Broken Girl

9 Capítulo nove: O outro lado da Moeda


Notas iniciais
Oláaa. Mais um capítulo saindo o/ Espero sinceramente que gostem!!! Enjoy^^

Estou morta. Foi à primeira coisa em que pensei. Não via uma luz, ou um túnel ou ninguém me esperando do outro lado. Na verdade não via nada além de escuridão. E também não senti nada de imediato. Depois de constatar que não estava morta comecei a entra em pânico ou coisa parecida.

Comecei a sentir a dor se alastrando pelo corpo inteiro, que de um modo estranho era reconfortante, isso significava que era real e que eu não estava presa em uma espécie de limbo.

Estava deitada de bruços no chão frio e empoeirada do porão. Minha visão meio turva foi se adaptando aos poucos a escuridão. Olhei para os lados e vi que algumas coisas haviam sido tombadas, ferramentas estavam espalhadas pelo chão. E uma estante tombada amparada por outra.

Tentei me amparar em uma das prateleiras para em levantar. A primeira tentativa foi falha, estava muito fraca. Na segunda consegui ficar de pé com muito custo. Meu corpo pesava de tal maneira que quase voltei ao chão ao tentar dar alguns passos.

Minha cabeça se esforçava para entender o que havia acontecido e como era possível eu ainda estar viva. Comecei a pensar em mil possibilidades e em mil perguntas.

Era quase impossível não lembrar a conversa com Lúcifer. Um desses pensamentos foi que ele havia de alguma forma me salvado. Fora ele quem me informou sobre o porão. E quanto ao que ele me disse sobre mim, tentava ser pratica para não surtar.

E quanto mais pensava e mais tentava ligar os pontos mais minha cabeça doía, e doía de verdade. Minhas costas estavam ardendo e meu pulmão se esforçava ao máximo para não entrar em falência.

Passei os dedos trêmulos nas costas onde a ardência estava mais concentrada. Senti a protuberância do que havia enterrado ali. Segurei firme, respirei fundo e fui retirando devagar. A dor quase me fez desmaiar. Não conseguir conter o grunhido de dor que escapou. Amparei-me com a mão desocupada em uma das prateleiras, apertei esta com tanta força que achei que desintegraria na minha mão. Continuei e finalmente consegui retirar o estilhaço de madeira. O joguei longe e senti o sangue quente descendo as costas.

Recostei-me numa parede e na mesma escorreguei. Fiquei sentada no chão com as pernas estiradas como se não funcionasse mais.

E quando quase adormeci no consolo da dor ouvir alguma coisa, um arrastar ou algo parecido.

A apreensão impediu que perdesse os sentidos. Fiquei alerta. Esperei até o som ficar mais distante e me encolhi na escuridão para não ser visível. Esperei mais um pouco e agucei a audição.

Minha mente nervosa clareou, imaginei que talvez fosse Dean. Ou eu gritava seu nome e dava minha localização ao um possível predador ou eu permanecia quieta e tardava o meu encontro com o anjo. Parecia dar no mesmo para mim. Antes de fazer qualquer coisa eu ouvir.

Um ranger metálico. No momento em que localizei a origem do som a porta de ferro foi arrancada das dobradiças por uma força invisível.

Era ela. A mulher com o cabelo vermelho. Ou melhor, o anjo que tentou me explodir. Atrás dela chamas de um branco puro crepitavam lançando a escuridão um farol de luz tremulante. O cheiro de fumaça e madeira queimando era forte. Os restos da casa pegava fogo.

Levantei-me depressa enquanto ela descia tranquilamente as escadas e olhava para os lados. Encostei-me á lateral de uma prateleira e vasculhei com os olhos para ver se encontrava alguma coisa para usar como arma.

Um pé de cabra. Melhor que nada. Esgueirei-me imprensada na estante e ouvi os passos dela vindo do meu lado oposto. Continuei caminhando furtivamente até poder vê-la. Ela estava de costas para mim. O escuro não era mais uma vantagem, a luminosidade alternava, além disso, o cômodo era pequeno era só uma questão de vasculhar mais apuradamente e ela me encontraria.

Não se eu a encontrasse primeiro.

Em passos cuidadosos me aproximei por trás, quando vi que tinha uma boa vantagem ergui o pé de cabra, abaixei para acerta-la com toda a minha força restante, que não era muita.

