Bring Me the Mermaids
36 Careness of Flame
Notas iniciais
~Carinho da Chama
O treinamento de Natsu começou assim que os tripulantes foram guiados para além da ilha, ele acreditou que realizaria exercícios físicos e teria contato constante com o fogo, porém a primeira fala de Igneel foi para Natsu sentar diante dele, cruzar as pernas e respirar. O capitão estranhou, mostrou em sua feição a confusão, porém não perguntou o motivo. Os olhos sérios e firmes de Igneel mostraram que nenhuma questão deveria ser levantada.
O Dragão explicou como deve ser feito, esperando que o humano fizesse da mesma maneira. E sempre que Natsu demonstrou não fazer o correto, recebeu baforadas quentes, o que tornou um ato constante durante muitas horas. Compreender corretamente como deve ser respirado se tornou um desafio para o capitão. Além de ser realizado naturalmente, o jovem apenas sabia utilizar a respiração para controlar sua raiva.
Um ato simples de se pensar, porém com a prática difícil, quando feita corretamente. Ele pode afirmar que fazer conforme Igneel mandou não é tão banal como pensou. O sol estava acima de si quando o Dragão pediu para que parasse, uma sensação de alívio se apossou de si. Se passaram horas desde que o treinamento começou, seu corpo suado pedia por algo gelado e sua mente precisava de um descanso.
— Diga-me, Natsu, os obstáculos que vos impende de praticar o correto.
— … Não consigo entender — Natsu deitou no chão com os braços abertos e fechou os olhos — Nada está fazendo sentido.
— Para mudar, tu precisas abranger vosso campo de visão, do contrário, permanecerás como um tolo que marcha em círculos imaginários — A garra de Igneel tocou o peito de Natsu — As respostas que, com tanta frequência, esforça-se para alcançar serão compreendidas ao passo que entenda os ciclos naturais que regem o mundo.
Ficaram em silêncio, ouvindo apenas o farfalhar das folhas movidas pelo vento. Não era necessário que Igneel acrescentasse algo a mais, ele sabia que o humano, em sua própria forma, havia entendido o que ele disse e, com o tempo, entenderia o que quis dizer.
Natsu Dragneel
O calor estava insuportável. E como se fosse para piorar, Igneel constantemente baforava em cima de mim. Se continuasse por mais tempo, meu corpo iria se tornar líquido e evaporar tamanho calor. Comecei a pensar se o inferno, por acaso, não é dessa forma. Para meu alívio, fui liberado por alguns momentos do treinamento, Igneel pediu para que eu fosse a caça e trouxesse para ambos alimento para a tarde. Achei preocupante. Ele é um dragão e imagino o quanto preciso caçar para alimentá-lo.
Saí da clareira acompanhado de Emrallt e Mørk, por não conhecer a ilha e não saber os locais que posso ir, ambos me guiaram. O primeiro lugar que me levaram foi na clareira que nos conhecemos. Fiquei feliz pela escolha, assim que vi a cachoeira, retirei minhas vestes e pulei na água. Como a minha primeira vez que estive nesse local intocado, sinto a felicidade no toque gelado da água.
Por mais que eu fique longos minutos na água, a sensação do corpo quente não sai, olho para a cachoeira e considero entrar. Observo os dragões sentados na relva descansando, ambos não precisam treinar e receber sermões de Igneel, invejo-os por isso. Decidi, por fim, ir para debaixo da cachoeira, a água pesada deve ajudar em alguma coisa. É difícil sentar porque a água cai com muita violência, além das pedras estarem deslizantes, aumentando minha dificuldade. Chego a cortar a mão, mas a dor é mínima. Não tenho tempo para pensar no machucado, minha atenção está voltada a conseguir ficar abaixo da cachoeira.
