Broken Girl

18 Capítulo dezoito: Quando o Inferno encontra o Paraíso.


Notas iniciais
Oláa, como vão? Não tem muito o que dizer aqui, só que esse capítulo foi bem difícil para escrever - por motivos que veram quando lerem - Mas dei meu melhor e espero sinceramente que gostem! Boa leitura. Enjoy ^^

O homem se ajoelhou na calçada e começou a rezar. Dean franziu o cenho e olhou em volta.

_É eu acho que vou considerar isso como um sim. – disse. A pouco tinha dado ao homem, que pregava na calçada, seu nome na esperança de que este fosse um dos espiões de Zacarias.

Ele estava pronto, sentia um frio no estômago com a proximidade das coisas. Em parte se arrependia de não ter dirigido até sua lanchonete favorita e comido seu último X-burguer com muito bacon e batata frita, sua última ceia...

Dean sentiu uma mão no ombro e virou para olhar.

_Cass? – perguntou surpreso e confuso.

_Oi, Dean. – respondeu o anjo.

_Como...

_Ele reza muito alto. – no momento seguinte Dean foi empurrado para um beco com violência. Ele cambaleou para trás ainda confuso.

_Castiel, o quê... – o anjo não deixou Dean terminar a frase. Um soco no rosto o calou, Dean apenas olhou para Castiel tentando entender, nem teve tempo de se defender de outro soco, ele cambaleou mais uma vez, só não caiu por que Castiel o pegou pelo colarinho e colocou contra a parede.

Dean sentiu o impacto nas costas tirarem o ar. Olhou para Castiel. Nunca tinha visto uma reação tão evidente no anjo. Ele era pura fúria, o que para Dean não perecia nada bom.

_Foi para isso que eu me rebelei. Para você dizer Sim. – esbravejou Cass furioso. Ele empurrou Dean mais uma vez para o fundo do beco escuro não dando ouvido aos seus protestos, os punhos cerrados.

_Eu fiz tudo por você – ele avançou desferindo outro soco em Dean acompanhado de uma joelhada na barriga. Dean se curvou com a dor explodindo no abdômen se espalhando pelo corpo inteiro o deixando momentaneamente tonto. _Eu perdi tudo por você, e é assim que me agradece. Se entregando a Miguel?

_Cass, por favor... – arquejou Dean sentindo o gosto de sangue explodir na boca e enrolar sua fala. O mesmo líquido escorreu pelo queixo e nariz. Ele cuspiu a saliva sangrenta no chão, curvado pela dor colocou a mão na barriga e estendeu a outra como se para impedir Castiel de avançar, mas sabendo que nada pararia aquele anjo.

Ele queria mais de tudo que o amigo entendesse. Queria dizer alguma coisa, se desculpar ou agradecer por tudo que Castiel fez por ele e Sam. Dizer que via nele um outro irmão, o anjo que nunca o deixou na mão quando precisou e ele tinha plena consciência disso, ainda mais agora, de tudo o que Castiel abdicou para lutar ao seu lado. Mas qualquer palavra que ele tivesse para pronunciar ficou perdida quando Castiel o agarrou de novo e o lançou para o fundo do beco como se Dean não pesasse nada mais que um quilo.

Dean bateu numa grade e caiu com força no chão sujo de onde estavam. Seu corpo todo doía, nada que ele não pudesse aguentar, mas doía muito ter de deixar Castiel na mão. O anjo deu alguns passos para frente enquanto Dean se contorcia em meio a lixo e cacos de vidro brilhando para ele à luz da lua. Dean virou de modo que Castiel não pudesse ver o que iria fazer.

Ele pegou um dos cacos e não hesitou antes de fazer um corte no antebraço, o sangue brotou da linha e começou a escorrer pelo braço. Ele usou os dedos, sendo rápido, riscando no chão o desenho mais que conhecido. Quando terminou virou para Castiel.

O anjo o encarava com uma expressão severa. Os punhos cerrado ao lado do corpo. Dean olhou para Castiel e o outro retribui o olhar do tipo que continha experiências incontáveis que tiveram juntos, tinha também pesar, fúria e desapontamento por chegarem aquele ponto.

_Me desculpe. – disse Dean muito sincero, Castiel olhou para seu braço sangrando e percebeu tudo exatamente quando Dean deu vida ao sigilo. Dean ainda conseguiu ouvir o grito de Castiel depois que clarão explodiu em seus olhos, banhando de luz o beco escuro. Com isso Castiel desapareceu deixando Dean entregue novamente à luz da noite nublada.

Dean se sentou no chão e recostou a cabeça na grade olhando o céu cinzento acima. Fez uma careta de dor e parou quando seu nariz reclamou, parecia que estava quebrado, já o corpo, parecia ter sido atropelado por um caminhão.

_Dean, o ouvi chamar. – ele abaixou a cabeça quando ouviu a voz no começo do beco. Zacarias deu alguns passos à frente, chutou uma embalagem suja para o lado. O sorriso dele fazia os músculos de Dean se tencionarem dizendo a ele como seria bom acertar aquela cara e quebrar alguns daqueles dentes. _Acho que está pronto para tratarmos de negócios.

Atrás de Zacarias vinha dois outros anjos, um a cada lado como seguranças, eles tinham rostos inexpressivos e posturas rígidas, igualmente vestindo ternos pretos.

_Olha se não são os Jonas Brothers. – comentou Dean, apesar de não ter a arrogância usual na voz. _Poderia ter dispensado os seguranças de shopping, Zacarias. Sem truque dessa vez. – disse Dean numa voz débil e rouca. Ele levantou as mãos manchadas de sangue em sinal de rendição e tentou sorrir, desistiu logo que sentiu dor. Já Zacarias riu com escárnio observando Dean; as pernas estiradas num chão sujo, o rosto machado de sangue e uma expressão totalmente derrotada.

_Está pronto Dean? – perguntou Zacarias com satisfação. Dean fez dissolver a imagem de Isabel em sua cabeça, engoliu em seco sentindo o gosto de ferrugem na boca.

Estou pronto.

... — ...

Uma segunda batida, o corpo estremecendo no frio fazendo os nós dos dedos enrijecerem e a circulação sanguínea ruborizar seu rosto, para completar estava encharcado. Era tarde da noite, e era uma emergência, então Sam bateu mais uma vez.

Ouviu-se um ruído vindo de dentro da casa, depois a maçaneta girou. Lisa pareceu na porta, uma luz fraca iluminando seu contorno. Vestia um robe creme bordado e os cabelos estavam soltos e desalinhado, confirmando a suspeita de Sam de que ela já teria ido dormir.

_Sam? O que faz aqui? Aconteceu alguma coisa? – disparou Lisa apertando o robe no corpo contra o vento frio que vinha de fora.

_Desculpe, não teria vindo a essa hora se não fosse importante. Eu só quero fazer algumas perguntas. – Lisa pareceu ligeiramente assustada, a expressão dominando a cara de sono.

_Claro. Entre, vou preparar um café, também tenho algumas perguntas. – Sam olhou para o interior convidativo da casa e depois para o carro estacionado na chuva do outro lado da rua. Isabel dormia no banco passageiro, ele não quis acordá-la. Ele próprio estava exausto, não tinha dormido quase nada nos últimos dois dias, o que mais queria agora era uma cama quente, mas sabia que não conseguiria com Dean lá fora, sozinho pensando em deixa-lo para trás.

Sam ia dispensar o pedido de Lisa, tinha que ser breve, mas quando abriu a boca para falar um movimento no carro o fez se calar; Isabel acordava. Ela olhou para o lado do motorista e depois desceu do carro. Sam observou enquanto ela espalmava a mão no capô para se equilibrar. Arfava e tremia, Sam percebeu, nem ligava para o chuvaréu que a encharcava rapidamente. Ela olhou para ele do outro lado da rua, o rosto branco como uma lousa e os arregalados olhos cor de topázio azul lhe dando dois pontos coloridos no preto e branco.

Ele ia atravessar para encontrá-la já se preocupando, mas Isabel já estava na metade do caminho. Parou diante dele nem notando Lisa. Isabel apertou seu braço, os dedos frios e trêmulos, as gotas de chuva caíam dos cílios longos escorrendo pelo rosto como choro, ou talvez era.

_Isabel, o que...

_Eu o vi, Sam, ele... ele disse Sim. Dean disse Sim. – Sam não foi capaz de responder. Uma faca afiada parecia lhe rasgar a espinha.

_Sam, o que aconteceu? – perguntou Lisa o trazendo de volta a realidade. Isabel finalmente olhou para ela.

_Dean esteva aqui? – questionou Sam.

_Sim, eu o encontrei por aqui, ele foi rápido, só me disse umas coisas e foi embora. Sam ele não parecia bem, falou como se estivesse se despindo, disse que tomaria providências para mim e o Ben. O que está acontecendo? – Lisa aparentava um pouco desnorteio. Sam tentou tranquiliza-la.

_Não se preocupe, ele vai ficar bem. – ele já começou a se virar, guiando Isabel que parecia tão desnorteada quanto Lisa.

_Sam, acha que ele possa está... – ela nem completou a frase.

_Não, ele vai ficar bem. – mentiu.

...

Ele não sabia o que pensar. Isabel tinha sonhado, foi só um pesadelo, dizia a si mesmo e à ela, mas o aperto no peito não diminuía. O que podia fazer ele fez; estacionar o carro, pegar um quarto no hotel mais próximo esperando que Castiel ouça sua oração. Fez uma ligação para Bobby o atualizando, o velho caçador parecia tão perdido e temeroso quanto Sam, o que não ajudou muito seu estado de espírito. Quem diria que ele estaria caçando o irmão.

Eles entraram no quarto sentindo o calor bem vindo do cômodo. Isabel estava mais calma, se convencendo de que o que ele dissera era a verdade. Porém por baixo daquela calmaria ele sabia que estava tão apavorada com a ideia quanto ele.

Só o pouco que andaram do estacionamento ao hotel já estavam encharcados novamente. As roupas molhadas pingando no chão do quarto.

_E se não for só um sonho? – Sam parou no meio do quarto para olhá-la ainda próxima a soleira da porta, o vestido leve e azul claro com florzinha amarelas — que Sam achou uma graça quando a viu descendo correndo as escadas de Bobby, e teve que se conter para não dizer que a cor combinava com seus olhos — grudado no corpo molhado. Ele retrocedeu e parou bem diante dela, procurando na mente o que mais poderia dizer. Tinha tanto pesar nos seus olhos que ele se permitiu se afundar ali e ficar. _Isso é minha culpa Sam, eu... – as palavras de Isabel foram cortadas, pois Sam a pegou e a puxou para si se inclinando e tocando com os lábios a boca dela.

