Broken Freedom
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Diferentemente do que sempre imaginou, saber que estava a pouco de ganhar a sua tão sonhada liberdade não a fazia se sentir verdadeiramente feliz.
Debruçada no parapeito da grande janela de um dos maiores e mais luxuosos salões sociais da mansão onde temporariamente residia, a lady Juvia Lockser permanecia silenciosa enquanto observava, pensativa, o cair vagaroso dos flocos de neve puros que caracterizavam com perfeição a baixa temperatura daquela tarde fria de inverno. Algumas vezes saía de sua mente e se esforçava para prestar atenção no som da agradável música que, tocada por seu instrutor de piano, impedia que o silêncio reinasse no grande recinto. Todavia, por mais que ainda procurasse se concentrar para poder entendê-la, não conseguia.
Ela inspirou fundo e lentamente expirou o excesso de ar por uma brecha estreita de sua boca, sem fazer ruídos. Sabia que não deveria estar distraída em plena aula com Gray Fullbuster; o rapaz que com apenas vinte anos já era um dos pianistas mais renomados e requisitados do país. Porém, nada poderia fazer. Os pensamentos no qual estava submersa eram persistentes e facilmente tiravam qualquer pequeno foco que pudesse tentar empregar.
A Lockser virou metade do rosto por cima do ombro e observou cada traço da feição séria e concentrada que seu professor exibia, conforme tocava o instrumento complexo com invejável facilidade. Engoliu em seco, e sentindo as batidas de seu coração apertarem, abaixou os olhos e os levou de volta à neve.
Ainda era difícil acreditar que a liberdade que almejou durante os últimos seis anos pudesse ter chegado da forma que menos esperava. Afinal, pôr em sua infância ter sido uma criança marcada pelas travessuras que cometia e rebeldias, nunca fora bem-vista pelas demais famílias de sua classe social, e devido a isso, fora obrigada por seus pais a morar na mansão fria e hostil de sua tia mais rígida para que se acalmasse e aprendesse a se comportar como uma verdadeira dama da alta sociedade, independentemente de quanto tempo levasse.
Juvia endireitou sua postura e repousou as mãos no parapeito da janela. Desde o minuto que entrou naquela mansão, jamais acreditou que poderia tornar a se sentir feliz, principalmente por saber que, enquanto residisse ali, seria forçada a viver encarando o isolamento de seus pais e melhores amigas, aulas entediantes, e castigos severos por todo pequeno erro que viesse a cometer. Mas, para sua surpresa, fora em tal lugar, onde imaginava que somente encontraria desgosto e aflição, que conheceu a pessoa por qual se apaixonou, e mesmo que por poucas horas, a fez voltar a ser feliz.
Felicidade que nunca mais tornaria a sentir.
As palavras escritas na carta que recebeu no início da semana foram tão claras quanto a tristeza que suas lágrimas carregaram no choro que derramou conforme a lia. No dia seguinte àquele, retornaria à sua mansão para que conhecesse o filho de um dos sócios de seu pai; um homem doze anos mais velho, herdeiro de uma deslumbrante fortuna e que, de acordo com as palavras de sua mãe, por ser a única pessoa que desde o seu nascimento há dezoito anos se interessou em desposá-la, seria o pretendente com o qual deveria se casar.
A lady sentiu seu coração ser invadido pela mesma sensação desagradável que há dias a perturbava todas as vezes que se recordava da deprimente mensagem e fechou os olhos com força, acreditando que, se o fizesse, poderia acordar e se aliviar por aquilo não passar um terrível pesadelo. Contudo, não era.
— Oe, Lockser, deveria estar atenta à lição em vez de devanear enquanto aprecia a neve — reclamou o pianista assim que tocou a última nota da melodia, fazendo com que sua aluna se desviasse de seus pensamentos amargos e logo se voltasse para encará-lo.
— Mas estive atenta, Sr. Fullbuster — apressou-se em dizer evitando gaguejar e expor em sua voz o pequeno susto que tomou com a súbita crítica ou notas da tristeza que a atormentava.
— Tch, acredito — afirmou ressoando uma leve ironia em seu timbre sério. Gray abriu um meio sorriso no canto de sua boca e se levantou do pequeno banco negro de estofamento vinho. — Se realmente permaneceu atenta, certamente identificou quais foram as falhas que cometeu.
Juvia engoliu em seco com discrição, procurando impedir ao máximo que seu nervosismo fosse demonstrado enquanto o fitava.
— Aproxime-se e toque — ordenou observando-a.
A dama cerrou os punhos e sem delongas o obedeceu. Caminhou rumo ao grande instrumento musical, exibindo tranquilidade em seu andar elegante — apesar de que o que realmente sentisse fosse uma incômoda afobação nas batidas apressadas de seu coração. Sentou-se no banco e alisou a saia longa de seu vestido azulado, não desfazendo a postura ereta e centrada até mesmo quando seu professor ficou de pé ao seu lado e cruzou os braços, decretando em silêncio para que começasse.
Ela puxou mais ar para seus pulmões, voltou todas as páginas da nova partitura que estudava, posicionou os dedos sobre as teclas brancas de marfim e deslizou-os com suavidade, dando início a doce música. Porém, antes de ao menos tocar quinze notas, fora bruscamente interrompida pelo Fullbuster que fechou a tampa retrátil do piano quase sobre seus dedos que se salvaram apenas devido ao seu reflexo. Juvia soltou um pequeno grito, assustada com a inesperada atitude e gerou uma rápida risada em seu instrutor que, orgulhoso, confirmou suas suspeitas.
— Como afirmei, Lockser. Não estava atenta — articulou sentando-se ao lado dela e em seguida abriu a peça de madeira abaixada. — Persistiu com o mesmo erro.
— Diabos — blasfemou baixo ao tornar a cabeça poucos centímetros abaixada para o lado contrário ao do pianista. Contudo, não soou em um tom desprezível o suficiente para que pudesse passar despercebida por ele.
— Uma lady não deveria usar tal palavreado — lembrou-a tocando algumas teclas do instrumento. — Por sorte, sua tia precisou resolver alguns problemas na cidade e não está acompanhando a sua performance nesta tarde. Ela ficaria decepcionada com seu desempenho que, aliás, conseguiu ser pior do que das outras vezes.
A jovem lady espremeu seus lábios com aquele comentário ácido e permaneceu com o rosto inclinado para baixo, ainda em silêncio. Gray desfez seu sorriso e também silencioso continuou a encará-la, aguardando alguma conhecida reação. Mas, para seu espanto, nada surgiu.
