Broken Girl
6 Capítulo seis: Velhos Amigos
Notas iniciais
Os gritos do demônio era uma mistura bizarra de agonia disfarçada em gargalhadas. O sal misturado à água benta formava uma espessa espuma rosada que lhe escorria da boca e queixo.
_Responde a minha pergunta. Por que estão atrás dela? – Dean perguntou cortando a carne do demônio com a faca. O corte se acendeu com um chiado, o demônio resistiu. Dean foi até a mesa de “matérias” onde estavam disponíveis: facas, um galão com água benta, sal, e mais alguns objetos de tortura. Mergulhou água benta na faca e em seguida jogou o sal lâmina.
_Eu não sei, só fazemos o que nos mandam. – balbuciou o demônio com a voz esganiçada. Dean suspirou.
Aquele era o segundo que capturamos em busca de respostas, o primeiro não sabia o verdadeiro motivo de estarem atrás de nós, ou melhor, de mim. Dean era a casca de Miguel o que o colocava no topo da lista de procurados no inferno. Mas a mim não tinha sentido tanto esforço. Esperávamos pelas descobertas de Castiel que com certeza não seria nada animadoras.
Fomos atacados por dois demônios na semana seguinte em que saímos do Colorado. Dean agiu rápido e conseguiu matá-los com facilidades e sem fazer bagunça. Esse pequeno imprevisto resultou em um corte feio na minha coxa, que agora pinicava e coçava embaixo dos jeans.
_Vamos, me diz um nome! – vociferou Dean impaciente fazendo um novo corte dessa vez mais fundo no peito desnudo do demônio, este berrou para que Dean parasse, repetindo a frase anterior.
As frestas do telhado velho do galpão abandonado deixavam listras iluminando partes do rosto do demônio. No ambiente escuro era possível ver as partículas de poeira do ar nas pequenas faixas de luz do sol que escapava do telhado.
_Dean. – Castiel apareceu, já tinha me acostumado a sua aparição repentina então não me assustava mais como antes.
_Então? – Dean foi logo perguntando. Seu bom humor tinha evaporado durante nossos dias difíceis.
_Vocês precisam sair daqui, tem mais demônios vindo. – disse Castiel em tom de alerta. Mais cedo Dean tinha ligado para ele e pedido sua ajuda, ele seria nosso vigia avisaria se estivesse alguma coisa vindo.
_Espera um minuto, por que agora? Como eles descobriram nosso paradeiro? – perguntou Dean. Castiel olhou de relance para mim, um olhar significativo. Senti um arrepio, Dean não percebeu, tentei dar de ombros e ignorar a vontade de perguntar a ele o que aquilo significava.
_Posso? – perguntou Cass se dirigindo ao demônio amarrado na cadeira no centro da enorme armadilha do diabo pintada no chão.
_Vai em frente anjinho. Todos vocês vão queimar no ifer... – Castiel pousou sua mão no topo da cabeça do demônio, sua boca e olhos foram preenchidos por uma luz branca intensa acompanhada de um grito agonizante. A luz apagou e Castiel se voltou para nós. Era estranho vê aquilo e não pensar em como meu pai morreu. Não culpava Castiel por aquilo, ele salvou minha vida.
_Vocês precisam ir agora, evitem a rodovia oito. – ficamos olhando para Cass com uma expressão interrogativa. _Vão! – finalmente nos mexemos, corremos para o carro.
Dando a partida saímos derrapando estrada afora. Que ótimo jeito de comemorar meu aniversário.
... — ...
Castiel observou enquanto o Impala se afastava. Ele sentiu sua presença, mas permaneceu onde estava vendo o carro sumir de vista.
_Não esperava encontra-la tão cedo. – ele continuou de costas quando falou.
_Você deve saber o motivo de eu está aqui. – disse ela. Castiel se virou.
_Como escapou?
_Não escapei. Graças a você eu tenho uma coleira no meu pescoço. – Castiel sentiu a culpa por ter entregado Anna, mas o sentimento não foi necessário para que ele confiasse no anjo a sua frente.
_Não vou entregá-la. – Castiel sabia o que viria a seguir.
_Você sabe a verdade. Ela não pode viver. – as palavras de Anna faziam eco no galpão vazio. E faziam eco também em Castiel. Ele tinha que tomar uma posição, ele acreditava que talvez não precisasse ser assim.
_Não podem ter tanta certeza.
_Você vê os sinais Castiel, você sabe que tem alguma coisa errada. – Anna se aproximou do outro anjo. Castiel já tinha em mão a adaga dos anjos. Anna recuou. _Ele conseguiu. Lúcifer conseguiu e não temos mais nosso pai para limpar a bagunça dessa vez.
_Eu vou encontra-lo e ele decidirá o que fazer. – respondeu o anjo com convicção. Anna balançou a cabeça.
_Não seja tolo meu irmão. Venha comigo. Isso é errado, Castiel. Não pode protegê-la. Ainda há tempo, se me ajudar eles talvez o aceitem você de volta. – Anna se arriscou a colocar a mão sobre o ombro de Castiel, ela tinha os olhos na arma que o anjo carregava. _Não precisa disso. Eu perdoou você por ter me entregado. Só quero que me ajude, Castiel. Você sabe o que precisa ser feito. Você pode impedir que algo muito ruim aconteça.
Castiel ponderou. Ele sabia a coisa certa a se fazer.
... — ...
Portland – Maine
Após deixar as malas no hotel fomos para o bar. Precisávamos de um tempo para relaxar um pouco.
_A loira ou a morena? – perguntei com certa rispidez na voz, não pretendia soar assim, Dean percebeu, olhou para mim desconfiado. Tinha o surpreendido olhando para duas mulheres que estavam o fitando desde que chegamos. Lutava contra a vontade de lhe atirar a garrafa de cerveja na cabeça por ter esquecido meu aniversário e por retribuir os olhares. Dean abriu a boca para dizer algo, mas uma voz feminina foi mais rápida.
_Dean? – disse a voz vinda de trás de mim. Dean parecia surpreso, virei e olhei para trás. A dona da voz era uma mulata com cachos castanhos invejáveis, era bonita. Usava uma camisa social branca, com botões demais desabotoados para meu gosto e uma calça também social cinza, nos braços vinha equilibrando uns cadernos e um terninho cinza.
_Cassie. – disse Dean abrindo um sorriso.
_Dean. – a mulher também abriu um sorriso, os dois pareciam ter esquecido as outras palavras. Após um momento desconfortável, Dean se levantou e abraçou a mulher carinhosamente depois indicou para mim e fez as apresentações, dizendo que Cassie era uma velha amiga e que a tinha salvado há um tempo. A mulher me cumprimentou com um sorriso, sorri de volta tentando ao máximo não mostrar minha antipatia. Meu humor não estava nada receptivo para as “velhas amigas” de Dean.