Numa fração de segundos foi quase doloroso, emitindo choques de desespero e uma sede descontrolada. Ele sentiu o gosto de chuva embasado pelo calor da boca dela. Ela sugou o ar na boca dele e tudo foi se intensificando demais. Sam tentava colocar o autocontrole a força dentro de si, porém ele se sentiu queimar quando Isabel o segurou pela nuca enterrando os dedos em seu cabelo.

Sam a sentiu por todo o corpo eletrizando cada fibra de sua pele. O roçar dos lábios, a ação recíprocas das línguas e um leve colidir de dentes era tudo tão... luxuriante. Dor, desespero, desejo produziam esse efeito. Ele deslizou as mãos pelas costas dela, passando pelas pontas do cabelo molhado e seguindo a curva da cintura.

Isabel se mantinha nas pontas dos pés tentando alcança-lo, ela a apertou mais para perto lhe dando alguns centímetros a mais. Inclinou um pouco mais a cabeça para o lado usando os lábios para abrir os dela. Usavam o beijo como uma forma de se aplacarem, se devorarem até não conseguirem sentir o ar chegando aos pulmões. Ela agarrou o cabelo de Sam tão forte que teria doído se a dor não se escondesse em prazer.

Sam deu alguns passos para trás e encontraram a parede, ele agarrou sua cintura e deslizou seu corpo entre o sólido e ele. Isabel correspondeu envolvendo as coxas ao quadril de Sam fazendo o vestido subir perigosamente. Eles se afastaram, as bocas ofegantes.

Os olhos de Isabel exibiam pupilas dilatadas deixando apenas um anel azul neon em volta do preto, olhavam para ele com desejo. Ele segurou sua nuca com uma mão, a outra na cintura dela para firma-la no lugar. Tomou sua boca com ganância, desceu a mão da nuca para a perna nua em volta dele, deslizou pela sua pele molhada e macia até tocar a lateral da calcinha, passou por ela por baixo do vestido encontrando o osso do quadril e seguindo pela cintura parando só quando o cinto do vestido apertava. Isabel gemeu em seus lábios, o som fazendo seu corpo todo formigar em tesão.

Quando se afastaram para tomar fôlego Sam tirou a mão de dentro do vestido dela, Isabel começou a despi-lo, ele ajudou tirando a jaqueta depois a camisa, ficando apenas com a camisa gola v cinza, escura na parte de cima por conta da água.

Sam tomou seu rosto, ela estava gelada em seus dedos, fria como mármore branco. Enrolou no dedo um de seus cachos úmidos soltando devagar o espiral, tracejou sua bochecha com as pontas dos dedos, depois delineou a curva da boca. Isabel fechou os olhos enquanto recebia as carícias, tão leves e delicadas como o toque de uma pluma. Ele estava tirando aquele momento para admira-la, para poder tocar em algo belo antes que o mundo se entregasse a ruínas.

Seus dedos então traçaram a linha da clavícula descendo pelo pescoço e encontrando o inicio do decote. Ela abriu os olhos lentamente o prendendo, capturando-o, mesmo que já estivesse com ele entre as pernas. O pequeno botão bronze da parte da frente do vestido brilhou para ele. Ele desatou o primeiro de seis. O segundo foi liberado, depois o terceiro, já começava a ver a renda do sutiã preto. Respirou ruidosamente, devagar desatou o quarto. Não queria ser afobado, queria ser leve e cuidadoso com ela. Se prolongar a cada toque para lembrar deles mesmo que estivessem longe.

Sam voltou a beija-la sentindo o quinto e o sexto serem livres de suas presas de tecido. Ele desceu os beijos para o pescoço, Isabel gemeu em seu ouvido. Dava para ver, mesmo em pouca luz, algumas marcas vermelhas desbotadas, ele disse a si mesmo que eram os hematomas da capotagem do carro e o mais que veio depois disso. Mas uma pontada afiada já latejava em seu coração. E ele se sentiu apagar aos poucos, o corpo esfriando novamente. As marcas em seu pescoço lhe lembrava de algo que não queria pensar. Isabel percebeu sua hesitação e levantou sua cabeça.

_Você não... – estudou bem seu rosto. _Não quer fazer isso. – afirmou com uma ponta de constrangimento na voz, olhou para baixo, as bochechas ruborizadas. Sam a colocou de volta no chão, mas não se afastou muito.

_Não é isso. É só que... – ele não podia falar sem que pudesse não ofendê-la de alguma forma. Então ficou quieto.

_É só que o que? – perguntou Isabel levantando as alças do vestido que tinham caído, ele olhou com desejo contido o decote que abriu. O sutiã era bem cavado exibindo boa parte dos seios da moça, Sam desviou o olhar sentindo seu rosto queimar novamente e o corpo responder de uma forma não muito sutil. Apesar do frio ele precisava de um banho gelado. E Sam não tinha resposta. Ela o fitou esperando uma, quando viu que não ia obter se afastou. _Se importa se eu tomar banho primeiro? – perguntou, o rubor ainda marcando suas bochechas.

_Não, pode ir. – respondeu Sam. E ela foi. No exato momento em que bateu a porta do banheiro ele socou a parede de frustração consigo mesmo.

... — ...

Sam; o seu beijo, seus dedos deslizando em lugares inapropriados em minha pele, era isso que eu pensava quando entrei no chuveiro. Como o toque dele era eletrizante, como seu corpo era rígido e forte mais ao mesmo tempo ele podia me tocar com uma destreza branda e suave. Minha cabeça ainda girava só por ainda sentir a marcação de seus lábios no meu ou a intensidade gradativa deles.

E como eu o queria como nunca quis antes. Mas Sam não pensava assim, ele não me desejava e isso doía no meu coração. E eu dizia a mim mesma que era por respeito ao irmão, aliais a situação não era apropriada. Só não podia negar que estava sentida.

Eu não sabia dizer o que acontecia comigo, tudo estava muito confuso e embaralhado. Minha consciência latejava com ideia de Miguel ser Dean ou Dean ser Miguel, eu não queria pensar nisso, queria me livrar desse sentimento de angustia por não saber oque estava acontecendo. Queria que Sam me abraçasse e dissesse que tudo ia ficar bem, e eu queria, muito, acreditar nisso.

Talvez eu teria que lutar ao lado de Miguel e matar Lúcifer. Teria que lutar ao lado de Dean e matar Sam. Por que assim seria, como os anjos tinham previsto. Eu sabia que quando Sam fosse dormir ele receberia uma visita da qual tudo poderia mudar, onde eu provavelmente não teria a chance de vê-lo como Sammy novamente. Isso me arrasava e queria mais que tudo uma lembrança.

Ter na mente e os resquícios no meu corpo que amei duas pessoas tão diferentes e tão igualmente incríveis. Que por mais que minha vida fosse miserável eu os tinha, e por mais que eu fosse um monstro em algum ponto queria saber que fui verdadeiramente amada pela primeira vez e desejava por quem fosse válido. Era um pouco pretensioso pensar assim, não me importava. Poderia sim ser uma fantasia, mas era o sentimento que eu gostaria de levar comigo para o além da morte.

Desliguei o chuveiro e me enrolei numa toalha notando um pouco tarde que esqueci completamente de pegar roupas limpas. Tirei o excesso de água no cabelo até deixa-los quase secos e percebi enquanto olhava no espelho alguns pontos vermelhos no meu pescoço. E foi como se um grande Ahhh soasse na minha cabeça. Foi por isso que Sam parou. Estava marcada por outro homem, seu irmão.

Senti meu rosto esquentar. Apertei a toalha um pouco mais no corpo me certificando de que estava bem presa e abri a porta do banheiro. Sam estava sentado na sua cama de costas para mim, a camisa abandonada no colchão. Suas costas eram rígidas e com músculos bem definidos, ele era um homem lindo, isso ninguém podia negar. Dei alguns passos tímidos para frente, parando entre minha cama e a dele. Ele levantou o olhar quando me aproximei mais, seus olhos foram do meu rosto para meu corpo coberto apenas pela toalha branca, Sam engoliu em seco, pensei tardiamente que deveria ir vestir alguma coisa. Sentei ao seu lado na cama.

_Sam sei o que está pensando. Que sou a garota do seu irmão e essa marca no meu pescoço é prova disso. Sim, eu transei com seu Dean naquela mesma noite em que me beijou. Mas Sam eu não estou pensando no sexo com ele e sim no seu beijo depois disso. – peguei sua mão calejada e áspera, aos mãos de um caçador, entrelacei meus dedos nos deles, a minha também continha suas marcas da estrada, nossos ombros nus se tocando. Ele olhou para baixo, para nossas mãos juntas e eu continuei: _Não pertenço à Dean e nem à você, eu pertenço a mim. E eu quero você agora, não importa como, quero que deite comigo e fique até eu adormecer, quero que me aqueça quando eu sentir frio. Podemos apenas dormir se é isso que você quer.

Seus olhos investigaram meu rosto, tranquilos e ao mesmo tempo tempestuosos. Ele abriu um pouco a boca, parecia que ia falar alguma coisa, senti o aperto na minha mão mais forte, ele tentou de novo, aquilo lhe custava algum esforço e esperei pacientemente pelo o que ele tinha a dizer.

_Isabel, eu... eu acho que a... – coloquei um dedo em seus lábios o impedindo de falar. O rosto de Sam ainda continha alguns hematomas avermelhados por conta da briga com o irmão e o acidente, o corte na têmpora foi mais superficial do que imaginei, metade dele fora coberto pelo seu cabelo. Mesmo assim ele continuava bonito. Seu rosto era todo traços finos e bem delineados, agora mais acentuados por conta da luz que vinha do abajur.

_Não diga isso, por favor. – pedi quase suplicante.

_Por que não? – perguntou com cenho franzido. Por que isso torna tudo mais difícil.

_Só deite comigo. – recolhi minhas pernas para sua cama e o puxei.

Sam não mostrou resistência, devagar ele se deitou comigo, se acomodando na cama enquanto eu me acomodava nele.

_Sam, apague a luz. – pedi me referindo a luz do abajur na cabeceira da cama, ele esticou o braço por cima da cabeça e a luz se apagou nos entregando a noite escura e barulhenta com o som da chuva um pouco mais fraco agora.

Nossas cabeças dividiam o mesmo travesseiro, nossos narizes quase se tocando, sua respiração quente se envolvendo na minha. Sam segurou meu queixo entre o polegar e o indicador colocando sua boca na altura da minha, em seguida me presenteou com um beijo. Ali eu percebi, ao passo que os beijos de Dean eram puro fogo, os de Sam eram um sopro de brisa fresca após um longo período de clausura.

