Broken Girl

11 Capítulo onze: Não tenha medo do escuro


Notas iniciais
Oláaaa mais um saindo do forno. Espero muuuuito que gostem. Estou bem insegura com esse capítulo e as consequências dele... maas foi feito com muito carinho. Boa leitura! Enjoy^^

Em baixo d'água tinha o efeito que queria. Não conseguia ouvir nada, nem a minha respiração. Ali conseguia por meus pensamentos em ordem. Estava a tanto tempo naquela banheira que meus dedos ficaram enrugados, a pele avermelhada de tanto esfregar.

Poderia tomar mil outros banhos como aqueles, mas nunca iria me sentir limpa de verdade.

Ia fazer quase uma semana em que estava instalada na casa do Bobby. O clima é denso com o luto. Dean não vem encarando isso muito bem, na maioria das vezes que o vejo ele está com um copo de Uísque na mão e nem um pouco receptivo a conversas.

Esse foi o tempo suficiente para ver bem a diferença entre Sam e Dean. Enquanto Dean parecia me evitar passei a maior parte do tempo com Sam. Conversávamos sobre qualquer coisa, ele era mais leve e bem mais fácil de lidar. Não tocamos no assunto Dean ou Lúcifer ou eu. Ele entedia a minha necessidade de tentar cobrir esse assunto do que falar sobre ele.

Observei as bolhas de ar subirem para superfície. Ergui o tronco e respirei. Sai da banheira e comecei a me secar. Ainda era muito recente para deixar de evitar me olhar no espelho e não lembrar á minha mãe. Tudo em mim pertencia a ela. Até a minha vida. E se Lúcifer estava certo ela estava sofrendo agora enquanto eu estava de mãos atadas.

Enrolando a toalha no corpo comecei a vasculhar as gavetas do pequeno armário do quarto. Entre tubo de pastas de dentes, alguns barbeadores e fio dental encontrei o que procurava; Uma tesoura.

Sem a menor cerimonia cortei um pedaço do meu cabelo. Ele havia crescido consideravelmente nos últimos meses, o comprimento vinha a cintura , gostava dele cumprido, mas analisando melhor me deixava com cara de mais nova, e eu ficava tão parecida com ela...

Fui cortando, tomando coragem para subir mais os centímetros. A pia, com o ralo tampado, se encheu de um emaranhado de cabelo em pouco tempo. O negro dos fios contrastando com a cerâmica branca. A parte mais difícil foi a de trás, pegava uma mecha aleatória e cortava sem a menor preocupação de está tudo certinho ou não.

Pousei a tesoura na bancada e admirei o resultado. Com ele já secando, as pontas em aspirais se formando roçavam em meus ombros.

As vezes um corte novo, uma cor diferente, não significava querer está na moda, significava uma mudança. Você muda seu exterior para ser mais fácil administrar as mudanças interiores. Meus fios perdidos na pia significavam uma grande mudança para mim.

Já não aguentava mais chorar ou tentar achar a normalidade em mim. Eu mudei. Há seis anos escolhi mudar sem ter noção do quanto isso afetaria meu futuro. Naquela época estava extasiada com a promessa de que ficaria bem, de que voltaria a me sentir em paz novamente. Mas aquilo nunca existiu.

E agora não irar existir. E eu estava me agarrando a minha fragilidade.

Tinha que enfiar uma coisa na minha cabeça: Não sou normal e nunca vou ser, lide com isso.

Ainda estava sofrendo? Sim. Ainda me sentia fraca e instável? Com certeza. Só que não ia deixar que soubessem disso, não ia deixa me abalar por causa disso. As vezes é melhor desligar as emoções por um tempo até que a maré volte a se assentar.

Me vesti, usando meu velho jeans rasgado, a minha camiseta, surrada de tanto usar, do The Smiths– presente de Adam — e meus costumeiros coturnos.

A porta foi aberta e Dean entrou, ele passou os olhos em mim, o fitei. Na verdade não sabia o que esperar dele. Ele havia andado bem esquisito.

_O que foi? Parece que viu um fantasma. Você não viu um fantasma, viu? – perguntou Dean intrigado.

_Não, não é nada. – mesmo desconfiado ele deu de ombros.

Dean colocou um copo na cômoda e puxou de uma sacola de papel, que não tinha notado que vinha trazendo, uma garrafa de Uísque.

Ele tirou o lacre da tampa e abriu. O cheiro forte brincou no meu nariz. Fui até ele. Ele encheu o copo pela metade, o afastei, fazendo o copo deslizar na madeira do móvel antes que ele pegasse.

_Não acha que está um pouco cedo para beber? – perguntei.

_O que é agora, virou funcionária do AA? – retrucou.

_Dean, eu tenho o observado, você passa o dia inteiro de mal humor, só senta num canto e enche a cara. Eu sei que o que aconteceu com a Jo e...

_Não, não. Pode parar por ai. Não vem dá uma de mestre dos magos comigo. – ele puxou o copo de volta, um pouco do líquido escapou do copo antes de ele virar tudo numa só golada.

_Só estou tentando te ajudar. – tirei o copo gentilmente de sua mão e me movi no espaço mínimo entre o móvel e ele. Entrelacei as mãos em volta do seu pescoço. Ele permaneceu impassível e imóvel. _Dean, fala comigo, eu estou aqui, e você sabe disso. Não pode guardar tudo para si e fingir que está tudo bem.

_Eu estou bem. – ninguém poderia dizer que aquilo soou como uma verdade.

_Não, não está. Não foi sua culpa o que aconteceu, me deixe ajudá-lo a...

_Por que não ajuda a si mesma. – ele não soou raivoso, mas sim frio. Para mim foi como levar uma bofetada. O empurrei com força para longe.

_Tem alguma coisa que quer me dizer? – perguntei devolvendo sua grosseria.

_Não sei, você tem alguma coisa que quer me dizer?

_Do que está falando? – perguntei confusa.

_Ultimamente você anda por aí cheia de segredos. Não me contou sobre esses sonhos que na verdade são memórias, não me contou que tem habilidades sobrenaturais. Eu nem sei mais o que diabos você é ou o que pensar. – o encarei chocada. Ele se referia a mim como uma coisa indefinida. Era assim que ele me via. _E não venha cheia de doce para cima de mim enquanto por trás você se enfia nos cantos com meu irmão e mente na minha cara. – ele praticamente cuspiu a última parte.

_Eu não menti para você! E talvez eu não me enfiasse nos cantos com Sam se você se desse o trabalho de olhar para minha cara, mas é claro, para você agora eu sou só uma coisa. Ah, quer saber, Dean. Vai se ferrar.

Com isso atravessei o quarto e bati a porta bem forte atrás de mim.

_Isabel, espera. – ouvi Dean gritar, mas já estava na metade das escadas.

Quando cheguei a sala ouvi os passos de Dean ecoarem na escada. Sam vinha na minha direção, eu praticamente corria. Estava tão atordoada e tomada pela raiva, que não calculei a tempo e o espaço vago entre Same eu.

Meu rosto bateu com tudo na muralha que era seu peito, era pequena demais comparada a ele para resistir ao impacto. Por sorte Sam tinha um reflexo melhor que o meu, ele segurou meu braço antes que eu caísse para trás.

_Tudo bem? – perguntou quando recuperei equilíbrio, seus olhos pararam no meu cabelo. _Eu gostei. – sorri, ou pelo menos tentei.

_Obrigada. Me desculpe, eu só, Deus eu quero atirar no seu irmão agora. – como se aparecesse só por menção a ele, Dean já me arrastou para longe, Sam nos observou confuso, passamos pela porta, e ele bateu a atrás de si.

Andamos um pouco e paramos no meio de uma fileira de carros velhos empilhados feito latas de sardinhas. Dean olhava para um ponto além de mim.

_Se me trouxe aqui só para admirar a paisagem eu vou voltar... – ele pegou braço antes que eu fugisse.

_Eu queria me desculpar. Não queria ser grosseiro... – ele fez um pausa, soltou meu braço e olhou para mim como se eu tivesse começado a ficar azul. _O que fez com seu cabelo?

_Sério, Dean? – perguntei vendo sua tentativa de desculpas escapar.

_Não, eu gostei, ficou... diferente. – ele afastou uma mecha do meu cabelo da bochecha que a brisa tinha soprado. O que não esperava era que ele segurasse meu queixo e se inclinasse para me beijar brevemente.

_O que foi... – comecei dizer e deixei a frase ser interrompia por outro beijo, dessa vez mais aprofundado, tranquilo e sem pressa. Nenhum dos dois estava em perigo mortal, ou sendo atacado por um anjo ou demônio, então para que ter pressa.

Joguei meus braços sobre seus ombros e ele agarrou minha cintura. Sentia sua falta. O problema era que Dean agia quase de forma mecânica, o jeito como conduzia o beijo, suas mão na minha cintura, era tudo muito calculado. Pela primeira vez não sentia as famosas borboletas no estômago. O que sentia era uma pontada no peito.

Nos separamos e deixamos o fantasma do desconforto pairar sobre nós, então ele sorriu.

_O que foi? – perguntei sorrindo também mesmo não sabendo o motivo.

_Você, não consegue resistir, não é?

_Como é que é?

_Eu não sei não, dizem que relações assim sempre acaba com, digamos, um dos lados flechado pelo Cupido. – ri, pela primeira vez em semanas.

