Bring Me the Mermaids
34 Play with Water
Notas iniciais
Espaço Gaisa
O ambiente sereno possibilitava aos presentes a oportunidade para reflexionar. A mesa baixa constituída de alimentos simples, como frutas e legumes, permitia com que os hóspedes purificassem seus corpos e somando com a presença da jovem Sacerdotisa, não somente o ambiente físico, mas o astral também se tornava imaculado, resultando em um espaço perfeito para descanso. Os poucos convidados encontravam-se com a mente afastada da realidade, mas diferente destes, a pequena Sacerdotisa perdia-se em monotonia.
Talvez, se estivessem em outra eventualidade, a pequena conseguiria estar em estado de meditação. Os olhos castanhos perdiam-se, a comida posta na mesa não era levada a sua boca e o corpo aguardava um motivo satisfatório para mover. Seu aborrecimento era fácil de perceber, as feições perdidas que, em conjunto com o corpo, fazia uma combinação prática do sentimento que a jovem estava sentindo.
Sem conseguirem ir adiante com os pensamentos calmos, os convidados passaram a observar a Sacerdotisa, esperando com que esta acordasse de seu transe, porém os olhares intensos não atraiam sua atenção. Em busca de respostas, procuravam olhar para o servo, mas este encontrava-se tão confuso quanto eles. Não era um comportamento normal, ainda mais quando a azulada, em sua rotina, demonstrava ser animada. Sem saber o que fazer, o jovem deu de ombros, se não sabia o que era, não adiantaria tentar algo.
Diante disto, os outros resolveram tomar seu comportamento como exemplo e voltaram a ficar em silêncio. O único barulho capaz de ser escutado era dos talheres em contato com os pratos, sequer os respirar dos habitantes da ilha era ouvido. O tempo passara e os convidados finalizaram suas refeições, sendo recomendado a eles que fossem caminhar pela ilha, podendo sentir o ar cristalino e ter corpo e alma purificados. Para que a Sacerdotisa não ficasse sozinha, o servo ficou ao seu lado.
— Mestra… – A jovem respondeu murmurando. – Por favor, se alimente.
— Não sinto fome, Romeo. – O servo suspirou descontente. – Hoje, neste atual momento, não sinto necessidade de viver.
O comentário assustou-o. Frases que davam o significado de morte não deveriam ser falados por uma Sacerdotisa como ela, que carregava consigo um dom da vida e purificação. A feição espantada do jovem atraiu a curiosidade da azulada, que ao perceber a situação, sorriu o tranquilizando.
— Não é como se a morte fosse vir me cumprimentar de forma espontânea. Sabes que é necessário além de vontade para que isto ocorra.
— Vossa Santidade não deveria ter tais desejos impuros.
— Este mundo não sofrerá caso tenha um pensamento assim, além do mais, para que meus pensamentos tornem-se impuros, é necessário que meu corpo se torne imoral. – A Sacerdotisa sorriu de lado, colocou o cotovelo na mesa e apoiou sua cabeça nele. – É impossível que a Sacerdotisa do Céu seja poluída.
— Ainda temo por sua vida, Mestra.
— Romeo… A vida é apenas um nobre momento na qual vocês, humanos, tem a conveniência de realizar objetivos banais e promessas vazias. Para os seres imaculados, a vida é mais do que apenas realizar os mais profundos desejos.
Os vagos olhos da Sacerdotisa davam a sensação que a alma da jovem poderia se perder a qualquer momento. Por um segundo, Romeo pensou que o fato da azulada estar em sua atual posição não a fazia sentir satisfação, pelo contrário, aparentava estar se submetendo a sua função por obrigação, a levando sofrer a cada novo dia. Sua linha de pensamento não estava errada, mas também não queria dizer que a Sacerdotisa de fato sofria com sua vida.
O sofrimento existia, no entanto, a origem do sentimento era outro.
— E para a Senhora?
