A Vida Não Para

Já fazia quase um mês que Sage estava em Vancouver e as coisas não haviam mudado muito. A rotina era a mesma e ela tentava se esconder cada vez mais. Tentava. As vezes ela não conseguia se isolar pelo simples fato de que Simon era o patrão mais gentil do mundo e sempre dava um jeito de reunir a todos para comer pizza ou comemorar qualquer besteira. Sage tinha mais ou menos uma vida social e isso estava custando cada vez mais da sua saúde, pois o medo não a deixava em paz, estava sempre alerta e assustada tanto que, em alguns lugares, pensou ter visto o gringo. Seu cansaço era visível e apesar de tudo, não estava atingindo seu trabalho. No pub ela era a garçonete mais popular, o que a preocupava também. Ela precisava dividir isso com alguém, precisava desabafar, mas não conseguiu. Várias vezes tentou puxar assunto com Mary Elisabeth, mas deixou pra lá, ela não precisava se envolver nisso, não precisava ser mais uma vítima inocente em sua vida maluca. O mais interessante era que Godfrey, apesar de estar indo devagar com a missão de conquistar Sage reparava em cada ação da garota. A fase de querer a forasteira apenas para voltar a ativa havia passado dando lugar a um real interesse, ainda mais agora que ele havia notado que ela escondia algo. O oriental a observava de longe, não perguntava nada, apenas tentava deixa-la a vontade para que ela lhe contasse seu mistério pouco a pouco. Certo que não funcionou muito bem, mas ele soube que Sage viajava muito, pois falava de lugares de forma detalhada. O que funcionou mesmo foi sua percepção. Godfrey notou a diferença drástica em Sage, notou que ela estava ainda mais magra e as olheiras mais fundas mesmo que tentasse disfarçar com maquiagem. Isso o preocupava. Pensou que o mistério dela fosse uma doença em fase terminal ou um distúrbio que ela mesma não conseguia controlar como anorexia... mal sabia ele.

A Vida Parou

Era uma sexta feira e, apesar da noite fria o pub estava cheio. Sage e os outros não haviam parado desde a hora que o bar abriu. O dinheiro estava entrando fácil, as coisas iam bem até Sage começar a suar frio. O corpo tremia e um mal estar a fez perder a cor. Simon a alertou de sua aparência, mas ela ainda insistia que estava tudo bem mesmo sabendo que não estava.

“Eu só preciso de um pouco de água gelada. Já volto para o salão, ok?”

“Está bem, qualquer coisa chama.”

Simon estava realmente preocupado, mas Sage não dava o braço a torcer. Ela entrou na sala dos funcionários e notou as mãos trêmulas, com certeza não conseguiria segurar a bandeja daquele jeito, isso significava derrubar drinks e drinks perdidos saíam do bolso dela e isso não fazia parte de seus planos. Apoiou-se na parede tentando controlar a situação, mas o corpo estava fraco e tremia mais do que há cinco minutos antes.

“Vamos lá, melhora, vamos lá você consegue.”

A garota repetia várias e várias vezes, mas infelizmente aquele mantra não era o remédio que faria com que a pressão voltasse ao normal.

“Sage...”

Ela se virou, mas o movimento brusco a fez ficar ainda mais tonta, não viu quem a chamou e mesmo naquela fração de segundos ela foi dominada pelo medo, então tudo ficou escuro e ela desmaiou.

Explicações

O som de ‘bip’ ecoava fazendo com que Sage acordasse sem saber onde estava, a última coisa que se lembrava, era de estar na sala dos funcionários no pub. Abriu os olhos devagar e ao se mexer notou fios, olhou para o lado e lá estava o motivo do ‘bip’, foi então que percebeu que estava em um hospital. O quarto estava parcialmente escuro, havia um abajur aceso o que foi uma benção já que se não bastasse seus problemas, Sage também tinha medo do escuro.
“Hey...”

A garota olhou para o outro lado e lá estava Godfrey sentado com uma expressão de preocupação.

“Como se sente?”

“Bem... eu acho..” Sage sussurrou. “O que houve?”

“Você desmaiou no pub, fizeram exame de sangue, daqui a pouco os resultados chegam.”

“Que horas são? Eu preciso voltar pro London.”

“Fica quietinha, são 3:00 da manhã, o pub já fechou. Eu acho mesmo que você precisa de um tempo.”

“Eu preciso de dinheiro.”

O chinês respirou fundo e pegou a mão da morena a olhando nos olhos.

“Presta atenção, você precisa descansar, você trabalha todos os dias e nos dias de folga sempre arruma alguma coisa pra fazer no pub. Eu conversei com Simon e ele apoia 100% a ideia de você ficar de folga por pelo menos uma semana.”