Paro diante a queda d´água, coloco minhas mãos na cintura e fecho meus olhos. Preciso pensar com calma. Concentrado, começo a respirar calmamente e profundamente. A cada novo inspirar, senti meu corpo esquentar de dentro para fora e, de forma inexplicável, assim que abri os olhos, soube que conseguiria subir nas pedras e ficar imóvel.
Coloquei as mãos firmes nas pedras e com um impulso, sentei e permaneci ali, a água cai violentamente e respirar é complicado. Se inspiro o ar muito forte, entra água no meu nariz, se inspiro fraco, sinto como se não fosse o suficiente. Pelo menos a sensação de calor foi embora. Tento mudar para uma posição mais confortável, passo as mãos pelas pedras procurando por um espaço que seja liso, me ajeito assim que encontro. Sento com minhas pernas cruzadas e apoio minhas mãos nos joelhos, fecho meus olhos e começo a repetir o treinamento que recebi mais cedo.
Talvez essa mudança de ambiente possa me ajudar em alguma coisa, pelo menos não vou ser queimado se estiver errando.
[…]
O entardecer é uma paisagem muito bonita de ser observado, ainda mais de um mundo tão estranho como esse. Saí do lago quando minha fome começou a se manifestar, vi a necessidade de parar o treinamento pessoal e buscar comida. Pedi aos dragões para que me levassem em um local que pudesse utilizar a caça, para minha surpresa, fui convidado a sentar nas costas de Mørk. Encarei por longos minutos até realmente compreender o que ele estava propondo.
Esperava até de Emrallt, mas não de Mørk, o dragão negro é bastante reservado para qualquer contato. Mas se foi ele quem sugeriu, não neguei e sequer reclamei. O dragão me levou para uma ilha próxima a de Igneel, o ponto mais alto não era um vulcão, mas sim uma clareira aberta, parece ainda necessário subir algum morro, mas não há perigo como a ilha em que estava anteriormente. Mørk me deixou em cima de uma árvore, a vista é tão bonita que preferi assistir o poente primeiro e depois buscar por comida. Mesmo que o sol já tenha saído, ainda tem luz e aproveitei essa luminosidade para caçar.
Eu só tenho um problema: eu não sei caçar. Quer dizer, sei, mas com armas específicas e isso eu não tenho, todas as armas estão no navio. Suspiro ao lembrar desse detalhe, o que eu comeria agora? Posso pedir para os dragões caçarem para mim, mas não é a mesma coisa e não sei o que eles podem trazer. Penso sobre as possibilidades e decidi andar pelo arquipélago para procurar frutas comestíveis. Olhei por diferentes arbustos, mas não vi nada além de folhas verdes. Senti meu estômago remexer pedindo por comida, minha fome está começando a aumentar.
Se essa situação não estivesse ocorrendo comigo, riria, mas como sou eu passando fome em um ambiente desconhecido, apenas sinto raiva. Subo mais a ilha junto com os dragões, ambos observam o caminho a frente enquanto eu procuro nos arbustos por qualquer fruto. No momento, não me importo se for venenoso, apenas desejo por comida. A manifestação dos meus desejos ocorre quando chegamos no topo do arquipélago.
Na clareira, há diferentes árvores e arbustos em volta, todos cheios de frutos. Corro animado, pego as frutas e saboreio com bastante satisfação. As frutas daqui tem cor e sabor um pouco diferente, mas são bem suculentas e deliciosas. Me dei por cheio quando não conseguia comer nada mais, deitei na relva e passo a observar as formas das nuvens. Os dragões apenas se juntam a mim, porém não observam o céu.
Não tem como negar: o mundo de Igneel é muito bonito. O céu pela manhã é colorido e a noite tem como ver inúmeras estrelas. Se estivesse no navio ou nas cidades, eu não tiraria meu tempo para ver algo assim. Acredito que das várias lições que tenho aprendido, uma é dar tempo para mim, seja para descansar e aproveitar o ambiente ou para me permitir conhecer a mim mesmo, afinal estou suscetível a mudanças.