Quando terminou ele sussurrou um pouco rouco:

_É só isso que quer de mim essa noite? – mal tive ciência de minha cabeça maneando negativamente.

_Quero que faça amor comigo. – disse num sussurro bem baixo.

Não tinha nada estável em Sam, ele oscilava entre o desejo crescente e o zelo. Já tinha notado antes o quanto Sam hesitava comigo, isso por que ele se importava com o que eu acharia, com o quanto aquilo era inapropriado ou o fato de que eu não deveria corresponder. Então ele esperava que eu me afastasse, que desse o primeiro passo para dizer não, para nega-lo como fiz uma vez negando um beijo seu por puro medo. Por que naquela hora eu tinha me espantado com o quanto eu o queria e se deixasse ele me beijar naquele momento eu me entregaria completamente, como fazia agora.

Sam se afastou de mim e meu coração apertou, para só perceber oque ele estava fazendo; ele se livrava da calça jeans úmida e permanecia apenas com uma cueca boxer branca. Ele voltou a deitar ao meu lado, o cotovelo ao lado da minha cabeça apoiando a sua.

Seus dedos traçaram uma linha no meu ombro despido, ele se aproximou e deixou os lábios continuarem o traçado. Me segurei em seus ombros o puxando para cima de mim. Sua mão encontrou onde a toalha se prendia ao meu corpo, Sam mexeu um pouco e depois desatou um tecido do outro. A toalha felpuda deslizou e ouvi Sam arfar. Ele me puxou para um beijo, suas pernas abrindo caminho entre as minhas enquanto ele se coloca todo por cima de mim.

Milhões de borboletas se agitaram no meu estômago, suas asas produzindo o efeito de lucidez e devaneio ao mesmo tempo.

... — ...

Com a última frase dela todo o sistema nervoso de Sam se agitou. Ela estava ali só para ele, e a visão de seu corpo nu fazendo ondas de calor vibrarem por ele.

Isabel parecia um floco de neve em seus braços, não pela temperatura, não, ela fervia, mas sim pela delicadeza de cada traço e curvas em seu corpo. Sam sabia que cada floco de neve era diferente do outro, ele não poda colocar melhor. Isabel não era igual a qualquer outra, ela não era seu amor perdido, mas agora era quem fazia seu coração, até então trancado, transbordar em faíscas.

Ela tinha a pele macia e cheirosa do banho, o cabelo também, suas mãos pequenas e firmes passeavam pela suas costas, as vezes ele sentia a ponta de suas unhas o arranharem quando ele a apertava mais forte. Faça amor comigo. Ele faria.

Sam beijou sua boca, depois o queixo, descendo para a garganta, ela jogou a cabeça para trás e ele fez um pouco mais pressão ali, Isabel deixou escapar um gemido alto. Ele grunhiu baixinho só de ouvi-la. Sam saboreou de sua pele chegando aos seus seios, no tamanho ideal, ele pensou.

Sam parecia entrar em ebulição, queria tanto possuí-la que doía e fazia arder sua pele. Isabel arqueou um pouco as costas enquanto recebia seus toques com boca e mãos, se mexeu em baixo dele fazendo ambos os sexos roçarem. Sam reprimiu um grunhido na garganta. Ele tinha que ficar lembrando a si mesmo do que ela queria, mas não dava para ser muito contido. Ela levantou o joelho pela lateral de seu corpo passando sua coxa na dele até que a ponta dos pés tocasse a barra da sua cueca a abaixando um pouco. Ele não se segurou dessa vez atacou sua boca com uma urgência devastadora que tentava conter sem muito sucesso.

Ela passava as mão uma mão na lateral de seu corpo, perto da costela e a outra arranhava sua omoplata. Sam rompeu o beijo, Isabel o segurou pela nuca e beijou seu pescoço, subindo para a linha do maxilar parando no queixo e deixando os dentes rasparem ali. Sam tremeu sobre ela, ele olhou para ela a fitando-a com os olhos. Tinha um pedido de concedimento e as palavras que ele quase disse antes, ela pegou uma mecha de seu cabelo grudado na testa com o suor e colocou atrás da orelha, um gesto simples e sua boca sussurrou a palavra 'sim', ela o concedia.

Isabel se moveu, ele deu espaço para ela, deitou ao seu lado usando um cotovelo como apoio, enquanto ela virava de costas para seu peito. A única luz no quarto era a que vinha ocasionalmente dos faróis dos carros passando lá fora, a luz amarelada infiltrando-se pelas frestas das persianas e lançando luzes sobre os dois na cama, sombras retas refletindo nos corpos nus por poucos segundos. Essas agora passaram pelas costas de Isabel. Ele viu rapidamente uma cicatriz pequena em uma das omoplatas, se perguntou onde ela conseguira, e o cabelo, um pouco afastado do pescoço suado, deixava a mostra uma borda de outra cicatriz fina, quase imperceptível, e a sua velha cicatriz abaixo da cintura.

Até suas cicatriz, suas marcas de guerra ele tinha certeza, eram bonitas de um jeito peculiar, as únicas imperfeição que Sam encontrara no seu corpo e pareciam que até elas não queria deixar danos maiores em sua pele. Sam beijou a do pescoço, fazendo uma promessa silenciosa que não deixaria outras cicatrizes marcarem seu corpo.

Ele se livrou da última peça e voltou a se acomodar atrás dela, Sam se livrou da toalha úmida na cama e jogou o lençol sobre os dois. Seu coração batia muito forte, ele se perguntou se ela podia senti-lo contra as costas, ela o olhou por cima do ombro, sua chama azul no escuro. Ele passou a mão pela lateral de corpo, descendo e subindo curvas, passou pela parte de trás do joelho e segurou a dobra dos ossos, deslizou o joelho dela pelo colchão. Depois a beijou, um beijo desajeitado por conta do ângulo e devagar ele foi se introduzindo nela, onde nunca esteve, outro lugar novo que ele conheceu naquela noite.

Isabel gemeu entre seus lábios, ele próprio produziu o mesmo som, estava sendo muito cuidadoso é claro, ia devagar, aproveitando aquele momento que para ele deveria ser considerado divino. Centímetro a centímetro, ele ia sentindo o choque percorrer o corpo. Passou o braço em volta da sua cintura fina, a mão colocou firmemente em sua barriga a puxando para mais perto. Ela nunca pareceu tão pequena nos braços de alguém, tão frágil por fora, mas Sam sabia que seus ossos eram adornados em ferro puro, ela não quebraria se ele a envolvesse mais fortemente.

Dois corpos compartilhando da mesma febre. Sam sentia-se banhado em sol, a pele suando e arrepiando enquanto se conectava a ela por completo. Ela não se sentia diferente, eles eram como um só agora, um coração num ritmo acelerado. Ele sentiu o cheiro do cabelo dela, os cachos negros se envolvendo no pano de fundo que era a escuridão que os envolvia. Ela sentia seu coração contra as costelas e pensou para si mesma que nunca ia deixar que parasse de bater.

Isabel apertava forte o lençol abaixo de si, o ventre se contraindo em volta dele. Mesmo por cima dela ele não a comprimia, não tão diferente de quanto a protegeu das chamas. Sam colocou o rosto na curvatura de seu pescoço beijando sua bochecha ruborizada sobre os cabelos emaranhado, passou a mão esquerda sobre a sua envolvendo seus dedos nos da garota substituindo o tecido do lençol. Ele se movia lentamente, e cada ida e vinda se segurava para não explodir, para não deixar escapar a sensação cálida que começava no peito e terminava dentro de Isabel.

E tudo estava coberto pelo escuro. Tinha certo conforto na escuridão, ela parecia guardar segredos, velar palavras e deixar outras expostas, as quais não diriam à luz. Sempre havia algo sombrio e perigo no escuro, aquilo que atraía muitos e sufocava os despreparados.

Sam e Isabel estavam entregue a falta de luz, velando um segredo conjunto. Algo que não se revelaria quando o sol nascesse. Era um momento único e totalmente independente, como se os dois estivessem em uma realidade alternativa. Um mundo abitado apenas por eles, ou então na lua cercados por estrelas.

... — ...

Sam passou a palma da mão no espelho deixando uma faixa no vapor conseguindo enxergar apenas uma parte do rosto. Ainda sentia o corpo queimar, o banho quente não ajudou. Ele não sabia Isabel, mas Sam estava em êxtase e com a pergunta grudada na mente, qual seria o próximo passo a seguir? Ele estava numa situação muito complicada, mais do que imaginava.

E ainda tinha Dean, o paradeiro do irmão que não deixava seu estado de espirito voar mais longe, e como uma resposta a seu pensamento, ele viu uma sombra no espelho atrás de si. Seus reflexos de caçador se aguçando.

Ele girou já preparado para reagir a algum ataque, mas congelou. Estava sonhando ou... o quê? Não tinha explicação para aquilo. Dean apenas o olhou sem expressão e pegou sua camisa no cabideiro do banheiro e jogou para Sam, apesar dos ótimos reflexos o caçador deixou a camisa bater em seu peito e cair.

_Acho que isso significa que está em choque. – Sam não respondeu, apenas encarou o irmão. _Vamos, diga alguma coisa, não deveria ser assim, no mínimo eu esperava surpresa, não essa cara de quem foi pego fazendo algo muito, muito mal.

_Como... – começou o irmão mais novo, mas parou sentindo o corpo quente esfriar.

_Acho que sabemos a resposta, Sam. Isso mesmo que está pensando. Mas não foi para isso que vim aqui.

_Não, ele não diria. Dean não diria Sim. – Dean balançou a cabeça se recusando a comprar a ideia.

_Quanto antes aceitar melhor. E não, isso não é um sonho. É real, Sammy. – era como Dean o chamava, a voz dele, o corpo dele, mas não era ele. Era como um espectro do irmão, este irradiava de um jeito que Dean nunca irradiou, e este vestia preto, não mas as roupas baratas e a jaqueta de couro. Sua garganta secou. Então Isabel tinha razão. Não era um sonho.

Para Sam era um pesadelo.

_O que quer aqui? Não me parece uma despedida adequada com meu irmão.

_Não é uma despedida. É apenas um encontro antes da guerra de fato começar.

_O que quer aqui? – repetiu Sam sentindo a fúria inflamar no peito, a raiva tão controlada nos últimos meses escapando. Ele estava com raiva do irmão, raiva de Miguel e raiva do mundo, com raiva de si mesmo, por que não estava lá para impedir.

