Bring Me Home
9 08
Notas iniciais
No fim das contas, Yeleen aceitou minha sugestão, mesmo que não fosse de total bom grado. Eu até a ajudei no processo, indicando que ela falasse com a colega de Chani — e claro que tinha meus próprios interesses envolvidos nisso. Por sorte, ela sequer lembrou, ou preferiu não discutir, e depois de duas semanas e algumas conversas com a administração da faculdade ela estava trocando de lugar com minha nova amiga.
Mas eu fiz Chani ficar com a minha cama antiga na beliche, pois tinha preguiça de subir aquelas escadas. Ela aceitou de maneira entusiasmada, o que parecia ser seu normal.
Infelizmente — para a própria Yeleen, digo — nossos caminhos ainda se cruzavam constantemente. Nos próprios dormitórios, já que nossos quartos eram no mesmo andar e corredor; e principalmente durante as aulas, pois estávamos matriculadas em quase todas as matérias juntas. E às vezes ela aparecia no Café enquanto eu trabalhava também.
Sua presença raramente me incomodava, de verdade. Mas apesar de ter dito a mim mesma que havia superado aquele episódio no show de Castiel, às vezes eu me pegava pensando sobre o que havia acontecido. E o que me deixava mais intrigada era toda a história do namoro entre Yeleen e meu ex. Era muito estranho pensar naqueles dois em um relacionamento, pois Yeleen não parecia ser o tipo de garota com quem Castiel se envolvia — muito pelo contrário. A personalidade e as ações da minha colega me lembravam levemente de Ambre, em escala muito mais amena, mas ainda assim. Ela não era agradável e fazia questão disso. Nosso primeiro encontro mesmo havia provado aquilo, com suas ofensas à aparência de Chani.
A não ser que ela fosse uma pessoa completamente diferente na frente dele, eu não enxergava de maneira alguma como Castiel e aquela garota poderiam dar certo.
De qualquer forma, nada daquilo era assunto meu.
Eu não havia visto Castiel desde o show e não planejava vê-lo. Talvez nossos caminhos estavam definitivamente separados, e eu fazia esforço para me convencer de que estava tudo bem assim.
Grande parte do tempo eu estava ocupada demais para pensar nesse assunto, fosse com o trabalho no Café, onde Clemence ainda pegava no meu pé de vez em quando; ou fosse na faculdade, com todas as matérias que eu tinha e seus trabalhos. A cada semana que passava, mais as datas de provas e entrega dos trabalhos finais se aproximavam, e apesar de ainda estar no segundo mês do semestre eu já sabia que não seria fácil.
Além de tudo ainda tinha que planejar meu trabalho de conclusão de curso para entregar ao fim do ano para que me formasse. Minha especialidade era exatamente a disciplina ministrada pelo professor Zaidi, então também tinha que conversar com ele sobre minha orientação. Eu não tinha certeza ainda sobre qual seria meu tema de pesquisa, mas estava inclinada a pesquisar algo sobre a Semana de Arte Moderna e todo movimento modernista no Brasil no começo do século XX. Parecia ser uma boa opção.
De qualquer forma, lá estava eu em mais um dia de aula, com Chani sentada ao meu lado como sempre. O professor Zaidi estava atrasado em uns quinze ou vinte minutos, o que não era normal dele, e sequer Melody sabia o que estava acontecendo. Yeleen também não havia dado as caras por enquanto. Não muito depois de Chani comentar sobre o atraso comigo, Zaidi apareceu na porta com Yeleen logo atrás dele, o que fez com que eu e minha amiga ao meu lado trocássemos olhares inquisidores.
— Perdão pelo atraso, turma. — disse o professor enquanto colocava seus materiais na mesa e pedia ajuda para Melody com a preparação da aula. — Havia uma pequena multidão do lado de fora do bloco, aparentemente graças a um músico famoso ou sei lá. — ao terminar a frase, ele olhou para Yeleen, que já havia sentado, com um olhar um pouco… bravo?