Acho que fiquei tempo demais longe do treinamento, levanto e acordo os dragões. Coloco algumas frutas dentro da minha blusa, assim fica mais fácil para levar sem deixar cair na água ou no chão. Desta vez, quem se disponibiliza para o voo é Emrallt, digo que até animada demais. Torço para que não realize nenhuma aventura, a possibilidade de eu cair é grande.
— Agora vou precisar de muito cuidado — olho para o dragão verde — Emrallt, não me deixe cair.
Ela balança a cabeça e abaixa para que eu possa subir. Rapidamente levanta voo e chegamos na ilha de Igneel. Os outros tripulantes já estão por ali, alguns estão deitados enquanto outros começaram a preparar uma pequena fogueira. Não sabia que podia fazer isso. Emrallt me deixa em frente ao dragão vermelho, alguns marujos ainda me observam, entendo que seja estranho me ver dessa forma. Os ignoro e deixo as frutas no chão, o que fez Igneel me olhar.
— Não sei o que você come, então trouxe essas frutas.
— Fizestes um bom trabalho — soprou um leve ar quente em meu rosto — Como estás se sentindo?
— Meu corpo aquece a todo momento, as vezes sinto vontade de ficar debaixo da cachoeira — ele assente e se aproxima de mim.
— E estás respirando corretamente. Vossa aventura deve ter sido deveras interessantes, Natsu. Descanses por agora, amanhã vossa respiração melhorará.
Me aproximo dos dragões e deito encostado em Mørk. O calor produzido internamente nele faz com que eu me sinta confortável, me deixando com sono bem rápido.
[…]
Não sei dizer quantos dias já se passaram, aqui não tem definição sobre os dias da semana, e devido a isso, não sei dizer há quanto tempo estou treinando. Se é uma semana, duas e até mesmo um mês. De certa forma, não saber me deixa despreocupado com treino, mas sinto-me apreensivo sobre o que está acontecendo no meu mundo. Preciso organizar muitos papéis assim como encontrar Gildarts para saber os movimentos das outras frotas de piratas e de James.
Minha maior preocupação é, e sempre será, James.
Espero que ele não tenha feito nada contra a Fairy Tail em minha ausência, caso contrário, terei sérios problemas assim que voltar. Enquanto não sei, vou me preocupar no presente. Hoje Igneel decidiu nos levar para um lugar diferente da clareira, de acordo com ele, a mudança de ambiente pode melhorar o aprendizado. Vejo que vamos passar dias aqui, suas lições cheias de reflexões duram horas.
O novo arquipélago fica bastante distante, saímos pouco depois do nascer do sol e pousamos quando o astro estava acima de nós. A estética da ilha, sua flora e fauna são diferentes. O maior diferencial é a quantidade de montanhas, não importa para qual lado olhe, apenas verá imensas montanhas completamente verdes. Como se já não fosse o suficiente saber disso, Igneel me deixa próximo a uma clareira e pede para que eu o ache nesta ilha.
O maldito dragão vermelho levantou voo e foi para algum lugar que eu não sei. Fiquei encarando o céu azul por longos minutos, tentei acreditar que isso poderia ser brincadeira, mas os minutos se transformaram em horas e a ficha caiu quando comecei a ficar com fome. É, o jeito é sobreviver até conseguir o achar. Desta vez não tem os pequenos dragões comigo, é por minha conta e risco.
Não sinto fome ao ponto de desmaiar, mas sei que vou precisar procurar por comida, e diferente dos últimos dias, frutas não vão me alimentar agora. Preciso de algo substancial, preciso de carne e é isso que vou procurar. Não sei se pode, mas existem certas necessidades que não se pode deixar para lá ou substituir, a minha fome é uma delas. Começo a subir o terreno para poder conhecer o ambiente, se tem uma coisa que aprendi bastante em livros foi na inteligência das pessoas em conhecer o local em que estão.
