Broken Girl
4 Capítulo quatro: Nova Perspectiva
Notas iniciais
Antes
Um mês. Quinze dias. 23 horas e 12 minutos, fora o tempo que passei com Dean Winchester. Dividimos quartos de hotéis baratos e comemos em fast food. Saímos de um lugar a outro a bordo do Impala 67. Não podíamos ficar muito tempo em uma cidade. A escória sobrenatural era implacável em espalhar noticias e boatos de nosso paradeiro.
E não, ainda não entendo o porquê disso tudo. No começo foi um tanto complicado e apavorante destrinchar todo esse mundo sombrio e sangrento que de certa forma me manteve focada em alguma coisa não deixando minha mente explodir em teorias e os por quês de eu está no meio disso tudo. E também tinha a dor assustadora de entender que agora eu não tinha ninguém no mundo além do caçador mulherengo com problemas com bebidas.
Bobby não conseguiu nada o que só nos deixou mais frustrado. E Castiel, esse era a verdadeira incógnita. Ele não apareceu, não deu noticias e sentia que Dean ficava cada vez mais irritado com o amigo. Uma descoberta interessante foi a visão de Dean sobre os anjos. Ia contra tudo que eu pensava. Anjos eram soldados, martelos e nada mais. Castiel era a exceção.
Nesse meio tempo Dean me ensinou algumas coisas sobre o ofício. Não era muito boa em ação, mas ajudava no que podia (como pesquisa, por exemplo) quando pegávamos um caso. Não que procurássemos, eles simplesmente apareciam como se atraídos por um caçador na cidade.
O desenho de um pentagrama fora tatuado na lateral do meu quadril próximo a virilha num lugar que não era visível, isso era o equivalente a uma vacina contra possessão demoníaca. E eu pensando que minha primeira tatuagem seria algo mais profundo ou delicado.
Brigamos, discutimos e gritamos um com o outro, dávamos prelúdio à terceira guerra mundial, mas no fim acabava tudo bem. Suportávamos-nos, apesar das diferenças ou semelhança.
Muitas das noites Dean me deixava no hotel e sumia, sabe-se lá para onde, com quem, e para fazer o quê, quer dizer tinha uma noção é claro, mas preferia não pensar nas suas atividades libertinas. Essas eram noites difíceis, sempre tinha um pressentimento de que ele iria me deixar. O pior de tudo era a inevitável solidão, quando sentia a dor das minhas perdas, nessas horas pensava em Adam. Tive que deixar tudo para trás, mas não conseguia deixar Adam para trás.
Antes de sair de Greeley deixei nos correis uma caixa com todo o meu portfólio. Tinha na caixa as minhas primeiras fotos e as mais recentes, também deixei minha primeira câmera, meu xodó, tinha certeza que ele cuidaria melhor dela do que eu. Num pedaço de papel escrevi “Não se preocupe. Vou ficar bem. Você estará sempre comigo”. Não coloquei meu nome no pacote. Aquele foi o adeus mais difícil.
Dean me contara sobre o que enfrentávamos. O apocalipse. Toda vez que ouvíamos o radio ou a Tv víamos as consequências de tal acontecimento. Era desolador.
Agora que finalmente pude ver debaixo da cortina passei a admirar o que ele fazia. Salvava pessoas e não tinha nenhuma recompensa no fim, uma ação altruísta. Ele dividiu também algumas histórias sobre suas caçadas, elas sempre envolviam seu irmão Sam.
Sam. Está ai um assunto complicado, Dean não contou o que realmente houve para os dois se separarem. Ele tinha muitas barreiras emocionas, assim como eu, e não estávamos dispostos a atravessa-las.
Quando se tratava de sentimentos Dean era sempre fechado. Sabia que alguma coisa o chateava e pesava em seus ombros, mas ele não permitia que chegasse perto o suficiente para poder ajudar.
A única certeza que tinha era que o mundo estava um caos e quanto mais o tempo passava mais a situação piorava...
Agora
Em algum lugar no Kansas...
O céu era de um azul quase negro, umas poucas estrelas iluminava a imensa escuridão. A lua aparecia e logo se escondia por detrás das densas nuvens. Dean e eu estávamos andando a mais de uma hora, seguindo uma estrada infinita, só se ouvia o barulho de nossos passos e o canto dos insetos na vegetação que crescia nas laterais da estrada totalmente deserta.
_Será que falta muito? – perguntei com os pés doendo de tanto andar.
_Talvez sim talvez não. – respondeu Dean.
_Obrigada, isso foi muito especifico. – respondi sarcástica.
O Impala tinha parado no meio da estrada, o problema: falta de gasolina. Discutimos sobre quem pediu para quem verificar o tanque, e como não chegávamos a nenhuma conclusão empurramos o carro para fora da estrada – sem antes muitos protesto de Dean sobre deixar a sua “Baby” sozinha – fomos andando ao posto mais próximo, que não era tão próximo assim.
_Então, quantos corações partidos você deixou em Greeley? – perguntou Dean. Estávamos afastados, Dean a direita da estrada e eu a esquerda.
_Eu não sei do que está falando. – sabia exatamente do que ele estava falando, só não queria entrar naquele assunto isso me deixava um tanto sem jeito.
_A qual é, diz ai quantos foram. Cinco, seis, sete...
_Ei, o que acha que eu sou? – um sorriso traiçoeiro brotou em meu rosto. _Foram poucos, bem poucos.
_Então quantos foram? – insistiu Dean.
_Porque esse súbito interesse pela minha vida amorosa? – indaguei.
_Só estou tentando puxar assunto. – ele deu de ombros.
_Foram Três; Steve no colegial, ele era o gênio em matemática e beijava muito bem. Paul na faculdade, um cara legal curtia poesia. Por último Richard ele fazia o tipo revolucionário participava de causas sociais e esse tipo de coisa. E os outros foram só outros.
_O nerd, Shakespeare e o pacifista foram seus únicos namorados? – comentou em tom zombeteiro.
_Não sou você. – retruquei.
_E aquele seu amigo, qual é mesmo o nome dele... – detectei certo ceticismo na palavra “amigo”.
_Adam. Nós somos só amigos. — percebendo meu erro me corrigi: _Éramos só amigos. Na verdade o que deixei em Greeley foram três ex-namorados zangados. – isso pareceu despertar a curiosidade de Dean, ele olhou para mim com as sobrancelhas erguidas.
_Por quê? – perguntou. Não estava muito disposta a contar meu passado amoroso que não me orgulhava nem um pouco. Suspirei, sabia que ele não desistiria tão fácil. Soltei um suspirei e tentei escolher bem as palavras.
_Fui eu que terminei com todos. Parece meio babaca da minha parte quando digo isso, mas a verdade é que eu tinha medo sabe, quando via que as coisas estavam ficando sérias demais me afastava. Nunca consegui me entregar totalmente a ponto de querer compartilhar minha vida com alguém. Isso me apavorava, achava que se chegassem perto demais descobririam meus reais sentimentos, minha loucura... – Dean me escutava com atenção, parei por um instante percebendo tarde demais que estava dizendo coisas a ele que não queria que soubesse. Esperei até ele dizer alguma coisa, nada veio. Decidi concluir o que dizia para não ter que voltar ao mesmo assunto mais tarde. _Então eu ferrava com tudo. O mais estranho era que não me sentia triste ou culpada, não me entupia de chocolate e ouvia Taylor Swift, era como se estivesse mais segura assim. Estava tão acostumada com a solidão que não sabia mais conviver sem ela. O medo de me expor totalmente e me deixando vulnerável foi sempre mais forte do que qualquer paixonite. – agora Dean me fitava intrigado e um pouco surpreso com as minhas revelações. _O último até me chamou de vadia sem coração, dá para acreditar? – sorri com o que disse tentando trazer de volta o bom humor ao clima que ficava intimo demais.
_É, esse tem personalidade. – disse ele olhando fixamente a estrada a frente. Após uma pausa silenciosa perguntei:
_E você Dean, já teve alguma namorada? Alguém especial? – ele maneou a cabeça negativamente.
_Não. – respondeu decidido.
_Um herói solitário. – concluir.
Ao longe já dava para ver a estrutura luminosa do posto de gasolina. Finalmente estávamos chegando. Motivados por estarmos perto do nosso destino andamos mais rápidos até que em poucos minutos chegamos.
Dean enchia o galão que vinha trazendo enquanto eu entrei na lojinha para pegar combustível para nós.
Coloquei na cestinha algumas barras de cereais, três garrafas de água e torta, Dean ia gostar, ele nutria um amor incondicional por torta e pelo Impala. Coloquei também um pequeno engradado de cerveja — a única coisa que Dean me pediu para comprar — Levei a cestinha com o conteúdo ao caixa.
O menino atrás da caixa registradora dormia pesadamente, a aba do boné laranja cobria seus olhos e nariz, da boca aberta escapava um fio de baba pelo seu queixo. Seus pés cruzados sobre a bancada e as mãos entrelaçadas sobre peito. Pigarreei para ver se ele acordava. Nada. Balancei um pouco sua perna, ele reagiu. Tentou levantar tão depressa que quase caiu da cadeira derrubando alguns produtos na prateleira atrás dele.
Recobrando a compostura passou as costas da mão no queixo limpando a baba e em seguida assumiu um ar profissional.