_Hum, direto aos negócios então. – era estranho olhar para Dean e não vê de fato seu irmão. Ele agarrava com força a pia, os nós dos dedos ficando branco. _Acho que aqui não seria o lugar mais apropriado para isso.Vista-se, vamos dar uma volta.

_Estou muito bem onde estou. – e não vou deixar Isabel. Ele ainda se sentia tonto, estava começando apenas a digerir tudo aquilo. Era demais para ele, quase inacreditável. Mas no fundo ele sabia que não era um sonho, aquela visão desmentia o que tentava se convencer e convencer Isabel.

_Tudo bem, só vamos passar para um lugar menos... úmido e apertado. – disse Miguel abrindo a porta do banheiro. Como se soubesse o que Sam pensava disse: _Não se preocupe, Isabel não ira acordar, e não, eu não fiz nada que a ferisse. E se tiver se perguntando, seu irmão não faz ideia do que fizeram. Sinceramente Sam, achei que fosse melhor que isso, não o tipo que traí o próprio irmão.

_Olha quem fala. – os cantos da boca de Miguel se ergueram num sorriso gelado.

_Muito bem Sam, muito bem.

_Diz logo o que quer. – disse Sam fraco, pegou a camisa do chão e a vestiu sentindo-se trêmulo e de repente muito cansado.

_Vejo que paciência não é uma virtude dos Winchester. – ele passou um olhar desinteressado em Isabel — na cama enrolada em lençóis, vestia um conjunto de pijamas — Ele, aquele que não era seu irmão foi para a janela, usou os dedos para espiar lá fora, não tinha uma bela vista, apenas o estacionamento e a estrada. Mas ele pareci ver além e tinha certa curiosidade em seus olhos observadores vendo algo que para Dean seria corriqueiro. _Você tem conhecimento do ponto que estou provando agora? – Sam poderia até fazer uma ideia, mas não disse nada.

_Não existe livre arbítrio Sam, o destino de vocês já foram traçados e tudo, até os mínimos detalhes, levariam a isso. Não pode se esquivar ou correr, não pode lutar, por que vamos mais cedo ou mais tarde está nessa mesma posição. Seu irmão viu isso e decidiu tornar tudo mais fácil para você, para Isabel. Estou aqui para fazer você enxergar seu destino se tecendo a sua frente. Apenas um nó restante. Você Sam.

_Não vou dizer Sim, não importa o que tenha para me dizer, sobre destino ou livre arbítrio, não vou me curvar a Lúcifer. – Dean/Miguel, sorriu tranquilamente. Era assustador para Sam, um sorriso novo que não cabia em Dean, ficava estranho e simplesmente não pertencia a ele.

_Imaginei que diria isso. – ele olhou para Isabel, não tinha o brilho no olhar que Sam já tinha reparado quando o mesmo olhava para a garota. _Olhe para ela – Sam seguiu seu olhar. Isabel estava dormindo, o rosto virado para eles, plácido e descaçando. Como um anjo talhado a mármore branco sob a luz da rua vinda da janela. _Não é difícil imaginar o por que se encantou, é uma bela moça e muito... engenhosa. Uma rosa cheia de espinhos.

_O que realmente quer dela? – perguntou Sam impaciente, uma agitação começando no estômago. Aquilo não parecia bom, parecia bem longe disso. Miguel o avaliou.

_Sam, Sammy, você é tão transparente. – comentou em tom de lamento, enxergando em Sam alguma coisa que o próprio não via. _Como disse antes, o fato de ter conseguido o sim de seu irmão prova que o livre arbítrio é uma ilusão tola. O ponto é; tudo já está traçado, uma rede de linhas pontilhadas esperando que os respectivos responsáveis complete os traços. Assim como isso aqui já foi delineado Sam, e não tem vias alternativas, todas levam ao mesmo destino. Assim como a sua linhagem está seguindo o curso desde Caim e Abel, está na história Sam. Eu tenho que lutar com meu irmão, está escrito, não importa o que diga ou o que faça sei que dirá Sim, sei que haverá uma luta e sei que vencerei. O curso pode até ser diferente, mas o destino é o mesmo.

Sam o encaro aturdido. Nunca ouvira seu irmão usar aquele tom, um sábio e superior. Ele mais que nunca desejava Dean de volta, queria voltar a ouvir as piadas idiotas do irmão, queria expulsar Miguel de seu corpo a força.

_Por que não para com as metáforas de navegador e me diz logo o que diabos esta fazendo aqui. – disse Sam com raiva controlada.

_Certo, lembra o que acabei de dizer, sobre seu destino já está traçado? – perguntou Miguel como se testando um aluno.

_É claro, acabou de fazer uma dissertação sobre isso.

_Digamos que talvez podemos fazer um pequeno desvio antes da parada principal...

_Miguel! – Sam quase explodia de raiva, e se Miguel não dissesse logo o queria ele iria arrancar a força.

_Calma garoto, estou chegando lá. – disse em tom de bronca. _O que quero dizer é que você tem a oportunidade única de fazer algo por Isabel. – Sam sentiu o coração dar um tranco.

_Que oportunidade? – indagou Sam não vendo onde isso o levaria.

_Um presente do Romeu para a Julieta. Tenho algo que talvez faça você mudar de ideia sobre essa relutância em dizer Sim ao meu irmão. Estou lhe oferecendo um bônus na minha oferta.

_E o que seria? – Miguel sorriu, um sorriso que provavelmente Lúcifer deu antes de cair.

...

Isabel,

Passei a última hora a observando dormir, tão quieta, e imaginei se estava sonhando, talvez com um mundo melhor, um mundo que se fosse uma opção te daria. Olhando para você vejo que se as coisas fossem diferentes, se não soubesse o que sei, ou vivesse o que vivi, diria que observava um anjo.

Esta carta é um pedido de desculpas e um agradecimento. Quero agradecer por acreditar em mim, por me mostrar que ainda sou digno de redenção, por controlar o monstro que vivia enjaulado no meu peito. Através de seus olhos vi que poderia ser melhor, vi que poderia controlar toda a raiva e ressentimento que me acompanhou por toda a vida. E obrigado por me fazer sentir de novo o mais valioso dos sentimentos.

E, me desculpe por tudo o que tenha causado, me desculpe por minhas atitudes passadas a jogarem nesse mundo perdido, me desculpe por decepciona-la e por deseja-la.

Por mais que meu coração a ame minha cabeça diz que não sou digno de reciprocidade. Você se doou para mim esta noite e me sinto honrado por isso. Estou partindo levando o sabor de seu beijo e aimagem do seu corpo desejando o meu, não me entenda mal, vejo isso como uma imagem de carinho, um presente seu que talvez não tenha merecido. Foi algo a que me agarrei para tomar minha decisão.

Talvez seja assim que devesse terminar, talvez você tenha cruzado nossos caminhos apenas para mostrar nosso destino. Perdi meu irmão por ser tolo o suficiente por achar que tivesse escolha e caminho agora para meu destino inevitável que já foi traçado.

E por favor, não se se culpe por minha decisão. Faço isso para que tenha algo bom retornado a você, entendera quando chegar a hora. Mesmo que o mundo não seja o mesmo amanhã desejo que recomece com alguma esperança.

Apesar de tudo, não suporto a ideia de deixá-la, de deixar tudo para trás, de não está ao seu lado quando acordar. Talvez seja covarde demais para sair assim, deixando apenas esse bilhete que mal explique minha atitude. Mas sou corajoso o suficiente para fazer o que acho correto ainda que isso exija um sacrifício.

"Não se sinta mal por mim

Eu quero que você saiba

No fundo da cela de meu coração

Eu ficarei honrado de partir"

Sam.

... — ...

Minhas mãos tremiam tanto que quase não consegui ler o que estava escrito. No último trecho — com uma citação da música Asleep do The Smiths — eu simplesmente desabei, minhas lágrimas borrando a tinta da caneta no papel.

Tinha acordado no meio da madrugada e no lugar de Sam ao meu lado encontrei sua carta. E meu coração pareceu dar um tranco quando olhei sua assinatura no papel um pouco amassado. Agora estava sentada a cama num beco sem saída se fechando a minha volta.

Demorei demais para perceber oque era obvio. Não sei se é possível ou aceitável dividir o coração em dois, mas o meu estava dividido e eu tinha perdido metade dele e não suportaria perder a outra. Por que era isso que me restava, a parte de mim que me mantinha viva e pulsava variando entre batimentos fortes e os mais assentados.

O choque que varria meu corpo era puro medo. Medo de perder tudo, medo de me perder se isso acontecesse. Por que se meu coração dividido parasse eu também pararia. A integridade humana em mim secaria e eu seria apenas uma casca vazia. Então eu não seria nada.

Minhas pernas obedeceram comandos que nem tinha percebido que tinha enviado ao cérebro. No momento estava na cama sofrendo com espasmos de choro e no outro me vestindo as pressas para depois sair pela porta e correr escada abaixo. Parei na recepção e fiz o meu melhor para perguntar ao recepcionista se ele viu Sam saindo.

Ele tinha visto, a pouco tempo. Corri para o estacionamento, imediatamente senti a chuva pesar nos meus ombros, pingos tão grossos como balas se chumbinho enquanto corria como uma fugitiva por fileiras de carro não encontrava o certo. Não lembrava a vaga, amaldiçoei os céus por está chovendo tanto e dificultando minha visão clara das coisas.

Continuei procurando na esperança de encontrar algo familiar nos carros que pareciam tudo iguais. Dei meia volta preste a começar a chorar de novo, a carta estava presa na minha mão, agora uma papa de papel. Apertei uma mão na camiseta sentindo o coração bater forte contra o tecido e uma dor rasgando que achei que começaria a sangrar.

Lentamente empurrei meus pensamentos conturbados de lado e pensei racionalmente. E só um nome me veio a mente; Castiel. Fechei os olhos no estacionamento mesmo e rezei para ele, implorando para que viesse logo.

Deixei o estacionamento e subi de novo para o quarto, comecei a arrumar minhas coisas e as de Sam. Ele obviamente não tinha levado nada, tive que fazer tudo isso segurando o choro que crescia cada vez mais no peito.

Quando terminei de fechar o zíper da minha mochila vi uma movimentação no canto do quarto. Me virei com o coração disparado. Crowley estava me encarando com um sorriso leve. Não tinha mudado nada desde nosso último contato.

_O que está fazendo aqui? – perguntei automaticamente.

_Isso é jeito de cumprimentar seu parceiro de crime. – respondeu Crowley varrendo o quarto com os olhos.

_Você precisa me ajudar. – disparei mal disfarçando o desespero na voz.

_Problemas no paraíso? – perguntou.

