caso acredite, droga! – ele estava furioso. Seu olhar frio me cortava por dentro, destruindo o fiapo que era minha armadura.
Assustei-me com seu tom de voz e pelo jeito que me olhava. De repente me tornei a vilã da história. E ele tinha razão. O que tinha de errado comigo? Por que sempre fazia isso? Tornava as coisas piores do que já são. Afastava as pessoas que se aproximavam, as deixava furiosa e magoada comigo. Dizia coisas para feri-las.
Estava tão entorpecida pelas suas palavras. Dean era muito importante para mim, não queria perde-lo por minha atitude infantil e maldosa. Mas entenderia se ele me abandonasse. Quem ia querer alguém tão complicada, confusa e perturbada como eu?
Fez-se um silêncio, estava preste a desabar e pedir desculpa. Engoli em seco, pisquei algumas vezes para afastar as lágrimas. Meu esforço foi em vão, as lágrimas desceram sem eu perceber.
Estava tão instável ultimamente, tão desesperada para parar de sentir qualquer coisa e acabava tendo o efeito reverso. A última coisa que queria era chorar na frente dele.
Suas verdades doeram, mas de certa forma foram necessárias.
Estava com raiva de mim mesma por te me deixado ser tão egoísta, por ter deixado minha fúria interior ferir outras pessoas e por ser tão estupida por afastar a única pessoa que se importava comigo, com meu bem estar.
Passei as costas da minha mão boa secando as lágrimas, funguei algumas vezes para evitar que o nariz escorresse.
Sentia-me horrível.
Por um momento achei que Dean ia quebrar o banheiro com as mãos, mas não foi o que aconteceu, ele respirou fundo, suavizou sua expressão retomando a calma.
_Eu venho passado pelo inferno do seu lado, vi a oportunidade de relaxa pelo menos por uma noite, poder conversar com alguém diferente e normal. Tem muita coisa acontecendo agora que eu não entendo e estou longe de entender, eu só precisava de um tempo. Só não queria sentir toda essa pressão o tempo todo. Sua vida foi dada em minhas mãos e eu não sei se consigo... – ele virou o rosto, sua voz sumindo. _O que quero dizer é que o medo que senti de te perder me fez perceber... – abaixou o rosto olhou para as flores em suas mãos como se o resto da sua frase estivesse escrito ali, deu um sorriso triste jogou tudo no chão e deu meia volta.
Tinha ficado muda com todo o seu discurso. Surpresa. A fúria e magoa que sentia se esvaindo. Agarrei sua camisa para impedir que saísse, ele olhou para mim, um olhar arrependido e sincero, tentei encontrar as palavras, não consegui. O que não me deixou opção a não ser agi. Joguei meus baços em volta de seu pescoço e o puxei para perto fazendo sua boca encontrar a minha.
Demos alguns passos para trás entrando sem perceber em contato com a água corrente do chuveiro. Puxei a barra da camisa ensopada de Dean, devagar ele foi terminando o processo. Tirei minha camisa com um pouco mais de rapidez. Tomei sua boca novamente.
Não sentia a água fazer seu percurso pelos nossos corpos, lavando nossos ferimentos, deixando tudo de ruim escorrer pelo ralo. Não sentia as dores incomodarem. Não sentia a ardência e dormência da minha mão machucada e ainda enfaixada. Tudo que sentia era a mão de Dean pressionando minha cintura contra si, o beijo cada vez mais urgente e desesperado. Queria falar, pedir desculpa, mas não consegui me desvencilhar da sensação maravilhosa que é quando meu corpo entra em contato com o dele. Fico trêmula, quente, e desesperada por mais, temendo a cada toque ter de me separar.
Estávamos perdendo o fôlego, nossas mãos percorrendo sem pudor cada contorno de nossos corpos. Em pouco tempo apenas a roupa íntima nos cobria. Dean me pressionou contra a parede do Box, puxou minha coxa contra a dele fazendo um encaixe perfeito das nossas pernas. O frio do piso não causou impacto no meu corpo prestes a entrar em ebulição. O apertei mais, senti seus músculos se retesiarem, ele se afastou ofegante, então percebi os hematomas.
_Desculpe. – sussurrei.
_Ainda estou um pouco dolorido, e... – ele enrolou uma mecha do meu cabelo molhado no dedo sorrindo. _Acho melhor pararmos por aqui, eu preciso de um tempo para... você sabe, esfriar – estávamos arfando. Assenti sorrindo para ele entendendo o que quis dizer, se continuássemos a coisa ia evoluir para algo mais, era o que ele queria, seu corpo o denunciava, e quer saber eu também queria, mas não era a hora e nem lugar.
_Precisamos parar com isso. – disse.
_Isso o que? – perguntou segurando meu queixo com os dedos, chegando tão perto... Mordi os lábios tentados a beija-lo.
_Essas brigas e depois os beijos, e os beijos e depois as brigas, é insano. – ele abriu um sorriso encostando sua boca na minha.
_É eu preciso sair daqui. – sussurrou. O vi se afastar deixando um rastro de água por todo o caminho. Ainda permaneci encostada a parede anestesiada pelos beijos e toques de Dean. Terminei o banho tentando acalmar a euforia interna do meu corpo.
Quando sair do box lembrei-me de ter esquecido de pegar a roupa limpa, pensei em gritar para Dean, mas acabei achando uma toalha. Sacudi várias vezes para livrar o tecido da poeira, depois a enrolei em volta do corpo e sair para o corredor.
A porta do quarto de hospedes estava aberta, observei encostada no batente; Dean parado frente a um espelho examinando os hematomas e machucados do rosto, na sua mão uma maletinha branca de primeiro socorros. Depois de alguns segundos seu olhar encontrou o meu, ele sorriu malicioso para visão.
_Sou muito novo para morrer de enfarte. – Falou sorrindo. Mesmo tendo vários pequenos cortes cobrindo seu rosto ele ainda estava absurdamente lindo. Devolvi o sorriso malicioso quando cruzei o quarto, abri a minha mochila em cima da cama e tirei de lá lingeries limpas, azuis escura.
Dean continuou me observando. Fiz um sinal com dedo para que ele se vire. Ele obedeceu relutante, virei de costas para ele. Coloquei com dificuldade a calcinha, minha mão ainda enrolada no lenço molhado doía com qualquer movimento mais especifico. Esforcei-me para prender o fecho do sutiã. Não consegui.
_Deixa que eu faço isso. – disse Dean se aproximando. Seus dedos ágeis fecharam em menos de um segundo o fecho. Ele manteve a mão nas minhas costas, subindo até a base do meu pescoço, roçando de leve a ponta dos dedos no corte fino que fiz ali.
Afastei-me, não queria que sentisse pena ou se sentisse culpado por minhas decisões. E acima de tudo não queria parecer frágil e vulnerável (por mais que me sentia assim na maioria das vezes), já fiz isso quando desmoronei no banheiro.
_Deixa eu cuidar de você para variar. – segurei sua mão e o levei para cama. Peguei a maleta com medicamentos e sentei no seu colo de frente para ele, que descansou as mãos nas minhas coxas. Seus lábios encontrando o caminho do meu pescoço. Tive que usar todo meu autocontrole para não corresponder suas caricias.
_Dean, agora não, tenho que cuidar de você. – disse empurrando de leve seu ombro.
_Fica difícil me concentrar com você praticamente nua no meu colo.
_Faz um esforço. – molhei um pedaço algodão no remédio e passei de leve sobre um corte na sua têmpora, ele fez uma careta e se afastou. _Não seja um bebe. – provoquei. Continuei a limpar seus cortes a cada um lhe dava um selinho, primeiro na testa, um beijo, no dorso do nariz outro beijo, bochecha e queixo e mais beijos. Estava viciada em sua boca.
Devagarinho um medo foi se apossando do meu coração. E se o perdesse? E se ele fosse embora? Não poderia sobreviver a isso. Perder mais alguém que eu me importava seria como me perder para sempre.
Olhando para aqueles olhos verdes percebi que o sentia era muito mais do que uma simples atração, ia além. O amava? Seria possível? Como poderia fazer isso parar? Como se para o amor? Mas, eu não queria parar, ele me confortava, acalentava meu coração ferido.
Isso era amor?
_Terminei. – anunciei enquanto ele brincava com o desenho do pentagrama tatuado no meu quadril.
_Agora é sua vez. – Dean pegou minha mão machucada e tirou o lenço molhado com cuidado, mesmo no tecido preto dava para ver as manchas de sangue. Assustei-me com o quanto o corte parecia pior agora, ainda estava aberto e o sangue não estava estancando. _Acho que me enganei, vai precisar pontos. – um arrepio percorreu minha espinha, já tinha levado pontos, mas estava inconsciente, prova disso é a cicatriz na base da minha cintura causada pelo antigo acidente.
Ele limpou o corte, fez um curativo e depois enfaixou bem apertado com uma gaze. Também cuidou dos outros recentes ferimentos e dos antigos.