O que não esperava aconteceu. Ela ergueu a mão com uma rapidez incrível e segurou o cabo antes que a acertasse. Permaneci com a mão na ferramenta, ela se virou devagar ainda a segurando comigo. Olhou-me bem nos olhos fiz o mesmo ao encarar seus olhos verdes. Não tinha mais piedade ou perdão, o que vi foi desprezo junto a sua expressão fria.

O calor que senti nas mãos não era por causa das condições climáticas ou por causa do medo, Ela, o anjo estava carbonizando o pé de cabra. Antes de ele se tornar laranja o soltei. Ela o atirou para longe provocando um barulho de metal se chocando.

Fiquei imóvel e consegui balbuciar algumas palavras:

_O que quer de mim? – foi uma pergunta idiota já que estava claro que ela viera para me matar, mas mesmo assim ela respondeu.

_Você não precisa saber. – e com isso fui puxada para trás, mais precisamente sugada pela sua força angelical que não era perceptível e que também não precisava de nenhum esforço seu.

Minhas costas bateram numa das estantes a derrubando fazendo um estardalhaço quando o conteúdo dela foi ao chão. Escorreguei sobre a estrutura sentindo algo rasgar a parte interna do meu antebraço, rolei feito um saco de pancadas parando de costas no chão duro.

E era ali que ia ficar. Não tinha forças nem para mover o dedo mindinho. Minha cabeça estava a ponto de explodir e minhas pálpebras pesando mais ainda enquanto tentava mantê-las abertas.

Consegui o suficiente para ver a mulher se aproximando e ajoelhando ao meu lado enrolando a manga do casaco até o cotovelo.

Não tinha mais força para resistir, fechei os olhos e esperei a inconsciência me abraçar, pelo menos assim não sentiria...

A dor foi tão forte que me arrancou do meu estado de pré–inconsciência. Um berro subiu a minha garganta e se liberou ecoando nas paredes do porão. Abri os olhos abruptamente, minha coluna se convulsionou de tão avassaladora que era. Olhei para baixo, para luz brilhando na minha barriga. Ela... Ela estava com metade do antebraço dentro do meu abdômen.

Não senti nenhuma faca fazendo o corte ou qualquer outra coisa, ela entrou em mim sem o auxilio de qualquer ferramenta. Gritei mais uma vez enquanto lágrimas brotavam nos meus olhos. Ela pressionou a mão desocupada na minha testa febril para fazer com que eu não me agitasse mais. Senti o conhecido gancho me arrastando para outro estado...

...O travesseiro abaixo de mim já estava molhado pela minhas lágrimas, minhas mãos tremiam enquanto eu agarrava-me ao lençol. Encolhida na cama eu espera que o raio me acertasse, ou que a imagem do corpo carbonizado sumisse do meu cérebro.

_A doutora Williams está morta. Morta, ela está morta, para sempre, para sempre... – minha voz sussurrada repetia para o vazio, fazendo eco na minha cabeça e preenchendo o quarto com aquelas palavras até eu poder me acostumar a elas. Por que as pessoas próximas a mim estavam morrendo? Não entendia. _Morta, ela...

_Isabel. – a voz dele me acalmava. Ele seria gentil comigo, não me doparia se descobrisse que ainda estava acordada. Como o toque de uma pluma senti sua mão acariciar meu cabelo. Ele estava perto, agora sentia sua presença emanando no quarto escuro como nunca antes. _Não tenha medo. – disse ao meu ouvido.

_Por que fez aquilo? Por que mandou ela me dar aquela água e aquele sangue para beber? Por que ela morreu?– encarei a parede lisa a minha frente de costas para ele.

_Por que você é especial. E não fui eu quem a matou.

_Então quem foi? – perguntei entre uma fungada.

_Aqueles em que vocês... – ele fez uma pausa e se corrigiu. _Em que eles depositam a fé.

_Não consigo entender. – ele costumava falar de coisa que eu não entedia, mas eu queria respostas mais claras. Ele sorriu carinhoso. Não o via, mas era possível de alguma forma eu poder afirmar aquilo.

