Broken
15 Capítulo 15
POV EMILY
Podem começar!
Prova prática é a coisa mais divertida que existe na faculdade. Sério! É tenso, mas depois fica muito legal, pelo menos se você estudou.
Eu tinha apenas 30 segundos pra identificar um músculo que era marcado por um pequeno alfinete colorido, depois desse tempo o professor mandava trocar e eu ia pra mesa seguinte, onde já estava outra parte humana com um alfinete estrategicamente colocado.
Depois de identificar as 20 peças, 19 corretamente, eu acabei a prova. 9,5, nada mal.
Saí da sala e fui para um dos pátios da universidade. Meu humor ficava cada vez melhor, por vários motivos, minha irmã vai passar o fim de semana em casa, fui muito bem na prova e porque a Alison aceitou minha proposta de "passeio semanal" e será amanhã.
Queria que fosse hoje, mas tenho monitoria marcada à tarde e a noite, então combinei com a Alison pra sairmos na quarta, assim que minhas aulas encerrarem eu irei pegá-la em casa e iremos primeiramente comer, claro e depois a levarei ao jardim botânico. Espero que ela goste.
Xx: E esse músculo aqui Emily, qual é?
Emily: Esse é o pronador quadrado. Vê o formato dele? – apontei para o músculo em questão, situado no pulso do cadáver.– Ele é responsável pela pronação do antebraço.
Estava na segunda das quatro aulas de monitoria e apesar de não ganhar nada na questão financeira e no currículo, já que só posso fazer exame para monitoria no quarto período, eu gostava de ajudar os alunos que me pediam e na verdade isso me ajudava também, pois eu fixava o conteúdo e ficava cada vez mais preparada para o exame oficial.
Xx: Emily, seu celular. – Jason me avisou.
Emily: Ah, obrigada. – olhei no visor e era Alison.
Senti uma coisa ruim no peito, na primeira e única vez que ela me ligou seu estado era horrível. Tomei uma longa respiração enquanto retirava as luvas de látex e desbloqueei a tela.
Lauren: Oi Ali.. – minha voz saiu hesitante
Xx: Emily? É a Emily? – uma voz de mulher soou e eu tive a certeza de que havia algo errado.
Emily: Sim, é ela. Quem é você? Onde está a Alison? Por que você está com o celular dela? – meu coração já estava batendo à mil.
Xx: Me chamo Ana, eu trabalho na conveniência do posto de gasolina da rua sete, você sabe onde fica?
Emily: Sim, eu sei mas cadê a Alison? o que está acontecendo?
Voltei correndo pra sala e disse aos alunos/colegas que precisava ir embora. Peguei a bolsa e corri pro estacionamento.
Ana: Ela está aqui, não para de chorar, eu não sei o que fazer.
Emily: Mas ela está bem? Ela está ferida? – arranquei com o carro, ignorando o limite de velocidade dentro da universidade.
Ana: Não, ferida não, ela parece assustada. Ela não me falou nada, apenas ficava repetindo seu nome, chamando você. – meus olhos se encheram de lágrimas. Meu Deus, minha menina estava precisando de mim.
Emily: Olha, eu já estou à caminho. Por favor, fica de olho nela, não deixa ela s-sair d-aaí. – solucei ao final da frase.
Desliguei e como num déjà vu, saí disparada pelas ruas de Miami em busca da frágil garota que mais uma vez está precisando de ajuda.
Estacionei de qualquer jeito no posto e corri em direção à lojinha. Minha respiração estava pesada, o sangue pulsava dolorosamente em minhas têmporas e eu não enxergava nada à minha frente até que finalmente empurrei a porta de vidro e dei de cara com uma moça ruiva e alta atrás do balcão. Presumi que fosse Ana.
Emily: ONDE ELA ESTÁ?
A moça ruiva simplesmente apontou para o último corredor da pequena loja, e imediatamente eu entendi o que ela quis dizer. Respirei fundo, passei as mãos pelo rosto e caminhei calmamente até o local onde Ana havia indicado.
Meu coração desmanchou e a vontade de chorar só aumentou no momento que eu enxerguei aquela cena. Alison estava sentada no chão, encolhida no canto de uma máquina de refrigerante desligada. Cabeça baixa, abraçando os joelhos e soluçando baixinho.
Engoli a vontade de chorar, pois agora tinha que ser forte pra ela. Mais uma vez respirei fundo e me aproximei devagar, parei bem na sua frente e agachei.
Emily: Alison? – chamei-a com a voz mais doce que eu consegui.
Num movimento extremamente rápido, Alison saltou e passou os braços em volta do meu pescoço, onde começou a soluçar mais alto.
Emily: Ei, calma eu estou aqui... – sussurrei em seu ouvido enquanto deslizava as mãos pelas suas costas. – Vamos embora. – fiquei de pé, mas seu aperto em mim continuou o mesmo.