_Está tentando me dizer alguma coisa? –o provoquei.

_Eu? Não. Só estou dizendo, vi você outro dia olhando para o minha bunda.

_Não estava! – protestei mesmo que rindo. Era bom saber que Dean ainda tentava salvar o que tínhamos.

_Pode me dizer. São meus olhos ou meus mamilos? Mas tenho que dizer, mulher, eu sou um cara difícil, tem que me conquistar primeiro. – ele tomou um ar convencido. Não tinha nada o que fazer a não ser rir. Como sentia falta daquele humor. Mesmo que lá no fundo sabia que ele tentava da melhor maneira possível, mas era incapaz de disfarça como realmente se sentai em relação a mim.

_Você é ridículo. – ele sorriu sacana.

_Sou adorável.

_Dean! – o chamado de Sam nos alcançou. Dean deixou um grunhido de frustração escapar.

_O que será agora? – ele voltou pelo nosso caminho percorrido comigo atrás tentando acompanhar seus passos rápido.

Sam e Bobby estavam debruçados sobre alguma coisa na escrivaninha. Chegando mais perto ouvi primeiro o chiado e depois vi que se tratava de um rádio comunicador velho.

...Aqui... é alfa cinco... tem... na escuta. Precisamos de ajuda, estamos...ataque. Temos mulheres e crianças precisando de ajuda... qualquer caçador... Aqui é Jhonny Hill... Estamos presos em Buford, Wyoming.... por favor... precisamos...

Bobby tentava fazer contato, mas não teve sucesso.

Nos entreolhamos, era um pedido de ajuda, estávamos perto e não podíamos simplesmente ignorar e sentar para o almoço. Mas... tinha um mas.

_Conhece esse tal de Jhonny Hill? – perguntou Sam.

_Nunca ouvi falar, posso tentar ver com alguns outros caçadores. – respondeu Bobby e se afastou para os telefones. Dean e Sam trocaram olhares.

_O que você acha? – perguntou Dean a Sam.

_Acho que devemos verificar, eles estão precisando de ajuda. Mas, Buford é praticamente uma cidade deserta.

_E se isso for uma armadilha? – levantei a questão. Os meninos se voltaram para mim.

_É uma boa pergunta. – Sam também compreendia minha objeção. Dean sorriu distraidamente.

_O que é engraçado? – perguntei.

_Nada, é só que eu pensei que você ia ser a primeira a votar sim para partirmos.

_Por que achou isso? – perguntei franzindo o cenho. Ele balançou a cabeça como se para afastar uma memória.

_Nada , esquece. – deu de ombros.

Bobby tinha voltado.

_Rufus disse que trabalhou num caso com um Jonathan Hill há um tempo atrás. O sujeito parece confiável, mas são tempos estranhos.

_Tudo bem, estamos dentro. – Dean olhou para mim, esperei preparada para contestar se ele me dissesse para ficar que seria perigoso. Ele não disse nada, desviou o olhar e se voltou para Sam.

_Posso falar com você um minuto? – perguntou a Sam. Sam assentiu. _Isabel, arrume suas coisas vamos sair o mais rápido possível, com sorte chegamos ao anoitecer.

Concordei e subi as escadas para o quarto.

Arrumamos tudo e nos despedimos de Bobby. Agradeci a ele por tudo o que tinha feito por mim, ele respondeu com um pedido: Manter os traseiros dos meninos na linha.

Não íamos voltar quando acabássemos em Buford. Era hora de voltar para estrada. Me sentia um tanto aliviada de voltar a ativa. A novidade era que não sentia mais a necessidade de estabilidade. Tinha pegado gosto pelo oficio, isso me mantinha focada em outras coisas.

… — ...

Da janela do banco detrás do Impala acompanhava a paisagem sentindo o vento soprar o meu cabelo. A nossa volta o cenário era marcado com o contorno não linear das planícies. Aqui e ali pinheiros se erguiam como arranha-céus. Algumas nuvens brancas feito algodão passeavam tranquilamente sob o céu azul.

Minha câmera não parava quieta, tentava registrar tudo. Deixar minhas boas visões eternizada nas fotos, para que se um dia tudo isso não existir mais alguém ache essas fotos e veja como tudo era antes. Do jeito que Deus moldou.

Apontei a lente para Dean, seu rosto de perfil se enquadrou para mim, com a luz do sol de começo de tarde refletindo seu cabelo tomou um tom mais dourado e seus olhos brilhavam da cor da grama de um jardim bem cuidado. Essa com certeza era uma visão que gostaria de guardar. Mudei de posição no banco. Sam tinha o rosto voltado para janela, não era um bom enquadramento, me ajeitei no banco concentrada em olhar pela visão da câmera, o Impala passou por um quebra mola e eu fui para frente batendo o rosto no banco do motorista.

_Tudo bem ai atrás? – perguntou Dean.

_Tudo eu só... – Sam virou o rosto para mim, era o quadro perfeito. _Sam, não se mexe. – voltei a olhar pela câmera e Sam começou a protestar virando o rosto. _Sam, eu não tenho nenhuma foto sua, anda, olha para cá antes que o sol baixe. – Metade do rosto de Sam era iluminado pela luz dourada, deixando seus fios em tom acobreado.

_Não estamos indo para Disneylândia, Isabel. – reclamou Dean.

_Então por que resolveu incorporar o pateta. – rebati. Sam riu. Dean forjou um riso.

_Engraçadinha. – murmurou.

_Continua olhando a estrada. – com mão empurrei seu rosto gentilmente para estrada a nossa frente. Sam olhou para mim. Levei a câmera ao rosto, nossos olhares se encontraram através da lente. Ele sorriu timidamente, fiquei presa ali por uns segundos, observando pela minha máscara de vidro frágil e circular. Seus feições bem desenhadas era um belo contraste com seu passado sombrio e o que ele sabia fazer de melhor. Sob a luz apropriada era fácil esquecer que ele libertou a criatura da qual sou parte e da qual quero destruir.

Como um piscar de olhos sua imagem a perfeição foi registrada. Sorri em agradecimento, ele ficou sério de repente e se voltou para janela, estilhaçando qualquer que seja o significado dos segundos antes. Voltei a me recostar no banco e olhar para janela oposta a dele.

Agora não éramos só eu e Dean. Sam vinha com a gente. Era uma coisa boa, eles finalmente estavam acertando os ponteiro e superando qualquer que seja o obstáculo que os manteve afastado. Ainda não sabia como isso estava sendo para Dean, mas sabia que ele tomou a decisão correta para os dois. Era bom ter Sam ali para equilibrar o peso do que vinha acontecendo entre mim e Dean.

Se é que existia um Eu e Dean.



A paisagem se tornou escura com o cair da madrugada. A tensão começou a ocupar seu lugar no carro, estávamos chegando. O que nos esperávamos?

O cansaço também nos abatia, Sam estava apagado, eu tinha acabado de acordar. Passei a mão pelo cabelo para ajeitá-lo e estranhei quando senti os fios terminarem nos meus ombros.

Dean bocejava ao volante. Durante todo o nosso tempo na estrada nunca tinha dirigido o Impala, não tinha percebido até então o quanto isso teve ter exaustado Dean. Dirigir a noite toda enquanto eu apagava ao seu lado.

_Dean, deveria tentar descansar um pouco. – disse a ele baixo para não acordar Sam.

_Não é um má ideia. To quase caindo de cara no volante. – ele reduziu a velocidade e parou o carro no encostamento. Balançou o ombro de Sam, que acordou sobressaltado e apertou os olhos para ele tentando ver com a pouca luz. _Pode assumir, preciso tirar um ronco.

Sam piscou mais uma vez e depois concordou, seu cabelo estava amassado em um dos lados e seu rosto ainda estava sonolento, ele passou a mão no rosto e se preparou para sair do carro.

_Eu posso dirigir. – disse entre um bocejo de Sam.

_Você nem tem carteira. – protestou Dean.

_Não tô vendo nenhuma patrulha por perto. – na verdade parecíamos ser o único carro na estrada.

_Tem certeza?

_Tenho. – afirmei sem muita firmeza. Já começava sentir o estômago se agitar.

Descemos do carro, Sam tomou o meu lugar e Dean o dele. Me coloquei no banco do motorista, apertei minhas mãos ao volante com tanta força que os nós dos meus dedos ficaram brancos. Tinha travado, a respiração começando a falhar. Não entre em pânico. Dei o comando a mim mesma.

Não foi tão difícil dirigir quando fui exigir respostas a Dean. Naquela vez estava tão avida por explicações que soube controlar minha "fobia" a carros. Também não tem sido um problema viajar com Dean no Impala.

Mas ter o carro pulsando em baixo de mim esperando para ser reanimado por mim era algo bem diferente.

_Tudo bem? – perguntou Dean.

_Tudo. – afirmei ligando o moto. Repassei os comando básicos da direção na minha cabeça. Em etapas, como ensinam nas autoescola. Desse jeito consegui colocar o carro de volta a estrada. Respirei com mais facilidade enquanto ele deslizava na pista.

_Pode ir mais rápido, desse jeito vamos chegar lá amanhã. – obedeci e pisei mais fundo no acelerador. _Só por favor, não arranhe o carro. – murmurou já pegando no sono com a cabeça encostada na jaqueta contra a janela.