Em dias comuns, depois de receber alguma reclamação, sua discípula logo voltava a mirá-lo com um grande par de olhos cintilantes e um amplo sorriso embasbacado antes de suplicar por perdão e perguntar de que maneira ele adoraria puni-la por sua incompetência — atitude que sempre o encabulava bastante. Todavia, diferente do que já era esperado, daquela vez, ela sequer esboçou algum movimento ou o fitou, o que de fato era estranho.
Após dois minutos de plena calmaria, ele pigarreou, fechando de vez a tampa retrátil de madeira.
— Por hoje, a lição acabou — anunciou levantando-se do banco e enfim a fazendo erguer o rosto para mirá-lo. — Pratique para a próxima aula. Falhas serão inconcebíveis.
— Sr. Fullbuster, por favor, espere! Tenho algo importante a dizer! — Ela pediu ao também se levantar subitamente, o que chamou a atenção de seu instrutor e o fez se virar em sua direção ao terminar de vestir a sobrecasaca que estava pendurada no cabide. A princípio hesitou, sentindo seu coração pulsar com grande dificuldade, mas ignorando a desagradável sensação, prosseguiu: — Não haverá uma próxima aula.
— O que disse? — Gray perguntou entre um riso ao arquear uma das sobrancelhas, duvidando do que havia escutado. Sabia que, no primeiro ano em que aquela jovem começou a ter aulas particulares, mentiras eram inventadas sobre os dias em que os outros professores deveriam lecionar nos momentos em que a tia se ausentava, porém, elas nunca funcionavam. Tornar com tais lorotas, sobretudo com ele, era uma atitude ridícula. Porém, diferentemente das discretas pistas que ela sempre demonstrava no rosto quando mentia, Juvia o olhava com seriedade, camuflando as emoções com um fino manto de indiferença.
— Há poucos dias, recebi uma carta da minha mãe, e de acordo com ela e alguns dos meus mestres, aprendi e me eduquei o suficiente ser considerada uma devida dama.
— Hm... — o Fullbuster se aproximou poucos passos durante a curta pausa que ela fez, não muito impressionado com o que ouvia. — Somente?
Sua aluna negou com a cabeça.
— Por causa disso, regressarei amanhã à mansão dos meus pais para conhecer o homem que minha mãe me disse para aceitar como esposo... — a lady parou ao sentir sua voz enfraquecer e o disfarce que tentava sustentar começar a ceder. — Eu vou... para conhecer o meu futuro marido, Sr. Fullbuster...
Gray não se pronunciou, digerindo com paciência cada uma das palavras que eram articuladas calmamente.
— Enquanto a cerimônia não acontecer, serei instruída em minha mansão para me tornar uma boa esposa e mãe — prosseguiu mal conseguindo continuar a olhá-lo. — Perdoe-me por não ter avisado antes...
Ele não pôde evitar o demonstrar de seu espanto com um quase imperceptível erguer de sobrancelhas após escutá-la.
— Você vai se casar? — indagou ainda cético.
— Sim — assentiu em um murmúrio ao tornar a se sentar no banco do piano e olhou para o chão coberto pelo tapete do recinto. Entretanto, teve sua visão desviada assim que uma risada breve e seca ecoou.
— Oras, parece que realmente se tornou o que seus pais desejavam, hã? — falou em um tom zombeteiro, voltando a se aproximar.
Juvia não teve palavras para rebater a infeliz verdade. Naquele momento, seus olhos haviam se transformado no espelho que refletia toda a melancolia que detinha em seu interior conforme seguia os passos de seu professor que, em poucos segundos, estava novamente sentado ao seu lado no banco, exibindo uma feição mais séria do que a de costume. Ela enrubesceu com tal aproximação e o viu reabrir as teclas do piano.
— Toquemos, juntos, uma última música como despedida.
A Lockser ficou em silêncio, apenas o observando começar a tocar. Em três segundos reconheceu qual foi a melodia que ele iniciou: a primeira que teve de aprender e uma das que mais apreciava, sobretudo por ter sido o seu próprio instrutor que a compôs.
Ouvir aquela música a fazia se recordar de todo o primeiro ano que viveu em tal lugar e principalmente da animação que sentia quando imaginava que teria aula de música. Nunca teve certeza de quando passou a amar aquele rapaz de modo tão exacerbado, contudo, sabia que desde o primeiro instante que o viu, sentiu-se diferente, e com a chegada e passar de pouquíssimos dias — ou talvez até mesmo horas —, somente vê-lo já era capaz de fazer suas bochechas corarem, sua boca secar, suas mãos suarem e seus batimentos cardíacos acelerarem com o florescer de um sentimento tão singular e afável dentro de seu peito que logo fez com que a vontade que jamais tivera de se casar se tornasse a prioridade de sua vida.
Desejava tê-lo ao seu lado como esposo para poder amá-lo livremente, agradá-lo, e não só fazê-lo feliz com toda a sua dedicação e carinho, mas também com todos os filhos que viesse a ter.
— Oe, eu disse para tocarmos juntos — reclamou sério ao pausar a música.
A dama pousou seu olhar nas teclas do instrumento, pôs seus dedos sobre elas e assim que Gray voltou a tocar, ela começou a acompanhá-lo. Porém, a cada nova nota que tocava, o choro reprimido que obstruía sua garganta e se acumulava em seus olhos tornava-se insuportável.
Aquela situação era demasiada angustiante. A dor que a entristecia era pior do que a que sentira no dia em que se separou de seus pais. Todavia, o que mais lhe doía era saber que, mesmo que tentasse, não seria capaz de evitar o seu trágico futuro.
Mais lágrimas se aglomeraram à medida que o fim da suave melodia chegava. A única coisa que lhe restaria seria a falta que sentiria do verdadeiro dono de seu coração, e o pensamento de que, se possível, escolheria ficar e suportar tudo o que já sofreu a ter que partir.
Ao final da música, sua mão direita parou a uma tecla de distância da mão esquerda de seu amado Gray. Ela ergueu a cabeça e o fitou no mesmo instante em que ele também a observou sem desfazer a seriedade que lhe esculpia o rosto.
Era o momento de se despedir.
— Sr. Fullbuster... — sua voz enfraqueceu no instante que uma lágrima enfim escorreu e seu rosto espontaneamente abaixou, induzido pela timidez que carminava suas bochechas — A-Ade...