A afastei um pouco pra poder olhar seu rosto. Seus grandes olhos azuis agora estavam vermelhos e inchados. Sua face encharcada por lágrimas, e seus lábios estavam trêmulos. Puxei-a para meus braços de novo, apertando-a com força. Deus, o que aconteceu com ela?!
Emily: Vou te levar pra casa. – afastei-a novamente, dessa vez pegando em sua mão.
Alison: N-não. – apertou minha mão com muita força.
Emily: Você não quer ir pra casa? – perguntei confusa. – Você quer ir pra onde?
Alison: Quero ficar com você. – murmurou sem graça.
Emily: Então eu vou te levar pra minha casa, tudo bem?
Alison apenas acenou com a cabeça e nós fomos andando em direção à saída. Antes eu agradeci a moça que me ligou e peguei de volta o celular da Alison. Queria ter conversado mais com a garota, saber os detalhes do acontecido mas Alison estava muito desconfortável, e claramente queria sair dali o mais rápido possível.
Alison chorava baixinho durante todo o percurso até minha casa. Quando eu parava num semáforo fazia questão de segurar e afagar sua mão. Em menos de dez minutos eu já estava estacionando na garagem de casa. Desci do carro e dei a volta para abrir a porta pra Alison.
Emily: Vamos. – peguei sua mão.
Entramos pela porta dos fundos, sabia que não tinha ninguém em casa, meu pai ainda está em Orlando e o Mike nunca chega antes das dez. Acendi as luzes da casa e caminhei com Alison até o balcão na cozinha, fazendo-a sentar num dos bancos.
Emily: Toma isso. – dei-lhe um copo com água, que ela bebeu lentamente, pois suas mãos ainda estavam trêmulas. – Você quer me contar o que aconteceu? — Eu não tinha certeza se deveria perguntar, mas eu estava muito preocupada.
Alison apertou os olhos e começou a chorar de novo. Merda!
POV ALISON
Lembrei onde estive essa tarde e o que aconteceu, então foi inevitável, meus olhos começaram a arder de novo e as lágrimas já caiam intensamente.
Emily: Por favor não chora. Eu não vou insistir para que você me conte nada, você sabe. – se aproximou. – Vem, vamos pro meu quarto. – pegou minha mão e nos conduziu pelo lance de escadas.
Mal chegamos ao cômodo e Emily disparou novamente.
Emily: Eu sei que você não quer conversar sobre isso, eu entendo. Mas eu preciso falar com seus pais, eles não sabem onde você está, sabem?!
Alison: Não. – abaixei a cabeça.
Emily: Tudo bem, me dê seu celular que eu resolvo isso. – entreguei o aparelho. — Já volto. – saiu do quarto.
Apesar do momento não ser o ideal, pude finalmente conhecer a casa da Emily.
Bem, o térreo eu admito que mal prestei atenção, mas aqui sentada em sua confortável cama box queen size, vi todos os detalhes do seu quarto. Era um pouco maior que o meu, as paredes pintadas num tom de verde davam um ar adulto ao ambiente, porém sóbreo. Os móveis eram brancos, todos eles de extremo bom gosto, modernos, funcionais, bem a cara da Emily.
De frente para cama havia um painel também branco com detalhes na cor tabaco, que acoplava uma grande televisão de plasma e um home theater. Na escrivaninha havia pelo menos duas dúzias de livros, mais uma penca de papéis e apostilas, todos metodicamente organizados. Na parede do lado direito havia duas pequenas prateleiras, com cerca de um metro de comprimento. Na de cima, o de sempre, porta retratos e troféus. A de baixo é que me surpreendeu, ela era repleta de miniaturas de vários personagens da Disney. Entre eles: Lilo e stitch, Simba, Patolino, e várias princesas. Nunca imaginei que Emily teria uma coleção desses bonequinhos.
Emily: Voltei. – apareceu na porta com uma bandeja cheia de guloseimas. – Já falei com seus pais, hoje você dorme aqui. – Falou alegremente.
Minha expressão endureceu. O que meus pais haviam dito pra Emily?! E como assim dormir aqui?! Emily percebeu minha reação e seu sorriso havia se transformando numa expressão de dúvida e receio.
Emily: Quer dizer, se você quiser é claro. E pode ficar tranquila, eu apenas contei que você estava comigo e pedi que lhe deixassem passar a noite aqui, mas se você ainda quiser ir pra casa eu..
Alison: Não! Está ótimo. – a cortei. – Você fez tudo certo...como sempre. – sussurrei a última parte.
Emily: Ótimo! – seu sorriso voltou. – Que tal vermos um filme?
Alison: Aham.