A pergunta repentina deixou a azulada surpresa. Esperava que o jovem humano lhe respondesse com falas simples de consolo. A Sacerdotisa olhou para o servo, percebendo em sua feição a curiosidade e preocupação nos olhos azuis.
— Para mim… As obrigações que devem ser feitas, já cansei-me delas. – Tocou sua mão no rosto de Romeo. – Sinto inveja de ti, que podes mudar e morrer quando o tempo passa. Infelizmente, minha existência é para os outros, não para mim.
Finalizou suspirando. Romeo não sabia o que responder, preferindo ficar em silêncio. Para não preocupar mais o servo, a azulada passou a se alimentar devagar. Em seus pensamentos, ser uma Sacerdotisa do Céu lhe dava mais obrigações que prazer. Com poderes de purificação, não somente como deveria deixar o ambiente que vive imaculado, mas também outros espaços astrais. Alguns seres dependiam da áurea santificada que apenas a Sacerdotisa era capaz de criar.
No entanto, havia duas coisas que a azulada gostava.
Sua alma entrava em êxtase quando conseguia salvar uma vida, algo que não ocorre há tanto tempo. Se sua memória não falhasse, a última vida que salvou foi a de seu servo, e este feitio já tinha sido realizado há trinta anos. Infelizmente, para que Romeo continuasse a sobreviver em Gaisa, era necessário realizar constantes sessões de purificação, uma vez que o arquipélago da Sacerdotisa carregava um ambiente pesado demais para o humano aguentar.
Não havia segredos que poderiam escapar da Sacerdotisa. Mesmo que medidas drásticas fossem tomadas e magias fossem efetivadas, os desejos e pensamentos contidos no interior de qualquer ser era descoberto por ela. Para além, todo e qualquer ato realizado pelas existências nos universos, era percebido primeiramente por ela. A Sacerdotisa gostava desse dom, conseguia avaliar os seres em sua verdadeira natureza, sem deixar-se influenciar por comportamentos e falas supérfluas. Contudo, não conseguia controlar a virtude.
Era algo inconstante.
E naquele momento, um novo fato havia chegado a ela. Seus olhos focaram o nada, a mão que levava a comida a sua boca, parou na metade do caminho. O rosto sério absorvia o acontecimento, e pouco tempo depois, a Sacerdotisa abriu um sorriso enigmático.
— Ora, Igneel beijará outro novamente. – A garota de cabelos azuis parou sua alimentação e olhou para o jovem ao seu lado. – Romeo, sabes há quanto tempo não ocorre este fato? – O jovem negou, e em expectativa, a azulada respondeu: – Milênios.
Animada, levantou-se da mesa e tratou de correr por seu palácio. Sem saber o que fazer, o humano levantou e correu atrás de sua Mestra. Os convidados que passeavam, observaram a azulada correr pelo local e gritaram por ela, porém as vozes ao redor não lhe eram escutadas, pois a cada passo que dava, sentia seu corpo cada vez mais leve. A azulada saiu do santuário percorrendo os caminhos que levavam ao portal elementar.
Próximo ao limite do arquipélago, a Mestra diminuiu o passo, descendo as poucas escadas que havia e, assim, alcançando o portal. Ofegante, aproximou-se mais da entrada. Levantou a mão e esticou, a abaixou lentamente para assim abrir uma fissura no ar. Colocou a cabeça para frente, podendo olhar para fora e para baixo, que era seu objetivo principal. Atrás de si, Romeo alcançava a Mestra, e diferente dela que demonstrava uma resistência maior a corrida, o jovem servo apresentava estar mais cansado. Tanto, que ao chegar no destino, sentou no chão.
— Como sabes que Igneel beijará outro humano? – Romeo falava com dificuldade.
Ela o olhou rapidamente, voltando a fixar no mundo abaixo.
— Nada escapa de mim. – Sorriu animada. – Isso será interessante.