_Sam vai dizer Sim e talvez Dean tenha... – deixei a frase morrer na garganta se juntando com o nó que estava preso nela. A única reação de Crowley foi levantar as sobrancelhas. Ele não parecia nem um pouco surpreso. Meu pânico não clareava a mente, pelo contrario, por isso demorei a processar as perguntas certas do tipo: _Como sabia que eu estava aqui?

_Gosto de vigiar meus investimentos de perto. – respondeu Crowley enigmático.

_Sou eu que estou investindo em você Crowley, e não tenho tempo para seu joguinhos de palavras. Como me achou? – Crowley suspirou depois tirou do bolso do blazer uma moeda. Não era nem de longe um dólar ou qualquer outra que conhecia. _O que é isso?

_Tem uma desses na sua mochila, é um dispositivo de rastreamento que também me permite ouvir coisa. – disse como se fosse algo normal numa conversa.

_Você tem me rastreado e ouvido minhas conversas? – acusei já sentindo a raiva toma o lugar do desespero.

_Fique tranquila, deixei no mudo nas últimas... duas horas. – disse com um sorriso sugestivo. Nas últimas duas horas... meu rosto esquentou de raiva e constrangimento. Aquilo era perturbado, mas tinha coisas mais importantes para tratar.

_Consegue rastrear Sam? – Crowley me olhou por alguns instantes.

_É para isso que estou aqui, princesa. Soube que Alce está em apuros. Não queremos isso. – ele se aproximou e encolheu o braço como um cavalheiro pedindo para a dama o acompanhar.

Depois de hesitar coloquei minha mão em seu braço. Foi como um puxão, uma sensação de descolamento, mais incomoda do que quando viaja desse jeito com Castiel.

Logo senti o frio úmido e depois os pingos de chuva grossos. A sensação térmica do meu corpo tinha baixado vários graus e eu já começava a tremer. Olhei para frente e só o que vi foi uma estrada se estendendo, nas laterais vegetação e árvores grandes e espaçosas. Parecia que a estrada foi colocada no meio de uma floresta.

_Onde nós... – me virei para só encontrar o resto da estrada e nada de Crowley. Ótimo, ele tinha me deixada no meio de uma estrada deserta ainda por cima na chuva.

Dei meia voltas tentando me encontrar. Nada ali era familiar. Praguejei baixinho sentindo-me frustrada. Me preparei para começar a andar, quando ouvir um carro se aproximar, primeiro o som vindo de uma curva na rua, depois os faróis se aproximando cada vez mais de mim. Daria tempo de correr para o lado da estrada, mas continuei com os pés plantados no asfalto, talvez conseguiria uma carona de volta.

O carro se aproximou e quando viu que já estava em cima de mim deu uma freada fazendo os pneus derraparem um pouco antes de parar alguns metros de mim. A luminosidade dos faróis fazia os pingos de chuvas naquela faixa brilharem como cristais e também me impedia de ver o motorista. Apertei os olhos até que faróis diminuíram e apagaram.

Uma figura desceu do carro, uma figura inconfundível que fez meu corpo inteiro se sentir vertiginoso de alívio. Podia correr para Sam, mas ele já vinha até mim. Sam parou diante de mim, genuinamente surpreso.

_Isabel? O que está fazendo aqui? – aquele era o momento em que deveria despejar toda a verdade para ele. isso não fazia bem parte do meu plano, não tinha me preparado para aquilo.

_Sam, eu achei sua carta e não posso deixar você fazer isso. Não faça isso Sam. – os olhos de Sam estavam cheios de emoções que não conseguia distinguir separadamente, talvez algo entre uma mistura de pesar e desespero.

_Isabel, eu tenho que ir, você não entende eu...

_Sam eu sei o que Miguel falou com você. Eu já sabia de tudo, sei que está fazendo isso por meu irmão, por mim. Eu sei disso por que foi ideia minha, o único jeito de fazer você dizer sim. – Sam balançou a cabeça como se estivesse tentando resolver uma equação matemática impossível.

_O quê? – replicou. E as palavras continuavam a jorrar para ele, cada vez mais embargadas:

_Quando eu disse que a culpa era minha de Dean poder ter dito Sim, era por que... por que era minha culpa, eu fiz isso com ele, e ia fazer com você. Eu precisava salvar meu irmão, esse foi o preço de Miguel. Ele queria que eu fizesse com que vocês dissessem sim e... eu não podia arriscar...

_Espera, só pare um pouco. – disse Sam incisivo. _Você sabia que Miguel viria falar comigo, sabia que Dean disse Sim...

_Dean disse Sim? – perguntei alarmada. Sam ignorou a pergunta.

_Como você... – ele começou e depois de um momento de hesitação pareceu compreender. _Então... isso tudo foi para que eu dissesse Sim para Lúcifer, esteve manipulando nós dois para que dissemos Sim e você salvasse seu irmão. Isso é... eu não acredito. – disse Sam com o olhar ferido, parecia que eu lhe cravei um ferro em brasas no peito, já eu sentia exatamente aquela dor.

Ele se virou de costas. O estava perdendo, Sam escapava das minhas mãos como a chuva que caia do céu. Sentia um desespero tão grande que estava me sufocando, engasgando na minha garganta o que eu deveria dizer.

_Isso tudo foi uma farsa. Digo, eu e você, nada foi real. Dean estava certo sobre você, eu deveria ter...

_Não. Foi real. – coloquei a mão no seu ombro para que ele se virasse para mim, assim ele fez e eu me arrependi da decisão. Os seus olhos eram duas fendas envolta a raiva, não sei se era de mim, ou se era de toda a situação, ou dele mesmo por me ter confiado numa cobra. Aquilo me partia ao meio. Era muito mais difícil encontrar uma explicação plausível para minha atitude vergonhosa assim.

_Sabe, a última coisa que pensei antes de dormir naquele dia; foi você dançando comigo, ou como você ria quando eu errava um passo. Eu realmente acreditei que tivesse te ajudando a não ter medo quando segurou minha mão. Estava envolvido demais. Meu Deus, eu quase disse que amava e agora isso está me matando por que por um momento eu achei que fosse real.

_Mas foi. Sam eu... eu também amo você, sei que não pode me perdoar pelo que fiz. Mas aquela é nossa música e sempre será, e eu queria poder encontrar você de novo em outra madrugada no mesmo lugar. Ninguém pode tirar isso de você, de nós. Eu amo você, e... estou apaixonada pelo seu irmão. Estou aqui impedindo você de dizer Sim por que eu o amo o suficiente para querer seu bem, por que eu sei que é isso que Dean ia querer de mim. Faço isso por mim também, não posso te perder. E você não faz ideia do tamanho da decisão que estou tomando. É a vida do meu irmão que está em risco. – engoli em seco o soluço que que crescia na garganta. Os olhos de Sam em mim aliviaram um pouco. _Precisa acreditar em mim, por favor, eu não tenho mais nada nem ninguém e se eu perder você também... não posso... – disse baixinho, não sabendo se ele ouviu ou não acima do barulho da chuva que como nunca se fazia mais presente enquanto o silêncio se estendia.

_Se eu não disser Sim, seu irmão, eles vão...

_Podemos fazer isso. Eu fui idiota em subestimar vocês, mas eu sei que se... se nós tentarmos, podemos conseguir, eu, você, o Bobby e claro o Castiel, vamos achar o Dean trazer ele de volta e ele vai me ajudar. Tudo vai ficar bem, Sam, eu tenho certeza, meu irmão vai ficar bem, ele vai... – nem percebi quando os braços de Sam me envolveram enquanto eu soava como louca, atropelando as palavras soltas, ditando uma certeza como se ela fosse se concretizar, algo em que eu deveria acreditar. Agora soluçava em seu peito enquanto ele tentava me dar conforto em um abraço forte.

_Isso foi... interessante, tocante até eu diria. – disse uma voz acima da chuva, que se transformara numa garoa. Me desvencilhei de Sam e olhei para o dono da voz. Foi um choque tão grande que dei um passo para trás batendo as costas no peito de Sam.

Ele estava absurdamente lindo que não fiz nada a não ser contempla-lo. Era exatamente como no meu sonho, as mesmas roupas pretas o mesmo brilho parecia irradiar dele, aquele que não era meu Dean. As partículas à minha volta parecia ter se desprendido. Era muito errado e assustador.

_Isabel, gostaria que não se afastasse dessa vez. Ainda quero lhe agradecer, e ainda quero ajudá-la. Deixe Sam seguir para que eu posso levar você ao seu irmão. – disse Dean possuído por Miguel. O encarei sem palavras, atrás de mim Sam respirava forte. Os cantos da boca de Miguel se ergueram num sorriso leve. Apesar de lindo era tudo muito estranho a forma como eu desprezava o sorriso de Dean. _Quer mesmo trocar seu irmão pelo irmão de outra pessoa?

Naquele momento sentir todas as palavras sumirem do meu cérebro, era uma criança de novo, aprendendo a falar e se expressar. Foi Sam que se pronunciou.

_Vou dizer Sim, mas primeiro quero o irmão dela com ela. – olhei para ele. Será que todo o meu esforço de impedi-lo não serviram para nada? Sam se adiantou a minha frente seguindo para um Miguel sorridente. Agarrei a manga de Sam impedindo que ele desse mais um passo.

_Não, você não pode fazer isso, eu não vou deixar. – disse encontrando as palavras.

_Não torne isso mais difícil, Isabel, já conversamos sobre isso. – disse Miguel paciente.

_Não. Você não vai tocar um dedo nele. Você fala tanto do diabo, mas é tão monstruoso quanto Lúcifer. Está me fazendo uma chantagem cruel só para poder brigar com seu irmão, briga que por sinal exterminaria metade do planeta. – me aproximei dele, ficando entre Miguel e Sam. _Não vai leva-lo, nem que para isso eu tenha que... – parei de falar engolindo em seco.

_O quê? Me matar? – disse Miguel em tom divertido. Ele tinha razão, não podia fazer nada enquanto ocupava o corpo de Dean.

_Isabel, não...

_Fique quieto, Sam. – adverti decidida. Meu coração batia muito forte. Era quase demais olhar nos olhos de Dean e não encontrá-lo.

_Última chance Isabel, eu tenho a sua palavra e você a minha, um acordo assim não deveria ser dispensado tão rápido. Me entregue Sam e eu trago seu irmão sã e salvo. É uma operação simples. – disse Miguel muito sério.

_Não. – respondi tentando encontrar a firmeza na voz. Miguel me olhou de cima, a expressão severa de Dean, que já tinha me acostumado, só não encaixava na aura plácida de Miguel. Um trovão soou acima. Poderia ser muito bem Miguel tentando me intimidar.