Eu nunca imaginaria Rayan Zaidi bravo.
Vai saber.
Sua fala, no entanto, fez com que eu me sentisse incomodada de repente, talvez porque era óbvio de qual músico famoso se tratava, ainda mais quando Yeleen estava tão atrasada quanto o professor e parecia exibir um sorrisinho depois da fala que Zaidi direcionou a ela.
— Bom, acho que não falta mais ninguém. — Zaidi pigarreou, botando ordem na classe com seu jeitinho. — Neoplasticismo!
☘
Almocei com Chani no restaurante universitário o mais rápido que eu podia, pois Hyun havia me mandado uma mensagem pedindo que eu fosse mais cedo para o trabalho. Passei o tempo todo em que comia quieta, enquanto Chani monologava sobre diversos assuntos que eu não conseguia prestar atenção. A única coisa que se passava na minha cabeça era o fato de que, se eu tivesse me atrasado, teria encontrado Castiel na frente do prédio antes da aula.
E eu tentava urgentemente convencer a mim mesma que eu não queria ter me atrasado, quando minha consciência só sabia me gritar de volta “para de mentir, você sabe que queria ter se atrasado e encontrado seu ex!”.
Acontece que depois do anúncio de Zaidi sobre a presença de Castiel a poucos metros de mim, eu não conseguia parar de imaginar diversos diálogos que eu poderia ter com ele, que me seriam muito mais úteis que aquela meia dúzia de palavra que trocamos no camarim do show. Havia tanto que eu poderia ter dito a ele, mas acovardei. Um pedaço de mim argumentava que foi melhor daquele jeito, ele merecia que eu lhe desse um pouco de espaço; mas outro pedaço justificava que nós dois merecíamos uma conversa melhor do que a que tivemos quando terminamos por telefone quatro anos antes. Nosso relacionamento foi algo grande demais para ter acabado do jeito que acabou.
— Você nem tá me ouvindo, né? — Chani perguntou e me tirou do meu transe. Fiz uma careta.
— Me perdoa, de verdade! — disse, levando a mão à testa e pressionando levemente. Todos aqueles pensamentos estavam começando a me dar dor de cabeça.
— Tudo bem, eu notei que você está mais avoada desde que o professor bonitão falou sobre seu ex causando um atraso.
Eu ri de leve.
Chani não havia perguntado mais nada sobre Castiel além do que eu havia dito a ela no banheiro no dia seguinte ao show. Eu gostava muito que ela respeitava totalmente minha privacidade e parecia esperar eu me sentir confortável para dizer o que quisesse a ela quando quisesse. Ela era o completo oposto de Rosa e Alex, por exemplo, que eram dois enormes fofoqueiros.
— Eu só estou confusa sobre o que quero fazer da vida em relação a ele.
— Por que? Ainda sente alguma coisa?
Suspirei alto e levantei meus olhos para encara-la.
— Sinceramente? Nem eu sei mais.
Ela me fez um rosto que demonstrava compaixão, e não falamos mais disso. Não demorou para que terminássemos de comer e eu fosse para o Café e ela voltasse para o nosso quarto, dizendo que ia pegar materiais antes de ir para a biblioteca estudar. Como o Café não era longe do campus, não demorou mais de vinte minutos até que eu chegasse lá. Encontrei Hyun na cozinha, onde fui para colocar o uniforme — no caso, um avental por cima da roupa.
— Ei! Ufa, que bom que chegou. — ele disse ao me ver. — Eu vou sair porque é muito urgente, mas devo voltar em pouco tempo.
— Tudo bem.
