Broken Girl
19 Capítulo dezenove: "Me chamo legião, por que somos muitos."
Notas iniciais
Castiel disparou, colidiu contra um demônio e o conduziu para baixo, dando-lhe um golpe mortal, enterrando a adaga em seu peito. Logo se viu sendo arrastado pelo sobretudo para trás, ele girou e usou a lâmina para cortar o pescoço do demônio. Outros vinham, uma grande maré demoníaca e Castiel e Ithuriel estavam no meio dela, nadando em corpos para emergir.
Quem visse de cima diria que a cena era quase um espetáculo bem peculiar. A luz das lâminas das adagas de prata refletiam o brilho da lua, traçavam desenhos no céu noturno. E a luz dos anjos serpenteavam em explosões luminosas na rua Fletcher junto aos flashs dourados dos demônios sucumbindo.
Castiel e Ithuriel estavam de costas um para outro, juntos, cada um defendendo uma frente tentando ganhar mais alguns metros. Castiel abaixou — de alguma forma alguns demônios tinham conseguido lâminas angelicais — a lâmina passou por sua cabeça e a dele se alojou no abdômen do demônio.
Cass chutou o corpo do demônio com a garganta cortada para o caminho de outro, este tropeçou aos pés de Ithuriel, o anjo usou a mão para queimar o demônio em luz. Castiel não previu o próximo golpe, o soco o acertou no rosto o fazendo cambalear para o lado, depois só sentiu uma pontada nas costas, não sentia dor, mas seu receptáculo reagiu ao golpe.
Sangue jorrou da boca de Castiel e ele virou ainda com a adaga de madeira cravada as costas, segurou o queixo do demônio e usou a luz para queimá-lo. O demônio gritou e desabou no chão. A adaga das costas de Castiel foi arrancada e o anjo viu Ithuriel usa-la como lança, jogando-a no joelho do adversário. Este caiu e Ithuriel aplicou um golpe certeiro com a adaga.
Castiel pegou uma da lâminas sobrando no chão. Pulando o corpo de um demônio ele se lançou contra outro fazendo um corte em sua garganta usando as lâminas como uma espécie de tesoura. O sangue espirrou em seu sobretudo sujo de lama, ele já estava ensopado. As mãos, o casaco e o rosto estavam tomando colorações diferentes.
Os dois avançaram, como um navio cortando um oceano negro. Castiel sentia a emoção da batalha, os movimentos eram automáticos, precisos e rápidos, há muito tempo ele não se sentia assim; Um tanto revigorado, usando sua energia angelical contra algo maligno, e lutar mais uma vez ao lado de Ithuriel o fazia se sentir no exercito de Deus novamente.
Aos poucos os corpos foram se acumulando ao redor e o número de demônios reduzidos. Alguns fugiram outros foram abatidos rapidamente pela dupla. Agora os anjos estavam sozinhos, cobertos com sangue de demônio e com o que era mais próximo de adrenalina para anjos, fluindo por suas essências.
... — ...
Luz explodiu pelo cabo da adaga. A força percorrendo meu braço com um fio de eletricidade me impulsionando para trás. Caí com a potência que erradicava dele. A luz dourada/branca queimava em minhas veias numa agonia crescente. Olhei para o par de braços e mãos sujas que achei que estivessem queimando, mas não, a sensação era interna.
Dean caiu de joelhos, a adaga atravessada no peito, o ponto de luz no centro começando a se espalhar pelo corpo. Ele estava dourado, como se derrubassem ouro líquido em um vaso de vidro. Seu cabelo assumiu a coloração, e era como ver o rastro de um cometa se alastrar pelo seu corpo. Queimando em luz e deixando sua pele quase translúcida, deixando visível seus ossos por alguns segundos.
A cabeça de Dean foi jogada para trás, os braços abertos e o corpo arqueado enquanto ele irradiava em luz que deixava impossível de se olhar diretamente para ele. Tentei me arrastar no chão para perto dele, mas não conseguia, o calor era forte demais, era como tentar chegar perto do sol.
Tampei os olhos com as mãos e ouvi um grito agonizante. Mudei a posição das mãos para os ouvidos. Não aguentava o ouvir gritar e saber que eu era a causadora daquilo.
Tudo acabou de uma vez só, quando a luz implodiu tive coragem de olhar para ele. Um rio de sangue jorrava de seu peito manchando a camisa preta, seu corpo caiu para trás fazendo a adaga deslizar no peito e se projetar para cima, um rastro de sangue foi visível na lâmina e eu me encolhi.
A luz ainda ardia na minha pele, pinicando como se ferros a brasa me cutucassem. E eu me sentia enferrujada, como um robô mal articulado. E naquele momento queria sim ser um robô e não poder sentir o que sentia; Um vazio opressor e uma dor em cada canto do meu ser. Meu coração também foi perfurado por aquela adaga, eu o sentia sangrar ao deixar um buraco no peito.
Senti uma mão gelada no meu ombro. Me virei já sabendo quem seria. Lúcifer me encarava com um sorriso grande no rosto o que me fez diminuir ainda mais.
_Muito bem, querida. Estou orgulhoso. – disse ao meu ouvido. Senti uma fúria tão grande que ultrapassava a compulsão que ele tinha sobre mim.
_Eu vou matar você. – ele sorriu mais uma vez.
_Volto quando estiver pronta. – depois desapareceu. Me voltei para Dean.
Eu sabia o que fazer quando enterrei aquela adaga nele ou pelo menos achava que sabia. Mas agora estava no fogo cruzado dos meus próprios pensamentos.
Os alarmes soavam na minha cabeça me dizendo repetidamente: Faça alguma coisa, faça alguma coisa. Apenas faça alguma coisa. Mas nada, eu não tinha nada. Achava que podia cura-lo depois, eu tinha certeza disso, ou não tinha? Eu pensei nisso antes, podia salva-lo o matando primeiro por que eu sabia que Miguel não iria deixá-lo, e Lúcifer insistia com que eu o matasse. Não tive escolha, não tive...
Meu Deus, eu sentia como se minha alma estivesse sendo desfigurada com uma pinça. Me obriguei a me arrastar até Dean. Arfei quando vi o quanto de sangue empapava seu peito. Em baixo dele a meia luz iluminava mais sangue que começava a se espalhar na terra recém queimava, que não fazia muito para absorver.
O medo comprimia-me.
Faça alguma coisa.
... — ...
Sam acordou e queria muito voltar a dormir novamente só para o que viu se apagasse de sua mente. Ele não teve tempo de gritar, ou fazer qualquer coisa a não ser levantar a cabeça quando a adaga atravessou o corpo de seu irmão.
Quando a tontura deixou sua cabeça ele rolou no chão e tentou cambalear para seu irmão enquanto Isabel caia para trás, depois Dean, primeiro de joelhos. E ele viu que seu irmão transbordava em luz dourada. Depois disso Sam não soube mais por que um clarão cegante o abrigou a recuar e fechar os olhos.
Quando tudo terminou ele viu Isabel de joelhos no chão, Lúcifer ao seu lado, e quando desapareceu ele viu que ela hesitava, assim como Sam, em seguir para frente. Eles estavam paralisados no lugar, simplesmente com as forças exauridas. Ela foi mais corajosa que ele a se arrastar para Dean caído no chão. Sam se sentia perdido e muito confuso. Parecia ter dormido e acordado em uma realidade alternativa.
Isabel estava com a mão no cabo da adaga no peito do irmão morto. Morto, era isso mesmo? Ele sentia a sensação que já experimentara antes na boca do estômago. O peito inflando em um puro pânico. Uma sensação de abandono e impotência insuportável.
Ele mal se viu ir até o irmão e procurar em seu corpo algum sinal de vida, um batimento no coração, um cílio tremulo ou a pulsação em seu pescoço. E nada, ele não sentiu nem viu nada. Sam se voltou para Isabel ajoelhada perto dele. Ela parecia atônica. Os olhos muito abertos com um brilho intenso e frio encaravam o corpo de Dean como se ali contivesse os segredos do universo.
_Você... você matou ele. – gaguejou Sam para ela. Isabel apenas olhou para as próprias mãos com o sangue de Dean. Sam se controlava o máximo para não desabar. Seu irmão já tinha feito aquilo antes, e ele sempre voltava e se não voltasse Sam daria um jeito de traze-lo de volta. Ele agarrou Isabel pelos ombros, não medindo a força, ela levantou os olhos para ele. Suas palavras morreram na boca, as acusações que queria gritar para ela não fazia mais sentido em fazê-la. Então ela falou:
_Não, eu não matei ele, eu não matei, Sam. – disse numa voz sem emoção, soava delirante e distante. Ela agarrou a camisa dele e o obrigou a olhar para ela, estava chorando silenciosamente e Sam sentiu o próprio choro queimar em seus olhos embaçando suas vistas. _Eu posso... eu posso...
_O quê? O quê pode fazer? Você matou ele! Olha, você matou ele! – Sam gritou não conseguindo se segurar. Isabel recuou um pouco e o soltou. Ela se arrastou para perto de Dean, afastou as lágrimas da bochecha e arrancou de uma vez só a adaga do peito de seu irmão. O sangue começou a minar com mais avidez. Ele olhou para Dean o rosto imóvel como uma estátua.
Vamos lá meu irmão, por favor, não me deixe agora. Sam achou que estivesse delirando ou querendo muito que Dean tivesse alguma reação, mas ele podia jurar que viu sua pálpebra tremer por um milésimo de segundo. Sam olhou para Isabel com os olhos arregalados e úmidos.
_Você viu isso? Ele ainda está vivo.
_Eu posso curá-lo. – disse Isabel sem prestar a atenção nele. Ela tinha a expressão fria e determinada, o azul dos olhos brilhavam mais que nunca. Ela colocou as mãos no peito de Dean, sobre a ferida, e fechou os olhos.
Sam observou confuso enquanto um brilho fraco vazava dos seus dedos como se ela estivesse segurando uma lâmpada. Depois esse brilho ficou mais forte e intenso, tanto que ele não podia enxergar suas mãos através da luz. Sam sentiu uma onda de calor vinda do corpo dela, muito parecida com o que sentiu vinda de Miguel.
Isabel agora explodia em luz dourada o obrigando a se afastar e apertar os olhos. Era como se estivesse sendo escaldado em água muito quente. Ele se afastou um pouco mais não suportando ficar perto, nem se quisesse, era como se Isabel e Dean estivesse sido engolidos pelo sol. Sam não conseguia enxergar nem o contorno do corpo dos dois.
Ficou assim por um tempo, pouco, mas parecia uma eternidade para Sam sem saber o que acontecia com o irmão. As coisas foram ficando de calor insuportável a morna. A silhueta fina de Isabel se desenhando na luz, depois o brilho tremular, se apagando aos poucos, até que voltaram a luz noturna e ao frio invernal.
Sam se lançou para frente para olhar o irmão. Ele continuava deitado, imóvel, mas ele soube imediatamente que tinha algo diferente. Ele sentia um coração bater na palma da mão, fraco, mas estava lá. Ele abriu alguns botões da camisa de Dean molhada de sangue e viu que no lugar da fenda causada pela lâmina tinha apenas um risco fino de uma cicatriz vermelha, acesa como ferro em brasa. Sam notou outra coisa no seu irmão; estava muito quente. Sua pele estava pelando ao toque. Mas o alivio em seu peito dizia que nada daquilo importava.
Sam então percebeu a causadora disso tudo. Isabel olhava para Dean com os olhos brilhando de lágrimas, o lábio inferior trêmulo. Ela levantou os olhos para ele, olhos que brilhavam como se ela tivesse roubado o brilho do oceano azul submetido à luz das estrelas. Olhos sobrenaturais, pensou Sam. Ele quebrou o contato se voltando para Dean.
_Me ajude aqui, temos que levá-lo a um hospital. – disse para Isabel pegando o braço do irmão o passando por cima do ombro.
... — ...
Castiel deu a volta na cadeira colocada no meio da sala e olhou em volta. Era a terceira casa, Ithuriel conseguiu quebrar os sigilos e runas contra anjos criando rachaduras nas estruturas. Eles seguiram para o andar de cima, ambos atentos e silenciosos.
_Castiel? – chamou Ithuriel.
_O quê é? – perguntou olhando em volta e investigando as sombras no corredor.
_Achamos. – disse o outro encarando uma porta. Castiel para ela e viu que o amigo tinha razão, o garoto estava ali dentro, ele podia sentir. Era só destrancar a porta e... Ithuriel agarrou o braço de Castiel quando este ia tentar abrir a porta, os olhos do anjo estavam acesos e atentos, um pouco maiores. _Sentiu isso?
Ele demorou um tempo, mas conseguiu entender do que Ithuriel falava. Era algo forte, uma presença antes mesmo de ser anunciada. Soube no mesmo instante o que era.
_Castiel, queria dizer que... – sua frase foi cortada. Castiel não teve tempo para nada, a não ser observar o peito de Ithuriel ser perfurado pela própria adaga. A boca do amigo se abriu num grito surdo e ele viu sua essência ruindo e se apagando. Alguns segundos de luz se transbordando de seu corpo humano era o prelúdio de seu fim. Os olhos de Ithuriel estavam vidrados nos de Cass quando o corpo morto e desocupado caiu de joelhos aos seus pés.
Ele se obrigou a levantar o olhar e encarar o assassino de seu amigo. Lúcifer olhava para adaga com um misto de tédio e desgosto, um dedo passando pela lâmina como se testando se estava mesmo afiada, os olhos seguiram devagar para Castiel.
_Castiel, Castiel, está se tornando cada vez mais intrigante. – Castiel encarou Lúcifer, tentou não sentir o peso da morte de seu amigo. Mais um. Castiel apertou os dedos em volta da adaga, Lúcifer notou o gesto. _Ah, não se dê ao trabalho. Não quero matá-lo.
_Não foi o que pareceu da última vez. – Lúcifer sorriu suavemente.
_Tem passado tempo demais com os Winchesters. Até está falando como um. – Lúcifer apontou a adaga para Castiel e depois a largou no chão produzindo um barulho surdo por conta do carpete. _Se quisesse você morto, teria interferido mais cedo.
_Então sabia que veríamos, sabia que estávamos matando seus demônios? – perguntou Cass o avaliando, não a aparência de sua casca se decompondo, mas ele. Lúcifer que foi o anjo mais belo da criação. Apesar de milênios no inferno, Lúcifer ainda inspirava àquela luz inebriante.
_É claro que sabia. Na verdade foi um pouco vergonhoso, não acha? Dezenas dos meus, contra dois de vocês e olha onde estamos. – ele balançou a cabeça como se lamentasse depois deu de ombros.
_Não se importa com eles? São sua...
_Criação? – ofereceu-lhe a palavra. _É, são. Alguns são bons, Azazel foi um deles, outros servem ao seu propósito e é só. O que é um rei sem seus martelos? – Castiel não sabia o que dizer, então ficou quieto. _Veio salvar o garoto, não é?
_Suponho que não vai me deixar prosseguir. – disse Castiel seco. Lúcifer franziu o cenho parecendo confuso com a afirmação do anjo.
_É claro que vou. – ele fez um gesto singelo com a mão, Castiel ouviu a porta atrás de si se destravando e se abrindo numa greta para escuridão que era lá dentro. _Vá em frente, salve o menino, seja o herói. – Castiel o olhou desconfiado. Lúcifer não costumava fazer joguinhos com mentiras ou enganações, não precisava disso.
_Por que está fazendo isso?