_E seu irmão, Sam? – perguntou Cassie, os dois ainda de pé.
_Ele não está mais comigo. – respondeu Dean meio sombrio, o rosto da mulher se entristeceu, Dean se apressou para se explicar.
_Quero dizer que ele não está mais caçando comigo, até onde eu sei está melhor que eu. – a mulher pareceu mais aliviada. _Vou pegar uma cadeira para você sentar com a gente. – disse Dean e depois olhou para mim esperando que eu dissesse algo. Desmontei a cara de paisagem e forcei um sorriso.
_É claro, senta com a gente. – estava tentando ser o mais gentil possível. A mulher balançou a cabeça.
_Não precisa, não quero atrapalhar vocês. – recusou. Não me preocupei em insistir, Dean por outro lado.
_Não vai atrapalhar em nada, não é? – Dean olhou para mim o mesmo olhar de antes.
_Não é claro que não. – é claro que vai, não quero passar meu aniversário ouvindo as aventuras do seu antigo casinho.
_Que isso, não se incomode por minha causa, eu só vim buscar uma cerveja. – disse a mulher a Dean.
_Na verdade você pode ficar eu já estava de saída, estou com uma dor de cabeça terrível. – disse colocando a mão na testa para dar ênfase a minha mentira. Dean não pareceu preocupado. Levantei.
_Tem certeza? – perguntou ele.
_Tenho. – não.
_Quer que eu leve você?
_Não precisa, eu sei o caminho. – quero que fique comigo seu idiota. Ficou um silêncio e uma atmosfera desconfortável entre nós, me precipitei para não pesar o clima. _Foi um prazer conhece-la Cassie. – a cumprimentei novamente.
_Igualmente. – respondeu ela num tom de voz profissional. Sorri para Dean e saí em passos largos em direção à saída, não lhe dei a satisfação de olhar para trás. Uma mão agarrou meu braço antes que alcançasse a maçaneta. Dean.
_Você sabe que não precisa ir. – disse ele. Tentei não demonstrar minha irritação.
_Ficar ouvindo como seu desempenho na cama é maravilhoso não é a definição de noite agradável que eu esperava ter. Volta para a mesa Dean, você e sua velha amiga deve ter muito que conversar. Só tenha a decência de escolher outro hotel. – a tentativa de esconder minha irritação foi um fracasso.
Ele pareceu atingido, isso me deu uma pontinha de satisfação.
_É serio Dean, não se preocupe. – acrescentei num tom mais brando.
_O que está acontecendo com você, por que esse mau humor todo? – perguntou ele com o cenho franzido.
_Não é nada, é só a minha dor de cabeça. – respondi mais calma.
Queria gritar tudo que estava entalado na minha garganta, mas me controlei, não era uma boa iniciar uma briga no meio de um bar.
_Espera ai, deixa eu pelo menos te levar de volta. – disse ele se virando para ir para mesa, me coloquei a sua frente.
_Já disse que não precisa, eu estou bem, vou ficar bem. – não, não vou ficar bem, tudo o que menos quero é passar meu aniversário sozinha trancada num quarto de hotel frio.
_Não é uma boa ideia te deixar sozinha. – agora você está preocupado.
_Dean, eu sei usar uma arma, posso colocar até linhas de sal na porta e nas janelas, relaxa. – tentei tranquiliza-lo, por mais que quisesse sua companhia não iria nunca pedir que ficasse comigo.
_Ainda acho que não é uma boa ideia deixar você sair por ai sozinha e á noite. – disse contrariado. Ele sorriu e acenou com a cabeça para além de mim.
_Não tenho medo do escuro. – tentei um sorriso encorajado, não sei se deu certo, ele sorriu de volta.
_Tem certeza?
_Vai Dean, não deixe sua “velha amiga” esperando. – fiz as aspas com os dedos e dei uma piscadela, um sinal que comprovava que não me importava, estava apenas passando por cima do aperto no peito. Ele sorriu e se curvou beijando o topo da minha cabeça me entregou meio escondido à faca que mata demônios e depois voltou para sua mesa.
O hotel ficava a um quarteirão do bar, no meio do caminho senti o vento frio passando pelo tecido do meu suéter de lã fina atingindo minha pele como pequenas agulhas. O tempo não estava nada bom, pelo contrario, uma chuva fina começava a cair. O cheiro da maresia do mar a minha direita era forte e agradável. Fechei os olhos momentaneamente tentando não deixar escapa as lágrimas que insistiam em se liberar.
Quando cheguei à recepção fuleira do hotel subi os degraus de dois em dois tentando chegar o mais rápido ao quarto.
Encostei-me à porta do quarto e soltei o nó que estava na minha garganta. As lágrimas estúpidas rolaram pelo meu rosto, não me incomodei em enxuga-las. Era lágrimas de cansaço, frustração e raiva, algo que vinha segurando há semanas, como se de alguma forma a última de Dean tenha sido a gota d’água.
Peguei uma garrafa de água no frigobar, me atrapalhei para abrir, estava tremendo e soluçando, coloquei a garrafa de volta a seu lugar. Precisava parar, estava perdendo o controle. Respirei fundo e fui até o banheiro, lavei o rosto e tentei sorrir, gargalhei para meu reflexo, não fazia sentido chorar por algo tão bobo. As lágrimas ainda escorriam mesmo que não fosse possível vê-las por causa do rosto molhado, a risada se transformou em soluços.
O que eu temia estava acontecendo. O sentimento por Dean vinha se enraizando e se fortalecendo. Estava ficando tão assustada, tudo tinha fugido do meu controle.
Respirei fundo algumas vezes até fazer as lágrimas cessarem. Como eu sentia a falta da minha mãe, do seu abraço apertado e suas palavras de conforto.
À noite em que quase me entreguei completamente a Dean não foi mencionada. Aceitamos a desculpa de que foi a bebida e ignoramos qualquer constrangimento ou desconforto, seguimos como se nada tivesse acontecido, o problema era que minha mente não era tão fácil de si deixar ser subornada por uma desculpa esfarrapada. É claro que a bebida ajudou, mas eram nossos sentimentos e desejos despertados pelo álcool.
O que tornava a situação mais complicada era significância daquilo para Dean, provavelmente ele só me viu naquela noite, com um vestido indecente e um pouco de maquiagem, como uma oportunidade de conseguir sexo.
Joguei-me na cama e fitei o teto, fiquei criando desenhos abstratos com as manchas e rachaduras ouvindo a trilha sonora dos grilos na vegetação crescida lá fora até a vontade de sumir e de desidratar de tanto chorar sumir de uma vez por todas. Minha mente estava uma bagunça, era só uma questão de tempo até enlouquecer de vez.
As horas se arrastaram, meu aniversário estava perto de ser oficialmente acabado. Começara a chover, á agua batia com violência na vidraça da janela, trovejava e relampeava, me perguntei onde estaria Dean.