“Mas se eu não trabalhar, eu não recebo.”

“Fica tranquila, isso também foi resolvido.”

Essa conversa despertou a curiosidade de Sage. Ela queria perguntar mais coisas, mas foi interrompida pelo médico que entrava no quarto.

“Está acordada. Isso é bom.”

“Está tudo bem doutor?”

A preocupação era visível no rosto de Sage, e a aflição também. Ela estava perdida fazia quatro anos e ter parado no hospital só piorou as coisas.

“Você está bem, mas precisa de cuidados. Não sei como é seu ritmo de trabalho, mas precisa diminuir. Sua pressão baixou e pela forma que chegou aqui você teve uma crise de exaustão. Seus exames também mostram que você está com um quadro de anemia, e no grau que está eu suspeito de anorexia.”

Godfrey ficou chocado, uma das suspeitas dele poderia ser verdade.

“Eu não tenho anorexia, eu só não ando me alimentando direito. Eu só tento me esconder de um lunático, e fico tão nervosa que perco a fome Às vezes eu fico tão focada em coisas que eu preciso fazer que eu deixo de comer, ou eu estou tão cansada que eu vou dormir sem pensar em comida.”

“Então você precisa mudar isso. De qualquer forma isso é o princípio de uma anorexia nervosa. Você precisa mudar sua rotina, se alimentar bem e descansar por agora. Você passa a noite aqui hoje, amanhã você vai para a casa. Vou receitar algumas vitaminas e um remédio para combater essa anemia.”

Enquanto o médico escrevia a receita, Godfrey olhava para Sage pensando no que poderia fazer para ajuda-la e, naquele momento, decidiu que o tempo de agir com cautela havia acabado. Ela estar doente foi a motivação para uma aproximação e finalmente descobrir o que estava acontecendo.

“Prontinho.” O médico entregou a receita para Godfrey. “Vou deixar com seu namorado.”

“Mas ele...”

“Sem problemas doutor. Eu vou providenciar os remédios o mais rápido possível e vou cuidar bem dela.”

O médico assentiu com a cabeça, deu boa noite e saiu do quarto deixando os dois sozinhos. Sage olhou para Godfrey e respirou fundo, ele sabia que ela diria algo.

“Desde quando você é meu namorado?”

Bingo!

“Desde que eu vim com você para o hospital. Eles precisavam de informações então peguei seus documentos e disse que era seu namorado para facilitar as coisas. Não fique brava.”

Era compreensível afinal, um querido amigo não teria tanto acesso para saber se Sage morreria ou não. A garota apenas negou com a cabeça, mas não protestou. Estava muito fraca.

“Você quer alguma coisa?”

Sage negou com a cabeça novamente e o olhou.

“Gracias.”

Um sorriso largo estampou o rosto do chinês. Ele sabia que Sage era de habla-hispana, e era a segunda vez que ela o agradecia em espanhol o deixando encantado. Ele assentiu com a cabeça e passou a mão pelo cabelo manchado dela.

“Descansa. Amanhã, quando acordar, eu ainda estarei aqui. Depois eu te levo para casa.”

Uma certa tranquilidade tomou conta de Sage, e a presença de Godfrey ao som do “bip” foi uma das coisas mais reconfortantes do mundo em quatro anos. Ela se acomodou na cama e então olhou para o chinês.

“Eu... posso ficar segurando sua mão?”

Era quase infantil o jeito como Sage fazia aquele pedido, e foi naquele gesto que sua carência ficou estampada para que Godfrey notasse. Ele apertou levemente a mão dela e puxou a poltrona em que estava sentado para perto da cama assentindo com a cabeça.

“É só descansar agora.”

Decisões

Por volta das 11h00 da manhã Sage teve alta. Ainda estava um pouco fraca e debilitada, mas estava bem. O médico foi mais uma vez taxativo exigindo que ela repousasse. Não tinha nada que Sage pudesse fazer a não ser obedecer.

“Minhas coisas ficaram no pub.”

“Não, eu peguei sua bolsa, ela está no porta-malas do carro.”

A garota o olhou um tanto confusa.

“No seu carro?”

“Sim eu te trouxe até aqui e eu vou te levar para casa. É o mínimo que eu posso fazer.”

Sage não estava em posição de discordar de Godfrey então foi uma boa menina e não o questionou mais.

***

Durante a volta para a casa Sage estava quieta. Tinha os braços cruzados como se estivesse se abraçando e olhava atenta pela janela. A paranoia voltou a persegui-la, se sentia em um ambiente hostil novamente e a tranquilidade da noite anterior havia ido embora.

“Um centavo por seus pensamentos.”

Sage se virou para Godfrey e forçou um sorriso.

“Eu só estou pensando em como vou conseguir dinheiro parada por uma semana.”