Universo Elementar
Mundo Dreki
A noite estrelada proporcionava aos tripulantes o momento para refletir.
Os acontecimentos do dia haviam sido, de certa forma, exaustivos. Não tinham realizado grandes aventuras pela ilha, mas as novidades certamente os fizeram pensar consigo mesmo. As coisas já não eram mais as mesmas, a própria essência da tripulação e da Fairy Tail havia mudado, não demorou para perceber e eles não precisavam de muitos exemplos, a mudança significativa de Laxus e Natsu comprovava esse pensamento.
De início, acharam que era devido as aventuras, mas a aparição de Igneel deixou a resposta pronta. A filosofia da Heartfilia e seus companheiros faziam com que certos comportamentos mudassem, e essa transformação alterou não somente o olhar sobre um evento, mas também o relacionamento que haviam desenvolvido. O diferencial desse novo local, pelo menos para alguns, é que no navio não tinham a chance de refletir, e agora essa prática estava sendo quase obrigatória.
Memórias que queriam ser esquecidas passaram a serem lembradas com um olhar crítico e melancólico. Suas vidas começaram a ser pesadas e comparadas: estariam vivendo ou sobrevivendo? Era pelo desejo absurdo do capitão ou por sua própria vontade? Eles tinham objetivo em sua vida?
Eles não sabiam a resposta, mas também não esperavam encontrar naquele momento. Pelo que foi entendido, ficariam naquele arquipélago durante boa parte do tempo, afinal, Natsu foi escolhido para alguma coisa e a aparição de Jellal talvez tivesse algum significado. Usariam esse tempo para achar suas respostas, se o capitão conseguiu ficando sozinho, por que eles não conseguiriam? Não seria algo tão difícil de fazer.
Por enquanto, se preocupariam em tentar dormir na noite estrelada. Embora quisessem fechar os olhos para descansar, o céu do mundo de Igneel era encantador. As ilhas flutuantes decoravam o espaço escuro, e por não haver nenhuma iluminação provinda da terra, diferentes estrelas apareciam para os humanos. Alguns tripulantes, percebendo que não conseguiriam dormir, sentaram na grama e passaram a observar o campo a sua volta.
Para não atrapalharem o sono dos outros, o pequeno grupo se juntou e passou a conversar sobre o arquipélago, os seres que habitavam e em como a vida deles mudou da noite para o dia. O grupo consistia em quatro pessoas que pouco convivia dentro do navio, mas que agora estavam surpresos por se verem conversando sobre diferentes assuntos. Era inacreditável o quanto Gajeel poderia ser falador e reflexivo.
Diferente dos três, o moreno pensava mais do que a vida simples que estavam tendo. A resposta do capitão diante do Dragão o obrigou a analisar seu objetivo de vida. Não era tão fácil a resposta. Ele entrou na Fairy Tail querendo força para conseguir se vingar, mas sendo um pirata, percebeu que não teria tempo para o ato. Decidiu esperar quando estivessem em terra novamente, porém quando ancoravam, estavam longe de seu país, o impossibilitando de, pelo menos, fazer visita a terra natal.
Então, com tanta dificuldade, esperou quando o capitão, em sua boa vontade, tivesse vontade de ir para o país natal de Gajeel. Mas, para fazer sua situação ficar complicada, a chegada da Heartfilia atrasou cada vez mais sua vingança. E, diante desse momento solene, Gajeel começou a refletir se valeria realmente a pena se vingar. Sua vida girava em torno de um objetivo, e de repente, parece que havia muito mais coisa a se fazer enquanto estava vivo.
O fato de estar na ilha com os demais aumentou suas reflexões. Imaginava que os tripulantes da Fairy Tail gostava apenas de farra, ele próprio se colocava dentro da descrição. Talvez pensasse equivocadamente de seus companheiros, supondo que suas vidas foram fáceis e que viviam no mar por pura vontade, sendo que alguns viviam em memórias de seu passado. Lembrou-se de Bisca e Alzack, quando foram na ilha e foram obrigados a relembrar de fatos que marcaram suas vidas.