_Considere um presente meu para minha querida filha, ela mereceu. – respondeu, Castiel levou um instante para descobrir que ele falava de Isabel. Olhou para além da fenda da porta entre aberta, depois se voltou para Lúcifer, mas ele já tinha ido.
... — ...
O sol começava a nascer atrás do horizonte. Um brilho dourado avermelhado começava a vazar entre as árvores e eu achava que o clima começava a ficar mais quente. Não podia saber, por que meu corpo parecia que iria entrar em combustão espontânea. Era agonizante o quanto eu me sentia queimar internamente, gotas de suor deslizavam na minha coluna, e o meu cabelo, sujo de lama e sangue, grudava na testa e nuca. E eu tentava a todo o custo não pensar em meu irmão.
Nunca tinha experimentado um fonte de poder tão grande. Tinha sido avassalador e magnífico. Eu pude sentir entre os dedos, ainda vibrando em meu corpo os resquício da essência que Miguel deixou em Dean. Foi como mergulhar em pura luz e energia. Energia essa que usei para curar Dean.
Foi doloroso empenhar toda a minha vontade e dor para que ele pudesse respirar de novo. Buscar a luz dentro de mim invocá-la para mim e através de mim. Pareceu que minha vida estivesse transcorrendo para Dean. Foi difícil me concentrar no poder que Lúcifer me concedeu. Mas o resultado era que meu coração pulava de alegria só por sentir o coração dele bater. Só de pensar me dava vontade de chorar em alívio e de culpa por ter feito ele passar por aquilo. Culpa por matá-lo. Nunca iria me perdoar e sabia que Sam e Dean também não podiam.
Sam estava carregando Dean para o carro com a minha "ajuda" Sam era alto demais para que ficássemos numa posição confortável para carregarmos um Dean desmaiado, e eu simplesmente não tinha força. Mas apesar disso coloquei um de seus braços em volta do meu ombro e agarrei a cintura dele com firmeza, mesmo que a cada passo parecia que deixava a minha força vital na pegada.
O pior trajeto já tinha sido feito. Agora estávamos a beira da estrada, atravessando... Uma dor explodiu na minha cabeça me obrigando a parar e deixar o corpo de Dean. Pressionei a mão na cabeça quando senti algo quente escorrer do nariz. Meus dedos tocaram a parte de cima do lábio e voltaram com sangue fresco. Sam já estava no meio da estrada e nem percebeu que tinha ficado para trás.
Tossi acima da dor que começava a se espalhar e olhei assustada para minhas mãos e braços, abaixo da sujeira eu podia ver o brilho dormente delas, alaranjado e dourado e ainda podia ver o mapa de veias abaixo da pele. Essa visão não durou muito. Meus olhos turvaram e eu tossi com mais força. Um gosto ferroso sentido na saliva, ficando mais forte até que cuspi meu sangue no asfalto.
Sam finalmente se virou para mim. Ele me olhou com os olhos arregalados, a indecisão visível entre deixar o irmão no meio do caminho e ir até mim ou continuar. Nunca saberia sua decisão pois já caia no chão dominada pela escuridão vertiginosa e queimando como se estivesse estirada no sol de verão.
... — ...
Quatro Dias Depois.
_Eu lembro de você. – o rosto curvado sobre o meu era curioso. Meu coração parecia um balão de gás de tão feliz que fiquei quando acordei e a primeira coisa que vi foi seu rostinho.
_Também lembro de você. – respondi brincando com a ponta do dedo em seu nariz. Queria tocá-lo para saber que era real, ele não se afastou, o que foi bom. Estava com os cotovelos apoiados na cama, uma cama de hospital. Então Sam nos trouxe para um hospital. Dei uma varredura com os olhos no quarto. Nada diferente de qualquer quarto de hospital, ao lado tinha um móvel com flores, margaridas em vaso e seu pólen irritava meu nariz. Tinha tubos de soro na minha veia, e outros fios conectados no meu peito medindo batimentos. Me perguntei quanto tempo estive ali e quão mal estava.
_Seus amigos são legais. O que me tirou da casa da bruxa disse que era um anjo, eu não acreditei nele, ele não tinha asas, mas aí ele desapareceu comigo e me levou para a casa do seu outro amigo Bobby, e o Sam me trouxe aqui, ele parece um gigante, ele disse para mim que você era minha irmã, é verdade? – disparou Jamie com um sotaque tão carregado e tão rápido que me deixou um pouco tonta.
_Hã, é verdade, achei que lembrasse de mim. – disse me ajeitando na cama para olhá-lo melhor. Ele estava do jeitinho que o encontrei em Oxford; os cabelos um pouco emaranhados ondulados e enrolando nas pontas, tinha uma coloração de chocolate meio amargo na luz do sol que vinha da janela, seus olhos acinzentados grandes e inquietos e cílios que sempre me causaram inveja, sempre achei um desperdício garotos terem cílios grandes.
_Eu lembro da minha irmã. Ela fazia biscoitos para mim e uma cabana de lençóis, mas... – ele olhou para baixo. _Achei que tivesse morrido, como o papai e a mamãe, foi o que me disseram por isso queriam que eu encontrasse um novo pai e uma nova mãe no orfanato da Sra. Martha. – senti meu coração afundar.
_Jamie – peguei sua mão, ele olhou para mim, os olhos brilhando. _Eu sou sua irmã, eu também não sabia sobre você até agora, se não teria ido te buscar. Mas agora acabou, não tem mais casa de bruxa, você vai ficar comigo e eu vou cuidar de você. – ele assentiu rapidamente. Sorri para ele, e foi quando reparei nas marcas avermelhadas em seu pulso e senti as pontadas de raiva. _Te machucaram? Você está bem? O que fizeram com você? – ele puxou o pulso de volta. Abaixou os olhos de novo.
_Eu estou bem. – disse levantando os olhos, dava para ver que ele tentava parecer corajoso. Assenti, provavelmente não era um assunto para se tratar agora.
_Tudo bem, está tudo bem agora, ninguém vai te machucar.
_Eu sei. Sam disse que não vai deixar. – sorri para ele. Aquilo era quase inacreditável, tanto que eu temia que tudo evaporasse e eu voltasse a minha realidade sangrenta e triste onde aquela criança não se encaixava.
_Se ele disse é verdade.
_Por que você está aqui? Quem machucou você? – perguntou ele olhando com um interesse infantil as maquinas que estavam conectadas a mim.
_Ninguém me machucou. Eu só fiquei um pouco doente, acho que peguei muita chuva. – respondi, ele me olhou desconfiado.
_Não é o que parece. – levantei uma sobrancelha para ele.
_Não?
_O médico disse que ia fazer uma ressonência em você, nunca tiveram que fazer uma ressonência em mim quando peguei chuva e fiquei doente, e você está machucada, olhe. – olhei para ele surpresa com sua perspicácia. E o garoto tinha razão, meus braços tinham alguns curativos espalhados.
_Tem razão, e é ressonância, espertinho. – ele não pareceu muito feliz com a correção, desviou o olhar de mim com as bochechas coradas.
_É, certo. Sabe não precisa se preocupar, o Sam não vai deixar te machucarem de novo. – disse ele como se falasse de um grande amigo ou um herói.
_Ele disse isso para você?
_Eu pedi para ele e ele disse que não ia deixar. – respondeu mexendo com o fio solto da minha coberta. E como se menção a ele não fosse o suficiente, Sam apareceu na porta.
_Oi. – disse ele trazendo um copo de café. Jamie olhou para ele e sorriu.
_Sam, eu disse para ela que você não ia deixar ela se machucar de novo, não é? – Sam olhou de mim para Jamie.
_É isso aí. Ei, amigão, por que não pega essa nota aqui e compra um refrigerante? – Sam levantou um dólar.
_Já entendi, conversa de adultos. – disse ele levantou da cadeira onde estava e indo para Sam, ele pegou a nota e com uma última olhada para mim e Sam saiu para o corredor.
_Meu Deus, Sam, ele é incrível. Inteligente, amoroso, corajoso, curioso. – falei animada me sentando na cama. Sam adentrou o quarto e parou perto da janela.
_É, ele é demais mesmo.
_Parece que você causou uma boa impressão no meu irmão. – meu irmão. Era tão bom falar isso sem senti um aperto no peito. Sam não respondeu, ele parecia distante olhando através da janela. _O que aconteceu? O Dean, ele está bem, não é?
_Dean está bem, ainda não acordou, mas aparentemente ele está bem, apesar dos médicos parecerem confusos com o estado de vocês. – toda a minha animação por causa de Jamie diminuiu dando lugar a preocupação que resistia em não sentir até agora.
_O que aconteceu?
_Miguel aparentemente está morto. As coisas pioraram muito nos últimos dias. – disse Sam sério.
_Ok, tudo bem. Quantos dias estou aqui?
_Quatro. – tentei não parecer assustada.
_Dean não acordou? – perguntei.
_Não, ainda, eu estou vindo do quarto dele... – uma batida na porta interrompeu Sam. O médico apareceu na porta com uma prancheta na mão.
_Senhorita Winchester, é bom vê-la acordada. – Winchester?
_É bom está acordada. – o médico se aproximou e começou a explicar o que achava do meu caso, de acordo com ele eu tinha sofrido um acidente de carro. O médico continuou falando mas minha mente estava presa em "Miguel aparentemente está morto. As coisas pioram muito nos últimos dias"
Depois que murmurei alguma resposta para o médico sobre ficar em observação ele saiu dizendo a Sam que só tinha cinco minutos. Os cinco minutos pareciam ter se passado e se transformado em horas enquanto o silêncio se arrastava por nós dois.
_Não me diga que estou num hospital por ter entrado em coma alcoólico em Vegas depois de me casar com você. – brinquei com ele, que continuava a encarar a janela, mas com um leve sorriso no rosto que tentava esconder.
_É o que estava escrito na sua identidade falsa, foi coisa do Dean. – justificou Sam. Assenti mesmo que ele não pudesse ver.
_Acho que te devo um caminhão de desculpas. – disse baixinho, ele tomou um gole de café e continuou a encarar a vista.
_Tenta algo mais para um porta aviões. – respondeu, apesar do tom brincalhão eu sabia que tinha muita coisa acumulada entre nós que deveria ser esclarecidas.
_Sam, eu queria...
_Tudo bem. – ele me cortou olhando para mim, não era um olhar duro ou severo, ele apenas... olhou para mim. _Eu entendo suas razões. E sei que Lúcifer tem certo... domínio sobre você, mas ainda está muito confuso para mim o que aconteceu. Na verdade eu não sei oque pensar, não sobre você, mas sobre tudo. – confessou Sam.
Me mexi na cama para tentar encontrar um melhor ângulo para falar com Sam, ainda estava um pouco tonta para movimentos extremos. Sam percebendo minha vertigem deixou o copo de café no móvel com flores e me ajudou a me acomodar nos travesseiros, sendo cuidadoso sempre. Como eu detestava ficar doente, na verdade eu nem sabia o por que estava doente.
_Precisa parar alguma hora. – disse para Sam ainda muito perto de mim na cama.
_Parar o quê? – perguntou ele afastando o rosto de perto do meu criando o que parecia quilômetros de distância entre nós.
_De ser legal comigo. – Sam me fitou por um instante e depois virou o rosto com um sorriso um pouco amargo atravessado nos lábios.
_Eu deveria te odiar? – foi uma pergunta, mas aos meus ouvidos soou como uma afirmação.
Abri a boca para falar, mas fechei em seguida, não queria falar nada, nem pedir nada. Então ficamos em silêncio, os segundos preenchidos com imagens do que já passamos juntos, do que dissemos um para o outro, e da nossa noite, onde Sam não teve que me roubar um beijo para eu ser sua. Não me arrependia de nada e me perguntava se ele se arrependia.
Por fim o doutor reapareceu na porta dizendo que o tempo acabou, Jamie ao seu alcanço com seu refrigerante de uva na mão. O chamei com a mão para me despedir.
_Ei, parceiro. Se cuida, tudo bem? – me inclinei na cama para falar em seu ouvido: _E cuide do Sam também. – ele assentiu rapidamente levando aquilo muito a sério. _Eu posso te dar um abraço? – pedi timidamente. Ele deu de ombros e esticou os braços para mim me dando um abraço do qual não queria me desvencilhar nunca.
O apertei contra mim sentindo que ele era muito real, capaz de costurar no peito uma ferida que eu nunca achei que iria cicatrizar. Afinal eu tinha uma família de novo. Meu pequeno Jamie. Quando desatei o abraço Jamie me olhou com o cenho franzido.
_Por que está chorando? – depois para o médico: _Por que ela está chorando? – sorri afastando as lágrimas de felicidade do rosto.
_Eu só estou feliz de você está aqui. – Jamie investigou meu rosto incerto.
_Então você não está triste ou sentindo dor?
_Não, não estou, estou bem. – ele concordou lentamente. Pensei em como tudo aqui deve ser novo para ele. Um novo país, uma irmã que até então estava morta, cercado de pessoas que ele nunca viu na vida e que disseram que iriam cuidar dele quando ele dividia um lar com um monte de outras crianças e nunca teve a atenção voltada para si. _Agora vai, preciso está melhor quando sair daqui, e aí podemos ir tomar sorvete. – com isso os olhos de Jamie brilharam e ele sorriu fazendo que sim com a cabeça.
_Ok, vamos lá baixinho. – chamou Sam da porta.
_Eu não sou baixinho. – reclamou Jamie para Sam. _Eu era o mais alto da minha idade na classe.
Com um último aceno os dois partiram.
...
Acaricie de leve seus cabelos um pouco desalinhados pedindo mentalmente para que estivesse tudo bem, para que visse outra vez o verde de seus olhos.
Não pude ficar no quarto sabendo que em algum lugar daquele hospital estava Dean. Então quando vi que o movimento estava tranquilo me esgueirei para fora do quarto e encontrei o quarto, não muito distante do meu. Agora estava ali à quase meia hora, ouvido sua respiração baixa e os bipes dos aparelhos ligados à ele.
Depositei um beijo na sua testa, sua pele em meus lábios estava quente assim como a minha. Volta para mim. Sussurrei em seu ouvido atando sua mão na minha.
_Acho que você literalmente quebrou meu coração. – sua voz fraca e muito baixa respondeu. Levantei o rosto e olhei para ele. Dean estava do mesmo jeito, imóvel, de olhos fechados e por um momento achei que a sua voz fosse coisa da minha imaginação, a febre falando, porém o aperto de seus dedos em minha mão me dizia o contrário. Um sorriso involuntário se espalhou em meu rosto. Me inclinei de novo para sussurrar em seu ouvido.
_Isso foi o troco por ter roubado o meu. – um esboço de um sorriso incitou os lábios de Dean, leve e quase imperceptível, mas estava lá antes da porta se abrir.
_Srta. Winchester, não deveria está aqui. – disse o médico, o mesmo de antes.
_É, eu sei. Eu só queria vê-lo, eu já vou voltar para o quarto. – falei olhando para Dean. _Sabe, ele acordou, não acordou exatamente, mas falou comigo, acha que ele pode... – parei de falar quando vi a cor de seus olhos.
_Como eu disse, não deveria está aqui. – disse o demônio trancando a porta atrás de si. Meu corpo enrijeceu. Ainda estava me sentindo doente e sem a menor condição de uma luta corpo a corpo. Olhei para Dean na cama, inconsciente e quieto, totalmente alheio.
Me levantei da cadeira sentindo algo explodir em mim como faíscas de raiva e força. Se ele estava ali iria machucar Dean, não deixaria isso acontecer. Coloquei as mãos em punhos ao lado do corpo. Tinha que dar um jeito de afastá-lo de Dean, tira-lo do quarto.