Minhas pálpebras começaram a pesa, saí da cama me arrastando para o banho. Quando terminei coloquei meu costumeiro shortinho de listras vermelhas e uma camiseta branca de algodão. Meu ferimento na perna ardia como nunca, ainda estava bem sensível e vermelho.
Antes de refazer meu curativo e ir finalmente para cama ouvir o celular vibrar na mesinha, o paguei vendo que tinha umas centenas de chamadas perdidas de Adam. Ele não parava de ligar desde que sair de Greeley. Eu sabia que deveria trocar o chip — como Dean insistia em dizer — só que não conseguia me desapegar. O empenho de Adam em sempre ligar só mostrava que ele ainda se importava. Alguém ainda se importava comigo.
Num ímpeto inconsequente eu atendi o telefone e esperei. Adam do outro lado da linha também parecia surpreso com meu ato, pois durante alguns segundos a linha ficou muda.
_Isabel? É você? – sua voz vinha carregada de preocupação, já eu estava preste a ter outro acesso de emoções.
_Adam. – disse chorosa.
_Graças a Deus. Isabel, eu tenho ligado... a sua casa... onde você estar? Você está bem? – engoli em seco o choro.
_Me desculpe, eu não posso contar. Adam, eu estou bem. Não se preocupe. – como previa era demais para mim aquilo. Foi um erro estúpido acreditar que poderia fazer isso. Era perigoso demais. Não suportaria se alguma coisa acontecesse...
_Estou ficando assustado. Isabel, você sabe que pode confiar em mim, me diga onde você estar e eu posso ajudar...– Afastei o telefone do ouvido, toda minha atenção foi voltada para as luzes do corredor piscando vista da fresta debaixo da porta. Aproximei-me cautelosa, ouvi três batidas à porta. _... Isabel, por favor...– dizia Adam.
_Adam me escuta, você não vai mais poder ligar para esse número. Eu não posso explicar agora. Só... Por favor se cuide. E preste atenção, se algum estranho perguntar por mim você não me conhece. Eu estou bem e quero que você fique bem. Eu quero... Adam, eu amo você. – Sentia-me mortalmente culpada, queria ter tempo para poder dizer o quanto sentia sua volta, mas tempo era agora um privilegio longe de ser alcançado.
Olhei pelo olho magico da porta. Um homem alto vestindo uma jaqueta preta de couro recomeçou a bater.
_Serviço de quarto. – sua voz era calma e monótona contrapondo com as linhas duras do seu rosto e olhos completamente negros. Meu coração disparou. Não tinha feito às linhas de sal que havia dito que faria e agora era tarde demais.
_Só um minuto. – gritei tentando desesperadamente pensar em algo. O que tinha era: Uma pistola sem as balas de sal, a faca que mata demônios, um punhado de sal e um cantil cheio pela metade com água benta. O resto estava no carro, o que tinha a meu alcance não era nem de longe o suficiente.
Assustei-me quando um trovão soou acima. Olhei para trás e vi a janela. Algo insano me ocorreu. As batidas se tornaram mais fortes. Coloquei os coturnos – desejando ter escolhido roupas mais quentes para dormir – vesti a jaqueta às pressas e peguei a faca, corri até a janela. Abri o trinco e uma lufada de ar frio carregado de água da chuva varreu meu rosto. As batidas foram ficando mais insistente. Olhei para baixo e o que vi foi só mato, o quarto ficava no segundo andar, não era tão alto, mas uma queda mal calculada poderia ser fatal.
Sentei no batente molhado da janela e coloquei uma a uma as penas para o lado de fora, ajeitei a faca na boca de modo que não machucasse, me estiquei até meus pés encontraram a saliência que o prédio oferecia. Olhei para o lado e tracei meu destino; uma sacada a duas janelas à frente. Ouvi entre o barulho de chuva e trovões os murros dados na porta, antes de me movimentar tive um vislumbre do demônio arrancando-a das dobradiças.
... — ...
Dean conseguiu relaxar das tensões dos dias passados na companhia de Cassie, ela veio para o Maine a trabalho. Apesar do bom papo ele não parava de pensar em Isabel, notou que ela tinha ficado chateada com algo. O que seria? Ele não tinha feito nada de errado. TPM Provavelmente, pensou.
_Vou ao banheiro. – disse Cassie se levantando.
Pela primeira vez Dean percebeu que o movimento estava fraco, apenas os funcionários e um casal estavam no bar. Ele se enrijeceu, tinha algo errado. Um berro o trouxe de volta dos seus pensamentos. Levantou-se depressa atento, a porta do banheiro feminino se abriu. Cassie saiu de lá com um braço forte enlaçado no seu pescoço, sua expressão era de puro pânico, as lágrimas escorriam de seus olhos. O homem que a segurava era um demônio, suas intenções não eram nada boas com a moça. O demônio sorriu quando viu a expressão de temor no rosto de Dean.
Olhando em volta Dean viu que todos os presentes eram demônios. Como ele podia ter cometido um deslize como aquele?, pensou se condenando. Cassie chorava e gemia baixinho. Dean pensou com calma no seu próximo passo. O que realmente o deixou nervoso era Isabel. Se sabiam que ele estava ali também sabiam que Isabel estava sozinha no hotel. Pensando nisso ele foi tomado pelo pavor. Poderia ser tarde demais.
_Olhe para ele amor, olhe o último rosto que verá. Quando estiver no inferno pense que ele não te salvou, é por causa dele que estou fazendo isso. – o demônio disse forçando Cassie a olhar para Dean. Cassie não teve tempo de pensar em Dean nem em tudo que tinha feito o que tinha conquistado e o que iria conquistar. As lembranças, os sentimentos, tudo tinha sido apagado, quebrado com um só movimento. Partido como seu pescoço.
Dean não teve reação ficou olhando entorpecido o corpo de Cassie ser jogado para o lado como se fosse um saco de lixo ou algo de que alguém queira se livrar. Estava assustado com brutalidade. Mais uma vitima acrescentada a pilha de coisas que pesavam na sua consciência.
A porta do bar foi aberta, uma mulher entrou, piscou os olhos exibindo a cor negra que os coloria, sorriu a ver a cena: Dean parado como um pateta no meio do bar, um corpo morto no chão e seus irmãos cobiçando um pedaço da carne do caçador. Apesar da atração pelo humano também gostaria de participar do show que seria quando chegasse a hora de Dean, mas não era esse o trabalho que lhes foi dado. Ainda não.
_Dean, sentiu minha falta? – falou ela caminhando até ele, o som do salto de sua bota batendo no assoalho ecoou pelo bar silencioso.
_Meg! É sempre um prazer revê-la. – isso não é nada bom, pensou ele.
Ninguém podia imaginar o quanto se arrependia de ter deixado Isabel sozinha. Seria aquele o fim da linha? Meg parou bem diante dele e passou de leve os dedos no peito de Dean sobre a camisa. A predadora brincando com sua caça.