“Calma, hm? Eu já resolvi isso com Simon. Ele não é um patrão carrasco, ele é legal e você sabe disso. Você é uma ótima funcionária, ele gosta do seu trabalho, você acha realmente que ele deixaria de pagar você por ter ficado doente?”

Em partes aquela baboseira fazia sentido. Simon era um homem compreensível, mas aquela bondade toda ia além da bondade humana. Sage respirou fundo se encolhendo um pouco e voltou a olhar pela janela. Viu um casal discutindo em uma esquina e sentiu vontade de contar sobre sua vida, ela chegou a se virar para Godfrey e abrir a boca, mas as palavras não saíram.

“Você está bem?”

Ela assentiu com a cabeça.

“Quer me dizer alguma coisa?”

Ela negou. Mais alguns quarteirões e finalmente o carro parava em frente ao prédio. Sage mordeu o lábio olhando para o lugar sentindo um certo receio.

“Você não parece bem.”

“Eu... eu estou bem. Só preciso mesmo descansar, não se preocupe.”

“Vem, eu vou pegar suas coisas e te levo lá para cima.”

Godfrey estava sendo extremamente gentil e Sage começou a vê-lo de uma forma diferente. Não sabia ao certo até que ponto ia a gratidão e a admiração por tê-la ajudado daquela forma. Ele abriu a porta do carro para a morena e a ajudou a sair devagar. Enquanto ela se ajeitava, ele abriu o porta-malas pegando sua bolsa.

“Vamos?”

Os dois caminharam para dentro do prédio e Godfrey pode finalmente ter a noção de como era o lugar onde Sage morava. O prédio não era ruim, nem precário. Ele pôde notar que havia alguns universitários morando ali, o que foi um alívio para ele já que sempre imaginou que Sage estaria em perigo naquele bairro. Não tinha elevadores então subiram dois lances de escada para finalmente chegar ao apartamento. Ela revirou a bolsa procurando as chaves e quando as achou hesitou. Sage começou a pensar no que encontraria ali dentro, com medo de que o gringo pudesse estar ali esperando por ela. Godfrey notou aquela reação, iria perguntar sobre isso, mas antes que ele pudesse dizer alguma coisa Sage abriu a porta.

“Não repara a bagunça.”

Ela disse em um tom baixo enquanto entrava no apartamento. O lugar era pequeno e Godfrey só de estar na porta pode ver o apartamento todo.

“Você não colocou mobílias novas?”

“Não vi necessidade de comprar algo a mais já que logo me mudo daqui.”

Aquela era uma informação quase que preciosa e que o deixou com algumas dúvidas. Ela iria para outro apartamento ou mudaria de cidade? A resposta dela seria a segunda opção, mas não explicaria o motivo. Sage andava pelo apartamento analisando cada canto procurando algo fora do lugar. Por sorte estava tudo intacto o que indicava que ninguém havia entrado ali.

“Você quer alguma coisa?”

“Quero que descanse. Durma o dia todo, se espreguice e esqueça o London. Eu ligo mais tarde pra saber de você e se precisar de alguma coisa é só me chamar.”

Por quatro anos Sage não sabia como era ser cuidada, quatro anos que ela não sabia como era alguém se importando com seu bem estar físico. Godfrey pegou suas mãos e ela o olhou nos olhos. A vontade de falar veio, as palavras estavam na garganta e o chinês percebeu que ela queria dizer algo, mas ela não disse. Sage apenas assentiu com a cabeça e o guiou até a porta.

Socorro

“QUANTAS VEZES EU DISSE QUE VOCÊ É MINHA? QUANTAS VEZES EU TENHO QUE DIZER QUE VOCÊ NÃO PODE SE ESCONDER DE MIM?”

Drake apontava a arma para a cabeça de Sage que estava encolhida, imprensada, chorando apavorada. Os olhos do gringo pareciam ainda mais cruéis e frios do que o normal. A mão forte dele segurava Sage em um dos braços e ele gritava a chamando pelo seu nome verdadeiro.

“NÃO BRINCA COMIGO, LIRAZ! VOCÊ SABE DO QUE EU SOU CAPAZ, NÃO SE LEMBRA?”

O pavor era visível no rosto de Sage, aquele quarto apertado ficava ainda menor a deixando com falta de ar. O braço doía, Drake apertava com força e urrava a chacoalhando. Sem se importar muito com o que fazia, nem com a força que tinha, o gringo deu um tapa na cara de Sage e a jogou para o outro lado do quarto. Novamente a pressionou contra a parede e apontou a arma para a cabeça dela enquanto a olhava com ódio parecendo um animal selvagem.

“Você não me deixa outra escolha, você sempre dá uma de engraçadinha e não me deixa escolha. Se eu machuco as pessoas é por culpa sua, você deveria parar de querer brincar comigo.”