_Você ainda é muito jovem, porém é inteligente também. Isabel, precisa entender que seu Deus não é tão justo quanto o pregam. Ele não consegue compreender que você é especial, Ele não aceita no que você está preste a se tornar. ele acariciou meu cabelo mais uma vez com ternura. _O que aconteceu com a doutora Williams foi obra Dele, não minha. Ele me castigou por ser diferente, por ser especial. Você o desafiou e Ele perdeu. Ele queria atingir você, fazer com você o mesmo que fez com a doutora Williams, mas não conseguiu. Isso prova que não pode mais me alcançar, nos alcançar. Eu fiz de você intocável. – aquilo não fazia o sentido que esperava.

Me sentia cada vez mais enlouquecida. Enjaulada na minha própria insanidade que me permitia ter conversas sem sentido com quem não existia. Cada vez mais pensava que aquele era o meu lugar, junto aos loucos.

Mas eu não conseguia ignorar o quão real foi o evento no jardim, o quão caloroso e sofrido foi tomar daqueles cálices. Se existia uma explicação médica para aquilo gostaria de ouvir.

_Acho que não sou tão inteligente. – respondi não encontrando as respostas que eu queria ouvir.

_Por que diz isso? – ele perguntou.

_Por que não acredito em você. – a temperatura do quarto abaixou, me enrolei ainda mais no cobertor fino. De alguma forma o tinha ofendido? Sentia como se sim.

_E se dissesse que a salvei, não Ele?

Pensei um pouco, seria tão mais fácil culpar o céu por tudo de ruim que estava acontecendo comigo, por todas as minha perdas, toda a minha dor. Mas ainda me agarrava em algo como a fé. Se Ele me colocou nessa poderia me tirar também. Só precisava ser boa. Só precisa ignorar a coisa ruim que sentia se estender sobre mim naquela noite.

_Do que vale salvação se não tenho liberdade nem paz? – disse afinal. Ela pareceu decepcionado com minha resposta. _Você só é um estilhaço da parte quebrada em minha cabeça.

_Posso fazê-la esquecer. Por enquanto posso lhe oferecer esse tipo de paz. – esquecer seria um presente, poder entrar no jardim novamente e não lembrar...

_Como? – minha voz saia rouca pelo choro recente.

_Você só precisa dormir. – sussurrou no meu ouvido. Uma sensação cálida preencheu meu corpo me acalmando, deixando para trás a tempestade que abrigava em meu peito.

Só precisava dormir...

Berrei mais uma vez. Acontecia de novo, eu ia e vinha. Passeando pela minhas memórias perdidas. Encontrando nos momentos mais inoportunos fragmentos de mim que foi roubados.

Minha mente se dividia tentando assimilar o que aconteceu no passado com o que acontecia no presente, que era tão doloroso que queria voltar um pouco mais para minhas memórias, mesmo que por poucos segundos.

Aquilo queimava e provocava uma dor pungente. Rezei para que ela acabasse logo. Rezei para que eu morresse logo. Nada disso aconteceu. Claro que não, as ordens do anjo vinham do céu, por que Ele me ouviria?

Onde foi parar a fé que mencionei anos atrás?

Ela vasculhava, procurava por alguma coisa e seja lá o que fosse eu encontrei primeiro.

Não era eu que sentia dor, agora era ela. Alguma coisa chiava dentro de mim, a mesma coisa a fez retirar o braço depressa, o rosto numa careta surpresa e dolorosa. Antes de ela se afastar segurei seu braço o prendendo com a força que nem sabia que tinha e pelo visto nem ela.

Seus olhos se arregalaram horrorizados.

Eu funcionei como uma marionete, tendo cada movimento, ato, mente e vontades controladas por alguma coisa. Uma força voraz e maligna se infiltrando em minhas células e tomando minhas veias. Tinha em mente uma sede inesgotável do invencível.

Ah, era incrível. Cheio de adrenalina e completa de uma sensação energética e renovadora.

Queria derramar sangue, queria faze-la sentir dor. Erguei-me devagar e levei as mãos ao seu pescoço me colocando sobre ela, prensando-a no chão. Ela levou as mãos até meus pulsos que parecia saudado em seu pescoço.

Minhas veias enegrecidas, não mais azuladas, soltaram sob a pele dos meus braços indo às costas da mão. O rosto do anjo também foi desenhado por linhas finas de veias se estendendo do pescoço ao rosto como galhos de uma árvore crescendo sem folhagem. Ela gritou. Um grito curto que com certeza não queria que demostrasse sua fraqueza.