Com tudo terminado voltou a beijar meu pescoço acariciando minha cintura. “Deus, Você é tão gostosa” sussurrou baixinho no meu ouvido. Sorri. Um calor florescendo no meu corpo descendo ao meu ventre. Porém o coração estava apertado e angustiado.
Ele percebeu o que estava sentindo.
_O que foi? – perguntou com o cenho franzido. Cheguei mais perto do seu rosto até meu nariz tocar o dele.
_Me perdoa? – sussurrei com os olhos fechados. Não podia chorar. Toquei seu rosto com a mão boa. Beijei sua bochecha. Tinha que ter certeza que não existia ressentimento. O medo de que ele fosse embora era sufocante. Ele puxou o ar. Eu estava totalmente desarmada e vulnerável.
_Isabel, não precisa, eu... – coloquei os dedos nos seus lábios impedindo que falasse.
_Eu tenho sido uma bruxa com você, eu não sei... Não sei por que... – o abracei apertado, ele grunhiu de dor. Soltei. _Desculpe. Só quero que diga que me perdoa, me perdoa? – ele pareceu surpreso e confuso quando olhou para mim, talvez vendo a urgência e o desespero que não tinha como esconder.
_É... é claro. – estava tão próxima que podia sentir as palavras sendo sopradas de boca.
_Promete para mim que não vai me abandonar, mesma se eu, sei lá, pirar de vez, mesmo se eu não for o que você pensa que eu sou, se eu... mudar, prometa que não vai me deixar sozinha. – ele me encarou sério, estava agoniada com seu silêncio. Precisava saber. Segurei seu rosto com as mãos o forçando a olhar nos meus olhos. Queria ver sinceridade quando dissesse, queria ter a prova de que era real.
_O quer dizer com isso? – perguntou. Não sabia exatamente a resposta. Um sentimento mais forte que eu estava tentando se liberar. Alguma coisa que me dizia que tinha algo de errado comigo, algo ruim e sombrio fazia parte do meu ser. Não era uma sensação nova, mas vinha se fortalecendo a cada dia, para ser mais precisa desde o dia em que fiquei presa no olhar do homem de branco. Nos olhos de Lúcifer.
Aquele olhar, mesmo que os olhos não pertencessem a ele, me alterou de certa forma. A atração quase psíquica, a compreensão de saber que lá fundo pertencia a aquela criatura, como uma peça que lhe faltava. Só de pensar nisso meu estômago revirava, minhas veias congelavam, me faltava o ar.
Estava aterrorizada.
Poderia não saber o que eu era, mas podia sentir e não era nada bom. Não tinha tempo, poderia acontecer qualquer coisa, o fim poderia estar próximo, se partisse queria ter a certeza que Dean me traria de volta, ou pelo menos tentaria.
_Só promete, por favor, promete Dean. – Pedi. Supliquei. Implorei. Dean me envolveu num abraço apertado. Um abraço cheio de ternura. Exatamente como me senti quando fui abraçada pelo seu eu do futuro.
Senti de novo aquela sensação de segurança. O calor do seu corpo esquentando o meu totalmente frio e fragilizado. Ficaria ali para sempre, aninhada em Dean, protegida do mundo e de todos. Ninguém ia poder ferir algo tão verdadeiro e puro. Ele afogou minha cabeça contra seu ombro. Não precisou dizer nada sabia que estava comigo, de alguma forma seu corpo colado no meu me dizia o que não precisava ser pronunciado. O vazio que sentia sendo preenchido vagarosamente. A confusão, o medo, e tristeza. A mente sobrecarregada, cheia de dúvidas e incertezas ambulante que eu era se afastando. Poderia chorar, de verdade agora. Poderia dizer tudo o que quisesse. Fazer confissões e juras. Dean ouviria, entenderia. Não brigaria comigo ou levantaria a voz. Só me amaria.
_Eu prometo.
... — ...
_Você é o cozinheiro mais sexy que já vi. – disse ajustando o foco da lente. Como sentia a falta da minha câmera. Dean estava à beira do fogão, usando calça jeans, sem camisa, um avental rosa amarrado na cintura lhe cobrindo o peito. _Vamos, me dê um sorriso. – pedi com a câmara a postos. Ele balançou a cabeça negativamente sem se virar, mexia em algo na panela. _Não seja tímido. – estava na entradada cozinha vestida com uma camisa xadrez de Dean. _Esta bem, eu desisto. Sabe eu estava pensando numa nova regra. – Dean olhou para mim curioso.
_Regra?
_É, enquanto estivermos nessa casa é proibido usar qualquer tipo de roupa, nenhuma peça, nada, nadinha. O que você acha? – ele pôs a mão na cintura e um sorriso travesso iluminou seu rosto. Um clique. Conseguir o que queria. Sorri satisfeita.
_Manipuladora. – murmurou enquanto voltava a mexer na panela.
Tinham se passado três dias, tempo o suficiente para podermos relaxar um pouco, descansar da loucura que vinha sendo a semana. Minha mão foi costurada e enfaixada novamente. Os cortes e hematomas já cicatrizando. Nossa aparência estava renovada. O clima era de uma completa lua de mel.
Praticamente não saímos do quarto e da cozinha (que eram locais parcialmente limpos). Beijos e amassos preencheram as horas do dia. Estava completamente à vontade com Dean, permitindo coisas que com certeza me fariam enrubescer a um tempo atrás. Ele tinha total liberdade ao meu corpo e eu ao dele. E a parte mais difícil era parar toda vez que a coisa esquentava para valer.
Dean se tornou minha droga, precisava de uma dose a todo o momento.
Sentei no bando em frente à bancada esperando pelo prato do dia.
_Onde aprendeu a cozinhar? – perguntei. Ele tampou panela e se virou, apoiou os cotovelos na bancada.
_Na verdade não sei cozinhar, só me viro. Quando o papai saia para caçar e ficava semanas fora eu cuidava do Sammy, então tinha que me virar com o que tínhamos, não dava para comer salgadinho e hambúrguer todo dia. – explicou com um brilho atravessando seus olhos, era uma recordação feliz.
_Sente falta dele? – sua postura foi de relaxada para tensa. Era obvio que ele não gostava de tocar no assunto, não ia pressiona-lo queria que dissesse o que aconteceu quando estivesse pronto. Ele olhou para as mãos atadas e ergueu o corpo virando de costas se voltando para o fogão. _Não tem um dia que eu não sinta falta do Jamie, daria tudo para ver aquele rostinho de novo. Eu também costumava cuidar dele – deixo meus olhos marejarem, é doloroso demais falar sobre minha família, talvez Dean sinta a mesma coisa. _Não estou querendo me intrometer, mas talvez você possa dar uma chance a seu irmão, eu não sei o que ele fez, mas acima de tudo Sam é sua família. Não deixe o que aconteceu destruir isso. Eu sei muito bem como é perder um irmão. Se pudesse voltar no tempo aproveitaria muito mais os momentos que passei com Jamie e faria de tudo para recuperar o tempo perdido que passei sem ele. Por que eu sei que quando se perde alguém que se ama até os momentos menos importantes se tornam uma lembrança dolorosa, mas reconfortante do que aquela pessoa foi para você. Então não os perca Dean.
Dean não disse nada, já eu tinha dito demais. Após um silêncio desconfortável, ele se virou sério, engoli em seco.
_Está ficando um pouco frio aqui, eu vou ao sótão pegar mais lenha. – aquilo poderia ser interpretado como “não quero falar sobre isso”.
_Não, deixa, eu vou. – disse descendo da cadeira.
_Não, eu vou.
_Dean, relaxa, não vou nem sair da casa. – o tranquilizei.
Segui pelo corredor indo ao sótão. Quando entrei o cheiro de poeira e mofo desceu pela minha garganta me fazendo tossir na escuridão. Encontrei a madeira, peguei três delas, o máximo que podia carregar com uma das mãos costurada.
Estava na metade do corredor quando deixei, no susto, cair toda a madeira, uma delas atingiu meu dedinho do pé. Sofri por uns instantes com a dor aguda e irritante. Castiel não pareceu se sensibilizar.
_Parece que eu não me acostumei totalmente com suas aparições. – Castiel não respondeu e nem esboçou uma reação. Seu rosto era estático, mais que o normal. Um brilho prateado se projetou da manga do seu sobretudo.
_Cass? Tudo bem? – perguntei. Tinha um mau pressentimento sobre aquela adaga longa e afiada na sua mão. Depois de um momento de tensão ele disse:
_Deveria usar proteção contra anjos na casa, não está seguro o suficiente. – seu tom era impassível.
_Cass? – perguntou Dean atrás dele. Ele tinha tirado o avental e colocado uma camisa. Castiel se virou como se tivesse sido pego fazendo algo errado. Olhei para sua mão onde a adaga tinha sido projetada. Não tinha nada, ela tinha desaparecido. Tinha certeza que não estava vendo coisas. _O que está fazendo aqui, Cass? Não me diz que aqueles bastardos filhos da...