Em meio a lágrimas e dor, Sage ouviu um murmúrio. Era um som desesperado, um grito abafado. Ela finalmente olhou por cima do ombro de Drake e viu Godfrey acorrentado, machucado e amordaçado. O olhar do chinês era de desespero, ele tentava se livrar das correntes e gritar, mas era inútil. O gringo notando o horror em Sage começou a rir e imediatamente apontou a arma para o oriental.

“Mais um, meu amor. Mais um que vai morrer por sua culpa. Andrés foi o primeiro, ele achou que podia fazer sua cabeça contra mim, mas ele não pôde. Agora é esse aí. Ele realmente acha que vai te roubar de mim? Pensei que asiáticos fossem inteligentes.”

“Por favor, Drake...”

A voz de Sage estava fraca, implorava pela vida de Godfrey e essa atitude fazia Drake estar mais no controle, e ele se deleitava com a situação.

“Você o quer vivo?”

Ela apenas assentiu com a cabeça enquanto Drake olhava para Godfrey. A crueldade e o sadismo estavam estampados no rosto do gringo e então ele sorriu.

“Hey chinês!”

Godfrey olhou para Drake e antes que ele esboçasse reação uma bala atravessou sua cabeça.

***

Um grito de horror ecoou pelo pequeno apartamento. Era um grito tão terrível que se os vizinhos ouviram com certeza imaginaram que algum crime estava acontecendo, mas nenhum crime acontecia, era apenas Sage sendo assombrada pelos pesadelos. Dessa vez o sonho foi tão real que ela sentia os efeitos de cada palavra dita, de cada agressão sofrida. A garota chorava de soluçar e o corpo tremia. O coração disparado indicava o pânico que estava sentindo naquele momento e antes que pudesse pensar em qualquer coisa, lembrou-se da morte de Godfrey. Um frio horrível percorreu sua espinha e num pulo Sage saiu da cama procurando pelo celular.

***

Já passava das 3h00 da manhã e Godfrey dormia depois de um dia cansativo que começou na madrugada anterior. Virou a noite cuidando de Sage, estava preocupado e por isso não conseguiu dormir enquanto estava com ela no hospital. Apesar do dia cheio ele estava calmo até o celular tocar. Com preguiça o chinês acordou olhando o relógio. Pela hora imaginou que fosse o irmão que estava em Taipei querendo fazer uma brincadeira.

“Sério, eu juro que eu vou te bater tanto quando eu chegar em Taipei no mês que vem, que nossos pais não vão nem te reconhecer.”

“Godfrey...”

Um sussurro, uma voz feminina e então Godfrey despertou.

“Sage! Me desculpa... eu... você... você está bem?”

Nada pode se ouvir do outro lado da linha, até que o chinês notou que ela estava chorando.

“Sage... fala comigo, você está bem?”

“Não...”

A voz falhada e baixa e o choro manhoso deixaram Godfrey ainda mais preocupado. Ele acendeu a luz do abajur e rapidamente saiu da cama procurando por suas roupas.

“Você quer que eu vá aí?”

“Por favor...”

E com essa resposta Sage desligou. A preocupação de Godfrey triplicou, não sabia o que possivelmente poderia ter acontecido com ela. Não sabia se ela sentia dor ou fraqueza, realmente estava perdido. As informações que Sage dera não eram nada precisas e quando ele se deu conta, já estava no carro dando a partida para ir ao encontro da garota.

Confiança

Os minutos pareciam horas, e Sage ficava cada vez mais aflita. Acendeu todas as luzes da casa e trocou de roupa, não queria que Godfrey a visse mais frágil do que estava realmente. Em quatro anos soube conviver bem consigo mesma, sem medo, sem receios, sem dúvidas e não entendia porque isso tudo agora. Será que o stress era o causador disso tudo? Era isso? Era o fato dela querer parar de fugir que a deixaram dessa forma? Não havia uma resposta. Pelo menos não agora. Sage andava de um lado para outro ansiosa e, depois de 15 minutos, Godfrey finalmente chegou. A garota correu para abrir a porta e assim que o viu não se conteve e o abraçou forte.

“O que está acontecendo?”

Godfrey estava tão confuso que apenas retribuiu o abraço bem apertado para que ela sentisse sua presença. Sage engoliu seco, precisava pensar em algo para dizer. Fazê-lo sair de casa por causa de um pesadelo era um absurdo então precisava de uma história.

“Eu acordei e ouvi um barulho, quando acendi a luz vi a porta bater. Alguém entrou no apartamento enquanto eu dormia.”

Agora a preocupação do chinês triplicou. Ele olhou em volta pelo apartamento e ainda abraçado a ela começou a andar pela sala vendo se havia algo estranho ali.