Quanto mais eu subo, mais sem ar fico. É uma sensação estranha, parece que o ar fica mais pesado a cada novo passo. Penso se não é a magia desse universo. Chego próximo de uma clareira, sinto minhas roupas molhadas e por mais que sinta fome, talvez seja melhor descansar por agora. Fico parado apenas o suficiente para voltar a respirar com tranquilidade, o pior é que não venta, então mesmo conseguindo acalmar os ânimos, fica difícil se sentir refrescado.
Próximo a mim, ouço o barulho de água caindo, a possibilidade de ser uma cachoeira é grande. Vai ser bom para me refrescar e se tiver peixes, será ótimo para me alimentar. Vou andando e me guiando pelo barulho, sequer presto atenção no que está a minha volta. Em um momento tão grande de fome, o que importa é a proximidade que estou obtendo com a comida. Quase urro de felicidade ao ver a cachoeira caindo.
Me aproximo da margem do lago e vejo que tem bastante peixe nadando. Não sei como vou caçar, mas sim que preciso me alimentar. Entro na água com calma, a temperatura gelada me faz arrepiar. Na ilha de Igneel, alguns lagos têm a temperatura fria, porém não chega perto da que estou agora. Fico observando os peixes passarem por mim e com rapidez, pego um. O peixe fica se debatendo, não consigo segurar direito e ele escapa de minha mão. Tento novamente, porém tenho o mesmo resultado diversas vezes. Minha barriga começa a roncar e a raiva começa a despertar. Penso em algo, mas só saberei se dará certo se tentar. Ando pelo lago, indo mais para a profundidade. Percebo que há vários peixes em volta de mim, rapidamente pego um e jogo para a terra.
O animal fica se debatendo por algum tempo e quando eu estava prestes a comemorar, ele volta para água. Coloco as mãos na boca sem acreditar. Sem força, desfaleço na água. Sou levado pelo lago em uma direção desconhecida, sinto alguns peixes se aproximando de mim, não sei se procuram comida ou se eu sou a comida. Ah… Talvez seja assim que a vida funcione, não importe o quanto eu tente, o resultado vai ser o mesmo. Sinto meu corpo afundando e afundando, vou entregar essa vida a quem deseja.
“[…] tu precisas abranger vosso campo de visão, do contrário, permanecerás como um tolo que marcha em círculos imaginários”. A fala de Igneel surge em minha mente com força, abro os olhos assustado e sinto ardência. Algo dentro de mim começa a lutar bravamente para viver, meu corpo esquenta e se prepara para sair daquele lugar.
Me movimento com os braços e pernas para conseguir chegar a superfície e respirar. Não sinto o chão, mas isso não me aflige, pelo contrário, me forço mais ainda a continuar a mover para sair da água. Com vigor, consigo alcançar a superfície, respiro pela boca o ar e movimento com mais força os braços. Os mexo como se estivesse abrindo caminho pela água. Me percebo mais próximo da terra e da parte rasa. Quando sinto o chão nos joelhos, levanto e ando para sair do lago.
Sinto a terra seca em meus pés e me jogo no chão. Viro-me para observar o céu. Meu corpo está pesado, a respiração forte, os olhos pesados. Preciso me acalmar. Faço a respiração que Igneel me ensinou, fluido e concentrado. Coloco minha energia apenas nessa atividade e gradualmente, sinto meu corpo obter um pouco mais de força. No silêncio, capto sons da natureza: o farfalhar das árvores, a água caindo na cachoeira, os peixes que sobem na superfície por algum motivo, a existência de outros animais na ilha… Perceber as vidas que estão a minha volta me fez perceber em quão patético fui.
Eu não posso desistir. Há tanto para fazer depois. Tenho um tesouro para encontrar. Tenho muito a viver antes de pensar em desistir.