Emily sentou do outro lado da cama, colocando a bandeja entre nós duas. Nela havia de tudo, frutas, biscoitos, nutella, salgadinhos e outras coisas.
Emily: Você quer tomar um banho antes? Trocar de roupa?
Só agora me dei conta de que estou de tênis na cama limpa e perfeita da Emily. Corei envergonhada jogando as pernas pra fora da cama.
Emily: Ei, não é por isso. – sorriu. – é que você não vai conseguir dormir com essa roupa, é desconfortável. — Eu vou pegar uma roupa minha pra você. – levantou e abriu o closet.
Vi as prateleiras e os cabides apenas de relance, mas foi o suficiente para me deixar boquiaberta. A organização dessa garota era uma coisa de outro mundo. Tudo era bem arrumado e dividido. Rapidamente ela voltou com uma pequena pilha de roupas.
Emily: Aqui. – colocou-as em cima da cama. — Acho que irão servir.
Olhei atentamente para as peças, ela havia trazido uma toalha, junto com uma camiseta da universidade de Miami e um shorts de algodão. Shorts?! Não, não mesmo.
Alison: Você não tem uma calça? – pedi sem jeito. – é que eu sinto muito frio. – Menti. Apesar de eu realmente sentir frio, a razão principal não era essa.
Emily: Claro, só um minuto.
Dessa vez Emily abriu uma das gavetas e pegou a primeira peça que viu, uma calça de moletom preta.
Emily: Aqui está. – entregou a calça. – Pode tomar banho no meu banheiro, eu usarei o do corredor, assim ganhamos tempo.
Alison: Tudo bem. Obrigado.
Tomei um banho rápido, pois decidi não lavar os cabelos. Vesti a roupa de Emily e não resisti, acabei levando o tecido da blusa que já estava em meu corpo para o nariz, inalando o delicioso e inebriante perfume dela. Não sei se isso é um pensamento normal, mas eu tinha que admitir, desde o dia da tempestade, quando descansei sobre seu corpo, esse cheiro havia se tornado o meu favorito.
Saí do banheiro e Emily já estava sentada na cama, mexendo na televisão. Ela vestia uma camiseta amarela e um shorts cinza, acho que era o mesmo que ela havia me oferecido antes.
Emily: Vai começar 'ele não está tão afim de você". Você já viu esse filme?
Alison: Já sim, muito bom. – sentei na cama.
Emily: Então será esse!
…
Já havíamos comido quase tudo na bandeja, e o filme estava perto de acabar. Emily então recolheu a pouca bagunça que havia na cama e levou tudo lá pra cozinha. Minutos depois voltou com uma pequena garrafa de água e me entregou. Qual é? Essa garota lê pensamento ou..
Alison: Obrigada. – bebi todo o líquido e coloquei a garrafa vazia em cima do criado mudo à minha direita.
O filme acabou e eu olhei para o relógio, dez e vinte e nove.
Emily: Vamos dormir né?! – nem esperou minha resposta, já desligou a televisão, deixando o cômodo parcialmente escuro, já que o abajur sobre a escrivaninha continuava aceso.
Alison: Eu não estou com sono. – protestei. – e você vai dormir com seu irmão ainda na rua? – estávamos deitadas uma de frente pra outra.
Emily: Ali, o Mike já está dormindo. – sorriu. — Quando levei a bandeja pra cozinha, eu passei pelo seu quarto, ele está lá, dormindo feito uma pedra. E você está com sono sim.
Abri a boca tentando protestar mas ela me interrompeu. — Alison você é linda, mas me desculpe, sua cara tá um caco. – Sorriu. Ela disse que eu sou linda? Meu Deus..
– Eu sei que é um ambiente estranho e que você não dorme fora de sua casa há muito tempo, mas não precisa ter medo, eu estarei aqui do seu lado. – me assegurou.
Me enrolei ainda mais no edredom, e fechei os olhos com força, tentando pôr na cabeça tudo isso que a Emily acabou de falar, mas eu não conseguia me sentir bem, me sentia literalmente uma estranha no ninho.
Emily: Venha aqui. – fez sinal com os braços, indicando onde eu deveria me deitar. – Vou te fazer cafuné até você cair no sono.
Parece que ela estava adivinhando, tudo o que eu mais queria era sentir aquele cheiro à noite inteira e o melhor, direto da fonte. Sem hesitar, aproximei meu corpo do dela, encaixando minha cabeça em sem peito e o rosto em contato direto com seu pescoço. Um dos seus braços me envolveu, colando ainda mais nossos corpos, sua mão livre acariciava meus cabelos lenta e carinhosamente bem. Fechei os olhos, relaxando meu corpo e minha mente.
Tudo estava perfeito. Eu estava literalmente no paraíso.
Paraíso esse que possui nome, sobrenome e um cheiro maravilhoso...
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