_Também é um prazer revê-lo. – um sorriso malicioso se formou em seus lábios.
_Que tal pularmos as preliminares e ir direto ao ponto. – disse Dean tentando ao máximo não parecer nervoso com o rumo que aquela conversa ia dar. Meg sorriu mais uma vez.
_Você tem razão, à vida é muito curta para preliminares. – ela piscou para ele que tentou resistir à vontade de acerta um soco naquele rosto.
_O que você quer? – perguntou Dean já sabendo a resposta, estava tentando ganhar tempo para um plano de fuga que nem existia.
_Você sabe o que eu quero, ops, o que eu tenho. Enquanto estamos aqui batendo um papo sua princesinha estar muito, muito longe. – Meg foi até o bar e se serviu de uísque. Dean observou seus oponentes, eram oito incluindo Meg, garçons, bartenders, o cozinheiro e o casal, todos possuídos. Perguntou-se onde estariam as outras pessoas.
Isabel era uma garota esperta, teria conseguido escapar, estaria salva, ela tinha a faca poderia se defender. Essas afirmações se obrigavam a parecer convincentes na mente de Dean. Mas bem lá no fundo ele estava desesperado, a pouco não teria perdido a cabeça e tentado sair correndo porta afora na esperança de conseguir alcança-la. Um esforço inútil, não conseguiria correr nem um metro seu lado racional dizia.
_Se é assim que termina não vejo mais o porquê de tanto mistério, diz aí o que vocês querem com ela? – perguntou Dean. Meg deu um gole na sua bebida, deixou o copo, impulsionou o corpo sentando na bancada cruzando as pernas despreocupadamente.
_Curiosidade matou o gato. – respondeu ela. Dean riu com a confirmação que acabara de ter do que desconfiava há meses.
_Vocês não sabem, não fazem parte do alto escalão, são apenas empregadinhos que fazem o trabalho sujo. Filhinhos obedientes que fazem tudo o que papai manda para ter o mínimo de reconhecimento. Novidades crianças ele não dá a mínima para vocês... – Dean viu a movimentação no canto do bar, antes mesmo de tentar reagir foi atingido.
Seu corpo foi arremessado contra a parede e caiu em uma mesa que se espatifou com seu peso. Ele sentiu a dor na lateral do corpo causada pelo impacto que teve contra a estrutura solida. Cacos de vidro de uma garrafa de cerveja espetava sua perna, a cabeça doía. Por um momento ficou zonzo, pensou se iria desmaiar. Virou o corpo de modo que ficasse de barriga para cima, respirou com dificuldade sem se preocupar em levantar depressa, passou a mão no rosto que voltou manchada se sangue.
Ainda meio grogue tentando manter os sentidos ligados ouviu o som do salto no assoalho. Meg se ajoelhou colocando os joelhos na lateral do quadril de Dean. Ela se inclinou e sussurrou em seu ouvido:
_Olha só, o gato perdeu a língua.
_Vadia. – respondeu Dean entre um grunhido de dor. Meg sorriu erguendo o corpo.
_Nossa, você sabe mesmo como excitar uma garota. – sussurrou. Meg se pôs de pé sorrindo maliciosa.
Dean ficou sentando e viu tudo girar por uns segundo. Quando tudo voltou a estado normal ele levantou devagar e procurou entre os demônios seu agressor. Nem precisou olhar muito, uma mulher veio a toda em sua direção. Fui atingido por uma mulher?Se ela queria briga poderia vir que ele estaria preparado, ou não.
_Já chega! – disse Meg censurando a garota que parou bruscamente no meio do caminho e se voltou contra ela com olhar feroz.
_O quê? Deixa eu acabar com esse lixo. – disse a Meg, soou mais como uma afirmação do que um pedido de permissão.
_Me sinto ofendido. – murmurou Dean baixo, mas alto o suficiente para ser ouvido. A garota possuída se voltou para ele. Meg deu alguns passos a frente.
_Você sabe o que Ele vai fazer com sua namoradinha? – perguntou Meg, uma pergunta retórica, mas ela fez uma pausa como se esperasse Dean responder. Lançando um olhar de aviso a garota ao seu lado abaixou a guarda e voltou bufando para o canto do bar. _Ele vai comer ela viva, cada pedacinho, e você não vai poder fazer nada, você Dean, não vai querer fazer nada quando descobrir que sua princesinha é mais parecida comigo do que imagina. Assim como seu irmãozinho ela já está condenada ao nosso lado.
Dean absorveu o impacto daquelas palavras, tinha perdido as perguntas. Tinha medo das respostas.
... — ...
Movia-me o mais rápido que podia, em segundos vi o rosto sorridente do demônio aparecendo na janela, ele não se preocupou com o que eu tentava fazer. Seu rosto sumiu, parei um minuto pensando no que ele pretendia fazer. Continuei tomando todo o cuidado para não escorregar. Cheguei à primeira janela, me segurando com mais segurança coloquei a faca no bolso da jaqueta. Dei mais uns passos, e depois outro, e outro, meu pé escorregou, por muito pouco não caio. Recuperada do susto voltei a me movimentar, era uma curta distância até a sacada, só mais um pouquinho...
Meu corpo fez um voou antes de eu sentir minhas costas bater no solo. A vegetação serviu como amortecedor. Fiquei parada tentando entender como fui parar ali, o medo de ter quebrado algum membro contribuía para minha imobilidade.
Respirei algumas vezes enquanto encarava o céu escuro. A chuva batia nos meus olhos o forçando a se fechar. Alguma coisa vinha. Preenchida pela adrenalina me mexi, minhas costas reclamou dolorida. Virei ficando de joelhos, tinha a impressão que se levantasse seria vista ou poderia desmaiar com a tontura. Meu perseguidor vinha mais rápido, não conseguia ver, só ouvia as passadas na terra enlameada e no mato encharcado.
Engatinhei desesperada, minhas mãos e joelhos escorregavam muito, mal conseguia me equilibrar. Tudo o que via era mato e o que ouvia era o ruído do mar na tempestade.
Ele chegava perto, tão perto que podia sentir sua sombra ser projetada atrás de mim. Escorreguei, ou melhor, fui puxada pelo tornozelo, meu rosto caiu na lama, perdi totalmente o controle do meu corpo. Tentei me agarra nas plantas que escapavam com facilidade da minha mão.
Virei de modo que visse meu agressor, minha visão estava limitada por meu cabelo que cobria boa parte do meu rosto. Senti uma ponta afiada na minha costela. A faca. O objeto que poderia ser minha salvação.
O demônio se ajoelhou prendendo minhas pernas entre seus joelhos, minhas mãos estavam livres, tateei o bolso da jaqueta encontrando a faca. Assim que ele se distraiu fiz um corte que atravessou seu rosto, ele berrou colocando a mão no olho esquerdo, seu rosto piscando com luzes laranja, dei uma joelhada entre suas pernas, não sei se ele sentiu, mas isso me deu uma chance de levantar e correr aos tropeços.
