Broken Girl

17 Capítulo dezessete: Amor e Sacrifício.


Notas iniciais
Hey, finalmente ressuscitei a fic. Me desculpem pela demora para postar, fiquei sem net umas duas semanas --' Masss agora voltei. Não tem muito o que dizer sobre o capítulo, apenas que foi feito com muito carinho e que não tive muito tempo para revisar, então qualquer coisa me avisem ou relevem. Boa leitura. Espero que gostem!! Enjoy ^^



Ficamos congelados em nossos lugares, parecia que ninguém era capaz de mover um músculo. Até que Dean foi o primeiro a fazer alguma coisa.

_Me desculpem, não queria atrapalhar. – disse ele e fechou a porta do quarto com uma batida sonora, que fez as dobradiças tremerem. Encarei a madeira como se Dean ainda estivesse ali.

Não tive coragem e nem consciência para olhar Sam ao meu lado, já segurava a maçaneta da porta e abria a porta surpresa por estar destrancada. Fechei a porta atrás de mim e parei de novo. Dean estava de costas para mim e eu sentia o medo se apossar dos meus ossos me paralisando. Não queria encará-lo.

_Dean, eu... – tentei e as palavras tropeçaram em minha boca e eu não consegui pronunciar nenhuma mais. Ele continuou de costas.

O silêncio nos esmagava e os minutos pareciam uma eternidade enquanto não conseguia extrair dele alguma reação. Por algum motivo um Dean silencioso assustava mais do que um que tivesse brigando comigo. Respirei fundo e tentei de novo dando um passo hesitante a frente.

_Eu amo você. – eu disse surpreendendo a mim mesma com aquela declaração repentina. Não era um pedido de desculpas, eu deveria está me desculpando. Balancei a cabeça para fazer os pensamentos se desenrolarem. _Eu... – ele levantou a mão.

_Para. – com isso ele se virou e minha garganta ficou seca. Dean passou um olhar vago pelo quarto, nossas roupas espalhadas em pontos aleatórios do chão, a cartela de camisinhas perto da cadeira com sua jaqueta, sua carteira e os pedacinhos brilhantes do espelho estilhaçado. Parecia que ele tentava entender o que aconteceu há umas duas horas, ou tentava procurar um ponto de partida para começar a falar. E finalmente olhou para mim.

A única luz vinha do abajur perto da cama, uma luz fraca e amarelada que projetava sombras em Dean, deixando seu rosto com um tom fantasmagórico de dourado, os olhos escuros e os cílios desenhadas abaixo dos olhos. Minha pressão sanguínea acelerou. Era impossível ler sua expressão. Não era raiva, ciúme ou qualquer outra coisa que eu esperava. Ele parecia... sombrio.

_Sabe, eu não estou com ciúmes, nem nada disso, por que parece que estava esperando o próximo golpe. Por que é isso que fazemos, machucamos um ao outro. – ele deu um passo a frente, resisti a vontade de correr para ele e me jogar em seus braços. Mesmo à alguns metros um do outro eu me via muito distante de Dean, milhões de milhas se estendendo entre nós que nunca existiu antes. E eu sofria com a saudade da perda e da distância. As horas anteriores como um sonho ou alucinação. Ele continuou no mesmo tom, controlado, grave e firme. _Sabe o por que gosto... Melhor, usando a palavra que Sam disse para mim hoje cedo; Você sabe o por que me apaixonei por você? – ele fez uma pausa, não sei se esperava uma resposta. Apenas o olhei incrédula. Não esperava aquilo. Um aceno mínimo de cabeça indicava a ele que não sabia a resposta.

_É uma das pessoas mais corajosa que conheci, do tipo que faz qualquer coisa para salvar aqueles que ama, como entrar numa igreja desabando por causa do melhor amigo ou percorrer uma cidade infestada de demônios e salvar meu irmão. Você se lança de cabeça no perigo e isso acaba comigo. Você tem esse humor sarcástico e ácido que eu adoro e ao mesmo tempo detesto. Gosto de você por que de um jeito um pouco distorcido e estranho me vejo. Nossos infernos foram diferentes, mas foi muito mais do que nós poderíamos aguentar, e estamos aqui, de pé, sobrevivendo e lutando pelos que amamos e por nós mesmo. Você é tão errada quanto eu Isabel, tão destruída por dentro quanto eu estou. Estamos nos segurando um ao outro para não cair e... – ele se aproximou um pouco mais. Meu sangue parecia escoar do meu corpo me deixando tonta e fraca. Não estava preparada para aquele Dean. Não sabia como responde-lo. Só tinha ciência de suas palavras e do meu coração acelerado.

_Apesar disso tudo eu sinto o... frio em seu coração, conheço você, o quanto pode ser implacável e cruel para chegar onde quer ou onde precise estar. Eu entendo você e o Sammy, tem todo esse lance de estar no lado sombrio da força, eu sei que ele melhor que ninguém sabe o que está enfrentando agora. Ele é um bom garoto, qualquer uma teria sorte de tê-lo, e meu dever é protegê-lo, não importa do que. E isso é o que mais me assusta, a possibilidade de fracassar. – vi as linhas do seu rosto endurecer enquanto ele saia do foco da luz ficando bem diante de mim, tão perto que doía não dever tocá-lo. Continuei estática, a cabeça inclinada um pouco para cima para olhá-lo nos olhos.

_Pode parecer duro o que vou dizer, mas sei que não vai ficar encanada com isso. – ele me olhou com tanta intensidade que prendi a respiração. _Isso é nosso jogo. Da próxima vez que quiser me atingir ou querer alguma coisa, não use meu irmão. – pisquei como se meus olhos fossem capaz de revelar a Dean o que tentava esconder. Cada palavra perfurando-me o coração.

Também tenho um irmão para proteger. Também amo Sam. Queria dizer, mas fui silenciada por todas as suas palavras.

Ele levantou a mão como se fosse acariciar meu rosto, mas desistiu no meio do caminho e abaixou lentamente, deu alguns passos para trás e pegou a jaqueta na cadeira. O acompanhei com o olhar até ele passar por mim.

_Acha mesmo que não amo seu irmão? – perguntei girando para encarar suas costas e sua mão na maçaneta da porta. Ele vestiu a jaqueta e achei que iria sair sem responder, mas sua resposta veio curta:

_Não, pelo contrário. – ele olhou para mim por cima do ombro. _ Mas também disse que me ama depois de beijar meu irmão. – e ali estava a reação que procurei no começo, a raiva contida que se encaixava bem nele.

_Onde você vai? – perguntei. Vi um brilho em seus olhos, um rápido lampejo de algo profundo e triste. Então ele se virou de novo para porta.

_Cumprir minha promessa. – disse antes de girar a maçaneta e sair para o corredor.

Continuei no meio do quarto enquanto Dean saia pela porta. Só descongelei quando vi que Sam ia atrás do irmão. Saí no corredor seguindo os meninos, na verdade talvez não fosse uma boa ideia. Sam caminhava ao alcanço de Dean e tentava argumentar com o irmão.

_Dean, vamos conversar, só para um pouco... – Dean parou, mas foi para empurrar o irmão contra a parede. Prendi a respiração. O ante braço de Dean estava prensado contra o peito de Sam, este não fazia menção em reagir, tanto que ele levantou as mãos em sinal de rendição. Mas nada houve, Dean olhou bem para Sam e o mesmo retribuiu o olhar.

Então Dean soltou Sam e voltou a andar. Mas Sam não perecia inclinado a deixá-lo ir assim. Ele tentou de novo colocando a mão no ombro do irmão. A reação de Dean foi imediata e tão rápida que mal vi ele se virar e mira o punho no rosto de Sam. Quando dei por mim já estava amparando um Sam cambaleante com a força do golpe. Tentei segurá-lo agarrando sua camisa e só conseguir cair junto não suportando seu peso.

Olhei para Dean do chão. Seus olhos ainda brilhando com faíscas de fúria e talvez, bem talvez, algum arrependimento que logo desapareceu quando ele se virou de novo e começou a descer as escadas. Encarei por um tempo o final daquele escuro corredor, sentindo minhas emoções a flor da pele e meu coração mais pesado que nem sabia se podia suportá-lo no peito.

Voltei a mim quando ouvir Sam grunhir e tentar se levantar. Tinha sangue na sua mão, a origem vinha de seu nariz. Ele passou o dorso da mão no nariz fazendo uma careta antes de se levantar com a agilidade de um caçador. Já eu me atrapalhei um pouco, Sam esticou a mão limpa para mim me impulsionando para cima para então correr escada abaixo atrás do irmão.

Fiquei indecisa se iria junto ou ficava ali remoendo a minha tragédia. Não, não podia ficar ali sozinha. Corri para escada, descalça, descabelada, vestindo nada mais que a camisa xadrez de Dean e uma calcinha de renda rosa.

Quando cheguei ao foço da escada, encontrei uma porta aberta no fim do cômodo e Bobby olhando por ela confuso e desamparado. Fiz companhia a ele.

_O que deu nesses dois? – perguntou Bobby. Olhei para cena do lado de fora, Sam bloqueava a entrada de Dean no Impala enquanto discutia alguma coisa com o irmão. Dean balançou a cabeça e tentou tirar Sam da frente do carro que mostrou mais resistência. E aconteceu tão de pressa que só conseguir ficar congelada no lugar por alguns instantes.

Dean acertou um segundo soco em Sam que não estava tão decidido a se render, ele agarrou Dean pela gola da camisa e o empurrou para longe. Dean nem se desequilibrou, mas agora parecia dar mais gás a raiva. Ele avançou para cima de Sam, o punho acertando o outro lado de seu rosto, o golpe brusco o impulsionando contra a janela do carro. Sam não ficou parado, conseguiu acertar Dean e este reagiu usando o cotovelo contra abdômen do irmão.

Bobby disse alguma coisa, mas eu já estava correndo para o meio da briga. No escuro tudo se tornou mais complicado, não conseguia acompanhar o que acontecia. Só sabia que os dois estavam se acertando. Vi um punho acertar Dean, depois um outro em Sam. Seus corpos se chocando com golpes que não entendia.

_Parem! – gritei, apesar de saber que era inútil. O jeito era me meter entre os dois.

Encontrei Dean e tentei arrancá-lo para longe de Sam segurando sua camisa. Um braço acertou meu ombro e eu caí para trás. Desabando na chão — tornando a coisa mais constrangedora por que senti a camisa subir um pouco revelando minha calcinha, mas isso era o que menos importava -. Um som estrondoso soou perto. Os dois pararam e olharam para casa á frente. Bobby segurava uma espingarda.

_Os dois vão parar agora ou vou ter que atirar nos seus traseiros? – gritou pra Sam e Dean que ofegavam, os rostos machucados e manchados de sangue.

Enfim Dean se adiantou para me ajudar ao mesmo tempo que Sam fazendo o ombro dos dois esbarrarem. Me preocupei de que aquilo seria o suficiente para fazê-los recomeçarem.

Um pouco desajeitada conseguir ficar de pé sem ajuda. Olhei de Sam para Dean e Dean para Sam. Sem saber oque fazer ou dizer para qualquer um dos dois. E foi Dean que tomou a palavra.

_Estou indo. E nem tente me impedir de novo. – disse ao irmão.

_Dean, por favor, volta para casa, vamos resolver isso como adultos. – tentou Sam, vi que o canto de sua boca estava machucado, assim como o nariz, tinha um pequeno corte no dorso e um hematoma avermelhado se formando perto do olho esquerdo.

_Não temos o que resolver. Já eu... – ele se direcionou para o Impala perto, Sam se mexeu ao meu lado, segurei seu braço para impedi-lo de avançar, ele parou. Dean abriu a porta do Impala, antes de entra ele se virou para nós. Olhou para mim e Sam e depois para minha mão segurando seu braço o deixando tão próximo e assim ele entrou no seu carro e saiu deixando uma nuvem de poeira.

_Tudo bem? – eu não fazia ideia de quem tinha me acertado me fazendo cair, mas Sam parecia fazer com aquilo fosse sua culpa. Assenti afirmativa. Estava bem fisicamente, apenas congelando no frio da madrugada.

_E você, ele machucou você? – Sam desviou o olhar do meu para onde o carro de Dean havia deixado um rastro.

_Estou bem.

_E agora?

_Temos que achá-lo antes que faça alguma estupidez. – disse Sam pensativo.