Podia sentir fluir todo o poder do inferno a minha disposição. O desejo latente de destruir aquele inseto alado era tão forte que quase não consegui contê-lo.

A mão do anjo segurou firme meu queixo me puxando para baixo aproximando meu rosto do seu. Então seus olhos antes horrorizados adquiriu um brilho novo, não um brilho, um facho de luz branca e intensa. Seus olhos humanos não eram mais visíveis.

Tentei me livrar da sua mão apertando meu maxilar. A luz era forte demais, me queimava. Não os olhos. Queimava por dentro. Enfraquecia-me. Só que eu não ia ceder tão fácil. Ela projetou a luz para a mão.

Um aviso, um grito urgente soou em minha mente muito confusa. Uma batalha fora travada entre mim e minha nova forma dominada por essa fúria poderosa demais e muito sombria.

Aquilo não era eu.

Gritei quando sentir a dor de uma queimadura interna mais intensa e o poder que emanava de mim ceder. Fechei os olhos com força resistindo à luz que explodia da mulher e me atingia como... Como um demônio sendo ungido em água benta.

E era assim que me sentia, como um demônio. O que estava fazendo não era o que eu queria. Era o que Lúcifer queria, era o que ele tentou me dizer, tentou dizer para que não resistisse e que minha fúria só me alimentaria daquilo podre que existia no meu ser. Eu sabia que era verdade estava sentindo isso, se continuasse duvidaria muito se chegaria ao amanhecer sendo eu mesma. Humana.

A repulsa a isso fez com que a minha força recuasse. Soltei o pescoço do anjo e caí para trás sentindo o poder da luz expulsar o que me dominava.

O anjo também recuou. Ela foi rápida a ficar de pé, a cor saudável retornado ao seu corpo humano. Abri os olhos quando achei seguro fazer. Ainda sentia muita dor. Acolhia como amiga a escuridão grata por não ter que enfrentar a luz do anjo novamente.

_O que é você? – perguntou de modo surpreso e meio trêmulo.

_Eu não... não sei. – gaguejei em uma resposta muito sincera. Ela olhou para mim como um predador olha para sua presa; Encurralada, fraca, patética, encolhida no chão. Um ratinho assustado preso numa ratoeira.

Eu soube que era o fim da linha, ela ia me matar e eu queria que me matasse. Só assim destruiria o que eu podia me tornar ou o que eu podia fazer o Diabo se tornar.

Só queria como um último pedido ver Dean novamente.

... — ...

Não chovia e nem era previsto uma tempestade e mesmo assim o trovão soou no céu, apenas um anunciador da batalha que estava acontecendo em algum lugar. Os lutadores eram o anjo desertor Castiel e o pomposo anjo Zacarias.

Castiel não acertou o golpe e foi arremessado por Zacarias da janela de um prédio vazio, onde usaram o estacionamento como campo para sua batalha.

A queda foi rápida, ele atingiu o sólido fazendo um estrago enorme em um veículo que disparou um som como se sentisse dor. O barulho do alarme do carro e o barulho da queda de Castiel despertou a atenção dos poucos pedestres que passavam na rua.

Leigos e assustados eles olharam o corpo do anjo sobre a lataria destruída e ficaram mais confusos quando o homem de sobretudo levantou e saiu correndo por entre eles. Foram gerais os gritos e muitos sussurros alarmados e trêmulos. Expressões que a mente humana deixava escapar em situações como aquela.

Castiel sabia que estava sendo descuidado se expondo daquele jeito. Os anjos tinham passado por vários lugares antes de pararem nas ruas do Brasil. Haviam saído de desertos, geleiras, matas, se teletransportando nos poucos intervalos de sua luta.

Zacarias tinha uma ligeira vantagem. Castiel estava mais lento, ferido e também não dispunha de todos os poderes do seu oponente. O que tinha era sua habilidade em luta e sua adaga.

O que tentava na verdade era fugir, despistar o inimigo, mas o outro anjo era veloz e não estava sendo fácil para Castiel. Ele agora ia tentar um último lugar, tinha de voltar. Dean corria perigo.

Se Anna estava lá era sinal de que talvez a garota já estivesse morta e Dean... Bem ele não sabia ao certo como encontraria o amigo.