Era equivalente para quem tem medo de altura pular de paraquedas. No primeiro momento é aterrorizante, no segundo você aprende a abrigar o medo e controlar para que ele não sufoque você e vença. Um batalha no seu interior.

Dean não sabia que era eu quem estava dirigindo na noite em que minha mãe e meu irmão morreram, na noite em que eu morri. Acho que não contei a ele por que não queria que fosse verdade. Era mais fácil seguir em frente omitindo esse detalhe.

O mostrador de gasolina ficava cada vez mais baixo, por sorte logo a nossa frente eu via um posto, totalmente solitário na paisagem rural e deserta de Buford.

Encostei o Impala próximo a bomba de gasolina. Dean e Sam dormiam de um jeito que nem se passasse uma banda eles iriam acordar.

Desci do carro e comecei a encher o tanque.

Tinha uma loja de conveniência ao fundo. Quando terminei de encher tirei a mangueira do carro, peguei a chave do carro e fui até a loja. Quando abri a porta um sininho tocou, vi movimento no caixa. Uma mulher loura me observou com seu olhos pequenos demais para seu rosto rechonchudo. Como era madrugada se esperava que a loja não tivesse nem uma viva alma.

Peguei água e algumas barras de cereais. Enquanto a mulher batia os produtos na caixa registradora olhava os cartões dispostos ao lado. Era Valentine Day. Tinha me esquecido completamente. Os cartões vinham recheados de poemas e frases melosas decorados com corações e flores purpurinadas. Bem no fundo vi um roxo mais simples, dentro dizia "Eu amo nós", muito brega.

A mulher me disse o preço das compras e da gasolina, dei a ela o cartão. Ao acaso escolhi outro cartão, um rosa; na frente dois querubins com bochechas rosadas seguravam um faixa com a frase "Happy Valentine's Day", dentro "Os anjos estão cuidando do nosso amor". Sorri vendo a ironia na frase. Talvez poderia transformar aquele dia numa piada particular entre mim e Dean.

_Esse também. – dei o cartão a mulher.

_Dois dólares. – disse numa voz desanimada. Ela olhou de mim para o Impala lá fora. Quando voltou a olhar para mim seus olhos estavam mais alerta.

Peguei as notas no bolso e entreguei a ela pegando a sacola do balcão e enfiando o cartão no bolso da calça. Quando saí foi que notei um homem ao telefone do lado de fora da loja, afastado o suficiente para que não conseguisse ouvir o que dizia. Passei por ele sem dar importância e fui para o carro.

O guarda do posto vinha até mim. Ele tinha um jeito estranho de caminhar, como se mancasse. Quando chegou mais perto vi que vestia o uniforme velho e encardido do posto, enfiado na cabeça um boné surrado com a aba torta. Fios totalmente grisalhos escapavam das laterais do boné e preenchia o espaço em volta da boca.

Ele sorriu para mim, os dentes amarelados brilhando na noite.

_Está perdida moça? – perguntou, ele tinha um sotaque carregado do interior. Resisti a vontade de me afastar dele.

_Não. – respondi, abrindo a porta do carro.

_Essa é uma bela máquina. – ele se curvou para olhar dentro do Impala. _Deixe-me adivinhar, viajando com o namorado e o grandão ali é o melhor amigo secretamente apaixonado por você? – apontou para Dean e Sam no carro. Forcei um sorriso.

_Acho melhor voltar pegar a estrada. – disse entrando no Impala.

_Claro, claro. Boa viajem. – enquanto ele acenava eu arrancava com o carro. Poderia colocar isso na lista de coisas estranhas em Buford.

Quando me dei conta de que só ouvia o som do Impala na estrada meu coração começou a palpitar. Por onde olhava só via uma longa fila de pinheiros a esquerda ladeando a estrada e a direita terrenos cercados a perder de vista com casinhas, que pareciam minúsculas pela distância, pontilhando a vastidão.

Em pouco tempo os sinais de civilização apareciam. Alguns prédios escuros, galpões e algumas fabricas. Tudo muito singular. Sam tinha razão, Buford era praticamente uma cidade fantasma.

Diminuir com carro, minha respiração descompassando não acompanhando as dos meninos.

O carro deu um tranco, tinha passado por alguma coisa. O tranco brusco fez Sam acordar. Ele se inclinou para frente no banco e olhou pela janela. A única fonte de luz vinha da luz e dos faróis. Senti o carro rebaixando, os pneus provavelmente tinham furados. Virei no banco e olhei para Sam. Ele parecia tão desconfiado quanto eu os olhos alertas brilhando no escuro.

Balancei Dean, ele acordou, levou alguns segundos para se encontrar. Desliguei o motor e esperei por algum movimentos da mata a meu lado ou das construções a frente.

_Acho que o pneu furou. – disse baixinho. Totalmente despertos Sam e Dean sacaram as armas e pegaram lanternas no porta luvas, fiz o mesmo.

_Que comece a festa. – murmurou Dean, abrindo a porta. Antes que eu saísse ele segurou meu pulso. _Não saia de perto de mim ou do Sam, entendeu? – disse muito sério. Fiz que sim com a cabeça. Dean tirou a faca de matar demônios da jaqueta e me entregou. A coloquei seguramente no cinto.

Do lado de fora segurei a lanterna numa das mãos e a arma apoiada na mesma. Passei o facho por todos os lados, Dean verificava o pneu.

_Os pneus dianteiros estão furados, e não foi por acaso, alguém deixou alguma coisa na estrada para que furassem. – Dean e Sam ficaram tensos e dirigiram os fachos da lanterna para tudo a nossa volta.

_Isso me parece uma armadilha. – Sam apontou o obvio.

_Acha mesmo Indiana Jones? – mesmo brincando Dean não abandonou o tom apreensivo. Um barulho soou mais a frente. Passos, e não de uma pessoa só. Minha mão suava no metal frio da arma.

Iluminados por nossas lanternas silhuetas foram se tornando visíveis. Mais ou menos sete pessoas aparentemente não armados vinham em nossa direção ao longe.

_Perdidos? – era a segunda vez que me faziam essa pergunta. _Podemos mostrar o caminho de volta para o inferno, Winchester.

Isso foi como se alguém tivesse gritado "Já!" para que Sam e Dean disparassem suas armas.

Os tiros com as balas de sal não surtiu muito efeito, eles avançavam e vinham rápidos.

_O que a gente faz? – perguntei.

_Corremos. – disseram Sam e Dean ao mesmo tempo.

_Papai já volta baby. – disse Dean ao carro antes de começar a correr.

Corríamos voltando pela entrada de Buford. Nossas lanternas faziam um dança louca de luzes por onde passávamos.

Poeira era levantada enquanto nossos passos, juntos aos dos nossos perseguidores, soavam solitários na noite fria. Já perdia o fôlego, Dean me pegou pelo pulso me arrastando para frente.

Dean não foi o único a pegar em mim. Não consegui registrar como, mas já estava caída de costas no chão árido com um demônio em cima de mim. Dean foi rápido em chutar sua barriga e faze–lo cair para o lado. Saquei a faca do cinto e girei o corpo enterrando a lâmina no peito do demônio. Um menino, talvez 16 ou 18 anos. Engoli em seco para não bloquear a passagem de ar.

Dean foi afastado de mim um homem grande e corpulento o pegou por trás fechando o ante braço musculoso em seu pescoço. Sam agiu colocando o braço dele em volta do demônio devolvendo o golpe que aplicava. O demônio soltou Dean e tentou se livrar de Sam. Dean se voltou para mim, joguei a faca, ele a pegou no ar e cravou no pescoço do que atacava Sam. As luzes piscando no interior dos demônios eram como flashes na iluminação precária, nossas lanternas já tinham escapado de nossas mãos a tempos.

Os outros que ficaram para trás já nos alcançavam. Levantei me preparando. O que chegou mais perto atacou Sam, que desviou a tempo de um soco e num reflexo rápido o chutou para longe. O demônio se chocou contra a cerca ao lado, dessa vez a faca foi passada para Sam. Menos um.

Num momento de distração não vi que um deles vinha para cima de mim, era uma mulher, ela me empurrou para fora do caminho. Meu corpo foi jogado para lado como se não pesasse nada. Antes de cair minhas mãos deslizaram num tronco de uma árvore e meu queixo atingiu dolorosamente sua raiz. Ela me tirou do caminho para acertar Dean e estava armada, um pé de cabra brilhava em suas mãos.

Me movi depressa tentando sair do tapete emaranhado de folhas secas, tentei levantar e o ar em meus pulmões foi expulso pelo pé atingindo a minha coluna. Rolei para o lado arfando de dor. Um menino vestindo um macacão de operário me observava enquanto eu me contorcia no chão. Ele riu. Quando suspendeu o pé para me acertar de novo fui rápida e puxei com o meu o pé que sustentava seu peso.

Ele caiu de costas. Poderia atirar em sua cabeça, isso ia atrasa-lo, mas era só um menino magrelo e sujo. Não dava para ver bem seu rosto para deduzir sua idade, mas se fosse chutar diria uns 13 anos. Ele soltou um grito quase gutural e saltou para cima de mim aproveitando minha hesitação. Desviei a tempo de ele não consegui me acertar com uma pedra.