Respiro profundamente novamente. Penso no que preciso fazer para conseguir me alimentar. Levanto olhando para as árvores, preciso de algum tipo de corda e galhos. Pego vários galhos, deixo jogado no chão e ando em direção a floresta. Deve ter algo aqui que posso usar como corda. Não ando muito, não quero me perder. Olho com atenção todas as árvores e percebo que há uma corrente que interliga as folhagens.
Algumas dessas correntes estão caídas, então consigo puxar. Outras é preciso que eu suba e arranque da árvore. Com dificuldade, consigo pegar todas que são necessárias, esses materiais são bem grudados com o tronco. Sento no chão e começo a montar uma caixa com os galhos. Amarro cada extremidade com cuidado e devagar, a estrutura vai sendo montada. Demoro ainda para conseguir fortificar e preencher os espaços que os animais podem passar.
— Pronto, agora os peixes não fugirão quando eu colocar aqui.
Satisfeito pelo meu próprio trabalho, volto para próximo do lago e deixo a caixa de galhos perto da margem. Novamente entro e espero os peixes se aproximarem de mim. Permaneço imóvel durante vários minutos, os animais estão desconfiados de mim. Com razão, estava tentando capturá-los alguns momentos antes. Os peixes começam a nadar em minha volta e, antes que me desse conta, consigo pegar alguns e jogar na caixa de madeira. Agora preciso preparar meu alimento, a melhor forma de se comer um peixe é assando ele, porém não há nada neste mundo que me lembre uma cozinha ou pessoas que possam fazer esse trabalho para mim.
Ah! Existe uma maneira de assar os peixes. Quando estava na casa Dragneel, quando tinha tempo livre, gostava de desfrutar lendo diversos livros de aventura. Adorava, principalmente, os livros que mostravam o personagem viajando pelo mundo e descobrindo diferentes culturas. Lembro-me quando fiquei fascinado por um livro que contava a história de um personagem que ficou perdido em uma ilha. Ele não tinha muito o que fazer, mas conseguiu sobreviver de alguma forma.
E eu faria o mesmo. Forcei minhas memórias em buscar os parágrafos que o personagem mostra como criou uma fogueira. Com bastante dificuldade, consegui fazer, pego alguns gravetos e coloco nos peixes, finquei depois no chão próximo ao fogo. Lembro quando a história mostrava o personagem heroico e pronto para conseguir ultrapassar qualquer adversidade. Tinha um sonho de ter uma vida igual a dele.
Pensando agora, eu quase estou vivendo a vida do personagem, mas temos diferenças gritantes. Ele tinha uma faca, eu tenho apenas minhas mãos. Ele tinha a capacidade de criar objetos para viver bem em uma ilha. Recentemente descobri apenas a habilidade de construir caixas para armazenar peixes e de fazer uma fogueira. Com muita força de vontade, ele consegue voltar para a humanidade, eu dependo da fada que existe dentro de Erza. Ele é um jovem que tem origem humilde e decide se aventurar pelo mundo, minha origem é nobre e a motivação para conhecer o mundo é perversa.
E a mais fundamental diferença é: ele é apenas um personagem de um livro, eu sou a realidade. Vivo e experiencio bastante coisa, até mais que o próprio personagem. Pelo amor, até conheci dragões! Dragões! Chega a ser inacreditável. Minha vida tomou rumos desconhecidos, bem diferente do que planejei anteriormente. Quando criança, tinha o tolo sonho de ser igual meu pai: inabalável e carismático. Cresci e descobri que ele não era nada disso, e sim um ser humano cruel. Desejei ser diferente dele.
Ri amargurado. É irônico que tenho algumas características de James. Fui cruel com muitos a minha volta, usufrui de meu nome para realizar diversas façanhas e, pasmem, estive seguindo as palavras de James. Minhas palavras e atos feriram muitas pessoas, tenho muitos pedidos de desculpas a fazer.