Mas antes que pudesse concluir, uma repentina carícia em seu rosto a fez se retrair e descontinuar o que tentava dizer. O polegar que a afagava enxugou a trilha formada por suas lágrimas e, aos poucos, apaziguou os soluços de seu sofrido pranto, afugentando seu nervosismo e a angústia de seu peito. Alguns dedos encaminharam-se sorrateiros ao seu queixo, levantaram sua cabeça com sutileza, e sem que esperasse, um afável beijo foi transferido contra seus lábios.
Juvia não conseguia acreditar. Depois de anos, o cobiçado beijo que há tantas noites ocorria somente em seus sonhos finalmente havia se tornado real?
Sua mente ainda duvidou da veracidade daquele ato, sobretudo em tal terrível circunstância. Entretanto, assim que o dorso da mão sob seu queixo voltou a acarinhar sua bochecha e sentiu a respiração calma do Fullbuster afagar seus lábios assim que se separaram, não teve mais dúvidas.
Fora real.
Ela abriu as pálpebras vagarosa, sentindo os olhos voltarem a marejar e os batimentos cardíacos pulsarem mais apressados e doloridos por vê-lo continuar tão próximo durante segundos que se pareciam infinitos.
— Lockser... — o pianista engoliu em seco entre seu sussurro, hesitando por um segundo antes de prosseguir: — Eu...
— Por quê-ê?... — soluçou baixo, interrompendo-o. — Por que, Gray?...
Confuso com aquele repentino retorno, Gray franziu as sobrancelhas, estranhando-a especialmente por ouvi-la tratá-lo com tamanha impessoalidade e sentir a mão dela colocar-se sobre a sua para cessar o carinho que fazia.
— O senhor não deveria ter feito isso... — a Lockser se levantou visivelmente atordoada e, de costas para o caminho, afastou-se breves passos.
— O que está dizendo? — ele se retirou do banco e tentou se aproximar, porém, os mesmos passos que dava, ela recuava.
— Não deveria... — repetiu continuando a se afastar até chegar na entrada do grande salão.
— O-Oe, Lockser! — tentou chamar a atenção dela, no entanto, não adiantou.
A lady segurou a saia de seu vestido e dando as costas ao seu professor, saiu da sala em passos acelerados, não demorando a ser seguida por ele que também passou a correr, gritando seu nome pelo trajeto com insistência. Lágrimas voltaram a percorrer seu rosto enquanto subia a escadaria da sala principal para chegar ao longo corredor, encontrar a porta de seu quarto e trancar-se dentro do cômodo, a fim de se esconder daquela realidade.
Encostou as costas na porta e escorregou, sentando-se no chão. Tirou seus sapatos, lançando-os perto da cama no centro do aposento, abraçou-se com suas pernas e apoiando a cabeça em seus joelhos, derramou o resto do pranto que guardava.
— Lockser! — Gray bateu em sua porta. — Lockser, abra a porta!
A mencionada continuou em silêncio, sem manifestar qualquer reação enquanto escutava seu nome ser chamado junto a persistentes batidas pelos minutos que se seguiam arrastados.
Sentiu-se confusa. Naqueles últimos anos, seu professor jamais havia correspondido aos seus flertes, no entanto, por que justamente quando estava prestes a se despedir ele a beijou? Ainda que fosse uma das coisas que mais cobiçou desde que começou a amá-lo, aquela repentina atitude apenas dificultou a situação e destruiu toda a despedida impassível que treinou mentalmente para que seu sofrimento não fosse prolongado após o momento tão amargo. Mas, agora, seria, e pelo resto de sua vida conviveria com a incerteza do que aquele beijo poderia ter significado.
Ao soltar suas pernas, seus dedos lentamente foram conduzidos aos seus lábios para acariciá-los. Juvia respirou fundo e em mais alguns segundos abaixou a mão, parando de escutar as batidas e chamados em seu quarto. Aguardou mais meio minuto e ao se desencostar da porta, abaixou-se para ver pela brecha se seu amado continuava ali. Contudo, ele não estava.
Ela se levantou devagar, apoiando-se na peça de madeira ainda trancada, enxugou o rosto molhado com suas mãos e assumindo sua postura, destrancou a porta. Primeiramente, fitou a área por uma pequena fresta e, insegura, terminou de abri-la. Passou as mãos pela saia de seu vestido para retirar os possíveis amassados ou sujeiras, e ao dar o primeiro passo para fora do cômodo, fora abruptamente impedida. Seu braço foi bruscamente agarrado pelo Fullbuster e em menos de um segundo fora levada de volta para dentro do aposento.
Gray trancou a porta com evidente pressa e, por fim, soltou-a.
— O-O senhor não deveria estar aqui... — alertou-o dando algumas pisadas para trás, a fim de se afastar, conforme o via se aproximar. — U-Uma dama não pode ficar e-em seu quarto com um homem q-que não é... — ela engoliu em seco, observando-o ficar cada vez mais próximo até parar a poucos centímetros de distância — ...s-seu esposo...
Os dedos que antes a acarinharam voltaram a afagar seu rosto avermelhado, e para sua surpresa, sentiu a outra mão ser posta sobre sua cintura, afobando seu coração.
— Perdoe-me, Lockser, mas creio que uma música não foi o suficiente... — disse em um murmúrio grave, reparando no olhar impressionado e confuso que a jovem corada conservava enquanto o observava.
— Sr. Fullbuster, por favor... — ele resvalou os dedos até sua nuca e apertou sua cintura. — O-O que faz não é certo...
— Então, por que não exige que eu pare? — o Fullbuster devolveu.
A lady ainda vasculhou algum argumento em sua mente para dizer diante de tal impensado rebate. Contudo, somente cerrou os dentes, sem ter palavras para respondê-lo.
Ela não queria que parasse.
Gray aproveitou-se daquele instante para se aproximar devagar e roçar os lábios nos dela, o que a fez gemer seu primeiro nome instintivamente e aos poucos repousar uma das mãos sobre seu peitoral. A Lockser entreabriu a boca ao fechar os olhos e arfou, sendo tomada por uma onda mista de pudor e vontade que induziu o pianista a sorrir e não tardar a depositar pequenos beijos sobre seus lábios um segundo antes de se apoderar de sua boca para iniciar a carícia que ambos de fato almejavam.