_Boa noite. – cumprimentou ele com a voz um pouco rouca de sono.
_Boa noite. – respondi contendo a risada. Ele bateu os produtos e me disse o valor da compra, entreguei a ele o cartão de crédito. Algo que vinha tentando me acostumar: não pagar a conta dos cartões de créditos com nomes falsos, distintivos também falsos, (apesar de não usar um por que de acordo com Dean pareço uma “líder de torcida adolescente” então tenho que me contentar em ser assistente). Minha vida agora vivia a margem da ilegalidade.
Peguei a sacola com os condimentos e sair porta afora. A surpresa foi tão grande que quase cair para trás. O mundo que vi antes não existia mais. Este novo mundo se revelava destruído confuso e sujo. Abri novamente a porta e cambaleei entrando na loja novamente e esta também se mostrou destruída. Algumas prateleiras tombadas e os poucos produtos definhando no chão sujo.
Voltando a rua observei tentando entender o que estava acontecendo. Será possível isso ser um sonho?
Os prédios à frente, estavam totalmente destruídos. Janelas quebradas, pichações, sujeira, alguns não tinham nem teto, as superfície num desenho irregular e na maioria tijolos a amostras onde pedaços de tinta ainda lutavam em permanecer. E bem a minha frente o que seria o posto de gasolina apenas uma estrutura enegrecida, o teto pendia verticalmente sustentado por uma haste desgastada com o tempo.
Na rua a sujeira era tamanha, carros totalmente amassados em meio a todo tipo de entulho que se podia imaginar tudo isso envolto a uma densa camada de poeira.
Olhei em volta assustada tentando achar alguma pista do que era tudo aquilo quando vi Dean sair por onde eu havia saído, sua expressão de surpresa se igualava a minha.
_Dean, onde nós estamos? – perguntei ainda muito confusa.
_Não faço ideia. Eu entrei na loja atrás de você e quando saí... – sua frase ficou no ar. Dean indicou com gesto para que eu o acompanhasse, o fiz.
Caminhamos um pouco no completo silêncio, prestando máxima atenção a tudo e a qualquer ruído. Viramos um corredor e Dean parou.
_Droga! – exclamou. Seguindo seu olhar observei a parede onde se lia: “CROATOAN”, a palavra escrita em letras maiúsculas e vermelhas.
_O que é isso? – perguntei ansiosa para obter alguma informação que poderia me fazer entender o que estava acontecendo.
_Um vírus demoníaco, ele ferra com a cabeça da pessoa, transformando ela numa espécie de zumbi, só que mais rápido e bem mais perigoso. – assim que terminou de explicar um grupo de pessoas entraram na rua frente a nossa. Contavam-se quatro, mas logo a quantidade foi aumentada. Os olhares eram sem vida e meio perturbadores.
_Nós vamos correr. – sussurrou Dean pegando minha mão a segurando com força.
Por um segundo temi estar paralisada, porém no segundo seguinte me vi sendo arrastada por Dean com o grupo estranho de pessoas no nosso calcanhar.
Corríamos o mais rápido possível tentado desviar dos entulhos na rua. A pulsação acelerada, o coração disparado no peito. Dean segurava cada vez mais forte minha mão. Demos uma guinada numa rua a direita e para nosso desespero estávamos encurralados. Paramos ofegantes. Meu coração estava preste a saltar pela boca. Não se via nenhuma abertura no muro de grade a nossa frente, que para mim parecia uma muralha impedindo nossa salvação. Não sabia o que aquelas pessoas queriam mais sabia que não era nada bom.
Antes mesmo que pudéssemos pensar em alguma escapatória um barulho ensurdecedor preencheu o lugar. Dean me puxou para o chão. Estavam atirando, nossos perseguidores caindo com buracos de tiros pelo corpo, uma música agitada pode se ouvir acima do barulho dos disparos.
Engatinhei por entre os entulhos tentando acompanhar Dean. O grupo que atirava estava vestido com uma roupa camuflada e um equipamento pesado em mãos. Finalmente uma abertura na muralha, quer dizer grade. Entramos na abertura do portão da grade que deu a um corredor escuro, descemos correndo três degraus ainda com as balas atingindo lugares próximos a nós. Escoramos na parede do corredor, meu coração pulsava mais rápido que antes.
_Tudo bem? – perguntou Dean com a voz entrecortada pela respiração rápida. Ele examinou com os olhos o que podia do meu corpo, provavelmente checando se tinha sido atingida.
_Não se preocupe, não fui atingida. E você? – estava assustada e cada vez mais me convencendo de que aquilo era uma viagem alucinógena ou um sonho muito estranho. Ele balançou a cabeça negativamente.
Enfim os tiros cessaram, ouvimos vozes masculinas exaltadas e em seguida a partida de carros. Quando tivemos certeza que não se podia mais ouvir a música, saímos do nosso esconderijo. Andei um pouco vacilante tentando não pisar nos corpos no chão, até chegar ao outro lado.
Andamos pelas ruas destruídas da cidade, nenhum sinal de vida, paramos numa área ampla com a vegetação um pouco crescida, provavelmente fora um campo de futebol. Encontramos uma placa fincada no chão. Nele se lia: “Área de contaminação. Vírus Croatoan. Entrada proibida. 1 de agosto de 2014. Kansas City.” 2014?
_Ha isso não é nada bom. – comentou Dean. E como se não fosse esquisitice o bastante por um dia um homem se materializou atrás de nós. Não me contendo saltei um gritinho. Um cara grande e encorpado, vestindo um terno preto, na cabeça uma grande cavidade careca, apenas alguns cabelos prateados nas laterais.
_ Sabe Dean a minha surpresa quando li o jornal e não achei a seção de esportes. Sem jogos dos Yankees. O vírus croatoan se espalhando pelo mundo, a casa branca entrando em estado de emergência...
_Zacharias, não consegue ficar longe de mim, não é? E a proposito como você me achou? – perguntou Dean com escárnio ao homem.
_ Tivemos que usar um método um pouco antiético admito. Informantes humanos espalhados por toda parte, mais cedo ou mais tarde você ia topar com um deles. E digamos que o garoto da loja no posto era bem devoto.
_Ok, legal você já se divertiu, agora nos manda de volta seu desgraçado. – Acompanhava a discussão sem entender muita coisa do que era dito. Zacharias parecia que não tinha notado — ou simplesmente ignorava — minha presença.
_Vocês vão voltar na hora certa. Quero que dê uma volta por aí, veja como as coisas vão ficar se você continuar fugindo, fingindo que nada está acontecendo. Vão ser três dias. Faça um tour, tenha uma pequena amostra do que vai acontecer se insistir em dizer Não ao Miguel. E quem sabe descobrimos qual vai ser o papel da sua namoradinha nisso tudo. Divirtam-se. – dito isso ele desapareceu.
_Filho da mãe.
_Quem era aquele cara? – perguntei confusa. Meu cérebro dando um nó para tentar entender o que tinha sido aquilo.
_Zacharias. A droga de um anjo.
_E o que estamos fazendo aqui?
_Estamos presos em outro tempo, como em De volta para o futuro. – falou olhando em volta.
_Dean o que ele quis dizer com você dizer Não ao Miguel?– perguntei pegando uma peça do quebra cabeça que não encaixava.
_Vamos dar um fora daqui. – respondeu me dando às costas como se eu não tivesse feito nenhuma pergunta.
_Dean, espera – andei rápido para acompanha-lo. _Dean! ele estava falando de Miguel o Arcanjo?
Dean parou bruscamente me fazendo chocar contra seu corpo. Com um movimento rápido me arrastou para trás de um denso arbusto. Observei atenta por entre as folhas, pude ver um carro chegando. O carro parou e alguns homens desembarcaram todos armados. Arfei de surpresa, um deles era Dean.
Os homens distribuíram entre si umas latas de cerveja ou refrigerante, não dava para saber, e algo estranho aconteceu Dean do futuro sacou uma arma e apontou para o homem a sua frente.
_Ei, espera, cuidado! – gritou Dean a meu lado. Tarde demais Dean do futuro disparou, o homem atingido caiu com baque no chão, o choque foi tão grande que num gesto involuntário minha mão foi à boca. Os homens assim como Dean do futuro apontaram suas armas para nós, todos pareciam surpresos e confusos. Imitando o gesto de Dean levantei as mãos em sinal de rendição.
_Senhor? – perguntou um deles a Dean do futuro, este olhava para mim extremamente surpreso e estranhamente abalado.
_Não atirem – Dean do futuro deu a ordem. _Pegue ele e deixe-a comigo. Leve-o para o abrigo seis. – os homens ainda olhavam de mim para Dean assustados. _Agora! – gritou Dean do futuro e eles finalmente se mexeram. Um deles prendeu as mãos de Dean com uma algema. O outro Dean me olhou nos olhos, parecia genuinamente abalado, mais comigo do que com seu clone ao meu lado. Não demorou muito e ele prendeu minhas mãos as costas com uma algema.
Caminhamos em meio a uma área florestada, e logo avistei uma clareira de onde várias cabanas haviam sido montadas, assim como algumas casas feitas em madeiras suspensas por pequenas hastes do mesmo material.