_Não. Eu só queria ver se estava tudo bem. – respondeu a Dean. Ficamos sem saber bem o que dizer.
_Eu te convidaria para jantar com agente e tomar uma cerveja, mas... – Dean deixou a frase no ar.
_Eu tenho que ir. – anunciou Castiel e sumiu. Dean balançou a cabeça.
_E isso significa que a lua de mel acabou. – anunciou Dean recolhendo a lenha do chão. Foi para a sala o segui. _Temos que ir. Vamos arrumar as malas, deixar tudo já no carro para amanhã cedo pegar a estrada. Até por que nosso estoque de comida dentro da validade está acabando.
_Para onde vamos? – perguntei já sentindo o cansaço de ter que voltar a minha nova rotina.
_Em uma coisa Zacharias estava certo, não posso fugir para sempre. Vamos para a casa do Bobby, o lugar mais seguro que conheço e depois decidimos o que fazer. – assenti.
_Dean, você tem certeza que Castiel está do nosso lado? – perguntei escolhendo as palavras com cautela. Sabia da amizade que existia entre Dean e Castiel, mas não podia esquecer aquela adaga.
_Ele pode parecer meio alienado, mas é confiável. Por que a pergunta? – perguntou com o cenho franzido.
_Por nada, só não queria ter que acrescentar um anjo como o Castiel a minha lista de inimigos. – Dean pareceu pensar sobre minha pergunta estranha.
_Há quanto tempo Castiel esteve aqui? – perguntou vendo minha expressão pensativa e um tanto assustada.
_Tempo o suficiente para me fazer pensar em certas coisas. – respondi enigmática, ia tentar algo, só esperava que Dean não percebesse.
_O que ele disse para você?
_Ele comentou sobre a nossa pequena viagem no tempo, disse alguma coisa sobre seu encontro com Lúcifer. Ele me contou tudo, Dean. – Dean ficou ligeiramente surpreso e tenso, me deu as costas deixando a lenha ao lado da lareira.
_Como ele sabe disso? Seja lá o que tenha dito, não é bem assim...
_Então você realmente está me escondendo alguma coisa. – ele olhou para mim tendo consciência de que caiu num truque velho.
_Uau, é a segunda vez no dia que sou manipulado por você.
_O que Lúcifer disse para você? Tem alguma coisa a ver comigo? Dean, não me esconda nada, seja lá o que for eu preciso saber, preciso...
_Isabel...
_É por isso que têm tantos demônios atrás de mim. Lúcifer me quer para alguma coisa e você sabe o que é, não sabe? Foi assim que eu morri. E meus sonhos estranhos...
_Isabel! – estava falando rápido demais, meus pensamentos ficando confusos e embaralhados. Muitas coisas que não tinha imaginado antes vindo numa tacada só. Continuaria se Dean não tivesse gritado meu nome. _Calma, está bem.
_O que ele disse para você? – Dean se aproximou e segurou meu rosto com as mãos, estava com um sorriso trêmulo.
_Olha para mim. – obedeci não tendo como me desvia daquela imensidão verde. _Ele não disse nada demais, só as porcarias de sempre do tipo “eu venci” “você vai morre”, “eu peguei o Sam”, “eu sou um coitadinho deveriam ter pena de mim” e blá, blá, blá. Não se preocupe, ele não disse nada que não soubéssemos sobre você. – não estava nem um pouco convencida. A conversa que ouvir no bar era sobre mim.
_Está mentindo para mim. – afirmei a Dean me livrando do seu toque, não dava para pensar direito com ele tão perto.
_Não. – passou as mãos no cabelo e suspirou. – Não estou mentindo.
_Não acha que eu tenho o direito de saber? Dean, o que você sabe sobre mim que não quer contar? – perguntei nervosa demais para manter a paciência.
_Nada, eu não sei de nada. – assim como eu ele também estava perdendo a paciência.
_Eu ouvir você no bar, a Meg disse...
_Ha, claro, Meg, uma fonte muito confiável. – rebateu me interrompendo.
_Está escrito na sua cara que está escondendo algo de mim.
_O que quer que eu diga se se recusa a acreditar? – bufei derrotada.
_Mais cedo ou mais tarde eu vou descobrir. – disse frustrada por achar que não iriamos mais brigar ou discutir, pelo menos não naquela casa e naquele clima de paz.
_Ok, Sherlock, podemos comer agora?
_Não, não podemos. Isso é sobre mim, eu não sei o que eu sou, não sei o que Lúcifer quer comigo, então se você sabe de alguma coisa por favor me diga. Eu tenho que saber Dean. Sei que está tentando me proteger, mas não pode me privar da verdade, essa é minha vida. – ele me encarou pensativo.
_Você venceu. – Dean fez uma pausa antes de começar, eu não me aguentava de ansiedade. _ Lúcifer disse que você pertencia a ele. Disse também que iria até ele. Você não morreu, não exatamente, você desapareceu e quando isso aconteceu às coisas pioraram muito. Pode ser coincidência, mas eu acredito que pode ter alguma coisa a ver com o seu desaparecimento. – demorei um tempo para absorver o que tinha ouvido.
_Eu de alguma forma piorei o apocalipse. Como isso é possível? – o que eu disse saiu como um sussurro. Quanto mais descobria sobre mim mais eu desejava ser outra pessoa.
Dean não conseguiu te salvar. Uma vozinha sussurrava no meu subconsciente. Estava sozinha, e tinha pouco menos de cinco anos de vida.
_Essa é a pergunta de um milhão. – percebendo o meu estado Dean se aproximou e colocou a mão no meu ombro.
_E você achou que isso não era importante? – perguntei, parecendo mais rude do que pretendia.
_Não, não é. O que sabemos é só uma peça do quebra cabeça, só serviu para deixar você desse jeito. Por isso não queria ter contado até ter mais alguma informação.
_Isso é tão... Estressante. – soltei um suspiro derrotado.
_Não se preocupe, vou colocar uma bala na cabeça daquele desgraçado, nem que isso seja a última coisa que eu faça. – Dean tentou me confortar. Afastei-me, queria ficar sozinha por um tempo.
_Você é só um homem, Dean. Não pode matar o diabo. – o calor da lareira me confortava agora.
_Sua confiança em mim é animador. – comentou em tom frio de ironia. Não disse nada, estava de costas para ele, não podia ver sua expressão.
_Como? – perguntei, Dean parecia ter certeza no que dizia, talvez aja um jeito.
_O Colt. Vamos achar o Colt e então esse pesadelo vai acabar.
_Mas o Colt só vai ser encontrado há daqui cinco anos. – me virei para ele.
_Esquece o que aconteceu naquela viagem no tempo infernal. Vamos achar um jeito. Não vou o deixar chegar perto de você e nem do Sam. Confia em mim. E, por favor, podemos comer agora? Estou cheio de fome. – assenti mais calma. Precisava acreditar nele.
Precisava ter fé em alguma coisa.
...
O macarrão improvisado com molho de tomate de Dean estava ótimo. O jantar foi silencioso. Queria dizer alguma coisa para amenizar o clima, mas nada veio à mente. Por fim foi Dean que quebrou o silêncio.
_Então, o que achou? – perguntou apontando com o garfo para o macarrão. Sorri.
_Beijar bem não é seu único talento. – respondi pegando mais uma garfada. Dean sorriu.
_Você ainda não viu nada. – disse de forma sedutora ainda sorrindo. Pronto, estávamos bem de novo.
Terminamos nosso jantar e fomos sentar perto da lareira. Ficamos nas almofadas e nos cobrimos com cobertores quentes. Dean sentou no chão se recostando no sofá e eu em seu peito enquanto me envolvendo nos seus braços.
_Sinto falta dele. – demorou alguns segundos para entender do que ele estava falando. _Cuidar do Sammy tem sido meu trabalho desde sempre, eu não percebia que estava sufocando o cara. Talvez eu tenha uma parcela de culpa no que ele fez. Esse tempo em que passamos afastado foi bom para nós dois, ele não é mais um garoto, eu tenho que me acostumar a ver o Sam como um homem que sabe se cuidar sozinho. E ele precisava aprender com seu erro, e não seria mais fácil se eu ficasse. – fiquei sem falas, surpresa por ele está falando comigo, por está se abrindo, deixando alguém entrar na sua fortaleza. Peguei sua mão entrelaçando na minha para sinalizar que estava ali para ele.
Dean se pôs a falar. Falou de tudo: do pai, da forma como a mãe morreu, do Sam e o começo dos seus problemas. Da vida de caçador que foi obrigador a seguir, a sua ida ao inferno esua volta. Até que chegou à parte em que Sam causou o apocalipse, confesso que essa parte foi um pouco chocante.
As palavras foram ditas em tom de amargura. Foi muito vago, é claro, mas era o suficiente. Estava feliz e completamente aturdida por saber tudo o que ele passou. Tinha milhões de perguntas, mas era melhor não as fazer. Não agora.