_O que acha que ele vai fazer? – perguntei mesmo já tendo a resposta na cabeça. Cumprir minha promessa

_Eu não sei. – respondeu Sam frustrado.

_Vão ficar aí fora ou me deixarem esperando mais um pouco sem saber que droga foi essa? – gritou Bobby.

Sam começou a voltar para a casa, fui atrás dele, começando a pensar em mil coisas ao mesmo tempo. E agora? O que eu faria? Sabia bem que Dean estava indo para a morte e mesmo assim fui capaz de deixa-lo seguir....

... — ...

Depois de um breve momento explicando tudo a Bobby, saí de sua casa com o rosto esquentando. Só tive tempo de me enfiar numa calça jeans calçar os coturnos e por uma camiseta preta. Agora estava numa caminhonete emprestada do Bobby rumo à não fazíamos ideia onde.

Sam especulou sobre Dean ter de usar qualquer um dos seus cartões de créditos falsos, deveríamos entrar em contato com a companhia de cada um e verificar se foram usados, mas Sam apostava que ele deveria estar em algum bar das redondezas. O problema era que tinha vários bares em Sioux Falls e parecia que nenhum deles tinham sequer recebido a colaboração de Dean.

Por isso já amanhecia e eu não aguentava mais rodar com Sam de bar em bar sabendo o que sabia sobre o que Dean faria, se já não tivesse feito. Cada fibra do meu corpo dizia que deveria contar a Sam, que deveríamos impedir e o nó no meu estômago dizia que talvez fosse a coisa certa a se fazer mas não a que deveria fazer. Porém a concretização daquilo apertava como um punho meu coração.

Com esses pensamentos acabei dormindo de tão exausta....

...Podia saber quem era mesmo que não visse seu rosto. A noite revelava que dessa vez o cenário era diferente. Estávamos numa rua suburbana de Londres, reconheci por causa da placa com o nome no início da avenida. Que lembrava muito a rua dos Alfineiros. Casas e quintais muito parecidos com as outras, a aquele clima suburbano de Londres.

Miguel estava a poucos metros de mim no meio da rua olhando para a extensão dela. A luz de um poste o focando como um refletor com luz amarelada. Seu corpo parecia brilhar em luz fosca dourada ou era apenas o efeito dramático que a lâmpada lhe deu.As mãos estavam atadas as costas e a postura ereta. Me aproximei parando ao seu lado, observando as fileiras de casas ladeando os dois lados da rua e o céu cheio de estrelas brilhando como vaga-lumes presos em um cobertor negro.

_Quando disse breve, não achei que seria tão breve. disse, sentindo o calor celestial emanar do corpo dele e esquentar o meu.

_Também não achei que seria necessário uma visita tão cedo. – ele olhou para mim, os olhos de John Winchester, depois indicou com a mão a rua e começou a andar. O acompanhei numa caminhada em ritmo lento.

_Não achei que usaria esse corpo novamente. com o canto de olho o vi sorri levemente.

_Bem observado. Isso é um sonho Isabel, apesar de real, essa é a visão que tem de mim em sua mente. Não estou usando o corpo de John Winchester, é apenas o que pode ver, uma casca humana. – assenti lentamente.

Estava muito frio, para um sonho eu sentia muito vivamente a minha pele se arrepiar com o clima invernal. Sutilmente me aproximei mais de Miguel roubando um pouco da sua sensação calorosa.

_Vai me explicar o que estamos fazendo aqui? – olhei para os lados. Não tinha uma viva alma na rua. E as luzes das casas estavamtotalmente apagadas.

_Não consegue imaginar? – o encarei. Já sentia meu coração se reanimar no peito com batidas mais rápidas.

_O meu irmão, o que aconteceu?

_Seu irmão está bem, porém foi transferido de Oxford para cá. Lúcifer já sabe que sabemos sobre o pequeno Corand. Ele o removeu, essa rua inteira fede a enxofre. Construíram uma pequena fortaleza demoníaca aqui. Seu irmão mora agora com uma família adotiva, demônios é claro, e digamos que não sejam tão gentis...

_Eu estou fazendo o que posso. – disparei parando de andar. Miguel também parou e olhou para mim, um olhar impassível. Eu estava certa quanto o brilho chapado que parecia vir dele, estávamos numa parte escura da rua e ele parecia ter uma luz própria permitindo que eu visse com clareza seu rosto plácido. Engoli em seco o nó na garganta. _Dean, ele... eu acho que ele dirá sim. – ele assentiu como se eu dissesse algo que ele já soubesse.

_Como conseguiu? – o encarei. Não queria falar mais nada, queria dormir e não sonhar.

_Não importa.

_Vamos, me diga, estou curioso. – instigou Miguel. Suspirei exasperada, a raiva que guardava no peito dando lugar ao cansaço. Quando aquele pesadelo ia terminar?

Minha voz débil tentou explicar:

_O fiz acreditar que eu ainda tinha esperança, que poderia viver em paz um dia, o fiz prometer que me daria isso. Que eu desejava ser feliz e ter paz, quando na verdade esse pensamento parece cômico de tão absurdo, tenho plena noção do que resta para mim no futuro, não vejo um final feliz. E ele... ele disse que faria qualquer coisa... Só que eu não poderia simplesmente pedir, seria como mandar que ele pulasse de um precipício só para provar seu amor por mim. Ele teria que decidir sozinho, teria que enxergar nele mesmo o quanto me ama, o quanto estava disposto a sacrificar... – fechei os olhos por alguns segundos tentando conter a queimação neles. Miguel continuava me fitando ouvindo meu relato sem nenhuma comoção.Continuaria, por que parecia que não conseguiria parar, tinha que por para fora tudo e esperar as condenações. Por que a cada palavra tudo se concretizava, a cada palavra eu via como eu agi feito um ser sem coração para proteger a única família que me restou.

_Eu via em Dean o tanto que ele carregava nos ombros, o quanto ele estava cansado e exaurido, eu vi a esperança sumir de seus olhos e eu sabia que a única coisa que o fez continuar era eu e Sam. E agora ele pensa em qual é motivo de ainda resistir ao inevitável? Quandoo sacrifício pode valer a pena só por saber que você fez de tudo, deu tudo para pelo menos realizar um desejo de quem ama. É morrer sabendo que a outra pessoa vive e talvez fique bem. Seria o que eu faria no lugar dele, me entregaria a você e te cobraria uma condição, apenas deixar que quem eu amo fique... fique em paz. Por que eu morreria por Dean só para...

Todo o meu esforço para não chorar foi em vão. Lágrimas silenciosas e mornas faziam uma trilha lenta pelo me rosto frio. As afastei com um movimento impaciente de mão, desviei os olhos de Miguel para a rua atrás dele. Em qual dessas estaria meu irmão?

_"O amor é um sentimento tirânico e zeloso, que somente se satisfaz quando a pessoa amada lhe sacrifica todos os seus gostos e todas as suas paixões. Nada se faz, se não se faz tudo."– Miguel citou Nion Lenclos, uma famosa escritora francesa na época vitoriana, se não me enganava. Ele parecia satisfeito com meu progresso em tão pouco tempo. _Um sentimento perigoso na mão de corações gelados como o seu.

"Apesar disso tudo eu sinto o... frio em seu coração, conheço você, o quanto pode ser implacável e cruel para chegar onde quer ou onde precise estar." disse Dean para mim há poucas horas.

_E quanto ao mais jovem? O coração mais frágil. – balancei a cabeça.

_Não posso...

_Pode. – naquele momento eu queria socar Miguel ou arrancar suas asas inexistente. Porém a pessoa que deveria ser punida não era ele, e sim eu. A que ponto tinha chegado, e o quanto ainda poderia percorrer?

_É só que... Sam é diferente, eu preciso de mais tempo ou... – parei de falar e encarei aqueles olhos claros como as águas de um riacho. _Quero sua palavra de que se eu fizer isso terei meu irmão protegido. Quero que garanta para mim que ele ficará bem não importa o que aconteça comigo ou como mundo, ele vai crescer e ser uma criança feliz.

_Tem minha palavra. – falou solene, soando mais como um arcanjo agora. Respirei fundo, e se meu coração era frio me agarreia ele para me prosseguir.

_Eu não posso pedir isso ao Sam, mas se você pedisse, se dissesse que tem meu irmão, ele não sabe que eu sei, e também não saberia... – Miguel sorriu.

_E melhor se preparar para guerra Isabel, está cada passo mais próximo. Cumprirei com minha palavra e quero saber se tenho a sua de que lutará ao meu lado.O paraíso na terra onde seu irmão viverá feliz.

_Tem minha palavra. – disse firme. Parecia que estava assinando o pacto do milênio com o diabo, não com um arcanjo. Um sorriso se abriu em seu rosto,iluminado com uma luz tão forte que era difícil encará-lo. Fechei os olhos enquanto a luz de Miguel me banhava...

Acordei bruscamente com a luz ainda queimando em meus olhos fazendo pontinhos multicor dançarem na minha visão.

_Desculpe, passei por um quebra mola, não queria acordá-la. – disse Sam. Me virei para ele ainda com as memórias do sonho com Miguel inundando minha cabeça.

_O quê? – perguntei. Ele estudou meu rosto.

_Está se sentindo bem?

_Sim, eu só estou preocupada com Dean. – disse sentindo o gosto da traição amargo na boca. Sam continuou olhando a estrada à frente. Era mais fácil encarar seu perfil.

_Onde será que ele foi? Eu jurava que ele poderia está em algum bar caindo de bêbado ou arrumando briga. – disse Sam frustrado apertando o volante.

_Acha que alguém pode ter machucado ele? perguntei com uma pontada de preocupação muito verdadeira, o que era cruelmente irônico. A pergunta que pulsava na minha cabeça desde de que Miguel me disse o que queria de mim era; o que aconteceria com Sam e Dean depois que os anjos o tomarem? Eles sentiriam dor, poderia ter consciência do que acontecia, se existia a possibilidade de os dois não se perderem para sempre...

_Ele? Não, a outra pessoa? Acho mais provável. – disse Sam.

_Sam, eu preciso te contar uma coisa. – disse súbito, a frase vindo do meu subconsciente. Tinha que falar antes que as palavras travassem na minha boca. Sam olhou para mim, depois de volta para estrada, e quando viu que eu hesitava voltou a olhar para mim.

_O que é? – perguntou, o meio da testa formando vincos.

_Acho que faço uma ideia de onde Dean... ou melhor o que ele pretende... – minha frase foi interrompida com um estrondo vindo da parte detrás da camionete, meu corpo foi lançado pra frente com o impacto, minha cabeça quase bateu no painel. O que diabos foi isso?

_Coloca o cinto. – falou Sam, já colocando o seu. Coloquei o meu exatamente quando o próximo impacto surgiu. Me virei no banco para olhar pela janela o carro atrás do nosso. Era uma picape preta com os vidros esfumados. E fazia nossa caminhonete vermelha virar uma piada. Sam acelerou o carro. Já começava a sentir a palpitação no peito.

_Sam, o que é isso? – perguntei um pouco histérica.

_Eu não sei, mas não me parece nada bom. – ele pisava fundo no acelerador, o que não adiantou muita coisa já que a picape era obviamente mais veloz. O veículo deixou a traseira do nosso carro e tomava a lateral.

Um segundo choque veio com tudo. Segurei firme o banco. A picape tomou distância a nosso lado, já previa o próximo golpe. Fechei os olhos apertado e o segundo impacto nos atingiu. O nosso carro trepidou para o lado, as rodas derraparam nos empurrando para pequena ribanceira a margem da estrada. Batemos com força na barricada fraca demais e a próxima coisa foi meu grito preenchendo o carro enquanto a gravidade atuava contra nós.

Num momento estávamos na estrada no outro o carro capotava, feito uma centrifuga, por uma lareira curta. A dor encontrou minhas costas e o braço. Lataria sendo amaçada, vidro se quebrando e minha cabeça batendo em alguma coisa. E eu só via o túnel escuro que meus olhos fechados me oferecia enquanto meu corpo preso girava. Houve uma pancada. Estávamos estáveis de novo.

O pânico se alastrou por mim feito o fogo entrando em contado com álcool. Estava de ponta a cabeça e minha garganta produzia gritos desesperado. Minha mente começava a pregar uma peça em mim, indo ao passado e voltando enquanto lutava para permanecer acordada. De repente fui jogada há seis anos atrás...