_Olha cara não somos metamorfos, demônios nem nada disso, eu sou você, então porque não solta a gente e aí conversamos. – tentou Dean.
_Isso nós vamos ver. – rebateu Dean do futuro. Estávamos na margem da clareira, Dean deu ordem para seus homens prosseguir com cuidado, não queria que ninguém nos visse. Passamos com cautela pela clareira, os homens que escoltavam Dean tomaram uma direção diferente.
Olhei para ele em busca de alguma instrução este não falou nada, então fui empurrada por Dean do futuro para direção oposta. Estava claro que esse Dean era diferente do que eu conhecia. Dean do passado nunca atiraria num homem, aparentemente, inocente na frente do seu pessoal.
_Para onde vamos? – perguntei. E como resposta, subimos os degraus de uma das casas e entramos. A casa só tinha um cômodo. Uma mesa na direita e outra na esquerda, uma repleta de armas, na outra alguns galões, sacos de sal e alguns potes com algo dentro que não conseguir identificar. Na parede variados tipos de facas, foices e machados. Algumas armas maiores encostadas nas paredes. Aquilo era obviamente uma sala de armas. Sem perder tempo Dean tirou minha algema e logo a prendeu no pé da mesa que estava soldada no chão.
_Você vai me deixar trancada aqui? – perguntei não gostando nada daquele Dean.
_Por enquanto sim. – disse Dean indo em direção à saída, durante todo percurso ele não me olhou nem uma vez agora não foi diferente.
_Espera – disse apressada antes que ele saísse. Estava de costas para mim e não se virou quando pedi que esperasse.
_Onde eu... Quer dizer, eu do futuro estou? – perguntei, não pretendia encontrar comigo mesma, isso seria bem estranho, mas precisava saber. Dean virou devagar. Senti que algo estava errado com ele, mesmo sendo outro Dean dava para notar que alguma coisa o estava perturbando.
_Já volto, não mexa em nada. – repreendeu batendo a porta.
Alguns instantes se passaram e Dean do futuro estava de volta.
_Onde está o Dean? – fui logo perguntando. Estava sentada no chão, o pulso doendo por causa das tentativas inúteis de me soltar. Não pude pegar nenhuma arma para usar como chave, todos estavam fora de alcance.
_Eu estou aqui. – respondeu Dean do futuro colocando num copo plástico um pouco do liquido de um dos galões da mesa. Através da transparência do galão vi que um crucifixo flutuava na água. Água benta, é claro.
_Você sabe o que eu quis dizer.
_Ele vai ficar bem. Agora vou fazer alguns testes com você. – despejou um pouco da água no meu pulso livre.
_Eu não sou um demônio – disse ríspida. _Por que você atirou na cabeça daquele homem a sangue frio?
_Ele estava... doente, era só uma questão de tempo até ele pirar. – Dean agachou e jogou um punhado de sal no pulso molhado.
_Eu já disse que não sou demônio.
_Por via das duvidas...
_Com doente você quer dizer contaminado com o vírus croatoan? – perguntei não vendo o porquê de ele matar o homem já que parecia bem normal para mim, diferente dos que eu e Dean fugimos.
_Então você sabe. – comentou enquanto pegava uma faca.
_Você atirou no cara baseado apenas numa suposição de que talvez ele estivesse contaminado? – disparei a pergunta indignada. Alguma coisa naquele Dean o diferenciava do Dean que me salvara há um mês.
_Eu percebi os sintomas nele.
_Não poderia ter lhe dado pelo menos o beneficio da dúvida?
_É eu poderia ter esperado ele atirar em um de nós. – Dean estava perdendo a paciência seu tom de voz se alterando do jeito que Dean do passado sempre fazia. Ele olhou para faca em sua mão, recolhi o braço institivamente, para minha surpresa ele sorriu.
_Não vou precisar disso – colocou a faca de volta a mesa. _Só você sendo você poderia ser tão irritante.
_Já que chegou a uma conclusão por que não me solta? – perguntei levantando o braço preso.
_Não posso deixar você solta por aqui isso ia... – Dean não completou a frase. Uma nova pergunta surgiu na minha cabeça.
_O que aconteceu com o resto do mundo?
_Acho que da época que você veio já sabe sobre o apocalipse. Podemos dizer que as coisas pioraram um pouquinho.
Alguém entrou no cômodo. Um homem barbudo com uma prancheta na mão. Ele arregalou os olhou quando me viu deixando a prancheta cair.
_Mas o que... – gaguejou o homem assustado.
_Chuck está tudo bem, porque não conversamos lá fora. – disse Dean empurrando o homem porta a fora. E mais uma vez me encontrei sozinha e ainda presa.
...
Estava cochilando com a cabeça encostada no pé da mesa quando Dean entrou. Dean do passado. Ele foi logo tratando de tirar minha algema com um prego.
Já lá fora perguntou ao homem que deixou cair à prancheta – que se chamava Chuck – onde Castiel estava. Chuck agia de um jeito estranho, parecia desconfortável com a nossa presença ali. Até ai compressível. Ele indicou com o dedo uma das casas. Fomos até lá.
Passamos por uma cortina de miçangas e contas perfeitamente enfileiradas formando padrões com as cores. O ambiente estava iluminado com velas postas nas laterais do cômodo. Reunidos no chão em um tapete quatro mulheres ouvindo atentamente o que o homem a frente delas dizia. Era algo sobre “Chave da concepção total e compartilhada...”.
Quando notaram a nossa presença as mulheres gritaram quando olharam para mim, até Dean me olhou confuso.
_Calma moças. Porque vocês não nos dão licença. Tenham calma, vão se lavar para a orgia. – O que? Ele disse orgia? Estava ficando um pouco nervosa, por que as pessoas ficavam assustadas quando me viam? As mulheres passaram as pressas por mim sem olhar.
_Ohh Você não é você – disse o que imaginava ser Castiel para Dean. Minha imagem de Castiel era só um pequeno fragmento nas minhas lembranças, apenas seus olhos azuis eram familiares. Lembrava-me de uma versão diferente dele, talvez sem a barba e vestindo um sobretudo. _E você não deveria estar aqui. – se dirigiu a mim. Ele pelo menos não parecia assustado com minha presença.
_Por que eu não deviria estar aqui? – indaguei.
_Por que teoricamente você deveria está morta. – suas palavras me atingiram como um tiro.
_O quê? – perguntamos eu e Dean em uníssono.
_Tá legal já chega. Cass põe suas asas de anjo e nos leva de volta para nosso tempo. – interveio Dean. Eu ainda estava absorvendo as palavras de Castiel.
_Como assim eu morri? – perguntei ainda processando a notícia.
_Não cabe a mim responder. Quem fez isso com vocês? Zacharias?– Perguntou Castiel calmamente.
_É foi. – respondeu Dean.
_Interessante. – comentou Castiel no mesmo tom brando.
_É fascinante. Agora tira a gente daqui.
_Não posso.
_Como assim você não pode? – Dean deu um passo à frente.
A notícia da minha morte foi realmente um choque, como se alguém diagnosticasse que eu estava com câncer terminal e não tivesse muito tempo de vida. A contagem regressiva começava agora. Mesmo faltando cinco anos aquilo me deixou muito nervosa, me fazendo pensar em uma pergunta que Adam tinha feito enquanto assistíamos TV: Se você pudesse saber quando ia morrer gostaria de descobrir? Naquele dia fiquei sem resposta, pensei que se soubéssemos poderíamos aproveitar ao máximo cada precioso minuto, porém se não soubéssemos – como não sabemos – viveríamos sem a preocupação de fazer cada minuto valer a pena. Agora minha resposta seria definitivamente não. Não gostaria de saber.
Perdida nesses pensamentos perdia parte da discussão entre Castiel e Dean.
_... Maravilha. Estamos presos aqui até aquele palhaço resolver nos mandar de volta. – peguei o final da fala de Dean.
_Vejo que já conheceu nossos novos visitantes, Castiel – disse Dean do futuro, a voz vinda de trás de mim. _O quê estão fazendo aqui? Eu não deixei bem claro que não queria nenhum dos dois perambulando por ai.
_Você tinha razão, não deveria confiar em si mesmo, ainda mais sozinho. – respondeu Dean.
_Os três venham comigo, temos uma reunião. – anunciou Dean do futuro saindo. Partimos atrás dele.
...
_E onde eu me encaixo nisso? – perguntei.
Há poucos minutos Dean do futuro explicou seu plano insano de matar o diabo. Pelo o que entendi ele tinha uma arma especial chamada Colt. Essa arma era capaz de matar qualquer coisa. Na reunião estavam presentes cinco pessoas, eu, Dean, o outro Dean, Castiel, uma mulher e um rapaz.
Tinha alguma coisa com a certeza de Dean em relação ao paradeiro de Lúcifer. Dean o questionou sobre isso. A resposta era tortura, era essa a questão. Dean torturou um demônio. Aquilo não parecia algo novo para Dean do passado. Pude notar que tinha algo mais por trás do lance da tortura.
_Você não vai, é muito arriscado. – respondeu Dean do futuro.
_Não vou ficar aqui. – disse decidida. Os dois Dean suspiraram.
_Ele tem razão – disse Dean. _Pode acontecer alguma coisa...
_Não acha que o que poderia acontecer comigo já aconteceu? – disse o silenciando. Houve uma troca de olhares entre os Deans.