_Lúcifer te mandou aqui? – perguntei dando alguns passos parando corajosamente à sua frente. O demônio riu. Não esperei uma resposta, não tinha tempo para isso. Puxei o punho para trás aplicando força quando o levei para frente atingindo seu estômago.
O corpo dele se curvou com a força do golpe. O próximo movimento me ocorreu involuntariamente, como o reflexo de um boxeador em uma luta, ou o de um caçador quando via o perigo. Apenas minha mão guiar-se para sua garganta e transformasse a febre em luz.
A luz transcendeu em meus dedos iluminado o rosto do demônio que gritou de dor agarrando meu pulso. Em uma escala de dez a zero minha temperatura subiu à doze. Tinha alguma coisa errada, fagulhas de dor penetraram minha cabeça e percorram o corpo inteiro que achei que estivesse em chamas.
Larguei o demônio e olhei assustada para minhas mãos. Acontecia de novo. Parecia que eu era a capa de um abajur, onde não se via a luz crua e pura apenas sua iluminação atenuada pelo tecido fino. Eu conseguia ver minhas veias, onde a pele era translúcida e parecia queimar tentando conter a luz dentro de mim.
Um ponto de cor me chamou a atenção no piso branco do quarto; pequenas gotas vermelhas. Sangue, meu sangue caía em gotas no chão. Uma rápida checagem e descobrir que a fonte era meu nariz e... olhei chocada para o minha imagem refletida no vidro acima da porta.
Meu rosto estava sujo de sangue, a pele ali também era translúcida e acesa com um brilho fraco em dourado. O que mais assustava não era parte das minhas veias entalhadas a carne do rosto serem expostas e sim o rastro de sangue na minhas bochechas como um rio vermelho. Como lágrimas de sangue.
Passei a ponta dos dedos espalhando o sangue. Freneticamente tentei limpar o sangue do nariz e bochechas, o que consegui foi deixar meu rosto mais vermelho em sangue.
A iluminação nele foi se apagando aos poucos o tornando de novo alvo e sardento. O que está acontecendo comigo?Um ruído vindo do chão me colocou de volta a realidade. O demônio se contorcia tentando se levantar. Antes que ele conseguisse isso, tateei a porta — ignorando a dor com meus últimos esforços — e encontrando o trinco, destranquei e girei a maçaneta.
Meus instintos me diziam para correr, mas continuei parada a soleira da porta esperando o demônio. Tinha que ter certeza que ele me seguiria para fora do quarto. E foi isso que vi em seus olhos negros como piche, ele estava com raiva, me seguiria até o inferno. Com uma última olhada em Dean não esperei mais, saí em disparada pelo corredor silencioso.
Meus pés descalços não faziam muito barulho no piso polido. Agulhadas de frio se infiltravam em meus pés fazendo o meu corpo tremer com a súbita mudança de temperatura. Eu podia ouvir o demônio ao meu alcanço, rápido e cada vez mais próximo.
Com o ombro abri a porta de vai e vem no final do corredor e saí numa salinha. Parei ofegante olhando em volta para encontrar a saída. Não tinha ninguém ali, a não ser o corpo caído de uma mulher atrás do balcão da recepção; garganta cortada.
Vendo uma porta fui para ela, imaginando se daria no elevador ou escada. Assim que minhas mãos encontraram o puxador, algo me puxou para trás. O punho do demônio agarrou a minha camiseta branca e me jogou contra a parede próxima fazendo o ar ser expulso dos meus pulmões.
Engasguei me curvando para frente em busca de ar. O demônio sorriu para mim. O médico era jovem, talvez na fase dos trinta, tinha uma boa altura e um bom físico. O jaleco branco contrastava fortemente com os olhos totalmente pretos. Ele ia chegando mais perto, cerrei o punho e tentei lhe acertar um soco. Meu golpe foi interrompido a centímetro do seu rosto.
Sua mão fechada no meu pulso serviu de alavanca para ele me impulsionar para trás. Meus pés perderam contato com o chão por um instante e ficou no ar quando o corpo do demônio me amparou. Ele sorriu, um sorrido frio e brincalhão.
_Que gracinha você é. – disse ele inspirando o ar do meu pescoço. Meus pulsos estavam presos em suas mãos e ele formava uma redoma em volta de mim, mal me deixando espaço para respirar ou me mexer. Virei a cabeça contra parede quando seus lábios molhados deixarem um rastro de saliva na minha clavícula. _Sabe eu sinceramente achei que iria fritar naquela hora, os outros me alertaram sobre isso, mas olha só você, apenas uma garotinha indefesa. Eu vou adorar brincar com você um pouquinho antes de te matar.
Ele deixou um dos meus pulsos para enterrar os dedos em meu queixo me forçando a olhar para ele. O demônio tinha razão, agora era só uma garotinha indefesa, seja lá o que aconteceu comigo eu não conseguia sentir a luz como algo bom, manso e energético como antes, agora era apenas dor como se minhas células pegassem fogo. Não entendia. Deixei que o demônio segurasse a minha cintura e levantasse o tecido da blusa infiltrando os dedos embaixo dela.
_Você cheira a anjo. – murmurou antes de sua boca se atar a minha. Sentia bile subi a garganta. Seus lábios eram duros e molhada, e por mais que tentasse me soltar ele era forte demais. Então usei o membro que podia, mordi com força total seu lábio. Meus dentes se prenderem a carne do seu lábio inferior, o sangue amargo invadiu minha boca. Ele puxou a cabeça para trás e com isso consegui o mínimo de espaço e distração.
Puxei o joelho para cima acertando o meio de suas pernas, depois usando as mãos em seu peito o empurrei para trás, ele cambaleou e com o outra carga de adrenalina chutei sua barriga, o pé descalço sentindo os músculos duros do seu abdômen. Como último golpe ele caiu para trás, o corpo atingindo a mesinha de centro. O tampo de vidro rachou e se estilhaçou fazendo o barulho ecoar pelo recinto vazio.
Não perdi tempo para ver o que aconteceria a seguir, empurrei a porta entrando em outro corredor, no final dele se via o começo de uma escada. Corri pelo corredor estranhando muito o silêncio de tudo. Parei bruscamente, meus pés derraparam no primeiro degrau. Tinha um corpo morto no final do primeiro lance e tinha um homem em pé perto dele. Ele vestia um terno preto e limpava tranquilamente os dedos num lenço branco, a pele morena destacando-se no tecido, ele levantou o olhar para mim.
_Parece que tivemos a mesma ideia. – comentou lançando o um olhar seco para o morto, agora tive a chance de reparar que não tinha sangue manchando sua mãos nem nada. O fator assustador, é claro, era que os olhos do homem caído tinham sido queimados nas órbita.
_Meu Deus. – minha voz foi um murmúrio assustado.
_Deus? Bem, ele deve está muito bravo com você. Não pode matar Miguel e sair impune. Comprou uma briga feia com o céu Srta. Corand. – disse o que agora estava confirmado ser um anjo. Ele subiu um dos degraus, lento e gracioso, depois outro, e um terceiro. Sabia que deveria fazer alguma coisa, não tinha a ilusão de que conseguiria correr e escapar, mas deveria pelo menos me mexer e não ficar congelada ali.
Um barulho foi ouvido vindo da recepção, barulho de coisas se quebrando, barulho de uma luta. Meus pensamentos logo se voltaram para Dean. Será que ele acordou e encontrou o demônio? O anjo estava a poucos degraus de mim. Finalmente consegui dar um passo regredindo.
Meus pés me guiaram um pouco para trás e com um instando irracional virei e comecei a correr de volta para a salinha, se Dean estava lá poderíamos sair dessa juntos. Por que que minha vida se resumia entre lutar por ela com demônios e anjos? Isso começava a me cansar, de verdade.
A porta que ia ficando cada vez mais próxima se abriu, o que vi fez meu coração saltar, nem tive tempo de processar a informação quando ele gritou:
_Abaixa! – assim fiz, me joguei para frente caindo sem jeito no chão frio quando uma adaga passou por cima da minha cabeça tão veloz que foi só um borrão prateado. Ouvi um grito atrás de mim, olhei para trás e o anjo estava caído, a adaga no ombro direito. Um palavrão soou em alto e bom som do fim, ou começo, do corredor.
_Anda, princesa, levanta! – gritou Steve. Fiquei de pé com um pouco de custo e recomecei a correr. Estava perto da porta onde Steve me esperava mantendo-a aberta. Um dos meus pés não obedeceu o comando do meu cérebro, ou melhor, fui interrompida quando uma mão se fechou no meu tornozelo. Gritei, meu corpo foi impulsionado para frente e usei o único segundo disponível para projetar as mãos para chão amortecendo um pouco a queda.
O toque no meu tornozelo somado a queda enviou uma onda de choque em meu corpo pulsando em adrenalina. O anjo avançava para cima de mim como um falcão na presa. Observei quando ele arrancava a adaga do ombro sem a menor cerimônia, a ferida lançou raios de luz sobre mim cegando-me momentaneamente, a adaga foi erguida. Rolei para o lado no exato momento em que o metal bateu furiosamente no chão, a centímetros da minha cabeça, provocando um som de estalico alto.
Ergui o cotovelo e o lancei para seu pescoço, ele não se abalou, por isso cravei os dedos na sua ferida o empurrando de cima de mim. O anjo se moveu para o lado me dando a chance de rolar no chão e tentar de novo me levantar. Quando consegui ele já estava de pé, uma muralha de preto na minha frente. O anjo ergueu a adaga de novo, abaixei a cabeça e a lâmina se enterrou no gesso da parede atrás. O anjo largou a adaga à parede e voltou a atenção para mim que tentava cambalear para longe.
Ele avançou para cima de mim, seu corpo se chocou contra o meu me jogando no chão onde seu peso me esmagou. Esse anjo parecia mais selvagem quanto aos que já enfrentei, ele usava o corpo, lutava com uma gana mais cruel e nem tão graciosa, por isso ele me maltratou com um tapa forte no rosto. Vi estrelas.
Um brilho rápido da adaga acima de suas costas me fez notar Steve atrás dele, e notei também que era a primeira vez que via seus olhos totalmente negros, já o cabelo em um emaranhado de fios dourados. Ele parecia um anjo vingador. A lâmina desceu e cortou o ar quando com um movimento de mão o anjo lançou Steve para trás, tão forte que seu corpo quando atingiu a parede rachou o gesso.
_Espere a sua vez demônio. – rosnou o anjo. Voltando sua atenção para mim ele enganchou os dedos em meu queixo. Veio uma pressão abalou até meu cérebro e depois a única coisa que percebi foi a dor insuportável. Gritei como se o mundo dependesse disso. A luz do anjo me cegou e eu fechei os olhos maltratando minha garganta com gritos de dor...
Uma luz mais forte brilhou, outro grito, não o meu, o do anjo e daí o aperto sumiu junto à luz. Abri os olhos devagar, testando a claridade. Primeiro encontrei Steve se levantando e tirando o pó de gesso da jaqueta, mais para o lado via um sigilo pintado na parede e o desenhista; Sam.
Ele correu e se ajoelhou ao meu lado. Ainda sentia os resquícios da dor no peito. Sam olhava para meu rosto com olhos ansiosos e depois para meu corpo.
_Você se feriu? Está bem? – perguntou segurando meus ombros.
_Estou bem. – respondi, levantando com sua ajuda.
_Eu estou bem também, obrigado por perguntarem. – disse Steve. Ele parou ao lado de Sam e olhou para ele, os olhos voltaram cor original, esverdeados com tons dourados. _Ei, estou começando a achar que formamos um bom trio. – Sam o ignorou. _Ah, que isso, foi por causa do cabelo? Aquilo foi uma piada cara, não precisa me dar um gelo, eu só... – dessa vez a reação de Sam não foi tão sutil assim. Num movimento rápido ele já imprensava Steve na parede com a faca que mata demônios encostada na sua garganta.
_Quem é você? Por que está aqui? – segurei o braço de Sam, começando a ficar nervosa.
_Sam, está tudo bem. – o braço de Sam não cedia nem um pouco ao meu esforço de tentar puxá-lo para longe de Steve.
_Ouça a garota Sam, estou aqui para ajudar. – Sam não cedeu.
_Não, eu não confio em você.
_O sentimento recíproco. Escuta, se eu quisesse machucá-la já teria feito, se quisesse matar seu irmão ele estaria agora com um travesseiro na cara, se quisesse matar você já estaria no chão. Agora que vê que minhas intenções são puras que tal abaixar essa faquinha. – disse Steve com um sorriso amigável desenhado no rosto.
_Sam, por favor, temos que ir ver o Dean, ele pode está em perigo. – apelei puxando sua jaqueta. Sam olhava para Steve com uma fúria controlada, tinha certeza de que o que ele mais queria era enfiar aquela faca na goela do demônio irritante.
_Eu não vou machucar sua garota. Podemos fazer o juramento do dedinho se você quiser, mas tem que baixar essa coisa primeiro. – com um olhar mortal Sam soltou Steve.
_Se tentar alguma coisa, se pelo menos pensar em tentar alguma coisa, eu mato você. – Steve respondeu com um de seus sorrisos usuais.
_Acredito em você. – disse dando um soquinho no ombro de Sam. Arrastei Sam para longe de Steve antes que os dois se esfaqueassem.
_Desculpa perguntar, mas o que faz aqui? – perguntei a Sam intrigada.
_Esqueci meu celular no quarto do Dean.
_E Jamie?
_Com Bobby. – assenti aliviada. Queria o garoto longe de qualquer loucura como aquela. Um barulho chamou nossa atenção, passos barulhentas nas escadas.
_Vamos, temos que tirar Dean daqui. – disse Sam atravessando a porta. Fui atrás, Steve segurou meu braço me puxando para trás. Olhei para ele interrogativa, ele apenas apontou para baixo. Estava preste a perfurar meu pé com cacos de vidros enormes. Me voltei para ele assentindo em agradecimento, ele só sorriu. Estranhamente Steve sorria bastante. De alguma forma aquilo me lembrava Adam e seus sorrisos soltos e encantadores. Afastei o pensamento rapidamente e contornei a salinha tomando cuidado.
Sam já entrava no quarto de Dean. Contornei o corpo do demônio que Steve matou e tratei de seguir Sam. Tentei entrar e senti de novo a mão de Steve no meu braço me impedindo. Sam olhou para nós e eu olhei para Steve.
_Vamos atrasa-los, faça o que tiver de fazer e rápido. – respondeu ele.
_Não, não vou perdê-la de vista. – respondeu Sam.
_Vocês dois, dá para pararem de falar de mim como se eu não estivesse aqui. – reclamei. _Tudo bem Sam, vou com ele, e vou ficar bem. – antes que Sam protestasse saí do quarto com Steve atrás de mim.
O barulho agora ficava mais forte e estava mais perto. Apertei os punhos e me preparei para o que viesse. Encarei a porta dupla sentindo a ansiedade e medo revirarem meu estômago. Sabia que a única coisa me mantendo de pé era a adrenalina disparada nos últimos minutos. Mesmo fitando o corredor através do quadrado de vidro acima da porta sentia os olhos de Steve cravados em mim.
_O quê? – perguntei não desviando o olhar. A resposta dele foi apetar a mão em volta do meu pulso. Tentei me livrar dele, mas era como tentar se soltar de grilhões de ferro. _Mas o quê...
_Não consegue sentir? – perguntou me encarando com o cenho franzido e erguendo meu pulso.
_Sentir o quê? – perguntei ríspida.