Foi tudo tão rápido, num minuto brigava com meu irmão mais novo, Jamie, no outro uma luz forte e clara invadiu o carro. Estávamos gritando caindo ladeira a baixo.

Eu conseguia dizer que senti um impacto muito forte na cabeça e quando a dor me invadiu no segundo seguinte eu já não sentia mais nada.

Estava morta?

Por que tudo era tão escuro?

Estava morta.

Me sentia como se estivesse sido jogada no espaço, amplo, escuro e muito sufocante.Uma infinidade de escuridão em cercava, não conseguia enxergar nada além de preto. Não sabia onde o solo começava e nem onde terminava, se havia paredes eu desconhecia elas.

Tinha vagas memória sobre o que tinha acontecido antes. Muito pouco, eu sabia que estava em um carro com minha família, no outro... no outro momento eu sentia uma dor forte e agora estava ali. Com muito medo. Medo do escuro. Medo da morte. Medo de me mexer.

Comecei chorar desesperadamente querendo um pouco de luz. Só um pouco de... um lamento veio até mim. Longe, mas audível. Depois outro, e outro e mais outros, e em seguida veio os gritos de todas a partes. Gritos desesperados, gritos de agonia, de dor.

Coloquei as mãos no ouvido e me senti cair de joelhos, mesmo que não visse o chão. Os gritos estavam na minha cabeça. Dentro dela. Invadia–me de todos os jeitos fazendo eusentir cada dor, agonia, lamento, e era, era como... como almas sendo torturadas.

Não aguentei e deixei meu grito se misturar aos outros. E meu choro se derramar para o vazio. Eu tremia muito, nunca tinha sentindo um medo tão grande em toda a minha vida. O sentimento de vazio e desespero estraçalhando-me por dentro e uma dor profunda demais para suportar me dizia que não deveria estar ali. Não deveria escutar aqueles gritos, não deveria sentir o sofrimento e miséria de coisas sendo torturadas tão perto. E o cheiro putrifico era nauseante.

Isso é um pesadelo. Acorde. Acorde. Isso é um pesadelo. Eu vou acordar e ligar para o Adam para contar sobre esse sonho muito bizarro, e ele vai rir de mim e eu vou estar segura. É só um pesadelo. É só...

Senti uma mão sobre minha cabeça, e logo uma luz, não exatamente uma luz e sim um rosto, apareceu. Um rosto horrível e indescritível, como um monstro dos filmes de terror idiotas que Adam assistia. Recuei e gritei mais alto, mas como fumaça o rosto se dissolveu e pude enxergar, um nariz humano, uma boca, testa e aos poucos uma mulher.

Ela tinha um rosto bonito e plácido apesar dos globos oculares serem totalmente brancos. Ela me ofereceu a mão. Vestia um vestido branco como seus olhos, simples e estranho como cintilava na escuridão sem fim.

Não queria pegar sua mão, a imagem de rosto de antes ainda me assombrava.

_Não tenha medo criança. Eu posso fazer essas vozes pararem. disse ela, sua voz soou surpreendentemente calma e agradável, fazendo os sons a nossa volta não a afugentar.

_Onde...– solucei. _Onde eu estou?

_No meu lar. Venha, quero que conheça alguém e tudo ficará bem.– disse ela enfatizando a mão estendida. A minha trêmula segurou a dela, ela me ajudou a ficar de pé e começamos a andar. A cada arquejo que ouvia, cada grito, me encolhia, mesmo que não era possível ver a origem. Apertei mais a mão da moça e me deixei ser guiada por um caminho que só era visível para ela. Aos poucos os gritos foram diminuindo até que que caímos num silencio mórbido.

_Q-quem é você? – perguntei com a voz chorosa. Ela parou se virou para mim e sorriu, um sorriso que produziu mais um ponto de luz. Depois se virou de novo soltando minha mão, deu alguns passos a frente. Tive que usar todo o meu auto controle para não colocar os braços em volta dela para impedir que se afastasse. Mas ela parou antes de se afastar demais.

Elalevantou os braços com as palmas viradas para frente. A observei atentamente enquanto recitava alguma coisa em outra língua, era quase um cântico, em... latim? Ela pronunciava as palavras firme e cada vez mais alto. O que estava acontecendo?

Arfei quando algo tremeluziu na cortina negra á frente. Primeiro começou apenas com um ponto luminoso, depois foi se alastrando e tomando uma forma destorcida. A luz era alaranjada intenso, mas não muito luminoso. O que senti — quando aquilo tomou mais ou menos o tamanho de uma pessoa e uma largura razoável meu coração pareceu parar de medo. A mais leve brisa tão fria como o ártico passou pelo meu corpo deixando minha pele arrepiada e meus ossos gelados. Era tão... intensamente avassalador e parecia me chamar. Me convocado a entrar. Sussurrando para mim dar mais um passo.

Permaneci com os pés plantados no chão inexistente enquanto encarava a cortina de luz embaçada com um brilho doentio de laranja. Não era possível ver o que tinha além daquele portal, parecia coisa saída de um episódio de Dr. Who.

_Terá que completar o caminho sozinha.– disse a mulher para mim, era assustador olhar em seu rosto e não ver o colorido dos seus olhos.

_Não quero... eu quero acordar, eu quero ir para casa... Onde está meu irmão? E minha mãe, ela...– uma verdade me atingiu com um pesar que quase me fez cair. _Eu... eu morri? – perguntei sentindo algumas lembranças me atingir. Como quando papai me deixou dirigir de volta para casa e depois uma luz forte nos acertou....

_Vá em frente e descubra que sua vida está apenas começando. – ela chegou mais perto e pegou minha mão novamente, me levando para mais perto do portal. Como um ímã me deixei ser atraída para a coisa morando lá dentro.

Quando ela me soltou deu alguns passos para frente, tocando com a mão estendida a luz, que ao invés de calorosa era fria. E me puxava feito uma compulsão para mais perto. Para...

_ ...Ei, acorda. Acorda. – senti meu corpo ser chacoalhado. Abruptamente abri os olhos, uma luz forte brilhou na minha retina, pisquei. Um rosto apareceu no meu campo de visão, um rosto jovem e desconhecido.

Me mexi como um animal afugentado, impulsionei meu corpo para trás para tentar me afastar de qualquer que seja o predador. Tentei me livrar da coisa invisível que me prendia balançando os braços e sentindo meu corpo trêmulo de pavor. Meus punhos atingiram algo sólido — o garoto que estava inclinado sobre mim — eu batia nele enquanto meu corpo se debatia como se eu fosse um peixe fora d'água. Ele tentava segurar meus punhos enquanto eu gritava para se afastar. Sentia o choque do seu toque me dando mais carga.

_Me solta, eu tenho que ver meu irmão, onde... onde ele... Jamie! – comecei a respirar muito forte. Meu coração chocava-se contra meu pulmão.

Estava desesperada, agindo feito louca e... Quem era aquele? Congelei. O garoto olhava para mim com o cenho franzido. Ele arqueou uma sobrancelha assim como um canto da boca. Descartei totalmente a ideia de ser alguém da estrada tentando me ajudar. Ele soltou meus braços, me encolhi no chão cheio de pedras me sentando nele, não estava em condições de ficar de pé no momento.

_Eu entendo que talvez esteja... hã, em choque? É, acho que algo assim, mas tente se acalmar, ok? – apenas o encarei.

Minhas costas doíam e meu braço também, assim como a cabeça, meu joelho, melhor dizendo; Cada membro do meu corpo. Meus braços estavam traçados com aranhões e hematomas querendo escurecer.Mas no coração morava o desespero irracional. Ainda tentava entender oque fora aquela visão e também tinha toda a situação muito familiar. Minhas mãos tremiam e eu parecia a beira de um ataque histérico.

Conseguindo um momento de calma reparei nele. Era um rapaz jovem, parecia ser pouco mais velho que eu. Uma barba rala cobria parte do rosto e os olhos eram claros, castanhos ou talvez verde. Tinha os cabelos claros adquirindo um tom dourado pelo sol atrás dele, o comprimento lembrava o cabelo do... Sam!

Conseguindo incentivo para me mexer, trotei um pouco no chão antes de conseguir ficar de pé e olhar em volta. Via o carro virado de cabeça para baixo há alguns metros, as janelas quebradas e parte da lataria amassada. Avancei para o carro tentando ignorar a dor.

Apesar de ainda trêmula me sentia bem, não fora nada grave, mas não me acalmaria antes de ver Sam sã e salvo. Me abaixei para olhar através da janela quebrada. Nada. Não tinha Sam ali. Meu desespero aumentava.

_Está ficando quente. – gritou o garoto para mim. Sério, quem era aquele cara?

Dei a volta na lataria amassada e parei quando o encontrei no chão. O que me impediu de correr para Sam foi os dois corpos ensanguentado perto dele.

... — ...

Dean estava lá há quarenta minutos. Sentado no Impala observando ao longe quando Lisa saiu pela porta, gritando para que Ben se apressar se não ia chegar atrasado no beisebol, depois Ben correndo para alcançar a mãe no carro. Ele acompanhou a cena com um grande nó no estômago, e com o nariz lateando diga-se de passagem. Houve um tempo em que achou mesmo que era aquilo que queria. Uma casa no subúrbio, uma mulher bonita e descomplicada e claro o garoto.

Bem, ele queria, o que mudou desde então? É claro ele não era mais o mesmo de antes. O antes, as coisas eram um pouco menos complicadas no antes. Em alguns meses sua vida mudou completamente, desde que Castiel o tirou do inferno ele se sentiu diferente.

Por que para ele tinha deixados alguns pedaços do Dean Winchester de antes no inferno. Agora ele não tinha mais força para lutar, não tinha vontade. Não tinha mais sua confiança usual, sua fé, sua autoestima.

O que o definia há poucos anos ou meses o abandonara quando ele via que tinha perdido tantas vezes. Viu isso nas palavras de Antony, viu isso nas palavras de Josué quando disse que o próprio Deus não iria mais interferir o curso natural da coisas, por mais que isso destruísse o planeta. Se nem Deus não impediria por que ele deveria? Por que achou que poderia?

O que abatia sobre Dean era o peso de se sentir um homem miserável, fraco e impotente com apenas o nada a perder. Não estava bem, e talvez nunca ficaria, ele só queria deitar sua cabeça e descansar até que o fim chegasse para ele.

Ele estava pronto. Talvez até tarde demais para perceber o que deveria ter feito desde o inicio. Não tinha saída ou atalho, encarava a dura realidade; Não conseguiria salvar a todos e tentar só trazia mais dor. Pessoas morriam enquanto ele se recusava a dar proposito á vida que os anjos — que Castiel ao tirá-lo do inferno — lhe deram de volta. Talvez aquele seja seu destino afinal.

Seus nervos estavam assentados, tanto que se arrependia de ter se deixado levar pela raiva irracional, e o ciúme que disse que não sentia, e brigado com o irmão, a única pessoa em que ele não tinha vergonha de admite que amava e que daria vida, como já fez, por ele. Na verdade sua vida inteira foi de certa forma em função de Sam. Proteger o Sammy, cuidar do Sammy, salvar o Sammy, colocar o Sammy no caminho certo, ensinar o Sammy. E Dean não estava nem aí para oque Sam disse mais cedo. Para Dean ele sempre será seu irmão caçula que ele irá proteger enquanto respirar. Ainda que isso signifique dizer palavras duras à Isabel fazendo assim seu coração doer como se levasse agulhadas. Ele mais uma vez só tentava proteger Sam. Dean não queria seu irmãozinho com o coração partido.

É a pior das dores.

O que ele iria fazer também era pelo irmão. Não podia ter certeza da segurança de Sam quando dissesse sim, não dava para prever o que aconteceria depois, mas ele tinha que tentar.

Havia tentado todo esse tempo por ele, por ela, aguentar firme, manter a cabeça erguida e se deixar levar pela esperança de que escapariam de novo. Mas ele sabia bem lá no fundo que era apenas uma ilusão. Que se mostrou mais nítida quando Isabel sussurrou para ele seu desejo simplório. Ela queria paz, e ele estava disposto a consegui para ela.

Dean se sentia tão ridículo quando o assunto era Isabel. Para ele era patético sentir como se tivesse sido rasgado em dois só por vê-la com seu irmão. Era patético também o modo como caiu por ela. Ele se sentia envenenado, como se estivesse sob um feitiço, por que por mais que tentasse não conseguia simplesmente não se importa. Por mais que Isabel tenha beijado seu irmão e também feito, dito, tantas coisas que o feriu, ele estava ali se sacrificando por sua felicidade.