Nunca tinha visto dor, tristeza, angustia, arrependimento, medo, descrença, culpa... Tudo isso em um só homem. Era incrível como ele aguentava a tudo. Uma cruz enorme para ser carregada sozinho. Senti uma necessidade muito grande de fazer com que se sentisse melhor, dizer que não estava sozinho tinha a mim tinha a Sam. Estaria sempre ali para ele.
_Droga, estou parecendo o Sam. – brincou. _Preciso de uma cerveja. – foi para cozinha e voltou com duas garrafas, deu uma para mim e se sentou.
_Agora é sua vez. Qual sua história? – perguntou.
Um nó se formou na minha garganta. Não gostava de falar da minha família morta, tinha gastado todo o tempo e energia tentando esquecer a dor que esse assunto me proporcionava. Mas Dean fazia com que eu me sentisse mais segura para falar, ele entendia minha dor, podia confiar nele.
Respirei fundo e tomei um gole da cerveja empurrando o nó goela a baixo.
_Sinto falta de Oxford. – iniciei como ele tinha começado. _Minha mãe era inglesa.
_Isso explica seu sotaque irritante e seu humor estranho. – zombou fazendo uma péssima imitação do sotaque britânico.
_Dizem que o sotaque britânico está entre o mais sexy. – rebati.
_As pessoas que chegaram a essa conclusão com certeza não tiveram que conviver com ingleses. – dei uma cotovelada nele.
_Me deixa terminar.
_Me deixa terminar. – Dean imitou meu jeito de falar.
_Quanta maturidade. – ele riu. Ri também. _Cala boca e me deixa falar.
_Vai em frente Rainha Isabel. – ele sorriu enquanto tomava mais um gole.
_Retomando. Meu pai conheceu minha mãe num intercâmbio, eles se apaixonaram e viveram um amor proibido. Minha mãe vinha de uma família muito tradicional e então é claro ela não poderia se aventurar por ai com um estrangeiro completamente desconhecido. E a única solução para os amantes era se encontrarem escondido. Até que chegou o fim do intercâmbio, ele foi embora, mas deixou um pedacinho dele, e esse pedacinho é mais conhecido como Isabel. Meus avós descobriram e foi um escândalo, eles expulsaram minha mãe de casa e a deserdaram, meu pai ficou apavorado, não sei por que, mas quando soube da gravidez ele não foi busca-la. Minha mãe ficou na casa do meu tio Cesar, ele deu todo apoio enquanto o meu pai ficou na América dando desculpas e mais desculpas.
“Eu nasci e fiquei oito anos na Inglaterra sem conhecer meu pai. Eu era feliz, era só eu, minha mãe e meu tio que foi como um pai para mim. Até que meu pai reapareceu, pediu desculpas e minha mãe como era uma jovem mãe solteira apaixonada aceitou. Fomos para a América, Pensilvânia, moramos por dois anos lá e depois fomos para uma cidade mais tranquila e afastada da capital, fomos para Greeley. – Dean ouvia atentamente o que eu dizia, fiz uma pausa, ia chegar à parte complicada e dolorosa. Dean aproveitou para fazer uma pergunta.
_Então você tem parentes na Inglaterra?
_Está pensando em se livrar de mim? Vai me dopar e me mandar de volta num navio cargueiro? – brinquei, ele pareceu considerar a possibilidade.
_Até que não é uma má ideia. – respondeu com ar divertido.
_Engraçadinho. Não, não tenho mais ninguém, a maioria eu não conheço ou morreu, e meu tio Cesar faleceu ano passado. Desculpa acabar com seus planos. – sorri para ele e mesmo assim era impossível não deixar que um nó se formasse na minha garganta. Engoli em seco, a cerveja esquentando na minha mão. Continuei:
_A princípio eu achava estranho como meu próprio pai me rejeitava, como se eu fosse algo que deu errado na sua historinha de amor. Eu passei tanto tempo tentando chamar a atenção dele, que simplesmente me ignorava e eu não percebia. Minha mãe não percebia, ela era uma boba apaixonada e deslumbrada com um projeto de marido perfeito. Eu era muito nova, mas me lembro de como me sentia, como se eu fosse um erro, essa ideia ficou tão fixa na minha cabeça a ponto de fazer me fechar para tudo. Além do Adam nunca tive muitos amigos, meio que desenvolvi uma personalidade antissocial. Só não conseguia lidar muito bem com os problemas da infância e adolescência então me afastava. Passava a maior parte do tempo com uma câmera na mão.
“E aí veio o Jamie, as coisas mudaram, meu pai se transformou, e nossa como ele amava o pequeno Jamie, eu também o amava, era a criança mais carinhosa do mundo. Apesar de tudo eu estava feliz, eu tinha o Jamie não me sentia tão sozinha. Mas um estúpido acidente de carro me tirou isso”. – as lembranças daquele acidente vagaram para minha cabeça. A represa que tinha montado havia sido rompida. Lembrava-me de tudo como se fosse ontem, todos aqueles ferros distorcidos, os corpos, o hospital...
A culpa.
_Ás coisas foi ladeira abaixo. Eu fiquei meses trancafiada num hospital, e nenhum desses dias meu próprio pai foi me visitar. Eu olhava todo o santo dia da janela do meu quarto esperando que ele aparecesse. – estava difícil continuar. Aqueles dias na ala psiquiátrica era algo que vinha empurrando para o fundo escuro da minha mente, forçando para esquecer. Pensava que se arranhasse aquele murro voltaria para aquele quarto branco e frio. Mas o mostro enjaulado atrás dessa barreira se esforçava tanto para se libertar, e talvez fosse melhor solta-lo antes que me matasse.
_Isabel, não precisa...
_Tudo bem. – o tranquilizei, ele sabia que era um assunto difícil para mim, mas tinha que ir adiante _Quando eu voltei, minha vida tinha virado de cabeça para baixo. Meu pai se transformou no bêbado da cidade, a minha casa estava mais bagunçada do que a bolsa de valores. Eu tinha vontade de chorar, mas nunca tive tempo para o luto, sabe. O resto decrepito da família Corand foi jogado nas minhas costas. Eu passei anos tentando concerta a vida do meu pai, ele era a minha única família, tentei de tudo e mais um pouco. Fui uma idiota por achar que poderia muda-lo, por achar que ele me veria de uma forma diferente. Ele não falava comigo, me olhava como se eu fosse um monstro desprezível que tinha causado a morte da sua mulher o do seu filho. O pior era que eu acreditei.
“Por anos me torturei com isso, à única pessoa que ficou do meu lado, que me ajudou a não afundar de vez foi o Adam. Ele foi um amigo maravilhoso, não sei o que seria de mim se ele não me resgatasse toda vez que ia ao fundo do poço.” – sorri por lembrar o meu melhor amigo. O seu sorriso fácil e seu jeito extrovertido, o modo como me fazia acreditar que tudo ia ficar bem. Estava sendo torturante afasta-lo, era como arrancar um pedaço do meu coração.
Sinto tanta falta dele. Tanta falta do clima tranquilo e monótono de Greeley. Tanta falta da minha vida antiga, por mais que fosse uma batalha todo dia ter forças para levantar da cama era melhor do que reunir forças para lutar pela minha vida a todo o momento. Sinto tanto que não dá para pensar sem sentir um aperto no peito e a garganta se fechando.
Concentrei-me nas chamas da lareira. Laranja. Azul. Calor. Cinzas. O ruído da madeira queimando...
_Teve um dia, duas semanas depois de voltar para casa, era meu primeiro baile, Adam me ajudou a encontrar um vestido e me convenceu a ir. Eu me sentia nas nuvens, nunca tinha ido a um baile antes, e ainda mais com o garoto que eu sabia que metade das garotas queriam como par.
" Ia tudo bem até que eu recebi um telefonema de uma pessoa dizendo que meu pai estava completamente bêbado num bar e que tinha arrumado alguma confusão, divida de jogo ou algo parecido. Eu sair do baile correndo, não tinha trocado nem de roupa. Estava com tanto medo, não por mim, por ele, mil coisas passaram pela minha cabeça naquele momento. Quando cheguei à rua do bar o vi caído, jogado num beco como mendigo. Adam me ajudou e leva-lo para casa e depois eu insisti que ele voltasse para baile, não podia estragar sua noite também.
"Já em casa, sozinhos, meu pai olhou para mim com os olhos inchados e molhados. Eu tive vontade de correr, de fugir. Eu tinha quinze anos, nova demais para não me deixar intimidar por aquilo. Era puro ódio. Ele apontou para mim e a primeira coisa que disse desde que voltei foi: Isso é tudo sua culpa, ele repetiu isso várias vezes, eu não sabia o que fazer, fiquei lá parada esperando o momento em que ele ia me atacar, ao invés disso ele foi para o quarto."
“Fiquei um tempo paralisada no meio da sala me acabando de tanto chorar, não fazia ideia de que uma pessoa podia chorar tanto. Estava muito confusa e ferida. Num impulso de desespero fui para cozinha peguei uma faca...” – minha voz sumiu. Nunca tinha revelado isso a ninguém, era um segredo do qual me envergonhava, algo muito intimo e pessoal. Dean colocou o braço em volta do meu ombro. Encostei minha cabeça em seu peito.