É, ele não poderia comparar sua vida com os outros.
— Eu vim para o mar para fugir dos meus problemas. – Um tripulante falou. – Viver onde estava era difícil e poderia morrer facilmente, se não fosse o capitão. Devo minha vida a ele.
— Se envolveu com coisa errada, com certeza disse para o capitão que dava sua vida para ele, se ele ajudasse você. – Outro tripulante respondeu e o pequeno grupo riu. – Sempre quis ser almirante da guarda nacional, mas minha família é pobre e nunca me deram a chance. – Deu de ombros. – Sempre fui tratado como ladrão, no final, acabei me tornando um.
— Ladrão para eles, heróis para nós. – Gajeel observou os demais. – O mar não é lugar para pessoas sinceras, depois de anos você entende que trapacear te leva para vários lugares. – Os outros concordaram. – Mas, não importa o quanto eu viva e o que consigo ter, ainda acho que não serei feliz se não conseguir me vingar.
— É… Também penso nisso. – Um pirata atraiu sua atenção. – Mas a minha vingança pode me trazer a morte, é certo. Minha irmã foi estuprada por homens da guarda real e, por causa disso, ela vive miserável em um bordel. Mas é tão engraçado a vida, antes queria matar os desgraçados que fizeram a vida da minha irmã o inferno, agora só quero tirar ela daquele lugar e ensinar que é possível viver. Só que…
— Quem somos nós para ensinar isso, não é? – Gajeel completou.
— É… Queria trazer ela pro navio, mas quando penso em tudo que aconteceu com ela, não consigo pensar no que é pior: trazer ela e os caras tentarem alguma coisa ou deixar no bordel e continuar sofrendo. – O pirata riu em desgosto. – Sou um péssimo irmão.
— Se pensa assim, imagina a gente que também tem história. – O segundo pirata respondeu. – Mas, sabe que depois de ver essa ilha e depois com a Heartfilia com a gente, percebi que não vivi. Quero ver mais, sentir mais e conhecer mais. Não sei se quero ficar no navio mais.
Os outros assentiram e ficaram em silêncio, finalizando a conversa em estado de reflexão. Por mais que tivessem experienciado terríveis momentos no passado, não era algo que influenciava diretamente com seu presente. Eles sentiam vontade de tornar-se melhor do que estavam acostumados a ouvir, mas lhe faltavam oportunidades e, somando a incapacidade de conseguir consertar seus pecados, viam-se em estado de inatividade. Era óbvio: um dia conseguiriam realizar seus desejos, mas quando seria esse dia?
Acabavam por pensar no momento atual, de forma inacreditável, se encontravam em um lugar inalcançado a mãos humanas, com seres que eram, em suas crenças, lendas e histórias para crianças se divertirem. Os acontecimentos eram espantosos e, ao mesmo tempo, incríveis. Até dado momento, imaginavam ter vivido grandes aventuras e experienciado anormalidades que ninguém mais do mundo havia vivido. Porém, a demonstração de diferentes planos astrais e a revelação de outras existências diferentes das suas, os fizeram repensar em como a vida poderia ser constantemente transformada.
Suas vidas não eram mais as mesmas, e após tanta mudança, começaram a acreditar que a morte poderia ser a última fase em que querem passar. Sem terem nada a acrescentar na conversa, os piratas voltaram para seus lugares e se prepararam para descansar. Algo dizia a eles que o dia seria um tanto quanto complicado.
Dormiram olhando para as estranhas estrelas, deixando seus pensamentos serem guiados pelo excêntrico infinito acima.