Você deve ser o mais patético, idiota, apaixonado que já andou pela face da terra. Pensou de si mesmo. Afinal Sam tinha razão, ele estava apavorado pela ideia de se apaixonar. Ele sentia como um soco no estômago só de pensar nela se machucando, sentia o formigamento na pele só de tocá-la e os dias de sua vida miserável eram bem melhores quando ela sorria para ele, por causa dele, e o sexo... Só de imaginar que talvez ela não sentisse o mesmo o destruía por dentro. Ótimo, deveria está tocando Elton John agora.

Deandeu partida no carro, esperou um pouco indeciso sobre oque fazer, poderia esperar até que Lisa voltasse, mas não saberia bem o que dizer quando a visse. Na verdade não importava o que tivesse a dizer e sim as providências que tomaria para que ela e Ben ficassem seguros. Devia isso a eles. Afinal já tinha imaginado um final feliz com...

Uma batida no vidro da janela fez saltar no banco. E lá estava ela. Lisa o olhava curiosa e com um meio sorriso no rosto. O coração de Dean soltou do peito, ela estava tão bonita quanto lembrava, ele abaixou o vidro devagar.

_O que está fazendo aqui? perguntou Lisa.

... — ...

A sombra do estranho se projetou atrás de mim, me livrei da hesitação e pulei o primeiro corpo para chegar a Sam. Me ajoelhei perto dele, coloquei dos dedos trêmulos no seu pescoço e quase gritei de alívio quando senti sua pulsação, apesar do sangue num corte feio na têmpora ,rente o cabelo, me assustar um pouco.

Menos apavorada voltei os olhos para o garoto desconhecido. Nem sabia por onde começar, mas a pergunta óbvia veio a mente.

_Quem é você? – ele olhou para mim por alguns instantes, era difícil olhar para ele com o sol acima da sua cabeça, mas tentei manter a visão.

Ele se apressou em apalpar com as mãos os bolsos da calça em seguida os da jaqueta de couro preta, enquanto ele mexia algo brilhou prateado na parte interna do casaco, um cabo de alguma adaga. Só agora reparava no sangue seco manchando sua camisa branca polo na parte da frente, nos dedos longos e pálidos e quase invisível no couro escuro da jaqueta. Tinha também um pouco no pescoço sujando o colarinho da camisa.

Ele pescou do bolso interno da jaqueta uma carteira, abriu-a, tirou de lá alguns papéis o lançando no chão e ficou com uma carteirinha, que não tinha certeza mas, parecia uma careteira de estudante. Ele a examinou atentamente, seus lábios se mexiam enquanto lia o que estava escrito.

_Eu sou Steve, e sou um estudante de veterinária em... – ele apertou os olhos claros para ler alguma coisa no canto da carteirinha.

_Um demônio possuindo um pobre coitado. – declarei. Ele sorriu.

_Se serve de consolo ele estava morrendo de paralisia cerebral. A cara que a mãe fez quando o viu de pé foi hilária. – disse rindo para si mesmo, eu não conseguia ver o humor. _Enfim, já prevendo sua próxima pergunta; Crowley me mandou aqui. Ele me fez uma visita e disse umas coisas interessantes sobre você, não posso dizer que estou impressionado, mas estamos no mesmo barco agora. – uau. Não sabia o quão rápido Crowley era, mas não esperava que fosse assim. Olhei para Steve, ainda tinha minha ressalvas sobre o garoto demônio.

_E oque foi isso?

_Bem... digamos que talvez eu tenha tido uma pequena participação... nisso. – com isso me levantei.

_O que quer dizer?

_Quer dizer que não sou idiota. Me viram com Crowley e eu meio que deixei escapar o teor de nosso bate-papo para um demônio ou dois. – meu cérebro parecia em daley, pois não entendia o que ele queria dizer.

_Você o quê?

_Repetindo, não sou idiota. Se descobrissem que estava conspirando com Crowley iria preferir que me atirassem num taque com água benta ao o que iriam fazer com esse belo corpo. Meus antigos parceiros de crime – ele apontou para os corpos no chão, um homem e uma mulher. _Acharam que eu ainda sou fiel a Lúcifer, bem os outros ainda acham. Revelei o que estava tentando fazer, digamos que foi como assinar uma apólice de seguro. Agora pode me considere seu agente duplo.

_Você ariscou minha vida para depois me salvar e dizer que está comigo? – perguntei um pouco aturdida.

_É, foi mais ou menos isso.

_E por causa disso Lúcifer quer me matar?

_Lúcifer matar você? Não, ele não quer te matar. Lúcifer está apenas... chateado, esse é um aviso dele para você, a filha desobediente.

_Me fazer capotar com o carro é um aviso? Eu poderia ter morrido. – disse resignada.

_E voltaria. – ele olhou bem nos meus olhos. _Você deixou sim, muita gente irritada no andar de baixo, mas a ordem não é matar você, pelo menos não para os fiéis. – ele fez uma pausa. O fitava esperando a qualquer momento a cor negra se alastrar pelos seus olhos acobreados me lembrando de que ele era demônio e eu odiava demônios. _O inferno está um verdadeiro inferno. Lúcifer sacrificou muitos demônios para o ritual de Morte, somos meras peças descartáveis. E bem, ele brilha. Lúcifer é um anjo, nos criou, mas não é um dos nossos. E tem você. É a criação que ele mais se orgulha, não nós. Alguns estão céticos, outros enciumados, muitos se rebelaram e tentaram matar você e tem os divididos, deste Crowley está cuidando. – absorvi cada palavra que ele me disse, de certa forma entendia seu ponto de vista. O que poderia fazer a respeito era outra história.

_E em que panelinha você se encaixa? – ele olhou para mim, me avaliando de cima a baixo, um canto da boca se ergueu e minha resposta foi um grunhido vindo do chão. Olhei para baixo e me ajoelhei de novo. Sam acordava, ele piscou contra o sol e me estiquei mais para frente bloqueando a luz. Toquei de leve seu rosto, seus olhos focaram em mim.

_Oi. – ele disse.

_Oi. – respondi sorrindo para ele. _Quantas de mim você está vendo?

_Uma. Mas, quem é você? – meu sorrido tremeu e meu coração apertou antes de ele sorri e se apressar a dizer: _Muito cedo para piadas com amnésia?

_O que acha? Se não tivesse ferido bateria em você. – tentei soar irritada. Me saí mais aliviada do que outra coisa.

_Estou bem. – disse Sam se levantando. O sangue que vinha da testa sujou seu cabelo e começava a endurecer e do corte fazia uma lenta trilha pela lateral do rosto.

_Estou confuso, achei que estava pegando o esquentadinho. – Sam notou Steve, seu corpo enrijeceu. O demônio limpava despreocupadamente a lâmina de uma adaga dos anjos na manga da jaqueta. Então foi assim que ele matou os outros.

_Quem é você? – disparou Sam já se levantando com rapidez. Steve lhe lançou um olhar tediado. Guardou a lâmina de volta a jaqueta.

_Seu herói.

_É demônio, oque faz aqui? – Sam se colocou a minha frente de forma protetora. Me perguntei como ele soube que Steve era um demônio logo de cara.

Sam era bem mais alto que Steve, que já era alto, e toda sua postura reta, mesmo ferido intimidava. Steve pareceu mais entediado ainda.

_Não é assim que normalmente as donzelas me agradece, mas estou do lado dos mocinhos, pelo menos agora, pode perguntar para princesa ali. – ele se esticou de forma que eu pudesse vê-lo na frente de Sam que olhou para mim interrogativo. Me coloquei ao seu lado.

_Crowley o mandou aqui. Ele matou os demônios que nos empurraram da estrada. – Sam olhou para Steve, descrença e desconfiança. Steve checou um relógio imaginário.

_Por mais que eu queira passar um tempo com vocês, trocando experiências, falando sobre os sonhos e conspirando está na minha hora. Não se ofendem, eu só não quero ser visto com um Winchester e garota meio anjo. – ele se voltou para mim dando um passo na minha direção, um sorriso galanteador iluminava seu rosto. _Se bem que para você eu poderia abrir uma exceção. Se quiser uma carona eu posso...

_Por que tentaram nos matar? – Sam o cortou com essa pergunta. Ele se voltou para Sam, o sorriso sumindo.

_Oh, é mesmo, esqueci dessa parte do plano. Isso foi só uma distração. E não tentavam matar vocês, a missão mesmo é digamos que uma pequena punição por aprontar por aí com Crowley.

_Como assim? – Steve suspirou como se tivesse cansado.

_Por que acha que os atacaram justamente aqui? Em Dakota do Sul? O objetivo não é exatamente vocês crianças. – Sam ficou pálido fazendo o sangue se destacar ainda mais.

_Bobby. – disse Sam. Eu provavelmente estava tão pálida quanto ele. Olhei para Steve.

_Achei que estivesse do nosso lado. – disse finalmente encontrando a raiva. Ele deu dois passos a frente e se curvou para falar no meu ouvido:

_Desculpe princesa, ainda sou um demônio. – com isso ele se afastou e começou a subir a encosta desaparecendo no carro que os demônios no chão ocupavam antes.

Observei enquanto ele se afastava para estrada e com um último aceno e sorriso Steve seguiu a estrada. Olhei para Sam assustada. O que iriam fazer com Bobby? Minha pergunta estampada no rosto dele.

... — ...

O corte na testa latejava e ardia, seu corpo parecia ranger a cada passo, mas Sam mal sentia essas coisas, tinha muito na cabeça. Abaixo do temor por Bobby ele se sentia incomodado, como se tivesse uma farpa no dedo, o motivo é que mesmo com toda a situação embaraçosa com o irmão e Isabel ele não se sentia tão culpado quanto deveria. Sentia sim por colocar Isabel naquela posição, mas ele não conseguia apagar da mente o resquício da sensação que foi beija-la.

Aquela hora da madrugada Isabel tinha um gosto doce e refrescante, e ele, secretamente desejava experimentar novamente. Ele sabia que na visão de muitas pessoas fosse errado, a do próprio irmão por exemplo, era uma traição, mas ele estava cansado de sentir culpa. Já tinha carregado o suficiente o fardo pesado que é, e que provavelmente ainda carregaria consigo alguns de seus quilos, porém não podia mais se fazer de nobre e negar os seus desejos e vontades.

O que fez exigiu um pouco de coragem da parte dele, foi pensado, a parti do momento em que Isabel iluminou sua visão naquele corredor escuro. Ele queria e não tinha certeza quanto ela, tinha negado seu beijo da primeira vez, Sam entendia e se ressentiu por isso, mas se fosse se arrepender por algo, que se arrependesse pele que tenha feito não o que deixou de fazer.

Agora a única coisa que pesava em sua mente e coração era o paradeiro do irmão e o estado de Bobby. Eles estavam andando havia horas, seria mais inteligente Isabel ter ido com Steve, chegaria mais rápido, mas Sam não a deixaria fazer isso. Não se podia confiar em um demônio quando muita coisa estava em jogo. Então os dois seguiam a estrada, que parecia infinita, e tinha nas mentes as preocupações e lamentações.

Ele também via que Isabel estava quieta, quieta demais. Isso para ele não era um bom sinal, no geral Isabel falava bastante, pelo menos com ele. Eles criaram certa intimidade como amigos em que poderia surgi ou sugerir um assunto das bobas e menores coisas ou das maiores e tensas. Tanto que quando estava sozinho e ele via algo que achava engraçado ou incomum sentia como se quisesse tê-la ao lado para comentar e rir das suas respostas espirituosa.

Ele tentou encontrar algo na mente em que pudesse ser interessante para falar, para ajudar a passar o tempo naquela longa caminhada. Não encontrou nada, exceto por uma coisa que lhe apareceu na mente como um lampejo da lembrança de antes de capotarem o carro. Sam olhou para ela e antes que a chamasse apenas observou. Isabel parecia o tipo de pessoa que aparentava tristeza quando achava que ninguém veria, para quando tivesse a atenção para ela voltava a vestir a capa neutra como se para esconder seus verdadeiros sentimentos. Era uma coisa que ele reparou desde que se conheceram.