Viro os peixes para poderem assarem do outro lado, espero por mais alguns minutos e decido comê-los. Não me importo se estiverem ruins, preciso apaziguar minha fome. Satisfeito, deito no chão e observo as formas das nuvens. Está entardecendo, não sei se tem animais perigosos aqui, pode ser que a ilha se torne um lugar hostil a noite. Depois levanto e procuro por um lugar para ficar escondido e dormir.
Quero aproveitar esse momento.
[…]
Não sei exatamente quanto tempo já se passou, desisti de contar. Mas uma coisa é certa: Igneel com certeza me largou nesta ilhota e voltou para onde estava. Não adianta o quanto eu ande ou suba as montanhas, não consigo encontrar o bendito dragão vermelho. E não deveria ser difícil, afinal ele é um dragão enorme e vermelho. As vezes penso que ele me trouxe aqui apenas para me ensinar algumas lições, e de certa forma o agradeço por isso, mas precisava ficar tão escondido? Ou, quem sabe, voltar para a ilha?
Bem, só vou saber quando o encontrar.
Por agora, minha preocupação está em saber onde está o animal que cacei mais cedo. Tenho certeza que o matei e deixei no fogo. Não tinha como animais maiores terem vindo, eu saberia pelas armadilhas. Bem, se fosse algum animal vindo do céu, poderia ter uma explicação, mesmo que ainda não fizesse sentido. Qualquer que seja o animal que o tirou daqui, deveria ter pistas no chão.
Ah, que seja, vou precisar caçar novamente. Pego minha lança e volto para a floresta. Droga, realmente queria comer aquele estranho animal. Ele era um pouco parecido com um animal que tem em meu mundo, mas não consigo me lembrar qual. De certa forma, sinto minha mente definhando um pouco, há tanto tempo não converso e vejo outra pessoa. Quase sinto saudade da bagunça da Fairy Tail. Se bem que, caso os vesse nesse exato momento, com certeza correria a eles e os abraçaria fortemente.
Eles achariam que eu enlouqueci. E talvez tenha ficado maluco mesmo.
Fecho meus olhos e presto atenção no que está a minha volta. Em tantos dias, jogado em uma floresta sozinho e com fome, aprendi a dar valor as minhas outras percepções. Não posso confiar inteiramente em meus olhos. Pássaros, animais rastejantes, cachoeiras, armadilhas acionadas… O quê?! Corro para o esconderijo, desta vez crente de que o animal que se alimentou de minha caça voltou para procurar mais. Espero que não seja um animal problemático, não quero ter problemas para caçá-lo.
Chego no local olhando em volta procurando, e me assusto por ver uma pessoa sentada em frente a fogueira. Me aproximo cuidadosamente, mas parece que não adianta muita coisa, já que a pessoa se vira para mim.
— Oh Natsu! Seja lá o que você cozinhou, estava muito gostoso! Por acaso tem mais?
Jellal. Não acredito que foi ele que comeu minha caça. O olho irritado e aponto para a floresta.
— Por que está apontando pra lá?
— Vá buscar agora alguma coisa pra comer, ladrão!
— Ladrão é um nome muito forte, prefiro ladino — Cruzo meus braços — Tá bom, tá bom, me espere aqui e já volto com nossa refeição — Sorriu e foi para a floresta.
Ele comeu um alimento que satisfaria bastante e ainda está com fome? Ah, contanto que ele busque bastante, eu não me importo que a refeição seja para dois. Sento em frente a fogueira e espero por ele. Não passa muito tempo e ele retorna com uma quantidade absurda de carne.
— Você vai comer isso tudo?
— É claro que não — Ele responde incrédulo — Isso é para você. Meu pedido de desculpas. Agora, faça mais daquele negócio que preparou!
Suspiro e levanto. Ando em direção a ele e pego uma quantidade de carne que dá o suficiente para nós dois. Faço as preparações anteriores e coloco no fogo novamente. Desta vez poderei comer. Fico em silêncio esperando a comida fica pronta enquanto Jellal murmurava algum cântico. Não consigo reconhecer a música. Quando a comida fica pronta, entrego um pedaço para ele e começo a comer o outro.