Não fazia ideia do quão grande era o terreno atrás do hotel, tinha escorregado muitas vezes tornado a fuga lenta. Não era possível ver muito do caminho, não contava nem com a luz da lua. Os clarões dos relâmpagos proporcionavam umas poucas visões, infelizmente só via mato, e quanto mais corria a vegetação crescia a minha volta.
Meu coração estava preste a sair pela boca, estava no caminho errado, tinha que volta, ir em direção à cidade...
Alguma coisa pulou em cima de mim. Eu caia, escorregando sobre uma coisa solida, segurei com força a faca na mão, mais um relâmpago, o demônio desfigurado caia junto comigo.
Senti um tapete fofo me amparar. Areia. Uma enxurrada de água extremamente fria me derrubou quando tentei levantar. Com muito custo conseguir erguer o corpo. Olhei em volta. O mar furioso me assustava.
Quando pensei em correr, fui ao chão novamente, era o demônio outra vez. Ele me agarrava por trás, com violência me virou. Seu rosto uma mascara medonha. Seu olho esquerdo semicerrado, o corte aberto ia até a base dos seus lábios superior.
Tinha alguma coisa a mais, ele estava lento, sua pele emitia um chiador, ele grunhia. O sal. É claro, a água do mar o feria. Tentei acerta-lo mais uma vez. Não consegui. Com um tapa a faca foi para longe. O desespero tomou conta de mim, não podia perder para o mar aquela faca, bastava uma onda mais forte para que ela desaparecesse para sempre na imensidão do oceano.
Gritei lutando contra o demônio, tentando desesperadamente alcançar faca. Estava muito escuro para discernir nossos movimentos, estava presa não sabia como, meus braços se agitavam, espalhando areia para tudo quanto é lado, minhas pernas permaneciam presas, era como nadar no concreto. Mais umas braçadas e nada, um trovejo soou seguido de um relâmpago que iluminou o metal da lâmina enterrada na areia. Quase lá. Minha boca se enchia de areia salgada, não me importava tinha que pegar aquela faca.
Retrocedi um pouco me afastando da faca. Uma onda jogou o equivalente a um balde de água fria em mim. Não, por favor, não. Dean vai me matar.
O pânico me paralisou. Onde está a faca? Cadê a droga dessa faca?
Quase desmaiei de tanta felicidade quando vi o brilho prateado da bendita faca. Sair da minha paralisia e me pôs a mexer. Com movimentos frenéticos conseguir me soltar, engatinhei e de novo fui puxada para trás, não tinha a que me agarrar a não ser os grãos da praia.
Enchi a mão de areia e virei. Esfreguei no rosto do demônio a mão com os grãos, ele berrou soltando minhas pernas. Lancei-me para frente, tentei levantar, caí, engatinhei, o alívio me dominando quando coloquei os dedos no cabo da faca. Esse alívio foi embora com a mesma rapidez que chegou quando perdi o contato com o objeto. Algo frio e brusco me tomou arrastando meu corpo para longe.
Estava me afogando me debatendo na água que invadia minha boca, queria gritar, mas não conseguir. Meu corpo afundava como se pesasse toneladas, a água congelando meus ossos tonando reais meu medo da morte. Não via nada além de escuridão.
Água. Muita água me cercava. Agitei meus braços e pernas tentando nadar, mas uma força maior me puxava para baixo. E eu devagar perdia a noção do que estava acontecendo.
Senti algo se agarrar a minha cintura me levando para superfície. Ar, eu precisava de ar, tão perto.
Respirei o oxigênio com tanta ganancia que engasguei, cuspindo a água de volta ao mar. Estava sendo carregada para fora da água. Uma ponta afiada cortou minha mão. Agarrei-me aquilo antes que fugisse de novo, sem poder acreditar na sorte, não me importava com a lâmina cortando minha pele. A faca voltou a seu lugar de origem.
O demônio não tinha o menor cuidado comigo, me jogou de volta a areia com violência, meu corpo girou algumas vezes até parar, apertei a faca na mão para ter certeza que não deixaria escapar novamente. Estava fraca, tossi com vontade expulsando a água salgada do meu organismo. Ele gritava enquanto sua pele parecia queimar.
Tinha sido salva pelo demônio. Preparei-me para mata-lo.
Fiquei quieta deitada com os olhos fechados. Ele se aproximava, com a mão girou meu corpo, sacudiu algumas vezes, quando não viu nenhuma reação minha xingou um palavrão em alto e bom som. O cheiro metálico e forte de sangue de demônio indicou que seu rosto estava próximo do meu, prendi a respiração, abri os olhos, seu ouvido no meu nariz, não tinha tempo a perder quando ele se reergueu cravei a faca no seu pescoço.
Não houve grito, seus curtos circuitos internos não duraram muito tempo, o liquido viscoso do sangue misturado à água pingou na minha boca. Afastei seu corpo de cima do meu e cuspi passando as costas da mão na boca tentando dar fim aquele gosto horrível do sangue misturado à água do mar da boca. Cuspi algumas vezes, tossi, e respirei, aproveitando cada partícula de oxigênio.
Sentada na areia deixei a água da chuva me lavar. Precisava sair dali, estava congelando e com medo. Tinha de encontrar Dean. Esse era meu próximo passo.
...
Fiquei nas sombras, para não chamar a atenção por sorte era tarde da noite e a tempestade impedia as pessoas de saírem.
A metade do caminho percorri pela orla da praia, depois escalei as pedras escorregadias, atravessei a rua e fiquei a espreita do bar onde Dean estava.
A placa de fechado era visível. Colei o ouvido na porta. Não ouvia muita coisa, o barulho da chuva incessante não ajudava. Aguçando mais a audição, ouvir uma voz feminina. Ela dizia algo sobre comer viva e condenação a algum lado, depois uma voz grossa vociferando ameaças. Dean. Meu coração se apertou. Ele estava em perigo.
Fui para os fundos do bar desviando do lixo do bar e tentando não ficar histérica com os ratos que passeavam sobre eles. Encontrei uma porta, girei a maçaneta e a porta se abriu. Entrei no cômodo, uma espécie de sala de entulhos.
Não fazer barulho era uma tarefa impossível, minha roupa encharcada pingava no chão de madeira, meu sapato fazia um barulho de sucção toda vez que dava um passo.
Não demorou muito para eu ser surpreendida.
_O que faz aqui? – perguntou um homem com roupa de cozinheiro, seus olhos indicavam sua natureza.
Dei um passo para trás de encontro à parede, meu olhar encontrou uma alavanca a meu lado a puxei antes do demônio reagir. O bar caiu na escuridão, escutei as vozes se agitar do local próximo a mim. O demônio veio para cima, desviei dele enterrando a faca na lateral do seu corpo, ele gritou, cambaleou para trás, seu corpo caiu destravando mais uma porta.