Virando num beco escuro ele se certificou que não havia sido seguido por Zacarias e então desapareceu...

...

Dean não fazia ideia do que acontecia ali perto e nem longe, estava desacordado, tinha sofrido um bocado com a força da explosão que reduziu a casa a cinzas.

Castiel apareceu pisando no solo meio trôpego, os ferimentos eram dolorosos e suportáveis. Ainda se mantinha alerta a qualquer sinal de Anna ou Zacarias. Anna estava presente, podia sentir e ver o trabalho que o Arcanjo causara na casa que queimava no puro fogo branco.

Apenas um cubículo meio imerso no chão, como uma grande caixa de metal, era bem visível entre as estruturas precárias que insistiam em ficarem de pé mesmo as labaredas as lambendo.

Cass ia se dirigindo ao local onde encontraria Anna, talvez tempo de impedi-la, parou quando ouviu um grunhido ao longe.

Dean lutava contra a náusea e a tontura, se mexeu um pouco e a dor o atravessou fazendo ele não se atrever a levantar no momento. E foi o que fez, ficou deitado sentindo cada polegada de dor e tentando desesperadamente encontrar forças de onde não tinha.

Foi um alivio perceber a presença de Castiel. O anjo se ajoelhou ao seu lado e com sua mão transferiu seu poder curativo ao humano que grunhia de dor. Dean sentiu a leve sensação morna, já familiar, do toque de Castiel. Era como um sopro quente que varria a dor e qualquer ferimento.

Em minutos Dean se via de pé agradecido pelo amigo que o curou.

_Isabel, ela está lá dentro, vamos. – disse enquanto corria para a casa queimando. O coração martelava e apertava, a pulsação era sentida em seus tímpanos. O medo era tão desesperado que quase o fez recuar para o que poderia encontrar quando adentrasse a casa demolida e flamejante.

Quando já sentia o calor das chamas brancas Dean parou, não por que quis e sim por que foi obrigado a parar e se curvar à dor forte que sentiu no estômago. Era sem igual, a sensação de ingerir algo corrosivo e isto estivesse corroendo as paredes de seu estômago.

Castiel já sabia o que o tinha o feito parar. Zacarias. Aquele bastardo não desistia.

_Onde é incêndio Dean? – a voz confiante e cantarolada de Zacarias despertava o pior em Dean. Pior e além da dor que sentia.

Castiel se preparou para mais um round com seu ex irmão.

_É assim que passa seu tempo livre Castiel? Protegendo a criação insana de Lúcifer? – Dean sabia que Zacarias falava de Isabel, e mesmo querendo revidar e mandar o anjo para aquele lugar ele não conseguia. Simplesmente caiu e balbuciou algumas palavras:

_Seu cretino, desgraçado, filho da... _ Zacarias se voltou para Dean.

_Como é? Eu não consigo ouvir você, fica difícil entender com todo esse sangue na sua boca. – provocou Zacarias. E sim, Dean engasgava com seu sangue subindo a garganta e tomando sua boca.

_O deixe ir. – rosnou Castiel em tom ameaçador. Zacarias ignorou o pedido.

_Chega de joguinhos Castiel, achou mesmo que não seguiria você. Sou mais forte, mais rápido. – enquanto Zacarias falava Castiel avançava destinado a acabar com o sorriso presunçoso no rosto do outro anjo. _ E então qual será o próximo destino, Barramas? Filipinas? Oh, eu adoraria dá um pulinho na Itália, soube que eles produzem um dos melhores vinhos. – Castiel parou bem diante de Zacarias. Tinha nos olhos o brilho prateado intenso, apesar de ferido e fraco tinha força o suficiente para enfrentar seu oponente e conseguir uma vantagem para Dean.

_Largue ele. – disse outra vez como se o outro estivesse segurando Dean fisicamente.

_Como soube, Castiel? – perguntou Zacarias num tom acusatório.

_Sabe que não vou lhe dizer, por que insisti em perguntar? – Zacarias sorriu.

_Sua batata tá assando Castiel, até mesmo Miguel tem seus limites. Você é uma vergonha para Nós. Está tão encantado pelos clubes de stripper e pela cerveja que se esqueceu de que ainda é um dos nossos. Quer vencer Lúcifer protegendo a cria dele? Deixando-a andar por aí enquanto carrega a bomba do apocalipse no peito?