_Tudo bem. Castiel vai ser seu anjo da guarda. Tudo bem Cass? – perguntou Dean do futuro. Estava me preparando para mais protestos, por que era assim que as coisas funcionavam comigo e Dean Winchester. Tinha de ficar me provando para que percebesse que poderia dar conta. Não era uma boneca de porcelana, muito menos fazia o papel da donzela em perigo.
_Tudo bem. – afirmou Castiel que antes tinha levantado uma objeção a ida de Dean. Afinal se algo acontecesse com ele Dean do futuro poderia sumir, porém este afirmou que estaria Dean protegido por Zacharias. Esperava que isso servisse para mim também.
_É isso pessoal. Estaremos prontos à meia noite. – encerrou.
_Ok, chefe. – disse o rapaz que não conhecia. Todos saíram ficando na sala apenas eu e os Deans.
_Chefe? – questionou Dean.
_Vai dizer que não gostou. – retrucou Dean do futuro.
_Quero falar com você um minuto – disse Dean do passado ao outro Dean. _ Isabel pode...
_Vou esperar lá fora. – falei antes que pedisse.
A noite caia fria, o silêncio tomava conta do acampamento. Avistei Castiel retornando a sua casa.
_Castiel! – gritei correndo para alcança-lo.
_Ah, olá. – saudou a me ver.
_Posso falar com você um minuto?
_É claro, entre. – ele abriu a porta dando passagem para que eu entrasse. Entrei novamente na sala com estilo hippie.
_Em que esse anjo desertor pode ajuda-la? – perguntou de costas para mim abrindo um pequeno armário e tirando de lá um frasco laranja.
_Quando Zacharias apareceu ele queria que Dean deixasse de dizer Não a Miguel, o que isso significa? – fui direto ao ponto, não era boa com sutilezas. Castiel tirou do frasco um comprimido e o engoliu a seco.
_Sabe, isso aqui me ajuda a relaxar, principalmente antes de uma missão como essa. – disse indicando o frasco na mão. Que ótimo um anjo drogado, era tudo o que queria agora. Ia repetir a pergunta quando ele recomeçou a falar.
_Nós anjos... – Castiel se interrompeu dando uma gargalhada curta. _Quero dizer, Eles, precisam de permissão para possuir um corpo humano, o grande Sim. – Castiel parou de falar, talvez esperasse que eu entendesse sozinha, e foi o que fiz. Miguel expulsou Lúcifer do céu, e agora faria novamente o expulsando da terra e Dean seria o corpo que iria recebê-lo. Ele só precisava do Sim que Dean se recusava a dizer. Esse era o motivo de estarmos aqui.
_Eu tenho mais uma pergunta. – me aproximei de Castiel. A expectativa do que Cass poderia revelar a mim preencheu cada canto daquele lugar. Aquela mesma expectativa me fez hesitar antes de perguntar: _O que eu sou?
Castiel desviou o olhar e pareceu tentar encontrar as palavras certas. Por fim respondeu:
_Essa é uma pergunta muito complexa. Existem varias respostas filosóficas que poderia usar para responder sua pergunta. Mas creio que nenhuma delas irá satisfazê-la.
_Certamente. – afirmei sentindo que aquele momento em que descobriria a verdade se esvair entre meus dedos como água.
Castiel se moveu para perto de mim e deixou que suas mãos pousassem em meus ombros. Seus olhos azuis capturaram os meus.
_Você é um belo ser humano. – senti toda minha esperança murchar com um balão de festa esquecido.
Castiel não sabia de nada. Afinal ele foi rebaixado de anjo á um humano com dependência a pílulas suspeitas.
Estava pronta para desistir quando seus dedos apertarem meus ombros e seu rosto se tornou mais sério.
_Não procure respostas no que você é e sim no que há dentro de você.
Abri a boca para questiona-lo e fui interrompida. Dean adentrou a sala, já nem sabia mais qual deles ele era. Castiel se afastou.
_Posso roubar ela um instante Cass? – perguntou. Ainda não sabia qual era.
_Toda sua. – disse Castiel sorrindo. Caminhei um pouco hesitante até Dean ainda com as palavras de Castiel fazendo eco na minha mente.
Já lá fora Dean disse:
_Quero te mostrar uma coisa. – tentei adivinhar o rumo que tomávamos.
Em poucos minutos entramos numa nova casa, esta um pouco distante das outras.
Passamos por uma sala bem simples; poucos móveis e decoração quase nula. Entramos em um pequeno corredor com uma porta no fundo. Dean pousou a mão na maçaneta. Agora sabia que se tratava de Dean do futuro.
Respirando fundo ele abriu a porta. Estava escuro dentro, não tinha janelas, a única luz que vinha era a do corredor que não mostrava muita coisa do quartinho. Dean entrou, fiquei na porta esperando, uma vela se acendeu tornando seu rosto visível na escuridão. Mais velas foram acesas nos cantos em cada parede. Entrei cautelosa, agora conseguia ver contornos do que pareciam fotos na parede.
Mesmo com a claridade ainda baixa dava para ver que se tratava de um imenso mural com fotos que iam de uma parede a outra sem intervalo. Atravessando o teto um varal com mais fotos pregadas, uma mesa com uma cadeira estava no centro do pequeno cômodo, em cima desta minha câmera, a que tinha levado comigo, diversas películas ainda não reveladas e o material necessário para o processo.
Eu estava nas fotos. Eram minhas fotos.
_ Desculpa as velas, ainda não conseguir instalar eletricidade aqui. – disse Dean baixinho, como se não quisesse quebrar o encanto daquele momento.
_É aqui que eu revelava minhas fotos. – estava estupefata. Pegando uma vela olhei de perto algumas delas. Um casal feliz me encarava de volta, rostos sorridentes. Demorou alguns segundos para perceber que o casal feliz era eu e Dean. O que não faltava eram fotos dele de variados ângulos. Tinha que confessar ele estava lindo em todas. Havia fotos minhas com pessoas que nem conhecia, paisagens, fotos com um grupo de crianças.
_Quem são essas crianças? – perguntei.
_Você dava aula para elas aqui. Elas adoravam você, te chamavam de tia Bel. – disse Dean com meio sorriso.
Agradeci a iluminação precária, pois meu rosto estava ficando vermelho diante de algumas fotos que digamos eram um pouco íntimas. Em uma delas estava sentada a beira de uma cama, lençóis brancos emaranhados a minha volta, os cabelos negros indo até a base da cintura, estava de costas e completamente nua, meu rosto não era visível, a iluminação alaranjada que vinha da janela aberta a minha frente funcionando como aura envolta do meu corpo.
_Essa é minha favorita. – disse Dean bem próximo a mim.
_Isso é um tanto embaraçoso. – fiquei sem graça. A ideia de nós dois juntos era um pouco maluca. Mas por que aquilo parecia à coisa mais certa?
Sentia-me estranha olhando aquelas fotos como se tivesse sido tirada por outra pessoa, com uma vida diferente da minha, de um mundo completamente paralelo. Fotos de uma pessoa morta.
_Como eu morri? – perguntei. Ainda examinado uma foto em preto e branco onde Dean estava atrás de mim com os lábios pousados no meu pescoço, meus olhos estavam fechados á cabeça inclinada para esquerda os lábios curvados em um sorriso leve.
Virei-me não querendo mais olhar, aquilo provocou certo formigamento no estômago. Aquelas fotos acordou um monstro adormecido em mim. Questionava-me se o que via seria um futuro possível.
Sombras dançavam no rosto de Dean, a luz deixando o desenho de seus cílios acima das bochechas. Era impossível dizer em que estava pensando.
_Você morreu lutando. – disse Dean ainda baixinho. Seus olhos brilhavam. Ele me puxou num abraço.
_Me desculpa, eu não consegui... Não consegui salvar você, não consegui salvar o Sam. Me perdoa – na voz transparecia angustia e culpa, os braços em volta de mim num abraço apertado. Não sabia o que dizer muito menos o que fazer, não espera algo assim. _Daria tudo para tê-la de volta, queria que não fosse embora. Eu... – Dean foi interrompido por uma batida na porta.
Ficamos parados por alguns segundos, ele se afastou bruscamente deixando um vazio em mim, um espaço que até então não sabia que poderia ser preenchido. Por que ele me fez sentir essas coisas? O Dean do futuro, não o que estava presente em minha vida. As batidas foram ouvidas novamente. Dean saiu do pequeno cômodo me deixando sozinha com aquelas fotos em meio a velas.
_Está na hora. – anunciou entrando no corredor depois de um tempo. Reparei na mudança súbita em Dean, ele voltou a ser o comandante de guerra que recebeu sua ex- namorada morta e seu clone em seu acampamento. Despertei do transe em que me encontrava e o segui.
...
Estava no carro com Dean do futuro e o outro rapaz, o percurso foi silencioso, nenhum dos dois ousou dizer alguma coisa, a tensão entre nós era quase palpável, não sabia o que ia ser quando voltasse para meu tempo. Não planejava contar sobre o que ouve para Dean do passado, eu nem a menos sabia o que foi aquilo, e seria bem provável que Dean respondesse com alguma piadinha ou sarcasmo.