_Eu não consegui, eu tentei, mas não fui adiante. Pensava que merecia morrer, pensava que era para eu ter morrido naquele acidente, afinal meu pai não ia ter que olhar para mim e lembrar a mamãe. Eu merecia ser punida, se morresse tudo ia acaba, a dor que causei, meu sofrimento. Desde o acidente eu me sentia tão estranha e diferente, alguma coisa tinha mudado em mim me fazendo perceber que eu não merecia aquilo... Mas eu tinha feito uma promessa, prometi para o túmulo da minha mãe que não ia desistir, que ia cuidar do papai. Foi por isso que não fui adiante por mais que minha cabeça me dissesse que aquilo era o certo a se fazer.
As lembranças explodiram em um milhão de fragmentos dolorosos; A lâmina que segurei trêmula cortando minha pele, o sangue na pia do banheiro, as gotas vermelhas escorrendo do meu pulso no chão manchando o piso que tinha limpado. Foi um corte pequeno, mas a dor tão forte no peito era quase insuportável...
Achei que aguentaria, porém o monstro que soltei era mais forte que eu, ele estava tentando achar uma brecha para destruir minha sanidade. Não podia aguentar, estava perdendo o controle. Meu coração estava acelerado, minha respiração falha, minhas mãos trêmulas. Estava com frio. Meus olhos ardiam.
Concentre-se. O calor, as chamas, cinzas, laranja, azul... Memorizo essas imagens e eventos na minha cabeça. A lareira, preciso me concentrar na lareira.
Dean me envolveu num abraço.
_Não precisa falar mais nada. – sussurrou no meu ouvido. Sua voz rouca como um tranquilizante. Nada comparado aos remédios que tive de tomar para me acalmar quando a doutora me forçava a falar sobre o mesmo assunto.
Pisquei deixando as lágrimas solitárias caírem. Não ia chorar. Respirei fundo, o ar finalmente encontrando caminho para meus pulmões.
_Antes de ele morrer eu disse coisas horríveis, e... Ele estava tentando sabe, se esforçando para ser melhor, um novo começo como disse. Mas eu não conseguia acreditar, estava tão magoada que não conseguia agir como se nada tivesse acontecido, como se ele não tivesse me feito sofrer tanto. – a ardência nos meus olhos era demais para suportar. Estava chorando abraçada a Dean como uma garotinha. _ Dean, eu disse coisas horríveis para ele antes de... antes de ele morrer. Meu pai se foi sem saber que eu o amei, não tive chance de dizer que o perdoava... eu fui horrível, horrível, não consigo parar de pensar que se eu não fosse...
_Ei, não diz essas coisas eu tenho certeza de que ele sabia que você o amava. Ele não disse que queria um novo começo? Então, ele queria uma chance de mostrar que a amava estava disposto a mudar. – Dean me apertou com mais força. _Nunca duvide disso, ele te amou, como eu agora... – o resto da frase ficou no ar, congelada. Nossos corpos paralisados, a tensão de Dean atravessando o tecido da sua camisa. Estava imaginando coisas ou ele ia dizer o que pensava que iria dizer?
Afastei-me, enxuguei as ultimas lágrimas me recompondo, esperando pelas falas de Dean. Ele limpou a garganta, parecia desconfortável com a situação, tinha deixado algo que não queria dizer escapar, percebendo tarde demais o impacto que aquilo causaria.
_O que eu quero dizer é que claro que ele nunca ganharia como pai do ano e você não pode se culpar ou se sentir assim por ele, me desculpa em dizer isso, mas o filho da mãe não merece suas lágrimas. Você é linda, linda por fora e por dentro também. Depois de tudo o que ele fez, muitos no seu lugar não faria nem metade do que fez por ele. Nunca se esqueça disso. – ele acariciou meu rosto com tanta leveza. Seus olhos mostrava uma certeza que eu era incapaz de questionar o que ele dizia. _Você é linda.
Assenti me despedindo das lágrimas.
Estava mais calma. Sentia-me mais leve depois de ter desabafado.
Colocar tudo para fora foi perigoso e ao mesmo tempo libertador. Ainda tinha de me esforçar para empurrar tudo de volta. Focar em outras coisas, focar em Dean.
Sorri para ele.
_Acho que ganhei de você nessa. – minha voz saiu trêmula, mas o sorriso prevalecia. Queria trazer de volta o humor de antes, era o único modo de confundir e distrair minha mente.
_Sem chances. – comentou Dean entendendo do que eu precisava.
_Olha para mim, chorando e você dizendo... coisas. – estava tentando me convencer de que Dean quase disse foi para tentar me confortar, apenas isso.
_Eu fui para o inferno. – se defendeu.
_Eu tentei me matar. – rebati.
_Pelo menos você tinha essa opção. – nos olhamos, um sorriso brotando em cada rosto. Era fácil fazer isso com Dean, sorrir e transformar nossas tragédias em uma competição ridícula.
_Tudo bem, vamos considerar empate. – disse levantando me sentindo um pouco melhor.
_De acordo. – Dean levantou também.
Fui ao banheiro e lavei bem o rosto, apagando da minha expressão que estivera chorando. Depois rumei para cozinha e comecei minha busca pelo que eu tinha visto mais cedo.
_Sabe deveria usar esse modelo mais vezes, minha camisa caí bem em você. – lhe ofereci um sorriso livre de constrangimento. Dean me observava enquanto eu revirava as gavetas.
_Achei. – ergui para ele ver uma caixa de madeira com o conjunto de cartas e fichas dentro. _Que tal uma rodada de Pôquer.
_Você sabe jogar Pôquer? – perguntou Dean incrédulo. O pôquer era uma das coisas que aprendi com tio Cesar. A cada rodada que eu ganhava levava um brigadeiro, sorvete ou qualquer outro doce, um ótimo incentivo para uma criança viciada em doces. Esforçava-me para ganhar, o resultado era sempre a mão toda melada e um baita dor de barriga.
Achava um jogo divertido na verdade e mais divertido ainda era apostar com dinheiro com tio Cesar. Esse era meu fundo de investimento para minhas lentes ou algum equipamento fotográfico.
_Eu me viro. – blefar era uma das coisas mais importantes no jogo.
_Quem é você e o que fez com a minha garota? – brincou Dean.
_Chega de papo, vamos jogar pôquer. – peguei duas cervejas fiquei com uma e dei a outra para ele. Ultimamente tenho bebido mais do que bebi em meus vinte dois anos, o álcool se tornou um consolo nos dias difíceis, no caso de Dean um consolo de toda uma vida difícil.
Na sala sentada no tapete distribui as cartas. Deixei que Dean me explicasse algumas coisas, mesmo estando cansada de saber.
Deixei Dean ganhar à primeira.
_To pensando aqui, em que eu posso trocar essas fichas? Tenho que levar algum premio. – disse Dean convencido me olhando com malícia, um sorriso triunfante se formando no rosto.
_Quem disse que vai ganhar à próxima. – era hora de dar uma lição em Dean.
Com um par de ases ganhei a rodada. Estava meio enferrujada, porém pôquer é como andar de bicicleta você nunca esquece. Três partidas depois eu tinha acabado com as fichas de Dean. Fui boazinha e o deixei ganhar à seguinte, seu sorriso tinha desaparecido, sua expressão mais concentrada e determinada.
Foi um Flush: cinco cartas fora da sequencia, mas do mesmo naipe. Um Royal Straight Flush: Sequencia A, K, Q, J, 10 do mesmo naipe. E uma Trinca: três cartas iguais, mas duas diferentes que “sobram”. E para finalizar a última partida fiz um Full House: A união de dois jogos, um com três cartas iguais e outro com mais duas iguais.
Ri quando vi a cara de derrotado de Dean. Virei o resto da cerveja saboreando o gosto da vitória.
_Você acabou de fazer um Full House. Acho que acabei de encontrar a mulher da minha vida – um sorriso bobo apareceu no seu rosto.
_Você não teria tanta sorte.
_Como aprendeu a jogar desse jeito? – perguntou abismado.
_Uma garota nunca revela seus truques. – respondi. Dean sorriu um sorriso orgulhoso.
_Poderíamos ganhar uma grana com isso. – disse reflexivo.
_Acho que não sou tão boa para jogar com caras mais experientes.
_Você acabou comigo.
_Foi fácil por que você é muito ruim. – alfinetei.
_Pôquer só não é o meu jogo. Se fosse vinte um ou truco eu teria acabado com você. – tentou se defender.
_Vinte um é jogo de amadores. – Os cantos da sua boca se elevaram num sorriso forçado. _Então, onde está meu premio? – perguntei afastando todas as fichas e cartas para longe, engatinhei até parar com o rosto bem próximo do de Dean.
_O que você quer? – perguntou sua boca tão próxima que podia sentir no seu hálito o cheiro da cerveja.