_Tudo bem. Isabel. – Sam me virou para ele. _Está tudo bem, eu não tenho muito o que dizer, está tudo na carta. Só que isso é a coisa certa a se fazer. – ainda o sentia distante de mim, mas ainda assim ele mostrava uma preocupação e ternura comigo.

_Sam, não pode fazer isso. – disse começando a entrar em pânico pela milésima vez na noite. Sam balançou a cabeça e sorriu levemente. Se inclinou e depositou um beijo na minha testa.

_Se cuide. – disse e se afastou de mim para ficar ao lado de Miguel.

_Nos veremos novamente. – disse Miguel. Ema reação surgiu na minha mente como uma lâmpada acendendo. Antes que Miguel completasse o movimento para colocar a mão no ombro de Sam. Coloquei a palma da minha mão em seu peito.

Um choque passou por nós dois, a luz ultrapassou os meus dedos e Miguel foi lançado para trás, caindo duramente no asfalto à alguns metros de nós. Sam olhou pra mim com os olhos arregalados. Eu sabia que não tinha machucado Miguel, mas sim tentado ter uma vantagem, para quê eu não sabia direito.

_Sam, vamos. – peguei o pulso de Sam e começamos a correr para o carro. Era tolice pensar assim, mas não tinha opções, era a atitude desesperada esperada em momentos como aquele.

Sam puxou o pulso da minha mão, ou pelo menos foi isso que pensei de inicio. Só fui registrar o que acontecia quando vi seu corpo atingindo uma árvore do outro lado da rua. Não tive tempo de reagir ou gritar por ele, uma pressão quente se iniciou no meu peito e uma força sobrenatural e avassaladora já me lançava de volta ao ponto em que estava.

Minhas costas bateram em algo sólido e feito de músculos. Estava com as costas contra o peito de Miguel. Sua mão foi direto para meu queixo apertando forte. Senti sua respiração quente no meu cabelo molhado e depois na minha orelha.

_Não brinque comigo, filha do demônio. – disse Miguel num sussurro em meu ouvido. Como algo descartável fui largada no chão.

Caí de joelhos com as mãos espalmadas no asfalto molhado. Uma sensação poderosa pulsou no meu peito e eu senti meu coração dar um tranco tão forte que achei que ele ia pular do peito. Apertei uma mão contra o peito quando a dor veio. Primeiro uma sensação de queimação, depois a insuportável agonia de parecer que engoli fogo sagrado.

Meu coração parecia está sendo apertado por um compressor. Uma sensação tão física que me tirou o ar e eu deixei escapar um grito entrecortado. Meu coração estava se liquefazendo e se contorcendo em fogo. Um engolfo me subiu a garganta e o gosto de sangue preencheu minha boca. Cuspi meu sangue, que parecia óleo de motor somente com a luz da lua um pouco escondida pelas nuvens carregadas.

Tinha dito a Miguel num sonho que morreria por Dean, e estava provando minha afirmação usando todo meu autocontrole para não reagir a dor. Para não reagir a Miguel.

Porém acima da dor eu pude sentir uma presença nova, forte, tão forte quanto Miguel e tão terrível quanto...

_Não tem o direito de tocar em minhas crianças irmão. – disse uma voz. Levantei relutante a cabeça já sabendo quem era. É claro que sabia, saberia mesmo que estivéssemos a quilômetros de distância.

Lúcifer encarava as costas de Miguel, este se virou para o outro anjo. Seu rosto ainda estava coberto com feridas. A mesma energia inebriante fluindo entre nós como um fio esticado nos ligando. Não podia acreditar. Era absurdo demais para ser real.

_O que faz aqui, Lúcifer? – perguntou Miguel. Lúcifer desviou o olhar para mim. O efeito foi quase imediato, logo senti o aperto no peito amenizar e desaparecer. Tossi engasgando com meu próprio sangue. Tinha medo de que meu coração estivesse em migalhas no peito.

_Miguel, solte-a. – disse Lúcifer firme. _Não há necessidade disso, irmão. – Miguel sorriu. Isso nunca era um bom sinal.

_Como queira. – respondeu. Miguel pegou meu braço e me impulsionou para cima. A força escaldante do seu toque me deixava maravilhada e ao mesmo tempo amedrontada. Ele então me soltou, cambaleei um pouco ao seu lado para só então ser arremessada pela sua força invisível mais vez, como uma marionete para longe.

Meu corpo caiu em cima do carro. O vidro abaixo de mim rachou em mil fissuras com a força do impacto.Eu me sentia rachada em mil fissuras com a força do impacto. Em alguns pontos ele cedeu no qual os estilhaços ralaram meu ombro e meu pulso. Deixei meu corpo rolar pelo capô e cair no chão. Senti uma dor terrível começar na panturrilha e subir por toda a minha perna direita me paralisando.

Arfei sentindo o cheiro do meu próprio sangue e de terra molhada. Não conseguiria me mexer, tinha medo disso. Do chão conseguia ver as silhuetas de Dean e Lúcifer. Eles estavam frente à frente, conversando ou discutindo sobre alguma coisa, estavam longe demais para ouvir. Suas essências eram tão presente em mim como a dor.

Com um esforço consegui ficar sentada, ignorei a agonia e tentei me levantar, no meio do processo senti uma mão na minhas costas. Me sobressaltei, relaxei em seguida quando vi que era Sam. Ele estava sujo de lama e também tinha seus arranhões.

_Tudo bem? – perguntou examinando meus olhos e corpo. Fiz que sim com a cabeça.

_Você? – ele também assentiu.

_Temos que sair daqui logo. Consegue andar? – perguntou prático. Me perguntei se Sam estava com medo ou assustado, pois só via uma determinação feroz em seus olhos, o que me acalmou.

_Consigo. – afirmei.

_Tudo bem, vamos sair pela floresta. – ele passou o braço na minha cintura e me ajudou a ficar de pé. Não esperamos mais, saímos em disparada para a floresta a beira da estrada. Deixando Miguel e Lúcifer para trás. Deixando Dean para trás.

Nos lançamos em meio ao emaranhado de plantas. Não ligava para os afiados e retorcidos galhos dos carvalhos que arranhavam meus braços e rosto, ou as moitas de ervas e plantas rasteiras que me faziam tropeçar o quanto mais adentrava o bosque, não ligava muito menos para a agonia que era pisar na terra molhada e escorregadia, tudo por que queria ficar longe do que iria acontecer. O mais longe possível de Lúcifer.

O risco da lua acima oferecia pouquíssima luz o que dificultava tudo. Por um momento achei que tinha perdido Sam, mais o aperto repentino da minha mão na sua me fizeram mais tranquila. Apesar de que tranquila era uma palavra muito forte para usar, diria menos apavorada, era o mais adequado.

Olhei só uma vez para trás, apenas a tempo de ver onde começava uma luz estremecedora antes que ela assumisse forma e banhasse tudo em dourado esbranquiçado, antes que ela explodisse a nossa volta e nos envolvesse em um calor estarrecedor. A terra vibrou aos nossos pés nos lançando para frente, caímos na lama sem ter onde nos apoiar.

Houve uma pulsação, como um pulso eletromagnético varrendo tudo, depois outro mais forte, fazendo o chão estremecer ainda mais, me arrancando do contato com Sam. Fechei os olhos sentindo no peito o poder que aquela luz emanava. Sabia o que era; o encontro de duas potentes. O resultado quando se coloca Lúcifer e Miguel frente a frente.

A luz ficou mais forte através das minha pálpebras e o som dos anjos explodiu nos meus ouvidos. Aquele ressoar gritante e sinfônico, o som de sinos e de unhas aranhando a lousa. Coloquei as mão nos ouvidos tentado abafar um pouco o barulho.

O som de madeira partindo podia se ouvir abaixo, coisas começaram a cair de cima, galhos e folhas cobriam o meu corpo, um deles atingiu justamente minha perna dolorida me fazendo gritar de dor. O cheiro de vegetação queimando preencheu minhas narinas...

Tudo foi abafado. Assim do nada, o calor sumiu e a luz esmaeceu, o som era um tocar distante. Levantei a cabeça e afastei o cabelo molhado do rosto sujo de lama. Quase não acreditava no que via. Castiel de pé envolto a luz branca, as mãos erguidas para cima os olhos azuis mais brilhantes que nunca. Os troncos das árvores caindo desviavam de nós, era como se ele estivesse fazendo um campo de força em volta de mim e Sam jogado ao meu lado.

De uma vez só tudo parou e fez-se escuro de novo. Castiel caiu de joelhos no mesmo instantes. Do seu nariz escorria um filete de sangue. Fiquei de joelhos e Sam já estava ao lado de um nauseado Castiel.

_Cass, tudo bem? – perguntou Sam. Castiel olhou para as próprias mão como se as visse pela primeira vez. A chuva diminuindo gradativamente seu compasso nos dava um bom frescor de todo o calor repentino.

Não só a chuva caia do céu, o que a princípio eu achei que fosse neve se revelou ser cinzas. Olhei ao redor, para a massa de destruição total; Árvores derrubadas, montes de terra soltas, folhas e galhos finos queimando, alguns ainda em brasas sendo contidos pela chuva já escarça.

Sam e Castiel se falavam, não ouvia muita coisa, minha mente estava voltada para a estrada que fora usada como campo de batalha. Não dava para ver muito dela, algumas árvores sobrevivente bloqueavam minha visão. Me levantei para aumentar o alcance da minha visibilidade, não mudou muita coisa.

E ele estava próximo. Lúcifer estava muito perto, e parecia me chamar e eu queria ir. Queria chegar mais perto e tocá-lo... Balancei a cabeça fortemente, não estava pensando coisa com coisa. Eu tinha que sair dali.

_Castiel consegue nos tirar daqui? – perguntei. Castiel de pé, ainda meio instável olhou para Sam.

_Não posso. Lúcifer está me bloqueando. Não posso tira-los daqui. – Sam se voltou para mim, o tipo de olhar perdido de que não se sabia o que fazer, se era melhor correr, ficar ou simplesmente cair lutando. Eu não sabia o que fazer, por isso continuei parada olhando para Castiel.

_Cass, eu preciso que faça algo por mim. – disse me aproximando e firmando seu olhar no meu. _Você precisa salvar meu irmão, é o único em que confio. Lúcifer e Miguel não vão deixar eu ir, nem Sam, não sei o que vai acontecer com nós dois, mas por favor, como um último pedido meu peço que salve meu irmão. É só uma criança e não tem nada a ver com isso tudo. – Castiel pareceu confuso, mas depois assentiu.

_Onde ele está?