No pé da árvore, um pouco mais distante de onde caí, havia um rolo de fio prata, me arrastei impulsionando o corpo para frene para pega-lo. Era um arame farpado, chutei a lateral do corpo do menino quando ele tentou levantar, pude sentir na ponta do pé os ossos da sua costela.

Pressionei o joelho em suas costas o impedindo de levantar com meu peso.

_Não quero machucar você, por que não deixa o menino livre. – disse enrolando o arrame, o ligando a uma mão a outra, o resto se enrolava ao nosso lado.

_Vai se ferrar vadia. – disse o demônio na sua voz em transição para a adolescência.

_Tudo bem, se quer brincar assim... – passei o fio pelo seu pescoço e o puxei firme, não me importava se o arrame cortava minha mão recém curada e costurada. Puxei com força sentindo a resistência da sua garganta, aos poucos o fio foi encravando em sua carne. Ele soltou um grito curto e rouco. Isso não ia matar o demônio, mas o atrasaria.

Senti o fio passar com mais facilidade, se continuasse ia decepá-lo. Parei, o que estava fazendo? Ia decapitar um garoto? Soltei o fio das mãos e sair de cima dele assustada com minha própria insensibilidade.

Antes que me desse conta, mãos já arrastavam meus ombros para longe do garoto. Suspensa pelo braço fui arremessada e caí a poucos metros a frente. Olhei para ver quem me atingiu, dessa vez o demônio possuía um adulto. Tentei me levantar, mas o demônio já avançava com um taco de beisebol erguido sobre a cabeça. Ele não conseguiu chegar até mim. Sam cortou seu pescoço com a faca. Ele acendeu e apagou, seu corpo caiu inerte para frente, rolei para o lado para que não caísse em cima de mim.

Sentei no chão e esperei uma mãozinha de Sam para levantar. Sam não pareceu notar nada a mais, ele olhava fixamente a faca em sua mão, o sangue brilhava na lâmina escorrendo para seus dedos.

_Uma ajudinha aqui. – a voz esganiçada veio detrás de mim. Dean estava caído com a mulher que me empurrou tentando enterrar o pé de cabra em seu peito. Dean segurava seu braço para impedi-la mas, ela era muito forte, a ponta estava poucos centímetros do coração de Dean. Levantei depressa, sem esperar por Sam.

Chegando até eles me coloquei atrás da mulher e segurei o cabo de ferro aplicando força para soltá-lo de seus mãos. Não sei se foi por que o demônio não esperava, mas o ferro deslizou de suas mãos com facilidade, tão facilidade que caí para trás.

Ela olhou sobre os ombros, os olhos arregalados brilhando para mim. Ela sorriu, da sua mão surgindo um faca. Foi muito rápido, o medo fazendo meu coração quase parar por completo e meu sangue gelando.

_Não! – gritei, ela ergueu a faca e a impulsionou para frente. A próxima coisa foi minha mão agarrando seu cabelo e a puxando para trás junto a mim. Subi em cima dela e apertei sua garganta com uma das mãos e a outra segurando seu pulso com a faca brilhando com o sangue sujando a lâmina.

Apertei com mais força sua traqueia e como a explosão de uma supernova uma luz branca banhou o lugar. Não conseguia ver o rosto de demônio, por causa da claridade excessiva, mas ouvia seu grito de dor e o sentia se contorcer em baixo de mim. Só mais um pouco, com os olhos lacrimejantes gritei junto com ela.

A luz apagou, a luz morno que vinha de mim, ela parou de gritar e eu também. De novo com auxilio da luz prateada da lua cheia eu via o que restou dela. Não seria exagero dizer que aquela mulher tinha sofrido queimaduras de altos graus. Ela não tinha mais olhos, seu rosto derreteu dando a ela a aparência de um Wendigo. Seus braços também queimaram em vários pontos, sua carne em baixo de mim ainda estava quente e soltando fumaça. Quando soltei minha mão da sua garganta pedaços de pele grudaram na palma. Balancei a mão para me livrar da pele e soltei para longe dela.

O que Lúcifer acharia disso?

Minha cabeça parecia ter fritado também, pontadas fortes castigavam meu cérebro, era quase insuportável. Me coloquei em cima de Dean, procurando o ferimento da faca. Ele apertava a lateral da barriga fazendo uma careta.

_Me deixe vê. – pedi sentindo como se meu cérebro fosse se espalhar a qualquer momento no chão. Quando nossos olhos se encontraram os deles pareciam assustados. Ele tinha medo de mim, percebi pelo modo como retesiou o corpo quando encostei nele. Tirei minha mão dele e balancei a cabeça negativamente. _Eu não sei. – foi o melhor que consegui. Houve um momento em que ele olhava para mim de um jeito estranho e eu devolvia o olhar preste a me afastar para não machucá-lo também.

Dean levantou a mão tocando de leve meu rosto, fiquei imóvel feito uma pedra, ele deslizou o polegar abaixo do meu nariz e afastou a mão, seu dedo veio sujo com sangue, meu sangue.

Passei a costa da mão abaixo do nariz para me limpar. Tinha tanto sangue na minha mão que era difícil saber qual era o meu. Mesmo cauteloso sobre mim ele pareceu preocupado. Tomei a liberdade de toca-lo outra vez, coloquei minha mão sobre a dele na barriga.

_Não foi nada demais, foi só a ponta da faca. – disse ele com a voz torcida, mesmo com dor ele tentava parecer firme.

_Dean, tira a mão. – ele afastou a mão debaixo da minha. Na camisa um rasgo provocado pela faca, o tecido em volta estava escuro por conta do sangue. Levantei sua camisa até o corte. A fenda na lateral da sua barriga, tinha mais ou menos cinco centímetro. Sujo com sangue e escuro demais não dava para ver se era profundo ou não.

_Cadê o Sam? – perguntou olhando para os lados. Ele levantou o tronco se sentando, vasculhou onde a visão poderia alcançar. Também olhei a minha volta. Estávamos sozinhos, exceto pelos corpos dos demônios espalhados por toda parte.

_Ele estava bem atrás de mim. – olhei para trás e só vi o princípio da mata. Não era densa, as árvores eram bem espaçadas e provavelmente teria trilhas ali dentro.

Dean começou a levantar, o segurei pela cintura o ajudando, ele grunhiu de dor mais conseguiu ficar de pé. Seu rosto tenso também estava sujo com poeira e sangue.

_Sammy! – gritou, sua voz ecoou pelo espaço vazio. Tinha começado a ficar preocupada.

_Sam! – gritei fazendo minha voz soar mais alta com a mão em conchas em volta da boca. Não era uma boa ideia gritar num território de demônios.

_Conte os corpos daquele lado. – disse Dean apontando para uma direção e seguindo para outra. Comecei contar. A mulher queimada, o homem que Sam matou e um outro mais afastado perto da cerca.

_Três. – disse a Dean.

_Aqui só tem dois, o que atacou você primeiro e um moleque. – ele se recostou na arvore com o corpo do menino aos seus pés. _Eu tenho certeza que vimos mais que isso, eles devem ter esperado o momento certo para pegá-lo desprevenido.

Passei a mão pelo cabelo, os fios machucaram os pontos abertos pelo arame farpado. Dean pegou o celular do bolso começou discar. Bem perto de mim o fliper de um celular acendeu e o toque do celular foi ouvido, Dean soltou um palavrão. Peguei o aparelho do chão e ao lado a faca que mata demônios.

_O que a gente faz agora? – entreguei eles a Dean. Antes que Dean respondesse o menino se mexeu. Esperamos alertas. Ele se sentou ao pé da arvore e arrancou o arrame do pescoço, um jorro de sangue desceu pelo seu pescoço ensopando seu macacão. Dean o pegou pelo colarinho levantando seu corpo magro facilmente. O imprensando na árvore a faca de demônios foi encostada bem acima do corte profundo do arrame.

_Para onde levaram meu irmão? – rosnou Dean. O garoto abriu a boca, não foram palavras que saíram e sim uma golfada de sangue que lhe escorreu pelo queixo sujando a mão de Dean. É claro que ele não podia falar com as cordas vocais cortadas. Dean deixou escapar baixinho mais um palavrão. _Você fez isso? – perguntou com o cenho franzido.

_São só demônios. – as palavras que foram sopradas quase inaudíveis da minha boca. Um gosto amargo me subiu pela garganta.

O demônio abriu a boca mais uma vez e uma fumaça negra escapou por ela se juntando as sombras da noite. Dean soltou o corpo e ele caiu como um saco vazio ao pé da arvore.

_Só demônios. – repetiu Dean chegando mais perto de mim. Com o rosto sujo iluminado pela luz pálida ele parecia assustador. _Estamos no meio do nada cercados por demônios, meu carro tá ferrado e provavelmente caímos numa armadilha. Sam resolveu brincar de pique esconde, você deu uma de Super Sayajin e agora eu tenho o corpo de uma criança com o pescoço cortado com arrame farpado e você me vem com essa. – meu estômago revirava, minha cabeça martelava e a cada passo de Dean sentia meu coração martelar.

_Dean, eu...

_Você não sabe. – ele me cortou, agora tão próximo que sua altura e presença imposta a mim pareciam me fazer encolher. _O que está acontecendo com você? Não estou te reconhecendo. Todos esses segredos e esses super poderes do demônio ou anjo, já nem sei mais. Droga, você torrou um demônio de um jeito que nunca vi um anjo fazer. Por que não me contou quando descobriu a verdade sobre você? Eu soube por que imprensei o Castiel que, adivinha só, você quase matou também. Estou me esforçando para entender seus motivos e aceitar tudo isso, mas tem coisas que não desce.