_Isabel. – chamou a menina distraída ao seu lado. Por um instante ela continuou a fitar a estrada a frente, um esboço de um sorriso surgiu no rosto, depois falou:

_Já reparou que as coisas sempre acontece de forma parecida por mais de uma vez com nós dois. Como quando nos encontramos pela segunda vez numa madrugada na casa do Bobby, ou agora quando estamos caminhando a pé, sangrando e indo ajudar quem precisa de ajuda, como foi em Buford. E pela segunda vez estou preste a te contar algo perturbador sobre mim. – a espinha de Sam se enrijeceu. O que Isabel iria lhe contar? Seria o que ia perguntar?

_Ok, o que tem para falar nessa segunda vez? – perguntou.

_O que tentava dizer antes do carro... – ela se interrompeu, uma sombra de certo pavor passando pelos olhos, apenas uma fagulha, que Sam sabia que ali continha memórias do passado acidente de carro com os pais. Ele tinha lido os arquivos que Dean tinha reunido sobre ela, antes de ela contar a ele, foi relutante quanto a ideia, afinal era algo pessoal, mas a curiosidade foi mais forte. E ele leu em uma madrugada num quarto de hotel ao lado do dela, todo um histórico médico e psicológico. Tinha sentido a garganta aperta enquanto lia anotações de diagnósticos como depressão tendência suicida, esquizofrenia como os relatos de enfermeiros ouvindo-a conversar na madrugada com alguém que só existia em sua mente. E ele também lembrava bem de sentir nas pontas dos dedos as bordas da fina cicatriz abaixo da cintura causada pelo acidente. Sam se preocupava com o que acidente deles mexeu em sua cabeça. _É que eu tenho, não certeza, mas uma ideia do o que Dean foi fazer.

_Tudo bem, o que você acha? – ela retribuiu o olhar dele e depois o desviou, Sam a viu engolir em seco, de alguma forma aquilo era algo que lhe custava alguma coisa. Ele começou a ficar mais preocupado. _O que foi? – incitou.

_Eu acho... eu acho que ele vai dizer Sim à Miguel. – como isso Sam parou, como se uma parede de vidro tivesse posta em seu caminho. Ele sentiu o choque daquilo no coração.

_O quê? Como assim ele vai dizer Sim a Miguel, ele disse isso? – perguntou alarmado e surpreso. Ela olhava para ele com os olhos arregalados e tinha no rosto uma expressão que Sam não conseguia decifrar.

_Não, ele não me disse, mas Sam eu sei que ele... pelas as coisas que ele me disse eu sei que é isso que vai fazer ou que... – ela parou de falar, era como se o que estava dizendo se abatesse sobre ela naquele momento, o choque e medo da hipótese. Sam franziu o cenho e tentou acalmar as próprias emoções.

_Por que não disse antes? – ela desviou o olhar do dele os pregando no chão escondendo o brilho azul que vinha deles.

_Eu... não tinha certeza. Eu não quero que isso aconteça. – disse baixinho, tanto que ele quase não ouviu por causa de um carro que passou. Sam queria puxá-la para si e confortá-la, mas se deteve paralisado pelo horror daquilo tudo. Tanto que sua mente parecia ter sido evacuada e preenchida por algodão, por que ele não conseguia pensar em nada no que poderia fazer.

Não tinha previsto aquilo, não tinha visto. Deveria ter visto, era seu irmão, ele conhecia Dean teria percebido alguma coisa diferente no irmão, algo assim não passaria despercebido aos olhos de Dean. Mas eles andavam tão separados ultimamente e ele com a mente em Isabel. Não era possível que estavam tão quebrados assim.

Sam se forçou a pensar racionalmente. Tinha Bobby, que talvez corresse perigo e agora Dean desaparecido querendo dizer Sim à Miguel. Era um pesadelo. Ok, ele tinha que encontrar um telefone o mais rápido possível, ligar para Bobby verificar se estava bem e pedir que segure as pontas, depois iria tentar as linhas de créditos falsas de Dean e rastreá-lo, se estivesse mesmo disposto a fazer isso ele seria cuidadoso, então não seria fácil. Até que um nome surgiu em sua mente: Lisa. Ele iria vê-la se pensava em se matar. Por mais que agora tinha Isabel, Sam sabia que Lisa era alguém importante para Dean.

Depois teria de chamar Castiel, ele seria o único capaz de parar um Dean determinado a fazer alguma coisa. Então o primeiro passo era o telefone, mas e se Bobby precisasse de ajuda? O que iria fazer se ele estivesse ferido?

Por um momento Sam esqueceu de Isabel ali, só voltou a notar a garota quando ela tocou seu braço dolorido. Seus dedos onde o tocaram eram frios, ele sentiu um arrepio atravessar o corpo, tanto pelo toque e com o quanto ela estava gelada mesmo que estivesse andando ao sol nascente.

_O que a gente faz? – perguntou Isabel apreensiva e claramente assustada, um pouco demais até. Sam explicou mais ou menos para ela o que deveriam fazer. Ela assentiu e os dois retomaram a caminhada o mais depressa que puderam.

Seus corações acelerados como seus passos.

...

Sam adentrou a pequena padaria ofegando, quase não conseguiu dizer que queria usar o telefone ao padeiro. Um homem que por sorte, dada a aparência dele e de Isabel, foi bem atencioso, em especial com Isabel — oque incomodou Sam — mas ela soube se virar sem sua ajuda.

Eles seguiram o padeiro, passando por bancadas com cestas cobertas de pães frescos, torradas, pretzel e sanduíches variados. Nos fundo um balcão se estendia com prateleiras preenchida por doces, bolos e outras guloseimas dispostos atrás de vitrines de vidro. Eles passaram por esse balcão, onde tinha uma porta vai e vem no canto, provavelmente a cozinha. Pelo horário o padeiro disse que só estavam ele e o sobrinho ali, o outro em questão trabalhava na cozinha, ouvia-se o tilintar de talheres e panelas e massas sendo batidas.

Na parede oposta tinha um telefone branco um pouco encardido. Sam foi até ele passando por uma mesa com embalagens, espátulas e outras coisas para atender os pedidos dos futuros clientes frente ao balcão de doces.

Agora ele ouvia a própria respiração ao telefone, pesada e carregada. A garganta estava seca por conta da poeira da estrada e ele agradeceu quando Isabel lhe trouxe um copo d'água com o velho padeiro atrás, solicito demais.

Ele tomou goladas da água sentindo a aspereza da garganta amenizar. Os seguidos toques o preenchendo de tensão. O cheiro de pães recém assados estava bem curtido no ar, o que fez com que Sam percebesse o quão faminto estava. Agora o padeiro oferecia à Isabel dunuts ainda na bandeja, ela recusava tentando ser educada, mas Sam podia ver o tom um pouco irritado se sobrepondo, ele ficou tentando a pedir que ela aceitasse para viagem.

Estava no quarto toque quando alguém entrou na padaria, não precisou muito para ele perceber o que eram. Demônios. Seus músculos tencionaram e ele largou o telefone no gancho a fim de puxar Isabel para perto.

Eram dois, um era bem alto magrelo com o cabelo arrepiado colorido de laranja. O outro mediano parecia um pai de família mais comum, este curiosamente trazia um pequeno galão em mãos. Vão queimar o local, concluiu Sam.

O padeiro deixou Isabel e foi até os demônios. Onde estavam encurralados, a chance de fugir sem passar por eles era nula. Ela já se adiantava para frente do balcão e ele foi atrás. Sam tomou a frente de Isabel e não precisou explicar nada, ela sabia.

Foi rápido e eficiente, uma lâmina brilhou na mão do punk e depois ela cortou o pescoço do padeiro. Ele ouviu Isabel arfar quando o sangue vermelho intenso jorrou com um jato da garganta do homem, a bandeja caiu primeiro, os dunuts adquirindo uma nova cor, Sam perdeu a fome. Em seguida o padeiro caía de joelhos gorgolejando. O corpo caindo de cara no chão e uma poça de seu sangue se formando em volta da sua cabeça.

Sam não tinha nenhuma arma consigo, nem mesmo uma de fogo. Então ele passou os olhos a volta a procura de alguma coisa que pudesse usar para consegui fugir.

O olhar dos demônios passaram por Sam depois pararam num ponto atrás dele. Isabel. Eles claramente não pretendiam encontrar os dois ali. Depois a boca do de cabelo colorido se curvou num sorriso.

_Só pode ser o destino, que surpresa agradável encontra-la aqui. – disse, ele tinha uma voz fina, como se não tivesse chegado a puberdade, mas aparentasse ter mais de vinte e cinco. Isabel se colocou ao lado de Sam, e ele queria que não o fizesse, se sentiu como Dean tentando protegê-la e sabendo que fracassaria e se irritando por isso. Ele tentou não fazer isso, não adiantaria, olhou para ela. Os olhos intensos como um trovão escondiam o medo numa expressão destemida. Porém o que o surpreendeu foi uma faca firmemente em sua mão, ele não tinha visto nem onde nem quando ela havia se armado. E se arrependeu de não ter feito o mesmo apesar de ser inútil, pelo menos não se sentiria tão desprotegido.

_Não posso dizer o mesmo. – disse Isabel calmamente. O demônio sorriu ainda mais e se virou para o outro demônio, sussurrou alguma coisa para ele, e este se moveu para detrás do balcão, e sumiu atrás das portas vai e vem. Sam entendeu o que aconteceria e se lançou à frente para evitar o que vinha, foi rápida a conclusão, ele ouviu um grito vindo da cozinha e depois barulho de coisas sendo derrubadas.

Sam se preparou para lutar com o demônio, pelo tipo físico não seria difícil... a faca voou a centímetros do seu rosto, ele desviou a tempo e conseguiu erguer o punho cerrado interceptando um novo golpe com a faca usando o antebraço contra o do demônio. O choque provocado contra os ossos do demônio e os músculos doloridos de Sam foi pouco e ele logo agarrou o pulso do oponente o puxando para frente erguendo o joelho e enterrando o membro com força nas costelas dele.

Sam viu uma sombra passar por ele, um pequeno flash de cachos negros indo em direção a cozinha. Ele ia gritar para ela, mas o demônio aproveitou a distração e acertou um soco em seu rosto o desnorteando, apesar de magro ele tinha a força demoníaca. Sam foi impulsionado para trás com o golpe perdendo o contato com o pulso do demônio.

Mal se recuperou e houve outra investida com a faca, Sam abaixou, outro golpe veio, um chute na lateral de sua cintura, e depois outro soco bem no queixo que fez seus dentes baterem com força. O inimigo era rápido demais, essa era a vantagem do demônio contra Sam.

O Winchester sentia uma dor rasgar o peito, era a ponta da faca, rasgando sua camisa e abrindo uma ferida superficial no lado esquerdo do peito. Ele investiu com mais afinco, usou o pulso para acertar o punho em volta da faca. O efeito surtiu na faca caindo sonoramente no chão encerado, em seguida chutou-o na canela o fazendo cambalear para o lado e derrubar umas das cestas de pães.

Sam tinha uma mínima vantagem, mas sua mente estava lotada em preocupação com Isabel, ele se virou para encontrá-la colada a parede ao lado da porta por onde o demônio mais velho entrou. A faca segurava firme perto o peito.

O demônio surgiu com o galão aberto na mão esquerda, sujo de sangue. Com a habilidade e rapidez como a do punk, Isabel girou a faca no punho e afundou a lâmina no peito do demônio. Os olhos negros foram para a lâmina enterrada no peito florescendo em sangue e depois para a menina, mas Isabel já passava correndo pelas portas atrás dele. O que ela está fazendo? pensou Sam.

Uma dor percorreu toda as costas de Sam. Depois veio o som da madeira pesada estalando e ele cambaleou para frente. Fora atingido por uma mesa. Ele se desequilibrou e caiu para frente, a lateral do rosto prensada no sangue do padeiro, ele tentou ignorar esse fato.

O demônio também estava no chão, ao lado de Sam, e ele viu a lâmina suja com sangue brilhar acima da sua cabeça. Quando os dedos do punk estava a centímetros do cabo, Sam girou o corpo e agarrou o tornozelo do demônio puxando para frente. Ele caiu com o peito no chão escorregadio de sangue e Sam se lançou para frente.

Sam colocou o joelho no meio das costas do demônio se esticando por cima dele para chegar à arma ou pelo menos empurrá-la para longe, quando o que estava embaixo dele se mexeu e se ergueu jogando Sam para lado com um baque surdo. Sam tinha toda razão quando pensou que o demônio era rápido, por que quando deu por si já estava com uma faca quase alojada no pescoço.