Tentava reprimir a lembrança da sensação que tive em seus braços, há muito tempo não me sentia segura nos braços de alguém, na verdade não me lembrava a ultima vez em que fui abraçada.
_Acha que pode dominar uma dessas? – perguntou Dean pegando uma pistola com cano duplo da bolsa com armas que vinha levando no banco de trás do carro.
_Acho que você me conhece a tempo o suficiente para saber que sim. – ele sorriu, peguei a arma verificando se estava carregada. – o carro então parou assim como os que estavam atrás de nós. Continuamos no carro, Dean olhou em volta.
_É aqui. – disse ele. O outro Dean vinha com Castiel até nosso carro.
_Chegamos? – perguntou com o rosto na janela do carro. Dean do futuro assentiu.
_Tenho alguma chance de te convencer a ficar? – perguntou Dean do futuro a mim.
_Não. – respondi.
_Foi o que pensei. – disse ele pegando meu pulso e algemando no volante. Puxei com força o braço tentando me soltar, mas obviamente o esforço foi inútil, só serviu para deixar uma marca vermelha em volta do pulso.
_ Dean, me solta, você sabe que eu posso ajudar. – ele não deu atenção simplesmente desceu do carro pegando a sacola com armas, o rapaz no banco de trás fez do mesmo.
_Você fica aqui, se alguma coisa se mexer atire. – instruiu Dean do futuro ao rapaz entregando a ele uma arma.
_Dean, espera você não pode me deixar aqui! – gritei. Olhei para o outro Dean em busca de alguma ajuda, ele apenas deu de ombros, o fuzilei com olhar.
_A ideia foi dele. – disse se afastando.
_Dean! – gritei, e mais uma vez fui ignorada. Observei enquanto o pequeno grupo se afastava e sumia pelas ruas da cidade destruída. _Droga. – murmurei frustrada. Olhei no carro em busca de alguma coisa para usar como chave, nada, bufei e me acomodei no banco do carro conformada.
_Oi, qual seu nome mesmo? – perguntei ao rapaz.
_Robert. – respondeu com o olhar fixo na mata a nossa frente. Robert era apenas algum centímetro mais alto que eu, ou seja, tinha uma estatura mediana, um porte físico magro mais atlético, aparentava ter uns 30 anos. As pontas do cabelo castanho escuro batiam no ombro, os olhos negros e a pele morena e o quase imperceptível sotaque indicava que tinha ascendência latina.
_Você pode me soltar? – perguntei esperançosa.
_Desculpa senhora, mas não posso, as ordens foram claras: “não a deixe sair”.
_Mas eu sou a mulher do seu chefe então você deveria obedecer a mim também. – apelei.
_Desculpa senhora, mas até onde eu sei você morreu e eu não sei que tipo de aberração sobrenatural a senhora é, e sem querer ofender, não obedeço ordens de quem volta dos mortos. – essa doeu. Robert de repente ficou tenso, com a mira da arma ele observou a mata, deu uns passos à frente com o dedo no gatilho.
_O que foi? – perguntei, ele não respondeu, deu mais uns passos à frente chegando à metade do caminho até a margem da mata. Olhei para o emaranhado de mato e árvores e não vi nenhum perigo à vista.
Robert chegou à margem olhou em volta e relaxou tirando o dedo do gatilho, não havia do que temer. Virou-se para voltar a seu posto quando algo se mexeu atrás dele, abri a boca para alerta-lo, mas a “coisa” foi mais rápida.
Pego de surpresa Robert não pode se defender, foi derrubado no chão. A coisa era um garoto, não muito mais novo que eu, vestindo roupas esfarrapadas e sujas, os dedos finos da mão apertava o pescoço de Robert, este tentava se livrar apalpando o chão alcançando a arma que havia caído com sua queda.
Um tiro bastou para abri um buraco na cabeça do garoto que o atacava. Os pássaros que estavam escondidos na mata se manifestaram ao barulho e voaram para longe. O rosto e pescoço de Robert ficaram vermelhos com o sangue.
Tentei desesperadamente me soltar já prevendo que seria um esforço fadado ao fracasso. Enquanto Robert se livrava do corpo mais dois apareceram. Correndo em direção ao carro Robert conseguiu acertar os dois, para só então mais aparecerem. Eram mais ou menos sete ou nove pessoas, — não pessoas Crots como Dean do futuro gostava de chamar aqueles infectados com o vírus croatoan — Robert abateu a maioria a arma trabalhando como nunca. Os poucos que sobraram conseguiram apanha-lo, um deles jogaram sua arma bem fora de seu alcance.
Iniciou-se uma briga ferrenha, Robert estava em desvantagem e logo foi levado ao chão pelos três sobreviventes. Seus gritos eram agonizantes e difíceis de ouvir. Com o coração martelando no peito fechei rapidamente as janelas do carro. Quando terminaram com Robert vieram correndo em minha direção. Os Crots se chocaram contra a lataria, eram uma mulher e dois homens, suas aparências não era tão decrepita quanto aos que tinha visto até então. Apenas o olhar feroz e ameaçador junto à selvageria dos seus atos os diferenciavam das pessoas normais.
A mulher batia com a mão na janela do lado do motorista onde estava sentada, enquanto os outros se afastaram e vasculharam o chão. Abri o porta luvas novamente, joguei tudo o tinha nele no carpete do carro. Nada, não tinha nada que pudesse usar para abrir a maldita algema. Peguei a arma e a destravei, pensei em atira na corrente da algema, mas fui sensata e não o fiz, o tiro poderia machucar minha mão e prejudicar alguma parte “vital” do carro que poderia explodir comigo dentro.
As batidas da mulher se tornaram mais fortes contra o vidro. Seria ela capaz de quebrar o vidro com os punhos? Um dos homens bateu com uma pedra na janela do carro, no vidro se formaram pequenas rachaduras como uma teia de aranha.
Já não sabia o fazer, estava ficando desesperada, tentei espremer a mão pelo espaço da algema, porém o único jeito de sair seria quebrar todos os ossos da mão, o que não era uma opção muito agradável.
O homem se afastou e lançou a pedra contra o vidro, abaixei a tempo de não ser atingida, o vidro se espatifou lançando os cacos no meu rosto, a pedra bateu na outra janela e se deteve.
Estava perdida, ou talvez não. Algo brilhou no fundo do carpete do carro, peguei o objeto, um clip de papel. Sem demora com o auxilio da boca o desdobrei, deixei a arma no colo e coloquei a ponta do clipe da fechadura da algema. O parceiro do homem que atirou a pedra esticou os braços para dentro do carro. Por ser grande e está acima do peso ele não passou no pequeno espaço que me separava da morte certa. Coloquei o clipe entre os dentes e peguei a arma, atirei sem hesitar, o sague jorrou para todos os lados respingando no meu rosto, braço e se destacando na minha camiseta branca.
A mulher continuava batendo no vidro, o homem puxava o corpo do seu companheiro morto para abrir passagem para si. Voltei a colocar o clipe na fechadura, me atrapalhei com as mãos tremulas e agindo rápido demais deixei o clipe cair. O peguei rapidamente. Precisava me acalmar, respirei fundo, puxei o ar e soltei devagar como Dean havia me ensinado a fazer em situações como esta em que o desespero não ajudava em nada. Era difícil ignorar as batidas e pulsação que ecoavam em meus ouvidos.
Feito isso consegui encaixar o clipe na fenda da fechadura girei um pouquinho e escutei o clique metálico, a algema se abriu, estava livre, pelo menos pensei que estava, ouvi mais vidro se quebrando em seguida meu cabelo sendo puxado.
As mãos da mulher puxavam com força e fúria meu cabelo. Deixei a arma cair tentado me livrar do aperto, o homem morto foi retirado do banco do carona abrindo passagem para que outro tomasse seu lugar, girei meu corpo de modo que pudesse chuta-lo. Meu pé atingiu seu rosto, ele aproveitou o golpe para capturar meu calcanhar e o puxar. Estavam fazendo cabo de guerra com meu corpo. Minha cabeça estava quase do lado de fora da janela. Senti as pontas afiadas dos cacos de vidro rasgar minha nuca, gritei.
Fui arrastada novamente para dentro do carro, aproveitando a oportunidade tirei uma das mãos do punho que puxava meu cabelo e tateei o chão do carro a procura da arma. Encontrei um objeto metálico e solido, era um dos pedais, tentei de novo dessa vez distinguindo a forma da arma, a peguei.
Não pude ver meu oponente, pois minha cabeça estava sendo puxada de modo que só podia ver o teto do carro. Atirei a esmo. O som de metal sendo atingido ecoou me fazendo ouvir um zunido agudo no ouvido direito, tinha errado o tiro, tentei novamente.
Ouvi o som do disparo junto ao som oco do alvo sendo atingido. A confirmação veio quando o aperto no calcanhar diminuiu e senti a umidade do que imaginava ser o sangue do morto na perna da calça. Virei à arma por cima do ombro, a ponta encontrou algo solido e atirei. O tiro atingiu o vazio, disparei novamente e mais uma vez vazio. O aperto no cabelo diminuiu ate não senti mais nada. Um completo silencio se instalou.