[…]
No atual estado dos tripulantes, prever comportamentos era uma tarefa um tanto impossível. A ideia de fugir não poderia ser aplicada, a ilha não era próxima de casa e havia uma diversidade de dragões a volta. Mesmo que fizessem um barco para passar pelo mar, não seriam capazes de estar próximos a civilizações humanas. Abandonar tornou-se uma palavra desconhecida do vocabulário, e tomado conhecimento disso, os seres dotados de poderes decidiram separar os piratas pela ilha e apresentar a casa na qual os Dragões vivem.
Não havia organização dos tripulantes, então para auxiliar no processo foram formados quatro grupos, sendo liderados por aqueles que conviviam com o passado e sabiam como ajudá-los de alguma forma. Para os desesperados e medrosos, a Heartfilia levaria para um local tranquilo, onde poderiam desfrutar do ambiente calmamente e permitir com que suas mentes fiquem livres de preocupações. O medo era perceptível, mas a loura acreditava que receios poderiam ser vencidos com boas experiências, e ela proporcionaria tal momento. Foi surpreendente perceber que quase toda a tripulação estava próxima da sereia, inclusive as duas líderes da frota, Mirajane e Erza. Embora o desespero seja sentido, ver ambas naquele grupo os faziam se sentir aliviados, se elas estavam dessa forma, então não seria vergonhoso demonstrar.
O medo era uma emoção perceptível, mas também havia perguntas que precisavam ser respondidas. Clima, céu, ilhas, dragões, os piratas queriam saber do “porque” e “como” da existência desses. Jellal ficou responsável por aqueles que sentiam carência de conhecimento, e por imaginar que ouviria todo tipo de pergunta, liderou o grupo para uma área que pudesse ter descanso mental e, ao mesmo tempo, possa utilizar exemplos para esclarecer melhor as dúvidas. Não foi surpresa nenhuma ver que Laxus e Makarov encontravam-se nesse meio, não depois do primeiro contato que o Dreyar mais velho teve com o azulado.
Os piratas que se encontravam em estado de tranquilidade, seriam guiados por um Dragão, designado por Igneel, para que conhecessem a ilha e estivessem confortáveis com o ambiente. Era estranho ser levado por um Dragão, mas depois da aventura que vivenciaram e do que estavam experimentando, não ligaram para o fato. O último grupo seria para aqueles que tinham dúvidas em seu interior, que após terem passado por tantos acontecimentos em suas vidas, não sabiam o que pensar. A lógica simples que estavam acostumados já não era mais bem-aceita, e para os perdidos em pensamento, Juvia assumiu a responsabilidade de ajudá-los a se acharem novamente.
Antes de serem levados para os locais, os piratas ficaram no limite da clareira principal, mas em vez de estarem virados para a mata, eles olhavam Igneel e Natsu. O processo de aprendizado do rosado começaria naquele momento, portanto era necessário com que os outros fossem mantidos longe. Era difícil imaginar que algo de bom ocorreria com o capitão, devido as últimas experiências, os marujos acreditavam que Natsu sofreria no meio do caminho. E embora o capitão tenha sido cruel com eles em diferentes ocasiões, os tripulantes desejavam internamente que ele não sofresse.
Não era possível saber para onde iriam, mas eles seriam separados e era bastante provável que se encontrariam novamente a noite. Liderados por Juvia, Heartfilia, Jellal e o Dragão, os grupos foram descendo a colina ansiosos pelo que viria. Aos olhares de humanos normais, a floresta era parecida como a que tinha em sua terra natal, mas com o diferencial de haver seres considerados como mitos. Durante o caminho, alguns pequenos dragões passavam por eles, curiosos para saber quais existências novas estavam em seu lar.
Alguns se surpreendiam, outros ficavam assustados, mas os líderes eram capazes de demonstrar que não havia motivos para movimentos extremos. Aos poucos, os quatro foram chegando aos seus destinos. O jovem Dragão levaria os demais, primeiramente, para a praia, podendo apresentar o início. Jellal optara por uma clareira florida e com diferentes rochas que decoravam o ambiente. A Hearfilia levou-os para uma cachoeira que descia em cascata e levava a sua água para uma lagoa aberta. Juvia resolveu guiar para uma área silenciosa, onde os únicos visitantes seriam pequenos animais, como borboletas e pássaros.