_Ela não escolheu isso. Ela ainda é humana e inocente, não quero fazer como Miguel e vencer a guerra matando inocentes. Está errado irmão. Como isso pode ser o plano do nosso pai? – Castiel olhou de relance para Dean encolhido no chão, mesmo em sua expressão de dor ele reconheceu a aprovação reluzir no olhar que lançava ao anjo. Era essa a decisão certa.

Zacarias gargalhou, parece que por um momento se distraiu e a queimação que Dean sentia diminuiu relativamente, o suficiente para ele ficar de pé.

Um berro quase gutural cortou a noite e atravessou Dean como milhões de flechas em seu peito. Isabel. Era ela que gritava. Seu grito clamando por ele. Pedindo socorro. Isso lhe deu uma nova carga, o medo enviando energia e adrenalina o suficiente para ele poder dar passos cada vez mais rápidos.

A discussão entre os anjos se seguia acalorada, os dois com armas a postos numa briga verbal sobre a importância da humanidade, a desobediência de Castiel e principalmente sobre o papel da garota nisso tudo.

Dali a pouco ia começar uma caçada louca e perigosa. Céu e inferno numa corrida exacerbada para determinar um vencedor. Baixas e sofrimento.

Sacrifício e medo.

E qualquer que fosse a vantagem, por mínima que seja seria importante. E Isabel estava no meio disso tudo. E só Deus — ou nem ele — sabia o desfecho dessa história.

Dean conseguia ver agora, a cena era insana, ele piscou pensando estar vendo coisas por causa da dor. Mas não, a imagem era nítida e muito real: Isabel por cima de Anna apertando seu pescoço.

Seu rosto numa expressão fria e assassina, sem nenhum traço da delicadeza usual. Seus braços exibia veias finas e negras que lhe subia o pescoço. Isabel nem mesmo tinha plena consciência do que estava acontecendo e do que estava fazendo.

Aquela sensação a dominava de tal forma que nada nem ninguém além daquilo era importante no momento. A sensação de ser possuído, arrebatado por uma força maior, que pressiona cada canto de sua mente encontrando seus pontos fracos e os usando para inutilizar e a deixar a mercê do que esteja a dominando.

Inútil e fraca demais para não se deixar sucumbi e afundar na sua própria escuridão. Só havia um porém, ela estava gostando daquilo, estava embriagada pelo poder.

Dean podia ver isso. Ficou imóvel por um tempo assistindo a tudo enquanto tentava processar o que via. Estava assustado, isso era inegável, o grito de Anna o chocou ainda mais. Isabel a estava ferindo. Como isso era possível? Pensou.

Foi então que ele começou a agir. Pegou da jaqueta a faca e fez um corte no antebraço. Numa parede de ferro– que agora era visível o material bruto - revestida de madeira seus dedos funcionaram como um pincel usando a madeira chamuscada como tela. Desenhando os contornos da figura com seu sangue. Era isso, estava pronto. Poderia mandar todos aqueles anjos de volta para o buraco de onde saíram, mas Castiel estava incluído no grupo.

Ele olhou para o anjo, Castiel tentava acertar um golpe em Zacarias que desviou num movimento rápido demais para acompanhar.Cass investiu para frente, dessa vez o soco acertou o rosto de Zacarias. Veloz ele aproveitou a vantagem, seu antebraço se enfaixou em volta do pescoço de Zacarias, a espada angelical fincada bem abaixo de seu queixo. Zacarias segurou o punho de Castiel impedindo que a arma penetrasse em sua carne e essência.

Castiel reluziu em uma luz branca intensa, seus olhos encontraram os de Dean, este entendeu o olhar como um consentimento. Se voltou para dentro da caixa de ferro que era o porão. Anna agora estava de pé, e Isabel encolhida no chão, indefesa e parecendo inconsciente.

_Ei, Anna. – ela se virou para ele, os olhos faiscando em fúria e surpresa. _Não sabia que era tão ciumenta. O que posso dizer? Eu prefiro as morenas. – com isso Dean deu vida ao sigilo, pressionou a palma da mão no desenho. Uma luz iluminou a noite e com um último grito de fúria Anna e os outros anjos desapareceram sugados por um clarão.

Dean pode respirar com mais facilidade, não sentia mais dor, não fisicamente. Aqui e ali chamas ainda crepitavam.