De imediato, Juvia se sentiu nervosa. Aquele era o primeiro beijo verdadeiro que dava em sua vida! Era notório que não sabia o que ou como fazer para retribuir os toques impacientes que sentia em sua língua, apenas lhe restou se esforçar para tentar acompanhá-lo à medida que seu fôlego era facilmente furtado pelos movimentos insistentes que se seguiam apressados dentro de sua boca e a deixavam ainda mais ansiosa.
Por fim, não demorou para que em poucos instantes ela acabasse soltando um ofego suplicante para que o beijo cessasse, e assim que seu amado a atendeu, escorregou os lábios por sua bochecha ruborizada e os parou perto de seu ouvido para beijá-la, fazendo-a se arrepiar.
— I-Isso... é demasiado impróprio... — Juvia se segurou forte na sobrecasaca ao estremecer por sentir uma sugada indecente acariciar seu pescoço ao mesmo tempo que as mãos dele deslizavam por suas costas, tomando-a quase em um abraço. — Nós não podemos nos envolver... N-Não devemos...
— Ou é você quem não quer? — tal replique ríspido a fez reabrir as pálpebras e voltar a olhá-lo, espantada com o que ele indagou.
— Sr. Fullbuster... U-Uma dama não pode... — a Lockser desviou seu olhar envergonhado para baixo, porém, teve seu queixo bruscamente capturado e levantado para que fosse obrigada a encará-lo.
— Não foi isso o que indaguei. Quero saber o que você anseia, Juvia — ele juntou seu corpo ao dela, analisando todos os traços delicados da feição surpresa. — As malditas regras que nos cercam podem ditar nossos comportamentos, porém, não podem alterar o que verdadeiramente ambicionamos.
A jovem dama o fitou sentindo seu coração acelerar, principalmente após ouvir seu nome ser pronunciado por aquele tom grave e tão encantador.
— Responda-me — persistiu. — Quer demonstrar que de fato se transformou em uma marionete controlada por leis estúpidas e apenas faz as vontades dos seus pais ou, pela última vez, quer quebrar as regras e fazer o que realmente cobiça?
Juvia cerrou os lábios, e ficando em silêncio, apertou o tecido sob sua mão com discrição ao inclinar a cabeça para baixo. Pensou no quanto poderia estar errada por sucumbir ao desejo e se entregar quando a tão pouco de conhecer o homem que ambicionava sua mão, na decepção que seus pais sentiriam se descobrissem que se envolveu com um de seus professores, no quanto seu sobrenome poderia ser degradado pela sociedade que a condenaria, na vergonha e, sobretudo, na humilhação que seria fadada a encarar pelo resto de sua vida devido ao consentimento de tal ato com alguém que sequer era seu esposo. Naquele momento, sua decisão era crucial. Estaria ela disposta a arriscar sua reputação e seu nome e enfrentar as consequências de uma última aventura insana com o homem que amava?
A lady entreabriu um pequeno sorriso e sentindo uma lágrima escapar, tornou a fitá-lo, dizendo em seu olhar qual a sua escolha.
Ela estaria.
Gray enxugou a lágrima com o polegar e também exibindo um sorriso, juntou-se à dama em outro beijo, um mais calmo e mais terno do que o anterior para que ela pudesse, mesmo de forma ainda atrapalhada, tentar segui-lo. Sua mão tornou à nuca e ao ancorar-se nas madeixas azuis, puxou os fios do cabelo longo pela raiz para mover a cabeça para o lado assim que se separou dos lábios avermelhados e ofegantes.
A Lockser se prendeu firme no tecido da sobrecasaca negra de seu amado, agarrou-se em seus cabelos e o empurrou contra si no momento em que suspirou baixo por começar a ter seu pescoço acarinhado por sugadas provocantes que aos poucos despertavam uma estranha e deliciosa sensação de prazer. Ao ouvir aquele tímido retorno, os cantos da boca do pianista rapidamente voltaram a se curvar em um sorriso repleto de malícia. Seus dedos se soltaram das mechas azuladas e tornaram a caminhar pelas curvas da lady ofegosa que reprimiu um gemido ao sentir um arrepio percorrê-la assim que o lóbulo da sua orelha foi mordiscado.
— Gray, c-começo a... sentir-me um pouco estranha... — ela proferiu baixo, perto do ouvido do homem. — É normal?...
— Sim — respondeu alargando seu sorriso, ainda mais motivado a prosseguir para fazê-la experimentar mais da “estranha” sensação —, completamente...
O Fullbuster se desvencilhou por um momento da jovem que o observou sem entender a causa da separação e se despiu com impaciência de sua sobrecasaca, em seguida arrancou o lenço envolto em seu pescoço, tirou colete acinzentado e por último retirou sua camisa branca de mangas compridas. Juvia reagiu da maneira como ele imaginou: corou no mesmo instante e reparou em cada músculo definido de seu abdômen com evidente fascínio no olhar. Gray tornou a segurá-la na cintura, aproximando-a, e logo a acariciou com beijos rápidos sobre os lábios, descendo devagar em uma trilha suave que o levou à curva do pescoço.
Novos arrepios correram pela pele da dama que se excitava especialmente quando sentia mordiscadas e chupadas ousadas voltarem algumas vezes à sua orelha, originando pequenos suspiros acanhados que não conseguia conter. Seu amado tornou a resvalar as mãos por sua cintura e lentamente as conduziu às suas costas, parando-as sobre o primeiro botão de seu vestido que logo foi desabotoado.
De imediato, a Lockser se retraiu, mas procurou não revelar seu nervosismo ou tentar impedi-lo conforme cada um dos botões de seu vestido era aberto. Entretanto, assim que ele depositou as mãos sobre seus ombros e vagarosamente escorregou as mangas do traje por seus braços até retirá-las, deixando a parte superior de seu corpo descoberta e expondo seu busto avantajado, seus braços abruptamente se cruzaram na frente dos seios ao instantaneamente se encurvar centímetros para baixo, indicando o constrangimento que sentia por exibir aquela parte íntima.
Com tal atitude, Gray se surpreendeu. Era comum — e até mesmo obrigatório — que as mulheres utilizassem um espartilho desconfortável por debaixo de suas vestes para moldarem seus corpos. Vê-la sem um, desobedecendo uma das regras que não só a tia dela, mas a sociedade em peso impunha, era surpreendente.
Ela ainda era a Lockser que conhecera, afinal.