_Eu não sinto nada, não sinto você. Você parece um... anjo, é como se estivesse... limpa. – só olhei para ele entendo o que queria dizer. Tinha razão, eu não sentia mais a conexão energética do sangue de Lilith com os demônios. _Crowley não vai gostar disso.
_Não me importo com o que o Crowley goste ou não. – respondi. _Agora pode me soltar, já provou seu ponto. – ele fez totalmente o oposto, me puxou para si envolvendo o braço em volta de mim com minhas costas contra seu peito, com uma mão tapou minha boca. Tentei me soltar, mas ele só me apertou mais, meus gritos foram abafados pelos seus dedos me prendendo com força.
_Calma, princesa, vai acabar logo. – disse no meu ouvido, sua respiração quente soprando meu cabelo. Só vi o vislumbre de uma injeção antes da agulha se enterrar no meu braço. Seja lá o que tivesse ali fez efeito imediato.
Meu corpo foi tomado por uma tonteira e minha visão ficou turva. Minhas pernas cederam e Steve me pegou no colo, se quisesse gritar essa seria minha chance, mas por algum motivo eu não conseguia formar o som. Duas silhuetas dançantes apareceram na porta antes do blackout me sugar para longe...
... — ...
Sam já estava mais calmo. Ele tinha passado a última hora se martirizando por ter deixado Isabel sozinha com o demônio. Ele teve de empurrar a maca de Dean pelo hospital inteiro tentando achar Isabel — o curioso era que todos estavam desmaiado ou quase isso, com certeza foi obra do anjo — Depois de constatar que não tinha mais nenhuma viva alma no hospital ele pôs o irmão no carro e dirigiu para casa do Bobby.
Apesar de ainda está muito ferido por causa de Isabel tinha tomado como dever cuidar dela, se não fosse por ele pelo irmão, e ele falhou miseravelmente, por que de novo confiou em um demônio. Quando vai aprender Sam?O pior de tudo foi ter de tentar explicar para Jamie o que aconteceu, ele é claro não contou a verdade, disse apenas que Isabel teria de ficar mais um pouco no hospital.
Ele gostava do garoto, logo de cara se deram bem, talvez Jamie lembrava ele quando criança, curioso, cheio de perguntas e inteligente. E ele tinha traços bem semelhantes com Isabel, como os olhos grandes e cabelo em ondas e aspirais. Ele disse uma vez quando encontrou o menino assustado na casa de Bobby, disse que ia protegê-lo e disse que nada de mal ia acontecer com ele ou Isabel. Sam começava a pensar que talvez fosse uma má ideia encher a cabeça do menino com essas certezas, afinal ele não conseguiu proteger Isabel.
Agora estava esparramado numa cadeira ao lado da cama de Dean, pensando amargamente que seria melhor que o irmão dormisse mais por algum tempo até que ele resolvesse tudo. Ele já sabia por onde começar, ou melhor por quem começar.
Levantou da cadeira sentindo os membros estalarem, caminhou para a porta e parou quando ouviu alguma coisa. Dean acordava, Sam voltou para perto da cama e viu seu irmão abrir os olhos. Sam sentiu uma onda de alívio.
_Ah, graças a Deus.
_Não, nem me fale desse desgraçado. – resmungou o irmão com uma voz rouca fazendo uma careta e colocando a mão no peito. Dean tentou levantar, Sam o empurrou gentilmente de volta.
_Vai com calma. – Sam se apressou a pegar o jarro com água em cima do móvel ao lado e encher um copo pela metade. Ele ofereceu ao irmão. Dean pegou o copo e tomou um gole, engasgou um pouco e depois devolveu o copo para Sam.
_Onde ela está? – perguntou levantando um pouco o tronco, Sam tentou ajudar mas Dean o dispensou com um abano irritado. _Isabel, ela está bem? – Sam sentiu a garganta secar.
_É, sim. Está dormindo agora. – mentiu torcendo para parecer convincente. Dean olhou para Sam longamente.
_E você, está bem? – Sam se espantou um pouco com a preocupação na voz do irmão.
_Eu? Estou bem. – Dean assentiu e mudou a posição na cama ficando sentado nela de frente para Sam. Ele olhou em volta reconhecendo o lugar.
_Por que estou na casa do Bobby? – questionou.
_Achei que fosse mais seguro. – respondeu Sam com a meia verdade. _Como está se sentindo?
_Como se tivesse sido atropelado por um planeta, é assim que me sinto. – Sam assentiu. A testa de Dean brilhava com suor e ele estava um pouco corado. Sam levantou e colocou a mão na testa do irmão, constatando sua temperatura antes de Dean desviar de seu toque irritadiço.
_Você está quente. – declarou Sam.
_Não do jeito sexy? – replicou Dean com um sorriso fraco.
_Não, do jeito que parece que foi infectado com dengue, gripe suína e malária ao mesmo tempo. – falou Sam olhando preocupado para rosto pálido e abatido do irmão.
_Hum, eu ainda me sinto sexy. – Sam lutou contra o impulso de revirar os olhos. Ele abriu a primeira gaveta da cômoda.
_Só fica quieto, está bem. – pediu.
_Ok, enfermeira. – Dean apoiou as costas na cabeceira da cama. _Desde quando invertemos os papéis? – comentou observando o irmão mais novo revirar as gavetas. Dean se sentia tudo menos sexy, Sam tinha razão parece mesmo que ele tinha sido atingido por três doenças diferentes.
O que o incomodava mesmo era o calor por todo o corpo. Assim que abriu os olhos ele sentiu como um bafo de um dragão o calor emanando do corpo. Era uma febre, mas parecia mais, estava em suas veias, ele podia sentir mais do que a dor dormente no peito.
Lembra-se bem do toque de Isabel, sua consciência vacilava naquela hora, mas o primeiro lance de qualquer coisa que ele sentiu foi Isabel, a voz dela flutuando para ele o fazendo sorri ainda que estivesse quase inconsciente...
Sentiu a dor pelas suas mãos e o despertar pelas mesmas.
_Desde quando você se apaixonou pela Viúva Negra. – respondeu Sam. Dean franziu o cenho.
_Parece pior quando você diz. – comentou com a voz fanhosa. _Se bem que não seria mal vê-la naquele uniforme apertado. – emendou com um sorriso sacana se alastrando no rosto. Ele estava febril, não pensava direito, mas sentia falta do corpo de Isabel, não o sexo, mas sua presença. Dean parecia ter voltado a vida depois do que pareceu meses desacordado.
_Você é inacreditável. Acabou de voltar da vila dos mortos e ainda está de cama, mas mesmo assim consegue pensar em sexo. – Dean sorriu para Sam. Ele se sentia melhor só de saber que Sam estava bem e continuava o mesmo pé no saco de sempre.
_Penso em sexo especialmente quando estou na cama, Sammy. – Sam balançou a cabeça sorrindo. Finalmente encontrou o que procurava. Dean olhou para o objeto e levantou as sobrancelhas. _Ei, onde pensa que vai enfiar essa coisa?
_Meu irmão, tem muita coisa que eu faria por você, mas essa não é uma delas. – disse Sam sacudindo o termômetro.
_Nem se minha vida dependesse disso? – provocou Dean.
_Por que sua vida dependeria de... – começou Sam, mas suspirou tentando não dar corda as besteiras do irmão. _Se sua vida dependesse disso, estaria preparando a madeira para seu funeral. – Dean riu com a resposta do irmão.
_E esse é o espirito dos irmãos Winchester. – disse Dean sentindo-se zonzo e sonolento.
_Só, cale a boca. – Sam se aproximou de Dean tentando colocar o termômetro em sua boca, o mais velho se afastou e arrancou o objeto da mão de Sam.
_Onde será que Bobby enfiou isso? – questionou Dean muito preocupado com a possibilidade.
_Dean... – começou Sam.
_Não vou colocar esse troço na minha boca. – protestou Dean segurando o termômetro na ponta dos dedos.
_Ele é novo, eu comprei, agora coloca logo essa droga na boca. – Dean lhe lançou um olhar desconfiado depois outro para o cilindro. No fim obedeceu o irmão. Sam tinha mentido, ele não comprou o termômetro, foi Bobby que ofereceu a ele quando chegou com Dean, na ocasião o irmão não estava tão quente.
_Sam, – chamou Dean com a voz contida pelo aparelho preso na boca. Sam encarou o irmão esperando. _Eu em lembro, está tudo embaralhado agora, mas me lembro de algumas coisas. Eu quero dizer que...
_Não precisa. Agora não, conversamos depois. – cortou Sam. Tinha uma tonelada de coisas a se resolver com Dean, mas ele deixaria para depois. Dean olhou para ele por um instante, depois fez que sim com a cabeça. Deixaria para depois.
... — ...
Talvez Bela Adormecida tenha se sentido assim quando despertou do sono eterno; amedrontada, aliviada por ter despertado depois de muito tempo e confusa, muito confusa.
Meu príncipe em questão não vestia uma armadura e sim uma jaqueta de motociclista e estava mais para vilão. Estava numa cama um pouco dura, num quarto pequeno e simples; as paredes eram brancas, tinha um pequeno armário de madeira escura num canto com um biombo ao lado estampado com desenhos geométricos e coloridos nele — a única coisa colorida — do outro um espelho de corpo inteiro. Uma segunda porta, uma mesa pequena dobrável de madeira. Ao lado da cama uma cômoda também escura e Steve sentado numa poltrona branca lendo uma revista, a Vogue se não me enganava. Ele baixou a revista quando percebeu que tinha acordado. Sorriu radiante.
_Bom dia raio de sol. – cumprimentou.
_Onde estou? – perguntei.
_Num quarto. – respondeu Steve. Respirei fundo para não voar em cima dele. Sentei na cama me arrependendo do movimento brusco, senti as coisas girarem ao meu redor. Quando se estabilizou afastei o cabelo do rosto, o cabelo que não era meu. Coloquei as duas mãos na cabeça sentindo os fios; escorridos e macio. Olhei para baixo e as calças de hospital tinham sumido, no lugar tinha paetês costurando no tecido de um vestido minúsculo e apertado.
_Mas que p...
_Aqui diz que brilho está voltando com tudo. – Steve levantou a revista.
_O que significa isso? – perguntei a beira da histeria. Levantei da cama sentindo-me nua. Fui até o espelho e arfei com a surpresa.
O vestido era curto e apertado e com paetês pretos, decote coração e alças finas. O impressionante mesmo era oque fizeram com meu cabelo e rosto. Estava maquiada, bem maquiada, sombra clara e cintilante, mas sutil, delineador e máscara de cílios, o rosto coberto por base, pó e blush, e para arrematar um batom vermelho com uma textura aveludada. Toquei meus lábios entorpecida, quase não me reconhecia. O cabelo era outra coisa para se abismar, não tinha nem sinal de onda, ele caía como seda preta na lateral do rosto, o corte perfeito batendo um pouco abaixo do ombro.
_Oh, meu Deus. Diz para mim que você não é um demônio psicopata que sequestra garotas levando elas para motéis e depois as veste como prostitutas pra mata-las em seguida. – ele riu.
_Engraçada e gostosa. Meu tipo favorito. – comentou esticando os pés na cama ignorando completamente meu pequeno surto. _Me diz, como foi que uma garota inglesa veio parar aqui, entre anjos e demônios na América?
_Eu tenho um visto. – respondi me arrependendo da resposta no instante em que ela saiu. Assim como esperado Steve riu de novo.
_Por que não experimenta os sapatos. – sugeriu.
_Por que você não vai se...
_Crianças, se divertindo? – perguntou uma terceira voz. Dei um pulo quando percebi Crowley atrás de mim.
_O que eu estou fazendo aqui, Crowley? – perguntei.
_Pense que você é uma arma, um novidade no mercado que promete fazer maravilhas, mas ninguém viu essa arma, as pessoas começam a se perguntar como é, se existe mesmo, e se é tão poderosa quando dizem. Hoje será seu primeiro desfile pela feira, encare hoje como uma oportunidade única de ganhar mais seguidores. – explicou.
_Mas... para onde nós vamos? – perguntei alternando entre Crowley e Steve.
_Um lugar especial, não fica longe. E já estamos atrasados, é melhor irmos. – respondeu Steve.
_Não vou a lugar nenhum com você. Me drogou e me trouxe para... para esse lugar e me colocou nessa roupa ridícula... aliais você me colocou nessa roupa? – Steve deu seu famoso sorriso torto. Senti a sensação febril no meu rosto aumentar. _Isso é... meu Deus. – Steve riu.
_Fica uma graça quando está vermelha. – falou Steve numa voz melosa. Virei o rosto para Crowley.
_Não posso fazer isso, Dean e Sam...
_Eles vão ficar bem sem você. Aposto que daqui a pouco estarei num pentagrama com Alce me apontando aquela faca. – disse Crowley.
_Você são loucos, não vou a lugar nenhum. – Steve suspirou.
_Foi você que quis se promover, princesa, agora faz seu papel, não precisa fazer muito. E eu vou está lá o tempo inteiro. – tentou Steve.
_Eu realmente não posso ficar.
_But, baby it's cold outside... – completou Steve cantando, usando a letra de um dueto que dá nome a frase. Revirei os olhos perdendo a paciência. Crowley olhou de mim para Steve.
_Crowley, eu não sei se notou, mas estou doente, seu garoto de recados me sequestrou em um hospital. Não estou no clima para festas ou sei lá oque. Então sugiro que me leve embora daqui agora. – disse em tom ameaçador.
_Mas você parece ótima. O tom pálido realça seus olhos. – respondeu. _Mas o que houve com você? Parece que acabou de sair de uma orgia com Anjos. – perguntou Crowley com o cenho franzido olhando para mim como Steve me olhou quando tomou meu pulso. Queria muito saber o que eles enxergavam que eu não conseguia ver no espelho.
_Eu...
_Tenho que ir, estou recebendo uma chamada. Mandarei lembranças a Sam. E crianças, se comportem.
_Crowley... – mas ele já tinha ido. Bufei de frustração.
Steve se levantou e espanou a poeira invisível do jeans que vestia. Ele também parecia pronto para uma festa; Estava vestindo uma camiseta branca de gola V, jeans escuros e a mesma jaqueta de couro de quando o conheci, o cabelo loiro estavam alinhados e controlados atrás da orelha. Pela primeira vez vi o corpo que Steve possuía com outros olhos, era um rapaz bonito sem dúvidas, tinha uma coisa selvagem e rebelde. Seria atraente se não soubesse que era só um corpo morto tomado por uma criatura terrível e irreparável. Ele notou meu olhar e sorriu com um acanhamento forçado.
_Não olhe para mim assim, fico tímido. – desviei os olhos pedindo aos deuses para não está vermelha. _Ah, olha para isso, acho que já disse que fica uma gracinha vermelha.
_Para onde vamos? – perguntei ansiosa para mudar de assunto.
_Isso é surpresa, princesa. Têm cinco minutos para se recompor. – disse ele olhando seu relógio imaginário. Suspirei e apanhei as sandálias perto do espelho.
Eram pretas de tiras com pelo menos 15 centímetros de salto. Se em melhores condições eu não saberia andar direito num salto daquele tamanho agora então tinha certeza que iria morrer com o pescoço quebrado numa calçada. Sentei na beira da cama de costas para Steve para colocar os sapatos.
_Ei! – chamou Steve.
_O que é? Têm uma meia arrastão para complementar o visual vadia? – perguntei ríspida. Mesmo sem vê-lo sabia que estava sorrindo.