“Você não viu quem era?”

Ela negou com a cabeça.

“Vamos fazer o seguinte, você fica na minha casa essa semana...”

“Não, eu não posso fazer isso...”

“Sage. Alguém entrou aqui, podia ter acontecido alguma coisa ruim e você precisa de repouso, são ordens médicas. Fica na minha casa por essa semana, descansa. Eu juro que venho aqui todo dia ver se está tudo seguro e se estiver, você volta hm?”

Aquela era uma proposta inesperada. Quando Sage ligou para Godfrey era simplesmente para ter certeza de que ele estava vivo e bem. Ela mordeu o lábio pensando por alguns segundos e reparou que o chinês não desistiria da ideia.

“Tudo bem... mas só por essa semana.”

“Ótimo! Pegue suas coisas e vamos agora. Não vou te deixar sozinha aqui.”

Não havia o que Sage pudesse fazer a não ser acatar as ordens do chinês. Com muita relutância ela se soltou de Godfrey e sem demora separou algumas roupas as colocando na bolsa enorme que costumava carregar.

“Eu prometo que não vou deixar nada acontecer com você.”

“Eu te prometo o mesmo.”

A garota sussurrou para si mesma, mas Godfrey pode ouvir. Não entendeu o que ela quis dizer com aquilo. Pensou em questionar, mas Sage o olhava séria de um jeito que ele ainda não tinha visto.

O Santo Graal

A passos lentos Sage entrou no apartamento de Godfrey. Ele morava em um prédio lindo e o apartamento era de tirar o fôlego. Não lembrava nada a casa onde morava em Manacor, mas era perfeito e luxuoso para uma pessoa que vivia sozinha.

“Fica a vontade. Você quer alguma coisa?”

“Água, por favor.”

O chinês sorriu deixando Sage ali na sala. Ela olhava em volta e esboçou um sorriso. Aquele lugar era um pedacinho da China no Canadá. Andou pelo cômodo analisando detalhes, objetos e quadros até chegar a uma foto onde se via Godfrey bem jovem com uma senhora. Sage imaginou que fosse a mãe dele, e como ela era pequena perto dele!

“Eu devia ter uns 20 anos nessa foto. Foi depois de um jogo de basquete da universidade. Minha mãe sempre foi uma grande fã.”

Ele se aproximou de Sage lhe entregando o copo d’água.

“Você nasceu aqui?”

“Não, em Taiwan. Eu sou chinês mesmo, nascido e criado em Taipei. Meu pai foi transferido para cá e nos mudamos, mas meu irmão se mudou de volta para Taiwan e eu depois que terminei a universidade o segui.”

Sage prestava atenção enquanto bebia a água e estranhamente se sentiu calma. Uma paz tão grande, uma segurança tão forte que parecia que ela havia encontrado o Santo Graal.

“Por que deixou Porto Rico?”

Pergunta difícil já que ela nem tinha conhecido muito de lá, apenas trabalhou por alguns meses antes de se mudar para os Estados Unidos.

“A vida... a vida começou a apertar e eu me vi sufocada, precisava ir embora o mais rápido possível.”

“Não tem família?”

A garota assentiu com a cabeça, mas não disse nada. Godfrey entendeu que aquele deveria ser um assunto delicado e respeitou a posição de Sage de não matar sua curiosidade.

“Vem, eu vou te mostrar o seu quarto.”

Eles seguiram pelo corredor e Godfrey ia apontando e explicando onde ficava o que.

“Aqui é meu escritório tem alguns livros se quiser ler fique a vontade. Aqui tem um banheiro e aqui fica o seu quarto.”

Godfrey acendeu a luz e entrou esperando que Sage o seguisse. Um pouco tímida ela entrou no quarto e pode notar que estava bem arrumado, tinha uma cama de casal comum com lençóis brancos e algumas almofadas de cores preta e marrom sobre ela e, bem em frente havia uma TV gigante. Do lado direito estava o criado-mudo com um abajur e um relógio despertador, e do lado esquerdo tinha um pequeno guarda-roupa com gavetas embutidas. Perto da janela havia um sofá que parecia muito confortável e, espalhados pelas paredes, quadros com fotos de paisagens e templos chineses.

“Você pode colocar suas coisas no guarda-roupa se quiser e tem também cobertor e toalha de banho. Ali tem a sua suíte e.. ah...” Ele abriu a gaveta do criado-mudo e pegou um controle remoto “Esse controle manda em tudo aqui dentro do quarto. O ar condicionado, aquecedor, a TV... é só escolher.” Godfrey se aproximou de Sage passando as mãos pelos braços dela “Eu quero que se sinta em casa, que fique confortável. Amanhã eu vou ligar para o meu agente e pedir para que ele cancele todos os meus compromissos pela semana, e antes que você reclame eu já me decidi. Durante esses dias que ficar aqui eu quero ter certeza de que você fique bem.”