— Nossa, isso ficou muito bom! Já sabia cozinhar assim, Natsu? — Nego com a cabeça — É sério?
— Claro, não tinha como eu saber cozinhar no lugar onde vivi. Tinha pessoas que faziam isso por mim, não havia necessidade nenhuma de eu ter que fazer. Precisei aprender aqui para sobreviver.
— O que aprendeu enquanto estava aqui?
— Hum… Aprendi a caçar, a nadar, a confiar em meus ouvidos, a me esconder, a cozinhar… Aprendi o necessário para realmente não morrer de fome.
— E quando não sentia mais fome, aprendeu algo a mais?
Jellal me lembra muito as crianças que conheci quando vivia como um nobre. Sempre quando voltava de alguma viagem, as crianças da corte me perguntavam o que tinham vontade. Tão curiosas e amantes do desconhecido, os pequenos me faziam perguntas fantasiosas e algumas desnecessárias. Essa lembrança e analogia que há entre as curiosas crianças e o estranho homem do meu lado, me fez abrir o sorriso. Ele, estranhando meu sorriso, me perguntou o motivo. Jellal é curioso igual uma criança.
— Nada, não é nada. Mas, respondendo sua pergunta, sim, aprendi bastante sobre mim mesmo. Percebi as minhas limitações e o quanto consigo ampliar meus conhecimentos… Aprendi sobre minha própria força e o como posso usá-la a meu favor.
— Interessante, e o que faz nessa ilha há tanto tempo?
— Igneel… — Coloquei a mão na cabeça e olho para ele — Ele quer que eu o ache, mas não estou conseguindo fazer isso. Teve vezes em que achei que o encontrei, mas era apenas ilusão. Me pergunto, as vezes, se ele não esqueceu de mim.
— Não, ele não é capaz disso. Se o Rei do Fogo mandou o encontrar, então ele deve estar escondido pela floresta — Ele colocou a mão em meu ombro — Boa sorte para encontrá-lo.
— Obrigado pelo apoio… E por ter comido a minha comida antes — O olhei sério e ele riu abertamente — Jellal, pode esclarecer uma dúvida?
— Se estiver dentro dos meus conhecimentos — Respondeu ainda rindo.
Pergunto o real motivo do treinamento que Igneel está me dando. Explico o que está acontecendo desde o primeiro dia, assim como as falas do dragão, que me atingem bruscamente dentro de mim. A risada cessa e ele presta atenção em todos os detalhes, perguntando algumas coisas relacionadas ao treinamento e as novas sensações que começaram a surgir em mim.
— Hum, faz sentido o que Igneel está fazendo — Ele coça o queixo — Precisa começar assim mesmo.
— Mas o que ele tá fazendo? — Jellal olha para mim.
— Acho que não tem problema falar isso, mas Igneel está fazendo a magia nascer dentro de você. Eu não sei o motivo dele em fazer isso, mas ele está utilizando alguns métodos lendários que vão te permitir criar um receptáculo próprio para a magia.
— … Esse tipo de coisa é possível?
— Normalmente não. É na verdade incrível que esse método de treinamento esteja realmente dando certo com você. Veja bem, existem várias espécies de seres em inúmeros universos, alguns usam magia e outros não. Os que não usam magia, ou não podem realmente fazer uso dela ou não tem conhecimento que pode. A Erza, por exemplo, era o tipo de ser que não podia fazer o uso da magia, mas com a fada ancestral dentro dela, se tornou possível.
Isso eu já sabia, a Heartfilia havia nos explicado.
— E eu me encaixo onde nessas características?