O ambiente surpreendia o pequeno grupo, que juravam que seriam levados para um lugar perigoso. A área silenciosa era uma clareira decorada com uma lagoa fechada, as folhas das árvores eram coloridas e conforme o vento balançava os galhos, as folhas pousavam delicadamente pela lagoa, a tingindo. A grama não cobria a clareira por inteiro, próximo ao lago, a relva era substituída por areia. Os piratas se aproximavam calmamente, absorvendo a energia que aquele local carregava.
Sentaram em volta da lagoa, cada um em seu próprio mundo. Pelo tempo que passou com a tripulação, Juvia admirava o fato deles conseguirem ficar em silêncio. Em seu íntimo, acreditava veemente que eles chegariam na lagoa e pulariam sem ligar para os problemas que, muito provavelmente, os cercavam. Decidiu ficar em pé, assim poderia observar as feições dos demais e, caso visse necessidade, aproximar-se e ajudar de alguma forma. Não eram muitos em seu grupo: o trio inseparável, Levy, Lisanna e mais dois piratas a quem não se recordava o nome. No navio, costumava ficar próxima de Gajeel e Kana, os outros piratas não conviviam em sua rotina.
O silêncio no ambiente permitia captar detalhes únicos que seus olhos não conseguiam apreender. O som da água batendo na terra, o farfalhar das árvores, as músicas simples e rápidas que alguns pássaros cantavam. Até então, os piratas acreditavam que a beleza do lugar poderia ser reparada apenas com a visão, era interessante a experiência que estavam vivenciando.
— Eu vim para a Fairy Tail quando criança. Makarov ainda era o capitão quando cheguei, Gildarts ficava próximo da sede e até mesmo o pai de Gray andava com a gente. – Lisanna deitou na grama, não queria olhar para os demais enquanto falava. – Demorei muito tempo para conseguir pisar no navio, uma criança não podia fazer muito. Lembro que me fizeram ficar em um orfanato enquanto Mira aprendia com Gildarts as artes precisas e Elf aprendia o uso de armas.
— É, lembro disso. – Gray comentou. – Você era muito sozinha, detestava as outras crianças. Lembro que minha mãe precisou jogar você no meio da gente para se enturmar. – O moreno olhou curioso para a albina. – Já faz muito tempo isso, como lembra?
— É uma parte da minha vida que lembro. – Deu de ombros. – Foi bem forte essa época, é impossível esquecer.
— Muita gente morreu nessa época, também. – Kana levantou, ficando de frente para o lago. – Minha mãe morreu doente, a senhora Mika por um pirata desonesto, os pais do Laxus também, se não me engano. Perdemos muita gente.
A desolação passou a ser uma emoção naquele momento, e foi quando Juvia percebeu que era agora que deveria se aproximar. Sentou-se entre Lisanna e Gray, porém sem olhar para ambos. Preferia visualizar a lagoa do que as feições.
— As vezes me pergunto se foi certo fugir de casa e vir para a Fairy Tail. – Levy encostou sua cabeça no joelho. – Meus pais devem ter ficado bastante preocupados, imagino como eles ficaram desolados quando viram que sua amada filha havia desaparecido.
Os demais assentiram em silêncio, eles entendiam a dificuldade que a azulada passou, mas não conseguiam compreender por inteiro. Suas histórias de vida haviam sido diferentes: enquanto a McGarden havia sido criada como aristocrata, com sua vida regrada de prazeres, o grupo viveu em comunidades pobres, passando por dificuldades extremas.
— Pelo menos tem pais para se preocuparem com você. – Lisanna se manifestou, sua feição séria assustou os demais. – Ainda tenho a imagem dos meus pais serem assassinados pelos guardas da Espanha. Elf comenta as vezes que não consegue dormir por conta disso, eu choro as vezes e a Mira, com certeza, deve passar a noite acordada.