Silhuetas se agitaram no salão do bar acompanhando um barulho de algo se quebrando. Varri o salão com os olhos tentando identificar Dean no meio da escuridão. Era uma confusão, uma correria. Um disparo soou, mais alguma coisa foi quebrada. Mais tiros, alguns gritos enfurecidos. Estava paralisada, com o corpo do demônio a meus pés, pulei por cima e entrei no meio da confusão.
Dei alguns passos hesitantes, tropecei caindo em cima de alguma coisa. Os olhos de uma mulher me fitavam sem vida. Mesmo no escuro reconheci a cabeleira de Cassie. Um disparo atingiu um ponto acima de mim, me abaixei com a mão na cabeça por puro reflexo. Alguém foi jogado bem perto de onde estava, o corpo se contorceu se reerguendo, vi a pouca luz uma arma ser apontada. O rosto atrás dela era conhecido.
_Dean. – deixei escapar com uma voz chorosa.
_Isabel? Como você... – a luz foi ligada. Olhei para a bagunça a frente; cadeiras e mesas reviradas, vidro por toda a parte. Três demônios se contorciam no chão. As roupas manchadas de sangue. Dois deles estavam de pé, um com um corte na bochecha. Alguém vinha de onde eu tinha entrado.
_Bem que me disseram que não era para subestimar você. – disse a mulher com um sorriso no rosto. Olhei para Dean em busca de resposta, alguma coisa que dissesse que sairíamos dali vivo. Nada. Sua tensão se igualava a minha.
Ele ficou de pé, me ajudando a levantar. Os demônios se levantaram também. Olhei com horror o buraco na cabeça de um deles, o que parecia o mais jovem, com certeza uma das balas de Dean tinha o atingido. Era nauseante ver o sague minando da sua cabeça, encharcando sua camisa e escorrendo para o chão. Um ferimento que não parecia nada para ele, isso era percetível pela sua expressão neutra e ameaçadora. Os outros que faziam companhia a ele também tinham buracos de bala espalhados pelo corpo.
O grupo dos olhos negros pareciam ter saído de um filme de terror.
_A faca. – sussurrou Dean. Tirei a faca da segurança do bolso da minha jaqueta e entreguei a ele que segurou minha mão molhada pingando de sangue, me lançou um olhar preocupado. Fechei a palma da mão com força e puxei depressa demais da sua. Não tinha tempo para aquilo, à prioridade agora era escapar daquele bar, depois quando estivesse em segurança pensaria nos meus ferimentos.
_Pega garotos! – comandou a mulher de jaqueta de couro. _Mas deixem ela comigo. – senti a um frio me percorrer, e não tinha nada a ver com minhas roupas encharcadas que deixava a temperatura do meu corpo extremamente baixa e os dentes que apertavam com força um contra os outros para não baterem.
_Vai para cozinha, procure sal, faça uma linha e tranque a porta. – ordenou Dean com urgência. Fiz o que ele pediu corri para uma porta branca nos fundos, a oposta da qual entrei.
Parei para o obstáculo diante a mim, a mulher da jaqueta, ou melhor, o demônio de jaqueta.
_Você deve ser... Isabela, Isa...
_Isabel! – respondi ríspida. _Você deve ser a vadiazinha do Lúcifer que ele mandou para fazer o serviço sujo.
_Meg. Guarde esse nome. – respondeu sorrindo. Alguém foi jogado com estardalhaço bem perto de nós. Meg se desequilibrou quando o demônio atingiu sua perna e caiu.
Tentei correr para cozinha. Senti uma mão fria segurar meu tornozelo, caí com as mãos espalmadas nos degraus que teria de subir para chagar ao meu destino. Mais uma vez estava sendo arrastada pelo tornozelo. Minha cabeça bateu contra o degrau me deixando momentaneamente tonta. Me recuperando chutei o rosto do demônio. Meg me soltou só para pegar meu ombro e me puxar de volta ao salão.
As mãos da Meg voaram para meu pescoço, agarrei seu cabelo tentando me livrar do aperto. Ela ria. Um sorriso prazeroso.
_É bom tocar em você, sua energia, eu posso sentir. – Ela deu risinhos de fascinação. Estava ficando sem ar. Agarrei com mais força seu cabelo. Decidir fazer uma coisa insana movida pela urgência. Coloquei toda a minha força no punho com a palma da mão rasgada, afastei e dei soco no rosto debochado da mulher, do monstro que me asfixiava.
A sensação foi de ter socado o concreto, o rosto dela virou bruscamente, duvidava que sentisse dor, eu pelo contrário... A dor lancinante percorrer meu braço inteiro. Esperava não ter quebrado a mão. Deixei escapar um grito sufocado quando ela saltou meu pescoço dolorido, arfei respirando com força buscando o ar pela segunda vez na noite. Aproveitei sua fragilidade e ergui o joelho atingindo seu estômago a derrubando. Fiquei satisfeita por ter conseguido derrubar aquele demônio.
Ela não perdeu tempo, usou sua força sobrenatural me atirando contra a parede. Minhas costas reclamaram, e isso era a menor coisa A raiva que sentia supria o medo e a dor me dando uma carga de energia e adrenalina. Queria desfigurar o rosto daquela vadia e tentaria até não poder mais. Levantei determinada a acabar com aquele demônio.
Dean lutava bravamente contra três, um dos demônios segurava o braço pingando de sangue, dois jaziam mortos no chão. O rosto de Dean brilhava com sangue. Ele estava apanhando. Isso quase me fez correr até ele para tentar ajuda-lo, mas mesmo que quisesse não podia, Meg vinha para cima de mim. Agachei e peguei uma garrafa, a bati na parede e pronto já tinha uma arma. Segurei bem firme com a mão boa e me preparei.
_É serio? – perguntou ela com um sorriso desdenhoso. Dei de ombros.
_Pode vir, vadia. – consegui dizer.
Não precisei pedir uma segunda vez, ela veio com tudo, consegui desviar, rasguei com a garrafa quebrada sua camiseta feriando sua pele. Meg acertou um soco de raspão no meu queixo, o resultado não foi o que ela esperava. Investi com a garrafa quebrada. O vidro enterrou em seu ombro e rachou deixando um pedaço do material atolado em seu corpo. No segundo seguinte minha mão em punho cerrado acertou em cheio seu rosto. Era incrível como não sentia mais a dor do golpe.
Meg cambaleou para trás e usei mais um membro do meu corpo; levei seus ombros para frente e meu joelho encontrou sua barriga rasgada. O demônio caiu de joelhos.
