Brincando com Segredos
1 Da água para o vinho.
Notas iniciais
Eu estava prestes a ter um ataque cardíaco.
Não sou o tipo de garota que vive se arriscando por aí, buscando caras mais velhos na porta de boates, caçando aventuras. Infelizmente, fui obrigada a assumir essa angustiante característica. Tudo por um bom e novo segredo para o meu importantíssimo blog de fofocas. Criei-o logo que entrei no ensino médio, encantada com os delírios e farsas que encontrava pelos corredores daquele inferno que chamavam de colégio.
Assumi um pseudônimo moldado pela curiosidade e pelo sagaz desejo de expor a vida do próximo. Em contra partida, fora do anonimato, a imagem que eu passava para as pessoas era de garota comportada e refinada, tomada pelo bem. Quando no segundo ano, minha reputação já havia me encaminhado para o topo da pirâmide escolar. Eu era a estrela no alto da árvore de natal. Eu era a influência para aquele mar de perdedores.
Meu nome é Emma Thompson. Sou uma garota de dezessete anos, prestes a começar o último ano letivo. Cabelos escuros, olhos castanhos, pele morena, lábios rosados, estatura mediana e nariz perfeito. Implantei a ditadura da beleza na vida de milhões de jovens desalmados. Sem mim, eles ainda estariam usando roupas antiquadas.
A máscara que eu desenvolvi quase chegou a ser retirada. Uma vez eu usei meu blog para revelar que meu próprio irmão, Ben Thompson, era gay e pegava o filho da diretora, Edward Berry. Se é verdade? Consegui fotografá-los aos beijos no banheiro do clube de natação. Achei que papai o espancaria, mas simplesmente o aceitou. Enraivado, o mimado se juntou com o namorado e acabaram tentando hackear a Serpente Sanguinária, ou SS. Aliás, esse é o nome do site que eu preciso nutrir todas as semanas, é assim que eu assino. Espero que esse nome seja ótimo para um blog.
Ninguém sabe que eu sou a Serpente Sanguinária, dona do blog mais visitado dos últimos três meses em todo o estado. Espero que esse segredo continue guardado.
Depois dessa terrível situação com o meu maninho, aumentei a proteção da página. Imagina o que aconteceria comigo se descobrissem? Toda a minha faixada desabaria. Também coloquei trinco nas portas do meu quarto, caso o Ben tentasse acessar o meu computador. Adelaide acabou se tornando outro problema. Ela é a minha irmã mais nova e sua principal característica é o rosto desfigurado. Foi queimado no incêndio em nossa antiga casa, no Canadá. Ela sempre se espreita pela minha cama, pedindo que eu a maquie. Eu respondo a mesma coisa todas as vezes:
— Você já tem quinze anos. Acredito que possa fazer isso sozinha. — E torno a digitar loucamente no meu celular.
Minha família é bastante rica. Na verdade, uma das mais ricas da Califórnia. Meus pais são donos de uma empresa famosíssima de NY e todo o lucro que temos vem de lá. Minha mãe, Cristal Lewen, já foi modelo para capa de revistas importantes e, infelizmente, acabou se envolvendo em um caso criminal em 2009, quando tentou assassinar o próprio marido. Ah, meu pai levou isso numa boa.
Para ser sincera, estou passando por uma situação parecida agora. Sei que é errado invadir a Winston High School no meio da noite, mas estou fazendo de tudo para conseguir uma boa gravação da briga da Mia e de seu namorado infeliz, Michael. Ambos são meus amigos, não sabem que estou aqui e não fazem a menor ideia de que sou a SS. O casal vinte vai se foder.
Gritavam um com outro na beirada da piscina. As palavras ecoavam na grande quadra, causando um efeito fantasmagórico e tristonho. O Winston era o cenário para a maioria dessas situações que formavam uma grande teia de aranha de confusões. Eu tinha sorte de estudar em um lugar com a segurança arrombada. Nunca fui flagrada por uma câmera e os alunos sempre conseguiam invadir o lugar pela noite, como agora.