Ao rir internamente com aquela singela afronta, o Fullbuster a aproximou de seu corpo, e após dar uma leve mordida no ombro alvo, deslizou a língua pela extensão da pele até alcançar o pescoço, fazendo-a arfar timidamente. Suas mãos pousaram novamente na cintura e tornaram a percorrer as curvas nuas com destreza para despi-la da saia da veste e deixá-la somente trajando a calça branca de algodão que se estendia até os joelhos e tinha delicados detalhes em renda na barra. Seus dedos emaranharam-se outra vez nas longas madeixas e ergueram a cabeça da dama para alcançar a boca dela e se grudarem em um beijo afável e desfazedor de inibições.
Os braços que escondiam as mamas se afastaram pausadamente de seu corpo e tocaram com delicadeza no peitoral masculino. Os lábios de seu amado se espaçaram dos seus e continuaram a afagar sensualmente a curva de seu pescoço e sua clavícula com sugadas e lambidas. A toda nova carícia naquela região, a prazerosa sensação se fortalecia, fazendo seu coração bater mais forte ao mesmo tempo que seu corpo aquecia, suas pernas fraquejavam e sua intimidade sensível umedecia.
Embora não aparentasse, aquelas reações — especialmente a última — faziam com que a lady se sentisse cada vez mais envergonhada. Entretanto, ainda que fosse a primeira vez que as sentia, elas não eram totalmente desconhecidas. Quando a semana que era permitida a receber visitas de suas amigas chegava, Erza sempre era uma das primeiras a aparecer e explicar algumas das coisas que perguntava sobre como era ser tocada e qual a sensação ao ser beijada por seu esposo, somente para fortalecer os devaneios românticos que tinha com o jovem pianista. Todavia, jamais imaginara que tudo pudesse ser tão... intenso.
Sutilmente, Gray a guiou pelo quarto, percorrendo um caminho de curtos passos rumo à grande cama do lugar. Afastou-se centímetros assim que ela interrompeu o trajeto ao esbarrar as panturrilhas no móvel e se sentou, tirou seus sapatos e as calças com agilidade, e em um instante voltou-se à dama encurvando-se em sua direção e compelindo-a a recuar pelo colchão até que a fizesse se deparar com a cabeceira de madeira nas costas.
Seus batimentos cardíacos aceleraram ao mirar a jovem dama que, acanhada, tornou a tentar proteger o busto enquanto o encarava parado entre as pernas dobradas. Cerrou os punhos apoiados na cama, salivando com a convidativa visão, curvou-se na direção dela e depositou beijos leves por cima dos lábios que arfavam com perfeita discrição conforme descia pelo queixo e pelo pescoço, fazendo enfim com que as mãos se retirassem de uma das partes mais atraentes do corpo feminino e se colocassem sobre seus cabelos à medida que prosseguia com tais carícias até chegar ao meio dos seios descobertos.
Um calafrio percorreu as costas de Juvia no instante que uma de suas mamas foi afagada por lambidas sedentas e pequenos beijos ao redor da aréola antes de ser gentilmente sugada, originando longos suspiros de aprovação e deleite ao puxar as mechas entre seus dedos e afundar o rosto de seu amado naquela região, implorando em silêncio por mais. O Fullbuster acolheu o outro seio com uma de suas mãos e começou a estimulá-lo usando a língua para brincar principalmente com o mamilo rijo pouco antes de mordiscá-lo e chupá-lo faminto, arrecadando ruídos de prazer tão belos quanto a mais majestosa das sinfonias. Ele utilizou a outra mão para acariciar a cintura delgada e em passos sorrateiros, colocar-se para dentro da veste íntima feminina, determinado a alcançar o sexo para acariciá-lo.
A Lockser se agarrou mais firme aos cabelos negros e arfou o nome de seu amado almejando ressoar em um timbre reprovador ao senti-lo tocar em seus grandes lábios. Mas em vez de fazê-lo parar, apenas contribuiu para que ele prosseguisse com seus contatos indecentes e atravessasse suas dobras vaginais iniciais. Gray sorriu ao notá-la arquear e novamente a ouviu tentar impedi-lo de prosseguir soltando gemidos ainda mais envergonhados no momento que o clitóris excitado foi encontrado e pressionado. Ele elevou o rosto e ainda sorrindo, observou a dama de olhos fortemente fechados e bochechas rosadas se contorcer timidamente com as fricções libertinas no ponto mais sensível da intimidade molhada.
Diante daquela imagem, seu coração bateu disparado, seduzido pela fragilidade que ela exibia e que a deixava ainda mais bela e, indubitavelmente, mais encantadora do que comumente era. O pianista excitado engoliu em seco, sendo alfinetado por um resquício de sua sanidade quando a pouco de prosseguir. Sabia mais do que ninguém que o que estava fazendo era terminantemente proibido, mas, ainda assim, era incapaz de se refrear.
A partir do momento que foi contratado pelos pais de sua discípula, fora advertido a jamais criar laços afetivos e sequer cogitar a hipótese de cortejá-la, ainda que movido pela melhor das intenções. De acordo com eles, apesar de seu grande prestígio, era só um músico, e naquele papel de professor, deveria somente agir com impassibilidade e considerá-la como uma reles aluna problemática — o que de início não foi uma tarefa árdua, sobretudo por causa do comportamento singular e certas vezes constrangedor que a Lockser demonstrava e sempre o envergonhava. Mas, apesar dessas circunstâncias, não conseguiu evitar de começar a se sentir atraído pela doce garota que, com o passar das estações, construiu uma personalidade terna e meiga o bastante para que fizesse sua simples atração naturalmente se transformar em algo maior, uma paixão ou até mesmo um amor que em todas as aulas se fortalecia em segredo nos instantes que a via sorrir e reparava nos olhos que refletiam genuíno amor — embora ainda tivesse que suportar os comentários inconvenientes que eram soltos entre alguns momentos de fantasia durante as aulas. Ouvi-la dizer que se casaria destruiu a muralha de indiferença que todos os dias orava para manter e o motivara a, pelo menos, uma vez, acatar às suas vontades antes tão reprimidas.
Gray pôs a mão por dentro de suas ceroulas, segurou sua semiereção, e ao mesmo tempo que voltou a acarinhar a dama com suaves beijos nas clavículas, começou a se masturbar com rapidez, deliciando-se com o som dos gemidos involuntários de prazer que ela proferia e contribuíam para elevar o nível de seu tesão. Seus lábios passearam pelas veias arfantes do pescoço, pelo queixo, e apenas descontinuaram o trajeto ao encontrarem a suculenta boca ofegante, unindo-se a ela em um beijo esfomeado que abafava propositalmente alguns barulhos dentre o deleite que compartilhavam.