— Em nenhuma delas — O olho desacreditado, achei que fazia parte do segundo tipo —, é por isso que é tão interessante que você tenha começado a desenvolver a magia dentro de si e consiga ter essas experiências. Natsu, pelo que pude observar até então, é que você consegue moldar essa energia que está começando a nascer em você — Eu demonstro minha confusão e ele me olha com pena — Olha, se eu falar mais, você vai se confundir ainda mais. É melhor tirar essas dúvidas com o próprio Rei.
— Tem razão, mas agradeço por ter diminuído minhas questões.
— Não seja tão bondoso, apenas aumentei o número de perguntas que fará a Igneel — Concordo com essa afirmação — Não sei como te amparar nessa questão, mas posso te ajudar a entender sobre os sentimentos que estão nascendo e desenvolvendo. Se ainda quiser a minha ajuda…
Aceitei sem pensar duas vezes, se ele pode me explicar sem utilizar metáforas e analogias, ótimo. Jellal me pede para que eu fique na posição que Igneel ensinou e respire corretamente. Permaneço dessa forma por minutos, de modo que começo a me sentir inquieto. Jellal começa a me fazer perguntas do que estou sentindo. Explico a ele minha inquietação e acrescento que começo a sentir uma forte palpitação, tanto que sinto-me tremer.
— Se concentre nessa palpitação, pense nela e no que quer se formar.
É intenso. Forte. Assustador.
Sinto minha respiração ficar profunda e excessiva, Jellal me pede para lembrar de respirar corretamente. De certa forma, é como se eu estivesse sendo treinado, a diferença é que não vou ser queimado por um vapor caso erre. Recomeço novamente a realizar a respiração. A palpitação se torna mais intensa, mas consigo manter a respiração desta vez. Em minha mente, uma imagem começa a se formar, e me surpreendo por me ver. Adulto e criança.
E é surpreendente porque a criança em minha imaginação é completamente diferente do que eu fora. O eu criança imaginário veste apenas uma simples calça curta, o cabelo rosado está bastante bagunçado e está sujo. Eu jamais vesti algo tão simples, sequer para dormir; meu cabelo era bem penteado e tomava alguns banhos no mês. A criança imaginária me olha sorrindo enquanto abraça algo, não dá para ver o que é. Ele me chama e eu, curioso, me aproximo.
Cada vez mais perto e meu corpo cada vez mais quente.
A criança começa a falar, mas eu não entendo o que diz. Ele parece entender, me pede para abaixar e me abraça. Sussurra em meu ouvido, porém ainda não consigo entender suas palavras. De repente ele some, olho para todos os lados o procurando, mas o lugar em que o eu imaginário está é escuro, sequer dá para me enxergar. Um pequeno ponto de luz surge em minha frente, e começa a aumentar.
O ponto de luz se torna uma esfera deformada de cor azul. De modo suave, uma coloração avermelhada começa a passar em volta até ficar pontiaguda, permanecendo em constante movimento. A pequena esfera parece ter sido despertada, pois começa a manifestar uma iluminação própria. Sua forma me lembra o fogo, mas não me parece perigoso. É delicado, belo e pulsante.
E o meu corpo começa a esquentar cada vez mais.
— Natsu, a imagem que está dentro de sua mente, a pegue e traz para onde você está.
A voz de Jellal é distante, mas consigo entender o que fazer. O eu imaginário se aproxima da esfera de fogo e a pega com a mão. Por um segundo, imaginei que me queimaria, mas a pequena chama me aquece gentilmente. Seguro a esfera e começo a trazer essa sensação para fora do meu corpo. Por ser tão belo, quero sentir também em minhas mãos. De repente, a sensação dentro de mim diminuí, porém sinto a palpitação em minhas mãos.
Abro os olhos. Avisto Jellal, que me olha surpreso e aponta para mim. A pequena chama está em minhas mãos, tão quente e agradável como senti antes. A sensação é diferente, no entanto. Desta vez, sinto como se meu coração estivesse fora do corpo. Ah… Então esta é a forma da minha alma.
Sou como o fogo.
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