Sam segurou o pulso ossudo do demônio e o parou com força apenas para impedir que a faca se movesse mais e o perfurasse. Seus músculos se tencionavam com a força aplicada, os olhos pretos o encaravam e a boca curvada em um sorriso de satisfação, para ele o esforço era mínimo.

Sam ouviu um estrondo vir da cozinha. Isabel. Sua mente disparou, ele usava as duas mãos, fez uma careta se forçando ao limite e além, seu braço tremia e ele suava. Sam conseguiu empurrar a faca uns poucos centímetros para longe. Não aguentaria por muito tempo e o corpo em cima dele parecia pesar chumbo.

Dessa vez ele ouviu um grito, quase um uivo de dor, não era o grito de Isabel. Seja lá o que tivesse feito ela conseguiu arrancar um grito do demônio.

_Vamos Winchester, desista. – disse o demônio. E Sam ouviu passos vindo detrás e depois seu campo de visão encontrou Isabel. A faca na mão estava suja com o sangue viscoso e salpicada com algo branco. Ela não pestanejou ou hesitou, agachou atrás do demônio em cima de Sam e o mesmo viu o aperto na faca diminuir quase na garganta. Um chiado distante como bacon na panela quente e depois o punk convulsionou as costas soltando um grito curto, a faca longe da garganta de Sam.

Ele observou uma mão pequena e pálida na garganta do demônio o empurrando para trás, o peso deixou Sam. A faca girou mais uma vez na mão de Isabel, dessa vez o alvo foi o coração do demônio. Ele gritou e ela levou uma caneca transparente, com medidas desenhadas, à boca aberta dele, virou o recipiente e grãos de sal caíram como uma cachoeira na garganta do demônio. Ele gritou outra vez só que agora engasgado e agonizante.

Sam só pode ficar sentado no chão boquiaberto. Ele observava o brilho feroz e impetuoso nos olhos de Isabel, alguns cachos escuros caídos na bochecha e outros quase tampavam o olho esquerdo. Tinha alguns pontos brancos em seu cabelo e na roupa; farinha. Ela estava com a boca entre a aberta por onde o ar era inalado em curtos intervalos. E como ela parecia uma heroína dos quadrinhos agora. Uma fumaça negra saiu da boca do punk cortando a visão de Sam de Isabel. O demônio rodou no teto acima deles, depois desapareceu porta afora. Ela se voltou para ele, arregalou os olhos e perguntou cheia de preocupação:

_Você está ferido? – Sam lembrou de todo o sangue no rosto e não se incomodou em limpar ou responder. Parecia um magnetismo o puxando para Isabel, ele queria beijar sua heroína ali e agora.

Ele se moveu no chão pegajoso e se inclinou para ela. Normalmente ele tendia a ser mais comedido e sutil, mas era difícil para ele agi dessa forma com a atração pela garota pulsando mais forte. Isabel pareceu surpresa, mas não recuou quando ele deixou sua boca carimbar a dela tentando abrir mais espaço para seus lábios se encaixarem.

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E foi quando ela correspondia ao beijo eles ouviram um barulho estrondoso. Uma pressão quente empurrou os dois para o chão. O fogo escapou das portas duplas como um dragão rugindo da cozinha ameaçando incinerar os dois. Sam se viu jogar o corpo por cima do de Isabel e impulsionar os dois para trás da mesa caída.

A explosão tinha som de vidro se espatifando e coisas entrando em combustão. Tinha cheiro de fumaça e gás e ele sentiu a sensação dela quando as costas começaram a arder.

... — ...

"...Ainda vos digo que, se dois de vós se unirem entre si sobre a Terra a pedir qualquer coisa, esta lhes será concedida por meu Pai que está nos céus. Porque onde se acham dois ou três congregados em meu Nome, aí estou eu no meio deles..." — Mateus, 18:19-20

Castiel ouviu as palavras do padre e sentiu vontade de corrigi-lo, mas era bom ouvir palavras conhecidas sobre seu Senhor. Era um tanto desolador ver as pessoas ouvindo cada sermão e tendo a fé sendo transmitida para um lugar vazio acima das nuvens.

Ás vezes enquanto estava no céu podia se permitia ouvir as orações dos fies em todo o mundo. Eles tinham tanta fé e dedicação que ele se orgulhava em poder ouvi-las mesmo que não pudesse descer para atendê-las.

Para ele a terra era algo ainda curioso e misterioso, ele já observou de longe como as coisas andavam e funcionavam abaixo, já esteve em grandes missões históricas mas nunca se sentiu um deles. Nunca se sentiu humano, nunca poderia nem imaginar como seria ter sua fé convicta abalada.

Agora ele estava sentado em banco, numa fileira vazia, afastado dos demais ouvindo o padre em Budapeste. Não sabia bem o que viera procurar ali, talvez uma resposta ou ele queria se inspirar na fé daquelas pessoas e acalentar seu ser ferido. Uma anjo não tinha um coração humano, eram apenas graça e glória, eles pulsavam e bombeavam como uma coisa só, não um órgão.

E Castiel sentia falta de se expor, de deixar sua prisão de carne e ser o que era. Iluminado, glorioso e limitado aos olhos humanos, libertar suas asas e sentir o peso delas nos ombros, queria desesperadamente sentir sua conexão com o céu novamente, voltar para casa. Porém ao mesmo tempo ele lembrava de como foi questionar as atitudes de seus irmãos e as ordens. Então ele caiu e achou que talvez aqui poderia ser seu lar.

Observou, lutou e lutará ao lado de humanos novamente. Aquele que anda entre eles, mas não é um deles. Mas o que o perturbava era a dor, humana demais.

Sua fé fora abalada e sua esperança extinguida. Sabia que não teria ninguém para responder suas orações, então não via mais sentido em fazê-las. Não havia mais sentido se prender á sua verdadeira natureza.

...Pai nosso que estai no céu, santificado seja vosso nome, venha nós em vosso reino, seja feita a sua vontade, assim na terra como no céu... – ele desapareceu.

Pessoas passavam por ele, falando umas com as outras ou ao telefone, ele andou entre elas sem ser notado. Estava na principal avenida de Xangai, e virou uma rua mais silenciosa á esquerda.

Andou um pouco mais e virou outra rua, depois subiu uma pequena ladeira até um bairro mais calmo. O comércio eram pequenas lojas, onde se podia encomendar roupas para mosteiros e também comprar iguarias chinesas. Quase no fim da rua ele encontrou a lojinha de temperos e ervas.

Abriu a porta e entrou sentindo o cheiro das plantas aguçada no nariz. Um casal comprava tempero algum tempero nativo; a mulher grávida e o marido passou por ele o cumprimentando com um aceno de cabeça e saíram da loja.

Atrás de um balcão um homem estava de costas para Castiel. Ajeitava as prateleiras e nem precisou se virar para saber quem era.

_Castiel, estive pensando em quando iria me encontrar. – falou em mandarim. Castiel se adiantou para perto de Ithuriel.

_Sempre soube onde esteve. – respondeu. Ithuriel se virou para ele. Possuía o corpo de um homem nativo, com idade próxima á de Jimmy, a quem Cass possuía. Os olhos em fendas encararam Castiel e ele sorriu para o visitante.

Ithuriel havia caído há anos, quando a harmonia ainda reinava no paraíso. Ele fora, o que poderia se dizer, um amigo de Castiel no céu. Os dois lutaram batalhas, realizaram missões juntos e aprenderam lado a lado. Ithuriel também era conhecido como um anjo sábio. Vinham a ele pedindo conselhos ou auxílio nos planos de guerra, e ainda assim não possuía a superioridade característica da raça.

Castiel nunca entendeu o por que escolheu aquilo. Na época achou que por decidir abandonar o céu e desobedecer ele fosse como Lúcifer. Todo o apelo que a parceria tinha havia acabado naquele momento. Agora não sabia o que pensar.

_O que o trás aqui? – perguntou Ithuriel cordialmente. Castiel pensou na resposta. Não tinha exatamente um motivo, ele só queria entender.

_É isso o que tem feito, vende temperos enquanto o mundo estar caindo em desgraça, por que? – comentou Cass. Não tinha nenhuma arrogância ou petulância, apenas curiosidade. Ithuriel o olhou por alguns instantes, tanto tempo que Castiel achou que não iria responder.

_Você ainda subestima as pequenas coisas, Castiel. Mas imagino que tenha vindo por algum motivo, ou apenas quer bater um papo com um velho amigo? – ele andou atrás do balcão e ergueu parte da banca passando por esta e se juntando ao outro anjo. _O que acha de uma xicara de chá? – perguntou colocando uma mão no ombro de Castiel ao passar por ele sem esperar uma resposta. Ele o seguiu com o olhar enquanto o outro erguia a mão para a porta na entrada usando o poder para trancá-la. Depois manualmente outra maçaneta numa porta com madeira azul no fundo da loja.

Castiel se juntou ao irmão e os dois passaram por prateleiras de produtos da loja. O aroma ali era bem mais concentrado variando do doce ao cítrico e amargo. Ele passou por uma cortina de contas coloridas e os dois entraram numa pequena sala de estar.

Um cômodo simples, tapete vinho com estampa simétrica e objetos culturais numa estante contra a parede. No fundo uma mureta separava o que parecia uma cozinha. Ithuriel rumou para cozinha.

Castiel tomou um lugar numa poltrona confortável de encosto alto com tema chinês na estampa do estofado. Frente a ele uma mesinha e outra poltrona como par.

Ithuriel colocou água em um bule de porcelana bordada no fogo e se juntou a Castiel tomando a poltrona da frente.

_Soube que estava procurando por nosso pai, teve sorte? – perguntou Ithuriel. Era uma pergunta sincera, não tinha sinal de escárnio. Castiel virou o rosto para o quadro na parede. _Oh, entendo.

_Entrei em contato com Josué. Deus estar... em algum lugar, mas não irá interferir. – Ithuriel assentiu com a cabeça como se entendesse mais do que Cass havia explicado.

_E você não entende. – Castiel se voltou para ele.

_O que não entendo?

_O por que da decisão dele. Castiel você sempre foi um bom soldado, um bom filho, sempre teve essa fé inabalada. – ele se inclinou para frente apoiando os cotovelos nos joelhos. _Mas Deus é algo que não podemos compreender completamente, somos sua criação e mesmo assim somos passíveis a erros e leigos quando se trata do nosso próprio criador. Se ele não vai interferir, acredite tem um plano maior a ser escrito, tudo tem um propósito. Como costumam dizer com o velho ditado: Deus escreve certo...

_Não. – interrompeu Castiel. Lembrou quando tentou dizer exatamente aquilo a Dean há um tempo atrás e foi ameaçado com um soco. Agora entendia o por que daquela frase incomodar tanto. Não oferecia nenhum conforto ou resposta. _Por que caiu Ithuriel? Você era um dos melhores, um dos mais fies. Era um bom anjo.

_Então não sou mais um bom anjo? – perguntou o outro como um meio sorriso. Para Castiel ele parecia tão humano, tão confortável com sua posição entre os homens de um jeito que Castiel ás vezes não se sentia.

_Não foi o que quis dizer. – contrapôs Cass.

_Ao contrário de você Castiel, eu caí por que escolhi sentir. Eu queria ver isso de perto, eu queria ser capaz de andar entre as peças moldadas pelo nosso pai. – Castiel balançou a cabeça como se incrédulo. _E irmão eu admiro o que fez e o que está fazendo. Mas ainda o vejo como um anjo.

_Eu sou um anjo. – disse como se para afirmar para ele mesmo.

_Exatamente. Para você isso aqui nunca será o suficiente, uma lojinha num pequeno bairro chinês, uma vida simples e humana. Você quer concertar o que acha errado, mas meu amigo a rachadura é maior que você.

_Quero impedir o Apocalipse. – disse Castiel determinado.

_E depois? Se vencer, o que pretende fazer? – Castiel abriu a boca para responder e fechou de novo. Não havia pensado naquilo. _Veio aqui por que tem algo doendo em você, e não entende.

_Estou perfeitamente bem. – respondeu prático.