A jovem lady parou as mãos por cima dos ombros fortes de seu amado ao sentir que pequenas sugadas eram distribuídas por seu maxilar assim que os dedos que atiçavam seu sexo pararam e se colocaram em uma das laterais de sua calça íntima, apertando o tecido de algodão no instante que algo rígido roçou na parte interna de sua coxa esquerda. Ela entreabriu os olhos, e duvidosa com o que aquilo poderia significar, pôs uma das mãos por cima da que se mantinha em seu quadril, atraindo a atenção do homem à frente.
— Me fará mulher, Gray? — perguntou em um murmúrio pouco acanhado, observando-o tirar a mão de dentro as ceroulas e erguer o tronco, utilizando os joelhos para se apoiar no colchão.
— Não é o que quer? — ele replicou confuso não só com aquela dúvida, mas também por notar os joelhos dela se juntarem devagar.
A Lockser alargou um pequeno sorriso afável, destacando as maçãs avermelhadas de seu rosto levemente suado.
— Sim... — afirmou terna, livrando-o da ligeira preocupação e acariciando os dedos sob os seus. — Desejava que me tornasse sua mulher desde o segundo que passei a amá-lo...
Um breve sorriso curvou os cantos da boca do jovem pianista. Ele colocou a outra mão na lateral da roupa íntima feminina e mirando-a nos olhos, retirou a última veste vagaroso, acompanhando fielmente o contorno de das pernas torneadas dobradas. A dama o observava de volta sem se pronunciar conforme o sentia tirar sua calça. Seus olhos se desviaram dos dele e desceram curiosos pelo fascinante e desconhecido corpo masculino, parando por alguns segundos para apreciar o belo abdômen desnudo antes de estacionaram na região entre as pernas que se sobressaía bastante.
Ele soltou um rápido riso assim que percebeu em qual parte de seu corpo a lady ruborizada reparava com indiscrição e a viu desviar o olhar no segundo que abaixou as ceroulas até os joelhos para libertar seu pênis completamente ereto e rijo. Suas mãos passearam pelas pernas unidas, separando-as entre suaves carícias, e, aos poucos, pôde voltar a reocupar seu lugar entre elas.
Juvia cerrou as pálpebras ao ter a bochecha acariciada com ternura e se retraiu por sentir a ereção atravessar seus grandes lábios e se encostar na entrada de seu corpo no instante que ele se encurvou em sua direção. Gray colocou as mãos sobre as coxas que o cercavam, próximas aos glúteos, apertou-as, e tomando os lábios em um beijo lento e caloroso, decidiu começar a penetrá-la.
O Fullbuster teve o lábio mordido no momento que o beijo foi interrompido e a dama proferiu seu nome em um tom que ressoou audível desconforto enquanto a adentrava de maneira ritmada, dosando a quantidade de força que aplicava nas investidas conforme saboreava cada nova parte que alcançava do íntimo quente e molhado. Segurou-se mais forte nas coxas e guiado por seus instintos, pousou a cabeça no ombro à frente, concentrando-se apenas em se satisfazer e continuar a adentrá-la aumentando gradualmente a intensidade de sua movimentação.
A dama se abraçou com o pescoço de seu amado quando sentiu um arrepio percorrer sua coluna no exato momento que ele inseriu todo o membro e sugou o ar pelas frestas de seus dentes com perceptível prazer, causando o vibrar de seu baixo-ventre. Suas unhas percorreram a extensão das costas largas e umedecidas por uma camada de suor entre os novos gemidos que voltaram a escapar de sua garganta ao tornar a experimentar o deslizar excruciante do órgão rijo em seu interior.
Gray lambeu os lábios ao deslizar uma das mãos para a região lombar da Lockser escorada na cabeceira de madeira polida e descer os quadris, a fim de penetrá-la com mais facilidade, ao mesmo tempo que agarrou uma das pernas por trás do joelho e erguê-la para aumentar a profundidade de suas estocadas. Não havia palavras para descrever o deleite que sentia por tornar aquele íntimo virgem seu. A todo centímetro que adentrava, aquele espaço tãi apertado e macio se contraía, aumentando a pressão ao redor de sua ereção que latejava excitada. Era algo completamente diferente de qualquer sensação que pudera sentir quando aliviava suas necessidades carnais com as mulheres mais caras dos bordéis mais exclusivos da cidade; era algo maior e, definitivamente, melhor.
Juvia puxou as madeixas negras e fincou as unhas nas costas largas no instante que seus pelos se arrepiarem por receber uma súbita lambida na curva de seu pescoço. O prazer que sentia havia ultrapassado a dor que a incomodou no início do ato, e à medida que se espalhava em ondas cada vez maiores pelo seu ser, colaborava para que os barulhos proferidos se tornassem ainda mais altos e certamente fossem capazes de atrair a atenção de quem passasse por seu aposento. Ela escorregou os lábios ofegosos pela metade oferecida do rosto do homem embriagado de tesão com impaciência até encontrar a boca e logo beijá-la, a fim de conter parte de seus ruídos.
Ele sorriu, sentindo as unhas cravadas em sua pele passearem tortuosas por suas costas assim que um arfar foi solto em meio ao beijo atrapalhado que a lady à beira de seu clímax se esforçava para conservar. Gray beijou o canto de seus lábios, o maxilar, e lambeu a extensão do pescoço da jovem dama que tombou a cabeça para trás, encostando-a na madeira em suas costas ao puxar seus cabelos curtos com força no minuto que a penetração ganhou um ritmo mais apressado e veemente.
Ambos os corpos estremeciam envolvidos pela atmosfera carregada com o demasiado prazer que os aquecia e os deixava a milímetros de seus iminentes ápices. Não tinham mais forças para resistir. A afobação que ela sentia com a desconhecida sensação possante ou o desejo que o pianista tinha de aproveitá-la ao máximo acabaram por, em míseros instantes, tornarem-se apenas minúsculas barreiras que, com a vinda de uma violenta onda, foram impiedosamente derrubadas.
O Fullbuster empurrou a perna que mantinha erguida contra a lady, arqueou suas costas ao introduzir-se no fundo do íntimo, e escutando um longo gemido ser proferido com sutil timidez, foi invadido pela mesma sensação entorpecente que a inundou e, igual a ela, o fez prender a respiração ao se derramar possuído pelo máximo do prazer físico.