_Em Londres. Acho que na rua Fletcher, é um condomínio. Não sei exatamente onde ficar, mas eu acho que você vai saber quando chegar lá. – Castiel assentiu mais uma vez. _E Cass, leve-o para o Bobby, e... diga a ele que o amo.

E Castiel desapareceu.

_Sam. – chamei. Eu podia sentir ele vindo. Podia sentir a essência dele vibrando dentro de mim.

_Eu sei. – Sam também sentia. Ele também sabia que Ele estava vindo.

... — ...

Castiel ainda estava ferido. Tinha ficado fraco depois que Dean usou o sigilo contra ele, e ainda mais usando seu poder para proteger Sam e Isabel. Mas mesmo assim lá estava ele de novo, a primeira parada num lugar já conhecido. Tinha lhe feito uma visita não fazia muito tempo.

Ele parou no meio da loja, cambaleou um pouco, um homem esbarrou nele enquanto saia o encarando desconfiado. Ele tinha sido descuidado, não seria bom que o vissem aparecendo do nada no meio dos lugares. Ithuriel o olhou com incredulidade.

_Castiel? O que faz aqui? – perguntou o anjo surpreso.

_Se ainda existe misericórdia em você irá me ajudar. – disse Castiel. Ithuriel suspirou. Ele ainda estava tentando lidar com o que Dean fizera. Tinha acabado de perder um amigo, talvez até a guerra. Mas ele ainda tinha munição para uma última coisa, salvar uma alma inocente.

_Já disse Castiel, não sou mais um soldado.

_Então por que guarda no casaco uma lâmina celestial. – rebateu Castiel.

_Apenas uma precaução.

_Tem um garotinho em Londres precisando da nossa ajuda, ele está com demônios. Não passarei por todos sozinho.

_Castiel, não vou com você, eu não...

_Se se apegou tanto assim a humanidade por que não faz nada para preservá-la? Você disse que parou de lutar, mas eu ainda vejo o anjo em você Ithuriel. Mas se existe um pingo de humanidade aí terá de me ajudar. – Ithuriel olhou para Castiel com uma expressão indecifrável, algo beirando a relutância. _Se eu for lá sozinho posso morrer e levar a criança comigo. – Ithuriel assentiu uma vez e deu as costas para Castiel. Depois começou a arrumar metodicamente as prateleiras.

_Me desculpe, não luto mais. – disse o anjo em voz baixa. Castiel poderia partir naquele momento, era sua deixa, mas ele não acreditava no anjo de costas para ele. Ele se recusava a acreditar que tudo estava realmente perdido.

_Eu perdi um amigo hoje. – falou Castiel usando o mesmo tom de Ithuriel.

_Eu sei. Dean Winchester disse Sim. – o outro anjo se voltou de novo para Castiel. Não tinha nem um pingo de compaixão em sua voz ou em seu rosto. _Seria cruel da minha parte tentar confortá-lo dizendo que foi uma perda inevitável e que não tinha nada que você pudesse fazer para impedir, mas só posso dizer que sinto muito, Castiel.

_Não sente. – afirmou Castiel.

_Não? – Ithuriel levantou uma sobrancelha.

_Não, disse que caiu por que queria sentir, mas não sente. Você só fica aqui em sua lojinha observando a humanidade através de uma parede de vidro, não muito diferente de quando era antes. Você simplesmente não se importa, nunca se importou. Quer ser um deles, mas sequer está disposto a lutar por eles. – Ithuriel saiu detrás do balcão, parou diante de Castiel colocando as mãos nos bolsos da calça de linho, totalmente impassível. _Se tem uma coisa que aprendi com os Winchester é que nós escrevemos a nossa própria história. Não existe essa coisa de destino traçado se nos damos o direito da escolha. Não devo ao céu, nem aos humanos, devo a mim me permitir escolher e seguir o que acho correto. Vou me ariscar para salvar aquela criança, por que é a coisa certa se fazer. Por que foi assim que Dean me ensinou.

Castiel e Ithuriel se entreolharam através dos olhos humanos. O mesmo tipo de olhar que o anjo trocou com Dean antes que este o expulsasse.

_Não me parece muito bem, Castiel. – observou o Ithuriel.

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_Estou bem. – afirmou Castiel. Ainda se sentia um pouco enfraquecido, mas tudo que desabafou para Ithuriel lhe dera uma nova fonte de energia. Era isso, um novo tipo de esperança surgindo; O livre arbítrio. Se ele podia escolher, ele podia mudar as coisas, traçar um novo destino. _Existe alguma forma de expulsar um arcanjo de seu receptáculo sem o matar? – a reação de Ithuriel a mudança brusca de assunto se manifestou em um ruga sutil entre as sobrancelhas.

_Miguel é forte demais, nesse momento Dean Winchester está queimando, se ainda está vivo, dentro de si. Mesmo se conseguir expulsar o arcanjo, ele nunca mais será o mesmo. Perda da fala, dos movimentos, paralisia cerebral e contando. – respondeu Ithuriel prático.

_Mas é possível? – perguntou Castiel perdendo a paciência. Ithuriel pensou um pouco, um olhar perdido. Depois se voltou para Castiel.

_Não. Me desculpe. – respondeu o amigo. Cass sentiu como uma punhalada, mas se obrigou a se manter firme. Acharia um jeito.

_Se virá comigo diga logo, não tenho tempo a perder. – disse em tom seco.

_Quantos demônios?

_Muitos.

_Uma última batalha juntos?

_A última. – Castiel não tinha certeza, mas parecia que viu um esboço de um sorriso em Ithuriel. O amigo se aproximou de Castiel e colocou uma mão em seu ombro deixando que o anjo guiasse a viajem...

Os anjos estavam parados em frente a um grande portão de ferro antigo e gasto do inicio do condomínio situado no subúrbio de Londres. Isabel tinha razão, Castiel soube quando pousou em Londres. O odor pungente dos demônios era sentido ao longe.

Ithuriel estendeu a mão para o portão que vibrou e se escancarou para eles. Tudo estava quieto, o sol nasceria em poucas horas. Aos olhos humanos aquele lugar era só um condomínio pacato, mas para Castiel e Ithuriel era um campo de batalha cheio de armadilhas.

Castiel conseguia ver em alguma casas símbolos contra anjos. O que dificultava saber em qual delas o menino estava. Os dois deram passos à frente adentrando o local ladeado de casas a cada lado. E o inimigo logo se anunciou.

Quase simultaneamente as portas das casas se abriram. De lá saíam famílias inteiras possuídas de demônios. Castiel não conseguia nem contar quantos eram, mas eram muitos. Pela primeira vez ele sentiu que talvez não conseguisse concluir a missão, talvez fosse ali que iria morrer. Olhou para Ithuriel.

_Última batalha então. – disse o anjo para ele. Castiel se voltou para massa de demônios em uma formação estranha. Ele tirou a adaga do casaco. Ithuriel fez o mesmo.

Com uma última troca de olhares os anjos avançaram ao mesmo tempo em que os demônios, como se o soar do grande gongo da luta tocasse. As forças escassas do céu contra o inferno em peso.

... — ...

_Ah, aí estão vocês. – disse Lúcifer saindo das sombras das árvores e pulando as outras caídas para chegar até nós. Agora que estava mais perto podia ver o estrago nele. Arfei dando um passo para trás. Ele estava coberto de sangue, camisa e calça estavam encharcada com o líquido escuro viscoso, assim como seu rosto. Encarei seu rosto nauseada; na maçã subindo a têmpora esquerda se via rachaduras, vínculos que de suas fendas algo brilhava em vermelho alaranjado. Era como observar as rachaduras de superfícies vulcânicas.

_O que houve com seu rosto? – soltei a pergunta estúpida.

_Ah, isso. – ele apontou para o próprio rosto. _Não foi nada, o pobre Nick está se esfacelando, e meu irmão não facilitou as coisas. Mas não se preocupe, querida.

_Não estou preocupada. – disparei petulante, soei mais infantil do que firme. Lúcifer sorriu, as rachaduras de seu rosto brilhou mais intensa. O mesmo brilho que vi quando tive a visão depois de capotar o carro com Sam. A luz daquela espécie de portal me chamando e convocando a entrar em sua jaula. Queria perguntar a ele, ou lembrar do que aconteceu depois, o que fez comigo, o que falou para mim, mas permaneci calada, minha curiosidade sendo consumida pelo medo.

_Claro que não. – disse Lúcifer de forma concisa. _Gostaria que pudesse ver minha verdadeira forma. – emendou reflexivo.

Lúcifer; O portador da Luz. A estrela da Manhã. Não tinha nem rastro dessa luz resplandecente no corpo que ocupava. Coberto de sangue e se desfazendo em feridas eu só via o monstro, o diabo. E bem lá no fundo tinha medo de conhecer sua luz, de senti-la e me encantar com aquele que fora o anjo mais lindo da guarnição celestial. Me perguntava se ainda restava essa mesma beleza depois de milhares de anos no inferno, trancafiado numa jaula. Se ele ainda era capaz de iluminar os cantos mais escuros ou se agora portava a escuridão.

_O que fez com meu irmão? – perguntou Sam. Sua voz tremeu um pouco. Raiva e medo. Lúcifer franziu o cenho. Estava apenas a poucos metros de nós. E eu começava a ficar tonta com a atração que existia entre nós vibrando em cada partícula do meu corpo. Meu coração batia forte. A pergunta de Sam era muito válida, se o estado de Lúcifer estava assim o que restava de Dean?

_Você diz meu irmão? – ele deu mais alguns passos para frente, Sam recuou um pouco e eu desejava sair correndo, mas meus pés continuaram plantados no lugar. Eu queria ele mais perto, queria tocá-lo e me deixar ascender com sua luz... _Sam, Dean já não existe mais, Miguel o tomou e não tem nada que possa fazer. Dean está morto. O que você vê é só uma casca da qual Miguel ocupa. Seu irmão foi inteligente em não prolongar mais isso, a quanto tempo estamos fazendo essa dança? Cinco, sete meses? Eu peço que diga Sim, você responde com ameaças, eu digo que esse é seu destino você diz que sou um monstro. Chega Sam, seu prazo está se esgotando, as coisas estão só se estreitando. Dirá sim. Porém não acho que seja hoje, não, já disse a você quando e onde seria, e eu não erro. Também não quero precipitar as coisas. Mas chega de ameaças vazias, chega de espernear como um menininho teimoso. Apenas descanse, se prepare, aproveite esse mundo enquanto pode e esqueça seu irmão.

_Seu desgraçado. – disse Sam baixo, mas em tom ameaçador. _Eu vou acabar com você. Vou matá-lo nem que isso seja a última coisa que eu faça.