_Eu quis dizer "Ei, olhe para cá". – obedeci com um suspiro. Ele sorria mostrando um par de coturnos na mão esquerda. _Talvez não combine, mas achei que fizesse mais seu estilo, na verdade não queria andar com você por aí tropeçando o tempo inteiro. – o encarei sem saber o que dizer sobre aquilo. Ele fez um gesto com a mão como se para me impedir de falar. _Eu sei, não precisa dizer, sou seu demônio favorito. – qualquer empatia que tenha sentido por ele naquele momento desapareceu. Levantei e arranquei as botas de sua mão sem dizer nada.
... — ...
O interrogatório não persistiu por muito tempo. Além das gracinhas de Crowley ele lhe deu a informação de que Isabel estava bem e que voltaria intacta. "Não se preocupe Alce, sua princesa vai está de voltano castelo antes da meia noite." Foi o que Crowley disse. Sam não podia fazer nada a não ser esperar e confiar na palavra de Crowley. Mas quis simplesmente matá-lo com a faca no momento em que ele apareceu no pentagrama, mas se controlou por saber que isso provavelmente não ajudaria em nada, pelo contrário.
Antes da meia noite. Ele só tinha de esperar umas 7 horas de mãos atadas e com a preocupação crescente a cada hora. Odiava se sentir assim, apreensivo, ansioso, como se sentiu quando estava em Buford, amarrado àquela cadeira sem saber sobre o irmão nem Isabel. Bobby colocou uma garrada de cerveja na mesa à frente o arrancando do devaneio.
_Como está seu irmão? – perguntou Bobby. Sam tinha ido verificar Dean na última hora, o irmão estava dormindo, dormiu com o termômetro ainda na boca marcando 40 graus.
_Queimando de febre. – disse Sam sem força na voz. Estava cansado, muito cansado.
_Podemos tentar um banho gelado. – sugeriu Bobby.
_Não, é melhor esperar baixar, pode causar um choque térmico.
_Castiel? – tentou o caçador de novo.
_Não acho que iria ajudar muito. – confessou Sam, já tinha pensado nisso antes. Bobby assentiu para Sam que encarava a garrafa de cerveja intocada com interesse desnecessário.
_E você?
_Eu o quê? – perguntou Sam olhando para o caçador mais velho.
_Como você está, Sam? – Sam abriu a boca para responder que estava bem, mas sua mente buzinava para ele dizendo que aquilo seria uma bela de uma mentira. Não estava bem, se sentia traído, usado, esgotado, e aterrorizado com a possibilidade de seu irmão não melhorar e Isabel simplesmente...
_Não vai tomar essa, vai Sam? – perguntou Dean assustando tanto Bobby quanto Sam. _Não me olhem com essas caras, eu estou bem, ok. – Sam observou quando Dean tomou a cerveja da mesa e se recostou na bancada da pia. Abriu a garrafa com a mão, numa facilidade que Sam nunca adquiriu. Seu irmão tinha tirado a roupa de hospital, agora vestia jeans e camisa preta, o cabelo estava um pouco desgrenhado e molhado. Sua aparência estava um pouco melhor, talvez Bobby tivesse razão, o banho gelado poderia ter feito bem. Dean tomou um gole da cerveja e depois encostou a garrafa gelada na testa.
_Deveria está na cama, Dean. – censurou Sam.
_Seu irmão tem razão, à uma hora poderíamos fritar um ovo na sua testa. – completou Bobby. Dean suspirou e afastou a garrafa da testa, uma gota de água escorreu pela lateral de seu rosto um pouco ruborizado.
_Eu estou bem, está legal. Me sinto ótimo, um pouco quente, mas estou bem. Na verdade estou morrendo de fome. – disse Dean procurando alguma coisa nos armários atrás dele. Achou um pacote de batatinhas e parou no meio do processo de abri-lo, olhou sério de Bobby para Sam. _Eu tenho que me desculpar com vocês, pelo... o que fiz. Não vou fazer isso de novo. Eu sei que...
_Não, não sabe, faz ideia do que nós passamos quando você foi para sei lá onde se entregar para Miguel? – Cortou Bobby. _Depois de tudo o que me disse, depois do seu lindo discurso de que não deveríamos desistir, de que eu não deveria desistir, me fez prometer até, se lembra? Então não, não vai acontecer de novo, por que agora sou eu que peço que prometa nunca mais arrastar seu traseiro para Oz e entregar os pontos como um garotinho mimado só por que a namorada partiu seu coraçãozinho frágil! O que estava pensando garoto? – tanto Sam quanto Dean ficaram calados. Sam viu o irmão engoli em seco a bronca abaixando a guarda como fazia quando o pai brigava com ele, aceitando tudo com um sinal de respeito ao mais velho e não petulância.
Sam notou outra coisa também. No irmão ele viu que o motivo de ele ter dito Sim ia muito além de Isabel. Sam conhecia Dean bem demais para saber que tinha alguma coisa ali.
_Ok. – disse Dean baixinho numa voz desanimada.
_Ok? Não sou seu irmão, fale direito. – Dean suspirou e elevou a voz.
_Tudo bem, eu prometo. – Bobby olhou para ele por alguns instantes, Dean sustentou o olhar, um pouco acuado percebeu Sam.
_Acho bom mesmo, se não eu juro por Deus que levanto dessa cadeira só para chutar suas bolas. – Dean assentiu preocupado só de pensar na possibilidade. Depois de compartilhar um olhar com Sam ele voltou a atenção para as batatinhas. Abriu o saco para só então ter sido tomado por Bobby.
_Esse é o último pacote, não vai devorar tudo. – explicou Bobby. Dean o olhou indignado.
_Agora vai me deixar morrer de fome?
_Não seja dramático. Tem sobras de pizza na geladeira. – respondeu levando a cadeira e as batatinhas para longe, resmungando sobre "Idiotas" Dean o observou ir com um olhar desejoso e chateado pela perda das batatinhas. Sam se permitiu a um sorriso. As coisas iam voltando ao normal aos poucos.
_Sam, eu passei no quarto ao lado, e não vi Isabel, e claramente ela não está aqui na cozinha, onde ela está? – era isso, ele tinha que falar logo. Como se só esperasse uma deixa Jamie apareceu na porta, esfregando os olhos com uma cara sonolenta, parou quando viu Dean. Ele usava pijamas do Ben 10 — que Sam comprou junto com algumas outras roupas para o menino que chegou sem nem uma escova de dentes — Dean olhou para Jamie com as sobrancelhas levantadas.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!_O irmão mais velho fica fora do ar por um tempo e você sequestra uma criança. Quem é o moleque? – perguntou Dean. Jamie parou na porta encarando Dean de volta. Sam tinha tanta coisa para contar que nem sabia por onde começar.
... — ...
A Bat-caverna em questão ficava em uma rua deserta e ladeada de fábricas abandonadas por todos os lados em não sei a onde. Steve se recusava a me dizer onde estávamos, e não consegui nenhuma pista em placas ou lojas por onde passamos. Um grupo suspeito encolhido em um canto levantou a cabeça enquanto passávamos.
_Estamos chegando? – perguntei pelo o que parecia a terceira vez em minutos.
_É logo ali. – respondeu Steve pelo o que parecia a terceira vez. Fora a desconfiança e ansiedade estava morrendo de frio naquele vestido curto, só não tremia por que a febre instalada no meu corpo amenizava o pior.
_Você... foi mesmo você que me colocou nesse vestido? – perguntei com medo da resposta. Steve riu. Não tinha muita luz ali de modo que seus dentes se destacou no rosto coberto por sombras.
_Não, não fui eu. Crowley contratou, ou obrigou, umas meninas para mexerem em você, para vesti-la e maquia-la. – tentei não demostrar demais meu alívio com aquela notícia.
_Não poderia ter simplesmente me falado, me pedido para ir com você ao invés de me drogar?
_Viria se eu pedisse? – Não, pensei. _E além do mais, seu Alce não ia deixar você ir.
_Tem medo dele? – provoquei. Steve olhou muito sério para mim.
_Ele é bem maior que eu e tem aquela faca mágica, então é, eu morro de medo. – disse num sarcasmo convincente. _Eu disse que era logo ali. – parei quando ele parou, olhei para onde seu olhar ia. Era uma porta do outro lado da rua acima de alguns degraus na calçada. Não tinha nada de interessante na fachada. Só uma porta pintada com tinta preta no meio de uma murada de concreto coberta por pichações guardando o que parecia ser uma construção abandonada atrás. Segui Steve até a porta, parando no último degrau ao seu lado.
_E agora? Dizemos Abracadabra e um portal se abre nos levando direto para o inferno? – perguntei encarando a porta.
_Ou, podemos bater. – Steve bateu apenas uma vez. Depois de alguns instantes uma portinhola abriu em cima. Um par de olhos veio de dentro. Olhos que brilharam prateados para depois voltarem ser escuros, arfei surpresa pensando que talvez fosse algum efeito da luz. Mas que luz?
Os olhos se voltaram para Steve, que como se apresentasse um convite, os seus mudaram de claros para totalmente pretos. Durou só uns segundos, depois eles voltaram a coloração normal. Observei aquele ritual estranho com muita curiosidade, pensando em que tipo de encrenca me meti.
A pessoa por trás da porta fechou a abertura com força, olhei para Steve em expectativa quando ouvi um barulho de metal, um trinco, depois a porta se abriu com um rangido. Olhei para o interior para encontrar um longo corredor escuro, não tinha luz nenhuma que me desse alguma coisa para ver no lugar, era só um corredor com um cheiro de mofo vindo dele.
_Primeiro as damas. – disse Steve indicando as sombras. Depois de hesitar decidi bancar a corajosa e dar um passo à frente deixando a cortina preta me envolver. Steve entrou em seguida, dei um pulo quando os olhos prateados brilharam no escuro de novo. Na verdade não eram olhos flutuantes, obviamente, era um homem escondido as sombras, ele passou por mim e Steve sem dizer nada apenas se adiantou no corredor.
Steve e eu seguimos o homem adentrando ainda mais a penumbra. Passamos pelo corredor de pedra, depois viramos a esquerda num outro corredor que terminou em uma escadaria para baixo. Estávamos entrando num mundo soterrâneo. O homem parou e nos deixou no pé da escada que tinha indicações em neon nas laterais de cada degrau. Steve agradeceu e começou a descer, continuei parada no lugar. Enxergava muito pouco, apenas o contorno de Steve nas luzes neon laranja.
_Vamos, princesa. – encorajou Steve com um sorriso convidativo. Desci o primeiro degrau. Mesmo que pudesse fugir não ia querer, curiosidade sempre foi um dos meus pecados mais insistentes. Toda aquela atmosfera misteriosa me incitava a seguir Steve para onde fosse. Queria muito saber onde naquilo ia dar.
Steve desceu os degraus graciosamente sem preocupação alguma em escorregar nas pedras pedra, já eu ia com mais cuidado. Aos poucos fui ouvindo sons; batidas ritmadas, que após alguns degraus mais a baixo identifiquei como música.
_Sabe, enquanto arrumavam você, estava fora colhendo informações que talvez possa te interessar.
_Que informação? – perguntei quase escorregando em um dos degraus.
_Sobre o cavaleiro Fome, talvez eu saiba onde ele vai estar e quando. – disse Steve como se jogasse conversa fora. O parei pegando seu braço.
_O quê? O que sabe? – Steve me olhou entretido, os olhos brilhando em dourado nas luzes laranjas.
_Não vou dizer a você. – soltei seu braço num movimento brusco.
_O quê? Por que não?
_Não vou dizer a você assim, sem nada em troca, informação custa caro, não esqueça que é meu lindo traseiro que está em risco aqui. – olhei para ele com uma mistura de raiva e surpresa. É claro que ele não ia me ajudar assim, de graça. Sempre tinha um preço e com o último negociador paguei muito caro.
_O que você quer? – perguntei rispidamente e com medo da resposta. Steve sorriu abertamente.
_Aposto que está pensando que vou pedir seu corpo nu e suado numa cama King Saze. – disse ele divertido. Era exatamente isso o que eu evitava pensar. De qualquer forma não pagaria. _Não se preocupe, eu sou um cavalheiro.
_Nunca iria para cama com você, nem se tivesse as respostas do universo. – rebati.
_Oh, agora pegou pesado. – respondeu como estivesse ofendido. _E todo mundo sabe que a resposta do universo é 42.
_Diz logo o que quer.
_Nada demais, só quero que se divirta hoje, liberte as amarras, me deixe conduzi-la e quero que faça o que vão pedir para fazer sem hesitar. – ele parecia falar sério, o que me surpreendeu. _Você vai descer, sorrir, flertar e permanecer linda ao meu lado. Nada de explodir o lugar inteiro se vê alguma coisa terrível. Lembre-se, você está tentando entrar no clubinho. – assenti começando a senti meu estômago se agitar.
_Conto o que sei se se comportar. – com a última frase ele voltou a descer a escada. Me apressei para não o perder para escuridão, agradecendo mentalmente pelos coturnos.
No fim da escadaria tinha outra porta. Acima desta uma placa com letras em neon vermelho escrito:Hall Inferni.
_O que está escrito? – perguntei reconhecendo a última palavra, que já não indicava coisa boa. Steve sorriu.
_Bem vinda ao Salão do Inferno. – apresentou Steve empurrando a porta.
Muitas coisas me atingiram ao mesmo tempo: Sons, luzes, cheiros e sensações. Estava tonta e maravilhada ao mesmo tempo. Olhava para um salão amplo de cima de uma escadaria larga. Corpos dançavam no ritmo da música agitada e contagiante. Acima luzes de neon coloridos pulsava conforme a batida e iluminava as pessoas como uma colcha de retalhos, um globo de espelhos fazia seu papel mais sutilmente.
Em dos lados tinha um enorme bar, os servente atrás dele servindo com rapidez. As paredes eram de pedras, irregulares como uma caverna gigantesca, o piso também era escuro mas liso. Bem no fundo tinha uma rede de quadriculados com alguns espaços entre eles, como pequenas cabanas cobertas por tecido roxo. Era impossível ver o que acontecia lá dentro, para falar a verdade não queria saber o que acontecia lá dentro.
_E aí, princesa, pronta para a diversão?
... — ...
Perdido. Era assim que Dean se sentia quando entrou no chuveiro pela segunda vez. Tudo que Sam disse o atingiu com uma vertigem e ele se sentiu mais doente que nunca. Isabel estava em algum lugar com um demônio chamado Steve, o irmão dela estava vivo e ele fez papel de idiota de novo deixando ser manipulado por ela. O mais chocante era saber sobre Jamie, o irmão morto que agora estava vivo e que Dean desconfiava, não gostou muito dele.
Quando tentou falar com o garoto ele respondeu com uma pergunta: Onde está Isabel? Dean disse que ela tinha saído para comprar chocolate para ele, o garoto apenas olhou para Sam e saiu para o quarto com um ar enraivado. Dean não entendeu, Sam disse para ele que o garoto não era idiota e muito menos tinha cinco anos, ele sabia que tinha alguma coisa acontecendo. Crianças.
Quando saiu do banheiro, se sentindo mais... frio. Parecia que sua febre não passava nunca, ia e voltava o deixando incomodado. Dean desceu e foi procurar pelo irmão, tinha deixado coisas em aberto com ele.
O encontrou na oficina de Bobby, no fundo do terreno, ele mexia e remexia em uma caixa que Dean descobriu ser uma televisão velha.
_Por que está consertando essa coisa velha? – perguntou quando se aproximou.
_Crianças ficam entediadas fácil quando não tem o que fazer, Bobby não quer que ele encontre o arsenal no porão. – explicou não tirando os olhos do monte de fios soltos e placas que nem de longe Dean entenderia como funcionava.