— Huh, não é a única. – Gajeel deitou na grama, sendo observado por sua amante. – É difícil pensar em como somos únicos se passamos por uma vida de sofrimentos. Mesmo com aquele dragão falando coisas bonitas, não tem como tirar da cabeça que só consigo viver se punir o que mais me fez mal.
— A vingança, por mais que seja deliciada em seus pensamentos, não deve ser realizada, Gajeel. – Juvia levantou-se, entrando na lagoa e retirando suas roupas. – Sua alma será corrompida pelo tempo e não será capaz de sorrir novamente.
— Juvia, sua vida deve ter sido a mais agradável.
— Pelo contrário, Kana. – A sereia colocou o cabelo para o lado e virou a cabeça para trás, olhando o grupo pelo ombro nu. – Por ter vivido bastante que sei o que é sofrimento. Sei a dor de perder alguém, de sentir sua existência inútil e também sei do desejo da vingança. A diferença entre nós é o tempo de vida, pois nossos pensamentos seguem o mesmo fluxo. – Finalizou mergulhando.
A frase impactou os demais, que se pegaram pensando o quão velha a sereia seria. A azulada emergiu, desta vez virada para o grupo. O corpo transparente surpreendeu os demais, imaginavam que veriam o corpo nu de Juvia. Ao mesmo tempo que era surpreendente, para os homens era desanimador. Esperavam ver, pelo menos, uma parte boa da sereia.
— Ah! Entendi agora! – Levy exclamou, atraindo atenção. – Sereia da água porque você absorve o elemento no seu corpo. Faz todo sentido agora.
— Levy pensa rápido. – Juvia sorriu. – Mas, não é somente por isso. Controlo qualquer líquido, independente dele. Quando entro em contato com a água, posso fazer dele meu corpo. Por exemplo, agora esta lagoa tornou-se uma extensão do meu corpo.
Levantou um braço para demonstrar, causando surpresa para os piratas. É certo dizer que, de todas as imaginações possíveis, não chegariam na conclusão propriamente dita. A imagem chegava próximo a uma apresentação de rua, que por ser incrível, os piratas aplaudiram para ela e, com o objetivo de brincar com a sereia, pediram por mais e acrescentaram que pagaria melhor caso ela melhorasse o truque. Os pedidos eram bem recebidos, porém a sereia não sabia o que responder no quesito pagamento. Ela não precisava de dinheiro, como eles pagariam?
A brincadeira era tanta, que os tripulantes se viram na necessidade de entrar no lago. Primeiro começaram a se molhar, depois que perceberam que estavam encharcados e a culpa não era deles, e sim de Juvia, partiram atrás da azulada para puni-la. Só havia um problema: como ela se misturava com a água, dificilmente pegariam. Quando estavam próximos, a azulada virara uma com a lagoa e movia para outro espaço longe dos tripulantes.
— Juvia também pensa em vingança?
A pergunta era simples, mas a diversão cessou calmamente ao perceberem quem havia feito a pergunta. Diferente dos demais, Gajeel não estava bem para participar, resolvendo ficar sentado na grama observando enquanto refletia sobre o que tinha ouvido. No final das contas, resolveu perguntar. Juvia o olhava sério, pensando se deveria responder sinceramente ou se deveria falar algo que o fizesse refletir. O silêncio era absoluto, apenas o barulho das pequenas ondas batendo no solo era ouvido.
Juvia observou atentamente Gajeel: sua postura, agachado e segurando os joelhos, demonstrava que não estava procurando diversão; os olhos, estranhamente vermelhos, a encaravam exigindo uma resposta que fosse justa e capaz de responder suas questões; a feição cerrada demonstrava uma seriedade que ela não sabia que existia no moreno. Para os demais, Gajeel estava apenas curioso, não era todos os dias que a sereia compartilhava os momentos de sua vida. Todavia, Juvia sabia que ele não queria qualquer resposta, caso contrário, participaria da pequena brincadeira que estavam fazendo. Gajeel queria lógica e verdade, e ela não era capaz de negar algo que ele tanto demonstrava querer saber.