Era tão estranho ouvir aquilo, ter aquele tipo de atenção era tão inesperado e tão confortável ao mesmo tempo que deixou Sage feliz por aquele instante. Ela sorriu brevemente e abraçou Godfrey bem apertado.

“Obrigada. Sério mesmo, obrigada por tudo que está fazendo por mim.”

Aquele abraço o pegou de surpresa, mas foi uma gratificação pelas atitudes do chinês. Por quatro anos Sage não teve esse tipo de contato com ninguém. Por quatro anos Sage passou invisível. Por quatro anos ninguém se importou com o que ela sentia ou vivia. Talvez Godfrey fosse o sinal de que estava na hora de confiar, de parar de carregar aquele peso nos ombros e parar de fugir.

“Não precisa agradecer.” O chinês segurou os braços dela para se afastar e poder olha-la “O que precisar é só me chamar, hm? Meu quarto é o último.”

Sage assentiu com a cabeça e Godfrey em um ato de carinho lhe deu um beijo na testa a deixando sozinha para que ela descansasse.

Destrancando A Caixa de Pandora

O cheiro do café tomou conta do apartamento e, igual nos desenhos, despertou Sage. A garota abriu os olhos devagar sem saber onde estava até sentir a tranquilidade e a paz da noite anterior quando pisou naquele apartamento. Antes de sair do quarto tomou um banho demorado para relaxar ainda mais e por incrível que parecesse não pensou no pesadelo que tivera e nem foi assombrada por ele em seu sono. Ela se olhou no espelho tendo os cabelos molhados e respirou fundo. Um pouco da Liraz estava ali de volta, ela não sabia bem o que era, mas podia ver seu passado diante de si mesma.

“E se eu contar?”

Essa pergunta girava em sua cabeça, sabia que podia confiar em Godfrey, mas até que ponto? Será que ele poderia ajuda-la a colocar Drake na cadeia? Uma coisa de cada vez. Primeiro ela precisaria ter certeza de que nada mudaria entre ela e Godfrey, mas por quê? Desde quando uma pessoa se tornara importante nesses quatro anos de fuga? Sage com certeza tinha muita coisa para pensar e decidir, mas por enquanto queria se vestir e depois tomar café.

***

“Que cheiro bom...” Disse Sage entrando na cozinha.

Godfrey se virou abrindo um sorriso largo e mostrou a frigideira em suas mãos.

“Espero que goste das panquecas que eu estou preparando.”

“Isso me surpreendeu.”

“O que? Eu cozinhar?”

“Normalmente homens não cozinham.”

“Bom isso é verdade...” Godfrey colocou as panquecas em um prato e se apressou para fazer os ovos mexidos. “Mas morando sozinho por tanto tempo eu aprendi a me virar.”

“Nada de empregada?”

“Não... só uma faxineira que vem duas vezes no mês para dar um jeito por aqui.”

Aquela conversa tão casual nem dava sinal do que havia acontecido na noite anterior.

“Prontinho! Ovos, panquecas, pães e café para a senhorita.”

“E eu tenho que comer tudo isso?”

“Se quiser viver, sim. Você está muito magrinha, precisa de força para aturar o Simon.”

Os dois riram e o chinês começou a arrumar as coisas na sala de jantar.

“Quer ajuda?”

“Pode trazer o cesto de pães e o leite que está encima da bancada, por favor.”

Sage assentiu com a cabeça e levou para a mesa as coisas pedidas. Estava tudo lindo e parecia delicioso. Como ela sentia falta desse tipo de mimo. Nunca imaginou que no meio de sua fuga encontraria alguém que a tratasse bem como Godfrey a estava tratando e foi exatamente ali tomada por esse pensamento que decidiu dizer algo sobre si mesma.

“Essa mesa está lembrando minha vó.”

O chinês se surpreendeu. Finalmente Sage estava falando da família sem ao menos tocarem no assunto. Ele puxou a cadeira para que ela se acomodasse e rapidamente sentou na cadeira em frente.

“Por que?”

“Mi abuela... bom... ela gosta de cozinhar, agradar todo mundo e sempre fazia coisas deliciosas para mim.”

“Então me pareço com a sua vó?”

Risadas. Fazia tempo que Sage não ria de verdade, que se sentia a vontade para rir. Godfrey era um homem e tanto, não podia negar.

“Bom, minha vó não é chinesa, nem modelo.”

Um outro lado de Sage começou a aparecer. Ela não era do tipo séria como sempre se mostrou. Ela era divertida, simpática e com certeza era o que faltava para que o interesse que o chinês desenvolveu por ela aumentasse.