— Eu vi o que você estava fazendo com aquela garota! Vou meter a mão na cara daquela magricela! — Mia estava mesmo irritada. Seus cabelos trançados balançavam de um lado para o outro e o dedo cutucava o peito do garoto com violência. — Você me traiu!
— Eu estou cansado de toda essa baboseira que você vem fazendo! Não confia em mim? — Ele segurou os braços dela e a jogou contra a parede. Foi nesse momento que consegui um ângulo ótimo para a gravação. — Na boa! Você quer saber a verdade, não é?
Mia se contorcia nos braços dele, pedindo que soltasse. Ela começou a estapeá-lo ferozmente, chegou até a cuspir nele! Nossa, a garota realmente havia aprendido algumas técnicas comigo. Apesar de nervosa, estou realmente entediada com essa porcaria. Esses espancamentos são costumeiros e a maioria das pessoas não se interessavam por notícias fraquíssimas como essa. Algo mais chocante precisava acontecer. Por sorte, meus desejos foram realizados.
— Eu engravidei a Tass do centro de apoio aos jovens drogados! — A voz de Michael falhou. Seu corpo alto e atlético se curvou. A pele, que já era branca, empalideceu cada vez mais. Dei um zoom no rosto de Mia e notei a expressão enraivada dela.
— Você é um grande saco de merda! — Ergueu a mão e deu uma bofetada no rosto de Michael. O garoto cambaleou com as mãos nas bochechas, tropeçou em um dos batentes de mármore e escorregou no piso molhado. Sua cabeça se chocou contra o chão com tamanha força. Quando se levantou, um filete de sangue escorria por ela. Parecia muito tonto, não demoraria para desmaiar. Acontece que o seu corpo tombou para o lado da piscina.
Desacordado, o corpo ficou boiando ali, cercado pelo sangue do ferimento na cabeça. Esperei alguns minutos com a câmera ligada. Mia iria ajudá-lo, precisava fazer aquilo. Não, ela não o fez. Deu uma rápida olhada para o corpo do rapaz, os olhos esbugalhados mostravam o quão ela estava assustada. Não teve nem um pingo de humanidade, apenas o deixou ali para morrer, e foi apenas com alguns passos para fora do lugar que a garota decidiu que seria uma assassina.
Fui até a água para ajudá-lo. E se já estivesse morto? Tinha psicose por essas coisas de digitais. O que eu deveria fazer? Ajudá-lo, gritei mentalmente. É, isso aconteceria... Se não fosse pela chegada da policia. Quem havia chamado eles? Bem, eu realmente não podia ficar ali, então puxei minha mochila e corri pelos corredores do Winston como uma louca.
Eu estava prestes a ter um ataque cardíaco.
***
Nunca esquecerei aquele dia, isso é fato. Mesmo depois de meses, continuo tendo pesadelos com o corpo do Michael. O último ano no Winston havia começado de uma forma terrível e brutal. Michael morreu, assim como a SS.
Acabei participando das investigações apenas para falar sobre a personalidade de Mia. Sim, eu acabei incriminando minha amiga, contei a verdade, mas não através de Emma. Postei o vídeo nas Serpentes Sanguinárias e esperei dez minutos. Milhões de pessoas compartilharam aquilo e não demorou para que o material chegasse até a policia. Logo em seguida, fiz a única coisa que era certa: Deletei o blog, dei um fim em tudo que me ligava a ele. Cortei o problema na raiz. Se não fizesse isso, chegariam à conclusão de que SS estava lá no dia do acidente, logo, Emma também estava.
Puta que pariu, eu sou um monstro! Quantas vidas eu estraguei? Era incrível o poder das palavras e de uma simples postagem. Queria me matar, queria nascer novamente só para ser alguém do bem. Torturei-me com pensamentos desse tipo por mais meses, enquanto meu pequeno mundo de fama se desfazia. Aprendi a recomeçar e me recriei. Eu tinha uma segunda chance e passei a aproveitá-la.
Tass, a garota que engravidou do Michel, passou a ser um símbolo para todas as garotas do Winston. O bebê que ela carregava receberá o nome do falecido pai, em homenagem. Filas são formadas para acariciar a barriga dela. Eu sou uma das garotas que faz isso. No intervalo, conversava pra caramba com a grávida. Desfiz todo o tipo de amizade falsa e interesseira.