_Você. – chegando mais perto e o beijei. Coloquei a mão em seu peito, percebi seu coração acelerado assim como o meu. O empurrei gentilmente para o chão, coloquei meu corpo em cima do dele o encurralando.
_Bel... – sussurrou meu apelido em tom de aviso. Meu cabelo formou uma cortina em volta do seu rosto não o deixando alternativa a não ser olhar para mim.
_Dean eu sei que você quer, eu também quero, para que esperar? Posso não estar viva amanhã, e... – me aproximei para sussurrar em seu ouvido. _Se eu morrer você dentro de mim é meu último pedido. – ele me olhou ligeiramente surpreso, depois sorriu diabólico. Nem eu acreditava no que disse, já era tarde para me envergonhar.
_Se começarmos não vou querer parar. – falou baixinho.
_Quem foi que disse que quero que pare?
De uma coisa ele estava certo, éramos como faísca e pólvora, quando entravamos em contato explodíamos. E normalmente um de nós saia machucado. Mas quer saber? Estava disposta a correr o risco.
Ele colou sua boca na minha e me beijou de forma doce e gentil, lento e demorado, quando terminou tentou se levantar, o pressionei ainda mais no tapete.
Eu queria mais, estava sedenta por Dean. Voltei a beija-lo que correspondeu dessa vez com mais ardência, suas mãos ágeis subindo da minha coxa indo por baixo da camisa apertando gentilmente meu bumbum. Seu toque era eletrizante. Algo que meu corpo necessitava cada vez mais. Fazia cada célula se tornar energética. Dependente.
Ele queria, por mais que sua cabeça tentava dizer outra coisa seu corpo reagia de outra maneira. Seus lábios se separaram dos meus, mas logo percorreu o caminho do meu pescoço. Nossos corações se intercalavam entre batimentos acelerados.
Dean abriu o primeiro botão da sua camisa que eu vestia, levantei o corpo me afastando. Sai de cima dele e fiquei de pé, ele fez o mesmo. Deu um passo a frente eu dei um para trás, balancei o dedo indicador em sinal negativo, sua expressão de desconfiada passou para divertida. Ofereci-lhe um sorriso brincalhão, abri mais um botão bem devagar, ele deu mais um passo para frente, dei outro para trás abotoando o botão. Dean me olhou como se finalmente entendesse meu joguinho.
Desabotoei um botão e depois mais outro. Mais um botão, depois outro, e outro, intercalando com algum movimento que julgava ser sexy. Dean se recostou na parede de braços cruzados com uma expressão divertida. Estava na metade da camisa quando me virei de costas.
Desabotoei todos os botões descendo a camisa um pouco até o meio das costas enquanto tentava rebolar ao ritmo da música que tinha em mente: You Can Leave Your Hat On... Virei-me enrolando a camisa no corpo, fiz mais alguns movimentos precisos e sensualmente exagerados. Mexendo os quadris, descendo, subindo e girando numa dança erótica e um tanto cômica.
Dean se contraiu a gargalhadas, o chamei com o dedo indicador, sorri atrevida para ele que se aproximou em passos largos. Quando vi estávamos correndo pela casa feito dois adolescentes.
Agarrando-me pela cintura ele me ergueu do chão. Rimos como um casal de verdade, não existia apocalipse, demônios, anjos, monstros, erámos só nós dois. Podia sentir que ele também deixara o peso do mundo cair de suas costas. Esse efeito era tão bom que desejava viver naquela fantasia para sempre.
_Acha que eu seria uma péssima stripper? – perguntei a Dean colado a mim.
_Digamos que talvez não fosse uma carreira rentável para você. – respondeu.
Sorri de orelha a orelha. Ele também abriu um sorriso largo, um sorriso bobo primeiro para mim depois foi como se ele risse para si mesmo, um brilho novo surgindo no olhar. Sua expressão iluminada.
_O que foi? – perguntei alternando entre um sorriso e uma expressão intrigada, não sabia o que se passava na cabeça de Dean.
_Nada, é só, não sei, acho que não me lembrava da última vez que rir de verdade, sabe? não me lembrava do quão boa era a sensação. – não disse nada, apenas deixei os cantos da boca se curvarem para cima.
Rir, sorrir, gargalhar, sensações que não experimentava há muito tempo. A simples contração de barriga sobre o efeito de uma boa e sonora gargalhada fazia falta. Assim como sorrir espontaneamente, não o movimento de boca mecanizado e calculado que treinava todo dia no espelho.
Dean conseguia resgatar em mim essas sensações. O agradecia mentalmente por isso.
Os dias estão sendo turbulentos e ele dava uma quebrada no clima carregado. Na maioria das vezes não era fácil, nossas personalidades estavam em constante conflito, porém, sentir seu corpo envolvendo o meu fazia qualquer desavença desaparecer. Se dissolver apenas ao toque de Dean. Virava fumaça com o encontro dos nossos lábios. Seus beijos na minha nuca provocavam tremores pelo meu corpo inteiro, fazia contrair e umedecer mais a baixo do meu ventre.
O tecido da camisa desceu pelo meu ombro. O puxei pela mão até chegarmos ao quarto. Assim que bati a porta o empurrei contra a parede, seu corpo se chocou com força.
Ele deslizou suas mãos na minha cintura descendo passando pela parte exterior da minha coxa. Dean inverteu a situação, agora eu estava encurralada contra a parede. Puxei o tecido da sua camisa para cima arrancando e jogando num canto qualquer do quarto.
Ele pressionava-me cada vez mais, era como se quisesse se fundir a mim. Nossos corpos se encachavam como se fossemos um só.
Com um amplo movimento de braço joguei tudo o que tinha em cima da cômoda no chão, Dean me agarrou pela cintura me colocando em cima do móvel. Fiquei perfeitamente a sua altura, minhas pernas enlaçando sua cintura. Paramos ofegantes.
_Vamos, me mostra como você faz com as outras. – o beijei mais uma vez tentando não apagar a chama. Ele sorriu. _Se você quiser eu posso fazer como elas. Ohh Dean, como você é incrível, tão másculo, tão gostoso, seu... – ele colou sua boca na minha. Tinha falado fazendo minha melhor imitação de uma mulher exagerada, sedutora e muito excitada. Dean riu, adorava quando o fazia.
_Por favor, nunca mais faça isso de novo. – pediu ainda sorrindo. Sorri também. _Elas não têm o que você tem.
_Respeito, amor próprio, dignidade, decência? – ele riu.
_Você tem meu coração. – após uns segundos de silêncio gargalhei, Dean olhou para mim também sorrindo.
_Serio? Elas caem nesse seu papo furado? – perguntei ainda rindo.
_Geralmente sim, principalmente as mais carentes. – rimos mais.
_Não acredito que tentou usar seu truque barato comigo. – disse batendo de leve em seu ombro.
_Não me julgue por tentar e... eu não estava mentindo.
_Ok, agora você é romântico. – ironizei voltando a beija-lo, ele se afastou.
_Não estou brincando. Você não é como elas. – tinha sinceridade nas suas palavras, mas deixaria para refletir sobre elas depois.
_Eu posso ser está noite. – sussurrei no seu ouvido, ele desfez a expressão séria num sorriso malicioso.
_Não quero que pense que estou tratando você como uma garota qualquer que flertei num bar só para conseguir uma transa.
_Então o que você quer? Uma declaração de amor? – perguntei sarcástica e frustrada com o rumo que aquilo havia tomado, ele me olhou com reprovação.
_Eu só quero que as coisas sejam diferentes. O que estamos fazendo, quero que tenha noção disso. Está tudo ficando um pouco intenso demais, não é que eu não queira, acredite, eu quero. – fez a ênfase na última parte. _Não me entenda mal, mas não sei se devemos fazer isso. Não é agora que me preocupa é onde vai dar. Não parece certo. Você é só uma garota, seria como tirar vantagem...
_Pela milésima vez eu não sou uma garota! – o cortei.
_É claro que é. Você é a minha garota. – meu coração se derreteu por um momento. Era difícil tentar colocar as coisas num patamar apenas físico quando Dean dizia palavras doces.
_Dean, não espero que me peça em casamento, ou me traga o café da manhã na cama no dia seguinte. Não quero ser sua namorada. Só estamos nos divertindo, somos amigos só que com certos benefícios. Você tem o que eu quero eu tenho o que você quer, usamos um ao outro em benefício próprio. Relaxa, não nos vejo como um casal.
Estava tentando soar desencanada, a ideia que sugeri não era tão absurda assim, conseguia fazer isso, achava que sim. Ele estava certo as coisas iam ficando intensa demais, o mais estranho é que tínhamos até um futuro juntos, pronto e fotografado.
Á pouco vinha me questionando pensando se o amava e foi inevitável não sentir um frio na barriga quando ele disse que, quase, me amava. O que isso tudo significava? Quanto mais emocional ficava seria mais difícil desapegar. Dean tinha me feito uma promessa, ele estaria lá quando eu precisasse, estaria como amigo.