Ela foi rápida em passar a perna pela minha me fazendo cair desengonçadamente. Soube aproveitar minha queda prensando-me no chão, meu pulso bom foi apertado. Resisti à dor, poderia aguentar por enquanto, mas do que adiantaria? Não podia me defender com duas mãos quebradas. Soltei a garrafa, que ainda segurava, obediente. Quando soltou meu pulso dei uma cotovelada em seu rosto, ela levantou a cabeça limpando com as costas da mão o sangue que lhe escorria do nariz. Reagiu me acertando um tapa no rosto.
Como se algo me instruísse a fazer alguma coisa coloquei minhas mãos nas laterias de seu rosto. Não sabia como fazer aquilo, mas fiz. Me concentrei em algo dentro de mim, busquei algo. Algo que aproveitaria para machuca-la. Aquilo que sabia que estava lá. A vibração que senti despertar em mim quando meu pai tentava me sufocar, só tinha que alcança-la e.... E o resultado foi exatamente como eu queria.
A palma das minhas mãos estavam mornas e delas parecia emergir uma luz fraca e branca que eu podia ver escapando entre meus dedos. Naquele segundo Meg gritou, um grito de pura dor. O tipo de grito que me deixou satisfeita. Era possível ver as luzes laranjas brilhando e pulsando por debaixo de seu corpo de carne.
Aconteceu algo estranho. Eu tive um flash. Foi rápido, um segundo ou menos, mas pude sentir como se estivesse sendo arrasada para outro lugar: Um jardim e depois um raio cortando o céu tempestuoso, eu tinha quinze anos e... No mesmo estalo estava de volta ao bar com Meg em cima de mim.
Ela não se permitiu apagar, usando toda sua força Meg agarrou meus pulsos e afastou com custo minhas mãos de sua cabeça. Eu perdi completamente a luz e ela caiu para trás. Recuei ainda no chão e decepcionada descobri que ela ainda estava viva. De uma forma estranha ela grunhia no chão apertando a palma das mãos nas laterias da cabeça.
O que eu fiz? Olhei para minhas mão machucadas e sangrentas. E o que era aquele flash, tão real e vivo? A luz tinha me abandonado, e se continuasse parada ali ela iria embora para sempre. E eu me sentia exausta, como se aquilo tivesse sugado parte da minha energia.
Mesmo assim consegui levantar e correr para a porta da cozinha. Chegando fui vasculhando tudo à procura de sal tentando ignorar os barulhos vindos do salão. Precisava fazer alguma coisa. Estava com medo por Dean, ele não aguentaria por muito tempo. Se morresse quem cuidaria de mim? Seria minha culpa.
Peguei uma faca grande do balcão perto das panelas altas no fogão. Enchi-me de coragem e voltei ao salão.
_Ei! – gritei. Dean estava caído no chão, curvado enquanto um demônio depositava chutes na sua barriga. _Ei! – gritei mais alto. A faca amolada bem firme na base do meu pescoço. Todos pararam o que estavam fazendo e olharam para mim. Fitei minha plateia tomando mais coragem para ir adiante a minha loucura.
_Soltem ele agora! – gritei. Após um minuto de silêncio Meg riu. Ela retirava os cacos do ombro e o largava no chão, no silêncio esmagador o som do vidro no assoalho era bem vindo. Parecia totalmente recuperada do que fiz a ela e furiosa também.
_Ou o quê, vai se matar? – perguntou em tom irônico. Rir também, o tipo de risada que denuncia a insanidade em uma pessoa, não demorou muito e lágrimas vieram. Minha aparência contribuía para meu teatro; completamente encharcada, a roupa suja de sangue e lama, o cabelo grudado no rosto, à mão pendendo ensanguentada sem muito movimento ao lado do corpo. A aparência de uma pessoa louca a ponto de cometer suicídio por puro medo e desespero.
Contava apenas com a logica de que se me quisessem morta, já estaria morta a essa altura. O demônio que me atacou não se daria o trabalho de me salvar do afogamento.
Deslizei a lâmina no pescoço sentindo o sangue quente escorrer sobre a pele fria. Meu coração disparava feito louco. A tensão tomou o lugar. Dean se levantou com dificuldade e se juntou ao grupo de demônios. Ele me fitou confuso e assustado, continuei sem me permitir a distrações:
_O que tenho a perder? Diz o que eu tenho a perder? Não tenho mais nada mesmo, não tenho ninguém, eu estou sozinha... Sabe como é passar cada dia da sua vida desejando não poder sentir mais nada, querendo alguma coisa para preencher o vazio em seu peito. Se sentir como se fosse uma peça nada importante de um jogo que não é seu. Esperando o dia em que alguém apareça para dar fim a todo sofrimento e dor... Eu sei que se vocês me lavarem eu não vou voltar viva, e não quero. Estou cansada demais. Eu não aguento! – eu chorava, ria, soluçava. Tudo descontroladamente, interpretando o papel que me caia bem.
Um silêncio se desenrolou se instalando no local. Todos me olhavam com expressões indecifráveis. Dean se moveu cambaleando, parecia convencido com minha atuação.
Seria mesmo meu discurso totalmente falso? As palavras saíram com facilidades da minha boca. Como algo que vinha guardando dentro dos cantos mais escuros da minha mente, algo que só esperava o momento certo para se libertar. Não seria a primeira vez que tentara algo parecido. Conhecia bem a sensação de ter uma faca cortando minha pele.
Mas dessa vez era diferente, queria viver, lutar, não estava preparada para me sacrificar a troco de nada. Tomar uma atitude covarde dessas não era a solução.
_É um blefe. – concluiu Meg. Ela soou um pouco hesitante como se duvidasse de suas palavras. Dean balançava a cabeça negativamente, uma das mãos apertando a lateral do corpo. Seu rosto machucado e meio inchado sujo de sangue.
_Isabel... – disse ele cautelosamente.
_Não cheguem perto ou eu juro que enterro essa faca mais fundo. Não acho que seu chefe vá gostar de saber que eu ocasionalmente cortei meu pescoço – deslizei um pouco mais a faca com firmeza. Sentia uma dor irritante. Os demônios se voltaram para a mulher de jaqueta, ela por sua vez se voltou para mim, seus olhos encontraram os meus, seu olhar dizia: “isso não acabou aqui”. Meg abriu a boca em direção ao céu e uma fumaça negra saiu de sua garganta, os demais a acompanharam. O teto escureceu com as formas gozosas dos demônios e por fim se dissiparam. Os corpos caíram desajeitadamente no chão completamente sem vida.
Soltei o ar dos pulmões e afastei a faca do pescoço a jogando em um canto qualquer. Passei as costas da mão sobre os olhos enxugando as lágrimas. Dean veio depressa ao meu encontro.
_Meu Deus, você está bem? – tinha o deixado assustado, podia ver isso em seus olhos. Talvez tenha ido um pouco longe demais, mas foi isso que acabou nos salvando.