Por fim, resolvera ser sincera.
— Todos os dias. – Respondeu suavemente. – Minhas memórias são antigas, mas doloridas demais. – Levantou o braço e olhou para a transparência. – O corpo já recebeu mais do que deveria receber, ao ponto de se juntar a água para se completar. – Abaixou o braço e moveu-se em direção ao moreno. No caminho, recolheu suas vestimentas e foi vestindo. – Todos os dias penso em vingança. Penso em matar aquele que prejudica minha irmã, aquele que traz sofrimento a ela tantas vezes, mas sei que se for viver apenas por um sentimento tão primitivo, não serei capaz de perceber o que está ao meu redor.
Abriu os braços, mostrando a ele o ambiente a volta. Em resposta, o Redfox girou a cabeça, percebendo o ambiente. Pela primeira vez naquele dia, Gajeel reparou na flora que coloria a clareira, a água cristalina que refletia o céu claro, o gramado baixo com a coloração viva do amarelo e verde.
— Não posso permitir com que a minha vida seja sempre relacionada com o que aconteceu no passado. – Juvia juntou as mãos e as colocou em seu peito. – Não é ignorar o que passei, mas saber que posso viver.
— Então… Se eu decidir viver o momento, meu passado não virá atrás de mim? – O moreno perguntou baixo, ainda olhando para a azulada, que assentiu em resposta. – Por que é tão difícil aceitar isso?
— Porque seu coração ainda não se libertou daquilo que te fez sofrer. – Juvia colocou suas mãos no rosto de Gajeel. – Aos poucos, meu querido amigo, sua alma te libertará de tamanha angústia, você só precisa permitir que o tempo aja em sua mente.
A voz suave em conjunto com toque deixara Gajeel sossegado. Seu estado de espírito, lutador e bravamente violento, começara a ser apaziguado. Estava pronto para responder a azulada, porém o silêncio formado havia sido quebrado por invasores. De início, os tripulantes pensaram que eram inimigos, e por um leve momento se preocuparam com suas vidas, mas não pouparam alegria quando perceberam que o barulho provinha dos outros tripulantes.
Em questão de segundos, a clareira foi preenchida por suspiros maravilhados. Por ser diferente do local que estavam antes, ficaram deslumbrados por ver um ambiente fechado que coloria a extensão de seus olhares. Sem pensar duas vezes, os piratas correram para a lagoa e, animados por encontrar seus companheiros, começaram a brincar. Os homens retiraram suas blusas e jogaram pela grama, enquanto as mulheres preocupavam-se em deixar os sapatos secos. Não queriam dormir com o calçado molhados.
Gajeel olhou para o grupo sorrindo, aquela era a frota que conhecia! Os orbes avermelhados visualizaram sua amante, e ficou surpreso por perceber que Levy o olhava também. A azulada sabia dos pensamentos dele, em seu íntimo gostaria que o Redfox se libertasse de tanto ódio, pois imaginava que ele conseguiria obter uma vida plena.
Animada pela brincadeira, sorriu para Gajeel e o chamou para participar. Ele não pensou duas vezes, levantou-se e entrou para a lagoa. Jogou companheiros para dentro e, com pensamentos insanos, carregou Juvia no colo e a lançou para dentro da lagoa. Os rostos em choque tomou conta da tripulação, sequer os seres místicos ali haviam ficado de fora. De todos as pessoas que o moreno poderia provocar, a sereia azulada era a última que poderia pensar.
E como se o pensamento de todos estivessem em sincronia, o futuro de Gajeel foi contemplado pelas próximas palavras de Juvia:
— Ah Gajeel, você acabou de declarar sua pena de morte.
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