Olhei pela janela e não vi ninguém, destranquei a porta e sai alerta a qualquer coisa. Ouvi um som, um gemido fraco, olhei em volta e vi que se tratava de Robert estirado no chão, corri até ele com cuidado para não pisar nos corpos dos Crots. Perguntei-me onde estaria à mulher que apouco quase arrancou minha cabeça.
Ajoelhando ao lado de Robert examinei o que poderia fazer por ele, seu rosto manchado de sangue estava bem inchado, ele se curvava e gemia de dor.
_Aguenta Robert, vou pegar o quite de primeiro socorros. – disse a ele lembrando do quite no banco traseiro do carro.
Fui depressa até o carro desviando novamente dos Crots mortos espalhados por toda parte. Chegando abri a porta e tirei de lá a pequena maleta branca com a cruz vermelha na tampa, destravei o trinco, olhei dentro, para minha decepção só tinha uns frascos de aspirina.
O som de um tiro bem próximo me fez deixar cair à maleta e abaixar a cabeça instintivamente. Virei bem a tempo de ver a mulher que me atacara caída de joelhos bem próxima a meus pés, o sangue brotava de um pequeno arrombo em sua cabeça. Quando ela finalmente caiu com o rosto chapado no chão vi que parte de trás de sua cabeça tinha sido destruída. Era grotesco. Procurei o atirador e vi Robert sentado com sua arma em mãos. Corri de volta até ele ainda me recuperando do susto causado pelo disparo.
_Eu... Fui contaminado... – gaguejou ele e cuspiu o sague em sua boca. Entendia o que ele havia dito, faltava pouco até ele enlouquecer também. _Você precisa ir agora...
Detectei um som novo, som de alguma batendo incessantemente no chão.
_São os Crots – disse Robert contorcendo o rosto de dor. _Você precisa ir agora...
_Vem comigo, eu te ajudo. – poderia ter uma cura, talvez esse não seria seu fim.
_Não, eu já estou morto, você tem que ir rápido. Vou ficar aqui e matar quantos puder e você corra o mais rápido possível. Se vir um deles atire. – instruiu Robert com a voz esganiçada. Considerei o que ele disse, o som estava mais perto agora. Por mais que seria difícil deixa-lo tinha que fazer. Agora conseguia distinguir o som de passos, pés batendo com força no chão.
_Obrigada por salvar minha vida, mesmo achando que sou uma aberração sobrenatural. – agradeci, ele sorriu fraco.
_Vai, dê um fora daqui. – obedeci. Segui para a estrada, mas a visão do bando de Crots que vinham em minha direção me fez recuar e correr para mata atrás de mim.
Embrenhei-me na vegetação crescida e espinhosa da mata completamente alheia de que direção tomar. Coloquei a mão na frente do rosto tentando bloquear os galhos de me atingir. Ouvir alguns disparos ali perto e eles logo cessaram. Sentia por Robert, ele era um bom homem.
Os galhos crescidos aranhavam meus braços por onde corria, não sabia onde aquilo ia dar, podia ouvir os galhos e folhas secas se partindo a pisadas atrás de mim, olhei para trás e conseguir distinguir em meio aos galhos um grupo grande de Crots, eram seis ou mais.
Corri mais depressa possível a distancia entre meus perseguidores e eu era apenas alguns metros, atirei aleatoriamente para trás, errei o tiro. Tentaria novamente dessa vez olhando para dar um tiro certeiro. Disparei, acertei um. Disparei, e mais um foi ao chão. Tentei de novo mais a arma não obedeceu, às balas tinham acabado.
Há muito tempo não sei o que é praticar exercícios físicos consequentemente meu corpo respondeu a isso de modo agressivo. Senti uma pontada aguda na vesícula. Meus pulmões ardendo pelo esforço de inalar oxigênio e liberar gás carbônico. Não poderia parar. Forcei-me a continuar no mesmo ritmo, meu copo pedindo arrego, minha nuca ardendo como fog onde um corte tinha sido feito.
Estava arfando tão depressa tão desesperadamente que isso me deixou momentaneamente zonza. Olhei para trás e constatei que estava numa distância considerável dos Crots, se continuasse nesse ritmo teria alguma chance de me salvar, ou morreria com a falta de ar cada vez mais forte me sufocando e fraquejando minhas pernas.
Perdi o chão sob os pés. Estava caindo de uma ribanceira, meu corpo foi rolando e rolando, algumas pedras se chocarem contra minha pele e ossos na queda, até que parei bruscamente com a cara na terra, tentei me erguer, mas meus braços cederam me fazendo cair de novo. Virei o rosto para tentar capturar o máximo de ar possível, mesmo com a terra entrando na minha boca meus pulmões agradeceram, era como se eu tivesse ficado em baixo d’água por muito tempo. Tossi algumas vezes e conseguir me reerguer.
Vi um buraco a minha frente, um espécie de túnel, ou toca, ao longe ouvir os passos e vozes alteradas dos Crots. Não sabia que eles podiam falar, e se podem falar e se comunicar poderia raciocinar.
Sem perder muito tempo pensando na dor no corpo me arrastei para o túnel. Estava escuro, a única luz vinha de duas entradas, uma por onde passei e outra oposta. Não era um espaço muito grande nem em comprimento nem em largura, cabia ali só que abaixada. Sentei no meio com as pernas dobradas e encostei-me à parede circular, sentia a terra e vegetação ceder sobre minhas costas e cabelo. Fiquei preocupada se aquilo poderia desabar na minha cabeça.
Ainda tinha a respiração irregular, a boca seca e terrosa assim como a garganta, necessitava de água. As pernas com caibras fortes, a nuca latejando e o coração batendo tão acelerado que conseguia senti-lo nos ouvidos. Resumindo estava acabada, um trapo sujo e dolorido. Não fazia ideia do quanto tinha corrido e onde estava.
Como sairia dali? E como voltaria para Dean e meu tempo?
“... Vocês vão para aquele lado, e você por aqui”... Ouvir dizer uma voz forte e ruidosa acima de mim. Temia por eles serem capazes de ouvirem as batidas do meu coração e minha respiração ofegante.
“Olhem, lá embaixo, é uma arma” Disse uma voz feminina. Senti meu sangue gelar.
“vão desçam depressa...” comandou a voz forte. Tinha que agir para não ser pega. Arrastei-me no túnel chegando à saída, observei cautelosa, apenas um deles era visível, mas logo se juntou ao seu grupo. Sair tentando fazer o mínimo de barulho possível. Olhando atrás vi que meus perseguidores tentavam descer a ribanceira se agarrando a um cipó, eram um grupo de quatro, apenas uma mulher.
Sendo o máximo furtiva possível fui me escondendo atrás de árvores, avançando desse jeito sem fazer muito barulho e tomando o cuidado para não ser vista. Estava ficando quase longe do perigo quando ouvir um grito ao longe. Olhei para trás e eles avançavam na minha direção. Praguejei baixo.
Corri mais uma vez tentando ignorar as dores musculares nas pernas e no corpo inteiro. Os Crots estavam longe e era só uma questão de tempo ate me alcançarem. Corri, corri e corri. Num momento de distração olhando para trás tropecei, de imediato sentir a dor lancinante no tornozelo, o pior não foi isso. Havia tropeçado num corpo, o corpo de Dean. Gritei de dor e horror. Seus olhos verdes estavam sem vida o pescoço num contorno estranho. Usando os braços impulsionei meu corpo para trás me afastando.
Senti as lágrimas queimarem nos olhos, para só então ver a alguns metros atrás de mim o outro Dean parado me olhando e a sua frente um homem bastante alto. Vestido inteiramente de branco ele se destacava no cenário verde e terroso. Ele tinha um rosto bonito, o nariz afilado, cabelos castanhos compridos colocados atrás da orelha e os olhos verdes familiares.
O homem de branco olhou para mim. Fui sugada por aquele olhar. Era como se ele pudesse ver além de mim, além da minha figura em carne osso. Sentir um aperto no peito e tudo parou, o tempo parou assim como qualquer som. Só existia eu e ele, Dean e todo resto eram figuras petrificadas e embaçadas. Uma angústia tomou conta de mim, um medo irracional, um pressentimento ruim e atordoante. A dor que estava presente em minha vida e minhas memórias veio em uma máxima potencia. Senti uma vontade inexplicável de chorar, derramar o mar de lágrimas que vinha guardando a sete chaves, mas não conseguia, por mais que tentasse não conseguia por para fora, estava sufocando...
O rapaz de branco sorriu gentilmente e então sumiu levando todo sentimento ruim que havia sentido no momento anterior com ele. Soltei o ar que até então não sabia que prendia.
Aos poucos as coisas foram recobrando sua nitidez, Dean corria até mim, o tempo voltando em seu estado normal, tinha se passado apenas segundos ou menos, mas pareceu uma eternidade enquanto estava presa em meu transe. O som foi voltando de vagar, ouvia ao longe a voz de Dean chamando meu nome, seu rosto bem perto do meu. Sua voz se tornando mais clara e estridente. Estava sendo sacudida por ele, a dor no tornozelo me acordando por completo. Estava de volta ao meu pesadelo.
_Isabel, responde, olha para mim. – disse Dean a mim com os olhos arregalados. Seu rosto marcado com linhas úmidas, ele estivera chorando. Passei a mão no meu rosto e o senti molhado, tirei as mãos e as olhei, os dedos voltaram molhados de um liquido transparente. Estive chorando inconscientemente.