_Sam, eu preciso falar com você. – disse Dean se aproximando e sentando de frente para o irmão na mesa de trabalho.
_O quê é? – Sam tirou os olhos do aparelho e se voltou para o irmão.
_Acho que ainda lhe devo algumas desculpas. – Sam o encarou. Dean sabia que o irmão estava irritado com ele, se sentindo traído de um jeito que o beijo que deu em Isabel parecia bobagem de criança. Ele queria reparar aquilo, devia isso.
_Por que disse Sim? – perguntou Sam sem preâmbulos, uma nota de raiva e ressentimento na voz.
_Sabe, quando estava na sala dourada e tinha chegado a hora eu só conseguia pensar em você. Em como contava comigo e acreditava em mim. Vi que não podia deixar meu irmãozinho na mão, que não era o melhor jeito de protegê-lo — e não venha me dizer que já é grandinho o suficiente, eu sei disso — mas eu ainda sou seu irmão mais velho, ainda é minha função olhar por você e cuidar para que fique bem, acima de tudo, acima de qualquer garota ou qualquer coisa. Então se eu não estaria lá para fazer isso, quem estaria? – Dean deixou a mente viajar para aquele momento. A sala vazia enquanto esperava, remoendo tudo e repassando tudo mais uma vez, vendo sentido em onde deveria e vendo principalmente o tamanho da besteira que iria fazer. _Eu desisti Sammy, não ia dizer Sim, Zacarias podia fazer oque quisesse comigo, mas não iria conseguir meu consentimento.
_Então, por que disse Sim? – questionou Sam de novo sem entender.
_Quando matei Zacarias ele já tinha chamado Miguel, eu pretendia fugir ou não sei, poderia até morrer tentando, mas não cederia ao arcanjo. Mas eu vi uma coisa. – Dean parou quando sentiu a garganta secar. Sam se inclinou mais para frente estudando o irmão, a surpresa de ele ter dito que matou Zacarias sumindo do rosto.
_O que você viu? – perguntou cauteloso.
_Eu vi você. Vi Isabel e uma pilha de corpos. Sammy, tinha sangue para todo o lado, eu vi o Bobby, a Lisa, eu vi... vi o Bem, e muitos outros. Uma carnificina e destruição total e... e você estava lá, olhando tudo e não era você, e Isabel, ela simplesmente não parecia nem humana, os olhos estavam muito acesos e seu rosto tinha veias negras.... Sam, eu tive uma sensação, poderia ter sido um truque de Miguel, mas eu senti uma coisa, foi como voltar ao inferno de novo. E eu não tenho vergonha de dizer que fiquei assustado. Eu vacilei, não podia deixar aquilo acontecer, sabe? Lúcifer não podia vencer, não podia levar você e Isabel. – Sam olhou para ele com uma expressão de assombro, Dean engoliu em seco pela segunda vez para poder prosseguir. _Hesitei e nesse momento Miguel tinha o que queria. E eu lutei, dei tudo de mim para conseguir voltar, mas eu me sentia mais... distante que nunca. Bem, quando voltei a mim foi para ter uma adaga enterrada no peito.
Dean evitava ao máximo não pensar naquilo. Em Isabel lhe dizendo que o amava e depois o matando, matando Miguel. Ainda estava em fase de recuperação para poder avaliar direito os aspectos daquilo. Ele lembrava de sentir uma dor terrível e depois Miguel assumindo o controle, a próxima coisa foi o calor que percorreu seu corpo o reanimando, queimando tudo por dentro de modo que se não estivesse fraco demais gritaria em agonia.
Sam e Dean, não disseram nada por um tempo. Só absorveram as palavras que foram ditas tomando o momento para pensar sobre elas com cuidado. Quando viu que Sam não ia dizer nada Dean puxou uma pergunta persistente na mente.
_Sam, você realmente gosta dela? Você a ama? – os olhos de Sam se arregalaram em surpresa com a pergunta, depois de olhar bem para Dean ele desviou o olhar para as peças à frente dando a resposta a Dean. _Tudo bem, foi o que imaginei. – disse Dean se sentindo de repente muito zonzo.
Ele via que o irmão lutava para disfarça ou tentar discordar, Dean quase riu.
_Cara, como é possível uma garota fazer o meu e seu tipo ao mesmo tempo? Deve ser contra as leias naturais. – comentou.
_Ah, eu não teria tanta certeza disso. – respondeu Sam.
_Como assim?
_Jenny Bradshaw. – Dean vasculhou a mente em busca de associação ao nome. Os nomes das garotas com quem já ficou ao longo dos anos daria uma livro, ele não fazia ideia de quem Sam estava falando.
_Quem?
_Ela estava na minha classe de matemática avançada no colegial. Ia convidá-la para sair, mas quando fui perguntar ela falava com as amigas sobre como era super incrível um cara do último ano a convidar para sair, e adivinha só quem era o cara. – a memória de Dean emprestou a imagem da menina, ele lembrava agora da loirinha que usava uma tiara vermelha no cabelo, e principalmente o que chamou sua atenção; mini saia. Ele não se segurou e riu.
_Cara, por que não me contou? Foi por isso que você enfiou a cara num livro e me mandou ir para o inferno quando tentei contar para você como foi o encontro? Deveria ter me contado que gostava dela. – Sam sorriu relembrando o fato.
_E você ia fazer o quê? Dar um fora nela? Ela era legal, era legal para você, ao invés das lideres de torcida com quem saia.
_Eu nem gostava tanto dela assim, era muito nova e o que usava no sutiã era enchimento. Pensando bem ela fazia seu tipo, nerd e chata. – Sam balançou a cabeça.
_Você é um canalha, sabia? – insultou Sam, mas sem esconder o sorriso.
_Sabia, e é por isso que me dou bem com as gatinhas e não você. – provou Dean.
_Babaca.
_Idiota. – os dois trocaram sorrisos como se aquilo fosse algo do que não fazia muito tempo, e não era mesmo. Recuperam um pouquinho do que já foram um dia. A cumplicidade e simplicidade que não podia recuperar, nem se quisesse muito.
_Sabe, se tivesse me contado não ficaria com ela. – disse Dean falando sério.
_Ah, esquece isso. Foi a muito tempo. – dispensou Sam.
_Mas esse é o ponto, Sammy. – Dean tentou mostrar para Sam que agora falava sério. _Se você gosta da maluquinha e não se importa com a possibilidade de ser esfaqueado no peito só por que esqueceu a toalha molhada na cama, ou ter o dedo decepado enquanto dorme por que esqueceu a tampa da privada aberta...
_Dean...
_Tudo bem, tudo bem, o que quero dizer é que estou tirando meu time de campo. Sei que disse que ela não era para você, mas acho que você faz mais bem a ela do que eu. Você tem o que eu não posso oferecer ou entender. Ela é melhor com você do que comigo. Não sei o qual vai ser a loucura para amanhã; chuva de sapos, Jesus andando pela Times Square trazendo dia do julgamento ou gasolina a três dólares. Só sei que se ela te faz bem é isso o que quero para você. – Sam o encarou com uma expressão indecifrável. Seria mentira se Dean dissesse que não doeu dizer aquilo, apesar das piadas ele sentia uma pontada no coração, nada física. Não sabia onde sua garota — que não era mais dele — estava, não sabia como ela pode apunhala-lo, mas sabia que ainda a queria. Mas foi sincero demais quando disse que era Sam em primeiro lugar.
_Isso é um monte de besteira. – declarou.
_Como? – perguntou surpreso com a reação do irmão.
_Você está sempre se sacrificando por mim, e qual deveria ser meu papel aqui, o irmão mais novo?
_Calar a boca e fazer o que digo?
_É sério, Dean. – reclamou Sam impaciente. E Dean pensou. Lá vamos nós novo. _Eu também quero o seu bem, também quero te proteger. Eu sofri um inferno todas vezes que você morreu, em todas as vezes. Merece um pouco de felicidade tanto quanto eu. Também quero cuidar de você.
_Ah, você fez um bom trabalho como enfermeira. Olha para mim, não estou cuspindo meus pulmões derretidos. – Sam suspirou soando exasperado.
_Não estou brincando, Dean.
_Eu sei que não.
_Não deveríamos nem está falando assim, como se Isabel fosse um objeto que nós dois queremos, mas só tem um. Não é nossa decisão, sabe disso. – e como sempre Sammy sempre tinha razão em questões sentimentais. Sam continuou a falar, uma voz mais controlada e baixa. _Ela ama muito você. Me disse que estava apaixonada por você e que tentava salvar minha pele por você. – Dean levantou as sobrancelhas surpreso.
_Ela disso isso? – Sam fez que sim com a cabeça.
_Sinceramente eu não sei mais o que pensar. Isso está parecendo um episódio de Gilmore Girls. – comentou Dean também se sentindo exasperado. Sam franziu o cenho para irmão. _Sabe o que eu queria? Resolver um caso simples para variar. Torrar um Wendigo, degolar um vampiro, depois ir para um bar tomar uma cerveja, ficar com alguma gatinha – com o olhar acusatório de Sam Dean se corrigiu: _Ok, talvez não seria uma boa ideia essa segunda parte. Mas eu queria jogar pôquer com caminhoneiros bêbados e ganha uma grana, o que não viria mal agora, só tenho cinco dólares no bolso. Só queria que as coisas fossem menos complicadas, como antes.
_Antes não era descomplicado. – disse Sam remontando a teve.
_É claro que eram, não tinha a Sarah Connor no meio de tudo. – Sam sorriu balançando a cabeça.
_Vai ficar aí sonhando com uma vida descomplicada ou pode me ajudar a ligar essa coisa? – pediu Sam apertando os parafusos.
_Sem chances, isso pode explodir na minha cara. – Dean olhou com suspeita para a Tv.
_Não vai explodi. Eu sei oque estou fazendo. – respondeu Sam como se soubesse mesmo o que estava fazendo.
_Quando me mostrar o diploma de Consertador de Televisões eu te ajudo. – disse Dean já de pé. Quando ele já estava no meio do caminho de volta para casa ouviu Sam gritar:
_Isso não existe! – Dean sorriu sentindo-se mais leve depois de conversar com o irmão.
... — ...
As pessoas não eram pessoas. Descobrir isso enquanto andava entre elas. Relances de presas de vampiros aqui e ali, olhos prateados dos metamorfos reluzindo em reflexos alternados, fendas ao invés de pupilas em alguns, até mesmo línguas como as de cobras chicoteavam para fora da boca com rapidez e runas desenhada em linhas pretas como tatuagem cobrindo os braços e o rosto dos que se não em enganava eram Djinns. Era como uma festa do submundo, tudo o que Dean e Sam caçava resumidos num lugar só.
E também tinha os demônios. Muitos deles, não dava para saber ao certo as variedades de criaturas ali dentro já que todos aparentavam ser humanos, me perguntava se tinha de fato humanos ali. Assim como Steve me instruiu não sair de perto dele. Ele conhecia muita gente o que significava que aquela altura já tinha sido apresentada a muita gente, ou melhor, criaturas, demônios na maioria.
Durante toda a noite recebi olhares, não olhares desejosos, e sim olhares curiosos, descrentes, raivosos, esperançosos e superiores. Demônios vinham falar comigo, recebi parabéns de alguns por ter matado Miguel, e outros estavam curiosos em saber como ou desconfiados se falava a verdade, por mais que nenhum se pronunciava sobre isso. Não disse muita coisa, mais enrolei do que disse oque realmente tinha acontecido. Na verdade não me sentia bem falando daquilo quando não sabia como Sam e Dean estavam.
Tentei ignorar o vampiro no canto sugando alguma pobre inocente, ou um Djinn se alimentando em uma das tendas e até o que era servido no bar. Fiz como Steve queria; sorrir, fiz piadas, flertei e joguei conversa fora como se fosse um deles, como sempre pertencesse a aquele grupo. Uma criatura sobrenatural. Era como me sentia e pela primeira vez isso não me apavorava.
Depois de todo o circo fomos para a pista de dança. Descobri que Steve dançava bem, gracioso e contido, a medida certa, e eu tentava acompanhá-lo começando a me divertir de verdade. Jogamos a as mãos para o alto e pulamos como instruía a música, gotas da garrafa de cerveja de Steve caíram em cima de mim, pingos gelados fazendo choquinhos em contato com minha pele quente e suada. Já eu resolvi ficar no refrigerante e água com gás, ficar bêbada naquele lugar não era uma boa ideia.
Alguém passou por trás de Steve o obrigando a ir mais para frente nos colocando muito perto, perto demais para poder seu cheiro acima dos demais; perfume importado, suor e couro novo. Me peguei tentando sentir o cheiro de enxofre, mas não tinha nem traço da substância. Ele aproveitou a proximidade para se movimentar de modo que seu corpo tocasse o meu. Discretamente e depois com mais insistência e logo senti sua mão na minha cintura, ele olhava para mim com um sorriso leve atravessado no rosto, quando se inclinou senti meu coração disparar e eu já me preparava para afastá-lo, mas seu rosto tomou outra direção.
_Quer beber alguma coisa? – perguntou alto no meu ouvido para que o ouvisse acima da música.
_Quero, vamos ao bar. – disse afastando o a mão dele da minha cintura ansiosa para me desvencilhar de seu toque. Me virei não esperando por ele.
Passando pelos corpos suados se evitando ser atingida pelos cotovelos dos que dançavam. Cheguei ao bar e conseguir dois lugares para nós no balcão. Antes de eu falar qualquer coisa, Steve fez o pedido por nós dois, alguma coisa com a palavra sangue no meio. Olhei para o barman que nos atendeu tentando encontrar nele pistas de sua natureza.
_Licantrope. – Steve me deu a resposta como se lesse minha mente. Naquela área a música não era tão ensurdecedora de modo que o ouvia mesmo estando sentado ao meu lado. O barmen nos entregou os copos, duas taças médias com um líquido vermelho em uma consistência não muito liquefeita. O visual era bonito, mas não estava disposta um drink com a palavra sangue no nome, ainda por cima com cor vermelha.
_O que tem aqui? – perguntei olhando para a bebida desconfiada. Steve largou a sua cerveja e agora bebia a mesma coisa que estava na minha mão.
_Se chama Sangue da Virgem. Vinho seco, vodka, gelo picado, leite condensado. E normalmente eles colocam sangue de verdade para os vampiros e outros que gostam. – ao ver minha careta repulsiva e largar a bebida no balcão, Steve riu, sua risada abafada por conta da música. _Eu pedi o nosso sem o último ingrediente. – levantei uma sobrancelha desconfiada, apesar de nunca ter ouvido falar que demônios bebiam sangue em suas bebidas. _Não confia em mim?
_Deveria? – perguntei pegando de novo o copo.
_Não. Nunca confie em ninguém. – respondeu dando de ombros.
_Por que está fazendo isso, Steve. Por que está me ajudando? Por que me salvou pela terceira vez? Por que aparece sempre do nada quando eu mais preciso? O que está levando nisso tudo? – ele me encarou, a boca que sempre se inclinava num sorriso agora uma linha rígida. Seu rosto e seu cabelos claro refletiam as luzes coloridas lhe dando um ar mais divertido do que aparentava. Pensei em como deveria está parecendo, se a maquiagem já tinha derretido, se o cabelo começava a cachear por conta do suor, se as luzes produziam o mesmo efeito no meu cabelo escuro como o breu do corredor por onde passamos.