Respirei fundo, ele estava me confrontando. Tudo nele me coagia eu não fazia ideia de como me defender ou parar fazer minha garganta para de fechar.

_Eu não contei por que não sou mais a garota normal com um passado triste. Eu não queria contar por que eu tenho sangue de demônio nas minha veias e parte de mim, a que mantem viva, é parte também do diabo que quer atear fogo no planeta. – falar em voz alta tornava tudo pior, era a confirmação verbal para tudo o que vinha sentindo. De alguma forma tinha medo de minhas palavras eternizarem aquilo. _Não posso mais fingir, não sou normal, não mais. Sou as duas coisas que você mais odeia. E isso está saindo do controle, droga, quase matei um arcanjo e acabei de matar um demônio com as mãos. E eu posso sentir essa... essa energia por todo o meu corpo. E fica cada vez mais forte. Sinto como se fosse uma bomba relógio.

Dean virou o rosto e balançou a cabeça.

_Não, não é isso. Não pode culpar o que tem dentro de você pelas coisas que você faz. Olha aquele garoto, você pelo menos sente remorso? Imagino pela sua reação que tenha sido fácil degolar uma criança. Não era o sangue do demônio ou a essência de Lúcifer, era você Isabel. Isso é uma questão de saber o que é certo ou errado mesmo que as vezes esses dois se cruzam.

Cada palavra dele era como um prego martelado no meu corpo.

_Está dizendo que eu matei uma criança?

_Não foi isso que eu quis dizer.

_Não? Por que foi exatamente isso que eu ouvi. Você está dizendo que não sei separar o certo do errado. Que não sou uma boa pessoa. – o empurrei, ele cambaleou com a mão na barriga e fazendo uma careta de dor.

_Você sabe Isabel, separar o certo do errado? Você está se sentindo uma boa pessoa? – perguntou em tom carregado de escárnio e raiva.

_Não fala assim comigo! E não sei se percebeu, mas acabei de salvar seu traseiro! – gritei, as lágrimas de ódio ameaçando a escapar. Apertei os olhos para voltar enxergar nitidamente.

_As vezes sinto como se não soubesse quem você é de verdade. – disse ele calmamente.

_Vou ligar para meu psiquiatra e dizer que agora tenho distúrbio de personalidade. – o meu sarcasmo escorria de cada palavra.

_É disso que eu estou falando.

_O que você quer de mim?

_Quero que seja honesta comigo.

_Eu sou honesta com você! E que tal você ser honesto comigo? Por que não tenha coragem de dizer na minha cara o que realmente acha de mim. Depois que descobriu que não sou mais a princesinha presa na torre esperando que o príncipe encantado me salve você mudou comigo. – como era fácil deixar que a nossa raiva tome partido na discussão. Estávamos ambos brigando no meio de lugar nenhum e seguindo o rumo para o mesmo destino. Sabia que estávamos prontos para ferir um a outro com nossas palavras. Por que continuávamos a fazer aquilo? _Acha mesmo que sou cega e não percebo que quando olha para mim está escrito aberração na sua testa. – peguei suas mãos e as deslizei pela minha cintura abaixo da camiseta, senti seus dedos calejados e sujos na minha pele arrepiando. Continuei em tom mais baixo: _Diz que ainda tem tesão por mim, que mesmo sabendo que sou parte demônio, mesmo assim ainda transaria comigo. Me prove que estou errada.

Fiz suas mão deslizarem para mais abaixo da e as prensei ali me apertando contra ele. Podia sentir sua respiração acelerando no meu cabelo e senti no seu pescoço o cheiro de suor, couro e sangue. Assim como sempre começava, uma faísca se acendeu entre nossos corpos tão juntos, dando brecha para que aquilo se tornasse chamas. Com a rapidez que começou foi apagada quando Dean pegou meus ombros e me empurrou para longe.

_Olha o que você está fazendo, usando sexo como arma, isso não é você.

_Eu continuo a mesma só que sendo colocadas em situações diferentes. – disse ainda sentindo o desejo desafiar a nós dois.

_Para com esse joguinho de ser sexy e bancar a vítima ao mesmo tempo. Esses sorrisos e olhares, é como faz para trazer as pessoas para seu lado e os fazer esquecer de colocá-la contra a parede. Assim como fez com Sam e o que tem feito comigo. Você acha isso certo? Acha que é atitude de uma pessoa boa?

Era impressionante a velocidade que o fogo da raiva nos consumia. Queimando e envenenando nossas palavras. Como um castelo de cartas tudo o que construíamos estava prestes a cair com um simples sopro.

_Você se esconde nessa capa de herói, se cobre com toda essa culpa por ter deixado uma pobre garota morrer para você poder acertar uma no diabo. Mas quem é você Dean Winchester? Você fala de mim quando só para passar o tempo você torturou almas inocentes no inferno. – cheguei bem perto do seu rosto vendo cada linha, contorno e desenhos de sua expressão se transformar, seus olhos faiscavam cegos pela raiva. _Acha que é atitude de uma boa pessoa? – O som a nossa volta foi abafado, o efeito de estar debaixo d'água de volta a aquela banheira. Os insetos pareciam prender a respiração assim como as árvores, e assim como nós. Ele estava me olhando como se eu estivesse cravado uma faca em seu coração, como se o tivesse abandonado para morrer.

Não me reconhecia, ele também não. Não era mais a garota em perigo, a vítima, humana, era a garota metade demônio metade anjo. Essa criatura era quem ele via. Esquecia como respirar. O próximo som que ouvi foi o da palma de sua mão atingindo meu rosto.

Estava em choque, a mão no rosto onde latejava por causa do tapa. Dei passos para trás e ele também recuou assustado com sua atitude violenta.

Nosso conto de fadas estava distorcido e totalmente destruído. A dor no peito foi o equivalente a se ele tivesse atirado em mim. Dean me fitava horrorizado, suas mãos tremiam ao lado do corpo seus olhos brilhavam, ou pelo menos pareciam brilhar, não conseguia ver direito com as lágrimas encharcando meu rosto.

Dean se aproximou de mim, tentou me tocar.

_Tire as mãos de mim! – gritei o empurrando para longe, ele era mais alto e forte, não consegui o efeito que queria. Dean segurou meus punhos quando estes tentavam atingir seu peito. _Saí de perto de mim!

_Eu sinto muito, não queria... – ele tentava dizer em meio aos meus gritos e soluços.

_Não toca em mim! Me solta! – ele me soltou não conseguindo me conter enquanto me debati em seus braços. Me afastei dele para caí de joelhos ali perto. Tossi até despejar para fora tudo o que tinha no meu estômago.

Me afogava, ou era essa a sensação. Não conseguia respirar direito. Aquilo me deixava tonta e sufocada. Espremida em tantas sensações que mal conseguia suportar. A bofetada de Dean fez mais do que me fazer odiá-lo, fez cair a ficha do que realmente estava acontecendo.

De repente toda carga das minhas descobertas caía, me esmagando e prensando em um estado de horror. Pânico, raiva, medo, paixão, tudo misturado em um corpo só. Faltava pouco para entrar em combustão.

Era estranho se olhasse a retrospectiva do dia, começou com a promessa de um novo começo, uma versão mais forte de mim e até um corte novo de cabelo, e no fim do dia estou ajoelhada no chão suja dos pés a cabeça e chorando como se não existisse amanhã. A vida é cheia de surpresas.

Dean se juntou a mim, tive coragem de olhar para ele, marcas modestas de lágrimas marcavam seu rosto sujo. Ainda estava em processo de controlar a mim mesma. Ainda sentia a raiva fluir em cada nervo meu, tinha certeza que se ele tocasse em mim poderia machucá-lo, por sorte ele não fez isso.

_Você bate como uma garota. – encontrei num lugar sombrio a vontade rir. Quando acabei sustentei bem meu olhar no dele e disse com mais clareza e frieza que pude aplicar: _Eu odeio você. – ele não pestanejou ou desviou o olhar.

_Droga, como eu te amo. – disse me fitando muito sério. _Mas não posso esquecer o que disse para mim. – com isso ele levantou e saiu andando em volto a escuridão. Observei ele se afastar sentindo minha cabeça girar e meu coração acelerar. Parei de chorar para poder me concentrar em vê o significado do que ele havia me dito.

_Onde você vai? – gritei com a voz modificada pelos recentes soluços.

_Achar o Sam. – gritou de volta sem se virar. Levantei não me preocupando em limpar da roupa a sujeira da terra.

_Vai me deixar aqui sozinha?

_Me ouviu dizer que não podia vir comigo? – rebateu. Limpei o rosto com as costas das mãos assentando tudo o que sentia para não perder o controle outra vez. Por enquanto aquele assunto teria uma vírgula, não um ponto final, sabíamos disso.

Me apressei a segui-lo. Dean recolhia as lanternas que deixamos no caminho. Desligou duas e deixou uma ligada usando como guia.

Viramos ao mesmo tempo quando ouvimos um som de motor se aproxima. Através das árvores ao lado vimos os faróis. Sacamos as armas e Dean segurou na outra mão a faca. Esperamos. O som foi se aproximando.