_Qual você é? – perguntei com a voz rouca devido à garganta seca.
_Do passado, ou presente – respondeu com o cenho franzido. Sentir uma pontada de alívio. _Como chegou aqui, e esse sangue? – perguntou preocupado.
_Não é meu – não tinha tempo para explicações agora. _Nós temos que ir, os Crots... Eles estão vindo. – disse depressa, tentando controlar a respiração. Com o recado entendido ele me ajudou a levantar. Só de tentar pisar com pé direito no chão a dor foi imensa me fazendo fraquejar de dor, Dean me segurou impedindo que caísse.
_Tudo bem? Acha que consegue? – perguntou com o braço em volta da minha cintura me amparando.
_Consigo. – menti, não sabia se conseguiria, mas ia tentar nem que desse tudo de mim.
_Vamos. – disse ele com o olhar determinado, sem nenhuma sombra do medo que eu sentia. O invejei por isso.
Andamos depressa Dean ainda me amparando, estava difícil ignorar a dor, meus olhos queimavam tentando conter as lágrimas, não ia chorar, não agora. É só uma dorzinha, não é nada, você não é fraca, precisa continuar. Dizia a mim mesma tentando me convencer. Mas não dava, meu corpo era fraco.
_Ei, tudo bem? – perguntou Dean parando.
_Não, meu tornozelo, acho que torci. – disse a verdade.
_Por que não me disse antes? Precisa parar se não pode piorar.
_Não. Dá para aguentar, eu consigo – menti de novo. _ Aliás, o que posso fazer? Ainda não desenvolvi a capacidade de voar. – disse irritada, não com ele comigo mesma por ser tão fraca. Não podia me culpar foi um acidente estúpido, porém não dava para evitar me sentir patética tendo que ser praticamente carregada por Dean.
_Não banque a engraçadinha agora. – ele olhou para os lados atento. Os Crots estavam chegando perto, ouvir o som das folhas sendo esmagadas sob seus pés. Dean me tomou nos braços sem menor cerimonia, enlacei os meus em volta do seu pescoço para que não caísse.
Estávamos correndo, quero dizer Dean estava correndo. Ele me carregava com facilidade como se não pesasse mais que um quilo.
Com a cabeça em seu peito ouvir seus batimentos fortes. Não conseguia ver se os Crots estavam próximos demais, só podia ouvir.
Sentia-me envergonhada por Dean ter que me carregar no colo como um bebê indefeso. Ele corria rápido e em ziguezague, os passos atrás de nós ficando mais distantes.
Dean parou e lançou olhares alarmados para os lados. Quase pulei do seu colo de tão desesperada e ávida para mostrar que não era uma completa inútil, mas repensei isso, seria estupidez poderia quebrar o pé. Agora não era a hora para orgulho. Ele me ajeitou no colo e recomeçou a correr. Sua respiração começando a ficar ofegante.
Depois de um tempo correndo acho que despistamos os Crots. Dean parou e me colocou com cuidado no chão deixando o braço em volta da minha cintura. Sua respiração estava acelerada.
_Sabe como sair daqui? – perguntei a ele.
_Estamos quase lá. – disse Dean fazendo menção e me por de novo no colo. Contrair o corpo.
_Se estamos chegando acho que posso ir com minhas próprias pernas. – ele bufou me pegando novamente dessa vez me colocando sobre o ombro. Andou depressa, não correndo.
_Dean me põe no chão está me deixando tonta. – pedi sentindo o sague escorrer da nuca para a raiz do meu cabelo. Dean parou bruscamente e me colocou no chão, me firmei com um pé só. Seu rosto estava assustado, segui seu olhar e vi dois Crots parados com tacos de beisebol nas mãos. Meu coração voltou a acelerar.
Apoie-me em Dean que me segurou com firmeza. Demos alguns passos para trás e batemos em mais Crots, os que correram atrás de nós. Dean reagiu me soltando e dando um soco no rosto do que estava atrás de si. Não lutaram por muito tempo, o taco de beisebol nas mãos de um deles acertaram as costas de Dean o forçando a parar e cair de joelhos. Aproveitando sua vulnerabilidade eles o pegaram e prenderam seus braços as costas fizeram o mesmo comigo. Debati sobre os braços que me prendiam o que só adiantou para apertarem ainda mais, estavam nos afastamos, mas algo aconteceu.
Zacharias estava de volta, ele tocou nossas testas com as pontas dos dedos e no segundo seguinte estávamos de volta à loja. O menino do caixa arregalou os olhos e gritou caindo inconsciente no chão.
_Ora se não é o fantasma do natal do inferno. – disse Dean.
_Chega. Chega de piadas Dean, você viu como vai ficar. – disse Zacharias.
_Isso pode ter sido um truque, uma pegadinha angelical. Espero que tenham se divertido assistindo a gente quase morrer naquele inferno! – disse Dean com raiva.
_Não foi um truque. Aquele inferno é consequência de seus atos. Você pode acabar com tudo isso. Diga Sim a Miguel e salve seu irmão, salve Isabel antes que Lúcifer chegue a eles. A vida de milhões está em suas mãos. – Dean fraquejou um pouco diante as revelações de Zacharias. Sua armadura estava rachando. Queria defende-lo enfrentar Zacharias, mas me detive. Ele se moveu ficando de costas para Zacharias. Estava considerando o que o anjo tinha dito, porém um brilho novo surgiu em seu olhar o renovando, ele respirou fundo. Sua confiança e até mesmo arrogância estava de volta.
_Não. – disse ele confiante.
_Não? – repetiu Zacharias incrédulo. _Muito bem. Tenho outros truques na manga moleque. Eu te peguei e não vou...
Estávamos agora na rua deserta onde tínhamos deixado o Impala. Deixamos a loja no meio da fala de Zacharias.
Uma nova versão de Castiel estava a nossa frente. Este limpo, sem barba e vestindo um sobretudo. Não tinha aquele ar solto e despreocupado como no futuro, era exatamente como na imagem que guardei na minha memoria.
_Resolveu dar o ar da graça bem na hora Castiel – disse Dean, tinha alguma coisa no seu tom de voz. _Onde você esteve cara. Eu liguei, chamei e até rezei e você não apareceu. Já esqueceu como se usa a droga de um telefone? – A mudança no tom de voz antes era raiva controlada que agora transparecia. Não via razão naquilo, Castiel salvou nossas vidas ele merecia mais gratidão.
_Desculpe estive ocupado. – Castiel respondeu as acusações calmamente.
_Ocupado? O mundo está indo para o buraco e você resolveu tirar férias? – Dean sorriu forçado. _Ah, é claro, você estar caçando Deus.
_É Dean eu estou procurando o único que pode nos salvar. Você deveria me agradece, o que estou fazendo é para livrar você de Miguel. – disse Castiel, o rosto normalmente inexpressível se transformando numa expressão impaciente.
_Pelo visto essa sua pequena jornada não está dando muito certo. Eu continuo aqui me ferrando, tendo que fugir de demônios, virando brinquedo daquele maldito anjo. Você deixou uma bomba no meu colo e tirou seu traseiro angelical da reta antes que explodisse, simplesmente sumiu durante um mês. Então me desculpa se não estou sendo grato o suficiente. – explodiu Dean. Me sentia magoada pelo vinha descobrindo de Dean naquele dia. Eu era apenas uma bomba para ele, um fardo que ele teve que carregar sozinho. Quanto antes me acostumasse à ideia menos dolorosa seria.
_Você não é o único sendo caçado, eu tenho matado meus irmãos, como já fiz antes por você, então me desculpa se não ouvi seus recados estava ocupado demais salvando sua vida.
_Não Castiel, o que quero de você são respostas honestas. Que tal me contar agora o que sabe. Se não percebeu estamos andando em círculos aqui. – isso era sobre mim.
_Eu também não sei Dean. Se está se referindo a ela estou tão perdido quanto você. Posso dizer que os anjos estão confusos, estão começando a falar. Estão agindo do princípio de que os demônios querem alguma coisa dela. Para eles isso não pode ser bom. – os olhos se voltaram para mim.
_O que isso quer dizer? – perguntei com a garganta se fechando.
_Isso quer dizer que é melhor continuarem correndo. – o ar a nossa volta parecia pesado de repente. _Estou fazendo o que posso Dean, mas não tenho as respostas que você quer.
O anjo e o homem se voltaram um para o outro. Os ânimos estavam se acalmando, suas expressões desafiadoras suavizando. Dean relaxou e suspirou em exaustão.
_Como sabia onde eu estava? – perguntou recobrando a paciência e a calma.
_Estive seguindo Zacharias sem ele saber, agora é claro ele já sabe. Zacharias vem descobrindo algumas coisas, isso me levou até vocês. – disse Castiel no seu tom habitual.
_Agora você é o 007 dos anjos. – comentou Dean com um breve sorriso.
_O quê? – perguntou Castiel confuso.
_Nada. Antes de sumir faz um pequeno favor. Volta no posto e pega a gasolina... – Castiel não esperou Dean terminar, sumiu. Percebi que toda vez que éramos transportado por anjos era perceptível ouvir um leve som de um bater de asas e uma lufada de ar. Três segundo depois Castiel estava de volta com o galão de gasolina em mãos. Entregou a Dean.