Ele abaixou a perna que segurava, encostou a ponta de seu nariz no da Lockser atordoada pelo transe de seu auge e em seguida a testa, permitindo-se desfrutar os últimos instantes que poderia continuar unido a ela, sentindo a agradável respiração morna e tão arfante quanto a sua acariciar seus lábios por demorados segundos enquanto se apaziguavam.
Juvia o encarou assim que ele se afastou e a fitou, igualmente exausto. De todas as palavras que pensara em dizer, preferiu ficar em silêncio, contemplando o sorriso encantador de satisfação e alívio que o homem que amava moldou e também a fazia sorrir.
Gray se espaçou devagar, observando a dama ofegosa juntar as pernas e friccioná-las discretamente corada, sem parar de olhá-lo. Ele engoliu em seco, desviou seus olhos da amena visão e sem se pronunciar, ergueu as ceroulas, levantou-se da cama e recolheu o resto de suas roupas do chão para vesti-las. Sua mente era atalhada pelo desejo de permanecer ao lado dela compartilhando com largos sorrisos e carinhos tal momento de calmaria pós-clímax. Mas, infelizmente, não podia.
Seus olhos se voltaram uma última vez à lady já sentada sobre as panturrilhas e, embora continuasse a sorrir, não escondia a significante quantidade de lágrimas que passava a inundar seu olhar e, sem que pudesse evitar, começava a cair, expondo a verdadeira tristeza que a apunhalava e dilacerava seu coração. O pianista abaixou a cabeça, dirigiu-se à porta em poucos passos e, por fim, destrancou-a.
— Gray... — ela o chamou tênue, o que fez com que o mencionado tornasse a encará-la e reparasse especialmente no sorriso que se alargava à medida que mais lágrimas eram derramadas sem quaisquer esforços — E-Eu amo você...
O Fullbuster engoliu em seco, odiando a inércia que o possuiu. Direcionou os olhos de volta ao chão e saiu do cômodo ainda calado mesmo após aquela singela declaração, deixando-a sozinha entre os soluços de seu pranto angustiado. Ele escorou as costas na porta que fechou, passou a mão por seus cabelos e respirou fundo.
— Eu também a amo, Juvia — confessou em um tom baixo e apenas para si antes de se desencostar da peça de madeira e, ainda cabisbaixo, começar a seguir cuidadoso pelo caminho até a saída da mansão.
✴✴✴
Dez semanas depois...
— Toc, toc — o som súbito proferido pela voz característica de uma de suas madrinhas, junto ao rangido que a porta de seu quarto fez ao ser aberta, obrigou a jovem noiva a se voltar para trás, desviando-se da imagem que observava do belo jardim repleto de flores de sua mansão enquanto imersa em pensamentos.
— Erza... — ela esboçou um pequeno sorriso entristecido ao fitar mulher de braços cruzados e escorada na porta sorrir em sua direção. — O que faz aqui?
— Seus pais me pediram para conversar um pouco com você antes de seu grande momento. Eles já se dirigiram à igreja — respondeu desfazendo a posição de seus braços e entrando no quarto para se sentar na beira da cama de sua amiga. — Bem, pelas conversas que tive com seu futuro esposo, ele não me aparentou ser um homem ruim.
— Indubitavelmente — disse sem alterar o tom impassível de sua voz.
— No começo, também senti receio do meu casamento. Afinal, a família Fernandes tinha a má fama de ser arrogante o suficiente para ao menos ter a presença desejada em eventos públicos, e eu, com apenas dezesseis anos na época, tive que me casar com um homem com o dobro de minha idade, pertencente a essa indesejada linhagem. Era possível ver o quanto temerosa me sentia — expôs olhando-a se aproximar. — Contudo, para meu espanto, logo de início meu marido demonstrou ser uma pessoa bastante atenciosa e gentil, totalmente diferente da imagem que seu forte sobrenome ainda sugere.
— O que quer dizer com isso? — perguntou seca ao se sentar ao lado de Erza e pousar as mãos sobre o colo.
— Quero dizer que não podemos julgá-los sem antes conhecê-los bem — replicou. — Utilize meu caso como exemplo.
— Seu coração não tinha um dono na época em que se casou e isso certamente facilitou para que você logo o aceitasse — contrapôs procurando não soar rude. — Facilitou o bastante para que, um ano depois de seu casamento, conseguisse engravidar e a imensa felicidade que sentia por gestar os filhos de seu marido fosse sempre notória em seu olhar. Lembro-me dele nas visitas que me fazia enquanto morava naquela mansão infernal e outra vez consigo detectá-lo com facilidade nessa nova gestação.
— É impossível não se alegrar quando se sabe que, dentro de seu corpo, cresce o fruto de um verdadeiro ato de amor — afirmou esculpindo nos lábios um sorriso afetuoso. — Jellal está ansioso para que os próximos cinco meses passem depressa e nossa nova criança venha ao mundo. Já os gêmeos não gostaram de saber que, em breve, ganharão um irmão ou uma irmã e ficam chateados quando veem o pai afagar meu ventre ou mencionamos qualquer coisa que tenha relação com o bebê.
— Deve ser maravilhoso presentear o homem que se ama com um filho... — comentou alargando um rápido sorriso com traços menos forçados. — Ainda sobre suas crianças... Onde o menino e a menina estão?
— Preferiram acompanhar o pai — respondeu. — E ele, por sua vez, está na igreja, junto a todos os outros que estão ansiosos à sua espera.
Aquelas palavras fizeram com que um pulsar dolorido apertasse seu peito e embrulhasse seu estômago, obrigando-a a abaixar os olhos assim que seus dedos seguraram com sutil força a saia de seu vestido de casamento.
— Entendo que deve ser difícil para você, tudo isso está acontecendo em pouco mais de dois meses... — articulou tocando-a no ombro e mirando-a com um olhar ameno para tentar reconfortá-la da visível tristeza. — Entretanto, não se preocupe. Tenho certeza de que você será feliz.
— Obrigada — agradeceu ainda cabisbaixa.
— Creio que está na hora de irmos, Juvia. Eles já devem estar ficando impacientes — a madrinha se levantou e andou rumo à porta do cômodo amplo, deixando a Lockser que, sentada, não aparentava qualquer preocupação com o horário. — Precisa de ajuda para pôr o véu?