Logo um carro se precipitou no começo da estrada e nos atingiu com a luz dos faróis impedindo que víssemos qualquer coisa a mais. O carro parou a poucos metros de nós, era um carro grande, provavelmente uma picape. As portas se abriram e soltaram de lá homens apontando armas para nós. Fazíamos o mesmo para as silhuetas variadas de quatro pessoas contra luz forte.

... — ...

Sam acordava do desmaio provocado pela coronhada na cabeça, ele piscou e não viu absolutamente nada. Registrou de imediato algumas coisas, estava deitado em uma superfície que se movia depressa demais, pelo ronco do moto conseguiu saber que era um carro. A segunda coisa foi que estava amarrado por uma corda, as mãos atrás das costas e uma venda cobrindo os olhos. E por último, ele estava sendo sequestrado e o que quer que quisessem com ele não era nada bom.

Com os pensamentos em ordem ele começou a agir por puro impulso de tentar se livrar daquilo. Sua cabeça doía e a falta de visão o deixava mais temeroso e nervoso. Era difícil traçar um plano sem que enxergasse o obstáculo.

_O que querem de mim? – perguntou para o vazio, seu corpo bateu na lateral da lataria quando o furgão deu uma guinada a direita. Sam marcou isso, virada a direita. Pelas trepidadas que davam ele diria que estavam numa estrada de terra, então só podia estar ainda em Buford. Nenhum som diferente do carro se movimentando lhe oferecia mais informação.

_Ele acordou. – anunciou uma voz perto, mas longe o suficiente para não estar ao seu lado. Ela vinha do lado do banco de motorista. Sam se contorceu para poder ficar sentado. Após algumas tentativas conseguiu.

_Relaxa Winchester, você já vai descobrir. – respondeu o motorista. Pela sua entonação ele parecia satisfeito com sua carga, e também sabia seu nome só poderia ser um dos demônios que os ataram quando chegaram a cidade.

_Isso tudo é algum esquema para me fazer dizer Sim? – perguntou Sam, tentando buscar no bolso da calça um canivete.

_Do que esse cara está falando? – questionou a primeira voz. Sam franziu o cenho, um demônio que não sabia quem ele era, que tipo de cilada era aquela?

_Cala boca, Leo. – respondeu o outro com ferocidade.

_É Leon!

_Tanto faz. – murmurou o motorista.

_Não quero saber de problemas para meu lado, assim queentregarmos ele eu quero passe livre para fora da cidade. – disse o carona, pela voz ele parecia ser jovem e definitivamente era um humano. – o motorista gargalhou. _O que é?

_Você não vai ganhar nada caipira. Éramos para pegar Sam e Dean, não só o Sam, seu imbecil! – gritou fazendo o mais jovem se calar.

_Como eu ia saber que eles eram tudo isso, e ninguém me avisou que trariam a Lara Croft? Se tivesse me avisado eu teria... – o garoto parou de falar, Sam ouviu o som que ele produziu como se estivesse sendo estrangulado, e de fato estava. Depois Sam ouviu uma golfada de ar e uma sequência de tosse. O garoto já não falava nem uma palavra durante todo o caminho.

Sam não tinha tido sucesso em alcançar o canivete, o carro parou e voltou a se movimentar em uma estrada mais nivelada. Minutos depois parou por completo. Sam se preparou nervoso. Os homens desceram do carro e a próxima coisa que Sam ouviu foi uma porta abri bem perto.

Mãos masculinas o agarram, ele se agitou tentando encontrar qualquer movimento em si para se defender. Eles o arrastavam para algum lugar. Subiram um degrau e passaram por mais uma porta. Sam continuava atento a qualquer coisa, mas parte da sua concentração estava focada em apenas um coisa.

Sua mão suava e a respiração pesava. O cheiro impregnado nos homens que o arrastavam era agora tão forte. Achava que se prestasse bem a atenção podia ouvir, além do seu coração batendo forte, o sangue pulsar nas veias dos demônios.

Os homens abriram outra porta e pararam nesta. Eles cortaram as cordas de Sam e depois o empurraram para frente. Sam tropeçou, mas se manteve em pé. Ansioso ele arrancou a venda.

A mudança de luminosidade o fez piscar se adaptando para só então Sam olhar ao redor abismado. Ele estava pronto para uma luta, esperava por isso. Mas não teria, não ali. Tinha pelo menos dez demônios, incluindo algumas mulheres, todos olhavam para ele sorrindo e cochichando entre si. Estavam em uma fabrica abandonada, no centro de um grande pátio iluminado com fracas luzes amareladas.

O chão sob seus pés era sujo e escuro, as janelas amareladas com o tempo, por toda parte se via esqueletos defasados de grandes máquinas e engrenagem abaixo de passarelas enferrujadas.

Um caminhar soou de cima despertando a curiosidade de Sam, ele o seguiu. Um demônio atravessava a passarela acima dele. Ele acompanhou os passos que faziam correntes tilintarem.

_Sammy! Meu convidado de honra. – a voz fez eco nas paredes e deixou um resquício em Sam. _Esperávamos por você para começar a festa. – o homem desceu por uma escada, passou pelos demônios e parou a frente de Sam no meio do meio círculo. Ele sorria, Sam conhecia aquele sorriso, tinha o visto várias vezes, compartilhado tantas vezes os seus com os dele.

_Brady. – Sam já avançava possuído pela raiva e não pensando direito. Aquele era, ou já foi, o seu amigo, melhor que isso, ele o apresentou para a mulher que ele amou. Sam o aconselhou e o ajudou tanto que aquilo estava na sua lista de coisas boas que ele havia feito a alguém.

Antes que Sam chegasse a Brady, mãos o seguraram, como um touro indomável ele tentava alcançar Brady a todo custo. Se debatia nos braços dos demônios que obviamente eram mais forte que ele.

_Calma Sammy, achei que ia ficar feliz em encontrar um velho amigo. O Brady aqui sentiu sua falta. – falou o demônio com o rosto conhecido. Sam ofegava, impotente enquanto tentava absorver o que acontecia ali.

_A quanto tempo? – gritou.

_Há um longo, longo tempo. Você foi um bom amigo Sam, sempre tentando colocar o problemático do Brady nos trilhos. – ele falava com entusiasmo, feliz com a situação. _Sabe o que foi mais divertido? Vê você se apaixonar pela bela Jessica. Ha Jessica, ela realmente gostava de você. Sam, eu vou te contar, quando a coloquei no teto a cara de surpresa dela foi impagável. – Sam ofegava se sentindo tonto, ele amava Jessica e ouvir o nome dela saindo da boca de um demônio lhe fazia tão mal quanto se ele os tivessem torturando fisicamente.

_Eu vou matar você. – rosnou ele entre dentes. Os presentes riram, Sam viu uma garrafa passar de mão em mão. Os demônios se divertiam, uma fumaça era soprada da boca de alguns e se desmanchavam no ar denso. Casais de todos os tipos se agarravam em algum canto sem o menor pudor de serem vistos. Brady fez que não com o dedo e forjou uma expressão desaprovadora.

_Você está muito tenso Sammy. – ele olhou para trás. _Tragam o caipira e arranjem uma cadeira para o nosso convidado! – gritou. Logo um dos demônios se mexeu e desapareceu por uma porta. Instantes depois ele trazia em uma das mãos uma cadeira e na outra segurava o braço de um garoto o arrasando para frente. O garoto tentava argumentar, em vão, Sam reconheceu a voz do passageiro no carro que o sequestrou.

A cadeira foi colocada perto de Sam e ele foi obrigado a se sentar, seus pulsos logo foram amarrados com corda, assim como seus tornozelos aos pés da cadeira. Brady se moveu para frente ficando onde Sam podia vê-lo, o garoto foi jogado aos seus pés, seu queixo bateu com força no chão e seus olhos repletos de lágrimas o fitarem Sam num pedido silencioso de ajuda. Brady pegou o garoto segurando seus cabelos cor de palha entre os dedos.

_Deixe o garoto ir Brady, isso é só entre eu e você. – Sam tentou pela vida de Leon. Brady riu.

_Sabe o que esse merdinha fez? Ele e sua turminha de caçadores imploraram pela vida em troca me prometeram que iriam trazer Sam Winchester para nós. Poderia ter colocado um demônio em cada um, mas acho divertido brinca com os humanos. E bom, aqui estamos, ele não é mais útil para mim, e um pouco magrelo também, não vai fazer sucesso com alguns dos meus colegas, ninguém vai querer possuir esse saco de ossos. – Brady sacudia Leon como uma mercadoria, o exibindo para seus fregueses. _Ou querem? – os gritos de reprovações foram gerais. Sam sentiu pelo garoto, sentiu também por todo aquele circo. A culpa era tão pesada que ele mal sabia carregar sozinho.

Brady lançou o garoto no ninho de demônios, Sam desviou o olhar e se fez de surdo para os berros desesperados de Leon e as risadas dos demônios.

_Onde estávamos? – perguntou Brady. Ele procurou em volta e achou uma cadeira, a colocou de frente para Sam. _Ha sim, a doce Jessica. Acho que nunca me divertir tanto, vê a gangue de Azazel sussurrar no seu ouvido, e cara a ordem de matar a Jessica pode ter vindo do olho amarelo, mas eu fiquei com toda a diversão. – Sam se moveu para frente tentando a qualquer custo arrancar as cordas que o prendia. Seu passado o atingia em cheio e se revelava uma grande peça de teatro em que demônios controlavam as cordas das marionetes que compusera a vida de Sam.