Ajudei o Ben com o relacionamento dele. Sabia que nada poderia pagar os horrores que eu fiz, mas tentar reparar os danos provocados já era um bom começo. Idealizei uma festa surpresa para o casal e até desenhei um modelo de roupa com a seguinte frase: “Bedward é real e canon”, seguido por vários coraçõezinhos e uma foto deles dois abraçados. Ah, também tem a Adelaide! Toda noite, antes de descermos para o jantar em família, eu a maquiava e escovava os seus cabelos. O batom deslizava pelos lábios tortos e ressecados dela, colorindo-o.
Uma boa parte da antiga eu ainda vivia em mim. Na metade do ano, peguei-me fumando um cigarro de minha mãe, stalkeando a página de uma garota babaca da minha turma, quase que a xingando. Também não deixei de usar as minhas roupas extravagantes de marca. Adorava sair pelas ruas com os meus óculos escuros, transbordando beleza. As calçadas eram as passarelas, e eu a modelo. Aos sábados, pegava o carro de papai e ia para alguma festa no centro de Oakland.
A normalidade e estabilidade voltaram aos poucos. Novas garotas tiraram o meu posto no topo da pirâmide e passaram a ser uma versão da minha antiga eu. Até criaram um blog que seguia o estilo do SS, mas foi excluído por causa do texto, ou lição de moral, que deixei lá. Enfim, eu acreditava que tudo continuaria dessa forma, mas foi faltando apenas quatro meses para o final do ano que tudo mudou.
— Eu sempre imaginei esse momento e é mais que maravilhoso poder torná-lo real! Venho fazendo um grande trabalho nas emprestas Thompson e espero que o desempenho do meu filho seja maior ou igual ao meu. — Meu pai, Greg Thompson, estava no topo de um pódio de mármore. O Sol estava bastante forte e iluminava todo o jardim dos fundos da casa dos Montgomery, uma família bem próxima da nossa. — Não, não estou colocando um adolescente para controlar tudo na nossa agência, ficarei de olho se ele tentar ver algum pornô gay no escritório.
Todos os convidados riram com a piada, incluindo eu. Ben, apesar de ainda não ter acabado sua faculdade, será um dos monitores chefes da empresa da família. Ele foi até o lado de meu pai e discursou algumas palavras. Minha mãe pigarreou do meu lado e bebeu um pouco de vinho. Ela e Adelaide estavam tão bonitas. Eu geralmente não gostava de encontros como esse. A carga de hipocrisia era enorme. Homens de negócios apresentavam filosofias complexas uns aos outros, enquanto as mulheres se apresentavam como uma filosofia.
— Quer um pouco de vinho, senhora? — Um garçom passou ao meu lado. Ele deu uma rápida olhada no meu corpo magricela, espremido naquele vestido branco. Ignorei aquilo.
— Obrigado. — Peguei a taça e sorri para ele, sem dar muita bola. O fitei pelo canto do olho enquanto se afastava. O homem abriu a boca e sussurrou algo pra mim, ainda um pouco próximo. “Cuidado para não melar o vestido. A bomba vai fazer estrago.”
Ele realmente tinha dito aquilo? Um arrepio imenso tomou conta do meu corpo, meus ossos pareciam doer. Tinha um pressentimento ruim... O garçom estava se afastando, nem parou quando alguém pediu por vinho. Do que ele estava fugindo? É então que eu caio na real.
— Vão explodir uma bomba aqui! — É a única coisa que eu grito antes de tudo ir pelos ares.
***
15/03/2013– Serpentes Sanguinárias.
''Ben Thompson, o filhinho do grande empresário G. T. Muriel, foi flagrado aos beijos com o filho da diretora do Winston, Edward. Isso mesmo pessoal! Pegação na piscina com direito a mão boba! Aposto que eles estão felizes pelo empurrão que dei para fora do armário, $$$$. Meu conselho é: Não entrem na piscina, 99% da água tá carregada de espermas. Seguem as fotos da pegação...''
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