Quando a muito sentimento envolvido as coisas tendem a sair do controle. Queria sim experimentar o tal do amor, mas, não estava preparada e ele também não. Só de pensar em está apaixonada por Dean era apavorante. Não ia dar certo. Não estava nem um pouco disposta a curar um coração partido. Não tinha forças o suficiente.
_Quer mesmo fazer isso? – perguntou intrigado, sai da minha zona de devaneios e voltei minha atenção para aquele corpo maravilhoso colado ao meu.
_Por que não? – respondi dessa vez com menos confiança e certeza. _O que acha de pular o prólogo e ir direto para o capitulo principal? – perguntei. Dean me avaliou por uns instantes, tinha uma expressão estranha no rosto, algo próximo a pensamentos sendo organizados e decisões sendo tomadas.
_Quer saber, que se dane, é o fim do mundo e eu vou para o inferno mesmo. – disse em resposta no instante seguinte voltou a devorar minha boca.
Separamo-nos para retomar o fôlego. Seus olhos eram esmeraldas em chamas. Íamos por um caminho perigoso, este quando se começa a percorre não tem volta. Agarrei sua nuca beijando seu pescoço assim como ele fazia com o meu. Desci as mãos e abri o fecho de sua calça, passei os dedos na barra da cueca e fui descendo devagar seguindo o aquele caminho da perdição, tentando chegar ao volume que se formou ali. Antes de chegar onde queria Dean pegou minha mão a fez deslizar pelo seu abdômen.
Seguimos desajeitados para a cama. Nossas poucas peças de roupas formou uma trilha pelo quarto. Ele se apoiou em um cotovelo não deixando todo seu peso em cima de mim. Sua língua explorando lugares em minha boca me deixando louca. Suas mãos memorizava cada centímetro do meu corpo. Estava completamente entregue a esse caçador. Estávamos em completo êxtase. Ardendo de tanto desejo.
Era tão bom ver o efeito que eu causava nele, conseguia o fazer me enxergar como uma mulher não como uma garotinha que ele tinha de proteger, isso ficava evidente na forma como me conduzia. O calor na sua pele, o coração batendo rápido e a urgência em me possuir.
Ele se reergueu comigo ainda colada nele. Seu quadril entre minhas pernas. Tufos dos meus cachos em um emaranhado negro em sua mão enquanto ele me beijava de forma intensa. Com um gesto que nem notei meu sutiã foi retirado.
Pescoço, ombros, boca, colo, seios, foram territórios marcado pelos lábios de Dean. Passei a mão pelas suas costas, cintura, quadril e abdômen, mapeando com os dedos seus contornos. Mordi de leve sua orelha, ele grunhiu no meu ouvido e apertou com mais força minha cintura.
_Há muito tempo eu sonhava em ter você exatamente assim, nua no meu colo, poder beijar seu pescoço. – ele agarrou com força meu cabelo arqueando minha cabeça e sugou meu pescoço com os lábios. Toda aquela urgência e brutalidade me fazia o querer ainda mais, e sua voz rouca sussurrando no meu ouvido me deixava acesa.
_Dean... – sussurrei seu nome em um suspiro, deixando o ar escapar em forma da única palavra que conseguia pronunciar naquele momento.
Dean com certeza sabia como deixar uma mulher completamente excitada. Ardendo em chamas.
Voltamos à posição anterior; ele por cima seu quadril entre minhas pernas. Dean passou a mão por toda a extensão do meu corpo, devagar, me torturando, enquanto minha pele estava em brasas, inquieta querendo sempre mais. Deslizou os dedos na renda fina que era minha calcinha a retirando depois se livrando da sua última peça não deixando nenhuma barreira entre meu corpo e o dele.
Ele estava no comando e eu completamente submissa. Tudo nele, cada movimento era experiente. Conduzia-me como um especialista. Um maestro me mostrando onde tocar e quais movimentos fazer para a sinfonia ficar perfeita.
Mãos, dedos, lábios, eram ferramentas de intenso prazer. Cada detalhe onde Dean trabalhava era uma explosão nova. Cada toque me tirava das orbitas. O nervosismo do que estávamos prestes a fazer sucumbindo ao desejo cada vez maior.
Tinha perdido totalmente o controle da situação, arranhava, sugava, beijava, simplesmente não dava para segurar. E ele aproveitava tudo enquanto lhe arrancava gemidos.
Dean se afastou por uns instantes. Ouvir o som do plástico da camisinha estalar nos seus dedos. Num segundo, que pareceu uma eternidade, ele voltou a posicionar seu peso sobre mim. Foi marcando com beijos minha barriga até chegar ao queixo. Seus olhos encontraram os meus, seus lábios selaram os meus, seu corpo se fundiu ao meu.
Quase mordi seu lábio tentando conter o grito que lutava para escapar da minha garganta. Dizem que o amor machuca, o que não disseram era que poderia ser tão literal. Ele entrelaçou sua mão na minha acima das nossas cabeças, apertando forte.
Parou, olhou para mim. Olhou-me nos olhos, o azul dos meus contra o verde escurecido que eram os dele. Puxei seu rosto contra o meu o beijando, relaxando e me livrando do desconforto enquanto ele se movia. Lento e preciso.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!Passava a mão livre pelas suas costas, ombros, braços, sentindo na ponta dos dedos seus músculos saltados e definidos. Enquanto isso ele beijava meu pescoço, sua respiração pesada na minha nuca provocando arrepios, sua barba por fazer arranhando de forma excitante.
_Dean, mais rápido. – pedi entre um gemido, queria experimentar a voltagem máxima.
_Estou machucando você? – perguntou. Respondi puxando seu cabelo encostando os lábios no pé do ouvido.
_Mais rápido. – sussurrei. Ele deu um sorriso travesso voltou a se mover.
Não demorou muito para estarmos em uma sincronia acelerada. Quadril contra quadril. Boca contra boca. Pele contra pele. Exalando gemidos e grunhidos. A respiração pesando. O suor dos nossos corpos se misturando. O coração disparado feito louco. Apertei mais sua mão pressionando os pés na cama sentindo o tecido do lençol entre os dedos, meu corpo se convulsionava e parecia se derreter em espasmos...
Meu corpo era um vulcão em erupção. Um terremoto se apossou dos meus nervos. Fogos de artifícios. Via estrelas. Tinha ido à lua e voltado. Caído em queda livre em direção ao paraíso. Não sabia que um corpo poderia ter uma explosão de sensações tão intensa. Meu coração disparava muito rápido. Dean me encontrara no paraíso, sabia disso quando ele disse meu nome como se fosse sua última palavra, um último suspiro, a última forma de um homem obter prazer na terra.
Meu peito subia e descia com a respiração dificultada. Dean se jogou á meu lado na mesma situação.
_Isso foi... – tentou dizer com a respiração cortando suas palavras.
_Incrível. – completei com a palavra que ele usava com frequência. Um sorriso breve atravessou seu rosto suado.
_Garota você tem algo mágico entre as pernas. – ri ainda com as pernas bambas.
...
Foi necessária uma longa ducha de água fria para conseguir conter a ardência e acalmar a pele que formigava. Os registros de que Dean usou meu corpo sem moderação era clara na minha pele, diversas marcas roxas e vermelhas estavam espalhadas pelo meu corpo, principalmente na clavícula e pescoço.
A experiência foi dolorosa no começo, porém me deixara maravilhada. Meu histórico sexual não era tão completo — para não dizer quase nulo -, não era virgem antes de Dean, mas minhas experiências não tinha surtido um efeito tão bom quando com ele.
Agora entendia o sucesso de Dean com as mulheres. Um pensamento louco e puramente egoísta me veio à cabeça: Se dependesse de mim teria aquele pedaço de mau caminho só para mim.
Depois do banho deixei uma roupa para vestir assim que viesse a manhã para partimos. Mas enquanto tivesse na cama com Dean não precisaria me preocupar com as roupas.
Era reconfortante ouvir os batimentos constantes do coração de Dean, a confirmação de que estava vivo e comigo. A morte se tornara uma constante em minha vida assim como o medo de perdê-lo também. Estava muito envolvia no nosso relacionamento bipolar — se é que podemos chamar de relacionamento — Por mais que tenha lutado, resistido, não podia mais fingir para mim mesma que não me importava que não fosse apegada a sua presença.
Sabia que ele daria um jeito de me manter a salva. Então por que no fundo essa afirmação parecia um tanto precipitada e até mesmo errada?
Com esses pensamentos fui devagarinho escapando para o sono...
...Ela me puxava pelo braço pelos corredores e não respondia as minhas perguntas.
_Doutora Willians, onde estamos indo? — ele voltou a me repreender dizendo que eu deveria fazer silêncio para não acordar os pacientes. Meus pés seguiam dolorosamente pelo contato direto com o chão muito frio. Ela parou bruscamente. Se virou e ajoelhou ficando a minha altura.