_Eu já disse a você. – respondeu simplesmente e depois tomou um pouco do Sangue da Virgem. _Não salvei você pela bondade no meu coração, é questão de prática e de estratégia de guerra. Você pode nos livrar de Lúcifer, acredito nisso. Vou lutar ao seu lado, estou arriscando minha existência, mas não vou morrer por você, isso é função dos seus garotos. Também não vou chorar se morrer amanhã, apenas lamentarei não ter conseguido uma transa com você antes disso. De verdade não me importo, mas vejo mais além. Uma existência onde nós não seremos dizimados ou escravizados. Se Lúcifer acabar com o planeta não teríamos mais essa diversão. – ele fez um gesto amplo para o lugar. Depois se concentrou em meus olhos me absorvendo enquanto falava. _Somos demônios, gostamos do errado, imoral. Matamos com a mesma facilidade com que cortam um bife. Não sentimos pena ou compaixão, arrependimento ou culpar. A dor em outros é nossa diversão. Fomos moldados para ser assim. Após anos de tortura na sauna você aprende, e essa coisa maligna e podre se torna você deixando qualquer rastro de humanidade nos espetos que usaram para nos torturar.
Senti o sangue se agitar gelado nas veias. Se a intenção de Steve foi me assustar, não conseguiu. Fiquei apenas com uma curiosidade regada a fascínio. Nunca tinha parado para pensar em uma origem para demônios, ou seu propósitos e questões, eles eram só os inimigos. As coisas horrendas no escuro e que me perseguiam por toda minha vida. Talvez tenha sido isso que me fez seguir Lilith quando estive no inferno anos antes, minha curiosidade no desconhecido e minha atração irracional pelo perigo.
Steve tomou mais da bebida e continuou a falar, dessa vez se inclinou para mim, resisti ao impulso em me afastar. Sua boca exalava um hálito doce misturado a álcool e seus lábios estavam avermelhado por conta da bebida.
_Sei que está nos usando, sei que deve ter passado pela essa sua cabecinha que quando chegar na hora H você vai poder nos ferrar como fez naquela pobre cidade. É mais um risco eu estou correndo. Mas só um concelho: Esquece, princesa. Se fizer isso não sobreviverá, talvez esteja disposta ao sacrifício, mas estará amaldiçoando o seu nome por gerações. Seus preciosos Winchesters serão perseguidos, sei que acham que são invencíveis, mas eles tem seus pontos fracos, como aquele velho na cadeira de rodas. Seu irmão... – a menção ao meu irmão me fez cerrar os punhos. _Vão persegui-lo, e matá-lo, assim como seus amigos, os amigos do seu irmão até que sua traição seja vingada.
Engoli em seco. Steve estava sendo completamente sincero, sem piadas ou gracinhas, apenas a dura e pura verdade.
_"Meu nome é legião, por que somos muitos." – recitou uma frase da bíblia que se encaixa perfeitamente no que estava dizendo. Arrematou com um sorriso frio. Ele tinha razão, não seria capaz de matar todo o inferno, ainda que se matasse Crowley teria outros e mais outros, talvez piores. Deixaria esse mundo com uma bela de uma bagunça para os Winchesters e uma sentença de morte para meu irmão.
Balancei a cabeça afastando os pensamentos mórbidos sem dizer nada. Bebi do drink. Uma explosão de doce, amargo e alcoólico, aconteceu na minha boca. O negócio até que era bom. Steve sorriu satisfeito por me ver bebendo.
_Você se lembra da sua vida antes? – Dean me explicará uma vez que demônios eram almas humanas torturadas no inferno, lembro bem quando me disse isso, seus olhos distantes, frios e cheio de dor do passado. Steve me olhou entretido outra vez, os aspecto sério se dissolvendo em um sorriso torto.
_Lembro. Lembro bem, é isso que quer ouvir, histórias sobre meu passado sórdido? – mordi o lábio contendo-os a não expressar um sonoro Sim. Depois que lembrei do comentário de Steve sobre o gesto o desfiz rapidamente, não sem antes ele notar e eu receber mais um de seus sorrisos.
Steve arrastou a cadeira colocando-a bem perto da minha. Ele sentou de frente para mim que estava de lado. Sua perna esquerda encostou na minha nua quando ele colocou pé nas barras em baixo do meu banco, me virei para ele incomodada com a proximidade.
_Tudo bem, lá vai uma versão resumida. Nasci em Galês, morri por volta dos anos 20. Tinha um comércio ilegal de bebidas alcoólicas com meus irmãos. Tudo ia bem, bebidas, mulheres, dinheiro, até que apareceu a concorrência nos dando apenas duas opções; ou recuávamos ou fazíamos alguma coisa para defender nosso território. A segunda opção foi a mais atraente, como pode imaginar. Eu como era o mais novo e com menos experiência fiquei encarregado de cuidar disso, era a forma que tinham para minha iniciação oficial. Então foi o que fiz. – ele fez uma pausa, os olhos fixos em mim, mas não me enxergavam. _Vejo bem, eu era um garoto órfão de pai e mãe desde moleque, deslumbrado com o brilho do ouro no fim do arco-íris. Então fui prático. Invadi a casa do chefe da organização e atirei em seu coração enquanto dormia. Tive que sair correndo de lá é claro, ele tinha capangas. O mapa de escape estava na minha cabeça era só segui-lo, foi o que fiz, mas no meio da caminho eu encontrei algo que não estava nos meus planos. – Steve fez outra pausa. Ergueu as sobrancelhas loiras para mim. Que droga, ele estava fazendo aquilo de propósito.
_O que encontrou? – perguntei mordendo a isca contrariada.
_Isso se chama pausa dramática, é bom para saber que espectador está prestando a atenção. – disse alegremente.
_Steve!
_Ok, calma, princesa. Vou contar, termine o seu drink antes que esquente enquanto me recordo do resto. – sugeriu. Peguei a bebida e tomei um grande gole. Quando pousei o copo na bancada, me voltei de novo para Steve.
_Vai, conta logo.
_No corredor da casa eu vi a mulher do cara. Fiquei apavorado, é claro, não tinha planejado isso. Então atirei nela, ela caiu sem nem gritar, e foi aí que percebi tarde demais que estava grávida. Eu tinha acabado de matar uma mulher grávida. Corri como se fugisse do diabo, consegui escapar por pouco. Só parei quando não aguentava mais. Vomitei em um beco e caí ali chocado demais para me mexer. Me lembro de ter chorado por pelo menos uma hora encolhido no escuro em meio a sujeira. – não tinha nenhuma emoção na sua voz. Era uma voz fria, como se estivesse contando as notícias de um jornal. _Bebi garrafas do meu Uísque falsificado até parar de tremer, até esquecer do olhar daquela mulher, preocupada não com ela e sim com o bebê. E foi isso durante um mês, me acabei em beber, dormir com uma ou duas garotas ao mesmo tempo toda semana e me forcei a esquecer a culpa. Até que na noite de natal levei um tiro nas costas a caminho de um bar. Fim. A continuação você sabe, seis palmos abaixo e passagem de primeira classe para a fornalha.
Só conseguia olhar para ele. Na verdade tentava extrair dele alguma emoção, Steve parecia pensativo, um olhar perdido no passado e imaginei se sentia alguma coisa, qualquer coisa.
_Uau, isso é, isso é... como consegue se lembrar? – perguntei. Steve apenas sorriu.
_Termine seu drink. – virei o resto da bebida vermelha. Assim que terminei senti uma sensação diferente. Um calafrio percorrer minha pele.
_Se sente melhor? – olhei para ele com o cenho franzido. O que ele queria dizer? Me sentia... bem. Como se uma onda de energia tivesse se estendo no meu corpo. Uma energia fria que fazia minha febre interna amenizar e me deixava tonta e elétrica ao mesmo tempo.
_O que... O que você fez comigo. Você me drogou? – perguntei confusa. Olhei para a taça do drink no balcão, vazia.
_Relaxe, não coloquei nenhum Boa Noite Cinderela aí. Sabe a receita do drink? Normalmente eles usam sangue humano, como já disse, mas eu resolvi acrescentar um ingrediente especial. Pedi mais cedo para o barmen deixar esses drinks prontos. Na verdade foi ideia de Crowley, eu só moldei um pouco para que você aceitasse sem dar um chilique... – agarrei seu braço apertando e chegando mais perto dele.
_O que você me deu? – disse cerrando os dentes. Ele com um movimento rápido demais pegou meu braço e me puxou para si me fazendo chocar contra ele e sem prévia Steve já estava me beijando.
Seu beijo foi como morder um raio. Enviou uma onda de choque por todo o meu corpo. Deixei que ele continuasse, surpresa demais para fazer qualquer coisa, eu nem mexia os lábios. Então ele se afastou.
_Sentiu isso? Foi meu sangue no seu sistema. – sussurrou.
_O quê? – repliquei chocada e enojada. Uma garota chegou perto de Steve e sussurrou alguma coisa em seu ouvido, ele assentiu.
_Temos que ir. – disse Steve me tirando da cadeira. Engoli em seco ficando nervosa com o que veria a seguir.
...
A lua minguante estava pendurada no alto com estrelas a fazendo companhia deixava tudo a volta com um brilho perolado. A fabrica abandonada atrás de nós como um fantasma nos agourando naquela noite que ficava mais sombria e fria.
Steve ignorava minhas perguntas, apenas me conduzia por um terreno extenso atrás da fábrica abandonada, o gramado alto roçava na minhas canelas, grilos cantavam e só via à frente um comitiva de trem abandonada. Steve disse que íamos para lá, que teria pessoas nos esperando. Com pessoas ele queria dizer demônios.
Ainda estava processando a ideia de que tinha ingerido o sangue de Steve, por isso parei de frente para ele à poucos metros de vagão enferrujado.
_Será que dá para você responder a droga da minha pergunta? – perguntei ríspida. Steve suspirou.
_Quando nos encontramos no hospital, eu senti você diferente, era como...
_Um anjo, já me disseram isso. – cortei impaciente.
_É exatamente isso, se não houver equilíbrio as coisas explodem, você explode. Imagino que você não ia querer seus bichinhos limpando seus pedaços da parede. Então eu pensei com Crowley, talvez se você tomasse sangue de demônio poderia equilibrar as coisas. – pensei no que ele disse. Fazia sentido, o modo como me sentia quente ou como o poder do anjo parecia me queimar a pondo de me fazer quase entrar em combustão. _Não vejo como isso é um problema, seu precioso Alce não pensava assim.
Engoli em seco para não lhe dar uma resposta ríspida. Sabia bem por alto dos problemas de Sam no passado, seus problemas com o sangue de demônio. Nunca pensei muito a respeito ou perguntei sobre, nem para Dean e muito menos para Sam. Era um assunto delicado demais para eu me intrometer.
_Nota seis de dez. – disse Steve me contornando para voltar a andar.
_O quê? – perguntei o seguindo.
_O beijo, acho que podemos melhorar, talvez se você tentasse movimentar um pouco mais os lábios, ou usasse a língua...
_Vai se ferrar! – vociferei para ele, a raiva suprindo a vergonha.
_Só se estiver comigo. – respondeu com um sorriso diabólico. Bufei tentando o ignorar.
Dentro do vagão eram um grupo grande, pelo menos dez estavam ao fundo conversando entre si, Crowley no meio deles, seu terno preto impecável o fazia se misturar as sombras. Assim que entrei todos os olhares se voltaram para mim. Olhei para Steve em busca de orientação, ele não disse nada nem sequer me olhou. Foi Crowley que tomou a iniciativa, veio até nós.
_Acho que muitos de você já a conheceram. – disse em voz alta. Um homem alto e bem vestido se aproximou mais, ele parecia o líder do grupo, ou uma figura importante.
_Já ouvimos falar da garota Crowley, não vejo por que disso, muito menos o por que que deveríamos falar com você, sabe que se Lúcifer descobrir, nós...
_Como vai Sebastian, ainda servindo café para Fome? – perguntou Crowley, a postura superior de Sebastian se suavizou.
_O que estamos fazendo aqui, Crowley? – perguntou direto. Ele olhava para mim, os olhos cravados como se pudesse me ler. Era jovem, talvez na faixa dos trinta e pouco, cabelos com faixas prematuramente grisalhas e uma postura leve e austera. Estava vestido tão impecavelmente quanto Crowley. O que incomodava eram seus olhos escuros e penetrantes, pareciam capazes de sugar sua alma.
_Estou oferecendo a chance de está no time vencedor. Você é um dos bons Sebastian, fechou mais contratos que a maioria, e de peixes grandes. Precisamos de você. – Crowley se voltou para os demais. _Estão aqui por que quero lhe dar uma demonstração do que temos do nosso lado. – ele fez um sinal para alguém atrás de si. Me virei para ver o que era.
Quase engasguei quando vi uma figura abaixada no canto. Correntes prendiam seus pulsos e pés, assim como o pescoço. Ele estava sem camisa, vestia apenas uma calça social. Era um homem magro, cabelos escuros, e estava com a cabeça baixa fazendo ser impossível ver seu rosto no escuro.
_O que significa isso? – perguntou Sebastian tirando a pergunta da minha cabeça.
_Isso é uma pequena amostra, deve ter ouvido falar que nossa querida Isabel deu fim a Miguel. – comentou Crowley, e foi aí que soube o que era aquele homem. Eles aprisionaram um anjo. Meu coração disparou.
_Sim e sinceramente tenho minhas dúvidas sobre o fato, e como podemos saber que Miguel está realmente morto? Eu vejo e sinto a energia da garota, mas tenho minhas ressalvas. – os outros pareciam concordar. Eles falavam de mim como se não estivesse lá.
_Entendo. – disse Crowley cordialmente. Depois se voltou para mim. _Podemos?
_Não vou matar nenhum anjo. – disse entre dentes, baixo o suficiente para apenas Crowley e Steve ouvir.
_Precisa. Tem sorte de não ser seu amiguinho de sobretudo. – olhei para o anjo. Ele estava sujo e parecia debilitado. Me perguntei como eles conseguiram capturar um anjo, e como conseguiram que ele permanecesse preso. Vi que no chão algo estava desenhado, vários símbolos formando um círculo em volta do anjo. Os mesmas runas estavam gravadas nas algemas grossas.
_Não posso fazer isso, é muito... cruel. – disse num sussurro sentindo meu estômago dar voltas.
_Tem que sujar as mãos, princesa. Lembra-se do que disse antes. Não demonstre fraqueza, esses demônios estão loucos por um pedaço seu, mostre para eles que você é intocável. – Eu fiz de você intocável.
_Isso é ridículo. Olha para a menina, ela nem mesmo sabe oque está fazendo aqui. – disse Sebastian em tom de escárnio. Algumas risadinhas foram ouvidas do fundo.
_Sebastian tem razão, ela és só uma criança brincando com uma caixa de fósforos. – disse uma ruiva se juntando a Sebastian.
_Concordo. Ela não impressiona tanto quanto pensei, e ainda por cima ela divide a cama com os Winchesters. Por que deveríamos confiar nela? – disse um garoto.
_Eu posso... – começou Crowley.
_Provar? Por favor, talvez Lúcifer e você estejam encantados com os olhinhos delas, mas são apenas dois tolos. – cortou Sebastian. Atrás dele o coro concordou.
_Deveríamos matá-la e conseguir o que queremos a nossa maneira. – disse um outro. Steve riu ao meu lado.
_Como pretendem passar por Lúcifer sozinhos? Ele vai massacrar vocês com um estalar de dedos, seus idiotas. Isabel é nossa única arma, e a melhor que temos. – Steve me defendeu.
_Idiota aqui é você Steve. Não dou a mínima se você está transando com a garota maravilha, mas não a seguirei só por que você diz seu traidor. – se pronunciou uma nova voz.