_Se vai me matar, mata logo, eu sugiro que faça isso, por que se eu sair daqui acabar com você vai ser a primeira coisa da minha lista. – Brady sorriu ainda mais para Sam.

_Matar você? Não, Sammy, não foi para isso que o trouxemos aqui. Queremos agradecer. – Sam não conteve a surpresa. Brady riu com vontade. _Por sua causa nunca estivemos tão bem, nosso líder voltou, estamos comemorando. – ele se levantou e abriu os braços, Sam mal notara que os gritos de Leon haviam cessado. _Isso é por você. – ele se curvou em uma reverência exagerada. _Obrigado! – outros acompanharam Brady agradecendo Sam.

_O que eu fiz? – sussurrou Sam para si mesmo.

_Relaxa Sam, vou buscar uma bebida para você. – ele apontou para o outro lado do salão. Uma garota se dispersou dos outros e caminhou sob saltos altos até Brady. Ela era bonita, vestia um vestido cor de vinho justo e seu cabelo longo castanho brilhava. O que desvirtuava sua aparência delicada eram seus olhos perigosamente negros.

Brady sussurrou em seu ouvido, a garota possuída se voltou para Sam, este viu Brady lhe entregar um objeto metálico. Logo ela se adiantou para Sam. Ele ficou tenso quando a garota colocou suas pernas em volta de sua cintura sentando em seu colo. Ela carregava um canivete, Sam engoliu em seco já prevendo seu próximo passo.

Ela pousou a lâmina no pulso, um ponto vermelho apareceu na sua pele clara, o ponto foi tomando proporção e ele via o sangue escarlate se tornar convidativo. A fome voraz pulsava dentro dele como uma compulsão o chamando. Precisava daquilo, era errado, Sam sabia disso, mas ele precisava. Pela primeira vez em tempos queria sair da dieta e se sentir invencível mais uma vez.

O fio vermelho escorreu do pulso da garota sujando seu vestido, ela sorriu para Sam que atou bem os lábio e resistiu a vontade. Não posso. Não posso fazer isso comigo, não posso fazer isso com Dean. Sua força de vontade não prevalecia ali. A garota puxou o cabelo de Sam para trás usando sua força que não originava de quem ela possuía, e pressionou o pulso nos lábio de Sam.

Por mais que tentava não conseguia se livrar da sensação que era deixar o líquido ferroso invadir sua garganta. Sam sugou do pulso do demônio seu néctar. Aos poucos o veneno se espalhou pelo seu corpo saciando sua fome que exigia muito dele. Ele se deixou levar, o sangue o fazia se sentir vivo outra vez.

_Não deixa ele beber demais. Não quero que cause problemas.– falou Brady de algum lugar. Sam não se importava.

Ele queria muito saber como seria ter outra vez a força que o fazia se sentir tão diferente.

... — ...

_Larguem as armas. – gritou um deles. Olhei para Dean em busca de orientação, ele avaliou a situação e depois devagar colocou sua arma no chão. _Chuta para cá boneco Ken. – Dean obedeceu.

Tentei discernir os rostos na luz, não dava para ver quase nada, a não ser um cabelo curto e prateado, brincos ou pircings brilhavam como estrelas, pela silhueta diria que era uma mulher. O de boné ao lado dela era o que nos dava a ordem. Tinha também um mais esguio, não necessariamente muito alto, mas uns bons centímetros a mais do que o do boné, a luz amarelada dos faróis deixando sua pele escura com um tom pálido. Bem no meio, um homem grande e alto, ele não apontava a arma para nós, só ficou lá parado. _A gostosinha aí também.

Coloquei minha arma no chão e a chutei levantando poeira. Como Dean fazia levantei os braços em sinal de rendição.

_E essa faca, pode largar também. – ele se referia a faca que mata demônios que Dean ainda tinha empunhada.

_Desculpa, mas isso não vai rolar. – disse Dean tranquilamente.

_Coloca a faca no chão. – soou dessa vez mais ameaçador.

_E por que você não abaixa essa arma, Rambo?

_Não sei se percebeu, mas sou eu que estou em posição de fazer exigências. Então coloca a p...

_Já chega. – se manifestou o do meio, fazendo o outro se calar imediatamente. _Abaixem as armas.

_Mas Jhonny...

_Pelo amor de Deus Antony, não está vendo que ele é um dos nossos. – pelo visto era ele que estava no comando. A garota foi a primeira a abaixar a arma seguida pelo outro, Antony ainda resistia, por fim abaixou a sua também. _E quem está tentando intimidar com esses faróis acesos? – Jhonny deu a volta no carro e desligou os faróis. De volta a escuridão pisquei tentando afastar os pontinhos que dançavam na minha visão pela queda brusca de luminosidade.

_Como vou saber que não são demônios? – perguntou Dean.

_É claro, tem razão. – Jhonny colocou a mão no bolso da jaqueta, Dean fico tenso do meu lado, Jhonny notou e tirou devagar um cantil. Antes que ele derramasse o conteúdo na pele Dean o impediu.

_Usa o meu. – Dean tirou o próprio cantil da jaqueta e jogou para ele. Jhonny o pegou e derramou a água benta no pulso, limpo. Ele passou para seus parceiros e todos fizeram o mesmo. Eles era humanos.

Depois o grupo se dispersou e começaram a olhar os corpos no chão. Pegamos de volta nossas armas e nos juntamos a eles. Jhonny nos recebeu com um aperto de mão firme e um agradecimento por termos vindo.

_Esta é, Portia, minha filha. – ele indicou a única garota do grupo, estava certa sobre seu cabelo, eles eram descoloridos, em certos pontos do seu rosto eram perfurados por pircings. Ela sorriu para Dean e depois me encarou com o cenho franzido.

_O que tem de errado com ela? – perguntou, a pergunta não foi para mim, mas ela me analisava de cima a abaixo. Me senti incomodada, estava imunda de sangue e poeira, meus olhos e nariz vermelhos por conta da minha crise. Esperava não está com a marca do tapa de Dean no rosto. Lembrar disso me fez sentir um pontada no peito. Dei um passo para o lado me distanciando dele e mantive meu rosto erguido ignorando a expressão azeda de Portia.

Ela não era nem muito bonita nem feia, ficava nesse meio termo, era diferente e isso a destacava de um jeito bom. A mini saia que vestia, a camiseta — customizada para ficar mais justa e decotada — do Mettalica, junto as tatuagem nos braços e o desenho de uma cinta-liga na coxa também chamavam a atenção. Diria que ela teria pouca coisa a mais de idade que eu.

_Ela só passou um pouco mal com... isso. – Dean falou, poderia dizer que vi certa vergonha no seu tom, não de mim, mas da parte dele. _Mas ela está bem agora.

_E a moça não pode falar por si mesma? – interveio Antony, ele se meteu entre Dean e Jhonny para apertar minha mão. Ele sorria para mim de um jeito esquisito, apertei sua mão sentindo ele também me avaliar de cima abaixo. Dean fechou mais a cara. _Antony.

_Isabel. – minha voz soou estranha, ele não pareceu se importar. Antony, parecia ser um pouco mais novo que Dean, um pouco mais baixo também. Seu rosto era bonito, tinha um belo sorriso e o cabelo em baixo do boné era escuro e um pouco cumprido, cobrindo a testa com mechas espalhadas para todos os lados e escapando das laterais do chapéu. Imaginei que seria o tipo de cabelo bagunçado propositalmente.

_Ela fala. – falou Portia em falsa surpresa. A ignorei, estava muito cansada para aquele tipo de confronto.

_E aquele é Marcus. – disse Jhonny, Marcus estava agachado em frente ao corpo que carbonizei.

_São os Benders. Mas o que houve com a senhora Bender? – perguntou examinando o corpo. Olhei para Dean esperando ele me salvar mais uma vez.

_Um pouco de óleo santo e fósforos.

_Óleo santo? – perguntou Marcus. Sua barba espessa deixava pouca coisa do seu rosto para se vê na escuridão. Ele parecia ser o mais velho do grupo.

_Não tenho tempo para lição de culinária agora. Alguma coisa pegou o meu irmão e eu não vou ficar aqui parado dando explicações a um grupo de caçadores que surpreendentemente sobreviveu a uma cidade devastada por demônios.

_Está tentando insinuar alguma coisa? – perguntou Antony defensivo. Tinha ainda a arma em mãos, Dean se voltou para ele apertando os dedos em volta da sua. Era palpável a rivalidade surgindo entre os dois e a testosterona subindo.

_Olha, foi um longo dia e minha paciência já se foi a muito tempo, então por que não abaixa a crista e me deixe falar com quem realmente manda aqui. – Dean soava cansado e irritado. Antony deu a passo a frente prumando o peito pronto para um confronto, Jhonny o impediu de dar mais um passo colocando sua mão pesada cobre seu ombro. Antony parou e mesmo com a expressão desafiadora ele se afastou sem dizer nada.

_Você disse que seu irmão sumiu? – perguntou Jhonny.

_Não, eu disse que alguma coisa o pegou.

_Você olhou ao redor, está um breu aqui, ele pode estar caído perto das árvores...