Ele foi descendo cautelosamente a escada precária do porão. Chegando perto de Isabel diminuiu a velocidade se aproximando cautelosamente, ainda não tinha entendido o que havia acontecido.

Ajoelhou-se ao lado dela. Isabel estava inconsciente, ele a trouxe para mais perto e se assustou com a quantidade de sangue que lhe cobria. Quando pôs a mão em suas costas pode sentir o sangue fresco e ainda quente umedecendo sua palma, sangue também escorria de seu braço para o chão.

Por mais que não tenha sido ele o mesmo sentiu uma ponta de culpa, por que sabia que isso sempre acontecia quando ele não estava por perto. Sua função era protegê-la e ele estava fracassando vergonhosamente.

Pensaria nisso depois que estivessem totalmente a salvo. Isabel não esboçava nenhum sinal de consciência ou vida. Ele afastou o cabelo empoeirado e sujo de sangue que lhe cobria boa parte do rosto do caminho. Por mais assustado que estivesse à preocupação era crescente. Ele tentou chama-la, nenhuma reação veio.

Dean a tomou nos braços e se levantou. Olhou para as paredes de ferro aparente e notou que não era na verdade um porão e sim um quarto do pânico coberto por madeira. Nos três dias ele não havia de fato notado que se tratava de um quarto do pânico disfarçado, já que quando revistou a casa a porta de ferro puro estava aberta e coberta pela placa de madeira. E aquele pequeno cubículo de ferro foi o que salvara Isabel.

Quando chegou ao Impala deitou ela cuidadosamente no banco da frente onde podia a prender com o cinto de segurança e observar se tivesse alguma reação. Pegou uma camiseta velha e colocou por dentro da blusa da garota onde o talho nas costas sangrava e também amarrou um lenço em volta de seu antebraço. Feito isso começou a dirigir o mais rápido que podia.

Suas mãos ao volante tremiam e o coração martelava. Quanto mais acelerava mais apavorado ficava. Isabel estava muito branca, fazendo destacar ainda mais o sangue que manchava o rosto.

Como se não bastasse pingos de chuva começaram a bater na lataria do Impala. No começo suavemente depois tomando ferocidade, dando um trabalho duro aos parabrisas do carro.

Parecia que o céu tentava pregar uma peça em Dean.

Seria uma longa noite...

... — ...

Era a terceira vez que ele batia com a ponta do pé a porta, a madeira estremecia e seus dedos sentiam pontadas de dor com tamanha urgência e força que ele investia na porta. Prestes a uma quarta tentativa a porta se abriu.

Ele encarou o velho que considerava como um pai. Dean sabia que aparentava estar estupidamente apavorado, e estava.

Os olhos de Bobby se voltaram para o corpo que Dean carregava em seus braços. A cabeça de Isabel pendia um pouco para trás, seus cabelos uma cachoeira negra balançando com o vento frio que varria o ferro velho. O sangue escorria de seu braço enfaixado e pingava de seus dedos as gotas vermelhas num espaço de tempo de segundos.

O ar gélido seria capaz de fazer dentes tremerem, mas ele se sentia trêmulo por outro motivo. Dean a apertava com firmeza os braços ao redor de seus ombros, os nós de seus dedos ficando brancos e a pele em baixo deles avermelhada, ele nem tinha noção da força que aplicava ali.

Sentia a necessidade de não ceder nem um minuto. A segurava como se Isabel fosse se despedaçar se ele a soltasse e relaxasse um pouco os dedos.

Bobby abriu passagem desajeitadamente com a cadeira de rodas e ele entrou passando com cuidado. Dean se voltou para o dono da casa.

_Não me diga que isso é um cadáver? – perguntou Bobby cauteloso.

_Não, ela não... – a verdade era que ele não teve coragem de verificar nas últimas horas. Não dava realmente para notar qualquer sinal de vida nela, seus batimentos, se havia um, era fraco demais. _Não Bobby, ela não está...

_Dean. – a voz o fez virar imediatamente, era conhecida e o efeito tranquilizador, que deixava mais amena a pressão que Dean sentia pressionar seu peito.

_Sam.

Notas finais
Eai, gostaram? Deixem Reviews!!! Quero saber se estão curtindo ou não. Até a próxima. XOXO