_Estou bem. Merecia o Oscar por isso, mas estou bem. – forcei um sorriso. Dean não sorriu, ele virou meu rosto de leve examinado o corte no meu pescoço.
_Não deveria ter feito isso. – ele balançava a cabeça incrédulo.
_Se não tivesse feito você estaria morto e eu no covil do diabo. – Dean pegou minha mão machucada, senti uma dor e por reflexo puxei a mão de volta. Ele virou a palma da sua mão esperando que eu colocasse a minha sobre a dele, não o fiz. Dean suspirou e agarrou meu pulso com certa impaciência. Mexeu um pouco na minha mão e prendeu meu punho antes que eu puxasse de volta.
_Pode ter quebrado. O corte precisa de cuidados para não infecionar, mas acho que não é necessário pontos. – Dean tirou um lenço preto de dentro da jaqueta e enfaixou minha mão com cuidado. Estremeci com o frio que penetrava minha pele congelando meus ossos e nervos. _Você deve está congelando, tira esse casaco molhado antes que tenha uma hipotermia. – ele tirou a sua jaqueta e me entregou. _Vista isso. – tirei a minha e coloquei a dele sentindo o calor do tecido combater a frieza do meu corpo, apertei a jaqueta contra mim agradecida. Ele não tinha perdido o que fiz com Meg, se tivesse visto estaria agora me enchendo de perguntas acusatórias das quais eu não sabia responder.
_Tudo bem Dr. House, agora, por favor, me tira daqui. – ele concordou. Caminhamos com dificuldade parecendo um casal de velhos, encurvados e sentindo dor a cada passo. Dean parou, segui seu olhar. Cassie.
Não sabia o quanto eram próximos, mas podia afirmar que ele se culpava pelo o que aconteceu com ela, e pior se sentia triste.
_Dean, vamos. – insisti com a voz cautelosa. Ele assentiu e retomou a caminhada.
Tinha finalmente parado de chover. Antes de entrar no Impala Dean me parou.
_Isso tudo... Você... – ele reparou rapidamente no meu estado deplorável. _ Foi culpa minha, me desculpa. E... Feliz aniversário. – ele tentou sorrir, desistiu quando não esbocei nenhuma reação. Queria falar, mas o cansaço foi maior do qualquer acusação que tinha contra ele.
_Vamos sair logo daqui antes que eles voltem. – antes de ele tentar retomar a conversa entrei no carro, quando se sentou ao meu lado virei o rosto para a janela. Observei o céu escuro como carvão me perguntando para onde aquela massa negra de demônios estaria agora, ou quando seria o próximo ataque. Entendendo o recado Dean deu a partida no carro seguindo para sei lá qual fosse o destino.
... — ...
Cada músculo do corpo de Dean doía. Abdômen, costela, pernas, braços, cabeça, cada membro estava dolorido, seu rosto também sofreu. Dirigir se tornou algo torturante, cada movimento de ombro trazia uma nova onda de dor. Tinha levado uma surra e tanto. Precisava de analgésicos e uns dias de folga para se recuperar. Ia tirar algumas horas de descanço para sua mente sobrecarregada. Não ia pensar em Meg, demônios ou apocalipse.
Ia se concentrar na garota dormindo ao seu lado.
Sentia-se mal por tê-la deixado sozinha, na verdade se sentia mal por tudo; Desde o primeiro dia em que colocou uma arma em sua mão ao primeiro caso que pegou arrastando uma garota comum sem experiência com ele, pondo a vida de Isabel em constante risco. O que tinha na cabeça? Ela não tinha nada a ver com sua necessidade de se manter em movimento, de sentir aquela adrenalina que fazia seus pensamentos se desviar por um instante do seu irmão e da situação na qual se encontrava.
Balançou a cabeça fortemente e se pôs a pensar no motivo de está tão envolvido com aquela maluquinha cheia de problemas que o tirava do sério.
Para ele tudo nela era tanto quanto contraditório. Sua atitude determinada e suas feições de boneca, a firmeza quando segurava uma arma e a delicadeza ao manusear uma câmera, a língua afiada e o olhar muitas vezes entristecidos e distantes.
Seu charme estava nos detalhes; o sorriso travesso, o sarcasmo, o jeito como pronunciava seu nome com aquele leve sotaque britânico, o modo como o desafiava, a personalidade forte e instável, seu beijo... Ela não fazia ideia, mas estava o deixando louco.
Tinha o convencido a dirigir quilômetros para um show de uma banda de rock que ele nunca tinha ouvido falar (tinha até gostado do som), como pôde ela ter o feito ceder apenas piscando aqueles grandes olhos azuis?
Ah seus olhos. Olhos que o sondavam, capturando tudo, atraindo sua atenção, eram quase hipnotizantes.
A lembrança da garota em um bar ainda era vivida na mente de Dean:
O bar estava lotado, Isabel tinha insistido em aprender a jogar sinuca. Seus movimentos graciosos e um tanto atrevidos atraíram olhares. Dois rapazes se aproximaram ignorando um a outro assim como fizeram com Dean (seu orgulho foi um pouco ferido naquela noite) ela sorriu aos flertes dos rapazes apenas se divertindo com os dois novos professores enfeitiçados pelo poder que nem sabia que possuía.
Dean lembrava também de ter saído furioso sem avisar do bar e da discussão que tiveram depois. Não sabia se era ciúme, mas era forte a necessidade de protegê-la dos canalhas que encontravam na estrada, conhecia o tipo, poderia até ser considerado um deles.
O efeito dela sobre ele era impressionante e assustador, ela o fazia se sentir bem, devolvia a esperança e força para lutar, Dean sem perceber se sentia mais... Feliz? Menos vazio. Completo.
Não podia negar que existia uma atração física muito forte entre o casal, a desejava secretamente, — o que resultava em banhos frios no meio da madrugada — teria ido adiante e dormido com Isabel se Castiel não interrompesse. O problema era como ele iria se sentir no dia seguinte.
Isabel era uma menina aos olhos dele, inexperiente e em certos pontos um pouco imatura. A questão da idade contribuía para essa ideia. Esse era o tempo de Isabel está namorando um garoto bacana de boa família que daria tudo o que ela merecia, mostraria as coisas boas da vida e não a versão suja e sangrenta apresentada por Dean. Alguém que não a magoaria ou provocaria mais dor em sua vida.
Mas era tão difícil para ele se manter longe o suficiente, resistir a tudo. Ela era diferente. Em todos os sentidos.
Ele estava certo quanto ela saber se defender. Não sabia como, mas de alguma forma ela havia conseguido derrubar Meg. Como? ele não fazia ideia.
Não estava nem um pouco ansioso para saber a verdade sobre ela. Por que era assim que as coisas desmoronam. Começa com uma grande descoberta e depois isso acaba destruindo tudo que haviam construído.
Era quase uma piada universal; ele perder pessoas que ama para o lado sombrio.
Quem era a garota sentada ao seu lado?
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