_Somos todos traidores, só por estarmos aqui conspirando juntos, acha que Lúcifer irá saber a diferença? – rebateu.
_Chega! – gritei. Todos se calaram e olharam para mim. _Não me importo se vocês acham que sou a puta dos Winchesters ou se estou dando para o Steve, realmente não me importo com suas opiniões sobre mim! O que eu sei é que vou matar Lúcifer como fiz com Miguel e com demônios como vocês. Sabem sobre mim, já ouviram falar e se não acreditam não é problema meu. Mas não vou ficar aqui sendo insultada por um bando de demônios. Não preciso de vocês, só achei que fossem um pouco mais inteligentes que isso. Os que quiserem ficar ao meu lado, ótimo, os que não, não percam seu tempo aqui, podem ir. Voltem a serem as vadias e os escravos de Lúcifer, mas se preparem por que estou chegando e vou queimar quem tiver no meu caminho!
O silêncio caiu sobre nós que foi possível ouvir até os grilos. Todos me fitaram com expressões indecifráveis. Steve exibia um sorriso do tipo que esperasse por aquilo a noite inteira e Crowley parecia vislumbrar uma promoção no seu cargo.
_Isso foi bem... específico. – disse Sebastian. Empinei meu rosto para ele.
_Então oque vai ser, vai ou fica? – perguntei desafiadora. Sebastian me mediu de cima a baixo.
_Mate o anjo. Mostre do que é capaz. – pediu.
_Não preciso ficar me provando para você.
_Faça e a seguiremos – disse a ruiva.
_E se eu matasse você, estaria provando o mesmo ponto. – ela engoliu em seco e tentou disfarça.
_Ela vai matá-lo. Mas aceitem isso apenas como um sinal de confiança. – disse Crowley. Olhei para Steve, ele tinha um esboço de um sorriso no rosto.
_Faça e vamos embora, eu prometo. – disse no meu ouvido. Aceitei o desafio relutante, com muito pesar que não queria demonstrar. Mas aquela raça era a mesma que me chamou de aberração, um dos deles tentou me matar hoje. Com esses pensamentos caminhei até o anjo.
Meu peito arfava e meu coração martelava contra os pulmões. Agradeci por está de costas para eles. Já meu coração começava a se agitar nas veias, correndo pelo meu corpo como um rio numa tempestade de raios. Ondas frias e calorosas se enfrentavam dentro de mim para ver quem tomava as rédeas. Me ajoelhei diante o anjo e me concentrei ao máximo no que queria encontrar.
Ele levantou os olhos para mim. Olhos claros em um tom bonito de verde. Seu rosto estava impassível, o que facilitou as coisas. Senti a força que estava procurando, algo que me fortaleceu assim que o toquei.
O anjo ficou quieto enquanto colocava seu rosto em minhas mãos, parecia um condenado esperando a injeção letal. E eu queria muito que aquilo me machucasse, me ferisse ou me fizesse pensar em uma alternativa que não fosse matá-lo.
Mas não queria. Me sentia viva, nadando no rio tempestuoso em minha corrente sanguínea temperadas com altas voltagem de relâmpagos que faziam minhas veias se enegrecerem. Desfrutei da sensação quando ele gritou. Fechei os olhos para não ver o que viria a seguir. Tive uma leve noção de ouvir os presentes arfarem.
Tudo terminou tão rápido. O anjo explodiu nas minhas mãos, lançando uma luz tão forte que me atingiu através das pálpebras fechadas. Seu grito agoniado percorreu o vagão em silencio mortal.
Quando parou soltei o corpo destruído do anjo, sem que querer tocá-lo. Abri os olhos para encontrar Steve sério com uma expressão que não conseguia identificar. Crowley sorria, orgulhoso do produto que possuía. Os demais eram um misto de assombro impressionado e assustado.
Tudo o que queria era sair dali.
... — ...
_Onde ela está? – perguntou Dean assim que Steve desceu do carro. Quando Sam ouviu o carro se aproximando puxou o irmão do sofá e foram os dois verem o que era. Sam estava certo, era Steve no volante, o sorriso presunçoso estampado no rosto, uma hora de atraso.
_Dean, é finalmente um prazer conhecê-lo. – disse o demônio, como sempre sorrindo. Sam não gostava dele como não gostava de Crowley, ambos tinham a capacidade de testar seus limites e paciência.
_É o que dizem. Você é Steve? – ele olhou para Sam. _Esse é Steve? – Sam fez que sim uma vez.
_Então ouviu falar de mim. – comentou Steve.
_É, ouvi. – disse Dean com um sorriso forçado no rosto. Sam mal conseguiu prever a próxima reação do irmão, quando deu por si Dean já estava com a faca encostada na garganta do demônio contra a janela da picape preta. O que lembrou ele mesmo naquele mesmo dia. _Onde ela está?
_Oh, calminha aí, poxa depois de tudo que já passei com Sam achei que já fizesse parte do círculo de confiança. – disse Steve parecendo se divertir com a situação. Ele não fazia nem menção em afastar Dean.
_O único círculo aqui vai ser o que eu vou fazer no seu coração com essa faca. – Steve riu.
_Alguém não foi acordado com o beijo de amor verdadeiro. Quanta raiva nesse coraçãozinho. – Steve e Dean trocaram um sorriso frio. Ele se voltou para Sam com aquele sorriso estranho que Sam sabia não ser coisa boa.
_Ok, eu vou matar esse cara. – Sam segurou o irmão antes que ele fizesse mesmo o que disse, com custo ele afastou Dean de Steve. Os olhos de Dean faiscavam de raiva. Sam viu que teria de ser o mediador com aqueles dois, ainda que entendesse a reação de Dean.
_Onde estar Crowley? – perguntou.
_Ocupado. – respondeu Steve voltando a atenção para Sam.
_Então você é a vadia do Crowley. – disse Dean com satisfação. Steve sorriu preguiçosamente para ele.
_Ha-ra. Engraçado Dean, está ficando melhor. – antes que Dean respondesse com alguma coisa obscena e ríspida Sam interveio.
_Tudo bem, chega vocês dois. Onde ela está?
_No carro. – Dean lançou um olhar para Sam e lhe entregou a faca. Dean abriu a porta traseira da picape e se enfiou lá dentro. Sam observou nervoso enquanto o irmão tirava Isabel do carro.
Ela estava em seu colo mas já acordava. Isabel abriu os olhos para ele e Dean a colocou no chão. Isabel olhou para seu irmão por algum instante depois se jogou em seus braços em um abraço forte, murmurando alguma coisa sobre ele está bem. Sam observou enquanto Dean devolvia o abraço hesitante. Estava aliviado por Isabel está bem.
_Não fique assim Sammy, é como dizem, o mar está cheio de peixes. – comentou Steve dando-lhe um tapinha no ombro, gesto que Sam lutou para não responder com o dedo do meio. _Bom, já fiz a entrega, vou tomar meu caminho. Nos vemos em breve parceiros. – disse Steve entrando o carro e dando partida, Dean e Isabel se desgarraram e o demônio deu uma piscadela para ela que o ignorou levando o carro para a estrada levantando poeira.
_Dean, eu preciso contar para você...
_Eu já sei de tudo, Sam me contou. – interrompeu Dean. Isabel olhou para Sam de relance.
_Certo, então preciso me...
_Está tudo bem, estou feliz que esteja bem, você está feliz que eu esteja bem, vamos ficar assim por hoje, ok? – Isabel assentiu devagar, um pouco entristecida. Deve está sendo duro para ela ter uma reação tão fria da parte de Dean, pensou Sam. Ele tinha contado tudo ao irmão, mas não tudo. Sam reparou na sua roupa e em toda a produção em Isabel, estava tão bonita que fazia seu coração arder. Mas não era isso que o intrigava.
_Onde você esteve? – perguntou. Dean começava a reparar no mesmo que ele.
... — ...
O nome de uma cidade e estado estavam escrito num pedaço de papel colocado no bojo do meu sutiã. Não perdi muito tempo pensando em como aquilo foi parar lá. Pelo menos Steve cumpriu com a palavra. Teria o local onde Fome estaria dali à uma semana.
Depois de colocar a roupa de dormir — um short de algodão azul e uma camiseta branca — desembaracei o cabelo depois de ter o lavado, os cachos começavam a aparecer enquanto eu o sequei com o secador. Fiz um rabo de cavalo alto e deixei o banheiro no fim do corredor indo para o quarto. Usei o pequeno percurso para organizar meus pensamentos.
Tinha verificado Jamie no quarto que Sam preparou para ele — tirando alguns livros e outras bugigangas — no andar de baixo, estava dormindo e não tive coragem de acordá-lo. Dean também estava lá em baixo, dormindo no sofá. E de repente aquele quarto onde acabei de entrar parecia muito vazio e grande demais para mim. Não tivemos tempo para conversar, na verdade não ansiava por isso. Contei tudo o aconteceu na boate, deixando a parte do beijo de Steve e sue sangue. Eles não falaram muito, não tinha muito o que se comentar. Então Dean disse que iria dormir no sofá, não questionei nem disse nada, mas doía ir para cama sem ele.
Como um pica pau os pedidos de desculpas ainda martelavam na minha cabeça. Tinha duas pessoas com quem deveria me desculpar, uma delas estava bem do outro lado do corredor.
Parei em frente porta hesitante. Talvez eu estivesse só confundindo as coisas, talvez o meu pedido de desculpas era um justificativa esfarrapada para vê-lo, só para saber que ele não me odiava. Não iria implorar por perdão, até por que o que queria dizer já foi dito, só esperava muito que ele entendesse. Foi real. Muito real.
Uma batida na porta tomou a decisão por mim. Girei a maçaneta quase no meio do toque esperando encontra-lo, mas para minha surpresa foi Dean que encontrei. Não estava desapontada, só surpresa. Ele olhou para mim por tanto tempo que achei que não ia dizer nada, mas disse:
_Ia à algum lugar? – perguntou. Vasculhei na mente o que poderia dizer, mas já estava cansada de mentiras e de esconder minhas intenções.
_Ia... ia falar com Sam. – vi o olhar de Dean tremer um pouco e ele se voltou para a porta do outro lado da minha. A fitou por um tempo, talvez estivesse pensando em quando me flagrou beijando seu irmão. Me arrependi de dizer a verdade.
_Tudo bem, é... vai lá, bata, tenho certeza que ele ainda está acordado. – Dean parecia sem direção, olhou da porta do quarto ocupado por Sam depois para mim e de novo para a porta. _Vou... hã, volta para cama, ou sofá, tanto faz. Boa noite. – e então recuou virando para as escadas.
_Dean. – chamei antes que ele descesse. Saí no corredor e me juntei a ele. Parei bem a sua frente, talvez um pouco perto demais. _Deveria... – ficar. _Por que veio?
_Só queria verificar se estava tudo bem. – respondeu olhando para a parede atrás de mim.
_Achei que... achei que não queria falar comigo. – disse baixinho. Dean finalmente baixou os olhos para mim.
_Bem, não vim para colocar o papo em dia, mas para ver se estava bem. Pelo jeito sim, então vou voltar a dormir. Não quero atrapalhar seus planos para a madrugada. – ele voltou a se virar e ir embora. Tinha certa amargura nas suas palavras.
_Dean, espera. – corri até ele no primeiro degrau. Ele esperou, olhou para mim e quase perdi o fôlego. Nunca me cansava de admirá-lo. Agora seus olhos estavam tão verdes submetidos à luz dourada do corredor e seu cabelo em um loiro mais claro. Fiquei ao lado dele e me sentei no primeiro degrau, olhei para cima esperando que ele repetisse o gesto, foi o que fez.
Assim nossos ombros quase se tocavam. E eu queria encurtar a distância entre nós. Na verdade queria me jogar aos seus braços e colocar minha cabeça no seu ombro. Não fiz nem uma coisa nem outra. Entrelacei as mãos no colo e fitei a escadaria à baixo.
_Dean, posso pedir uma coisa? – perguntei deixando meu coração guiar minhas palavras.
_Tenho medo do vem a seguir, mas vai, o que é?
_Quero que você nunca duvide dos meus sentimentos por você. Você foi o primeiro para mim em tanta coisa. – ele me olhou com o cenho franzido.
_Está falando sobre... virgindade, por que eu achei que você... – com isso me fez rir.
_Não. Não é isso que quero dizer. – disse rapidamente. Ele pareceu um pouco mais aliviado. _Quero dizer que foi o primeiro a me encontrar, o primeiro a está comigo e me proteger quando eu precisava, uma garota que você nem conhecia. O primeiro a me mostrar uma luz quando tudo parecia perdido ou escuro demais. Você foi o primeiro a me ensinar o valor da família e como é importante se doar para aqueles que precisam de nossa ajuda. Você foi o primeiro homem que eu realmente admirei e admiro. Você tem tanto valor e é incrível em tantas coisas, e bem, o sexo é uma delas. – toquei seu ombro com o meu. Ele sorriu torto. _O mais incrível é que nem se dar conta de tudo isso. Dean, você foi o primeiro por quem eu me apaixonei. – ele me fitava genuinamente surpreso. Continuei antes que perdesse as palavras, tinha que dizer para ele.
_Sabe quando vi você... caído eu pensei no que poderia fazer. Como iria trazer você de volta, por que eu tinha aquela certeza na minha cabeça de que você viveria. Não importava se eu mesma traria você de volta ou se entregaria minha alma pela sua. Mas você ia viver, por que eu queria que estivesse aqui, por que sei o quanto precisamos de você, o Sam, Bobby, e aqueles lá fora que precisasse de Dean Winchester. Então nunca se esqueça ou duvide do quanto é importante. Nunca duvide de que te amo exatamente do jeito que é.
Pela primeira vez via Dean absolutamente sem palavras, ele me encarava como se eu tivesse dito que um elefante na verdade era verde, ou o mar era roxo. Aquele olhar surpreso de quem ouve alguma insanidade e ao mesmo tempo se impressiona com quanto o louco parece lúcido quando fala. Dean não esperava o que tinha a dizer ou não acreditava em mim, em como o via, ou em como eu poderia está sendo sincera. Poderia afirmar aquilo dez vezes e estaria sendo verdadeira em todas elas, e como queria que ele enxergasse isso.
_Estou... Não sei como responder à isso. – disse numa voz rouca. Sorri para a madeira abaixo de mim.
_Tudo bem, não precisa dizer nada. – me levantei para voltar ao quarto. _Só estava escrito no meu signo para hoje que deveria dizer algo legal para algum idiota, você estava no topo da lista, então... – Dean riu me surpreendendo com o som. Olhei para baixo, mordi o lábio um pouco sem jeito, meio sorrindo, meio sem graça por está sendo tão boba.
_Será que dá para você parar de ser tão... eu, por um minuto? – sorri para ele e assenti.
_Boa noite, Dean. – subi o degrau onde estava sentada. Dei dois passos quando ele pegou meu pulso, o mais singelo toque me fazia me senti febril novamente.
_Obrigado. – disse me olhando nos olhos. De onde estava ele ficava perfeitamente a minha altura de modo que não teve que se inclinar muito para deixar um beijo na minha bochecha, pegou meu rosto em mão deixando a ponta dos dedos na minha nuca. Se demorou um pouco, mais que o necessário. Inspirei seu cheiro e fechei os olhos para sentir aquele beijo amigável e doce. Um carinho que tanto precisava dele.
_Boa noite. – disse no meu ouvido.
Se afastou devagar como se não quisesse quebrar nossa conexão de forma brusca. E se foi, os passos leves na escada.
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