_Preciso ir. – disse ele mais sério.
_E Cass, não mude nunca. – disse Dean com meio sorriso. Castiel assentiu e olhou para mim, sorri de leve para ele que correspondeu com uma assentida e sumiu em seguida.
...
Estávamos fazendo o retorno, era perigoso demais ficar no Kansas. Só ficamos o suficiente para alugar um quarto, (no meio do caminho entre o estado anterior e Kansas), tomar banho, o que foi uma tortura por causa do ferimento na nuca e dos variados arranhões nos braços e rosto.
Estava começando a colecionar cortes e hematomas no corpo. Desde que Dean entrou na minha vida não tenho passado uma semana sem que um ferimento novo apareça.
Fiz um curativo no corte, que felizmente era superficial, vesti uma roupa limpa, lavei o cabelo sujo de sangue e terra, e logo saímos.
Agora estacionávamos o carro num hotel de beira da estrada para dormir um pouco, estávamos mortos de cansaço.
Pegamos a chave e subimos. Pela falta de elevador Dean teve que me ajudar a subir. Tomei mais um banho quente que relaxou um pouco meus músculos doloridos. Olhei no pequeno espelho os variados hematomas espalhados pelo corpo inteiro, tinha tomado um remédio, mas a dor ainda permanecia, precisava urgentemente dormir.
Saindo do banheiro Dean entrou.
Sentada na cama vestindo um pijama escovei o cabelo molhado, pensando no homem de branco que tinha sugado qualquer fio de esperança e felicidade na qual vinha me agarrando. Sentia um calafrio ao reviver aquele momento.
...
Enquanto deixava a água escorrer pelo corpo Dean pensou na conversa que teve com Lúcifer no corpo de seu irmão. Não iria deixar as coisas chegarem a esse ponto. O mais aterrorizante era um personagem novo surgindo na trama: Isabel. Dean revivei em sua mente tumultuada a conversa que teve com seu eu do futuro.
_Como ela morreu? – perguntou Dean do passado a seu clone do futuro.
_Foi há três anos. Um grupo de sobreviventes entrou em contato como nosso rádio, a área onde estavam era muito perigosa, tivemos muitas baixas naquela época, não podia arriscar meu pessoal e claro poderia ser uma armadilha. Foram duas semanas ouvindo o mesmo chamado. Até que Isabel é claro não concordou mais em ignorar o pedido de socorro– disse Dean do futuro com um sorriso à lembrança da teimosia de sua amada. _Naquele dia brigamos feio, e sabe o que ela disse para mim? – perguntou. O outro balançou a cabeça em sinal negativo.
_ “O que nos diferencia Deles é nossa humanidade.” – respondeu ele a própria pergunta repetindo a frase que estava cravada em sua mente, poderia até ouvir a voz enfurecida de Isabel quando a disse. _ Eu a deixei que liderasse um grupo de busca, nunca tinha feito isso, ela encarou a missão com responsabilidade e tinha gostado, você a conhece, sabe que ela precisa da sua independência para não se sentir inútil e frágil. Eu a protegia demais e isso a deixava com raiva, mas o que podia fazer? não podia tirar os olhos dela, você entende.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!“Então naquele dia eu a deixei ir. Se tudo corresse bem a missão levaria só duas horas, mas ai passou três, quatro...”– a emoção de lembrar aquele dia estava fazendo efeito na sua voz, pigarreou uma vez e retomou o relato. _Esperei tempo demais, quando cheguei estavam todos mortos e ela tinha sumido. – concluiu amargamente.
_E você não procurou? – perguntou Dean do passado.
_Procurei, e ainda procuro. Passou-se três anos e nenhum rastro. Eu torturei cada demoniozinho que encontrei e nenhum deles disseram nada, eles tinham medo, não de mim, do chefe, tinham medo do que ele iria fazer se dissesse alguma coisa, imploravam para morrer. A partir daí tudo foi piorando os demônios se tornaram mais fortes e ficou quase impossível capturar um deles. Tive sorte com o que peguei essa semana, e mais sorte ainda por que ele disse o paradeiro de Lúcifer.
_Acha que ela pode está viva? – perguntou Dean do passado com um nó na garganta.
_Eu não sei. Mas tenho certeza que foi ele. Lúcifer a pegou e essa noite eu vou descobrir o porquê e meter uma bala na cabeça daquele verme nem que seja a última coisa que eu faça. – Dean do futuro tinha esperanças de encontrar Isabel viva, mas à medida que o tempo passava ficava mais difícil manter esse sentimento. A única coisa que restou foi à sede de vingança. Mas se pudesse voltar no tempo teria dito Sim a Miguel e ela estaria viva. Mas ele não disse e sabia que o seu passado que o encarava não diria.
_Quer dizer que nunca soube o que queriam com ela? E o Cass, nunca disse a você?
_Ha Cass... – refletiu seu futuro. _Ele desapareceu quando Sam disse Sim e antes disso ele só me contou histórias tiradas do fã clube de Deus. Não ajudou muito a entender, pelo contrário. Depois disso o reencontrei ano passado, coberto de sangue numa vala e completamente humano. Ele me disse que Lúcifer havia matado todos os anjos exceto aqueles que ele queria torturar. Castiel foi um deles. Ele nunca me contou como escapou e eu nunca perguntei.
Dean não acreditava no que ouvia.
_Quando você voltar diga Sim, salve o Sam, salve Isabel. – tentou convencer a si mesmo...
As palavras de Lúcifer sobre ela o preencheu ainda mais de preocupação e ele sentiu um frio no estômago.
_... Não importa o que você faça nós vamos sempre terminar aqui – aquelas palavras o perfuraram como veneno. As lágrimas de ódio e pesar rolaram pelo rosto de Dean. _E Isabel, ela é minha e sempre foi. Mais cedo ou mais tarde ela vira até mim não importa o que você mude no seu presente. Não pode fazer nada para mudar isso...
Saindo do banheiro ele a viu observar o corte na nuca com o espelho que segurava na mão esquerda.
Ali ele teve certeza que faria o necessário para salvá-la. Sentia-se ainda mais responsável por aquela vida. Era questão de não deixar que o diabo vencesse.
_Posso? – perguntou Dean sentando a suas costas, pegou o material para refazer o curativo. Ela fez um coque no cabelo facilitando o trabalho. O corte vinha da base da raiz do cabelo até o fim do pescoço em diagonal, era superficial cicatrizaria rápido, mas mesmo assim precisava de cuidados.
_Dean, por que não me contou que era o receptáculo de Miguel? – perguntou ela. Pela falta de medicamento Dean umedeceu um pedaço de algodão com uísque barato e passou no corte fazendo Isabel retesiar as costas. Ele soprou de leve tentando diminui a ardência que ela sentia.
_ Você tem problemas e eu tenho os meus. Não achei necessário contar. – esperava que ela dissesse algo, mas ela não disse o que era pior. De onde estava podia sentir o perfume delicado do cabelo de Isabel recém-lavado. Pensou que poderia beijá-la ali agora, queria saber como seria. Afastou logo o pensamento colocando a cabeça no lugar e terminou o curativo.
_Tudo bem? – perguntou ele.
_Descobrir que vou morrer ou ser perseguida por Crots não foi à parte mais divertida da nossa viagem no tempo. – respondeu ela, mesmo de costas ele podia dizer que ela estava com sorriso leve e entristecido no rosto, era surpreendente como ainda conseguia sorrir. E lá estava à garota forte que Dean conhecia, mesmo nas piores situações ela conseguia manter o controle.
_É isso não tem nos filmes – disse ele se permitindo a um sorriso. _Não se preocupe aquilo não vai acontecer. Eu vou protegê-la. Confia em mim. Você vai casar com um cara que a mereça e vocês vão morar numa casinha de cerca branca ter filhos, netos e ficar velhinhos. Ele vai reclamar que você o proibiu de comer hambúrguer por causa do colesterol e você vai reclamar que ele não está mais dando no coro como antes. – ela gargalhou diante da profecia de Dean, estava ficando mais difícil ficar brava com ele. Ele gostava do som de sua risada.
_Boa noite. – disse ele indo para sua cama.
_Boa noite. – respondeu ela agradecida por ele estar ali.
_Dean? – perguntou Isabel já em sua cama. _Quem era o cara de branco? – ele não respondeu. Um silêncio percorreu o quarto, quando achou que ele ia se instalar Dean o quebrou.
_Acho que você sabe. – respondeu ele sombrio. É, ela sabia.
Dean saiu da cama, eram 5 da manhã, Isabel dormia pesadamente na cama ao lado, já ele não conseguiu pregar o olho durante a noite toda. Sentia-se tão cansado, mas não conseguia dormir, tinha uma força maior que perturbava seu sono, não iria descansar até ouvir a voz segura de uma pessoa.
Pegou o telefone na escrivaninha e saiu do quarto. Achou o numero na agenda do celular e discou para fazer a ligação. Primeiro toque. Vamos, atende essa droga. Segundo toque. Terceiro toque. Uma voz alarmada atendeu:
_Dean? Dean. É você? – sou eu maninho, só liguei para saber se você está bem? Queria responder Dean e ao invés disso desligou o telefone sem dizer uma palavra e voltou para cama.
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