_Não estou falando do corpo Castiel, quero dizer em você. Deus era sua esperança e meta agora se sente sozinho e sem motivação. Antes você tinha a consciência dos seus atos, os riscos que correu ao se rebelar, se apegar aos Winchester. Você tentou, deu o sangue pelo o que acreditava e tinha fé agora você está vendo tudo isso desmoronar diante de você e não consegue fazer nada. É só um anjo e está sozinho. – Castiel pensou em se despedir e ir embora, mas Ithuriel colocava seus pensamentos em ordem, ele entendia de certa forma o que afligia Castiel e por mais que quisesse fugir da conversa ele ficou e esperou. _Assim como a criança metade demônio metade anjo você está dividido entre se entregar de vez á humanidade, que vejo em como se sacrificaria por Dean Winchester ou em como deixou a criação de Lúcifer viver ainda que isso possa causa catástrofes futuramente. Mas ainda quer salvar o mundo, ainda quer lutar como um soldado e ainda quer voltar para casa.

Como resposta o bule apitou, Ithuriel se levantou com a leveza de um anjo, sorriu e se dirigiu a cozinha.

... — ...

Meu ouvido zunia e meu corpo estava prensado no chão contra o de Sam. Calor explodia por todos os lados. Os vidros cederam a pressão e começaram a se estilhaçar, uma chuva de cristais sobre nossas cabeças.

Continuei sem mover um músculo contra a mesa virada até que tudo se aquietasse. Esperei que Sam dissesse alguma coisa ou aliviasse a pressão sobre mim, mas ele continuou parado respirando pesadamente contra minha nuca. Tão perto que lembrei de poucos minutos antes, quando seus lábios fizeram pressão nos meus. Parecia que o universo conspirava contra nós, sempre que Sam e eu nos aproximávamos demais alguma catástrofe acontecia.

Enfim ele levantou abruptamente, só entendi quando começou a retirar a jaqueta depressa e tacá-la no chão, vi que a parte detrás estava chamuscada e a preocupação inundou meu peito. Me ajoelhei ao seu lado e o peguei pelo ombro forçando-o a virar as costas para mim.

_Você está bem? – perguntou.

_Está brincando? Você quase virou churrasco para me proteger, eu estou ótima. – respondi analisando suas costas. Fora alguns chamuscado na camisa de baixo Sam não parecia ferido, apesar de está um trapo e sujo com sangue, eu também sentia o cheiro de fumaça e sangue na minha pele. Respirei com alívio.

_Achei que deveria retribuí o favor. – disse com meio sorriso. Fumaça começava a sair pela cozinha. A parede estava destruída, o cômodo era um emaranhado de metal torcido entre chamas altas e letais, se não saíssemos dali iríamos queimar ou sufocar com a fumaça que começava a fazer meus olhos lacrimejarem. _Vamos.

Sam se levantou e me ajudou a ficar de pé. Ele pegou meu pulso para me guiar para fora quando a fumaça começava a erguer em uma cortina branca em meus olhos. Tossi sentindo uma queimação na garganta. Tropecei em algum entulho, Sam me segurou antes que caísse e de repente perdi o contato com sua mão e ouve um barulho como uma pancada.

Me virei só no tempo de registrar o que acontecia e abaixar a cabeça enquanto a madeira passava por cima em um borrão. Dei alguns passos trôpegos para trás. Sam estava caído ao lado do padeiro possuído e se mexia, mas lento. Tinha conseguido me livrar do demônio na cozinha com o poder do anjo, porém foi um golpe de sorte, — o objetivo era o sal — e a luz veio à mim, o desejei não invoquei. Tanto que tive medo de me descontrolar e queimara acidade inteira.

Agora o desejava mais uma vez, pelo menos para clarear minha visão. Continuei dando passos para qualquer fosse a direção, ele também. Fazíamos uma dança lenta e eu queria chegar perto de Sam. Quando outro estrondo foi ouvido, mais coisas voaram; concreto, tijolos e vidraça jogados a esmo. Me lancei no chão perto de Sam protegendo a cabeça.

Um para-choque entrou em foco atingindo corpo do demônio o fazendo voar para dentro da cozinha flamejante. Assisti chocada enquanto a porta do carro se abria e Steve aparecia com um sorriso torto no rosto.

_E agora, precisa de uma carona? – antes de me virar já sentia o ombro de Sam encostando no meu.

...

O carro pequeno demais para mim e Sam sacolejava fazendo minha cabeça bater no bando da frente. Estávamos encolhido no chão na parte de trás para não sermos vistos por demônios irados. Sam não era nem de longe pequeno por isso foi difícil faze-lo caber confortavelmente num mini sedã. Estava de frente para Sam com minhas perna entre as deles e seus joelhos um pouco pressionado na minha coxa e ele fazia o máximo para não deixar aquilo desconfortável para mim. Não era a viagem embaraçosa que me incomodava.

Nossas roupas estavam encharcada com sangue — agora seco deixando o tecido duro — o que deixava o carro com um cheiro pungente e nauseante. Minhas roupas se rasgaram em algum ponto e meu cabelo era um ninho de rato incendiado, minha pele estava suja e meus braços arranhados começava a arder. Não estava em condições de nada no momento.

Íamos para a casa do Bobby, pelo menos era o que eu acreditava, ao contrário de Sam que foi bem relutante em aceitar a carona. Mas Steve disse que aquele era o modo mais seguro de atravessar a cidade que começava a borbulhar em um pequeno caos.

Os demônios incendiaram alguns comércios, mataram pessoas, e sabe se lá o que fizeram com Bobby, tudo para chamar a nossa atenção, tudo para me mandar um recado. E toda vez que eu ouvia os gritos lá fora, as sirenes fazendo seu apelo e a fumaça negra de coisas em chamas erguendo-se ao céu minha garganta parecia fechar um centímetro. E ainda tinha Dean e Jamie.

Contei a Sam o que achava que Dean faria e agora começava a me arrepender da ideia. Não podia sacrificar meu irmão por Dean e também tinha a sensação de que não deixaria Dean ser sacrificado por meu irmão.

Sentia como se tivesse uma mão gelada segurando meu coração e apertando-o cada vez mais. Simplesmente não conseguia pensar em nada direito. E esse impasse me deixava irritada e com raiva de mim mesma por tanta indecisão.

Sam murmurou alguma coisa. Tive que usar toda a minha força de vontade para olhá-lo e perguntar o que disse. Ele repetiu:

_Não confio nele. – aquela declaração não era novidade. Abri a boca para concordar com ele, mas Steve se adiantou.

_Só por que meu cabelo é mais bonito que o seu? – Sam imitou um ruído irritado e virou o rosto. Não via Steve, mas poderia dizer que ele estava sorrindo do jeito que fazia desde que nos encontramos, um sorriso torto e convencido. Steve não parou por aí;

_É a segunda vez que salvo vocês, o que podemos tirar disso? – comentou em tom de quem joga conversa fora.

_Que agora vai ter uma história interessante para contar para seus amiguinhos enquanto trocam figurinhas. – falei seca. Steve riu.

_Gosto de você, princesa. E podem levantar, já passamos do centro. – assim fizemos. Levantei primeiro para dar espaço a Sam e me coloquei no banco esfregando a cabeça onde havia batido tantas vezes.

Assim como Sam olhei pela janela tentando identificar o lugar. Parecia sim o caminho para o ferro velho de Bobby. Olhei para Steve pelo espelho, seus olhos ficavam mais claro no sol e seu cabelo quase platinado. Ele me pegou olhando para ele e piscou para mim com um sorriso de canto de boca. Desviei o olhar.

_Tudo bem aí, princesa? – Sam esticou os braços fazendo os ossos estalarem.

_Está pensando em se auto titular meu cavalheiro da guarda pessoal? – disse transpirando sarcasmo. Tinha que conversar com Crowley sobre o "princesa", isso começava a me irritava.

_Acho que estou mais para seu anti-herói. Soa melhor e tem esse apelo misterioso. – ele deixou a voz num tom mais aprofundado e sombrio, dizendo como um slogan: _ Apareço quando você menos espera e a tiro do fogo quando seus bichinhos de estimação tem medo de se queimar.

_Ok, Rorschach, deveria estampar isso numa camiseta. – ele riu novamente. Tinha um som tão humano e jovial que tinha que ficar me lembrando que ele era um demônio.

_Ouvi dizer que as garotas curtem heróis com moral questionável.

_É o novo sexy. – falei sem pensar muito no que estava fazendo. Seu sorrisinho arrogante alargou e ele me lançou um olhar malicioso através do espelho. Torcia para Sam está prestando mais atenção na estrada. Deveria calar a boca e me preocupar com Bobby, não dá margem as deixas de Steve, o demônio Steve.

Se fosse pensar bem nos meus atos nas últimas 72 horas talvez Crowley tivesse razão à meu respeito. Em curto tempo eu quase beijei Sam, e deixei claro que queria, depois transei com Dean e realmente beijei Sam poucas horas depois e agora flertava com um demônio. Minha mãe deveria estar se revirando onde quer que esteja.

_Eu definitivamente gosto de você. Poderíamos nos divertir muito juntos. Poderia te levar para minha bat-caverna, revelar minha identidade secreta. – Sam ouvia a tudo com cara de quem poderia a qualquer momento vomitar ou quebrar o pescoço de Steve. Parecia tanto com o irmão agora. Me contive dessa vez mordendo o lábio para não deixar escapar uma resposta. _Isso poderia ser a nova definição de sexy. – deixei o lábio escapar dos dentes imediatamente. Era um gesto frequente que não pensava por esse lado.

Sam olhou para mim, apesar de irritado com Steve ele parecia concordar com o demônio. A parti dali jurei não morder o lábio em público de novo.

Nós já chegávamos, dali podia ver que tinham pichado o muro do lado de fora do ferro velho. O portão de entrada estava escancarado e o medo começou com um arrepio subindo a minha espinha.

Antes mesmo de Steve estacionar por completo Sam já estava abrindo a porta do carro e correndo para o ferro velho.

_De nada. – gritou Steve. Desci do carro para correr atrás de Sam. Parei quando vi que não se tratava de uma pichação no muro e sim uma mensagem: VOU ENCONTRA-LA. Estava escrita em letras maiúscula com a cor tão vermelha quanto sangue.

Sentia pequenas agulhas de gelo se infiltrarem nas minhas veias. Era uma mensagem para mim, uma mensagem de Lúcifer. Ele iria me encontrar. E sentia que o que tentava fazer era idiota, não conseguiria matar o diabo. Tudo aquilo era um aviso, um pedido de rendição.

Dei um pulo quando senti uma mão no meu ombro.

_Você deixou o chifrudo com raiva. – disse Steve. Me voltei para ele despertando do meu choque. Na verdade estava sem coragem de entrar naquele ferro-velho. Não aguentaria mais essa morte no meu currículo.

_Ainda quer fazer isso? – perguntei o fitando. O queria como aliado.

_Já disse princesa, gosto de você. – disse com meio sorriso. _E sabe, nós demônios podemos sentir certas... energias. Sentimos a de Lúcifer, tão forte que dá medo. Consigo sentir a sua, e sinceramente não vejo muita diferença.

_Não sou como Lúcifer. – declarei.

_Por isso estou aqui. – ele era tão humano que chegava a ser assustador.

_Você é muito estranho. – ele deu de ombros.

_Prefiro ser charmoso ou gostoso, gato também serve. Fica a sua escolha. – revirei os olhos.

_Fico com estranho. – finalmente me mexi para adentrar o ferro velho. Ele pegou meu pulso antes que passasse pelo portão escancarado.

_Sinto que nos entraremos em breve. – disse de Steve ainda com a mão em meu pulso. Podia sentir a energia dele, a dele era como se estivesse distante, não como sentia com um demônio maior como Crowley, mas estava lá.

_Sim, estou curiosa para saber sua identidade secreta. – disse e antes que ele respondesse me livrei de seu toque e corri para a casa de Bobby.

Chegando a porta parei, era visível que tinha sido arrombada. Passei, por alguns livros e uma mesa derrubada. Fui para a sala e parei de novo com o coração martelando. Um silêncio total. Quando encontrei um corpo no chão perto da cozinha parei. Uma mancha vermelha absorvida pelo tapete abaixo do corpo.

_Bolas! Esse tapete foi caro. – disse uma voz conhecida atrás de mim. Me virei sentindo espasmos de alívio. Ele estava com Sam, uma espingarda na mão e um livro no colo. Estava como sempre, sem sinal de ferimentos.