Ele retirou seu avental e boné e saiu rapidamente pela porta da cozinha. Eu ri de seu desespero e guardei minha mochila no quartinho que tínhamos especificamente para isso. Logo fui para a parte comum do Café, para atender os clientes. No horário da tarde era normal um movimento maior, acho que o pessoal tinha mania de fazer uma pausa para um café da tarde. Mas como ainda não havia passado muito do horário do almoço, não havia tantas pessoas assim entrando e saindo do estabelecimento.
Atendi alguns clientes do lado de dentro bem como do lado de fora. Não parei para contar, mas fiquei cerca de meia hora atendendo sozinha enquanto Hyun não voltava. Estava surpresa comigo mesma por estar aguentando as pontas tão bem. Em nenhum momento me desesperei, até porque todos os pedidos foram simples e os clientes bondosos, e isso tudo ajudou para que eu não fizesse nada de errado.
Estava saindo da cozinha porque ouvi o sininho na porta, anunciando a entrada de mais algum cliente. Eles conversavam e riam, e eu saí já preparada para anotar seus pedidos.
Até ver quem era.
Os cabelos vermelhos de Castiel brilhavam com o sol que entrava pelas janelas, e Yeleen estava agarrada em seu braço, soltando uma risada gostosa.
Meu desespero naquele momento foi tanto que alguma parte do meu cérebro ativou automaticamente um botão de pânico. Sem saber qual outra reação eu poderia ter — algo civilizado, por exemplo, como conversar e agir como uma adulta normal -, a única coisa que consegui fazer foi largar meu bloquinho e caneta no ar e me jogar imediatamente no chão, escondendo-me atrás do balcão.
Patético, eu sei.
Eu percebi o quanto a situação toda foi ridícula menos de um minuto após fazê-la acontecer. Infelizmente, porém, se eu já não sabia o que fazer antes, sabia menos ainda o que fazer depois. Eu não tinha ideia de como me recuperar daquela vergonha sem me meter em mais vergonha ainda. Qualquer coisa que eu tentasse só me faria passar por mais idiota do que já estava sendo. Eu só conseguia rezar para todos os deuses existentes que o casal vinte não tivesse me visto, pelo meu próprio bem.
Eu não sei quanto tempo fiquei ali, como a boa imbecil que eu era. Na minha percepção pareciam anos, mas não deve ter sido tudo isso. Em determinado momento, ouvi o sino da porta tocar novamente mas ainda não quis me arriscar em levantar e ver se era o casal que havia ido embora bravo pela falta de atendimento ou se era alguém novo entrando. Mas logo descobri quem era.
— Ninguém atendeu vocês? — Hyun perguntou, e pela falta de resposta verbal imaginei que um deles respondeu apenas com acenos de cabeça. — Ué…
Ouvi os passos do meu colega se aproximando e logo ele contornou o balcão. Ele não me viu ao entrar na cozinha, e eu aproveitei sua deixa para (novamente, agindo como uma completa louca) entrar atrás dele no outro cômodo, me arrastando pelo chão.
Já na cozinha, me coloquei de pé finalmente e bati a mão na bunda, limpando uma sujeira imaginária da calça. Hyun estava de costas, mas se virou ao me ouvir.
— Cruz credo, de onde você veio? — ele perguntou meio rindo e eu só dei de ombros. — Não atendeu o casal ali fora por quê?
— Olha, se eu te contar vai ser uma história longa demais. O que posso te dizer é que não tenho a mínima condição de atendê-los. Na verdade, sequer posso dar as caras na frente deles. Por favor, — supliquei, juntando as palmas das mãos — não me faça ir até lá.
Hyun pareceu surpreso, e por mais que eu estivesse sendo um pouco dramática, nada daquilo era verdadeiramente um ato. Eu realmente preferia a morte ao invés de ir atender Castiel e sua nova namoradinha.
— Tudo bem, eu atendo eles. Mas você não pode ficar aqui na cozinha sem fazer nada.
— Eu sei! Ah, não sei o que fazer. — passei as mãos pelos cabelos, amassando os cachos. — Olha, distrai eles que eu vou lá fora pegar os pedidos.