_Não Sam, essa honra só será minha. – Miguel surgiu atrás do irmão, alguns passos de distância. Lúcifer se virou.

Dei uma rápida olhada nele; estava bem melhor que Lúcifer. Intacto na verdade, apenas com sangue manchando as mãos e os pulsos. Seus olhos estavam iluminados em um brilho intenso, o verde escondido pelo dourado da essência de Miguel. Meu coração doeu.

_Ora Miguel, sabe que não seria uma luta justa. Esse não é o campo escolhido, sabe disso. Contenha sua ira, irmão. Não deveria ficar tão nervoso quando apenas lhe disse a verdade. – a expressão de Miguel ficou mais dura, os punhos sangrentos cerrados ao lado do corpo. Suas roupas pretas se misturavam a escuridão que nos cercava. Mesmo assim, mesmo no escuro, ele parecia iluminado da mesma forma como vi no sonho, que na verdade não era sonho. Ele era um contraste gritante quanto a Lúcifer.

_Você é um mentiroso. É um monstro Lúcifer, não acredito em nada que venha de sua boca. – Lúcifer riu. Um som estranho e seco.

_Já lhe disse, não vejo necessidade em mentir. Eu sei Miguel, Deus não liga para isso, nos abandonou e não irá voltar. Você me chama de monstro, mas se ainda estou aqui, se ainda caminho entre os mortais, no planeta em que nosso pai criou, é por que é da vontade Dele assim. – Lúcifer se aproximou mais do irmão. _Já se perguntou o por que ele permite o mal para começar, por que deixou que a cobra penetrasse no paraíso? Nosso pai é um sádico, um velho louco por reverência. Ele permite que eu viva por que precisa que os macacos pelados lhe provem que fizeram a escolha certa ao se curvarem diante à sua vontade. Se fosse tudo paz e arco-íris, o paraíso na terra como você quer, não estaria dando o direito de escolha. Por que tantos vem para o meu lado? Por que podem, por que escolhem, e meu irmão eu estou igualando o placar. Deus simplesmente lavou as mãos. Ele viu que seus preciosos humanos são corruptos e maus por natureza, e olha que eu nem tenho que me esforça muito. Talvez Ele esteja entregando o planeta para mim por que sabe que já venci. Por sabe que não existe mais redenção.

_Está errado. Eu vencerei você, e abitarei esse planeta com apenas os dignos e fieis. Então nosso pai voltará para casa. Eu já te venci uma vez, posso vencer de novo. Apenas lamento ter de ser assim novamente. – disse Miguel muito calmo. Já eu estava tremendo de frio e com as palavras de Lúcifer ressoando nos meus ouvidos como ecos. E minha garganta secou ainda mais quando Miguel olhou para mim. _Essa é sua última chance de cumprir com a palavra Isabel. Fique com meu irmão e queimara junto com ele, ou venha comigo e cumprirei com nosso acordo, mesmo tendo penas um lado da barganha.

_Eu.. – comecei, a verdade é que não sabia o que fazer ou falar.

_Ela é minha Miguel, não o seguirá, sabe disso. – respondeu Lúcifer por mim. Ele foi para meu lado, senti a mão de Sam apertar meu braço e me puxar pra mais perto dele, para mais longe de Lúcifer que só sorriu para mim. Ele tinha tanta certeza do que falava.

"Acha mesmo que ira resistir a Ele. Isabel, você não entende o que meu irmão fez com você. Você pertence a ele, você ira até ele, querendo ou não." já disse Miguel para mim.

E eu o sentia. Tão perto assim poderia senti-lo. E sim, queria poder ver sua verdadeira forma. Agora tinha certeza de que era tão iluminada e cheia de luz quanto a de Miguel. E percebi que assustadoramente o que me segurava no lugar era Sam. Miguel sorriu, tranquilo e demoradamente.

_Ela jurou lealdade a mim Lúcifer. Queimarei seus demônios, resgatarei o irmão dela e ela lutará comigo, contra você.– sentia a postura confiante de Lúcifer vacilar. O cheiro pungente de sangue emanava dele, e o mais incrível acontecia; as rachaduras em seu terno de carne estavam cicatrizando lentamente, a pele se juntando e regenerando. Ele olhou para mim, os olhos azulados brilhando no escuro como os de gato.

_Jurou lealdade à ele? – perguntou Lúcifer.

_O quê? Não. – disse um pouco na defensiva demais. Não deveria está tão desesperada para me justificar para Lúcifer.

_Venha comigo Isabel. Está é a escolha certa. – disse Miguel persuasivo.

_Ela não vai a lugar algum com você, irmão. – rebateu Lúcifer se movendo para perto de mim e Sam. Dei um passo para trás. _Tudo bem, querida, não vou machucá-la. Nunca a machucaria.

_Afaste-se. – alertou Sam.

_Está tudo bem, Sam. – continuei congelada contra Sam enquanto Lúcifer se aproximava nos encurralando. Com um movimento rápido demais para acompanhar, ele tocou com os dedos a testa de Sam e imediatamente senti seu corpo se afastar do meu e ele caiu pesadamente. Me ajoelhei ao seu lado verificando sua pulsação.

_O que você fez com ele? – gritei para Lúcifer, enquanto tentava reanimar Sam. Ele respirava, se não fosse toda a situação diria que estava dormindo.

_Ele vai ficar bem, acordará logo. – respondeu com calma. Me levantei e fiquei frente à ele. Queria atacá-lo, queria muito acabar de rachar aquele rosto, mas continuei parada. Deixei que ele me tocasse, colocasse a mão em meu ombro e sorrisse para mim de modo tranquilizador. Deixei que ele me iluminasse e me tomasse como sua. _Diga à ele querida, diz que pertence a mim. – era impressão minha ou eu tinha visto Miguel recuar sutilmente, um mínimo, mas estava lá antes de ele recuperar sua confiança.

_Não faça isso Isabel, não se entregue. Vi o que há dentro de você, é forte e poderoso, mas também é independente. Você pode escolher. Pode ficar do lado vencedor ou caíra com meu irmão. – Lúcifer passou o braço em meu ombro.

_Não escute meu irmão. Apenas eu posso lhe dar o que quer, quando tudo acabar eu te entregarei seu irmão. Posso trazer sua mãe de volta. Posso lhe dar paz. – disse ao meu ouvido.

_A custa de uma pilha de corpos e sofrimento. É isso o que quer Isabel? – não, não era o que eu queria. Mas eu não podia discutir com Lúcifer. Eu só queria saber mais dele, o que ele poderia me mostrar ou oferecer. Me virei para Lúcifer, Miguel era só uma figura distante.

_Eu quero ver. Quero ver você, sua verdadeira forma. Quero poder me lembrar. Eu tive uma imagem, uma memória de quando estive no inferno. Você estava lá, estava me chamando, e eu fui, eu queria poder lembrar de vê-lo. – qualquer um que me visse agora acharia que eu estava alucinando. Mas era só o que estava encobrindo com moral e amor que agora se expunha.

Lúcifer sorriu, um sorriso carinhoso, lembrava de quando ele ia me visitar no hospital, de como foi gentil... Ele pegou minha mão e a colocou em seu peito, no lugar onde ficaria o coração.

E o senti, não as batidas de seu coração, mas sua essência. Como era forte, brilhante e linda. Fechei os olhos e me deixei levar. Era como segurar um raio, capturar um relâmpago e prendê-lo em um frasco. Uma forma pura que transbordava eletricidade e fogo. Meu Deus, eu faria qualquer coisa, só para poder tocar a Estrela da Manhã mais profundamente, descascar sua proteção de carne e me banhar com sua luz. Porém ele afastou o toque e nos trouxe de volta.

Lúcifer colocou um metal frio na minha mão, olhei para baixo confusa. Era uma adaga, a adaga dos anjos. Olhei para ele sem entender, Lúcifer olhou para Miguel. Relutante seguir seu olhar. Miguel não pareceu intimidado, pelo contrario, estava descrente, confiante.

_Não quer me machucar. Não vai. – ele fechou os olhos e abriu os braços, depois de alguns segundos uma luz transbordou dele, então ele se curvou como se tivesse levado um golpe no estômago. Lúcifer me deu um leve empurrão para frente, mesmo não o tocando o sentia me guiando.

Parei diante de Miguel, curvado como deveria ficar, ele então levantou os olhos para mim. Olhos com um brilho humano, normais e conhecidos demais para mim. Me senti vacilar.

_Isabel? – disse Dean. Seu olhar foi para Sam no chão e depois para mim, por último Lúcifer. Seus olhos se arregalaram. _Mas o quê...

_Faça, Isabel. – incentivou Lúcifer. Olhei para a adaga nas minhas mãos e depois para Dean. O meu primeiro amor. E eu sabia que não podia feri-lo, não podia por que tinha plena consciência de que o amava demais. Eu me sentia suspensa no ar. Jogada num infinito de incerteza. _Faça.

_Isabel, me desculpe, diga ao Sam que eu sinto... – Dean gritou, um grito curto de dor, ele apertou a mão no peito, começava a brilhar novamente, mas ele estava resistente, parecia lutar com si mesmo. Um conflito interno entre ele e Miguel. _Ele...ele é muito forte. – ofegou.

_Dean... – disse num sussurro abafado. Olhei para Lúcifer, ele tinha os olhos aguçados em Dean, parecia curioso a toda cena, como um diretor de um filme avaliando seus atores contracenarem. Lúcifer se voltou para mim. Um olhar intenso e opressor. Sabia o que fazer. _Eu amo você. – Dean me lançou um olhar confuso antes de tudo.

Antes de eu perfurar seu peito com a adaga. Minhas mãos sujas de lama e sangue deslizaram pela adaga dos anjos quando a lâmina perfurou as costelas, penetrando-o, abrindo caminho entre carne e ossos até que meu pulso o tocasse. E eu congelei, os olhos embaçados com lágrimas. Dean não se mexei, eu estava pressionada contra ele agora segurando cabo da adaga sentindo seu sangue quente brotar da ferida.

Ele não emitiu nenhum som além de um arfar, nenhum grito de dor, nem uma expressão de agonia. Estava lindo, incrédulo, e não era mais meu Dean. Miguel tinha tomado as rédeas. Pisquei sentindo as lágrimas fazerem um traço quente em meu rosto. Tinha parado de chover, só agora percebi.

Miguel olhou para mim e seus olhos brilharam. Uma luz forte transbordou do corte feito com a adaga iluminando nós dois.

Então ele começou a ascender em fogo sagrado.

Notas finais
O que acharam? Eu sei, eu sei, esse final também partiu meu coração. Quero saber como foi para vocês, deixem reviews!!! Até breve anjos. XOXO