Não sabia o quanto estava preocupa com Bobby até aquele momento, não éramos muitos próximos para falar a verdade, mas em todas ás vezes que fui acolhida em sua casa era tratada como um dos meninos, e apreciava isso, me sentia confortada ali como nunca realmente me senti com meu próprio pai. Desde de um jogo de Pôquer — que perdi para ele praticamente todas as vezes — ao tiro ao alvo no quintal que ganhei por muito pouco. Apenas tinha me apegado ao velho.

Procurei entender por mim o que houve ali. Notei que o demônio tinha ficado preso numa armadilha do diabo pintada no teto. Um ponto no chão estava salpicado com sal, o cartucho da bala da espingarda e o sangue. Por último o livro com exorcismo no colo de Bobby. Era só ligar os pontos e ver que nenhum demoniozinho era páreo para Bobby Singer.

... — ...

_Por que não luta ao meu lado novamente? – perguntou Castiel e ouviu a risada de Ithuriel na cozinha. _Se gosta daqui, não deixe Lúcifer destruir tudo.

_Não sou mais um soldado Castiel. Se até Deus acha que é melhor assim, então assim será. – Ithuriel, veio da cozinha trazendo uma bandeja com chá e alguns biscoitos. Ele pousou a bandeja na mesinha servindo-se e a Castiel.

_E todas as pessoas que morreram? As mesma que tempos atrás tentávamos proteger. – Ithuriel levou a caneca aos lábios, o vapor fazendo seu rosto ruborizar. Algo naquela complacência irritou Castiel.

_Não é nosso dever, não deveríamos interferir no curso natural das coisas. – ele devolveu a caneca a bandeja. Observou Castiel com olhos avaliadores. _É difícil ser um anjo com livre arbítrio e ao mesmo tempo ainda achar que deve ao céu e aos humanos. – Ithuriel sorriu lentamente, depois acrescentou: _Não ficaria surpreso em saber que pensa que não tenho misericórdia.

_E têm? – disse Castiel.

_Mais do que imagina. – ele se recostou na cadeira e deixou os olhos pequenos vagarem pelos quadros na parede. _Sou mais velho que você Castiel, isso me dar a dádiva ou o fardo de saber ou pressentir com mais clareza certas coisas. – ele se voltou para o anjo mais jovem. Os olhos escuros pareciam mais abertos e intensos. _Escute meu amigo, isso tudo vai terminar em um banho de sangue. Não há nada que possa fazer, nem você nem aqueles meninos tolos. O mundo reinara em luz ou será dissecado em escuridão. A menina que tenta guardar e proteger será a ruína da orla celestial ou a salvação. Não há espaço para o homem. Se fosse você parava um pouco para cheirar as flores antes de tudo ser cinzas. Não lhe desejo mal e nem me recuso ajudar por querer o que estar por vir, apenas aceito o que o destino traçou para nós. Já era esperado Castiel, sabíamos que esse dia chegaria, e estar tão próximo. Não quero cair lutando, quero cair em paz.

Castiel foi tomado com uma sensação estranha. Um frio se infiltrando em sua essência. E ele se sentia esmaecer, como a chama de uma vela chegando ao fim. Queria encontrar respostas e encontrou, só não era as que queria ouvir.

_Ande, tome o chá antes que esfrie. – incentivou Ithuriel como se as palavras daquele discurso sombrio nunca tivesse deixado sua boca. Castiel hesitante pegou sua caneca. Uma nuvem de vapor quente adocicado varreu seu rosto. Seus lábios tocaram a porcelana aquecida e ele sentiu como uma fisgada leve no cérebro a voz de Sam, distante. Uma oração. Precisavam dele.

Ele ouviu enquanto Sam dizia onde estariam em algumas horas e pedia que ele viesse o mais rápido possível, era urgente. Castiel pousou a caneca na mesinha e olhou para Ithuriel, seria a última vez que veria o anjo.

_Vá, precisam de você. – provavelmente Ithuriel ouvirá Sam também. Castiel se levantou, ia se transporta quando Ithuriel pediu que esperasse. Ele chegou perto do irmão colocou sua mão no ombro do outro. _Cuidado Castiel, ás vezes oque parece errado é errado. Não se perca, irmão. – Cass assentiu. Quando o toque se desfez ele desapareceu.

As palavras de Ithuriel ecoando nele.

... — ...

Depois de compartilharmos os fatos com Bobby, tomar um banho e buscar nossas coisas voltamos o mais rápido a estrada. Bobby ia ficar bem e a cidade parecia controlada quando saímos de lá. Já nossa missão ganhou uma dose extra de tensão. Estava nervosa e diria o mesmo de Sam. Bem, o céu não estava em brasas celestiais e nem sentimos nada diferente na rotação da terra, então presumíamos que Dean não dissera Sim. Mas do que poderíamos ter certeza?

Após algumas pesquisas envolvendo raqueamento de alguns bancos de dado, que não saberia explicar como, Sam descobriu um possível endereço de uma das paradas de Dean. Se ele pretendia se matar talvez tiraria um tempo para se despedir desta vida, ou de alguém. Na ocasião não tive tempo de perguntar, mas agora...

_Quem é Lisa? – Sam olhou de relance para mim. Começara a chover há alguns minutos, pingos grossos que ressoava como uma sinfonia de pequenas baterias na lataria do carro.

_Foi um dos casos mais... sérios de Dean, ele teve de desistir dela por causa do trabalho, mas nunca a esqueceu completamente. De alguma forma foi especial.

_Ah. – sabia que não deveria me importar, mas fui traída com uma agulhada de ciúmes. Não tinha motivo. Me perguntava; se foi tão especial por que ele a deixou pelo trabalho? E se eu fosse como Lisa, uma garota normal que tivesse cruzado o caminho com Dean e tivesse sido tão especial quanto é, era, ele me deixaria pelo trabalho?

Na verdade a resposta estava bem ao meu lado. Sam, ele deixaria qualquer um pelo irmão. Apreciava isso. Sam se voltou para mim por um instante antes de se virar para estrada novamente.

_Ah? – questionou.

_É, Ah. Uma expressão usada quando não se tem argumentos validos, mas mesmo assim quer expressar alguma resposta. – disse a ele. A sombra de um sorriso aparecendo e desaparecendo em seu rosto. _O que foi?

_Nada, só que esse Ah me pareceu um pouco enciumado. – Sam estava sendo cauteloso, tinha uma pergunta incrustada no seu comentário.

_Não estou com ciúmes do seu irmão por uma garota que ele não vê há anos. Me parece um pouco triste na verdade, saber que ele nunca teve um relacionamento de verdade por causa da vida que leva.

_É nosso pequeno sacrifício. – disse Sam pensativo.

_Acha que vale a pena? – perguntei, chegando mais perto dele para colocar minha cabeça na curvatura do seu pescoço. Seu cabelo roçava na minha bochecha de modo leve e delicado. Inspirei seu cheiro, o cheiro de Sam; cítrico com toques refrescante do shampoo masculino e sabão em pó da roupa. Me assustei um pouco resistindo ao impulso de me afastar, desde quando sabia o cheiro de Sam?

A adrenalina abandonou completamente meu corpo o deixando dolorido e pesado de cansaço. Lá fora a noite começava a cair e o céu parecia uma placa de concreto sobre nossas cabeças. Sam respirou fundo antes de dizer:

_Acho que o amor nunca deveria ser pedido como sacrifício. – disse como se deixasse a mente vagar.

_Como ela era? – ele abaixou os olhos para mim.

_Ela quem?

_Jessica. – já fazia um tempo em que Sam me contou sobre ela, ou melhor, sobre o que aconteceu. Na ocasião eu não pedi detalhes. Não queria detalhes da tragédia e sim sobre ela. Seu amor passado que ainda persistia no presente.

_Ela era incrível. – tinha um mundo de significado naquela frase. Naquele momento Sam me parecia tão vulnerável e sensível. Mais como um menino que perdeu uma pessoa que amava muito do que um caçador a procura do irmão mais velho encrencado.

Deixei que o silêncio se estendesse e logo o som monótono da chuva embalou a minha exaustão. Me afastei de Sam e usei minha jaqueta como um travesseiro pressionado contra a janela do carro.

_Sam? – chamei antes que me entregasse de vez ao sono.

_O quê?

_Eu gosto do seu cabelo. – tive um vislumbre do seu sorriso antes de apagar...

...Estava no alto. Me sentia suspensa no ar mesmo que meus pés estivessem plantados no chão terroso. Mas realmente estava no alto. Uma grande imensidão se estendia diante de mim e desbocava em um precipício. Um conjunto de enormes pilares rochosos cercando lá em baixo um rio sinuoso, as águas tão azul quanto o céu. Era o Grand Canyon.

O vento passava por mim levantando fazendo o vestido branco de tecido leve que vestia flutuasse ao meu redor. E meu cabelo acompanhava aquela dança. Ali encarando o grande abismo abaixo me sentia livre como um passarinho. E era isso que eu queria fazer; voar por toda aquele imensidão natural.

Aquele sonho era diferente. Tinha textura, sensações tão vivas. Como o vento soprando meu rosto, a aspereza da areia nos meus pés descalços e meu corpo leve como pluma. E também a paz com o silêncio quebrado apenas pelos uivos do vento.

Me sobressaltei quando senti uma mão suavemente no meu ombro. Meu coração desacelerou só para eu perder o fôlego. Eu olha para Dean. Era como se o visse pela primeira vez.

Ele estava absurdamente lindo que não fiz nada a não ser contempla-lo. Ele vestia roupas pretas destoando da paisagem verde e marrom, eram; uma camisa social de botões com mangas dobradas até a curva do braço marcando o bíceps e deixando a mostra os poucos pelos dourados de seu, fazendo conjunto com a calça social da mesma cor que tremulavam enquanto a brisa envolvia nós dois. Os sapatos lustrosos como as penas de um corvo. O sol não batia nele, mas ele parecia iluminado.

A pele com tom sutil de dourado, um bronzeado natural, o cabelo perfeitamente arrumado como se banhado a ouro velho. Seu rosto estava plácido e perfeito, as sardas haviam se camuflado a cor da pele e seus olhos pareciam ter roubado o tom mais bonito de verde, pequenas gotas de ouro pontilhavam a volta de sua íris.

_Dean. – disse num suspiro. Ele sorriu. Radiante.

_Isabel. – correspondeu fazendo uma sensação quente se derramar no meu peito. _Sabia que ficaria feliz em me ver assim. – olhei para ele confusa, mas sem deixar o sorriso no rosto.

_Assim como? – ele fez uma pausa. Ele agora parecia diferente. Não saberia dizer, era apenas diferente. Refinado. Ele respondeu com:

_Resplandescente. – fixei meus olhos nele, tentando encontrar. Tentando achar meu Dean. Seus olhos fitavam os meus, esmeraldas jogadas ao meu oceano. Tinha certa... perfeição nele. Todo ele irradiava. E seus olhos agora pareciam mais frios, não tinham a vivacidade de antes, apesar do brilho. Eram focados e estáticos.

De repente me senti ser lançada contra o meu do oceano ártico. A brisa fresca se tornou pequenas agulhas de gelo e meu corpo todo esfriou abaixo de zero. Não era Dean.

Não.

Não pode ser.

Dei alguns passos para trás, as pedras aranhando as solas dos meus pés. Ele esticou o braço como se para eu segurar sua mãos, mas meus pés me guiavam para trás. Pequenos passos tentando abrir o máximo de distância dele. Não Dean. Miguel.

_Não precisa ter medo, só quero agradecer e dizer que estou tomando providência quanto ao nosso acordo.

Ele deu dois passos a frente, a expressão imperturbável e pacífica. Dei dois passos para trás. E fui engolida pela imensidão.

Estava no alto. Estava caindo. O vento zunia nos meus ouvidos e o céu azul acima parecia impossivelmente distante. Meus braços e pernas cortavam violentamente o ar. A saia do vestido branco se agitava ao meu redor como asas de pombas e meu cabelo formava uma barreira negra nas laterais do rosto. O solo estava próximo, eu podia sentir mesmo caindo de costas.

O rosto de Dean apareceu do alto, observando envolto ao negro das roupas.

Então finalmente gritei.

Notas finais
E aí, o que acharam? Preparados para o próximo capítulo ou desistiram por aqui? Deixem Reviews!! Beijos Anjos, até a próxima ;) XOXO