_O cara tem quase dois metros de altura, se ele estivesse caído perto das árvores eu teria visto. – interrompeu. Jhonny assentiu. Ele era o mais calmo ali, como se esperasse por tudo o que acontecia ao seu redor. Era muito seguro de si para se abalar com as coisas. Não confiava nele, aliais, em nenhum deles e sabia que Dean também não. Tinha alguma coisa de errada naquilo tudo.

_Tudo bem, podemos ajudá-los a procurar, imagino que se queria ele morto não o teriam sequestrado. Então temos um chance de achar seu irmão, mas agora seria impossível.

_Não, você não entendeu, eu vou, vocês podem fazer o que quiserem. – disse Dean já se afastando, continuei no meu lugar, dividida. Queria achar Sam tanto quanto ele, mas seria suicídio ir agora. Teríamos que ter um plano, por mais que essas pessoas talvez não sejam confiáveis poderíamos usar de seus recursos.

_Você sabe que é estupidez fazer isso agora, venha comigo, nós temos um acampamento aqui perto, vocês podem descansar e já vai amanhecer. Podemos montar uma estratégia e ir atrás de seu irmão.

_Pensei que eram vocês que precisavam de ajuda. – retrucou Dean. Jhonny sorriu.

_Estamos no mesmo negócio, nos ajudamos. – troquei olhares com Dean, falávamos sem realmente nos falarmos. Não seria sensato confiar totalmente nessas pessoas, mas por outro lado ambos sabíamos que não iriamos sobreviver sozinhos lá fora e Dean ainda tinha um corte aberto na barriga. Aí eu percebi que era esse o seu plano, ele queria ser capturado também. Balancei a cabeça negativamente para ele.

Dean olhou para a estrada de onde os demônios vieram, depois para mim e por fim para eles.

_Não saio daqui sem meu carro. – afirmou. Jhonny concordou.

_Marcus, ainda temos aqueles pneus na caminhonete? – perguntou a Marcus. Marcus o olhou por um momento antes de responder.

_Temos sim. – Jhonny se voltou para Dean.

_Mais alguma coisa Winchester? – Dean franziu o cenho.

_Nunca disse meu sobrenome. – Jhonny deixou a expressão impassível de lado, sua postura ficou mais rígida e tensa. Ele olhou para além de Dean.

Meu coração deu um salto quando senti alguém prender meus braços as costas. Marcus tratou de prender Dean também antes mesmo que ele tivesse a chance de tentar reagir. Tentei me soltar, as mãos nos meus braços apertaram com mais força. Me enganei em pensar sobre Marcus, ele não parecia ser o mais velho, não agora quando conseguia domar Dean com facilidade. A mancha escura na camisa de Dean não me fazia esquecer que ele estava ferido.

_Sabe, eu ouvir um desses olhos pretos dizerem coisas interessante sobre seu irmão. – comentou Jhonny, Dean ficou mais tenso, parou de resistir e encarou de igual Jhonny.

_Você já é grandinho Jhonny, para acreditar no que o bicho papão diz. – debochou Dean disfarçando bem o temor na voz.

_Não sei não Winchester, eles pareciam muito convincente quando estriparam meu vizinho dizendo que estavam comemorando por que seu irmão havia tirado o pai deles da fornalha. – as linhas do maxilar de Dean se tencionaram, sua respiração pesou enquanto ele tentava conter algo.

_Deixe eu adivinhar, você fez um trato com o demônio. Entregaria meu irmão e eu se eles deixassem vocês viverem suas vidinhas nojentas.

_O que eu posso dizer? Sou um pai de família. Tenho filho refém de demônios, uma filha e uma mulher grávida esperando que eu salve nossa família. O que faria no meu lugar? – conhecendo Dean como conheço não duvidaria na ultrapassagem de seus limites quando se tratava em proteger a família. Mesmo não dizendo pude ver em seu rosto a resposta para a pergunta de Jhonny. De certa forma ele entendia os motivos de Jonathan.

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Conseguindo a distração momentânea que queria impulsionei a cabeça para trás. A parte de trás do meu crânio atingiu algo duro, ouve um grito feminino seguido de um palavrão. Portia afrouxou o aperto, empurrei meu corpo para trás contra o seu. Ela caia e eu tinha uma arma apontada para minha cabeça.

Dean me olhou, seus olhos apreensivos e cheios de medo, não por ele, por mim. Portia continuava no chão com a mão no nariz, um liquido escuro escapando dos seus dedos. Jhonny a ajudou a levantar, ela veio para cima de mim, seu pai a impediu que me acertasse com a mão sangrenta.

Minha vida girava em torno da ponta circular daquela arma. O túnel da morte não era algo no além vida e sim ali e agora, enquanto meus olhos só focavam ele se estendo e me engolindo, parecendo mais longo que o normal na mão de Antony.

Tentei pensar em outra coisa a não ser na morte. Talvez ele não me matasse, talvez esteja subestimando meu valor, talvez...

_Te peguei gatinha. – a mira mudou do meu rosto para o meu coração vibrando forte dentro do peito.

_Não! – gritou Dean, sim, ele apertou o gatilho.

Não sabia como era levar um tiro. Não sabia se aquilo era certo eu sentir.

Uma picada no peito, feito uma agulha.

Uma gargalhada.

Minha visão ficou turva de repente.

Minhas mãos não encontraram sangue. Um dardo.

Perdi completamente a força que me sustentava, e tudo caia, eu caia sendo abraçada pela penumbra que me cercava.

... — ...

Estava cercado pelo pecado. Se houvesse um Deus ele estaria olhando para aquele lugar como se tudo ali fosse os dejetos do mais insignificante e repulsivo animal. Um animal, era assim que Sam se sentia. Um pecador em busca de redenção se deixando mergulhar no proibido, se entregando a vontade do veneno que foi obrigado a tomar.

Nem ao menos tomou o suficiente para poder usar dos seus "benefícios" para mandar aqueles demônios de volta para o inferno.

Agora que a veia do demônio foi afastada de sua boca, o barato que sentia no começo já tinha o abandonado, ele pode sentir todo o peso do arrependimento e culpa. Estava enjoado por estar no meio do antro de perversidade que os demônios fundaram naquela fábrica abandonada.

Ele não tinha nem forças para mandar Brady para aquele lugar quando o mesmo voltou a sentar de frente para ele. A corda que o prendia parecia está em brasa em volta de seus pulsos doloridos e feridos de tanto forçar a corda a ceder.

_E aí Sammy, se divertindo? – perguntou Brady e depois entornou uma garrafa de cerveja, jogou a embalagem vazia em qualquer canto. _A qual é, se anime, seu irmão daqui a pouco vem te fazer companhia, e aquela vadiazinha dele, é... – ele olhou para o lado. _Como é mesmo o nome dela? – perguntou a um demônio que Sam até então não havia notado.

_Isabel. – gritou de volta o garoto que o demônio possuía, a julgar pela sua aparência Sam não duvidaria que ele estivesse mais ou menos a idade de Isabel. Ele passava os braços ao redor da cintura do demônio que Sam provou do sangue. _Brady, não esquece, ela é minha. – lembrou mesmo com os lábios no pescoço de outra.

_Não precisa dizer duas vezes. – gritou Brady para o garoto e se voltou para Sam. _Para ela meu garoto Adam ali tem ideias interessantes, perturbadoras, melhor dizendo, até mesmo para mim e olha que eu tenho uma imaginação... – ele riu para si mesmo. _Mas você já sabe disso, sempre fui bem criativo.

_Achei que ela estava na proteção a testemunha de Lúcifer. – disse Sam, a voz fraca não conseguiaexpressava sua preocupação com seu irmão e Isabel.

_Bem pensado Sammy. Eu não entendo, meu amigo. – ele assumiu um tom que Sam lembrava bem, vinha sempre acompanhado de alguma confissão ou desabafo. Lembrar disso fez Sam sentir a raiva latejar mais forte. _Estão falando dela como se fosse o novo Messias. Sinceramente não vejo por que nosso pai quer tanto essa garota. Nós deveríamos estar queimando essa droga de planeta, não caçando seu brinquedo novo. – Sam riu, não queria, mas pelo menos estava encontrando algum humor naquilo tudo.

_Isso me parece ciúmes. Aparentemente o papai está dando mais atenção a ela do que a vocês. Acho que isso quer dizer alguma coisa. – Sam viu o sorrido de Brady se abalar, ele lutava em o manter, mas seu olhar dizia outra coisa. Sam o deixou com raiva, isso lhe deu uma fagulha de satisfação. _E tenho certeza de que ele não ficaria muito feliz se alguma coisa acontecesse a ela. – Brady fechou a cara.

_Ele não vai notar se... violarmos a embalagem. – Brady forçou um sorriso sacana. _Se é que você me entende.

Sam engoliu em seco o nó na garganta.

Um som de uma guitarra irrompeu, gritos animados foram ouvidos enquanto a música pesada envolvia a todos com sua vibração.

_Divirta-se Sam! – gritou Brady para ser ouvido acima da barulheira.

Notas finais
Eaew, o que acharam? Quem acha que a Isabel pegou pesado com o Dean levanta a mão? o hehehe Preciso muito saber se estão gostando, isso me dá combustível para escrever mais e postar mais rápido, então deixem seus comentários, críticas, recados, enfim... só mandem seus reviews ^^ Até a próxima anjos. XOXO