“Então sua vó é uma cozinheira?” Godfrey perguntou enquanto servia sua hóspede.

“Como toda vó. Ela me ensinou muita coisa sobre cozinha.”

“Será que você lhe daria orgulho?”

“Isso é um desafio, Gao?”

“Cozinharia para mim?”

Sage bebeu um gole de café e assentiu com a cabeça.

“Irá comer a melhor paella da sua vida!”

“Hmm, já me deu água na boca.”

Aquele café da manhã foi o mais agradável em quatro anos. Sage parecia feliz, diferente, calma, e Godfrey com certeza ficou mais curioso e encantado pela morena. Ela acabou falando dos pais e do irmão, falou sobre os avós, mas nem chegou perto do fato dela ser uma herdeira e que na verdade era da Espanha. Isso com certeza levaria à perguntas que ela não estava pronta para responder. Sage notou que podia confiar em Godfrey e, falando sobre sua família, sentiu como se tivesse destrancado a Caixa de Pandora.

Paella

Os dias que passaram foram extremamente tranquilos para Sage. Aos poucos ela foi conhecendo mais do chinês e se chocou ao saber que ele havia atuado em Hollywood. Godfrey mostrou algumas novelas que fez na China e Sage achou engraçado afinal, nunca havia conhecido alguém como ele. A não ser Rafael Nadal e sua família já que o tenista era seu vizinho em Manacor. Nos quatro dias que ficou na casa do chinês, ele a levou para jantar e até mesmo ao London como cliente e foi servida como uma rainha. Mais e mais Sage se apegava à Godfrey e aos amigos que fizera no trabalho, o que era um problema. Ela estava dividia entre ir embora sem dizer nada e contar tudo o que estava vivendo.

No quinto dia os dois foram fazer compras, Sage finalmente cozinharia para Godfrey. Ele parecia uma criança andando pelo mercado querendo comprar todos os frutos do mar que vendia ali. Comprou camarões, lula, polvo, mariscos e claro, uma lagosta enorme. Tudo perfeito para que a paella fosse feita.

“Pronto! A cozinha é sua hoje, hm?”

“Espera aí, espertinho. Eu preciso de ajuda, ou você achou que eu teria todo esse trabalho sozinha?”

“Justo, mas vê se não humilha muito meu yakissoba.”

Nesse clima descontraído os dois começaram a preparar a tão desejada paella. Sage tentava ensinar Godfrey que tinha uma piada para tudo fazendo a morena rir. Entre danças com lagosta e conversas bem humoradas, eles decidiram fazer daquilo um jantar formal. Bom, formal só na cabeça dos dois mesmo que apesar da idade se comportavam como crianças brincando de casinha. Sage gostou tanto da ideia que resolveu usar o único vestido que tinha em meio as suas roupas repetidas, sentiu necessidade de se arrumar. A única coisa que ainda odiava era o cabelo manchado.

O jantar foi servido e quando Godfrey viu Sage seus olhos brilharam. Ela não estava chique, muito menos extremamente arrumada, mas ele a viu diferente. Talvez fosse o vestido, ou o sorriso que pela primeira vez parecia real.

“Você está linda!”

“Gracias.”

Sage ficou sem jeito. Não sabia mais lidar com elogios nem agrados ou carinhos. Ela mordeu o lábio abaixando a cabeça e voltou a arrumar a mesa.

“Gosto quando fala espanhol.”

“Você fala espanhol?”

“Não, mas mesmo sem entender as vezes, eu gosto.”

E a partir daquele momento um clima se formou no Santo Graal. O jantar passou a ser cheio de olhares, elogios e intenções. A conversa estava agradável e Godfrey, como um bom cavalheiro, serviu vinho tinto. Não era o que combinava com peixe, mas era o que ele tinha em casa já que se esqueceu de comprar. Aquela atenção, aquele mimo deixavam Sage mais confortável do que realmente deveria. Fazia tempo desde a última vez que alguém conversou direito com ela e naquele momento, lá estava ela com um homem incrivelmente agradável conversando como uma pessoa normal. Talvez fosse um sinal de que estava mais do que na hora de quebrar o ciclo de fuga e sossegar, ir para a casa. Que saudade de casa!

“Sério Sage, você cozinha muito bem! A paella estava deliciosa!”

“Gracias... a verdadeira paella espanhola!”

“Achei que você fosse de Porto Rico.”

Pega na mentira. Maldita boca grande. Aí estava o motivo para não relaxar e começar a se fechar novamente.

“Eu sou... minha vó não.”