— Ok.
E assim foi. Por sorte o casal pediu a comida para levar; segundo Hyun, disseram que não queriam chamar atenção porque Castiel não gostava de multidões atrás dele (pouco metido). E Hyun me ajudou a organizar tudo direitinho para que, quando eles fossem embora, eu não estivesse do lado de fora. Meu colega de trabalho foi gentil o suficiente para não perguntar mais nada sobre a situação bizarra na qual eu tive que enfiá-lo, e depois disso nosso dia no Café passou normalmente como se nada tivesse acontecido.
☘
Eu estava de volta ao meu quarto, e Chani estava lá também. Já tinha passado alguns minutos antes para pegar minhas coisas e ir tomar banho, e até então ela não havia chegado. Guardei minha necessaire de volta no armário e me joguei na cama. Chani estava de fones de ouvidos e só então notou minha presença.
— E aí? — me cumprimentou, pausando o som no computador onde ouvia.
— Oi.
— Sua amiga Rosalya passou aqui enquanto você estava fora. — disse, o que me fez olhar para ela. Estava me encarando de volta. — Disse que tinha que te falar uma coisa, aí disse que você não estava. Ela pediu que você mandasse mensagem a ela.
— Tudo bem, obrigada. — Chani me respondeu com um aceno de cabeça e voltou sua atenção para sua música e computador.
Peguei meu celular, que estava na minha escrivaninha, e mandei a mensagem para Rosalya. Ela demorou um pouco a me responder, pensei até que ela já poderia ter ido dormir, pois já passava das nove da noite e Rosa sempre foi uma senhora no seu interior, gostando de dormir cedo e acordar mais cedo ainda. Troquei mensagens com outros amigos enquanto não recebia a resposta da platinada. Falei com Lysandre, mas ele disse estar ocupado e isso encurtou nossa possível conversa. Então fiquei uns bons minutos batendo papo com Armin, que me fazia gargalhar com as piadas idiotas que mandava. Sentia falta de tê-lo por perto, ele era meu parceiro de crime.
Estava prestes a perguntar se ele sabia de alguma coisa sobre Kentin, a única pessoa que eu não havia visto até então, mas foi aí que Rosalya me respondeu finalmente.
Rosa: Oi amiga! Desculpa a demora
Lottie: tudo bem. o que você queria? estava tomando banho quando você passou aqui.
Rosa: Entendi. Passei rapidinho antes de vir pra casa. Mas queria te chamar pra uma boa programação!
Lottie: lá vem você hahahah
Rosa: Pare com isso, doida! Hahahaha Semana que vem tem um feriado e a universidade não vai ter aula sexta. Pensei em passarmos esse final de semana na fazenda com Lysandre!
Lottie: ok. vou admitir que é uma ótima ideia
Rosa: Eu sei.
Depois disso, passamos o resto da noite e quase viramos a madrugada falando sobre nossa pequena “viagem” até a fazenda da família Ainsworth. De acordo com Rosalya, não era tão longe do centro de Montreal, ficando a cerca de uma hora ao sul, basicamente na fronteira com os Estados Unidos. Eu fiquei animada e mal podia esperar para a semana passar logo e eu finalmente conhecer a tão falada fazenda onde Lys passou a infância. Também seria muito bom passar mais tempo com ele, eu ainda não havia conversado com ninguém o suficiente para suprir os quatro anos que fiquei fora.
Além de tudo, formulei uma conversa que queria ter com Lysandre sobre seu futuro naquela fazenda, e se aquilo era realmente o que ele queria. Rosalya insistia em dizer que seu cunhado já havia confirmado diversas vezes que estava bem do jeito que estava, mas eu sabia que Lysandre era bonzinho demais para assumir algum desconforto, querendo colocar o bem de todos acima do próprio.
Finalmente eu tiraria aquele assunto a limpo.
Fale com o autor