— Agradeço, mas posso colocá-lo sozinha. — Ela se levantou e juntou as mãos na frente do corpo. — Você já pode ir, Erza, e... obrigada pela conversa. Pensarei bastante em suas palavras.
Erza assentiu encurvando um sorriso satisfeito e se retirou do quarto, fechando também a porta. Juvia se virou na direção de sua penteadeira, onde o véu e seu buquê de rosas brancas estavam depositados, e, sem pressa, aproximou-se. Sentou-se no pequeno banco de madeira e se encarou no reflexo do grande espelho à frente, reparando sobretudo na expressão séria que esculpiu quando empunhou o véu e o prendeu no coque feito em seus cabelos.
A partir do instante que voltou àquela residência, era perceptível que havia abandonado sua verdadeira personalidade. Perder suas atitudes rebeldes de fato a descaracterizou, mas, junto a isso, o brilho vivaz de seu olhar também desapareceu, seus sorrisos não se mostravam mais alegres e as batidas de seu coração latejavam com dificuldade, atalhadas por um punhal confeccionado em tristeza que fora fortemente cravado em seu peito desde o instante em que viu seu amado partir.
Relembrou-se de tal cena infeliz durante todos os dias desde que saiu da mansão de sua tia. Porém, naquele dia em especial, rememorar-se dela fazia com que o desejo insano de fugir dali para se reencontrar o homem que realmente amava se tornasse altamente insistente, quase impossível de não acatar. Sentia vontade de amarrar vários lençóis de cama, a fim de improvisar uma corda, sair pela janela e correr para qualquer lugar, como algumas já fizera vezes na época em que era mais nova para tentar escapar das aulas que seus pais tentavam lhe impor. No entanto, diferente daquelas situações passadas, isso já não lhe era mais possível.
Tinha plena consciência de que se fizesse aquele ato infantil, logo seria capturada; afinal, seu vestido de casamento não foi costurado para lhe proporcionar qualquer agilidade ou ajudá-la a correr, e, além disso, aventurar-se daquela maneira arriscada em um período ainda tão delicado poderia fazê-la perder, talvez, a única coisa capaz de lhe trazer alegria novamente...
Uma de suas empregadas bateu à porta três vezes, libertando-a de sua mente.
— Srta. Lockser, está pronta?
— Sim, estou — falou pegando o buquê antes de se levantar de seu lugar e dirigiu-se à porta, não demorando a abri-la.
— A carruagem já a aguarda — avisou ao mirá-la com um pequeno sorriso gentil destacando-se nas linhas de seus lábios finos.
— Obrigada — ela obrigou os cantos de sua boca a se curvarem brevemente para cima, dando os passos necessários para sair de seu aposento.
A dama segurou a saia armada de sua veste para que não a atrapalhasse e seguiu silenciosa pelo trajeto que percorria, sendo escoltada pacientemente pela serviçal até o salão principal, onde todos os outros empregados da mansão estavam reunidos e arrumados em fila, próximos às grandes portas.
— Agouramos-lhe felicidades, Srta. Lockser — declarou a empregada mais antiga da casa, dando um passo à frente assim que a outra serviçal se afastou, juntando-se aos demais. — E também esperamos que não demore a nos visitar!
— Obrigada. Farei o que puder — disse calma, compelindo-se a sorrir.
Assim que a criada retornou ao se lugar na fila, Juvia endireitou a postura, tornou-se para frente e cruzou as portas abertas em um caminhar lento, preservando no trajeto até a carruagem a elegância que sua tia sempre lhe exigia no andar. Entrou no veículo sendo ajudada por duas serviçais que a seguiram pouco mais atrás e que fecharam a porta para que o cocheiro não mais delongasse e começasse a levá-la.
A Lockser pousou as rosas ao seu lado e abaixou a cabeça ao segurar-se forte no tecido branco de seu traje, tentando reprimir a imensa quantidade de lágrimas que teimava a se acumular em seus olhos. Todavia, era impossível.
Doía ter que abandonar todo o futuro amoroso que construiu em sua imaginação apenas para atender aos caprichos de sua família. Machucava-a profundamente saber que, por causa de dinheiro e poder, a partir daquele dia, teria que agradar um homem que jamais seria capaz de amar agindo como uma esposa carinhosa durante o dia, e, à noite, tornando-se a mulher dele para lhe conceder prazer e conceber os filhos que seriam gerados em relações sem amor.
Uma lágrima inundada de aflição escapou de um dos seus olhos. Entretanto, fora forçada a interromper o começo de seu pranto ao ser assustada por um repentino solavanco que bruscamente a desequilibrou.
Ela enxugou a lágrima e olhou através da janela que tomava quase toda a porta da carruagem, curiosa com caminho distinto que tomavam e a velocidade pouco mais acelerada dos cavalos. Pensou em pedir explicações para saber por qual trajeto estava sendo levada ao parar seus olhos no retângulo aberto que geralmente era usado para se comunicar com o condutor, mas, hesitou, preferindo não se pronunciar.
Em dois minutos, o balançar tornou-se mais frequente conforme seguia ainda mais rápida pelo estranho percurso que a induzia a se prender fortemente à beira do estofamento negro para tentar se manter equilibrada e, involuntariamente, contribuía para que começasse a sentir alfinetadas de um enjoo ainda mais intenso do que os que sentia na manhã dos últimos dias.
Juvia pousou a mão sobre o ventre e murmurou um xingamento grosseiro contra o inconsequente cocheiro e a velocidade perigosa que ele adotou um segundo antes de colocá-la sobre o estômago e respirar fundo, procurando abrandar a sensação terrível que passou a incomodá-la, mas sem muitos efeitos.
— Com licença... — tentou chamar a atenção do homem com a voz sutilmente afetada pelo desconforto. — Senhor, conduza mais devagar, pois não estou me sentindo bem com todo este balançar, e... — outro solavanco a desequilibrou, quase fazendo-a cair — E-E esse caminho, ao menos... se parece com o caminho da igreja...
Ele não respondeu, preocupando ainda mais a jovem lady que estava a pouco de vomitar.
— S-Senhor — insistiu —, não ouv...
— Desculpe-me, Lockser — cortou-a a característica voz masculina grave e orgulhosa que, ao invadir seus ouvidos, fez com que seu coração pulsasse forte, seus olhos se arregalassem, prestes a marejarem de felicidade, e um grande sorriso que há dias não exibia enfim voltasse a brotar em seus lábios —, mas não é à igreja que a levarei.
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