_Você tem certeza que ele disse que era a minha vez? — ela já havia perguntado isso antes e eu muito sonolenta confirmei. Na noite anterior ele tinha me visitado mais uma vez.
Ele não aparecia á meses e quando retornou não ficou muito tempo. Disse que eu estava pronta e que quando acordasse seria uma garota diferente e que eu deveria dizer a doutora que estava na hora. Quanto tentei questiona-lo ele desapareceu.
Assim que contei ela parecia vibrar, murmurava algo sobre ser uma honra. Não parecia mais a doutora de meses antes.
Ela acariciou meu rosto e sorriu.
_Eu nem posso acreditar. Tudo bem, criança, vamos logo. — ele voltou a pegar meu pulso e me arrastar pelos corredores. Logo chegamos ao jardim que eu via da sua janela.
Estava frio, vestia apenas as roupas brancas dadas por eles que eram de um tecido nada térmico. Olhei para ela em busca de orientação.
Ela caminhou até uma mesa ao lado de uma roseira. Ali eu via dois cálices. Não cheguei perto o suficiente para ver o que tinha dentro.
_Venha, não tenha medo. — incentivou ela a me aproximar. Estava com medo. O que fazíamos ali no meio da madrugada? Envolvi os braços na minha cintura tentando aplacar o frio que nos envolvia, fazendo uma fumaça de ar sair como nuvens de nossas bocas quando falávamos ou respirávamos.
_Senhora Williams, eu quero voltar para meu quarto. Não podemos ficar aqui. — dei passos a trás, ela se aproximou e tomou posse do meu braço. Não tinha percebido até agora o quanto ela era forte.
_Não pode ir agora, eu prometo que vai acabar logo, logo. — permaneci onde ela tinha me posto. A doutora pegou o primeiro cálice e sussurrou algo para ele. Não entendia nada do que ela falava, era uma lingua estranha. _Tome, beba. — ela me ofereceu o cálice. Recusei.
_Senhora Williams...
_Seja boazinha Isabel, Ele disse que cuidaria de você, não disse? Eu estou cuidado de você enquanto ele estar... Só beba, acredite você vai se sentir bem melhor.
_Mas a senhora disse que ele não era real, que era coisa da minha cabeça, agora parece que a senhora acredita. Parece que o conhece. — a estranheza daquilo era muita para deixar para lá.
_Eu vou conhece-lo e você também, no tempo certo. Confie em mim, nós só estamos querendo ajudar. Agora beba.
_Não. — poderia ser louca, mas alguma coisa me dizia que não deveria mais confiar na doutora Williams. Sua expressão mudou, seu rosto complacente se transformou numa máscara impaciente e fria.
_Beba, olhe, não vai fazer mal. — olhei para o conteúdo dentro do cálice. Parecia água, e era tão brilhante como se tivesse capturado a luz do sol que alguma vez tenha refletido ali. _Beba, ira se sentir melhor.
Eu queria me sentir melhor. Peguei o cálice de sua mão, olhei para ele, ela sussurrou para que eu bebesse e sorriu. Agora o sorriso em seu rosto parecia estranho, não combinava mais com ela.
Levei o objeto aos lábios, deixei que seu liquido fluísse para dentro da minha boca. E eu me sentia melhor. Pela primeira vez. Aquilo era a melhor coisa que já provara.
O sabor era inexplicável, como se fosse possível tomar goles dos primeiros raios de sol. Era morno, terno e deixava paz enquanto escorria pela minha garganta. Solvi até o último gole e depois devolvi o cálice a doutora. Ela sorria satisfeita.
_Viu, não doeu nada. Como está se sentindo?
_Eu me sinto... — podia dar estrelinhas e saltar ao mesmo tempo, me sentia enérgica, não tinha mais frio _Eu me sento ótima — disse ansiosa que ela me desse o que estava no outro cálice.
Ela pegou o outro e repetiu o processo do primeiro. Agora ela falava com mais facilidade, como se conhecesse bem a língua. Latim, esse era latim. Lembrava de ter um professor de historia que sabia falar latim.
Cheguei mais perto e vi que enquanto ela falava o liquido girava e da superfície era como se pequenos espinhos tentasse escapar. Era diferente. Este era diferente do outro. Era escuro e mais espesso. Não brilhava e nem parecia bom. Era como sangue.
Ela me ofereceu. A encarei desconfiada.
_Beba este também. — disse empurrando o cálice para mim.
_Esse é como o outro? — perguntei pegando da mão dela e examinando o conteúdo. A familiaridade com sangue não se limitava só ao aspecto, tinha o cheiro pungente e ferroso.
_Este é diferente. Vai, beba.
Hesitei um pouco e depois levei a boca na esperança de encontrar a paz de novo.
Isso não aconteceu. O que senti foi o mais terrível dos sentimentos. Tinha gosto de sangue e tragédia. Era tão doloroso deixar que aquilo me invadisse. Era angustiante, tão amargo. Como o gosto de mil infernos.
Caí de joelhos tentando desesperadamente expelir aquilo. Tossia e cuspia, me contorcendo de dor enquanto aquilo me invadia. A doutora se junto a mim. Ela passou a mão sobre meus ombros e sussurrou em meu ouvido.
Ela derramou em meu ouvidos palavras em latim e depois na outra língua indecifrável. A cada palavra, uma onda de dor me percorria, queimava. Quando gritei ela lacrou minha boca com a mão abafando o grito.
E eu queimava e chorava. Era insuportável. Miserável. Angustiante.
Enquanto eu me contorcia em espasmos ela continuava recitando, aumentando o volume a cada palavra.
O céu em nossas cabeças pareceu reagir. As nuvens rodopiaram em uma massa cinzenta. O vento nos envolvia com fúria. Folhas secas e poeira rodopiaram ao nosso redor.
Ela gritou as últimas palavras aos céus. Como resposta um único raio incitou através das nuvens. Não acreditaria, mas poderia jurar que vinha em nossa direção. Estava certa.
A carga foi o suficiente para afastar a doutora de mim com brutalidade e depois me envolver com a mesma fúria.
Meu corpo foi arremessado na direção oposta. Cada terminação nervosa envolta a uma energia dolorosa. Mas eu estava viva. Como? Os eventos a minha volta sossegaram e aos poucos terminaram, como se nada tivesse acontecido. Como se nada tivesse acontecido a mim.
Levantei e corri em direção a doutora. Parei quando vi o que tinha restado dela.
Seu corpo parecia parcialmente queimado. Seu rosto não existia mais como antes. Dos olhos inexistentes linhas de fumaça escapavam. O rosto estava enegrecido e ela mortalmente imóvel.
Não sei a que ponto eu comecei a berrar e o caos começou outra vez a minha volta. Pessoas corriam a minha volta. Todas vestiam branco como eu, que coincidência...
Braços me tiraram do lugar, minha garganta não aguentava mais meus gritos e meu corpo cedia aos braços que me envolviam. Senti uma picada no braço e...
Acordei agitada no meio da madrugada. Aconteceu de novo.
Estava incrivelmente gelada, como se tivesse sido coberta por uma camada de neve. O cabelo grudado à testa e nuca, úmidos pelo suor frio. Olhei para o lado e Dean se encontrava imóvel, dormindo. Joguei as cobertas de lado, usava apenas lingerie, vesti a primeira coisa que vi pelo chão: a camisa de Dean.
Saí meio cambaleando pelo corredor, minha garganta seca e o coração disparado. Chegando à cozinha enchi na torneira um copo grande de água. Tive dificuldade, minha mão tremia muito, meu corpo como gelatina, tremendo no frio que parecia estar estalado por debaixo da minha pele.
Bebi goles grandes até chegar à metade do copo, a água descia direto e não fazia efeito nenhum na minha garganta seca. Apoiei-me com a mão livre e enfaixada a beirada da pia me equilibrando para não desabar com o choque de uma sensação estranha e repentina no peito, algo se comprimindo e apertando. Levei a mão ao coração sentindo os batimentos martelando, acelerado contra os pulmões.
Virei devagar.
Meu coração disparou como um trem descarreirado, brusco, cruel e sem freio. Não senti o copo deslizar da minha mão e aterrissar no chão se partindo em mil estilhaços a meus pés. Á água fria entrando em contado com minha pele congelada, os cacos de vidro não surtindo nenhum efeito onde ricocheteou na pele exposta.
Estava paralisada. Tinha perdido totalmente a noção de que um dia aprendi a me movimentar. Esqueci como falar. Esqueci com respirar. Esqueci como raciocinar.
Queria correr, mas meus pés estavam ficados no chão me obrigando a ficar e encarar o homem que me fitava com curiosidade.
_Que-Quem é você? – gaguejei encontrando, não sei como, as palavras que me fugiram. Antes mesmo da minha pergunta ser respondida meu cérebro me avisava que eu já sabia a resposta. Sabia não por reconhecer aquele rosto, sabia por que deveria saber.
Deveria saber o nome da criatura. Do arcanjo que tomaria minha vida.
_Lúcifer. – deixei escapar num sussurro sufocado.
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