Resposta rápida e simples. Sage conseguiu disfarçar bem o nervosismo que se instalou no momento em que quase teve que contar seu segredo, o que na verdade talvez não fosse tão ruim; o problema era que ela não sabia como fazer isso. Várias coisas a preocupava e uma delas era colocar o chinês em risco. Aquele sonho realmente a assustou. Novamente Godfrey notou aquele olhar que queria lhe contar algo, ele realmente queria saber o que Sage teria a dizer e a curiosidade aumentava, mas ao mesmo tempo, tinha medo de que a assustasse. Definitivamente não sabia como chegar em Sage.

“Do jeito que cozinha já pode casar!”

“Não, obrigada. Já fiz isso antes...”

E com essa brincadeira Godfrey conseguiu abrir a caixa de pandora. A resposta foi instantânea, imediata, sem pensar e surpreendeu até mesmo a própria Sage.

“Você foi casada?”

“Não foi um casamento longo, mas eu me casei uma vez. Coisa de garota boba.”

“Quanto tempo durou?”

Sage mordeu o lábio.

“Pouco mais de seis meses.”

“E por que acabou?”

“Porque ele é um psicopata, matou meu melhor amigo e agora me persegue Sabe como é, eu era imatura e ele sendo um homem mais velho... muito mais velho... as coisas não funcionariam mesmo.

“Onde ele está agora?”

“Não faço a menor ideia e isso me preocupa”

O chinês notou um pouco de inquietação por parte de Sage, a curiosidade obviamente aumentava, mas não sabia se poderia continuar fazendo perguntas. Depois de ponderar suas opções por alguns segundos que pareceram horas, ele se levantou e se sentou ao lado da morena.

“Bom, você não foi a única a passar por isso... eu também já fui casado, e não deu certo. As coisas ficaram estranhas, e depois de dois anos decidimos que era melhor o divórcio.”

“Ainda tem contato com ela?”

Godfrey negou com a cabeça.

“Não, eu sempre fui da política de que ex deve ficar no passado.”

Aquilo fazia mais sentido do que o chinês poderia imaginar. Sage queria que Drake ficasse no passado, queria que ele tivesse aceitado que as coisas não deram certo, mas com ele não podia ser assim. Ele tinha que ser obcecado por ela, possessivo e psicótico. Sage lambeu os lábios perdida em seus pensamentos quando sentiu a mão de Godfrey sobre a sua.

“Me desculpa, acho que esse é um assunto que ainda mexe com você.”

Na verdade a separação não mexia com Sage, o que mexia era o fato daquele psicopata estar a solta atrás dela. A morena olhou diretamente nos olhos de Godfrey, as palavras chegaram até a garganta, sentia que estava pronta para falar, mas algo a impediu. O medo do que viria depois de revelar o que acontecia, seu nome verdadeiro, a vontade que tinha de desistir. O que ele diria? Sage tinha a máxima de que não deveria confiar em ninguém e ali mesmo caía em contradição já que havia confiado em Godfrey o suficiente para ficar aquela semana no apartamento dele. O chinês notou algo errado, franziu o cenho enquanto olhava nos olhos de Sage tentando desvendar o mistério que a rondava e de repente as coisas mudaram.

“Está tudo bem, eu não me importo de falar sobre isso... não me machuca quero dizer...”

A mão de Godfrey tocou o rosto de Sage com uma delicadeza que ela mal pôde sentir; um gesto o qual ela já havia esquecido. Não sei bem se foi a paella, ou clima romântico com o vinho, mas os dois começaram a ver um ao outro de forma diferente. Os olhos de Sage ficaram brilhantes e o sorriso de Godfrey convidativo, tudo em uma atmosfera perfeita, tão perfeita que fez Sage suspirar. Um arrepio percorreu a espinha da morena que se viu confusa novamente. O coração acelerou e uma avalanche de pensamentos a invadiu. Godfrey pensou que estava tudo bem, mas realmente não estava. Sem um movimento brusco ele apenas aproximou o rosto do dela, mas Sage, ao sentir a respiração dele tão próxima se assustou e num pulo ficou de pé.

“Já está tarde. Amanhã eu volto a trabalhar e tenho que voltar para o meu apartamento. Melhor eu ir dormir. Boa noite.”

Sem dar chances para que Godfrey dissesse algo Sage, literalmente, correu para o quarto e em seu modo de fuga trancou a porta. A respiração estava pesada e a morena andava de um lado para outro aflita.

“O que foi aquilo?”

Se perguntou visivelmente abalada. Não, ela não estava com medo de Godfrey, o que estava acontecendo naquele exato momento era algo diferente. Por quatro anos Sage não se relacionou com ninguém, muito menos deu chances para que isso acontecesse. Por quatro anos ela se manteve quieta, invisível, só, não olhava para os lados, não notava ninguém mesmo que se atirassem nela, mas Godfrey... esse era diferente.